Autor: Gabriel Sacramento

Um conhecedor desconhecido. Um cara que adora contar quantos plot points um filme tem e que acompanha toda a levada da bateria enquanto ouve uma música. Entusiasta de Big Data, fã de SciFi, buscando assim como nas tramas do gênero, explorar e descobrir novos mundos através da arte.

Calvin Harris – Funk Wav Bounces Vol. 1 (2017)

Um estrangeiro passeando em terras americanas

Por Gabriel Sacramento

Um novo disco do Calvin Harris é quase um megaevento que deixa pessoas de várias partes do mundo em estado de alerta. Afinal, todos querem saber o que o DJ mais bem pago da atualidade tem pra dizer com seu novo conjunto de músicas. E depois dos dois últimos discos, estádios lotados, festivais grandiosos, singles de sucesso estrondoso – como “How Deep Is Your Love” – e recordes quebrados, o artista escocês parece bem acostumado com o sucesso e todo o buzz envolvendo seu trabalho e sua vida artística. Acostumado, mas não acomodado. Pelo menos não mais.

Em seu novo álbum, Funk Wav Bounces Vol. 1, o produtor reuniu um all-star team de artistas que têm se destacado na música americana recentemente e coordenou a equipe para chegar a um álbum com influências de funk, disco e neo-soul. Sim, o cara decidiu resgatar referências de décadas passadas, o que não é de longe algo novo, mas não deixa de ser válido quando feito com honestidade e competência.

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“Slide” surge com vocais de Frank Ocean e raps do trio americano Migos. A sonoridade é bem fortemente pontuada pelo baixão firme, um Ibanez tocado pelo próprio Harris. Temos teclados para fornecer um quê de lounge à faixa também – lounge que remete instantaneamente à dobradinha D’Angelo e Maxwell – e as vozes funcionam bem dentro desse esquema sonoro. “Rollin” foi fruto da cooperação de Harris com o rapper Future e com o jovem Khalid. É uma boa faixa R&B, charmosa e elegantemente simples. “Feels” é totalmente ambientada no fim dos anos 70 e começo dos anos 80, quando as pessoas costumavam frequentar clubes e dançavam sob um globo brilhante. Nesta cantam Pharrel Williams, Katy Perry e o rapper Big Sean. “Cash Out” surge num contexto mais hip-hop clássico, com os raps de SchoolBoyQ, PARTYNEXTDOOR e DRAM. “Faking It” tem os vocais da Kehlani e é uma boa faixa que podia estar no primeiro álbum dela. Assim como “Holiday” podia estar no Bush do Snoop Dogg, que nesta destila seu flow acompanhado das melodias de John Legend. “Hearstroke” é uma das melhores faixas do ano, muito por causa da interação vocal de Ariana Grande com Pharrel Williams em um jogo suave de vozes.

Em seu novo disco, Calvin parece respeitar bastante os limites e ideais criativos de cada artista, deixando que cada convidado trazer um pouco de seu mundo e fazendo deste Vol. 1 um mergulho bem sucedido do europeu no oceano da música americana. Pode ser entendido também como uma viagem de um turista aos Estados Unidos, guiada por vários residentes do país, que em cada faixa situam o estrangeiro no que há de melhor na música negra produzida nos últimos 40 anos. Vale lembrar que Drake fez algo parecido este ano, experimentando com estilos de outros países, e se deu bem. Funk Wav Bounces teve um processo de concepção diferente dos últimos trabalhos, principalmente porque Harris ficou exclusivamente encarregado da produção, o que ajudou a  direcionar melhor o produto final. Ele também tocou uma série de instrumentos, incluindo o clássico Fender Rhodes e uma guitarra Fender Stratocaster 1965 – cruciais para que ele alcançasse esse som especialmente vintage.

Se afastando da artificialidade dos samples e sintetizadores grandiosos, Harris dá um passo um tanto arriscado rumo à expansão criativa, experimentando com música orgânica, ensolarada e com os balanços corporais que este tipo de música pode provocar. Uma ótima pedida para quem admira artistas que transcendem limites geográficos para elevar o nível de sua forma de expressão.

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Pedro Salvador – Pedro Salvador (2017)

Primeiro disco é diverso e seguro

Por Gabriel Sacramento

O toca-tudo alagoano Pedro Salvador decidiu lançar seu primeiro álbum solo, depois de dois lançamentos com sua banda Necro. Na sua banda principal, Salvador fica encarregado do baixo, da guitarra e vocais, engrossando os riffs, melodias e a atmosfera psicodélica. Em seu debut solo, o músico gravou tudo e assumiu até o papel da produção.

