Autor: Gabriel Sacramento

Um conhecedor desconhecido. Um cara que adora contar quantos plot points um filme tem e que acompanha toda a levada da bateria enquanto ouve uma música. Entusiasta de Big Data, fã de SciFi, buscando assim como nas tramas do gênero, explorar e descobrir novos mundos através da arte.

Snoop Dogg – Neva Left (2017)

O grande Snoop ressalta que nunca deixou de fazer hip hop

Por Gabriel Sacramento

Em seu terceiro disco em três anos, Snoop Dogg trouxe uma proposta diferente, de novo. Mas calma, não é como o John Mayer, que não sabe o que quer. Dogg sabe bem o que faz e o que põe em sua música, tudo se conecta com precisão. Se no Bush ele experimentou com funk e disco e no Coolaid reafirmou o quão lendária é e sua importância para a indústria, indo fundo no hip hop mais tradicional, em Neva Left Dogg mistura os delírios dos anos 90 com outros momentos da sua carreira. Como ele mesmo afirmou em uma entrevista, o objetivo do novo disco é unir tudo que ele já fez.

Podemos dizer que Bush mostrou que Dogg não permaneceu totalmente indiferente à veia mais diferenciada do hip hop que está bombando por aí (essa que mixa o estilo com funk, disco, jazz e tudo mais). Mas o do ano passado e esse, mostram que o rapper sabe bem de onde veio e curte valorizar isso também. Especialmente em Neva Left, no qual o lance é resgatar mesmo a vibe dos subúrbios americanos dos anos 90. Tudo isso mostra que o hip hop atual pode sim ser multivalorado e se adequar à diversas situações, sempre funcionando como uma boa válvula de escape diante da, eventualmente opressora, vida cotidiana.

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Como não lembrar do icônico Notorious Big ouvindo “Mount Kushmore”? A faixa traz três rappers, o que lembra também os velhos tempos em que os MCs faziam aquelas batalhas nos shows. A faixa-título possui aquela linha melódica quase hipnótica que fica se repetindo ao fundo, lembrando tempos antigos também. O sintetizador de “Moment I Feared” – uma das melhores do álbum – remete ao também forte sintetizador de “Who Am I (What’s My Name)?” do primeiro álbum. Mas não é só essa. Em várias faixas predomina a ideia de misturar uma linha de baixo forte ao fundo e o rap na frente, como nos primórdios, quando os raps nasciam de samples com linhas de baixo expressivas.

Mas como eu disse antes, não é só de nostalgia que vive Snoop Dogg. Então temos também trap (“Trash Bags”), canções que possuem uma abordagem mais orgânica e modernosa (“420 (Blaze Up” e “Love Around The World”), outras com toques de R&B e funk (“Go On”). Temos ainda um remix da faixa “Lavender” do BadBadNotGood, com a voz do Snoop sobreposta. Colocar a música foi uma decisão bem acertada, principalmente porque Dogg queria justamente captar o espírito do hip hop moderno e o BadBadNotGood representa bem isso.

Fugindo da nostalgia mais ingênua, que visa escapar da realidade atual e refugiar-se no passado, Dogg trouxe um produto inteligente articulado e elaborado, que visa e alcança o objetivo de nos fazer pensar toda a sua carreira e as nuances que explorou ao longo dela em 1 hora de audição. Ou seja, ele usa a nostalgia como um meio e não como um fim. Algumas coisas podem soar realmente datadas, mas no conjunto temos a impressão de ouvir algo que transcende a noção temporal.

Percebemos também que as letras de Dogg representam um manifesto. O rapper quis responder aos que o criticam, deixando claro que nunca deixou o rap e que ainda está no jogo. A faixa título, por exemplo, começa com uma frase dizendo “E aí, Snoop, as ruas estão dizendo que você não é mais o mesmo”. Já “Still Here” começa com um diálogo entre um garotinho e Kendrick Lamar, no qual o garoto pergunta se ele conferiu o novo disco do Dogg e diz “Snoop está de volta”. Kendrick, por sua vez, responde: “Aí é que você está errado, pois o grande Snoop nunca saiu”.

