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The Strypes – Spitting Image (2017)

Confie no rock’n’roll que vem da irlanda

Por Gabriel Sacramento

Quatro garotos europeus muito jovens, de boa aparência, fazendo rock. Não, não estou falando dos Beatles, embora esse grupo que vem da Irlanda goste de referenciar o fabfour, desde o som à aparência do início da carreira. Os Strypes não parecem intimidados pelo fato de serem muito jovens (começaram a banda com membros de 15, 14 e, pasmem, 13 anos) e pelo fato de terem como fãs declarados Elton John, Dave Grohl e Paul Weller. Não estão nem um pouco assustados, mas na verdade os garotos, que hoje têm vinte e poucos anos, acham até bom o fato desses medalhões torcerem por eles.

O visual varia dos Beatles aos Byrds, indo do arrumadinho com terno bem passado ao mais desleixado. O som era mais blues rock no primeiro disco e evoluiu, mas sempre mantendo uma aura anacrônica e referenciando os clássicos Dr. Feelgood, The Clash, Rolling Stones, Chuck Berry, dentre outras influências. Enquanto outros quartetos de meninos de vinte anos estão por aí tocando música adolescente, estes garotos resolveram tocar rock’n’roll, punk, blues, misturando tudo isso sob uma égide garageira e a velha filosofia do faça-você-mesmo. 

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Se você, assim como eu, também acha curioso que as bandas de rock agressivas e divertidas da década passada injetaram muitas doses de bom-mocismo em seu som, perdendo a urgência tão característica, como fizeram os Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs e The Killers, vai se surpreender com o som desses garotos que têm mantido a atitude até agora, deixando transparecer até nas entrevistas um visual e uma pegada um tanto transgressora que lembra os grupos dos anos 60.

Spitting Image tem produção de Ethan Johns (Paul McCartney, Tom Jones) e parece soar um pouco mais garageiro e com uma produção menos polida que o anterior, Little Victories (2015). “(I Need a Break From) Holidays” mostra toda a veia punk, com um pouco de indie, que vai lembrar os bons momentos de Arctic Monkeys e Strokes. “Easy Riding” começa mais tranquila e chega a um refrão empolgante, total rock’n’roll. A faixa mostra como a banda trabalha bem a dinâmica, indo bem de momentos mais melódicos a outros mais cheios de adrenalina. “Turnin’ My Back” lembra bem as boas bandas punk dos anos 70, com um órgão bem articulado no fundo. “Grin and Bear it” é uma aula de como fazer uma música cool, mas com uma boa atitude roqueira. Mesmo envolvidas em guitarras agressivas e diretas, as melodias de “Behind Closed Doors” são ótimas e ficam na cabeça.

Spitting Image é um grande disco do quarteto e continua reafirmando que eles são uma boa referência para quem procura um som mais agressivo e garageiro. Em cada álbum, eles focaram em facetas diferentes, o que pode ser interpretado de duas formas: 1) Não definiram perfeitamente o som ainda ou 2) Suas influências e referências são tão amplas que eles desejaram fazer discos diferentes para explorar mesmo. O fato é que tudo soa muito bem e há uma coesão interessante entre o que já lançaram. Eles conseguem soar garageiros sem a grande produção do Royal Blood ou Black Keys, com ótimas faixas, ótimas melodias, solos e todos os outros elementos desse tipo de rock que as suas influências faziam. A evolução da banda tem sido impressionante, o som deles tem tomado forma e tem ganhando consistência, com tudo sendo feito sem muito esforço. Eles soam como o tipo de banda que chega no estúdio e não tem muitos problemas em gravar suas ideias, pois sabem exatamente o que querem.

Os jovens irlandeses captam bem o espírito roqueiro, jovial, insurgente, muitas vezes inconseqüente, que marcou os anos 50, os anos 60 com a psicodelia, os anos 70 com o punk, os anos 80 com o glam rock, os 90 com o grunge e britpop e a década passada com os revivals e o que ficou conhecido como indie rock. Os Strypes trazem todo esse panorama para o nosso tempo, mantendo a chama acesa e honrando o rock’n’roll de ontem, de hoje e de sempre.