Temos que considerar que a ideia de Pedro não foi fazer algo fácil. Ele quis abordar suas influências que vão além do som do Necro, temperando com funk e rocksteady e ainda assim recheando o álbum de interlúdios e passagens instrumentais. Em sua faceta guitarrística, Pedro nos presenteia com ótimos solos livres, leves e soltos, com timbres bem escolhidos. Ele também apresenta uma verve mais prog, psicodélica e retrô. Além disso, um quê de brasilidade em diversos instantes, tornando a obra ainda mais complexa, completa e mais fácil de se identificar com os diversos tipos de ouvintes.

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Em algumas faixas, como “Desgraça na Praça”, o cantor joga o velho e bom rockão na nossa cara, com uma linha de baixo galopante, guitarras giratórias e vocais agudos cheios de efeitos. Quaisquer semelhanças com a atmosfera sonora do Black Sabbath nos anos 70 não são meras coincidências. O clima obscuro e doom segue em “Quilombo de Cimento”, uma faixa cheia de elementos de stoner rock e que parece de fato ter mais de 40 anos de idade. “Canção da Lua” traz muito peso de guitarra-baixo e frases jeff-beckianas. Em “Gênese de Destruição”, Salvador mostra que é um ótimo instrumentista, abrindo mão dos vocais e preenchendo a faixa com solos, um baixo especialmente competente e overdubs espertos. Há uma variedade interessante de instrumentos percussivos na faixa, cooperando e se relacionando bem com as guitarras.

A longa “Canção do Fim” tem uma guitarra funkeada estilo anos 70, vocais falados, um baixo redondo e minutos de sobra para desenvolvimento de excelentes arranjos marcados por diferentes nuances em uma jam instrumental. Nessa faixa, Salvador deixa claro sua faceta de arranjador, o cara que emoldura a música e deixa ela acabadinha. Além de que, a faixa é a melhor demonstração da visão de Salvador do que vem a ser rock progressivo de todas do álbum: ele segue à risca a ideia e progride de arranjo em arranjo, suavemente e cuidando bem das conexões entre eles. Este disco em uma música? “Canção do Fim”, sem dúvida.

Pedro experimenta um som mais reggae/rocksteady em “Bananeira em Flor”, com órgãos que deixam tudo tão assustador quanto qualquer faixa dos Fuzztones. Aliás, ele adora os órgãos e os coloca em muitos momentos do álbum, principalmente nos interlúdios instrumentais “Suíte Microscópica” e “Nostálgica”. Entenda-os como momentos de alívio que o músico proporciona para fazer nossa cabeça espairecer. O fato de Salvador trazer vários trechos curtos de música cria um certo tipo de ansiedade pelas faixas completas e chama ainda mais a atenção para elas.

O músico tenta ideias diferentes, experimenta variáveis, adiciona elementos e chega um composto musical diversificado e redondo. E a produção que ele mesmo fez é excelente. Conseguiu mesclar bem todos os seus talentos, usar para o bem da proposta, deixando as faixas soarem espontâneas, marcantes e agressivas, além de evidenciar a força da coesão entre elas. Se o músico se encontra fazendo um bom trabalho com o trio Necro, seu projeto solo também é digno de atenção. Um disco despretensioso, divertido, criativo e, sobretudo, brasileiro.

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Mr. Big – Defying Gravity (2017)

Eles desafiam a gravidade com hard rock à moda antiga

Por Gabriel Sacramento

Existe entre os ouvintes de música algo que chamo de conservadorismo musical, que vem da ideia de conservar no sentido de colocar toda a confiança no que já está estabelecido e se opor a mudanças bruscas. Isso acontece basicamente quando um fã se apega ao que já foi feito na música e não é muito receptivo novas ideias e o que foge à regra. Não dá pra dizer que isso é algo típico da nossa era, pois sempre tivemos ouvintes com esse tipo de percepção por aí – prova disso você encontra aos montes com relatos sobre estilos musicais hoje aceitos, mas que quando nasceram sofreram forte repressão.

