Autor: Lucas Scaliza

Jornalista e fotógrafo.

Ariel Pink – Dedicated To Bobby Jameson (2017)

O pop pós-moderno de Ariel Pink tem charme particular

Por Lucas Scaliza

Não há como fugir do pós-modernismo na música quando você se propõe, como o Escuta Essa Review, a falar sobre a música que se faz hoje. É claro que sempre encontramos alguns puristas e algumas experiências de soar futurista, mas o que mais encontramos é uma música feita para o hoje que vem com aroma, sabor ou nostalgia de algo que já passou. É mais ou menos por aí mesmo: vive-se o hoje podendo usar tudo o que se tem à disposição, não importa se são canções que remetem a 1974 feitas com guitarras Fender 1969, gravadas em estúdios reformulados nos anos 90 e com uma moderna mesa de som de 2011.

Dedicated To Bobby Jameson leva a sério tudo isso e faz um pop espetacularmente vívido e feliz, soando como uma bomba temporal onde o brega e o kitsch dividem espaço com o indie sofisticado e o rock alternativo. Ariel Pink, ao que parece, tenta saturar ainda mais as cores dessa vez do que com pom pom (2014), criando um borrão musical bastante divertido e despretensioso.

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“Feels Like Heaven” talvez seja a faixa mais tradicionalmente pop do disco e não à toa é o single. Mas “Another Weekend”, que carrega um pouquinho mais na experimentação (inclusive mudando de 4/4 para ¾, além de acrescentar uma série de psicodelias), também é single do disco. “Kitchen Witch” é um desses momentos que parece que a qualquer momento descambará para um experimentalismo surreal arieliano, mas segue até o fim bastante acessível. Já “Acting” traz batidas e baixo que se adaptaria muito bem no repertório de Thundercat. Há ainda o poder anarcorroqueiro de Pink em “Time To Live” e uma série de canções psicodélicas e animadinhas, como “Dreamdate Narcissist”, “I Wanna Be Young” e a faixa-título. Mas nada se compara a abertura com “Time To Meet Your God”, faixa que parece uma releitura de algum progressivo de 1977, mas com os sons consagrados da década seguinte.

Já o Bobby Jameson a que o título se refere foi um músico real de Los Angeles que passou 35 anos recluso e, por isso, dado como morto, mas que ressurgiu na internet em 2007 após abrir um blog e um canal no YouTube para contar as tragédias de sua vida. Jameson morreu em 2015, tornando-se mais um personagem da cidade e uma lenda urbana musical. Ariel Pink ficou tão comovido com a vida e a situação do conterrâneo que sentiu a necessidade de dedicar seu próximo disco a ele.

Esse é o estilo do californiano Ariel Marcus Rosenberg desde sua estreia, juntando o que foi o pop, o que é o indie, o que pode ser o rock em uma coleção de músicas que fazem parte da cultura hipster. Pink é hipster e totalmente consciente disso. Dedicated To Bobby Jameson é uma realização não maior ou melhor do que pom pom, mas mantém o cantor e compositor na dianteira dessa intersecção do pop com o rock que é tão peculiar ao ser esquisito e comercial ao mesmo tempo. Pós-moderno, afinal.

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Capitão Nemo – Bon Voyage (2017)

Quinteto de Piracicaba (SP) aborda questões sociais atuais sem perder a fluidez do rock vintage

Por Lucas Scaliza

Em Piracicaba, cidade do interior de São Paulo onde a música sertaneja é rainha, o rock ainda é crítico. E lírico. Bruno Razera (vocal), Denis Floriano e Matheus Fagionato (guitarras), Caio Mendes (baixo) e Otavio Bacchin (batera) são a atual formação da banda Capitão Nemo. Bon Voyage, produzido por Claudio Sanchez Vicente, aposta em canções de rock que visitam décadas passadas enquanto as ideias e mensagens são reflexo atualíssimo de nossa realidade.