É impossível não associar com o som dos já citados Arctic Monkeys e Strokes, que fizeram tanto alarde no cenário roqueiro mundial na década de 2000, chegando a serem chamados de “salvadores do rock”. Depois de tantos anos, a confiança nesses dois já não é a mesma, mas podemos confiar nos nomes menos esperados e que surgem com menos pretensão, mas que são honestos na hora de entregar um produto que garante uma boa experiência. Os Strypes têm isso e podem ganhar o mundo sem problemas com seu som e proposta super interessantes. Confie nesses garotos. O rock está muito bem de saúde e são jovens como estes que fazem questão de deixar isso bem claro.

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Chuck Berry – Chuck (2017)

Disco celebra o nome e a carreira do icônico músico do Missouri

Por Gabriel Sacramento

Quando Chuck Berry anunciou aos 90 anos que iria lançar um álbum, todos ficamos surpresos e curiosos. Mas quando, depois de sua morte, pudemos ouvir o primeiro single – “Big Boys” -, a curiosidade diminuiu um pouco e percebemos que estava tudo em casa. Afinal, aquele riff e frases de guitarra que foram imortalizadas pelo guitarrista em canções sensacionais como “Johnny B. Goode” e “Roll Over Beethoven”, reaparecem nesta, como uma espécie de homenagem de Chuck para ele mesmo. Muitos ouvintes podem achar incômodo a repetição de ideias, mas não é algo novo na carreira do músico. Quem conhece seu catálogo já deve estar um pouco mais acostumado.

“Big Boys” impressiona por ser aquele rock’n’roll dos anos 50 mesmo, só que sem guitarras saturadas e baterias abafadas. O lance são os timbres maravilhosos e modernosos dos instrumentos, mesmo que com arranjos totalmente ambientados na década de ouro do estilo em que Chuck foi pioneiro. A bateria bem timbrada foi bem executada pelo Keith Robinson e as guitarras contaram com Nathaniel Rateliff e Tom Morello. Com certeza foi uma honra para esses caras tocar com o mestre que definiu a forma como seriam as coisas no rock e captou o espírito da juventude que queria ser livre, transformando sua música em uma boa oportunidade para se reunir com os amigos, dançar e esquecer o mundo e os problemas porta afora.

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Aí, lançaram também “Lady B. Goode”, faixa que referencia “Johnny B. Goode” desde a estrutura musical até a letra – que continua a saga do personagem Johnny, sempre recorrente nas histórias do cantor, desta vez falando sobre a mulher dele. Mais uma vez a impressão é de que o velho Chuck queria homenagear a si mesmo, com essas canções que gravou em mais de uma década – de 1991 a 2014 -, para dar uma conclusão à sua carreira. Infelizmente, ele não conseguiu ver o disco ser lançado, deixando todo mundo já meio nostálgico desde sua morte em março.

A sequência daquele que pensávamos ser o último – o bom Rock It (1979) – ainda possui “Wonderful Woman”, faixa que conta com o talentoso Gary Clark Jr. nas seis cordas. É um rockzão classudo, com gaita, vários solos, melodias típicas e cinco minutos de duração – que podem ser cansativos para alguns ouvidos. É uma oportunidade interessante de conferir um representante da geração pioneira do rock e um da geração atual dividindo o mesmo espaço. Temos também “Dutchman”, com uma proposta diferente: um ritmo forte pontuado pelo baixo, com um riffzinho de guitarra e o vocal do Chuck em um estilo declamatório, contando uma história. A ideia do vocal lembra um pouco o que o Leonard Cohen fez em seus últimos discos e quem curte o canadense vai adorar isso aqui.

