Autor: brunochair

Ator social da empresa bazófia surrealista. Blogs: http://brunocadera.blogspot.com https://escutaessablog.wordpress.com

Fleet Foxes – Crack-Up (2017)

A terceira ramificação

por brunochair

O quanto um reconhecimento artístico massivo pode causar de dor e delícia em alguém, apenas os artistas de grande renome podem dizer. Nós, aqui do anonimato, espectadores do triunfo e da decadência, podemos apenas imaginar alguns dos possíveis efeitos. Senti-los? Não há realidade virtual que possa abarcar tamanha experiência, feita do suor dos poros e da carne.

Robin Pecknold, vocalista e compositor do Fleet Foxes, viu a sua trupe experimentar o sucesso de uma forma bastante abrupta. Logo no disco de homônimo de estreia, Fleet Foxes (2008) a banda viu surgir ao redor de si uma legião de fãs, ser convidada a tocar em grandes festivais pelo mundo afora. Todos os integrantes, jovens aprendizes em matéria de mundo, tiveram que lidar com essa nova realidade. Realidade esta que implica em conhecer a si e aos outros com uma certa rudeza, sem os rodeios que a vida comum às vezes nos proporciona. “Você precisa ser emocionalmente estável, você precisa estar confiante, você precisa ser diplomático”, disse Pecknold em uma entrevista.

Para Helpless Blues (2011) não houve o tempo de maturação necessário. A loucura do showbizz ainda aturdia e não centrava os integrantes. Para que esse processo fosse integralmente preenchido, foram precisos ao menos cinco anos, tempo este que os integrantes puderam olhar mais para dentro, enxergar o que não estava bem, aparar arestas que ficaram pelo caminho. Josh Tillman, agora ex-baterista do Fleet Foxes, preferiu seguir o seu próprio caminho solo como Father John Misty; Skyler Skjelset envolveu-se em outros projetos musicais; Robin Pecknold preferiu surfar e voltar a estudar.

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Fleet Foxes : no centro, Robin Pecknold; à direita dele, Skyler Skjelset

Após seis anos de hiato, temos os principais integrantes já na faixa dos 30 anos – um pouco mais donos de si, um pouco mais sabedores do que fazer e não fazer. E assim surge Crack-Up, disco que marca o retorno do Fleet Foxes. As letras do disco, todas compostas por Robin Pecknold, não mostram o processo final dessa caminhada, e sim ressalta o penoso caminho para se chegar até onde hoje se está. Privilegia-se a caminhada, os espinhos, os insucessos, os problemas de relacionamento, a penúria. Está tudo ali realçado, reelaborado em metáforas. As palavras procuram transmitir, pelo menos em parte, o que se sente.

A sonoridade também é explorada para transmitir estes sentimentos. O que notamos são grandes gangorras, um sobe-e-desce entre sussurros e plena exaltação. “I Am All That I Need/ Arroyo Seco/ Thumbprint Scar”, a primeira canção do álbum, é exemplo pontual deste processo. “Third Of May/ Odaigahara”, que já havia sido lançado em single e que trata da relação humana (pautada por conflito e afeto) entre os integrantes Robin Pecknold e Skyler Skjelset, é outro grande exemplo.

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O Fleet Foxes tornou-se uma banda conhecida por desenvolver uma estética sonora bastante peculiar, juntando elementos do folk, do pop e criando uma esfera um pouco passadista. Ouvir Fleet Foxes é uma experiência singular, única. E em Crack-Up o grupo permanece fiel a essa identidade sonora única, mas ao mesmo tempo consegue criar, a partir dela, uma terceira ramificação. Fleet Foxes foi um álbum ingênuo, alegre, criativo; Helpless Blues possuía uma certa melancolia e já apresentava um grupo tateando suas próprias características; e Crack-Up é a expressão máxima dessa busca sonora, individual e coletiva.

Ainda que o grupo tenha essa característica de “tocar fundo” o ouvinte através de seus arranjos, este disco é o que parece falar menos dos outros, e um pouco mais de nós mesmos. Essa característica mais humana que trará ao ouvinte uma experiência mais concreta no que diz respeito ao sentir. Portanto, não são apenas palavras que poderão refletir o estado de espírito de Crack-Up: ouvir é essencial.