Nos aspectos modernosos, Snoop não teve nenhuma pretensão de soar como um Kendrick Lamar ou como um Oddisee. Mas o rapper consegue, como poucos, pegar um pouco do que está rolando e incorporar em seu trabalho old school, reforçando os aspectos do hip hop de antigamente, nos fazendo perceber como o gênero evoluiu. Além de divertido, Neva Left pode ser uma boa aula, afinal.

Segundo uma entrevista recente, Dogg afirma que teve total liberdade criativa e trabalhou sem pressão para lançar Neva Left. Foi um trabalho direto do seu coração. Um grande presente para os seus fãs e admiradores que o acompanham, para provar que acima de tudo, ele continua prolífico e mantendo a qualidade em seus lançamentos. Pegue a sua jaqueta, ponha uma corrente e um boné e se divirta.

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Sheryl Crow – Be Myself (2017)

Fofo e semirebelde em boas proporções

Por Gabriel Sacramento

“If It Makes You Happy, it Can’t Be That Bad”

Comecemos esta resenha com uma citação da letra de “If It Makes You Happy”, clássico da Sheryl Crow dos anos 90. A americana do Missouri, formada em composição, com um histórico de participação em bandas de gente famosa como Stevie Wonder e Rod Stewart, é também atriz, mãe, feminista e uma das grandes representantes do rock country americano na década de 90. Guardadas as devidas proporções, Crow é quase uma Bruce Springsteen versão feminina – e as semelhanças vão do som ao jeito como ela empunha a guitarra nos shows, que lembra muito o The Boss.

O country sempre esteve na veia da americana. Mas no último álbum, Feels Like Home (2013), ouvimos uma vertente mais soft do estilo e menos de rock. Diante da recepção pior do que o esperado, Crow resolveu fazer um back to basics – que retoma a simplicidade e inocência dos primeiros discos, mas também ressalta a veia roqueira da garota que cresceu ouvindo Rolling Stones. Por isso, Be Myself está sendo vendido como um álbum de rock, o que foi reforçado pela volta da parceria entre a loira e Jeff Trott, produtor dos ótimos Sheryl Crow (1996) e The Globe Sessions (1998) – disco que possui aquela bela versão country de “Sweet Child O’ Mine”.

A diferença do anterior para Be Myself vai do som até a capa: No de 2013, vemos a cantora com uma expressão feliz com flores ao fundo. Já nesse novo, temos Crow sentada em uma cadeira em uma expressão séria e vestindo preto. O ensolarado pelo obscuro, afinal. A faixa título soa bastante como os Stones nos velhos tempos. A canção possui esse acento roqueiro misturado com country e uma letra que traz um questionamento interessante: “Se eu posso ser outra pessoa, por que não posso ser eu mesmo?”. A ótima “Heartbeat Away” é marcada por um lirismo misterioso e sofisticado e por uma sonoridade rock alternativo, com vocais distantes nos versos e uma explosão com mais distorção no refrão. Aqui, Crow deixa até o country de lado e se permite enveredar por algo diferente.

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Em “Grow Up”, Crown soa como uma adolescente, dizendo claramente que não quer crescer. Claro, tudo é circundado por guitarras levemente distorcidas e uma vibe roqueira anos 90. “Alone In The Dark” tem aqueles versos que são difíceis de desgrudar da cabeça, com as guitarras executando as melodias, o que deixa tudo mais memorável ainda. Já “Halfway There” tem um refrão que lembra as cantoras de pop da década passada.

A impressão que temos ao ouvir Be Myself é a de que Sheryl Crow decidiu trabalhar em paralelo seu lado mais inocente e ingênuo (que resgata a jovem semi rebelde do início da carreira) com um lado mais pop polido, submetendo as faixas a estruturações bem definidas e a um feeling de tudo arrumadinho, no seu devido lugar. Trott cooperou positivamente com a cantora e ambos conseguiram um resultado que acentua ambas as características muito bem. O desejo por um som polido não sufoca a faceta mais insurgente e ambas dialogam muito bem enquanto convencem o ouvinte de que vale a pena seguir para a próxima faixa.