Muitos desses fãs também costumam endeusar os artistas/bandas que gostam – afinal são o sustentáculo ao qual eles se apegam firmemente – e parecem acreditar que eles não envelhecem e que tudo que eles lançarem, é, por via de regra, bom por benefício do retrospecto. Por exemplo, o AC/DC merece aplausos a cada novo lançamento, pois já fizeram um Back In Black uma vez na vida. Claro, isso é muito bom para as bandas e gravadoras, que continuam ganhando dinheiro, mesmo quando enfrentam fases ruins na carreira. Mas é uma forma um tanto acomodada de pensar: afinal, os novos álbuns não precisam nem ser analisados, já são tidos como bons se foram lançados pela banda (ou seria marca?) X ou Y.

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Pois é, mas as bandas envelhecem sim e às vezes perdem qualidade com o tempo. É natural e até humano que os grupos passem por momentos menos interessantes em termos artísticos, principalmente se já atingiram um auge algum dia. No campo do rock, onde a energia é fundamental, a idade e o peso da vida pode tirar um pouco da força do artista – e isso é normal. Acostume-se.

Quando o Mr. Big surgiu no final dos anos 80, a banda com certeza incomodava o pessoal que cresceu ouvindo The Who e Rolling Stones duas décadas antes, com sua fórmula precisamente fechada e bem específica de hard rock farofão versus baladas fofinhas – afinal, em tempos de MTV, quem tinha uma balada e um clipe era rei. Mas eles tinham um diferencial: todos os quatro músicos eram excelentes em seus postos. Eric Martin tinha um vocal agudo, potente e cheio de swing que servia bem para o rock e soava bem tanto no estúdio quanto ao vivo, tendo quase sido o vocalista do Van Halen no lugar de Sammy Hagar; Billy Sheehan era sensacional com seu baixo absurdamente agudo, distorcido e suas técnicas não convencionais no instrumento; Paul Gilbert também, com um domínio assombroso das seis cordas; e Pat Torpey, com a pegada e o groove necessário para sustentar o dinamismo das faixas provido pelos duelos baixo-guitarra. A interação das cordas era algo de outro mundo e a banda tinha uma irreverência jovial que ia das letras à atitude rock’n’roll.

Mas a banda envelheceu e hoje naturalmente não soa a mesma, embora eles tentem resgatar a vibe de outros verões. O novo disco, Defying Gravity, traz a banda depois do bom …The Stories Could Tell (2014), com o produtor Kevin Elson, que produziu os três primeiros álbuns do grupo. O disco foi gravado basicamente ao vivo. O objetivo foi retornar ao som dos primeiros registros e garantir a pegada do ao vivo. O disco abre com a ótima “Open Your Eyes”, com um som realmente mais cru e bem hard rock. Os versos intercalados com o riff principal farão os fãs lembrarem dos velhos tempos de Mr. Big (1989). Já o refrão é muito Actual Size (2001). Como sempre, é muito bom ouvir os riffs e fills de baixo-guitarra, em um entrosamento fantástico da dupla Billy e Paul. A intro da faixa título apresenta uma abordagem diferente da guitarra de Paul, duplicada e tocando uma melodia bem lúdica. É uma faixa admirável, que mostra a banda fugindo um pouco da mera repetição com ideias menos comuns.

Temos mais faixas boas, como “Mean To Me”, que foi inspirada em uma música da – pasmem! – Christina Aguilera. Gilbert gostou do groove de “What a Girl Wants” da loira e resolveu criar um riff parecido, que virou o principal da faixa e o que dá consistência à mesma. O monstro Billy Sheehan tocou seu baixo com incríveis quatro dedos nesta música para poder executar as notas rápidas com perfeição. Temos ainda um duelo entre ele e Gilbert, lembrando os velhos e bons tempos em que eram uma pequena banda surgindo das profundezas de Los Angeles. Em “1992” eles abraçam a nostalgia, relembrando o ano que eram os primeiros nas paradas com a faixa “To Be With You”. A faixa é um hard rock mais cadenciado com um refrão que parece ter sido escrito nos anos 80. “Be Kind” é blueseira até o osso, com sete minutos, que tem seus momentos mais açucarados e um final totalmente inesperado com a banda tocando um riff rápido e pesado, daqueles perfeitos para fechar um álbum – e um show.

O problema do álbum novo, no entanto, são as baladas e faixas mais românticas. “Damn I’m in Love Again”, “Nothin’ Bad (‘bout Feeling Good)” – que tem um refrão até legal – e “Forever And Back” são faixas nas quais a banda troca os riffs e fills rápidos por “aaaas”, “doooos” e coisas do tipo. Além de soarem como fillers, são nestas que percebemos o maior grau de fofurice e sacarose no disco, cumprindo a fórmula à risca. É uma pena estas faixas façam tantos gols contra Defying Gravity.