Mew – Visuals (2017)

Agora um power trio, Mew aposta na mesma ambientação sonora do disco anterior

por brunochair

O Escuta Essa não traz somente novidades para o público. Os editores também trocam figurinhas e conhecem grupos novos a partir da indicação dos demais. Foi assim que eu conheci o Mew, em 2015: a partir de uma resenha do Lucas Scaliza sobre o disco + –e uma recomendação mais específica, do tipo, “ouça esse disco com atenção”. Tornou-se um dos que mais ouvi naquele ano.

O Mew tem grande habilidade para preencher uma sonoridade pop com elementos de música alternativa e elementos do rock progressivo. Na época, comparei-os aos Keane, dizendo que trata-se de um Keane “alternativo”, ou Keane “melhorado” (espero que os fãs do Mew entendam a comparação, já que o Keane teve dois ótimos discos, “Hopes and Fears” (2004) e “Under the Iron Sea” (2006)). Além disso, há sim uma influência de música nórdica, uma forma distinta (gelada) de lidar com arranjos e harmonias, o que as diferencia do pop de bandas análogas a ela.

Ao ouvir a discografia do Mew, notei que + – é uma busca do grupo em oferecer uma sonoridade mais palatável ao público. And The Glass Handed Kites, disco de 2005, mostra o que era o Mew em seu início: muito menos pop, dando ênfase nas experimentações e na virtuose, no hermetismo. No More Stories… (2009) já começa a dar vistas de uma guinada do grupo, e até mesmo as capas do disco vão representando essas mudanças estéticas, sonoras, visuais.

De + – para cá, houve uma mudança significativa no Mew: o guitarrista e fundador da banda, Bo Madsen, anunciou sua saída. Houve quem acreditasse que a banda anunciaria seu fim, mas os demais membros (Jonas Bjerre, vocalista e tecladista; Johan Wohlert, baixista e backing vocals; Silas Utke Graae Jørgensen, baterista) não só mantiveram o grupo como decidiram aproveitar o que eles chamaram de “pico criativo” para já produzir material novo, que é Visuals.

E aqui já sentimos a primeira diferença entre o álbum anterior e Visuals: o guitarrista convidado Mads Wenger faz um trabalho até razoável, mas percebe-se o quanto o Mew privilegiou as ambientações promovidas pelos synths aos riffs de guitarra. Para fazer o contraponto, basta pegar a música “Witness” do + – e tentar encontrar algo parecido em Visuals. Não, não há. A guitarra está ali, mas ela está longe de ser protagonista em qualquer momento. Isso não significa dizer que o disco novo é melhor ou pior que o anterior, e sim que a banda soube concentrar suas potencialidades no que os três integrantes originais poderiam oferecer de mais criativo. E sim, conseguiram obter êxito nesse ponto.

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Analisando o disco num aspecto mais geral, Visuals tem ótimas músicas. Outras, regulares. Nessas que estão mais na média do razoável, o problema encontra-se no grupo preso na sua própria proposta, e fica “mais do mesmo”. Exemplos disso são as canções “In a Better Place”, “Shoulders” e, num menor grau, “Candy Pieces All Smeared Out”. Ou seja, se você é ouvinte de primeira viagem do Mew, talvez goste dessas músicas por elas serem novidade. Porém, quem ouve o grupo há mais tempo, poderá sentir um certo tédio ao se deparar com elas.

Agora, algumas músicas se destacam exatamente pelo Mew conseguir amarrar o pop alternativo (alguns definem como art pop) ao progressivo. Casos das músicas “85 Videos”, “Carry Me To Safety” e “The Wake Of Your Life”. Em “Twist Quest”, mais uma música que considerava bem agradável, mas tornou-se genial no momento em que apareceu um solo de sax no decorrer da música, algo que até então não tinha aparecido. Ou seja, um recurso utilizado em um momento especial da música e que nos pegou de surpresa. Ponto positivo pro Mew.

“Learn Our Crystals” é a minha preferida do disco. Nela, fica evidente o quanto a banda consegue desenvolver a característica progressiva dentro desse art pop. Começa com um simples dedilhado de guitarra, e aos poucos o vocal e os synths começam a aparecer e preencher os espaços. A linha de baixo também é um aspecto a ser observado. A bateria surge discreta, mas toma uma cadência completamente diferente aos 1’15” e leva a canção pra um lugar completamente diferente. Mais uma guinada da música acontece lá para o fim, lá pelos quatro minutos cravados de música: um instrumental poderoso, em boa parte por conta da emulação de órgão realizada por Jonas Bjerre.