Embora “Palavra de Ilusão” e “Mais Valia” tenham cara de single, pois são músicas facilmente alinháveis à tradição do rock/pop brasileiro (inclua aí de Titãs a Skank), a banda Capitão Nemo mostra do que é capaz tecnicamente e criativamente a partir da terceira faixa: “Quero Sim” tem riffs à Jimmy Page, um refrão infalível e mudanças de ritmo fluidas que lembram os melhores momentos do Tianastácia. Em seguida, “Otário ou Visionário” é um passeio por tantas referências que deixo para os ouvintes pescarem o que quiserem de lá. Dá pra adiantar que a banda faz bem uma mistura de violão MPB, com acordes com crunch, ponte com acordes que dão um efeito de suspensão da gravidade e participação bem encaixada do teclado.

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Enquanto álbum de rock, Bon Voyage aposta em um meio termo sonoro: não é acelerado como o Rebel Machine (falamos dessa banda gaúcha neste podcast) e nem aposta em um som encorpadíssimo como o do Ego Kill Talent (resenhado neste podcast). A distorção existe que no disco todo, mas bastante comedida, com o knob do pedal regulado conscientemente em um grau suficiente para tocar em rádios sem assustar ninguém. Ou seja, Bon Voyage é um disco que tem sim qualidades comerciais sem precisar abrir mão da identidade roqueira.

Se a julgar pelas duas primeiras músicas do disco parecia que o quinteto piracicabano tendia para canções mais protocolares, as oito seguintes mostram que não: misturas, referências acertadas (que vão de Led Zeppelin à The Doors), técnica a serviço da musicalidade e não da exibição. Se me dissessem que “Pseudolgum Lugar” é uma composição feita entre 1967 e 1969 eu acreditaria. E a riqueza de arranjos dessas oito músicas e uma boa quantidade de solos destoam do que é feito no rock/pop atualmente, já que a maior parte das bandas de rock – ou o que sobrou delas que ainda tocam em rádios – preferem dar ênfase em suas músicas mais padrão. E o padrão já faz alguns ano é não ter solo de guitarra e nem variar muito no ritmo ou dinâmica, duas coisas que Capitão Nemo faz e eu os saúdo por isso!

Bruno Razera, cantor e principal compositor do grupo, mostra que Capitão Nemo não é uma banda apenas de entretenimento. Os temas de suas letras passam longe do amor juvenil ou da angústia mais dramática de um millennial. Vamos percebendo essa qualidade no jeito de abordar assuntos faixa após faixa, mas quando chega a balada “Joe”, rica em violões e com uma das melhores performances vocais de Bon Voyage, vemos que Razera segue uma linha de autor como a de Nando Reis, do tipo que te fisga com versos certeiros e desenvolve uma história com a qual fica difícil não se envolver caso você preste atenção no que está sendo dito. Dá até para descer até o Rio Grande do Sul e encontrar uma intenção parecida com a de Humberto Gessinger em músicas que refletem sobre nossa injusta sociedade.

O teclado não é onipresente, porém é notável quando aparece. Em “Minha Pequena” ele não só consegue algum protagonismo como também exibe um timbre vintage oitentista que remete mais à MPB do período do que propriamente ao rock. Já “Dama de Vermelho” é a composição mais suja do disco, com riffs carregados de fuzz e pegada roqueira clássica.

Bon Voyage é um ótimo primeiro álbum. Preocupado com as letras e com os arranjos, não deixa de ser rock ao mesmo tempo em que deixa claro que tem mais que rock no seu mix de referências. Numa época de golpes políticos e notícias reais que parecem fictícias, Capitão Nemo faz uma viagem pra psedolgum lugar e espera que você enxergue o que está a sua volta de forma mais crítica, que tenha empatia pelos Joe que encontrar no caminho e que, acima de tudo, não perca a esperança e nem a vontade de viver.

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HAIM – Something To Tell You (2017)

Sound City sem as carreiras de cocaína

Por Eder Albergoni

Imagine o pop de FM verdadeiramente conflitante, indo além de briguinhas de ego e declarações infantis de suas estrelas principais, sobre relações amorosas fracassadas ou amizades falsas e aproveitadoras. A óbvia contradição nos impede o exercício pleno. É preciso recorrer a referências mais antigas, algo que foge das notícias de fofoca em sites de internet. O pop em questão, que se fortalecia em quebrar padrões e subir a barrinha da relevância para marcas maiores que o clichê de fãs ensandecidas que não deixavam jovens ingleses com ridículos cortes de cabelo cantarem direito suas musiquinhas, tinha
roupagem rock, descolada e um representante perfeitamente estabelecido em nossa visão. Rumours, lançado pelo Fleetwood Mac em 1977, é nosso objeto de comparação, desejo e conflitos latentes.