Mesmo com seus momentos menos fortes – afinal, o disco não é uma obra prima -, o novo trabalho da cantora americana consegue agradar os ouvintes, enquanto os intriga. Afinal, não é todo dia que ouvimos um conjunto de faixas com potencial pop, comercial, grudento e radiofônico revestido com uma capa roqueira e abafada. Crow consegue soar como uma jovem garota iniciando na música, como aquela que ouvia os Stones, mas que sabe a direção a seguir, não se deixa levar por leves distrações e também não se deixa levar pela ansiedade jovial.

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Crow não precisa provar nada a ninguém, atingiu um nível absurdo de segurança em sua carreira e é essa segurança que a permite buscar referências diferentes e trazer um produto distinto e que não segue a mesma linha do anterior. Essa segurança também permite que a cantora mantenha sua personalidade intocável, enquanto tenta se renovar. Be Myself não é nenhuma inovação surpreendente, mas é um presente nostálgico para fãs de longa data. Um oi para aqueles amigos de infância que há muito tempo não se vê.

Se algo deixa a cantora feliz é referenciar seus ídolos com sua música. Be Myself permite que ela o faça, sem abrir mão da ambição comercial. Aqui, se deixar levar em busca da felicidade e realização profissional é sinônimo de resultados redondos. Afinal, se te faz feliz, não deve ser tão ruim. E não é.

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Jimi Hendrix – Are You Experienced faz 50 anos

50 anos da explosão cósmico-psicodélica que gerou o Jimi Hendrix Experience (e mudou o blues rock)

Por Gabriel Sacramento

Jimi Hendrix era um guitarrista tentando ganhar a vida com r&b nos Estados Unidos na década de 60. Seu talento já era notável, mas ainda não tinha chamado a atenção de ninguém. Isso mudaria quando Linda Keith, namorada do Keith Richard, viu Jimi empunhar sua guitarra em uma apresentação, ficou surpresa e começou a recomendá-lo. O primeiro interessado foi o ex-baixista do The Animals, Chas Chandler, que decidiu montar um grupo para Hendrix na inglaterra e então gravar um disco. Chandler chamou Mitch Michell para a bateria e Noel Redding (que era guitarrista) para tocar baixo. O trio lançou “Hey Joe” e “Purple Haze” como os primeiros singles. “Hey Joe”, inclusive, foi uma das primeiras que Chas ouviu do trio e pesou significativamente na decisão dele de empresariá-los.

O álbum começou a ser gravado em outubro de 66, passando por dezesseis sessões em três estúdios diferentes de Londres: De Lane Lea Studios, CBS e Olympic. O trio passou mais tempo neste último pois, segundo Chandler, era acusticamente melhor e tinha um equipamento melhor. Are You Experienced é caracterizado por muito uso de overdubs, principalmente nos vocais de Jimi, que não era muito confiante quanto às suas habilidades para cantar. O disco também possui diferentes estilos de mixagem das faixas e timbres dos instrumentos. O estilo de mix varia, por exemplo, em algumas faixas: em algumas músicas, o vocal está voltado para um dos lados; em outras, a sensação é de que tudo se encontra centralizado na mesma região, para gerar o som ruidoso característico.

Como na teoria cósmica do Big Bang, que afirma que a energia se uniu em um único lugar e deu origem à algo enorme e complexo como o universo, Are You Experienced também foi uma explosão. Uma explosão psicodélica, roqueira e intensa que deu origem ao blues rock mais pesado com uma ênfase maior na guitarra e ao reconhecimento do trio Hendrix-Mitchell-Redding. O blues rock já existia, é verdade. Muitos atribuem o nascimento do estilo ao álbum Blues Breakers With Eric Clapton do John Mayall, lançado no ano anterior. Mas mesmo assim, a versão mais efervescente do estilo, guitarreira, garageira e cheia de efeitos começaria com Hendrix e com Are You Experienced, influenciando diversos outros guitarristas de diferentes gerações como Jeff Beck, Richie Kotzen, Gary Moore, Robin Trower, o próprio Clapton, entre outros.