Enfim, em Visuals o Mew consegue provar ao público e a si mesmos que é possível seguir adiante sem o guitarrista fundador da banda. Deram mais força à ambientação promovida pelos synths, e seguem apostando numa sonoridade próxima àquela realizada em + -, ainda que estejam agora num power trio. O que permanece (e prevalece) é a vontade de escutar o grupo dinamarquês. Pode dar play, sem medo.

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Future Islands – The Far Field (2017)

Aqui está uma banda que você precisa (urgentemente) conhecer

por brunochair

Samuel T. Herring e sua trupe estão de volta com disco novo! Caso você nunca tenha ouvido falar de Future Islands, faça um pequeno favor a você antes de começar a ler esta resenha: assista ao vídeo abaixo do grupo apresentando-se no extinto programa do Late Show With David Letterman, em 2014:

Assistiu? Riu, achou estranho? Poxa, alguma impressão Samuel T. Herring deve ter passado pra você. Desde a primeira vez que assisti a uma apresentação do Future Islands, quando estou desanimado com alguma coisa (depressivo até) coloco um vídeo qualquer do grupo ao vivo para apreciar a performance apaixonada de seu vocalista. O cara é um barato. Assistir a ele desfigurando-se no palco durante as performances, batendo no peito e dançando tal qual uma serpente e suando em bicas aquelas camisas alinhadas é algo que nos aproxima dele, do humano que há nele. E sim, é muito engraçado. Impactante e impressionante, também.

Após essa apresentação no programa de David Letterman, o Future Islands passou do underground para uma posição de destaque dentro de um cenário alternativo dos Estados Unidos. Em Singles, disco que resenhei anteriormente, ressaltei a simplicidade sonora do grupo. Não espere nada muito extravagante, a não ser um synthpop bastante influenciado por bandas dos anos 80, como Depeche Mode, New Order e Duran Duran. Neste novo disco, The Far Field, a fórmula continua a mesma: apostar nas linhas de baixo de William Cashion e nas programações atmosféricas promovidas por Gerrit Welmers através do seu teclado. Ou seja, a cozinha é toda desenvolvida a partir desses dois instrumentistas e o baterista Michael Lowry (músico contratado). Samuel T. Herring recebe todo o espaço para brilhar – seja a partir de sua performance, do seu vocal e de suas composições.

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Os integrantes do Future Islands. Samuel T. Herring é o que está à direita

Quanto às composições, vale lembrar que na resenha de Singles relatávamos uma certa “breguice” no conteúdo das letras. Neste álbum, parece que Samuel T. Herring soube trabalhar melhor as suas narrativas, ainda que carregadas das costumeiras experiências pessoais e sentimentalismo. As composições estão mais artísticas, digamos. Em “North Star”, por exemplo, Herring devaneia sobre a chuva em um aeroporto. Em “Cave”, importante são as escolhas e circunstâncias das escolhas. Em “Through the Roses”, um filho dá adeus a seus pais, prefere errar sozinho (aliás, essa letra me fez lembrar um conto lindíssimo de Osman Lins, chamado “A Partida”). Não perdendo a vista da literatura, o nome do álbum (The Far Field) é inspirado em um livro de um poeta estado-unidense, Theodore Roethke.

The Far Field não é um disco assim, tão inovador. Mas Future Islands é um grupo que todo mundo deveria conhecer. A parte sonora é simples, mas ainda assim muito criativa; as composições são carregadas de sentimentalismo; o vocal de Samuel T. Herring é muito bom, já personifica o que seja a banda. E além disso tudo, as performances do cara ao vivo: impagáveis! A banda apresentou-se no Coachella, e o seu líder mais uma vez deu um verdadeiro show.

Future Islands, a banda legal com o tiozão que você mais respeita.

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Boas músicas: “Ran”, “Through The Roses”, “Shadows” (com Debbie Harry, ex-vocalista do Blondie), “Ancient Water” e “Black Rose”.

13 Reasons Why – A Trilha Sonora (2017)

Com a seleção de músicas/produção executiva de Selena Gomez e composição original para a série de Eskmo, trilha sonora perde fôlego do meio para o quase-fim, e só não brilha mais por falta de espaço ou escolha dos produtores

por brunochair

Antes de mais nada, importante dizer o que não será discutido nessa resenha. Ainda que o resenhista tenha assistido com curiosidade a série, não irá produzir ou reproduzir qualquer tipo de análise sobre as cenas e personagens. Tampouco fará comentários envolvendo as cenas de suicídio, a abordagem sobre o bullying, o amor, a adolescência, a HighSchool. Há centenas de outros textos na internet abordando tais temas, seja com propriedade ou de forma leviana (caro leitor, cuidado com o que lê por aí!). Aqui, faremos uma análise tão somente da trilha sonora, a partir da conexão entre a narrativa e as músicas, os gêneros que são mais vistos aqui e ali, bem como as referências a músicos e bandas que aparecem (não sonoramente) no transcorrer do seriado.