Hoje já não é preciso chocar a sociedade profanando o sagrado com modelitos provocantes, nem conceber discos com letras censuradas por conter palavrões ou insinuações sexuais, e muito menos sofrer de uma doença que muda a cor da sua pele.
Bandas e artistas fizeram, ao longo do tempo, discos repletos de drogas, sexo e postura moralmente questionável, segundo certos preceitos adquiridos em momentos de conservadorismo mais evidentes. Mas isso tudo é chover no molhado. O pop em si era sinônimo de qualquer coisa abaixo da média estabelecida como padrão e geralmente tido como certificado de qualidade. O pop combatia isso. Primeiro contestando em sua vertente punk e aumentando o espectro da atitude rock’n’roll. Depois afirmando movimentos de contracultura e grupos de minorias. O Fleetwood Mac transitava por tudo isso, e mais ainda quando criou Rumours.

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Acontece que o pop se atualizou e existem tantas ramificações sonoras que é impossível classificar bandas, artistas e estilos em nomenclaturas, mesmo que isso as identifique como tais representantes daquilo que servem em seus cardápios musicais. Aquilo: passamos a consumir música. Estamos menos empenhados em sentir o que ouvimos, pra elencar a quantidade do que ouvimos. Só que certos momentos nos puxam de volta à história. A música como era nas entranhas, na pretensão de transcender a física e as leis
divinas, na emergência demorada de experimentar uma obra específica como se fosse o elemento necessário e único pra garantir a sobrevivência humana. Rumours era sobre altos e baixos da vida.

A gente já concluiu de régua passada que nada mais pode ser clássico, ou ter vida longa, nesse modelo de consumo onde discos são lançados de semana em semana como filmes que lotam salas ao redor do mundo tão somente pra bater recordes de bilheteria. Eis que um sopro, um frescor, uma fagulha, uma palma no meio da multidão, um grito na cara de qualquer imbecil nasce. Nós esperávamos, sabíamos de onde viria e… voilà! A expectativa bem-sucedida desses nossos tempos nos brinda com um disco que é muito mais que só outro bom lançamento totalmente substituível na semana que vem.

Something To Tell You tem 100% de Rumours em seu DNA. Recorre intimamente às soluções sonoras e tenta ao máximo reproduzir, não imitar, os feitos técnicos. O disco é a soma dos quatro anos de experiência desde Days Are Gone (2013) com a empreitada da produção dividida, aspecto que parece ter virado o mais usual no que de mais contemporâneo existe nesse ramo. É preciso lembrar o que o disco do Fleetwood Mac significou na história da produção sonora. Gravado em vários estúdios, mas finalizado no lendário Sound City, se tornou um marco e direcionou a arte pra novos rumos, ideias e soluções pra usar tecnologias emergentes.

Mas o componente mais importante nunca deixou de ser o conflito entre a banda e o mundo. Neste segundo álbum, as Haim mostram maturidade, palavra que não pode ser outra pra definir a relação com o presente, e fogem de qualquer coisa que as aproximem de seus pares. Nada em Something To Tell You é banal. Nem imprime  formas polêmicas com o intuito de criar interesse. Argumento nenhum é desperdiçado. Nenhum discurso é inflamado. E mesmo assim o disco desenha o tempo a que pertence, ainda que “Nothing’s Wrong” nos confirme a comparação descarada com Rumours.

A fórmula usada em Days Are Gone aparece como recurso, nunca como repetição. Há uma evolução muito clara, tanto no aspecto musical (ouça “Kept Me Crying”. Danielle Haim empunhando a guitarra nos faz pensar em coisas pouco ortodoxas e suscitar o profano sobre o sagrado), quanto no aspecto pessoal. Porque tudo parece bem resolvido, ensolarado e aparado, há uma alegria desconcertante em seus shows e apresentações, e nada disso parece pop o suficiente para ser estragado. A principal virtude de Something To Tell You é replicar conflitos atuais, mesmo que pareçam menos importantes, sobre a alma de um disco de 1977 e conseguir ser um disco livre e completamente independente de datas. Um disco de, e para, todos os tempos.

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Japanese Breakfast – Soft Sounds From Another Planet (2017)

O synthpop garageiro de Michelle Zauner fica ainda mais legal

Por Lucas Scaliza

De todas as coisas que deixamos passar em 2016 (como o lindo Kodama do Alcest, um disco da Emma Ruth Rundle, e muito do que rola no Instagram do Escuta Essa Review), com certeza me arrependo de não ter falado de Psychopomp, a estreia de Michelle Zauner solo, sob a alcunha de Japanese Breakfast. Ela deixa o emo do Little Big League para lá e abraça um som que fica entre o “deixa-que-eu-mesma-faço-minhas-coisas” de uma Courtney Barnett e a produção indie pop cheia de teclados do Little Dragon (que é uma banda sueca liderada por uma descendente de japoneses, e apesar do nome do projete, Zauner descende de coreanos).

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O caso é que Psychopomp é uma gracinha de disco, suave como um synthpop e com atitude roqueira. Faixas curtas que se entrelaçam muito bem e fazem o álbum soar quase como uma única peça musical. Soft Sounds From Another Planet segue a mesma receita, mas melhor e mais exploratório. “Diving Woman” já abre o álbum com quase tudo o que ela tem: uma interpretação vocal emocional, mas não dramática, solo de guitarra noiser, teclados estranhos, linha de baixo contagiante. E nada forçado, tudo descendo pelos tímpanos com naturalidade.

Embora o estilo sonoro seja o mesmo do álbum anterior, fica evidente a melhora na qualidade de gravação e mixagem. Em diversos momentos de Psychopomp parecia que a voz de Michelle Zauner estava “descolada” da música, como uma cena em que a cena entre um ator e um fundo de chroma key parece mal recortada. Havia até um charme meio indie, meio punk nisso, mas agora está devidamente corrigido.

Músicas como os singles “Boysh” e “Road Home” (que tem um ótimo clipe, aliás) definem muito bem quem é e como é o Japanese Breakfast. Música levemente new wave, com melodias e melífluas e aquela doçura que é misto de melancolia e fofura indie. Já “Machinist” e “Planetary Ambience” carregam a artista um pouco mais para o território da música eletrônica. Já “12 Steps” volta a mostrar sua veia mais relaxada e roqueirinha. E lá no fim do álbum ela fica bastante sentimental com a beleza clean de “Till Death” e o folk árido de “This House”.

Ela não perde a mão – e nem a vibe – em momento algum, expandindo a gama de sonoridades que já estavam no disco do ano passado. O que já era bom, ficou ainda mais legal em SSFAP. Embora rico em sons e ambiências, não é um disco que parece distante do ouvinte, como a jornada espacial-folk-experimental de Sufjan Stevens e tchurminha no recém-lançado Planetarium. É como se Michelle Zauner, cantando com o despojo de “Body Is A Blade”, fosse sua amiga. Ela te entende e espera que você também veja a sinceridade de sua melancolia good vibes.

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Jay-Z – 4:44 (2017)

Rapper mostra lado mais vulnerável e faz hip hop com samples de rock progressivo e balanço

Por Lucas Scaliza

Um disco novo do poderoso Jay-Z, originado de uma polêmica marital lançada pela poderosa esposa, Beyoncé, em seu Lemonade, só poderia chegar carregado de significados e pretensões. A começar pelo título. Capítulo 4, versículo 44? De que livro? De qual evangelho? O Evangelho segundo Shawn Corey Carter? Pode muito bem ser a sua versão dos fatos, embora a história “oficial” diga que o rapper acordou um dia às 4h44 e escreveu a faixa-título do disco e depois gravou os vocais em casa mesmo, usando o microfone da esposa.

Embora faça referências suficientes ao Lemonade para ser considerado um álbum de resposta, 4:44 acaba falando de outros assuntos que não tem a ver com a dinâmica do casamento. Porém, sabemos que um disco de Jay-Z levaria algum tempo para ficar pronto e contaria com um time de produtores e participações. Mas 4:44 foi feito de uma forma mais despojada, contando apenas com o bom trabalho do produtor No I.D. e produção adicional do próprio Z. Ou seja: é um disco feito para ser a contraparte de Lemonade. Caso o disco que Beyoncé lançou em 2016 não existisse, aposto que o novo de Jay-Z seria uma besta completamente diferente.