O disco todo foi gravado em seis dias e isso diz bastante acerca da pedra de sustentação do grupo – a dupla Billy e Paul. Junto com Matt Starr, que toca no lugar de Pat Torpey, que está impossibilitado de tocar em decorrência do mal de Parkinson, os caras gravaram arranjos cheios de vigor e fibra, mantendo a atenção enquanto joga em nossa cara doses de ânimo e energia. Um destaque especial merece ser feito à guitarra de Gilbert, que soa muito bem em termos de timbres e compõe riffs excelentes. Além disso, ele oferece novas ideias, inclusive experimentando com sua boa técnica de palhetada. O cara é sensacional, um dos melhores guitarristas da atualidade e só por estar em um disco, já vale a pena ouvir, na certeza de que pelo menos o som do instrumento irá compensar.

Depois de tantos anos, o Mr. Big mostra que ainda tem lenha pra queimar e rock’n’roll na veia. Mesmo com os momentos mais fraquinhos e diluídos, a banda ainda é boa e sabe aplicar bem as ideias e conceitos sonoros que marcam sua identidade. Podem ser considerados conservadores, se você preferir, o que mostra que guardaram a sete chaves as características idiossincráticas do início, para não perdê-las. Como já disse, estão mais velhos, não soam exatamente como antes, mas ainda soam cheios de vida e tentando ao máximo alcançar um nível de intensidade convincente. Defying Gravity é um disco de senhores dando conselhos aos jovens e celebrando os dias de antigamente quando tudo parecia melhor – pelo menos pra eles.

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Lindsey Buckingham & Christine McVie -Lindsey Buckingham Christine McVie (2017)

Gravado pelo Fleetwood Mac, mas não é Fleetwood Mac

Por Gabriel Sacramento

Poucas bandas conseguiram uma proeza tão notável quanto o Fleetwood Mac em seus dias mais gloriosos: explorar a fronteira – se é que realmente existe – entre o pop e o rock, em uma época que a referência de pop era o ABBA e a referência de rock, o Led Zeppelin. O grupo parece ter a fórmula para canções irresistíveis e enxutas no seu esqueleto, sendo merecidamente uma das bandas mais importantes da história.

O disco em pauta neste texto foi gravado por 4/5 do Fleetwood Mac atual, mas saiu como uma parceria do vocalista/guitarrista Lindsey Buckingham e Christine McVie – que lembra muito a ideia da parceria Buckingham Nicks, do guitarrista com a outra voz feminina famosa do grupo antes de ingressarem na banda. Buckingham e McVie eram membros ativos e importantes compositores do Mac, que juntos já eternizaram hits como “Don’t Stop”, do Rumors (1977). Lindsey Buckinham Christine McVie marca a volta da cooperação criativa dos dois, depois de um tempo separados. Também é o primeiro disco de inéditas da galera toda junta, menos a Stevie Nicks, em anos.

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Como o disco foi gravado pela mesmíssima cozinha rítmica/harmônica e parte das vozes do Fleetwood Mac, é quase impossível que não soe realmente como algo que o grupo faria. Aqui a leveza sônica joga a favor do grupo em canções como “On With the Show”, cantada pelo Buckingham. A faixa é bem tranquila e caracterizada pela marcação pontual dos acordes pelo baixo. A contemplativa “Carnaval Begin” é uma canção que mesmo despida de maquiagem e excessos, soa completa e bela. O teclado de Christine chama a atenção pelas melodias que servem completamente à música e ainda conversam bem com parte rítmica. O dedilhado típico e singular de Buckingham rouba a cena em “Love is Here To Stay”, uma canção bem simples também e igualmente bela. “Too Far Gone” tem uma veia mais roqueira, com um jogo sensacional de vozes e a bateria sendo usada como recurso criativo, diferente da função típica de marcação de ritmo, como o Mick Fleetwood já tinha feito em ocasiões como na clássica “Go Your Own Way”, de 1977. Temos três faixas especiais com cara de hit: “Sleeping Around the Corner” – com um refrão chiclete e um instrumental ousado -, a tropical “Feel About You”, com suas influências de doo-wop e “In My World”, com um arranjo sofisticado e refrão inesquecível, que parece alguma coisa criada originalmente para o ABBA.