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13 Reasons Why é uma série de televisão baseada no livro de mesmo nome (2007) escrito por Jay Asher e adaptada por Brian Yorkey para a Netflix. O seriado foi lançado oficialmente em 13 de Março de 2017, estando a partir desta data liberados todos os episódios e um extra, “13 Reasons Why: Beyond the Reasons”. A cantora Selena Gomez é uma das produtoras executivas da série, e também responsável por boa parte das escolhas das músicas que aparecem na trilha sonora. Eskmo, produtor e compositor de música eletrônica, ficou responsável por criar a música tema e das trilhas que caracterizam os principais personagens da história. São diversas as músicas que aparecem no decorrer da série, e no fim desta resenha temos algumas playlists: tanto a Soundtrack oficial da série quanto as que acrescentam as canções que aparecem em determinados episódios, conforme analisaremos adiante.

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Clay e Hannah

Logo no início do primeiro episódio, quando Hannah Baker faz as saudações iniciais através das suas fitas, a música “More Than Gravity” (da dupla de folk Colin & Caroline) começa a tocar. A fala de Hannah (Katherine Langford) é entrecortada com imagens do seu armário na HighSchool, tudo isso visto sob a óptica de Clay Jensen (Dylan Minnette). A música é bonitinha, mas ao mesmo tempo a letra da música prenuncia um certo conflito interno que permeará a relação de ambos por toda a série: esse medo de estarem juntos, de reconhecerem o quanto um gostava do outro. “Não posso te amar, estou com muito medo”. Uma música fofa, um apelo adolescente, mas que contém uma mensagem que contém sentimentos e profundidades: eis que na música de introdução da trilha sonora de 13 Reasons Why temos um bom resumo do que é a série.

Ainda no primeiro episódio, quando Tony (Christian Navarro) oferece uma carona para Clay em seu possante, Tony pergunta a ele se pode colocar uma fita k7 pra tocar. A relação da série com as fitas começa a acontecer a partir daí, e uma das músicas mais importantes da trilha sonora também aparece: “Love Will Tear Us Appart”, do Joy Division. A música, lançada em junho de 1980, foi escrita pelo vocalista e compositor Ian Curtis, um mês antes de cometer suicídio. A escolha desta canção para a trilha sonora foi interessante não só por conta do tema suicídio, mas também em razão do amor entre os casais Ian Curtis/Deborah (o da vida real) e o Hannah/Clay (da ficção) existirem, mas estarem dificultados por uma série de incompreensões de si, do outro e dos outros. O amor está ali, mas vivenciá-lo em sua plenitude é uma tarefa ardilosa, quase impossível.

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Tony

O primeiro episódio é o mais caprichado quanto à trilha sonora. Quando Clay recebe as fitas gravadas por Hannah, tenta ouvir no aparelho de som do seu pai (sem sucesso) e cruza a cidade de bicicleta para “pegar emprestado” o walkman de Tony, a tensão é condensada pela música “Riding”, do produtor e compositor de música eletrônica Eskmo. Importante ressaltar que há dois tipos de trilha sonora que aparecem durante a série: uma seleção de músicas (nesta seleção, há grande envolvimento de Selena Gomez), e uma criada tão somente para a série e os seus personagens. Eskmo é o responsável por criar, para cada personagem, uma sonoridade diferente, uma ambientação. É um trabalho também importante, que pode passar batido por ouvidos distraídos, mas que faz toda a diferença para o andamento da narrativa.