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Não são os 36 minutos de música mais inspirados que o rapper já produziu, mas é interessante mesmo assim. Para começar, ele confia demais em samples, mesmo o hip hop dos últimos anos tendo se distanciado dessa fórmula (Kanye West é uma exceção). Daí temos dois samples de Nina Simone (em “The Story of O. J.” e “Caught Their Eyes”), Steve Wonder (em “Smile”), Funk Inc. e Sister Nancy, entre outros. Já as participações especiais de vulto se resumem a Damian Marley, Frank Ocean e a esposa.

A princípio, No I.D. recusou o trabalho com Jay-Z dizendo que não tinha boas ideias para contribuir. Mas acabou encontrando inspiração em discos importantes de Marvin Gaye, Nas, Kanye West e o próprio clássico The Blueprint, de Jay-Z. Daí então um novo senso de hip-hop floresceu e, de fato, a maior contribuição de 4:44 para o estilo neste momento é utilizar o swing para um hip-hop que soe tanto alternativo, com boas levadas quebradinhas (“Caught Their Eyes”, “The Story Of O. J.” e a ótima “Legacy”), batidas profundas e suaves (“Smile”) e boas construções de harmonia (“Kill Jay Z”), como também dançante e cheio de balanço (“Marcy Me” e “4:44”). O álbum também vai e volta no tempo, ora nos dando texturas modernosas, ora nos jogando ao passado reinterpretado pelo hip hop way. Samples de instrumentos de sopro também aparecem aqui e acolá para dar uma mexida nas coisas e entregar uma textura ainda mais diferenciada do que o rap de 2017 já viu.

Uma das inspirações de No I.D. foi justamente o ambicioso My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), de West. E assim como West abriu o disco com uma canção que sampleava a banda de inglesa de rock progressivo King Crimson (um tanto obscura para o público de hip hop americano), 4:44 se utiliza da obra do grupo de música experimental e progressiva Alan Parsons Project (na faixa inicial do disco) e pedacinhos da música “Todo o Mundo e Ninguém”, do grupo de rock progressivo português Quarteto 1111 (em “Marcy Me”, outra das melhores do álbum).

Talvez seja um dos discos mais pessoais de Jay-Z. Falar sobre família, assumir erros e dizer que pretende se acertar na vida publicamente não é para todos, mas nem de longe é algo que só ele faz. A história da música está cheia de álbuns reveladores e íntimos, só não tínhamos visto Jay-Z ainda sob uma lupa tão apurada (e dá-lhe Lemonade mais uma vez, que é essa lupa no final das contas). Ainda assim, é um passo à frente para ele como homem, marido, pai e músico. 4:44 não é o seu melhor trabalho, mas deixa boas faixas, ideias e novas referências na discografia.

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Anathema – The Optimist (2017)

Ingleses acertam na atmosfera, mas não superam o álbum de 2001 que originou a história de The Optimist

Por Lucas Scaliza

Acima de qualquer opinião que possamos ter sobre The Optimist, novo disco da banda Anathema, é importante lembrar que os ingleses estão em uma ótima fase marcada pela maturidade e autoconsciência musical. Depois de nos encantarem com as forças da natureza e Weather Systems (2012) e com as harmonias espaciais de Distant Satellites (2014), resolveram apostar basicamente no que já estava dando certo, mas gravando de uma forma diferente.

O que estava dando certo – e continua muito bom, aliás – são as composições em ciclos. Basicamente, grande parte das músicas do Anathema vem sendo pensadas como uma ciranda, em que o mesmo esquema harmônico se repete às vezes ao longo de uma faixa inteira. E então temos o golpe de mestre: a variação dinâmica. Foi assim com os dois últimos discos e havia sido assim com diversas músicas mais antigas. The Optimist não foge à regra e nos emociona fazendo com que uma faixa comece em um patamar, chegando ao seu final (ou perto dele) de forma épica, com toda a banda tocando bem alto, com arranjos mais fortes, como uma orquestra que começa em piano e termina a mesma sequência de notas e acordes em fortissimo. A roqueirinha “Leaving It Behind”, a mais eletrônica “San Francisco” e a incrível “Springfield” são exemplos disso. Esta última, aliás, belamente cantada por Lee Douglas, parte de uma balada e chega a soar como uma explosão estelar em seu auge.