Quando perguntado sobre suas influências musicais e seu estilo de tocar, Buckingham afirmou que não gosta do estilo de Eddie Van Halen, por exemplo, pois prefere guitarristas que toquem para a música e não somente para se destacarem individualmente. Essa visão com certeza guiou o músico na sua carreira e o levou a desenvolver essa fórmula de criar e produzir hits, em que todas as partes cooperam decisivamente para um todo forte. O resultado são faixas imbatíveis em termos de sensibilidade e apelo pop, mas não soando necessariamente descartável para ouvintes mais exigentes. Outra banda que também dominou esse modus operandi foi o Steely Dan, por exemplo.

Seu novo disco com a McVie segue esse modus. Como sempre, sobra capacidade de entrar e sair pelo rock e pop, com foco na força das faixas, no quanto soam agradáveis e marcantes para o ouvinte médio/fácil, sem se preocupar em se prender a gêneros ou idéias padronizadas. Um álbum que proporciona uma tranquila viagem pelo mundo das ideias sonoras, cheia de conforto e segurança. Esse disco vai te fazer querer ouvir Fleetwood Mac de novo e respeitar ainda mais esse grupo sensacional, que é tão seminal para a música pop.

E fica cada vez mais fácil acreditar que quando esse pessoal se junta não tem como sair algo ruim.

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The Strypes – Spitting Image (2017)

Confie no rock’n’roll que vem da irlanda

Por Gabriel Sacramento

Quatro garotos europeus muito jovens, de boa aparência, fazendo rock. Não, não estou falando dos Beatles, embora esse grupo que vem da Irlanda goste de referenciar o fabfour, desde o som à aparência do início da carreira. Os Strypes não parecem intimidados pelo fato de serem muito jovens (começaram a banda com membros de 15, 14 e, pasmem, 13 anos) e pelo fato de terem como fãs declarados Elton John, Dave Grohl e Paul Weller. Não estão nem um pouco assustados, mas na verdade os garotos, que hoje têm vinte e poucos anos, acham até bom o fato desses medalhões torcerem por eles.

O visual varia dos Beatles aos Byrds, indo do arrumadinho com terno bem passado ao mais desleixado. O som era mais blues rock no primeiro disco e evoluiu, mas sempre mantendo uma aura anacrônica e referenciando os clássicos Dr. Feelgood, The Clash, Rolling Stones, Chuck Berry, dentre outras influências. Enquanto outros quartetos de meninos de vinte anos estão por aí tocando música adolescente, estes garotos resolveram tocar rock’n’roll, punk, blues, misturando tudo isso sob uma égide garageira e a velha filosofia do faça-você-mesmo. 

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Se você, assim como eu, também acha curioso que as bandas de rock agressivas e divertidas da década passada injetaram muitas doses de bom-mocismo em seu som, perdendo a urgência tão característica, como fizeram os Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs e The Killers, vai se surpreender com o som desses garotos que têm mantido a atitude até agora, deixando transparecer até nas entrevistas um visual e uma pegada um tanto transgressora que lembra os grupos dos anos 60.

Spitting Image tem produção de Ethan Johns (Paul McCartney, Tom Jones) e parece soar um pouco mais garageiro e com uma produção menos polida que o anterior, Little Victories (2015). “(I Need a Break From) Holidays” mostra toda a veia punk, com um pouco de indie, que vai lembrar os bons momentos de Arctic Monkeys e Strokes. “Easy Riding” começa mais tranquila e chega a um refrão empolgante, total rock’n’roll. A faixa mostra como a banda trabalha bem a dinâmica, indo bem de momentos mais melódicos a outros mais cheios de adrenalina. “Turnin’ My Back” lembra bem as boas bandas punk dos anos 70, com um órgão bem articulado no fundo. “Grin and Bear it” é uma aula de como fazer uma música cool, mas com uma boa atitude roqueira. Mesmo envolvidas em guitarras agressivas e diretas, as melodias de “Behind Closed Doors” são ótimas e ficam na cabeça.