“Young & Unafraid”, do The Moth & The Flame, é uma das músicas que tocam na festa em que Hannah conheceu Justin Foley (Brandon Flynn), ainda no primeiro episódio. As bandas indie e alternativas aparecerão em vários momentos do seriado, seja na trilha sonora ou em referências. Basta dar uma olhada com cuidado nos pôsteres existentes no quarto de Clay para notar Arcade Fire, The Cure, The Shins, Bon Iver. No quarto de Alex (Miles Heizer) também é possível visualizar um pôster do Joy Division, banda esta que paira em vários momentos da série. Em outro momento no qual as referências à música são representadas através de imagem, Justin e Jessica (Alisha Boe) vão no concurso de fantasias da escola vestidos de Sid Vicious (baixista do Sex Pistols) e Nancy. Outra referência da série a um casal intempestuoso: Sid foi acusado de matar a parceira, fato que não chegou a ser confirmado. Meses após, Sid morre vítima de uma overdose de heroína, mas deixa uma carta suicídio relatando que havia firmado um pacto com a sua ex-parceira, e por isso estaria abandonando o mundo. Há amor, mas (sobretudo) há muito conflito, questões internas. Isso aparece em Hannah/Clay, Justin/Jessica, Sid/Nancy, Ian Curtis/Deborah.

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Alex e Clay

Mas, voltando a uma linha cronológica, podemos dizer que o primeiro episódio é bastante rico, contando ainda com “You Me, Cellphones” do Husbands, “Cool Blue”, do Japanese House, “Olympic Ayres”, do Magic, e “Mess is Mine”, do Vance Joy. Quanto aos estilos musicais, o indie e o rock alternativo (tanto mais contemporâneo quanto das décadas de 70 e 80) dividem o protagonismo com o folk mais “fofinho”, que vão pautar as cenas e momentos entre Clay e Hannah. Ainda sobre os estilos, apenas a título de exemplo, basta dar uma olhada no episódio 3, em que as baladinhas do Chromatics (“Into The Black”) e Meadows (“The Only Boy Awake”) contrastam com as alternativas do The Kills (“Doing It To Death”) e “Whatever You Want”, do Cold Showers. Muita coisa legal e alternativa que já ganhou resenha no Escuta Essa Review está aqui e ali, como Car Seat Headrest, St Vincent e M83.

A trilha sonora vai perdendo considerável fôlego, conforme vão avançando os episódios. E do episódio 06 ao 12 ela torna-se curiosamente um tanto escassa, caso façamos uma contraposição do que foi o início do 13 Reasons Why. Não sei se os produtores da série preferiram tornar a narrativa mais silenciosa a partir dali, dando ênfase em atos e fatos, mas é notória tal mudança de planos. Caso não tenha sido algo planejado, a impressão que se tem é a de que há ficou uma lacuna a ser preenchida, pois o seriado passa de extremamente musical para momentos em que o sonoro não é tão relevante assim, um fantasma do que existiu. Algumas orquestrações de Eskmo preenchem os fundos, criam algum tipo de tensão em diálogos importantes, mas não possuem a mesma ênfase do princípio.

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Sobre outras músicas importantes:

– “The Night We Met”, de Lord Huron. Ela é tocada no episódio 5, no baile de formatura. Hannah e Clay estão juntos. Por ser uma canção mais lenta (e romântica) a música exige que ambos fiquem mais próximos. Aquele bom momento para chegar junto, sentir o par e que, por conta das brincadeiras de mau gosto dos demais colegas de escola, o clima entre Hannah e Clay desfaz-se.
– “Only You”, da Selena Gomez. A música surge quase no fim do episódio 13, quando Clay termina de ouvi-las e tem uma conversa com o conselheiro da HighSchool, Mr. Porter (Derek Luke), entregando as fitas para ele decidir o que faria com aquele material. É o momento que Clay sente-se um pouco mais aliviado (talvez, dever cumprido), apesar de todas as marcas físicas e psicológicas que restaram daquilo tudo.
– “Windows”, da Angel Olsen. No momento difícil do último episódio, em que Jessica irá contar ao seu pai que foi estuprada por Bryce (Justin Prentice).

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Enfim, a trilha sonora de 13 Reasons Why é bem interessante. Como já falamos acima, ela perde um pouco de fôlego no miolo (episódios 06 ao 12) no que se refere às músicas que aparecem, aqui e ali. As ambientações produzidas pelo produtor e compositor de música eletrônica Eskmo preenchem espaços de diálogo e tensão, reforçam a característica de cada personagem, dão à série essa roupagem moderna e este é um ponto positivo a ser realçado. Selena Gomez também fez excelente trabalho como produtora executiva, escolhendo um repertório bastante diverso e interessante. A impressão final é: se a trilha não brilhou ainda mais do meio para o fim, não foi por culpa dos seus responsáveis.