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O ÁLBUM

“Foxy Lady” foi gravada em uma sessão, com exceção de alguns overdubs. A canção começa energética, com o vocal do Jimi de um lado só na mix e a porradaria instrumental centralizada. A lisérgica faixa-título se destaca por seus efeitos e técnicas, que até lembram um pouco as que os Beatles usaram em Revolver. Dentre as faixas mais famosas, temos um dos riffs mais icônicos do rock em “Purple Haze”, com uma verdadeira explosão roqueira psicodélica e a voz do Hendrix do lado direito da mix.

Mesmo sendo cantada de uma forma até rústica, as melodias são marcantes, bem como o domínio guitarrístico do músico. Em “Third Stone From The Sun”, eles resolveram brincar com bateria de jazz e frases jazzistícas de guitarra a la Wes Montgomery. É uma das canções que destacam o lado técnico do guitarrista e sua versatilidade. A faixa é bem longa e possui várias variações no meio, onde a lisergia e a psicodelia tomam conta.

“Stone Free” é aquele blues rock empolgante, arrasa-quarteirão, com um refrão inconfundível. Em uma das performances mais legais do álbum, Mitch Michell ganha espaço e brilha em “Fire”, que também se destaca pelo seu refrão bem pra cima, com vocais de fundo e um delicioso walking-bass. A balada “The Wind Cries Mary” foi a primeira balada gravada para o álbum. É bem envolvente e fala sobre uma discussão que Hendrix teve com sua namorada, de nome Mary. O blues “Red House” foi gravado com duas guitarras e uma bateria, com uma das guitarras fazendo base na região mais grave para suprir a falta do baixo. E é quase impossível falar de Jimi Hendrix e de Are You Experienced sem citar “Hey Joe”, canção cover que ficou super famosa, mezzo folk, mezzo soul, sem refrão e com uma letra bem marcante: conta a história do personagem Joe, que atirou na esposa porque estava traindo ele e agora tem de fugir para o México para se safar. A letra traz um diálogo entre Hendrix e Joe.

Are You Experienced parece mais uma coletânea do que um simples álbum. As canções se tornaram clássicos do rock e mostraram ao mundo que o trio tinha um potencial incrível. O álbum brilha mesmo com a sonoridade abafada e os timbres sujos, pois toda a energia e aspecto roqueiro provém das mãos afiadas dos três músicos, que juntos soam mais barulhentos que muita banda completa por aí.

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LEGADO
O primeiro álbum do Jimi Hendrix Experience é até hoje cultuado como um dos maiores álbuns do rock. A revista Mojo elegeu o disco como o principal álbum de guitarra de todos os tempos. A Rolling Stone também classificou o álbum como décimo quinto na lista dos 500 maiores de todos os tempos e várias faixas como algumas das maiores canções de todos os tempos. Muitos jornalistas afirmam categoricamente: O álbum é um dos definitivos da era psicodélica.

Vale lembrar também de todo o reconhecimento da comunidade guitarrística ao redor do mundo, Are You Experienced é um dos álbuns usados como prova em muitas discussões para afirmar que Jimi Hendrix foi o maior guitarrista vivo. O jeito como o músico abordou a guitarra, com toda aquela excentricidade e criatividade, mudou a forma como as pessoas olhariam para o instrumento e deu uma nova função para as seis cordas dentro do rock.

O guitarrista Gary Moore foi um dos grandes influenciados pelo Hendrix, e demonstrou isso quando gravou o álbum Blues For Jimi em 2012. Um álbum ao vivo com as faixas mais famosas do Hendrix sendo executadas com uma timbragem moderna, mas uma abordagem perfeitamente fiel ao original. A homenagem do Moore só mostra o quão importante Jimi Hendrix foi na vida de muitos cidadãos comuns que um dia optaram por fazer da guitarra o instrumento da suas vidas. Assim também foi em 1993, quando um grupo de famosos músicos como Jeff Beck, Nile Rodgers, Eric Clapton, Buddy Guy, Slash e bandas como The Cure e Living Colour gravaram um tributo ao Hendrix, refazendo suas músicas. O nome do álbum é Stone Free: A Tribute to Jimi Hendrix e demonstra o quão amplo foi o campo de influência do guitarrista dentro da música popular, indo além dos aficionados por guitarra.