Temos algumas faixas blues clássico do estilo de Detroit, como “Eyes of Man”, “Darlin’” e “You Go to my Head”, com aquela estrutura harmônica e desenvolvimento melódico típicos de centenas de outros blues por aí. “Jamaica Moon” lembra “Havana Moon”, faixa do primeiro álbum de Berry, com uma vibe bem tropical. Temos ainda um blues especial em 3/4 com o compasso impresso no título, “3/4 (enchiladas)”.

Depois de ouvir todo o álbum do Chuck, chegamos a conclusão de que o músico foi bastante inteligente quanto ao que veio a ser o seu lançamento póstumo e definitivamente o seu último. A estratégia foi tentar novas ideias, com moderação, mas referenciando bem toda a sua carreira e seu nome que é muito representativo dentro da indústria musical. Carreira essa que inclui tanto a definição da forma do rock’n’roll nos anos 50 e nos anos posteriores, influenciando todo mundo que veio depois, quanto a importância para a cultura pop, sendo trilha das loucuras de Marty McFly em uma viagem no tempo ou de uma dança maluca de John Travolta e Uma Thurman em um restaurante temático. A música de Berry é inesquecível, diante de tudo que nos instiga, seja vontade de dançar, de fazer air guitar, duck walk ou simplesmente de assistir aquele clássico do cinema que marcou nossa vida.

Por isso, Chuck é um disco nostálgico. Na verdade, seria difícil imaginar algo diferente vindo de alguém de uma geração tão antiga, mas tão seminal e tão importante para diversas outras gerações. Mas também é um esforço da lenda americana em mostrar algumas coisas novas que ele aprendeu com o passar do tempo. O fato do músico estar bem velho quando começou as gravações e durante todo esse período em que elas ocorreram, justifica o fato de ser arrastado, lento e possuir mais faixas blues do que necessariamente rock’n’roll. De qualquer jeito, ele dominava o blues como poucos também, sendo total autoridade para aplicar o estilo. E as faixas mais energéticas são suficientes para nos fazer lembrar dos momentos de ouro do showman e criar a imagem na nossa mente dele fazendo o duck walk enquanto gravava as faixas no estúdio.

Descanse em paz, grande Chuck Berry.

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Benjamin Booker – Witness (2017)

Blues + punk. Você precisa conhecer Benjamin Booker

Por Gabriel Sacramento

Benjamin Booker é um sujeito complexo. Um cara que se diz influenciado por Blind Willie Johnson e The Gun Club respectivamente, um bluesman da década de 1920 e uma banda punk que surgiu no final dos anos 70. Mas não é a disparidade das suas influências que o torna enigmático, mas sim sua disposição para fazer músicas que unem os dois universos, indo do blues encharcado de elementos do soul ao punk rock garageiro. Sua produção artística reflete diretamente a complexidade dos seus gostos.

Foi assim no primeiro disco, que levou o seu nome e foi lançado em 2014. Era incrível ouvi-lo e a cada faixa imaginar o que ele tentaria a seguir: se blues ou punk. No seu segundo trabalho, Witness, Booker mantém essa ideia de misturar os extremos, só que predomina a calmaria que foi menos frequente no anterior. Ou seja, o segundo álbum é quase um complemento do primeiro, o que torna sua pequena obra discográfica ainda mais interessante, um poço profundo de boas referências e preciosidades.

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O timbre vocal de Booker é fantástico e ele o usa estrategicamente. Em muitos momentos, o guitarrista da Virginia soa como um Gary Clark Jr., só que com suas particularidades e sem os solos expressivos.

A faixa-título foi lançada como single e foi uma música escrita para o movimento Black Lives Matter, falando portanto sobre racismo. A sonoridade beira o folk, com o coro marcante e a voz rouca do Booker prendendo a atenção. “The Slow Drag Under” é marcada pela estrutura harmônica típica do blues, com direito à um solo e vocais mais suavizados. “Truth is Heavy” possui uma linha melódica inquieta em contraponto com a melodia vocal cantada por Benjamin, com uma voz especialmente suave e arenosa, com uma técnica de drive que lembra a de James Morrison.