Trilha Sonora Completa, criada pelo InfoGeekCorp:

 

Outras versões da Trilha Sonora:

 

 

Barock Project – Detachment (2017)

Grupo italiano permanece criando ótimas canções de rock progressivo. Porém, a sonoridade está mais moderna do que nunca.

por brunochair

Conheci o Barock Project em 2015, através do disco Skyline. Na época, escrevi a resenha sobre o disco surpreso com a qualidade do trabalho como um todo, desde as influências tanto setentistas (Genesis, Emerson Lake and Palmer) quanto contemporâneas (Neal Morse, Flower Kings) que eles traziam do rock progressivo. A surpresa não vinha somente das influências: a inventividade dos instrumentistas do grupo também era um ponto a ser ressaltado, criando fraseados de piano e teclado, riffs e sessões rítmicas na guitarra e bateria muito convincentes para o estilo. O disco agradou tanto que terminou escolhido como dos melhores de 2015 pelo Escuta Essa Review.

Agora, temos o sucessor de Skyline, chamado Detachment. O que mudou, de lá pra cá? Na formação da banda, duas alterações: na época da gravação do álbum anterior, a banda estava sem baixista definido. Francesco Caliendo veio a integrar o grupo em Novembro de 2015, tendo já participado da gravação do álbum ao vivo da banda, lançado em 2015. Luca Zabbini, pianista e tecladista, assumiu o protagonismo dos vocais a partir de agora. Além deles, os que já estavam em Skyline: Eric Ombelli (bateria) e Marco Mazzuocollo (guitarra).

Mas, e musicalmente? Sim, de certa forma o Barock Project também apresentou algumas alterações em sua abordagem musical. Continua o rock progressivo sendo parte importante da sonoridade do grupo, porém este disco está mais contemporâneo do que nunca. Trocando em miúdos, o Barock Project “modernizou” o seu rock progressivo. Tanto é que o grupo conta até com passagens em que há o uso de elementos eletrônicos.

Obviamente que as influências setentistas não são perdidas de vista, mas o diálogo é muito mais com bandas como Dream Theater, Transatlantic, Flower Kings, Spock’s Beard, Steven Wilson, Porcupine Tree e Haken. E assim como o Haken, há a contribuição do grupo com o estilo, propondo sim o diálogo, mas indo além: criando a sua marca, propondo a evolução do estilo. É como se o Barock Project não só tomasse as referências do rock progressivo contemporâneo, mas quisesse (a partir deste disco) ser UMA das referências do estilo. Não mais apenas conhecidos por serem influenciados, mas também influenciarem.

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Os pontos altos de Skyline continuam sendo muito bem aproveitados, e essa é uma característica importante do Barock Project: Marco Mazzuocollo promovendo bons riffs para além dos muros do rock progressivo, muitas vezes fazendo uso do hard rock para aumentar o poderio e o rimo das canções; Francesco Caliendo, em seu primeiro disco gravado com a banda, traz sua bagagem como instrumentista – soul, pop, jazz, música latina (e brasileira) são alguns dos estilos que ele conhece bem, e procura desenvolver em conjunto com o grupo; Eric Ombelli preenche a cozinha da banda sabendo precisar momentos em que acelera, cadencia e pode dar vazão a uma maior gama de alternâncias.

Em Skyline, Luca Zabbini já se destacava por sua virtuosidade no teclado/piano, lançando uma série de solos memoráveis. O seu trabalho em Detachment continua sendo incontestável, sendo ele um dos responsáveis por modernizar a banda, a partir de diversificados timbres. O seu trabalho como vocalista também é parte desse processo de dar um caráter mais contemporâneo e progressivo ao som da banda: não sei se anteriormente Luca não se sentia à vontade como vocalista, mas desenvolve um excelente trabalho. Peter Jones, convidado para dar voz às faixas “Broken” e “Alone” e participar em outros momentos, canta num estilo mais grave, entre Peter Gabriel e Roine Stolt, diferenciando-se de Luca.

Em suma, Detachment serve para consolidar o nome Barock Project como uma das bandas mais interessantes neste cenário do rock progressivo contemporâneo, dialogando com o que há de mais fresco no estilo e propondo novas possibilidades (música flamenca, hard rock, pitadas de jazz, música clássica) a partir das referências de cada instrumentista do grupo. Para entrar (de vez) no radar de quem aprecia o prog/rock e para quem aprecia música em geral, sem preocupar-se com estilos e rótulos, o novo álbum do Barock Project propõe uma excelente viagem sonora.

Permita-se.

Melhores músicas: “Happy to See You”, “Broken”, “Rescue Me”, “Old Ghosts”.