Spitting Image é um grande disco do quarteto e continua reafirmando que eles são uma boa referência para quem procura um som mais agressivo e garageiro. Em cada álbum, eles focaram em facetas diferentes, o que pode ser interpretado de duas formas: 1) Não definiram perfeitamente o som ainda ou 2) Suas influências e referências são tão amplas que eles desejaram fazer discos diferentes para explorar mesmo. O fato é que tudo soa muito bem e há uma coesão interessante entre o que já lançaram. Eles conseguem soar garageiros sem a grande produção do Royal Blood ou Black Keys, com ótimas faixas, ótimas melodias, solos e todos os outros elementos desse tipo de rock que as suas influências faziam. A evolução da banda tem sido impressionante, o som deles tem tomado forma e tem ganhando consistência, com tudo sendo feito sem muito esforço. Eles soam como o tipo de banda que chega no estúdio e não tem muitos problemas em gravar suas ideias, pois sabem exatamente o que querem.

Os jovens irlandeses captam bem o espírito roqueiro, jovial, insurgente, muitas vezes inconseqüente, que marcou os anos 50, os anos 60 com a psicodelia, os anos 70 com o punk, os anos 80 com o glam rock, os 90 com o grunge e britpop e a década passada com os revivals e o que ficou conhecido como indie rock. Os Strypes trazem todo esse panorama para o nosso tempo, mantendo a chama acesa e honrando o rock’n’roll de ontem, de hoje e de sempre.

É impossível não associar com o som dos já citados Arctic Monkeys e Strokes, que fizeram tanto alarde no cenário roqueiro mundial na década de 2000, chegando a serem chamados de “salvadores do rock”. Depois de tantos anos, a confiança nesses dois já não é a mesma, mas podemos confiar nos nomes menos esperados e que surgem com menos pretensão, mas que são honestos na hora de entregar um produto que garante uma boa experiência. Os Strypes têm isso e podem ganhar o mundo sem problemas com seu som e proposta super interessantes. Confie nesses garotos. O rock está muito bem de saúde e são jovens como estes que fazem questão de deixar isso bem claro.

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Stone Sour – Hydrograd (2017)

Peso, energia e adrenalina. Mas o problema são os refrãos

Por Gabriel Sacramento

Em uma escala Corey Taylor, como você está se sentindo hoje? Como o mau-humorado, agressivo, das máscaras e guturais do Slipknot, como o bem-humorado, de voz mais limpa, que gosta de diversificar do Stone Sour ou o Corey cool dos All-Stars e entrevistas divertidas? São muitas facetas e o cantor gosta de expor cada uma delas publicamente em seus projetos. O cara já escreveu até livros, mostrando que realmente quer ir fundo em seus dotes.

O Stone Sour é o que mais tem ganhado sua atenção e dedicação ultimamente. O que é até compreensível, visto que o Slipknot já anda com as próprias pernas e se tornou aos poucos uma marca maior que os próprios membros. Já o SS ainda está em fase de consolidação, descobertas e desafios. Sua dedicação à banda tem rendido resultados consistentes, como os dois últimos e conceituais álbuns, da série House of Gold & Bones. O som da banda está cada vez mais metálico, moderno, pesado e diverso dentro do próprio escopo.

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Conheci o grupo num show do Rock In Rio de 2011, quando vieram ao Brasil e tocaram com o baterista Mike Portnoy. Foi com “Orchids”, do primeiro álbum deles, que a banda me ganhou e eu passei a acompanhar e ouvir os álbuns. Eu, que até então só conhecia Corey Taylor dos vocais insanos de “People = Shit” e “Psychosocial”, tive uma boa surpresa ao vê-lo trabalhando ideias vocais menos previsíveis de uma forma menos rígida. Desde então, penso na banda como um projeto totalmente distinto do Slipknot – que já teve dois membros em comum – embora características similares possam ser encontradas. O disco All Hope is Gone (2009), por exemplo, tinha muito do Stone Sour e isso rendeu um resultado final bem interessante. Aliás, muita gente pode não saber, mas o Stone Sour foi fundado antes mesmo do próprio Slipknot, mas o grupo das máscaras acabou ganhando mais atenção de James Root e Corey Taylor no final dos anos 90 e alcançou um sucesso mais estrondoso.

