2017 Resenhas Rock

Otherkin – OK (2017)

Rock garageiro de qualidade (de novo)

Por Gabriel Sacramento

Pense comigo: qual foi a grande contribuição da geração de Seattle para a música rock na década de 90? Eu diria que foi a de trazer o estilo de volta para as ruas, para a garagem e para o simples do-it-yourself como o punk. Nos Estados Unidos, o rock mainstream estava basicamente na ressaca do hard/glam rock farofa dos anos 80 e com as bandas de thrash metal mais pesadas (algumas surgindo, outras mudando). Ainda predominava a ideia de que para conseguir um álbum de sucesso era necessário uma grande quantidade de recursos, bons produtores e bastante tempo em estúdio. A onda do grunge veio abalar essas pré-concepções e o indie rock e garage rock revival na década de 2000 fizeram o mesmo.

Se em 80, tínhamos o hard rock farofa, nos anos 2000, a vez era do new metal. Fãs de Dark, da Netflix, diriam que parece um ciclo infalível: sempre que o rock fica grandioso demais, bandas que apostam no simples acabam ganhando voz, fazendo as coisas voltarem ao feeling dos primórdios. Dentro desse revival de rock garageiro, que existe forte até hoje, a Europa desenvolveu uma forte cena, principalmente no Reino Unido. E de lá de Dublin, surgiu a banda Otherkin, que já vem construindo uma reputação interessante, levando essa bandeira do rock mais agressivo e simples.

otherkin-2017

A banda foi formada na Irlanda depois do término da faculdade dos quatro membros e, desde então, eles vêm tocando em turnês com bandas maiores pela Europa e finalmente lançaram um primeiro álbum chamado OK. O álbum foi produzido pela dupla David Prendergast e Jason Boland e mixado pelo experiente Joylon Thomas, que já trabalhou com muita gente notável do rock moderno, como U2, M83 e Royal Blood. O álbum já abre com uma faixa deliciosa: “Treat Me So Bad”, com uma melodia agradabilíssima e convidativa e um clima relaxado e guitarreiro. O tracklist é todo muito bom, então seria até uma perda de tempo destacar faixas, por isso, vamos pular essa parte. Ouça tudo e, de preferência, na sequência certa.

Prendergast e Boland souberam muito bem o que fazer com a banda e como chegar ao “som de garagem” neste álbum. Eles alcançam esse feel investindo na independência dos instrumentos, liberdade de desenvolvimento deles e enfatizando uma vocalização mais relaxada, que explora melodias joviais e grudentas. Os instrumentos caminham cada um para um lado em determinadas seções, se unem em outras, e a força deles nos arranjos faz essa união soar ainda melhor e maior, como um produto de uma espécie de convolução sônica. Há uma sensação de rebeldia jovial controlada muito forte e uma certa euforia adolescente – que me lembrou muito Arctic Monkeys no início -, que é traduzida em andamentos mais rápidos e riffs bem simples. É um álbum muito energético também e com uma certa abertura para elementos mais pop, quase abraçando o rock alternativo em alguns instantes, seja com refrãos bem trabalhados ou com backing-vocals e ganchos fáceis. A produção consegue flertar com algo mais acessível, sem deixar o álbum soar entregue a isso, reforçando sempre que se trata de rock garageiro, quase punk.

Joylon Thomas mixou o álbum buscando uma abordagem diferente da que ele aplicou no Are You Satisfied (2015), dos Slaves, por exemplo, já que neste, ele reforça o aspecto lo-fi dividindo vocais e guitarras no panorama e em OK, ele divide as guitarras e o baixo, mas também sabe aproximá-los para criar um som mais intenso e pesado nos momentos mais propícios. O baixo é excelentemente timbrado e sempre está na cara na mix, permitindo que o ouvinte acompanhe cada detalhe das linhas. No geral, tudo é muito bem identificável sempre e bem timbrado, ou seja, mesmo soando garageiro, o álbum consegue soar bem bonito aos ouvidos.

Ouvindo a banda ao vivo, os méritos da mixagem ficam ainda mais evidentes. Pois ela foi pensada para que o álbum soasse cru com as mesmas nuances que eles apresentam quando tocam todos juntos para o público. OK também preserva a mesma crueza de detalhes triviais – como por exemplo, a força com que o baterista toca os pratos – e a dinâmica de apenas quatro membros tocando, sem grandes alterações e engrandecimento de pós-produção.

otherkin1

O Luke Reilly e o Conor Andrew Wynne conseguem articular ideias diferentes para as duas guitarras, com um trabalho bem criativo que vai agradar de cara os amantes das seis cordas. Luke também canta muito bem, explorando diversas nuances com a mesma entrega. Mas o show mesmo é do David Anthony, o baixista. Ele brilha o tempo todo nos arranjos com linhas bem escritas e executadas e um estilo muito pessoal de tocar. Suas idiossincrasias vão muito mais além do simples “estilo guitarra de quatro cordas”. Na banda, temos ainda o baterista Rob Summons, que coopera com o necessário, sem muito destaque.

OK é, acima de tudo, um álbum de um grupo talentoso, muito bem direcionado e com muita personalidade. Mesmo com tantas bandas de garage rock por aí, o Otherkin consegue estabelecer seu próprio jeito de dizer as coisas e o faz sem rodeios. O potencial dos garotos é muito grande e ouví-los nos deixa com vontade de sair por aí, pegar a estrada, com a guitarra no banco de trás, dispostos a enfrentar o mundo, gritando bem alto os nossos desejos e sonhos. Assim como os conterrâneos do Strypes, esses garotos representam o renascer do estilo e da atitude que, volta e meia, encontra-se deturpada por aí.

OtherkinBW-10

Anúncios

0 comentário em “Otherkin – OK (2017)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: