Autor: Lucas Scaliza

Jornalista e fotógrafo.

Saturndust – RLC (2017)

Doom metal brasileiro te leva para um planeta inóspito e oxigena a cena nacional

Por Lucas Scaliza

RLC é heavy metal como quase não se faz mais. É psicodelia cinematográfica. A textura é comparável a de um videogame espacial cheio de exploração e tensão. É um álbum longo que deixa as guitarras reverberam com distorções pesadas e delay, sem ansiosidade para emendar um riff atrás do outro. A voz narra e grita, os riffs são pespegantes e há sintetizador de sobra para nos transportar para outra dimensão, tão misteriosa quanto ameaçadora. “Astral Dominion”, por exemplo, vai fazer você lembrar daquele Black Sabbath lá do início, quando peso podia ser lento, dando tempo para você saborear cada nota antes de ser jogado em uma espiral de porradaria.

Saturndust é uma banda brasileira de doom metal composta por Felipe Dalam (guitarra, sintetizador e vocal), Guilherme Cabral (baixo) e Douglas Oliveira (bateria). A gravação de RLC ocorreu no estúdio Costella, em São Paulo, com o produtor Gabriel Zander. Nas palavras de Dalam, o resultado é uma música que transmite “sinais de vida não terrestre codificados em um drone/doom experimental do desconhecido.” Por tanto, tome cuidado com o que pretende ingerir antes de embarcar nessa nave.

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E não haverá faixa mais alienígena que “Rlc” em 2017. Nem mesmo o novo filme de ficção científica e horror da série Alien tem uma trilha tão bem ajustada ao tema. O que esse trio faz é misturar o moderno e o antigo de uma forma que realmente incomoda, mas daquele jeito bom, que te deixa curioso.

Chegar ao fim de Rlc também exige paciência, por isso a melhor forma de apreciar o disco é tratá-lo como uma música ambiente que você deixa rolando e se entrega à atmosfera que ele propõe. A viagem é recompensadora, garanto, pois “Saturn 12.C” é belíssima, como é, afinal, toda a devastação causada pelo trio ao longo de seis faixas – das quais cinco vão da marca dos oito aos 12 minutos de duração.

RLC é um disco raro. Acredito que, além da ideia geral que norteou o trabalho, foi preciso muita coragem dos três músicos e habilidade do produtor para se manterem no caminho até o fim, se nunca, em faixa nenhuma, pensarem em fazer algo mais acessível (em termos metaleiros, é claro). O que o Saturndust faz é prova da liberdade criativa da banda, coisa que grupos melhor consolidados e visados do país não arriscariam fazer. Como diria um jovem metaleiro americano: “RLC isn’t your average metal album”.

Provando evolução pessoal e oxigenando o cenário nacional a uma só tacada, a banda também foi recompensada com a escalação para tocar no festiva Psycho Las Vegas este ano, ao lado de bandas como King Diamond, Carcass, Mastodon e Neurosis. É o único grupo brasileiro da longa lista de participantes.

Assim, RLC deve ser presença obrigatória em qualquer lista de melhores do ano focada em rock e metal. Passará vergonha quem não separar um espaço para enaltecer o Saturndust em 2017.

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Escuta Essa 32 – Nostalgia MTV

Você assistia à MTV? Ou o sinal não chegava até sua TV? Como você conhecia novas bandas?
Brunochair, Gabriel Sacramento e Lucas Scaliza batem um papo com Pedro Molina (Ferozes FC) para discutirem a importância da MTV Brasil em suas formações e descobertas musicais, mas percebem que videogames, o programa Alto Falante (Rede Minas) e groupies foram também importantes nesse processo. A discussão partiu do documentário A Imagem da Música – Os Anos de Influência da MTV Brasil (assista de graça, link abaixo).

Neste episódio tocamos músicas novas de:
Lana Del Rey
Mallu Magalhães
alt-j
Saturndust
Muse
Foster The People

Documentário MTV:

 

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Blondie – Pollinator (2017)

O Blondie não é só a banda mais charmosa do planeta

Por Eder Albergoni

Vamos direto ao ponto: Pollinator nasce absolutamente clássico! O 11º disco de estúdio do Blondie é uma pérola do rock, sensual e divertida. Já não bastasse o charme de Debbie Harry, a banda se cerca de vários nomes de peso, seja na composição, produção ou participações nas faixas.