Mesmo depois de meio século, ouvir Are You Experienced ainda é uma experiência recompensadora. Quem estiver descobrindo o Hendrix agora, ainda pode se maravilhar com a fórmula sonora tresloucada que não se prende à nenhuma fórmula e que se manifesta através de uma viagem de sensações e sentimentos, quase espiritual, guiada por um cara que, em seus dias mais normais, curtia quebrar guitarras e atear fogo nelas. Poucos álbuns reforçam tanto esse aspecto imorredouro do rock como Are You Experienced: ele encontrou renovação em si mesmo ao longo dos anos e continua relevante.

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Are You Experienced foi só o começo. Depois dele, Hendrix ainda gravaria mais dois de estúdio e um ao vivo com a Band of Gypsys, onde reafirmaria o seu nome e seria de fato consagrado ao posto de um dos mais influentes guitarristas de todos os tempos. Aliás, era de se esperar, depois de uma estreia como esta, o sucesso absoluto era só uma questão de tempo.

Warrant – Louder Harder Faster (2017)

Festança rock’n’roll oitentista, divertida e irreverente

Por Gabriel Sacramento

Ouvindo este disco pode não parecer, mas o Warrant não é uma banda nova. O grupo nasceu na cena do glam rock de Los Angeles dos anos 80, onde surgiram grupos megafamosos como o Poison, Motley Crue e o Guns N’ Roses. Mas depois de tantos anos de atividade, a banda soa totalmente rejuvenescida, cheia de fôlego e energia roqueira de uma forma impressionante. Se comparada com bandas novas que gostam de resgatar essa vibe anos 80 como Danko Jones e Airboune, o Warrant não soa muito diferente, pois não dá sinais de rugas e nem de fraqueza no esqueleto.

Mas são mais de 30 anos de carreira e ao mesmo tempo em que soa como uma banda nova, soa também como um grupo maduro que sabe bem o que faz e como chegar precisamente ao resultado desejado. A direção é bem definida e o objetivo alcançado com louvor. Foi assim com o ótimo Rockaholic (2011) – primeiro álbum com os vocais de Robert Mason, que fez um bom trabalho como vocalista do Lynch Mob – e está sendo com Louder Harder Faster, novo trabalho do quinteto de LA.

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O disco possui a identidade do glam dos Estados Unidos oitentista. Riffs pesados, vocais agressivos, baladas que surgem para aliviar o tracklist. Em LHD, temos ainda mais músicas mais orientadas aos vocais do que às guitarras, com grandes melodias e ganchos que ficarão na sua cabeça por muito tempo. “Devil Dancer” chama a atenção pelo seu riff principal e sua cadência, mas o principal é o refrão, bem marcante. “New Rebellion” é o tipo de faixa que resgata o hard rock oitentista, mas também traz um quê do heavy metal que bandas como o Accept têm feito atualmente. “Only Broken Heart” é marcada por uma guitarra melódica no início e melodias vocais proeminentes no desenrolar da faixa. É bem estruturada, bem dividida e o refrão ganha ênfase. “U in My Life” cumpre a função da balada obrigatória com violão. A banda consegue manter o equilíbrio e não cai no excesso de açúcar que às vezes acomete este tipo de composição.

LHD foi produzido pelo ex-DIO Jeff Pilson, que soube bem explorar as facetas mais interessantes e obter um resultado consistente. Dá ênfase maior aos vocais, deixando muitas vezes as guitarras em segundo plano, sendo difícil acreditar que realmente existam duas guitarras em vários momentos. O timbre das distorções, mais polido e abafado, também é um pouco diferente do usado em Rockaholic. Joey Allen e Erik Turner estão bem entrosados e ambos trabalham juntos para que as guitarras soem coesas e harmonizadas. Já Jerry Dixon se destaca no baixo, colocando boas notas no meio da porradaria e chefiando bem a cozinha. O vocalista Robert Mason se destaca também, cantando mais melodias e gritando nos momentos certos, acrescentando o que as faixas precisam.