“Believe” é total soul anos 60, lembrando a era espectoriana mesmo, com uma ótima linha de baixo melódica que caminha pelo arranjo. Na letra, Booker diz: “Eu só quero acreditar em algo, não me importo se é certo ou errado”. Outra soulful deliciosa é “Carry”, com destaque para a interpretação do vocalista. Também temos momentos mais nervosos em Witness: “Right on You” abre o álbum com alto-astral e a veia roqueira típica do cantor. Temos também “Off The Ground” que começa com um violão dialogando com um piano, até que lá pra depois do primeiro minuto assusta o ouvinte com a urgência punk garageira. Booker consegue acertar a mão nas faixas mais agitadas tanto quanto nas mais calmas.

Witness é tranquilo, mas acelera nos momentos certos. É um disco que envolve o ouvinte em uma tranquilidade incrível, mas fornece a energia necessária para que o conjunto não seja sonolento. Misturando estilos distintos, de uma forma inventiva e original, é como o cantor nos cativa com suas boas canções, nos fazendo apreciar o tempo que passamos com ele. Um talento facilmente identificável. Uma das propostas sonoras mais curiosas do ano. Você precisa conhecer Benjamin Booker.

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Jimi Hendrix – Are You Experienced faz 50 anos

50 anos da explosão cósmico-psicodélica que gerou o Jimi Hendrix Experience (e mudou o blues rock)

Por Gabriel Sacramento

Jimi Hendrix era um guitarrista tentando ganhar a vida com r&b nos Estados Unidos na década de 60. Seu talento já era notável, mas ainda não tinha chamado a atenção de ninguém. Isso mudaria quando Linda Keith, namorada do Keith Richard, viu Jimi empunhar sua guitarra em uma apresentação, ficou surpresa e começou a recomendá-lo. O primeiro interessado foi o ex-baixista do The Animals, Chas Chandler, que decidiu montar um grupo para Hendrix na inglaterra e então gravar um disco. Chandler chamou Mitch Michell para a bateria e Noel Redding (que era guitarrista) para tocar baixo. O trio lançou “Hey Joe” e “Purple Haze” como os primeiros singles. “Hey Joe”, inclusive, foi uma das primeiras que Chas ouviu do trio e pesou significativamente na decisão dele de empresariá-los.

O álbum começou a ser gravado em outubro de 66, passando por dezesseis sessões em três estúdios diferentes de Londres: De Lane Lea Studios, CBS e Olympic. O trio passou mais tempo neste último pois, segundo Chandler, era acusticamente melhor e tinha um equipamento melhor. Are You Experienced é caracterizado por muito uso de overdubs, principalmente nos vocais de Jimi, que não era muito confiante quanto às suas habilidades para cantar. O disco também possui diferentes estilos de mixagem das faixas e timbres dos instrumentos. O estilo de mix varia, por exemplo, em algumas faixas: em algumas músicas, o vocal está voltado para um dos lados; em outras, a sensação é de que tudo se encontra centralizado na mesma região, para gerar o som ruidoso característico.

Como na teoria cósmica do Big Bang, que afirma que a energia se uniu em um único lugar e deu origem à algo enorme e complexo como o universo, Are You Experienced também foi uma explosão. Uma explosão psicodélica, roqueira e intensa que deu origem ao blues rock mais pesado com uma ênfase maior na guitarra e ao reconhecimento do trio Hendrix-Mitchell-Redding. O blues rock já existia, é verdade. Muitos atribuem o nascimento do estilo ao álbum Blues Breakers With Eric Clapton do John Mayall, lançado no ano anterior. Mas mesmo assim, a versão mais efervescente do estilo, guitarreira, garageira e cheia de efeitos começaria com Hendrix e com Are You Experienced, influenciando diversos outros guitarristas de diferentes gerações como Jeff Beck, Richie Kotzen, Gary Moore, Robin Trower, o próprio Clapton, entre outros.

