2017 Folk Indie Resenhas Rock

Gang Of Youths – Go Farther In Lightness (2017)

Indie rock australiano que parte o coração e ajuda a colar os caquinhos de novo

Por Lucas Scaliza

Go Farther In Lightness tem seus melhores momentos quando o rock’n’roll domina sua sonoridade. Após um prelúdio mais calminho, “Fear and Trembling” mostra a que veio e ao chegar aos versos “When we get get ge ge back to the summer” já estamos totalmente conquistados pela energia do Gang Of Youths e seus ótimos versos e querendo mais. Encontramos a mesma excitação em “Atlas Drowned” e quando damos por nós, estamos ouvindo “Keep Me In The Open” achando que o disco mudou para um do The National.

No geral, o quinteto australiano Gang Of Youths tem um jeito bastante próprio de ser, mas é inegável algumas semelhanças com os americanos do National, seja na voz grave do vocalista, guitarrista e pianista David Le’aupepe ou na energia roqueira que os americanos já mostraram possuir em discos anteriores.

Gang_of_Youths-2017

“L’imaginaire” antecipa a incrível “Do Not Let Your Spirit Wane”, essa sim uma perfeita combinação da personalidade de Go Farther In Lightness com o National de Trouble Will Find Me (2014). “Achilles Come Down” tira a banda de cena e cola cellos e orquestração como acompanhamento para a melodia de voz de Le’aupepe. Talvez seja um pouco longa demais e definitivamente não é uma “Eleanor Rigby” do grupo, mas é muito bonita. “Persevere” devolve o comando do som à banda e, mesmo sendo uma balada após uma balada, fica claro que o Gang of Youths segue uma linha de qualidade de composições muito boas, sempre mantendo o foco nas letras. “Let Me Down Easy” é boa, mas podia ser melhor caso não fosse tão retilínea. Felizmente temos “The Heart Is a Muscle” logo depois que mexe nas coisas e “Say Yes To Life” devolve a energia roqueira ao disco, de uma forma bastante positiva.

Go Farther In Lightness é um disco de canções. Quase todas ficariam excelentes em formato acústico ou voz e violão. Talvez por isso “Our Time Is Short”, um belo folk já no final do disco, é uma das melhores faixas ali. Embora seja longo a primeira vista, isso se deve aos interlúdios instrumentais que tanto acrescentam novas cores ao álbum – que destoam do branco e preto de sua capa – quanto podem quebrar o clima se são as faixas principais que te interessam realmente.

Mas é um disco para ser apreciado em seu todo, com suas partes mais e menos interessantes, com as letras na altura dos olhos ou com as palavras sendo compreendidas diretamente pelos tímpanos. As faixas tratam de temas bastante humanos, indo de sentimentos de total desolação até maneiras de triunfar e se sentir bem consigo mesmo, apesar dos problemas. Citações de Kierkegaarden, a dúvida da fé cristã, dúvida do objetivismo egoísta de Ayn Rand, um casamento que se desfez, o relato de um sonho em que uma esposa e um filho morrem em um acidente, um pedido para que Aquiles não se suicide, uma reflexão sobre a empatia e sobre como dizer sim ao amor, à dor e à vida sem parecer um cretino religioso ou vendedor de autoajuda.

Quem está cansado dos versos da música pop que mais querem criar sons que preguem na mente terá um mar de boas e longas letras para navegar com a mente de David Le’aupepe. “Eu ouvi o que você disse / Tá tudo bem não ser tão normal / Não se sinta sozinho / Já te contei que passei a maior parte do casamento da minha irmã chapado?” ele canta na última canção do disco. Ele pode partir seu coração, mas também ajuda a colar os caquinhos.

Embora bastante dominado pelo estilo indie e heartland, o álbum é resultado de um processo de escrita e gravação bastante exigente. Foram seis semanas de gravação em um estúdio em Sydney. As partes orquestrais foram escritas por Le’aupepe do zero em apenas três dias, mas ele teve que sacrificar sono e alimentação para isso. Quem mixou o produto final foi Peter Katis, em Nova York, que trabalhava ao mesmo tempo com o Japandroids e com, olhem só, o Sleep Well Beast do The National.

Embora muito pouco celebrado ao redor do globo, na Austrália Go Farther In Lightness teve um ótimo reconhecimento de público e crítica, chegando a ganhar prêmios de Álbum do Ano, Melhor Disco de Rock, Melhor Grupo e Produtor do Ano (compartilhado entre o quinteto e Adrian Breakspear). A Austrália está entregando ao mundo uma safra muito variada e muito competente de artistas do rock e muitos deles já ganharam resenha aqui no Escuta Essa Review, como é o caso do Pond, do Saskwatch, Courtney Barnett e Nic Cester, além do já mais conhecido grupo psicodélico Tame Impala. Agora coloque o Gang Of Youths na sua lista de interesse, pois com dois bons discos na bagagem, certamente o terceiro será mais do que bem-vindo.

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1 comentário em “Gang Of Youths – Go Farther In Lightness (2017)

  1. Adorei, vou experimentar essa banda e esse álbum com certeza

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