    Bandcamp

Chicano Batman – Freedom Is Free (2017)

Soul e psicodelia dotadas de crítica social criam o caldo para um dos discos mais interessantes de 2017

por brunochair

Um dos discos mais criativos e interessantes de 2017 foi criado por um quarteto de Los Angeles: Chicano Batman. Um nome não muito comum para um grupo, não acham? Tão diferente quanto o nome da banda é dizer que seu frontman chama-se Bardo. Bardo Martinez é filho de uma mãe colombiana (Cartagena) e de um pai Mexicano. Bardo é amante confesso de música brasileira dos anos 60 e 70, sobretudo da Tropicália e de Caetano Veloso. Some-se a essas influências sul americanas uma admiração profunda pela soul music.

A partir daí, podemos já ter alguma ideia do que encontraremos em Freedom Is Free, o mais novo álbum lançado por Bardo Martinez (vocais, guitarra, órgão), além de Carlos Arevalo (guitarra), Eduardo Arenas (baixo, vocais) e Gabriel Villa (bateria e percussão). O álbum foi produzido por Leon Michels, que contribuiu para esta formação soul psicodélica do trabalho, produtor este que já havia trabalhado com artistas do calibre de Black Keys e Sharon Jones & the Dap-Kings. Este disco, por conta da sua expressividade e força, merece uma análise quase que pormenorizada de boa parte da sua faixa, que é o que pretendo a fazer adiante:

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“Passed You By” já apresenta o seu cartão de visitas logo na introdução, num jogo de riffs de guitarra funky e uma linha de baixo que já remetem a esse soul setentista, e também lembram bastante a ambientação que o Black Keys alcançou com o seu Brothers, de 2010. A grande sacada aqui é que esse instrumental do início é tão criativo que, caso a banda fosse preguiçosa ou seguisse cartesianamente as regras da música pop convencional, jogaria a intro para o meio ou para o fim da música, para criar o clímax só depois de algum tempo. Não, o clímax é logo no começo, e o risco que a banda corria da música ficar morna dali pra frente era grande. Mas, não. É groove do início ao fim.

O vocalista Bardo Martinez apresenta uma performance camaleônica, alternando entre o vocal convencional e um falsete que o acompanha durante boa parte das canções, executado com grande maestria. “Friendship (Is a Small Boat In a Storm)” é prova disso, quando Bardo ataca o refrão com o falsete e dá o irresistível toque soul retrô à música, além de uma sutil ironia. Há que se ressaltar também as variações desta faixa envolvendo o órgão Hammond, a cadência da linha de baixo e os riffs de guitarra extremamente criativos e repletos de psicodelia.

As variações e o falsete seguem em “Angel Child”. Essa música é também atmosfericamente soul retrô, mas segue por outros caminhos além deste. Há um caos em certas passagens, sobretudo no andamento de baixo de Eduardo Arenas. Em “Freedom Is Free” o baixo é talvez o grande protagonista: em conjunto com a bateria, formam a camada sonora para que o restante aconteça. E, mais uma vez, temos excelentes riffs de guitarra de Carlos Arevalo, com ele talvez sendo o grande responsável por incluir doses de psicodelia às músicas.

“Freedom Is Free” é, também, o nome do disco. E o título não foi escolhido por acaso: após o fim da Guerra americana contra o Iraque, vários caminhões nos Estados Unidos apresentavam a frase Freedom Isn’t Free (Liberdade não é livre). A expressão é utilizada para agradecer aos militares por lutar pelas liberdades individuais e promover a democracia a outros cidadãos e povos. Tal ideia é refutada pelos integrantes da banda, que consideram-na uma falácia, inclusive utilizando da antítese desta expressão para dar nome a este novo álbum.

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“La Jura (Prelude)” é criada a partir de um dueto entre guitarra/violão, e apresenta o anúncio de algo muy terrible que está por ser revelado, que é propriamente “La Jura”. “Balaciaron un amigo mio / En la calle cerca de aqui / Lo dejaron abandonado / Un objecto sin vida junto a la esquina / Yo no entiendo porque / Los que deben proteger / Hacen lo opuesto / Matan inocentes”. Ou seja, basicamente a música questiona a repressão coercitiva do Estado, através da polícia. Ainda que os membros tenham nascido em solo americano, todos possuem ascendência latino-americana, possivelmente tenham morado nos subúrbios de Los Angeles e presenciaram essa repressão às minorias – negros, latinos, mulheres. E essa é uma das mensagens que o Chicano Batman tenta trazer também, com a sua música: a crítica, a vivência, o combate através da arte. “Flecha Al Sol” é uma canção questionadora, mas com um espírito mais alegre e festivo que a anterior. “Jealousy”, “Run” e “The Taker Story” são faixas mais tradicionais, que flertam mais com o soul setentista americano. São canções menos inventivas que as do começo do disco, mas mesmo assim não comprometem o resultado final.