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O ÁLBUM

“Foxy Lady” foi gravada em uma sessão, com exceção de alguns overdubs. A canção começa energética, com o vocal do Jimi de um lado só na mix e a porradaria instrumental centralizada. A lisérgica faixa-título se destaca por seus efeitos e técnicas, que até lembram um pouco as que os Beatles usaram em Revolver. Dentre as faixas mais famosas, temos um dos riffs mais icônicos do rock em “Purple Haze”, com uma verdadeira explosão roqueira psicodélica e a voz do Hendrix do lado direito da mix.

Mesmo sendo cantada de uma forma até rústica, as melodias são marcantes, bem como o domínio guitarrístico do músico. Em “Third Stone From The Sun”, eles resolveram brincar com bateria de jazz e frases jazzistícas de guitarra a la Wes Montgomery. É uma das canções que destacam o lado técnico do guitarrista e sua versatilidade. A faixa é bem longa e possui várias variações no meio, onde a lisergia e a psicodelia tomam conta.

“Stone Free” é aquele blues rock empolgante, arrasa-quarteirão, com um refrão inconfundível. Em uma das performances mais legais do álbum, Mitch Michell ganha espaço e brilha em “Fire”, que também se destaca pelo seu refrão bem pra cima, com vocais de fundo e um delicioso walking-bass. A balada “The Wind Cries Mary” foi a primeira balada gravada para o álbum. É bem envolvente e fala sobre uma discussão que Hendrix teve com sua namorada, de nome Mary. O blues “Red House” foi gravado com duas guitarras e uma bateria, com uma das guitarras fazendo base na região mais grave para suprir a falta do baixo. E é quase impossível falar de Jimi Hendrix e de Are You Experienced sem citar “Hey Joe”, canção cover que ficou super famosa, mezzo folk, mezzo soul, sem refrão e com uma letra bem marcante: conta a história do personagem Joe, que atirou na esposa porque estava traindo ele e agora tem de fugir para o México para se safar. A letra traz um diálogo entre Hendrix e Joe.

Are You Experienced parece mais uma coletânea do que um simples álbum. As canções se tornaram clássicos do rock e mostraram ao mundo que o trio tinha um potencial incrível. O álbum brilha mesmo com a sonoridade abafada e os timbres sujos, pois toda a energia e aspecto roqueiro provém das mãos afiadas dos três músicos, que juntos soam mais barulhentos que muita banda completa por aí.

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LEGADO
O primeiro álbum do Jimi Hendrix Experience é até hoje cultuado como um dos maiores álbuns do rock. A revista Mojo elegeu o disco como o principal álbum de guitarra de todos os tempos. A Rolling Stone também classificou o álbum como décimo quinto na lista dos 500 maiores de todos os tempos e várias faixas como algumas das maiores canções de todos os tempos. Muitos jornalistas afirmam categoricamente: O álbum é um dos definitivos da era psicodélica.

Vale lembrar também de todo o reconhecimento da comunidade guitarrística ao redor do mundo, Are You Experienced é um dos álbuns usados como prova em muitas discussões para afirmar que Jimi Hendrix foi o maior guitarrista vivo. O jeito como o músico abordou a guitarra, com toda aquela excentricidade e criatividade, mudou a forma como as pessoas olhariam para o instrumento e deu uma nova função para as seis cordas dentro do rock.

O guitarrista Gary Moore foi um dos grandes influenciados pelo Hendrix, e demonstrou isso quando gravou o álbum Blues For Jimi em 2012. Um álbum ao vivo com as faixas mais famosas do Hendrix sendo executadas com uma timbragem moderna, mas uma abordagem perfeitamente fiel ao original. A homenagem do Moore só mostra o quão importante Jimi Hendrix foi na vida de muitos cidadãos comuns que um dia optaram por fazer da guitarra o instrumento da suas vidas. Assim também foi em 1993, quando um grupo de famosos músicos como Jeff Beck, Nile Rodgers, Eric Clapton, Buddy Guy, Slash e bandas como The Cure e Living Colour gravaram um tributo ao Hendrix, refazendo suas músicas. O nome do álbum é Stone Free: A Tribute to Jimi Hendrix e demonstra o quão amplo foi o campo de influência do guitarrista dentro da música popular, indo além dos aficionados por guitarra.

Mesmo depois de meio século, ouvir Are You Experienced ainda é uma experiência recompensadora. Quem estiver descobrindo o Hendrix agora, ainda pode se maravilhar com a fórmula sonora tresloucada que não se prende à nenhuma fórmula e que se manifesta através de uma viagem de sensações e sentimentos, quase espiritual, guiada por um cara que, em seus dias mais normais, curtia quebrar guitarras e atear fogo nelas. Poucos álbuns reforçam tanto esse aspecto imorredouro do rock como Are You Experienced: ele encontrou renovação em si mesmo ao longo dos anos e continua relevante.

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Are You Experienced foi só o começo. Depois dele, Hendrix ainda gravaria mais dois de estúdio e um ao vivo com a Band of Gypsys, onde reafirmaria o seu nome e seria de fato consagrado ao posto de um dos mais influentes guitarristas de todos os tempos. Aliás, era de se esperar, depois de uma estreia como esta, o sucesso absoluto era só uma questão de tempo.

Richie Kotzen – Salting Earth (2017)

Disco ressalta a capacidade do músico de harmonizar suas muitas facetas

Por Gabriel Sacramento

Desde que descobri que o Richie Kotzen tinha sido o guitarrista do Mr. Big em um dos meus discos favoritos dos californianos, passei a acompanhar a carreira dele, desde suas participações, bandas e carreira solo. O que sempre foi muito recompensador, visto que o músico é bastante talentoso, tem uma identidade forte e transmite isso bem em cada música que grava. Além de um guitarrista virtuoso, o cara também é um excelente cantor, com um ótimo timbre vocal (que lembra demais o Chris Cornell) e uma técnica que está sempre em forma.

Seu estilo sempre foi composto por muito de funk, soul e blues misturados com rock. Kotzen sabe como poucos pegar um elemento de um estilo e jogar no outro, mantendo-os reconhecíveis na mistura e enriquecendo a experiência e a audição. Foi assim no Mr. Big, quando sua presença na banda permitiu que eles enveredassem por um som mais funkeado, com muita consistência, e tem sido assim com os projetos de que tem participado.

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Kotzen também é sempre muito prolífico. Recentemente, tem se dedicado ao The Winery Dogs, trio que formou com Billy Sheehan e Mike Portnoy, mas também tem achado tempo para continuar o fluxo frequente de lançamentos de sua carreira solo. Em 2015, ele lançou Cannibals, um disco que representava uma fase menos roqueira e menos intensa do músico. Este ano, lançou Salting Earth. Ele continua gravando e produzindo quase tudo que entra no disco, o que ressalta ainda mais o seu talento e versatilidade. A única exceção aqui é a voz feminina gravada pela sua namorada, a brasileira Julia Lage.

Salting Earth traz mais peso e agressividade que seus dois antecessores – 24 Hours (2011) e Cannibals (2015). Há menor predominância da sonoridade R&B e dançante e pode ser entendido como uma tímida volta aos discos mais roqueiros como Get Up (2004). Temos várias músicas com as guitarras distorcidas dando o tom: “End of Earth”, “Thunder”, “Make it Easy” e “Divine Power”. A primeira possui um vocal distorcido bem diferente do comum do Kotzen, com um pouco mais de agressividade (soando ainda mais como o Cornell). O vocal soa muito bem colocado entre os riffs potentes. Já “Make It Easy” traz um quê oitentista, com um refrão que lembra a ex-banda do guitarrista, o Poison.