O nome do novo disco, Hydrograd, foi escolhido porque Corey pensou ter visto a palavra escrita em um aeroporto e a achou legal. É o primeiro álbum com Johny Chow no baixo e Christian Martucci na guitarra, substituindo James Root que deixou a banda para se dedicar mais ao Slipknot. Dois singles foram lançados para promover o álbum: “Song #3” – uma faixa mais pop/rock, bem comercial, com alguns momentos que lembram as faixas do novo do Incubus – e “Fabuless”, uma porrada na orelha, com riffs afiadíssimos, vocais melódicos seguidos de gritaria gutural, uma bateria pesada e bem executada por Roy Mayorga e referências à “It’s Only Rock’n’Roll (But I Like it)” dos Stones e “Rock’n’Roll” do Led Zeppelin. Além disso, a faixa ganhou um clipe bem interessante, no qual eles aparecem tocando para bonecos de posto e no final do vídeo, os bonecos assumem o palco e os músicos aparecem na plateia – com direito à um Corey Taylor insano filmando o show do celular. O clipe foi idealizado pelo baterista há sete anos e só agora encontraram a oportunidade de gravar.

No resto do álbum temos momentos bem pesados, como em “Taipei Person/Allah Tea” e “Whiplash Pants”, com ótimos riffs e uma cozinha segura. Mas as faixas mais pesadas do álbum como a já citada “Whiplash Pants”, “Fabuless”, “Knievel Has Landed”, “Friday Knights” e a faixa-título possuem um problema: seus refrãos. O fato delas terem sempre que cair num refrão melódico acaba meio que minando as possibilidades da banda e deixando o álbum previsível demais. Esses refrãos soam um pouco forçados, pouco desenvolvidos, como se estivessem lá só para cumprir a regra mesmo e constituem o ponto fraco do conjunto. Se as partes pesadas são empolgantes do tipo que te fará balançar sua cabeça no ar, os refrãos são do tipo que te fazem desviar a atenção para checar o Twitter ou Instagram. Não funcionam bem como partes marcantes das canções.

Mas o disco tem refrão bom? Tem sim e os melhores ficam justamente nas faixas menos intensas, como “Mercy”, “The Witness Tree” e a emocionante “When The Fever Broke”. Mas além dos refrãos fracos e do peso, o grupo ainda tenta algumas coisas mais ousadas, como o flerte explícito com o country em “St. Marie”.

Hydrograd é um registro interessante de uma banda em ascensão e que sabe bem o que pode e o que quer fazer. Percebemos que eles exalavam adrenalina e energia no estúdio quando gravaram tudo ao vivo, justamente para captar mais peso e atitude, mesmo esquema usado na gravação dos EPs de covers Meanwhile in Burbank e Straight Outta Burbank.

A bateria de Roy Mayorga ganhou um destaque especial no processo de produção, soando pesada, direta e próxima ao ouvinte, como acontece quando os engenheiros utilizam microfones bem próximos dos tambores. As guitarras soam muito bem, também, com altos e precisos graus de distorção e sujeira. Taylor explora seu gutural, seus vocais melódicos e varia bem em cada nuance diferente, como fez em seus discos mais inspirados na carreira.  O produtor Jay Ruston soube muito bem conduzir a banda no processo e trabalhou com eles para definir bem as estruturas das canções e a dinâmica entre intensidade e alívio, cuidando dos timbres e da pegada.

O Stone Sour entrega peso e energia com uma riffaria precisa – capaz de deixar gente como James Hetfield e Dave Mustaine orgulhosos, inclusive – e execuções agressivas e fortes como um bom disco de metal deve ser. O problema acaba ficando nos refrãos, que impedem o álbum de ser algo fantástico e inesquecível. Ainda assim, em tempos de bandas de metal se repetindo à exaustão, enclausurando o estilo em uma enorme bolha criativa, Hydrograd soa como um bálsamo para os ouvidos cansados da mesmice, visto que eles notavelmente se esforçaram para conseguir um resultado fresco e diferente. Mesmo com alguns problemas, é um bom disco de metal.

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Vince Staples – Big Fish Theory (2017)

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Por Gabriel Sacramento

Quando perguntado sobre o novo álbum, sucessor do Summertime ‘06, Vince Staples chegou a mencionar um termo chamado afrofuturismo, que em suma, representa um conceito que combina ficção científica, histórica, fantasia e cultura negra. O George Clinton gostava de brincar com isso em suas bandas Parliament e Funkadelic, trabalhando com temas diferentes do comum e da ideia de arte mais, digamos, verossímil. Porém, numa entrevista mais descontraída, Vince disse que o álbum não seria realmente fundamentado com base nesse conceito, mas que ele apenas escolheu o termo aleatoriamente para ter algo pra dizer.

Um brincalhão, pra variar.

