2018 punk Resenhas Rock

The Dogs – The Grief Manual (2018)

Punk rock visceral para manter a tradição

Por Gabriel Sacramento

Para os noruegueses do The Dogs, punk rock é coisa séria. É expressão, é rebeldia, é intensidade emocional e é o megafone que eles utilizam para apresentar sua arte ao mundo. O grupo é também um grupo de tradição: desde 2014, eles lançam um álbum de dez faixas na primeira semana de cada ano, sempre com capas que mostram os seis músicos sempre com figurino padronizado. Ah, e o som é sempre o mesmo também: garage rock, punk rock, com nuances de metal, feito para esmagar os nossos tímpanos com tamanha agressividade. Mesmo repetindo a fórmula durante todos esses anos, eles não soam repetitivos demais e sem inspiração. O novo álbum do sexteto chama-se The Grief Manual e está disponível no mercado desde o primeiríssimo dia de 2018.

O novo álbum evidencia o cuidado da produção em lidar com os elementos particulares relacionados ao conceito do grupo. A obrigação de lançar sempre dez faixas não parece ser um problema para eles, porque a primeira observação a ser feita, assim que ouvimos o álbum novo, é que beira à perfeição em termos de tracklist. Nada está aqui por acaso e todas as faixas se comunicam bem umas com as outras, como irmãs. A agressividade das execuções já é impressionante, mas a produção engrandece isso com ruídos e efeitos precisos e uma mixagem absurdamente eficiente no que se refere à criação de energia. O álbum pulsa vívido, elétrico e gritante para os ouvintes. O som tem vida, além das canções em si.

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O álbum é cru, visceral e o tempo todo forte, com pouquíssimos momentos de alívio. A produção acerta bastante em enfatizar essa crueza e fazer com que ela choque o ouvinte e o envolva em uma sensação de claustrofobia sônica, mas ao mesmo tempo, aproveita isso para inserir novos elementos sutis que destoam levemente de uma proposta estritamente tradicional de punk rock, sem que isso nos incomode. Ou seja, é tão bem feito, que mesmo com os momentos mais leves do álbum – fundamentais para que não nos cansemos de toda a eletricidade -, a nossa impressão continue sendo a de que não houve pausas para a porradaria.

Outro destaque sobre o som dos caras é a obscuridade presente em algumas inflexões sonoras, que lembram bandas como o Melvins. E muitas vezes em sua discografia, os Dogs soaram como uma versão hardcore do trio formado pelo Buzz Osborne, o que é muito interessante para os fãs de ambos os grupos. Esses elementos mais sombrios estão bem controlados aqui e se encontram com o flerte que a banda faz com o metal extremo, evidenciado por alguns detalhes como os vocais mais guturais do cantor Kristopher.

Aliás, falando nele, vale destacar o ótimo trabalho do músico e da direção vocal. Suas interpretações são instrumentais para estabelecer essa conexão sentimental com o ouvinte e não deixá-los somente reféns da frieza da fúria sonora. Kristopher exprime raiva, ironia, indiferença e outros sentimentos, servindo muito bem sempre às canções e as levando a outro nível. Também destaco a performance do baterista Henrik, que está sempre muito presente nos álbuns da banda e não faz diferente aqui. Seus tambores não estão lá só pra ditar a velocidade, eles participam ativamente na construção e execução dos arranjos. E ainda temos teclados e percussão competindo por espaço nos arranjos e na mix, esta surge em pouquíssimos momentos, mas bem estratégicos e inteligentemente alocados, já aqueles não se destacam tanto.

Temos melodias proeminentes, em refrãos, mas elas são encaradas de uma forma diferente da forma como o Frank Carter and The Rattlesnakes encara no seu Modern Ruin (2017), por exemplo. Neste, as melodias são componentes principais dos arranjos, fazendo todo o resto se adaptar aos rumos ditados por elas, já no novo do The Dogs, as melodias são elementos complementares, que estão ali para acrescentar mais profundidade às canções, sem nunca se tornarem o elemento pelo qual voltaremos ao álbum.

The Grief Manual é o The Dogs mostrando que continua fiel as suas raízes e ao que motiva a banda a continuar. Para quem é fã, temos mais dez canções deliciosas do mais puro garage punk que eles sabem fazer como poucos atualmente. Para quem não é, vale dar uma ouvida e conferida no trabalho destes europeus, que mesmo sendo uma banda revival, consegue andar com as próprias pernas e não somente viver do que outros já fizeram no passado. E ano que vem tem álbum novo na primeira semana do ano conforme a tradição.

The Dogs 2

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