Mas também temos baladas: “I’ve Got You”, com letra simples, um baixo forte e uma guitarra que dá um charme sem prejudicar o refrão melodioso e chamativo. O baixo também chama a atenção na também romântica “My Rock”, o que mostra que Kotzen está cada vez melhor no instrumento. Ainda entre as baladas, temos a semiblueseira “This is Life” e a good vibes “Grammy”, com um violão bem ensolarado. Dentre todas, a que mais se destaca e até destoa um pouco é essa última. “Meds” parece ter sobrado de Cannibals, tamanha é a vibe um pouco roqueira mas sem tanta distorção que predominou no anterior.

Em Salting Earth, Kotzen explora diversos timbres, indo do piano elétrico à típica guitarra distorcida, passando pelo baixo, bateria e até violão. Mesmo que a bateria, por exemplo, soe bem simples em alguns momentos, a dinâmica que o músico consegue desenvolver é suficiente para as canções funcionarem bem. A impressão é que ele se dedicou com igual intensidade a todos os instrumentos que se propôs a gravar e não somente aos principais.

O novo disco, assim como o anterior, é muito bom de ouvir, mesmo que não seja excelente. O mais legal do álbum é o equilíbrio que Kotzen consegue destacando todas as suas facetas da mesma forma, sem exagerar demais em nenhuma delas. Se você gosta mais do Kotzen vocalista ou do Kotzen guitarrista do começo da carreira, prepare-se para ouvir essas duas características um pouco mais tímidas aqui, a fim de harmonizar com as outras e oferecer um resultado mais coeso e consistente.

A sua discografia continua irrepreensível. Cada disco parece aumentar a validade da fórmula e de sua capacidade criativa. Salting Earth é superior à Cannibals: além de abarcar os mesmos parâmetros, ainda traz um feel mais old school. Ouça sem medo.

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Mark Lanegan Band – Gargoyle (2017)

Mark Lanegan chega ao 3º capítulo de sua caminha gótica e eletroblueseira

Por Lucas Scaliza

Primeiro, tivemos o blues do funeral. Depois, o rádio fantasma. Agora, um gárgula. A mistura de blues, rock, música eletrônica e nuances góticas de Mark Lanegan chega ao terceiro capítulo com Gargoyle, sempre com referências muito claras da capa ao nome do álbum do que ele pretende.

É impossível cansar de sua voz grave e cavernosa, que acaba virando mais um elemento de textura em sua música, por mais simples que sejam suas melodias. E sua música, por mais previsível que possa parecer, consegue manter o mesmo tom dos álbuns anteriores e não se repetir nunca. “Blue Blue Sea” pode até ser uma canção bucaneira, mas toma ares cósmicos com toda a gama de teclados e sintetizadores que a compõe. E “Nocturne”, “Beehive”, “First Day of Winter” e a instigante “Old Swan” mostram como Lanegan ainda é… o próprio Lanegan, o cantor que você sempre imagina cantando nas sombras de um pub, tomando uma de uísque entre uma canção e outra.

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O mesmo de sempre, mas levemente flexível. Duas das mais interessantes faixas de Gargoyle são quase opostas. “Goodbye To Beauty”, entupida de reverb, é o que há de mais tradicional em termos de expressão em Gargoyle – uma das mais fundamentalmente orgânicas do álbum. Enquanto “Sister” é bem mais sintética e árida. Já “Emperor” é a coisa mais animada que ouvimos dele nos últimos 10 anos.

Embora sombrio, enevoado e grave, Gargoyle não é um disco triste e, como tudo que Mark Lanegan tem feito ultimamente, passa longe de soar monótono. Seja cantando sobre os demônios de cada um, fazendo referências ao passado de vícios em drogas ou usando um humor negro e seco, o álbum segue sempre em frente, sem exigir demais do ouvinte.