O novo álbum ganhou o título Big Fish Theory. E a teoria que o título trata é bem interessante. É a teoria que diz que um peixe só cresce até o tamanho do tanque que o comporta. Ou seja, ainda que cresça, não será tão grande, pois algo o limita. A ideia pode ser associada com muitas coisas, inclusive com a situação dos afro-americanos diante da falta de oportunidades para desenvolverem seus talentos e irem além. Mesmo não necessariamente desenvolvendo o tema em seu álbum, sua mensagem começa sem nem precisarmos abrir o encarte, com o título servindo de uma boa chamada à reflexão.

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O álbum contém diversos nomes na produção e participações de peso como Kendrick Lamar, Juicy J, ASAP Rocky e Damon Albarn. A ideia do músico foi de fugir um pouco do hip-hop mais comum do seu primeiro álbum e fazer algo diferente que obedecesse sua filosofia pessoal de perseguir a mudança e de não continuar buscando a mesma sonoridade. No twitter, ele logo avisou que o álbum foi feito para ser ouvido em um equipamento adequado por causa dos graves. E é verdade, junto com as influências do techno de Detroit, aquele do final dos anos 80 que tinha uma veia futurista e fria, Staples investiu em graves robustos para as bases de seu álbum, servindo de cama sólida e resistente para que ele e seus convidados passeiem livremente com raps e melodias.

A primeira faixa, “Crabs in a Bucket” já antecipa uma abordagem mais eletrônica, com a base mudando ao longo da faixa e surpreendendo pelos ótimos timbres. Aqui, percebemos que a parte instrumental ganha um destaque maior que ganharia em qualquer faixa mais comum do gênero e a sensação é que os timbres competem com os vocais pela atenção do ouvinte. “Big Fish” traz uma pegada que lembra o hip-hop de dez anos atrás, com uma letra que fala da sua vida e de como o rap a mudou para melhor. Juicy J empresta seus vocais nesta. “745” lembra o feel das faixas do Thundercat no seu álbum mais recente. “Yeah Right” surge com seus graves soberbos e profundos e ainda conta com participação da Kučka e do Kendrick Lamar. Ao longo da faixa, podemos ouvir alguns sons meio industriais bem proeminentes, que evidenciam o nível de experimentação eletrônica que Vince explorou aqui.

“BagBak” é rap em cima de samples eletrônicos bem loucos, já “Rain Come Down” é um dos poucos momentos em que temos um destaque maior para as melodias, com o Ty Dolla $ign fazendo os vocais cantados. A base segue a ideia das outras do álbum de ser totalmente fora da caixa e diferentona. Em “SAMO”, Vince fala de fazer a mesma coisa, do mesmo jeito e ter que falsificar sorriso para câmeras, apenas pelo dinheiro. O que é algo que ele diz não gostar, já que critica enfaticamente artistas que se acomodam na repetição das ideias. Nesta também temos timbres industriais bem interessantes, como vários metais sendo utilizados para gerar sons bem intrigantes.

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Com Big Fish Theory, Staples não esconde sua pretensão de virar o hip-hop de cabeça pro ar. O rapper aborda elementos da música eletrônica, indo mais profundo no uso de samples e sintetizadores, para criar algo que soa experimental, futurista e avant-garde para os nossos padrões atuais. Ele não somente coloca holofotes no próprio nome, mas chama a atenção para a possibilidade de ser extremamente criativo dentro do gênero, sem deixar de erguer as bandeiras típicas e de falar a linguagem típica.

Além de seu trabalho mais interessante, o disco confirma as expectativas de quem esperou pelo seu álbum depois de conhecê-lo quando ouviu “Ascension”, uma das melhores faixas do Humanz do Gorillaz. O feat. com certeza serviu para isso e estes ouvintes com certeza devem se sentir totalmente satisfeitos com a proposta do rapper de Chicago em seu disco – pensando diferente e perseguindo incansavelmente o som da sua cabeça, que ele mesmo diz que é impossível alcançar.

Se o Jamiroquai se destacou esse ano, misturando como poucos a frieza do eletrônico, o futurismo sci-fi e o velho groove do acid jazz, Vince Staples se destaca por misturar a frieza, o aspecto futurístico e o bom e velho hip-hop dos versos críticos e das colaborações entre amigos. Staples consegue desempenhar uma função de bom intérprete: conversar com distintos públicos de distintos lugares e convidá-los todos a consumir o seu produto. Experimentando bastante, ele segue mandando a real, sem esquecer de fugir um pouco da realidade.

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