2017 Metal Resenhas

Enslaved – E (2017)

O paganismo nórdico vive – e sem precisar cair em cafonices

Por Lucas Scaliza

E é mais uma mostra de como o black metal absorve para dentro de si uma musicalidade ampla e acaba se tornando uma das vertentes mais interessantes do heavy metal – desde que a banda ou artista no comando saiba para onde vai. Os noruegueses do Enslaved sabem e vem demonstrando isso a cada novo álbum, sempre assumindo novas influências dentro de seus álbuns e, mais do que isso, conseguindo fazer com que os fãs enxerguem  valor artístico nisso tudo.

“Storm Son” é um marco em E e para o Enslaved. Com 10 minutos de duração, é uma canção que começa tão límpida e bela que mal se avista a destruição que está por vir. Ela se constrói aos poucos. Leva 6 minutos para que o ritmo mais extremo se imponha. Assim como seu clipe, repleto de referências ocultas, é uma jornada por si só.

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Não há segredo. O Enslaved continua apostando em riffs pesados e passagens instigantes. Embora o vocal gutural do baixista Grutle Kjellson continue em primeiro plano, há bastante espaço para um contraste mais que bem vindo com os vocais limpos do novo integrante Håkon Vinje (teclado). Ao mesmo tempo em que conseguem soar épicos e mais progressivos, também podem ser mais diretos. “The River’s Mouth” é quase uma faixa comercial dentro do álbum, ou pelo menos é o mais acessível que o metal extremo consegue ser. E a banda continua apostando pesado na temática pagã, fazendo dela uma das mais interessantes representantes do viking metal sem soar cafona ou cheia de arranjos excessivamente sinfônicos. Ao invés de usar o teclado e as orquestrações como uma forma de fazer faixas gradiloquentes, eles preferem a criação de uma atmosfera.

Na pesadíssima “Sacred Horses” vale a pena notar o solo de teclado, totalmente calcado em timbres mais vintage, lembrando a utilização do instrumento pelos suecos do Opeth no último álbum, Sorceress. E na excelente “Hiindsiight” percebe-se como o arrastado e mais sombrio lado da banda convive bem com passagens mais melódicas e de ritmo fluido que lembram os franceses do Alcest e até colocando um bem encaixado solo de sax ali pela metade da composição.

A banda continua fazendo música com o mesmo propósito do início dos anos 90, quando surgiram no controverso cenário do metal extremo escandinavo, mas sentiram necessidade de se expressarem de outras formas. A mudança para o século 21 os fez abraçar o som progressivo, mais devido à possibilidade de experimentar dentro das próprias composições, e não como se estivessem abandonando o black metal. Quem já acompanhava a banda nos últimos 10 anos verá que E é parte desse processo constante de aperfeiçoamento e busca de maior sofisticação. Repare como “Feathers Of Eolh” sai do prog e cai no metal mais direto sem traumas, e como os vocais limpos sobre a base acelerada não diminui em nada a pressão sonora e até dá um polimento maior ao tumulto metaleiro. Ah, tem uma flauta nessa canção também.

A regravação de “What Else Is There” é música bônus, mas tão interessante quanto o remake de “Lanterna dos Afogados” (do Paralamas) feita pela banda gótica portuguesa Moonspell. O Enslaved manteve o mesmo clima da música original dos conterrâneos do Royksöpp, mas colocou uma profusão de guitarras distorcidas no lugar da produção eletrônica do duo. Os vocais limpos e guturais substituíram a voz característica da sueca Karin Dreijer (Fever Ray, The Knife), colocando o clássico eletrônico escandinavo em um ambiente que mistura respeito pela composição original e o que há de mais facilmente reconhecível no cenário do metal extremo.

As seis faixas que compõem o coração do disco estão tanto interconectadas pelo conteúdo das letras e pelas temáticas quanto também funcionam bem sozinhas, cada um criando seu próprio universo. Disco de universo curto, mas faixas longas, o que acaba fazendo de E um disco com muita substância e pouca gordura. Sendo assim, o black metal na mão desses noruegueses continua vivo e mostrando como é terreno fértil para experiências.

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