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Mesmo quando não apostam na mesma harmonia cíclica, apostam em crescendo. “Endless Ways” – com guitarras de Daniel e Vincent Cavanagh que lembram desde Mogwai até U2 – é outra que eleva a dinâmica, transformando qualquer música aparentemente meditativa em uma pedrada roqueira. E o mesmo acontece com “The Optimist”. E com “Can’t Let Go” também (a mais inglesa do disco). E com “Wildfires”. “Back To The Start”, idem. Como se vê, é um recurso usado a exaustão. A questão é que isso tanto é previsível quanto continua sendo emocionante de verdade. Daniel Cavanagh, o mastermind por trás da estrutura da maior parte das músicas da banda, é um mestre nesse esquema e mesmo se repetindo consegue fazer boas músicas. Mas que The Optimist acaba soando manjado a certa altura, soa mesmo.

A novidade de The Optimist é que o sexteto gravou grande parte das instrumentações ao vivo no estúdio Castle Of Doom, na Escócia, todos juntos de uma vez só (as vozes foram gravadas separadamente). Principalmente o baixo de James Cavanagh e a bateria de Daniel Cardoso e John Douglas soam realmente menos processados e mais “ao vivo”, com uma pegada que qualquer fã de rock e metal vai reconhecer de shows. As guitarras também foram beneficiadas, principalmente porque soam mais secas e viscerais do que em todos os últimos discos da banda (a parte final de “Wildfires” não me deixa mentir).

Tony Doogan foi o produtor contratado e que realmente deixa sua marca na banda. Conhecido por produzir outras duas bandas escocesas, os pot-rockers do Mogwai e os indies Belle And Sebastian, ele não mexeu na estruturação que dá cara ao som do Anathema, mas no que se refere a criar ambientações sonoras (com teclados, sintetizadores, equipamentos eletrônicos e orquestrações), pôde criar uma identidade realmente mais ambiente rock do que em Weather Systems e Distant Satellites. Se o álbum de 2012 era mais força da natureza e o de 2014 mais imensidão espacial, The Optimist deriva mais de uma mente urbana.

As letras, em grande parte, são menores do que antes, o que indica uma preocupação muito maior com a atmosfera do ambiente e não com a história que se pretende contar. Afinal, The Optimist é uma continuação da história de A Fine Day To Exit (2001), que acho, inclusive, muito mais diverso, criativo e, no geral, melhor que sua continuação. Aliás, durante a campanha de divulgação do novo disco, a banda afirmou que seria a coisa mais “dark” que já fizeram. Isso com certeza não é verdade. “Underworld”, “Pressure”, “Panic”, “Breaking Down The Barriers”, todas lá de 2001, são muito mais pesadas e com harmonias mais “dark”.

Não é o melhor disco da banda e nem fica acima dos celebrados dois últimos lançamentos. Tentaram unir o Anathema roots com o Anathema bem produzido da última década e conseguiram um disco legal, mas longe de penetrar na alma e no coração do ouvinte por muito tempo.

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Escuta Essa 37 – Os 15 Melhores Álbuns do Ano Até Agora

Chegou a hora de elegermos os 15 melhores discos lançados neste primeiro semestre de 2017. Após uma criteriosa avaliação de tudo o que foi resenhado no site e nos podcasts passados (indicações do Instagram não valem), Lucas Scaliza, Gabriel Sacramento e Brunochair explicam porque cada um merece estar nesta lista.
E o que o Antonio Fagundes tem a ver com isso? Amigo, só mesmo ouvindo este episódio para entender. Vale a pena!

Download do episódio neste link!

PLAYLIST: Não deixe de conferir nossa playlist do Spotify com as 15 músicas dos 15 melhores álbuns e mais 15 músicas que achamos incríveis lançadas neste primeiro semestre.

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