Portanto, o Chicano Batman conseguiu entregar um disco de extrema qualidade e bom gosto para o público, fruto de todas as influências psicodélicas e do soul, envolvidas em várias camadas sonoras e também de crítica social. Pode-se dizer que o grupo desenvolve um trabalho até próximo do Unknown Mortal Orchestra, mas menos calcado no hispterismo, ampliando o seu leque de possibilidades. Os falsetes, os riffs de guitarra recheados de psicodelia fazem deste um grande álbum de 2017, que certamente frequentará listas do ano, sobretudo pela sua inventividade e espírito contestatório.

 

Real Estate – In Mind (2017)

Se não é o álbum mais inovador do Real Estate, certamente é o mais regular

por brunochair

A primeira vez de tudo a gente não esquece, não é mesmo? Pois é. A primeira resenha que escrevi para este blog foi para Atlas, do Real Estate. Um disco que havia chamado a minha atenção por apresentar um conceito, uma estética musical que seguia por todas as faixas com uma regularidade absurda. Atlas é bem produzido, tem ótimas canções e ali eu defendia ser o ápice da produção deles, ficando bem curioso para saber o que viria depois. E cá estamos, quase três anos após, com o sucessor de Atlas: In Mind.

Resumindo a ópera, In Mind é tão bom quanto Atlas. Um disco extremamente regular, repleto de camadas sonoras e ótimas faixas. Continua a habilidade do grupo em apresentar uma atmosfera bastante tranquila e até viajante. Porém (e talvez seja a grande ressalva a ser feita) o salto que o Real State apresentou com Atlas foi gigantesco, alcançando um grau de excelência que In Mind não conseguiu atingir. Como já disse, é um disco tão bom quanto o anterior, possui ótimas canções, mas parece ser um Atlas pt.2. Não houve uma superação, digamos. Mas outra questão que fica disso tudo é: para onde o Real Estate poderia correr?

E aí temos uma questão complicada, pois notei em Atlas um perfeccionismo e um alcance da sonoridade tão absoluto que, realmente, seria difícil chegar a outro lugar a partir dali. Imitá-lo seria já difícil. Necessário? Talvez não. E o Real Estate não imitou, mas usou-o como inspiração, trampolim de si mesmo. Abordar de formas distintas, sem jamais perder de vista o já realizado e consagrado. E esse, na realidade, é In Mind.

real estate -in mind2

“Darling” foi o primeiro single lançado pela banda. Terminei a audição, gostei muito da música, mas ficou aquela sensação de ser uma música que ficou de fora do Atlas, utilizada agora. “Serve The Song” já trabalha outras possibilidades de fluência, e é o ponto forte do início do álbum – destacando o instrumental, que começa aos dois minutos e segue até o fim da canção. “After the Moon” é bem tranquila, e reforça a pitada de psicodelia que há em Real Estate (ainda que a seu modo).

“Two Arrows” parece fazer uma homenagem a “I Want You (She’s So Heavy)” do Beatles, que está em Abbey Road. As canções tomam um rumo instrumental do meio para o fim um tanto caótico – o que é considerado inusual, tanto nos Beatles quanto no Real Estate. Além do mais, as duas músicas terminam abruptamente. Não é de hoje que Beatles é uma inspiração para o Real Estate. Ok, Beatles é inspiração de milhões de bandas por aí, mas a psicodelia aliada a arranjos cuidadosos e belos é um dos grandes interesses do Real Estate. Por ser uma canção em que o grupo arrisca mais na execução, podemos cravar esta como das melhores canções do disco.

Há outros bons momentos, como o slide surrealista de “Time”, a ótima intro de “Holding Pattern” e a moderna “Diamond Eyes”, num misto de country e andamento de música eletrônica – tudo bem ao modo Real Estate de fazer. Portanto, In Mind não é um álbum tão inovador e impactante quanto Atlas, mas é outro disco bastante regular e competente do Real Estate, repleto de confortantes camadas sonoras. Não há música abaixo da média, e por conta disso também a importância de se dizer que é um disco bastante regular. E, se não é genial, é muito bom.