Gargoyle encontra eco no rock e na new wave oitentista, guardando paralelos com Joy Division, Echo & The Bunnymen e Depeche Mode. Mas a personalidade do cantor se impõe com força. Daí, “Drunk On Destruction” é o rock que você queria ouvir e “Death’s Head Tattoo”, que abre o disco, é a síntese do que Lanegan tem sido nos últimos anos. Pega suas influências, processa suas origens e junta tudo em novas e boas composições que continuam a ampliar o espectro sonoro de sua longa caminha pela noite urbana.

Samsara Blues Experiment – One With The Universe (2017)

Guitarras menos violentas, mas o mesmo vigor do stoner metal viajante de antes

Por Lucas Scaliza

Embora facilmente localizável ali no final da década de 1960, com a alta do movimento hippie, a música psicodélica nunca saiu de moda. Na verdade, saiu sim. Ou nunca esteve “na moda”. Mas sempre foi feita, refeita, recriada, recontextualizada. Sempre esteve presente, digo. E hoje a oferta é muito melhor e maior do que nos anos 80, por exemplo. No Tame Impala, temos sua versão mais pop dope; no Radio Moscow, uma psicodelia que nos leva a Woodstock e Hendrix; e Samsara Blues Experiment traz o delírio em meio à riffs pesados, solos incendiários e longas jams roqueiras.

O que já foi um quarteto hoje é um trio. Christian Peters (guitarra e voz), Hans Eiselt (que era guitarrista, e agora toca baixo) e Thomas Vedder (bateria) são os alemães que compõe o Samsara Blues Experiment e fazem um trabalho primoroso, bem equilibrado e com todos os elementos que o bom stoner rock deve ter em One With The Universe. Como o título sugere, há até um certo ar místico na produção, o que se conecta perfeitamente com os hippies de 50 anos atrás.

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Mais sintetizadores, mas nada que atrapalhe a sonoridade roqueira geral, se é altas doses de distorção e ataques potentes de bateria que você procura. Aliás, os sintetizadores ajudam a ressaltar o aspecto mais viajante do grupo. O lado indiano dos alemães (afinal, a banda chama-se “Samsara”) está preservado. O disco conta até com uma cítara em “Glorious Daze”. E o blues pode ser sentido nas escolhas das notas da maioria dos riffs. O stoner, mesmo em sua vertente metaleira, continua bebendo na fonte primordial do rock. Já era assim com o Black Sabbath, continua a ser com o SBE.

São apenas cinco faixas e quase 50 minutos de som, mas cada faixa tem uma boa dose de exploração sonora e passam longe, bem longe, do tédio. “Vipassana”, que abre o disco, tem tudo o que fãs do estilo curtem. Eiselt mostra que é um baixista de mão cheia e Peters, embora ainda não seja um grande vocalista, está muito melhor como cantor do que nos álbuns anteriores (“Glorious Daze” é a melhor prova disso). Já a instrumental “Sad Guru Returns” vem com uma carga generosa de distorção nas guitarras e um sintetizador bem disfarçado ali no meio que ajuda a dar melodia à faixa. Vedder está um monstrinho atrás do kit da bateria. Com 15 minutos de duração, a faixa títulos mostra todas as armas sonoras da banda, não deixando nada de fora. O feeling desses alemães é impressionante!

Algo que não dá para deixar de notar é que, embora peguem pesado ao longo das faixas, há bem menos seções em que Christian Peters sola feito um louco, com aquelas notas estridentes e rápidas que estimulavam a agressividade em Revelation & Mystery (2011) e Long Distance Trip (2010). No entanto, Peters está mais viajante do que nunca e ambiência de seu instrumento supera com folga em One With The Universe o que fora demonstrado nesse quesito nos discos anteriores.

Após quatro anos de espera por material novo – embora tenham começado a tocar novas músicas em 2016, em uma turnê que inclusive passou pelo Brasil este ano –, o resultado é uma banda que soube não decepcionar fãs e fazer um som que não é cópia do que fizeram no passado. Blues, música indiana, psicodelismo e rock ainda podem tomar muitas formas. O universo, afinal, está em expansão.

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