Além de soar jovens e experientes ao mesmo tempo, o Warrant consegue manter a empolgação do ouvinte todo o tempo. A banda nos convida para a festa de celebração dos anos 80, da irreverência, diversão e rock’n’roll e não nos deixa na mão em nenhum momento. LHD são 42 minutos de pura adrenalina e disposição e até os momentos de alívio são usados estrategicamente para dinamizar e ganhar nossa atenção para o que vem a seguir. Mesmo nos levando a uma Los Angeles perigosa de 30 anos atrás, o quinteto não soa totalmente datado, pois há um frescor de novidade, algo do século XXI enrustido no som. Som esse que inclusive pode sair de LA e visitar outras quebradas, sem problemas.

Prepare-se para ouvir um som pesado do bom, puro e feito com honestidade por caras que conhecem bem e dominam essa linguagem musical. Prepare-se também para se perder cantando os refrões e as melodias. Arraste os móveis da sala e balance ao som mais alto, mais pesado e mais rápido rock’n’roll do Warrant.

OutroEu – OutroEu (2017)

Disco apresenta momentos de beleza, mas esbarra na monotonia

Por Gabriel Sacramento

Bandas egressas de programas de calouros, como o Superstar da Globo, têm um grande desafio a enfrentar: trabalhar para tornar a banda um negócio sério, digno de respeito como um grupo capaz de ser muito mais do que aquilo que apresentaram na TV.

Recentemente, o programa revelou diversos grupos e temos visto como cada um se adequa ao mercado fonográfico – alguns com mais facilidade, outros nem tanto. Em suma, as bandas devem se levar a sério, para que os ouvintes as levem a sério também.
Isso de se levar a sério e seguir na – muita vezes espinhosa – estrada da música é mais difícil ainda para bandas como Jamz e OutroEu, que foram formadas especificamente para o programa. Com o término deste, fica o questionamento se o grupo realmente terá fôlego para continuar.

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Bem, o OutroEu continuou. Acabou de lançar o seu primeiro álbum auto-intitulado, trazendo uma sonoridade orientada ao folk – com proeminência de violões -, mas com um quê muito forte de pop.

A faixa de abertura é um dos singles e uma das primeiras faixas originais que eles tocaram no programa global. É uma boa introdução ao que vamos ouvir ao longo do disco, com folk fofo e simples. Em seguida, temos “Zade”, com uma bela melodia de guitarra, que acaba sendo a melodia vocal também. Percebemos beleza na faixa, mas o problema é que ela é arrastada e não engata. “O que te faz Feliz” segue na mesma ideia, sendo prejudicada também pela falta de um pouco de energia.

O som do OutroEu lembra muito o do Tiago Iorc. Principalmente no lado folk e na forma como o estilo é manipulado para criar atmosferas tranquilas e suaves que visam tirar toda a tensão de quem estiver ouvindo. Também se parece muito com os Arrais, principalmente nas melodias belas e na conexão simbiótica entre instrumental e vocal. Porém, mesmo que soe bonito em momentos mais inspirados, o conjunto do álbum é fraco, pois não empolga e nem se esforça para surpreender ao longo da audição. Ou seja, a banda não concede opções aos ouvintes, impondo sempre a mesma fofura confortável.

OutroEu é um álbum fácil e tranquilo de ouvir e de entender. Por um lado, isso é bom, pois delimita bem a identidade e a marca sonora da banda. Mas é por isso também que ele falha. Acaba sendo fácil demais e o ouvinte se sente um tanto desmotivado a continuar, já que rapidamente saca a identidade sonora. A banda se arrisca pouco e ficamos com a sensação de que falta muito para que o disco seja memorável. Além disso, dentro do folk pop que se propõe a fazer, não apresenta nada acima da média.

A banda ainda tem muito a fazer. Este primeiro álbum foi uma declaração de que eles estão dispostos a continuar depois da experiência na TV. Resta agora um pouco mais de ousadia e uma renovação sonora para reparar os erros e seguir em frente.

Chris Stapleton – From A Room: Volume 1 (2017)

Um disco emocionante, forte, energético e gostoso

Por Gabriel Sacramento

Se você acompanhou o cenário da música e das premiações em 2015, sabe que o disco do Chris Stapleton foi um dos mais reconhecidos. O cara ganhou Grammy, Billboard Music Awards, Country Music Association Awards e outros com o disco Traveller, sendo um dos artistas mais comentados daquele ano. Tudo isso é impressionante para qualquer álbum de qualquer artista, mas no caso de Stapleton, o efeito foi ampliado, já que era seu primeiro trabalho.