Tudo começa com Joan Jett nos vocais de “Doom or Destiny”. A música tem todo o poder e a energia que só poderíamos associar à runaway preferida. E o pé na porta se enfatiza nos solos de guitarra de Chris Stein e Nick Valensi. “Long Time” remete diretamente à “Heart Glass” e ao glam rock como um todo. Debbie conta com a ajuda de Dev Hynes, conhecido como Blood Orange e que já contribuiu com Solange, Sky Ferreira, Florence + The Machine, na composição. A maravilhosa trinca de abertura se completa com “Already Naked”. A música tem contornos espaciais e uma montagem atraente pra dançar.

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“Fun” tem composição de Dave Sitek do TV on the Radio e é perfeita para a pista. Leva um swinguinho gostoso e um certo erotismo que atinge especialmente o quadril. Já “My Monster” foi escrita por Johnny Marr, que não necessita de apresentações, e traz um ótimo arranjo de teclados e sintetizadores. É outra que cai muito bem no tapete da sala. Johnny também aparece com sua guitarra em vários momentos do disco, dando peso, base ou linhas harmônicas nas quais ele é fera.

“Best Day Ever” é a contribuição da Sia e, outra vez, do strokeano Nick Valensi. Talvez seja a faixa mais normalzinha do álbum. “Gravity”, composta por Charli XCX, também não traz nada de especial, mas firma o disco como um trabalho dançante, vivo e capaz de provocar sensações quase íntimas, se tratando de música e da voz de Debbie.

Como prova “When I Gave Up on You”, uma baladinha bem mais contida, explorar a sutileza rasgante da voz de Debbie é sucesso certo. É uma passagem perfeita pra “Love Level”, com participação do ator e comediante John Roberts e da street band What Cheer Brigade numa ótima construção no arranjo dos metais. Outra prova de como Pollinator é um disco vibrante e divertido.

“Too Much” é uma clássica canção do Blondie e funciona muito bem em todos os aspectos. É um resumo de todo o disco e parece confirmar a imponência e a relevância da banda, que não satisfeita encerra o baile com uma das melhores músicas da discografia inteira. “Fragments” tem ares colossais. É um rock de 7 minutos e uma perfeita obra sonora que, apesar de não refletir o rumo tomado no disco, guia como um farol o horizonte do grupo.

A culpa disso tudo é de um cara chamado John Congleton. O produtor acertou em cheio ao usar a experiência da banda a favor de um trabalho inteligente ao extremo. Além do mais, conseguiu capitanear uma extensa lista de nomes com coerência e eficiência. E a gente pode, sem exagero, classificar Pollinator como o melhor álbum do Blondie.

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Linkin Park – One More Light (2017)

Disco suave e pop, com produção pouco criativa e um cantor que deixa clara suas limitações

Por Lucas Scaliza

O segredo para curtir One More Light é ouvi-lo como um disco de pop eletrônico comum, como se fosse o primeiro de uma nova banda. Caso você se lembre que quem assina o disco é o Linkin Park, e que já é o sétimo álbum da carreira deles e o mais diferente de todos, a chance de embrulhar o estômago é grande.

Não é que as músicas sejam ruins. Quer dizer, “Heavy”, “Invisible” e “Halfway Right” estão entre as piores canções que a banda já fez, mas “Nobody Can Save Me”, “One More Light” e “Good Goodbye” (que tem participação de Pusha T e Stormzy, mas parece música pop do Jay-Z) têm alguma dignidade. Outras caem na grande vala do lugar comum.

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O principal crime de One More Light não é ter trocado o rock ou eletro-rock pelo pop radiofônico, mas constituir-se de sonzinhos e texturas da moda que outros artistas já utilizaram muito tempo antes. “Sorry For Now” parece uma faixa não utilizada por Justin Bieber e “Talking To Myself” coloca uma guitarra para disfarçar que a faixa tem todo o jeitão de eletrônico topzera do David Guetta. “Sharp Edges”, com violões, é a coisa mais fofuxa do disco. Só faltou o ukelele. “Battle Symphony” não tem pressão suficiente e acaba soando açucarada demais no refrão.

Chester Bennington nunca foi um incrível vocalista, mas fazia um trabalho bastante competente ao interpretar as músicas da banda com agressividade, suavidade e emoção, de acordo com o que cada parte das faixas pedia. Neste sétimo álbum, tudo precisa soar mais frágil e mais limpo, e sua voz simplesmente perde o brilho em 80% do trabalho. Caso ouça sem lembrar que se trata do Linkin Park, vai perceber como o vocalista é limitado, mas OK para um primeiro álbum. Mas se se recordar de “Breaking The Habit”, “Faint”, “Numb” e “Crawling” quase tudo em One More Light vai parecer trilha de série adolescente de 24 episódios por temporada que evita qualquer contradição a todo custo.

