2017 Pop Resenhas

Tove Lo – Blue Lips [lady wood phase II] (2017)

Cantora sueca conclui sua saga sedimentando o Pussy Power

Por Lucas Scaliza

Blue Lips é a sequência final iniciada com Lady Wood (2016) e que completa um arco musical e artístico que faz de Tove Lo um dos nomes mais feministas que a música produziu nos últimos anos. A tese dela, em formato de música pop de fácil absorção, é simples: reconstruir e sedimentar o poderio feminino a partir do power of the pussy.

Quando lançou Lady Wood, disse que o álbum era para ser uma ereção feminina e contestou o papel que popularmente se atribui às bolas/culhões/testículos como sinal de coragem, em contraponto com o pussy usado para se referir a quem se acovarda. Não é a toa que imagens esquemáticas de vagina eram algo onipresente em seus shows e artes conceituais. A vagina não é para covardes. Segundo a cantora, pode significar até fazer algo que te deixa com medo, mas é excitante ao mesmo tempo.

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Blue Lips é sobre amor, sobre uma porção de relações e mantém a carga sexual do projeto todo. Afinal, é a concretização do desabrochar da vagina após séculos sendo controlada, tratada como “templo sagrado” (para algumas pessoas é mesmo, mas não há como generalizar) e vítima de todos os tipos de moralismos. Os “lábios” azuis de que Tove Lo fala são os vaginais mesmo.

Assim, essa dupla de álbuns é praticamente um manifesto da artista em prol das mulheres. Como cada uma vai ou deve reagir às suas letras e ideias é outro assunto (“Bitches” é uma exaltação ao sexo lésbico, por exemplo). O que importa é que ela se propôs a levantar a bandeira. E isso provavelmente é o que Blue Lips tem de mais interessante.

A música dela continua sendo um eletropop gostoso de ouvir e que não sofre de um exagero de produção. Aliás, é bastante salutar o fato de ela não preencher o álbum com batidas bate-estaca, preferindo variar os ritmos de cada faixa. “Disco Tits” tem aquela textura soft quase anos 70 das discotecas. “shedontknowbutsheknows” continua surfando nessa onda, dessa vez apostando em uma pegada gostosa muito parecida com a de The Weeknd. “shivering gold” mantém o contexto sexual na linguagem de Lo e tem um bom refrão. Apesar da boa sacada com o código militar e sua letra de aceitação de uma pessoa deixando para trás o que ela tenha feito no passado, “dont ask dont tell” sofre para ser uma música interessante. “stranger”, de ritmo forte e uma guitarra funkeada bastante processada na mix, é uma das músicas mais legais do álbum.

Apesar de todo o “manifesto” dar a impressão que Lo é uma feminista ácida e agressiva, ela também fala de sentimentos que são comuns a muita gente. Ela fala sobre como tem problema em esquecer um ex (“bad days”), como já esteve em relacionamentos de merda que não foram de todo inúteis (“9th of october”) e como também fantasia com uma relação (“romantics”).

Não é a feminista mais sofisticada que temos por aí, mas é uma artista feminista que traz o conceito para o campo da praticidade. Seu pop é de consumo rápido também, fazendo o lado ético de Blue Lips/Lady Wood ser mais emblemático nesse momento do que sua porção estética. Embora uma ou outra canção se destaque, ela ainda está para mostrar do que é capaz como compositora e como porta-voz do pussy power.

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