Em seu novo disco, From A Room: Volume 1, Stapleton trabalhou novamente com o produtor Dave Cobb e nos trouxe uma série de ótimas canções, de novo. Se Traveller tinha uma sonoridade que parecia ao vivo, como se o músico estivesse se apresentando bem na sua frente, From a Room… soa um pouco mais dentro do estúdio. E a mix é mais polida também. Mas nada disso tira o brilho e a energia das faixas, intrínsecas ao estilo do compositor de Nashville.

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“Broken Halos” é uma música simples, bem voltada ao country, fácil de assimilar e ótima para começar o disco. “Last Thing I Needed, First Thing This Morning” deixa evidente a ótima timbragem da guitarra principal, um dos destaques do disco, tocada pelo próprio Stapleton. Além disso, é uma balada tocante e poderosa. Em “Second One To Know”, Chris chama a sua guitarra para a frente, numa faixa mais roqueira conduzida por um riff forte. A voz do cantor se encaixa tão bem aqui quanto nas faixas mais emocionais.

Em Traveller tínhamos uma balada chave que partia nossos corações (“Sometimes I Cry”). Dessa vez temos “I Was Wrong”, outra das ótimas baladas, cortante e precisa, com a potência vocal e o ótimo timbre jogando a favor do cantor. “Death Row” chega mais perto do blues, com típicos fills de guitarra um pouco mais distorcida intermitentemente vindo à luz. “Up To No Good Livin'” é a mais caipira do álbum, com direito à slide e backing-vocal feminino e todo o sotaque sulista de Stapleton deixando as referências bem claras.

Compositor de longa data, cooperador de diversos artistas famosos (Adele, Luke Bryan, Peter Frampton), Stapleton deu o primeiro passo em 2015 para uma carreira solo. O debut foi um sucesso e o segundo prova que o artista está sabendo firmar bem seus passos na longa caminhada da estrada da música. O grande destaque da musicalidade do cantor é a sua capacidade de misturar detalhes de estilos diferentes – southern rock, country, bluegrass, soul, blues -, demonstrando total domínio de tudo que insere nos discos. É difícil rotular o que ele faz, até porque sua música não possui pretensão de ficar enclausurada em rótulos, mas visa ser uma expressão pessoal, sincera e singular.

Chegando sem medo no cenário do country – cenário que já teve nomes como Taylor Swift e que hoje conta com nomes como Sturgill Simpson, Blake Shelton e Eric Church -, Stapleton se diferencia dos demais, tanto pelo jeito como coloca sua guitarra nas faixas, flertando com o rock, quanto pela forma de dar vida às letras, com interpretações envolventes, que são capazes de fazer até um robô derramar lágrimas de emoção. É bem provável que o feito do primeiro disco, no que diz respeito às premiações, não se repita. Mas a qualidade do primeiro álbum foi repetida e ouvir tanto um quanto o outro é uma experiência igualmente maravilhosa.

E mais uma vez Dave Cobb conseguiu um ótimo resultado. O produtor, que tem sido também o mentor do Rival Sons na carreira bem-sucedida do grupo, tem se mostrado bastante competente nos trabalhos em que se envolve. Todo seu conhecimento e experiência com músicos e bandas de rock ajudou Chris Stapleton a orientar esse seu lado e buscar evidenciá-lo sem soar exagerado. Além disso, a impressão que se tem é que Cobb soube muito bem aproveitar os pontos fortes do cantor, para gerar uma fórmula sonora infalível.

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Woods – Love is Love (2017)

Um tratado folk sobre o amor

Por Gabriel Sacramento

Uma das minhas leituras do ano passado foi o livro 1965, o ano mais revolucionário da música – que é muito bom e vale a leitura. Dentre outras coisas, o livro contava o panorama musical da década emergente de 60 e o surgimento e explosão de diversos estilos musicais. Um deles era o folk rock, que teria sido iniciado pelos The Byrds, que tocavam músicas do Bob Dylan com instrumentação de rock. Com o sucesso do gênero, surgiram várias bandas que buscavam o mesmo som, unindo Woody Guthrie à Chuck Berry, assim como os próprios Beatles.