Há guitarras no trabalho? Há, mas pouco usadas para manter o som característico dos outros álbuns. É importante considerar que a banda foi muito pesada em seu início nu metal, depois entrou em uma fase com maior proeminência dos elementos eletrônicos, e voltou com tudo ao rock pesado e punk no ótimo The Hunting Party (2014). Ou seja, não é como se a banda não tivesse mudado nunca. Porém, a falta das guitarras de Brad Delson farão qualquer fã de verdade do Linkin Park olhar desconfiado para One More Light – enquanto fãs de eletropop radiofônico e redondinho nem vão se dar conta de que esta é uma banda cujo primeiro single, antes ainda de “In The End” estourar, tinha um refrão hiperpesado e intenso, de fazer a molecada sentir a angústia e querer cortar os pulsos 17 anos atrás.

Delson e Mike Shinoda assinam a produção do disco mais uma vez. Shinoda deixa claro que ouviu de Martin Garrix a Skrillex, de Justin Bieber a Halsey, e copiou todos os sonzinhos que são parte da tendência, sem nem mesmo tentar transformar essas ideias em algo que tivesse a cara do Linkin Park. Como cantor mais melódico, Bennington segura as pontas, mas chega uma hora em que fica muito evidente sua limitada capacidade de entregar algo mais ao público. Sorte dele que as músicas são todas bem básicas.

One More Light também é lugar comum como obra em que a banda tenta trabalhar com mais contribuições e participações. Nenhum dos convidados é desafiado a apresentar algo diferente e que acrescente algo a suas discografias, carreiras ou a experiência do ouvinte. O que vemos de Kiiara, Pusha T, Stormzy e todos os outros backing vocals e instrumentistas convidados são apenas mais um “feat.” preguiçoso como 90% dos outros que já pululam por aí todas as semanas.

Das 10 faixas, talvez apenas as duas últimas não sejam boas para o rádio. Se era isso que queriam – como se precisassem sacrificar a identidade por mais popularidade – conseguiram. Contudo, o problema não é o Linkin Park fazer um disco pop. O problema é fazer pop de qualidade e originalidade muito discutíveis.

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Fastball – Step Into Light (2017)

Disco resgata os anos 90 como se fosse um seriado daquela década

Por Eder Albergoni

Você pensava que os anos 90 estavam enterrados e que algumas de suas bandas também? Pois bem, não é bem assim. Depois de oito anos, o Fastball lança um novo disco e, com ele, traz um bocado do gostinho noventista. Muito embora soe apenas como mais uma banda limitada, encrustada na reviravolta indie nos anos 2000, Step Into Light revive uma década rica em descobrimentos e potenciais épicos que nunca se comprovaram e menos ainda se adaptaram aos novos dias.

O disco começa com “We’re On Our Way” instigando com um riff mais stoner, logo desmentido pelo tom noventista já citado. O pop de guitarras comanda, ouvimos palminhas nos solos, o refrão é chicletinho e um sintetizador anuncia a festa em que o disco se meteu.

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“Best Friend” é o ponche batizado enquanto na piscina a paquerinha dá seus mergulhos provocantes, o sol ilumina o cenário como uma série adolescente, a trilha sonora nos arranca da perspectiva e servimos de argumento pro roteiro. Se você esteve lá nos 90’s de alguma forma, vai perceber. Se não, resta imaginar.

“Behind the Sun” parece deslocada, fora da ordem natural que a banda já estabeleceu. Mas apesar disso, é só angústia, como seria tristeza se fosse a Legião Urbana. A baladinha no violão, emulando momentos mais tensos e até experimentais de bandas contemporâneas, simplesmente baixa a pulsação do disco, que depois segue o caminho original com “I Will Never Let You Down” e “Love Comes in Waves”.

“Step Into Light” é mais séria e mais folk. A harmonia das vozes é um destaque bastante positivo. “Just Another Dream” é o sonho pop do sucesso e do single que explode na rádio. É a que mais se aproxima da grande música feita pela banda. É possível visualizá-la como parte da coletânea As Mais Mais da Pan lançada junto com a revista mensal da rádio. “Tanzania” é instrumental e ressuscita a vertente surfer dos anos 90, muito característica de Tom Scalzo, nascido em Honolulu no Havaí.