Saiamos dos anos 60 e viajemos quarenta anos depois. Sob a bandeira da música independente surge, em 2005, o Woods, banda do Brooklin que fazia uma especie de folk rock, com ruídos e uma produção lo-fi. A impressão que se tem ao ouvir os primeiros registros – principalmente o esquisito Songs of Shame (2009) – é que estamos ouvindo uma banda de indie folk rock, que permanece sempre aberta a novas experimentações, com coragem e vontade de inovar. Dylan foi duramente criticado quando surgiu tocando guitarra em festivais conservadores de folk. Influenciado por isso, o Woods segue na contramão do totalmente acessível e do belo para criar o seu som.

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Com o tempo, no entanto, a produção da banda foi ficando um pouco mais sofisticada. Não que deixasse de ser independente, pois as gravações continuam sendo no estúdio caseiro do vocalista Jeremy Earl, que também cuida de todas as obrigações de engenharia de som das obras. Mas o som foi ficando mais polido de uma certa maneira, embora mantivesse o aspecto folk rock meio indie de sempre. No lugar do noise frequente de antes, temos mais espaço para as melodias – que ao mesmo tempo em que reforçam um aspecto mais acessível, também servem para reafirmar a esquisitice tão marcante da banda. Afinal, essas melodias não são tão ajeitadas e estruturadinhas como no pop comum.

O novo álbum foi chamado Love is Love e é na verdade um EP de seis faixas. A faixa-título abre com uma ótima linha de baixo e melodias que se tornam, depois de algumas audições, inesquecíveis. O aspecto lo-fi ainda está presente e dialoga bem com o aspecto mais moderno e polido. “Bleeding Blue” também é composta por boas melodias, um violão conduzindo boa parte da faixa e um tema instrumental que mais parece tema de marchinhas, mas que funciona bem dentro do arranjo. O tema é até meio celta e lembra um pouco o Dropkick Murphys. “Lost in a Crowd” é a primeira faixa realmente folk com os violões nas pontas da mix e um espaço aberto para os instrumentos no meio.

Temos uma faixa mais experimental – “Spring Is in The Air” – que traz instrumentos de sopro e um clima arrastado e mais contemplativo. O detalhe é que a faixa possui dez minutos e não varia muito – sempre estamos de volta ao riff principal. “Hit That Drum” é densa e vai ganhando profundidade a medida em que o arranjo cresce. Tem mais foco na ambientação e não na instrumentação normal como as outras. Temos ainda “Love is Love (Sun on Time)”, que é como uma reprise da primeira faixa, só que com mais swing. Mesmo com a cozinha explorando um pouco mais de groove, a voz do Jeremy continua do mesmo jeito e isso dá um toque especial à faixa.

O EP é um tratado folk sobre o amor e a maneira como o tema é abordado é o real diferencial. Não temos aqui clichês baratos e fáceis de compreender. Quando ouvimos Jeremy cantar “Diga que o amor é o amor”, não estamos plenamente certos a que ele se refere, embora tenhamos em mente que trata-se do amor e do seu medo de que o amor como ele conhece seja descaracterizado ou desvirtuado. É folk, principalmente porque, mesmo falando sobre amor, a parte musical da banda continua característica, forte, como sempre, sem inserção de elementos para tornar tudo acessível demais.

As melodias típicas da banda continuam vivas em Love Is Love. Junto com as linhas de baixo sempre ditando o ritmo das faixas e elementos intermitentes que surgem para dar um acabamento aos arranjos, tudo coopera para tornar a audição interessante e gratificante. O folk rock do Woods permanece se renovando dentro de si mesmo. Eles descobrem saídas para não soarem monótonos ou simplesmente repetirem a si mesmos, sem precisar mudar de gênero. Sem também abrir mão da esquisitice, da falta de jeito, da inocência e do aspecto alternativo. Um EP tão bom quanto um álbum seria. Um verdadeiro must-listen, afinal.