A parte final de Step Into Light fica enfraquecida igual uma festa que acaba cedo. Ainda que caiba destaque pra “Lilian Gish” e “Frenchy and the Punk”, que encerram o episódio da tal série adolescente com um cliffhanger sobre um futuro não muito distante, onde as coisas mais legais daquela época vão ficando ultrapassadas e bregas.

É possível reconhecer a influência de outras bandas conforme o disco toca, quase como um pedaço arrancado de lá e refeito aqui pra ganhar uma cara mais atual. No fim, esse é o tchan do Fastball. Os anos 90 é um traço marcante demais pra ser deixado pra trás e, na falta de coragem de outros, o Fastball mantém o espírito vivo.

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Escuta Essa 31 – Harry Styles é a Melhor Surpresa do Ano?

Harry Styles – fora do One Direction e em carreira solo agora – surpreendeu a todos com seu primeiro álbum e discutimos o que ele faz de bom e discutimos: é cocaína ou não é? Não sabe o que a droga tem a ver com a música dele? Mais um motivo para ouvir este podcast.
Falamos também do novo single da banda Astronauta Marinho (de Fortaleza) e conversamos sobre Crack-Up, novo disco do Fleet Foxes, After Laughter, do Paramore, o super EP Missing Link do Nick Murphy (ex-Chet Faker) e botamos Tiê pra tocar. Coloque os fones e dê o play!

00’00”: Abertura
04’06”: Indicações
08’23”: Harry Styles – “Harry Styles”
48’35”: Astronauta Marinho
59’04”: Fleet Foxes – “Crack-Up”
1h16′: Paramore – “After Laughter”
1h34′: Nick Murphy – “Missing Link” (EP)
1h49′: Tiê

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Confira a playlist What The Funk Is Going On!

Strand Of Oaks – Hard Love (2017)

O carisma do indie, o combustível do hard rock clássico e influência de LSD

Por Lucas Scaliza

Um pouco de folk rock nas levadas. Mas soam como hard rock, porque ele usa guitarras com uma boa dose de distorção e fuzz. E mesmo sendo o bom e velho rock’n’roll de sempre, há algo de moderno no som. Não chega a assustar, mas pode incomodar. Hard Love, do Strand Of Oaks, o quinto disco composto pelo músico Timothy Showalter, é definitivamente um registro que não pode passar desapercebido.

“Hard Love”, que introduz o álbum, bebe na fonte de Ryan Adams e não mostra a sonzeira que vem a seguir. “Radio Kids” e “Everything” resumem o que ele é capaz de fazer. Você não vai perceber nada de muito diferente de outras canções de rock que ouviu nos últimos 10 anos, principalmente se deu uma boa rodada entre o que há de indie e psicodélico à disposição, mas vai gostar. E conforme o disco avança, vai perceber que está totalmente tomado ou tomada pela energia de suas batidas e pela barulheira de sua guitarra. O fuzz exagerado em “Salt Brothers” vai soar fora de lugar, mas como uma ótima ideia ainda assim. O psicodelismo de “On The Hill” te pega desprevenido e então você exclama: “Uau, que puta som!”.

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É verdade que “Cry” interrompe o poderio de fogo do Strand Of Oaks e que “Quit It” poderia ser uma faixa melhor, mas cumprem seu papel de tentar equilibrar o álbum pisando um pouco no freio e trazer interferências que não são musicais ao trabalho. Paciência. Todo mundo pisa na bola, até o Pink Floyd e o Iron Maiden. Mas desculpe a bagunça e não desista de Showalter ainda. O importante é que ele percebe o que fez e já manda “Rest Of It” para recuperar nossa fé em Hard Love. Faixa bem colegial e com um solo daqueles que te faz lembrar (caso tenha idade para isso) do Marty McFly em De Volta Para o Futuro (fato recentemente relembrado pelo Gabriel Sacramento neste podcast).

E o melhor fica para o final. Voz mais rouca, ritmo menos alucinado e paisagem sonora lisérgica fazem de “Taking Acid and Talking to My Brother” o grand finale espetacular em que os grandes vencedores são o rock e o som do pedal de fuzz.

Se não ouviu falar de Strand Of Oaks, é uma boa começar com Hard Love, seguir para Heal (2014) e assim conhecer o que Showalter tem a oferecer. Se já viu o nome dele por aí, dê o play. O disco interpola o folk com o rock psicodélico, constrói algumas de suas canções com o carisma do indie e com o combustível do hard rock clássico. É ótimo.

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