blues

Jimi Hendrix – Are You Experienced faz 50 anos

50 anos da explosão cósmico-psicodélica que gerou o Jimi Hendrix Experience (e mudou o blues rock)

Por Gabriel Sacramento

Jimi Hendrix era um guitarrista tentando ganhar a vida com r&b nos Estados Unidos na década de 60. Seu talento já era notável, mas ainda não tinha chamado a atenção de ninguém. Isso mudaria quando Linda Keith, namorada do Keith Richard, viu Jimi empunhar sua guitarra em uma apresentação, ficou surpresa e começou a recomendá-lo. O primeiro interessado foi o ex-baixista do The Animals, Chas Chandler, que decidiu montar um grupo para Hendrix na inglaterra e então gravar um disco. Chandler chamou Mitch Michell para a bateria e Noel Redding (que era guitarrista) para tocar baixo. O trio lançou “Hey Joe” e “Purple Haze” como os primeiros singles. “Hey Joe”, inclusive, foi uma das primeiras que Chas ouviu do trio e pesou significativamente na decisão dele de empresariá-los.

O álbum começou a ser gravado em outubro de 66, passando por dezesseis sessões em três estúdios diferentes de Londres: De Lane Lea Studios, CBS e Olympic. O trio passou mais tempo neste último pois, segundo Chandler, era acusticamente melhor e tinha um equipamento melhor. Are You Experienced é caracterizado por muito uso de overdubs, principalmente nos vocais de Jimi, que não era muito confiante quanto às suas habilidades para cantar. O disco também possui diferentes estilos de mixagem das faixas e timbres dos instrumentos. O estilo de mix varia, por exemplo, em algumas faixas: em algumas músicas, o vocal está voltado para um dos lados; em outras, a sensação é de que tudo se encontra centralizado na mesma região, para gerar o som ruidoso característico.

Como na teoria cósmica do Big Bang, que afirma que a energia se uniu em um único lugar e deu origem à algo enorme e complexo como o universo, Are You Experienced também foi uma explosão. Uma explosão psicodélica, roqueira e intensa que deu origem ao blues rock mais pesado com uma ênfase maior na guitarra e ao reconhecimento do trio Hendrix-Mitchell-Redding. O blues rock já existia, é verdade. Muitos atribuem o nascimento do estilo ao álbum Blues Breakers With Eric Clapton do John Mayall, lançado no ano anterior. Mas mesmo assim, a versão mais efervescente do estilo, guitarreira, garageira e cheia de efeitos começaria com Hendrix e com Are You Experienced, influenciando diversos outros guitarristas de diferentes gerações como Jeff Beck, Richie Kotzen, Gary Moore, Robin Trower, o próprio Clapton, entre outros.

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O ÁLBUM

“Foxy Lady” foi gravada em uma sessão, com exceção de alguns overdubs. A canção começa energética, com o vocal do Jimi de um lado só na mix e a porradaria instrumental centralizada. A lisérgica faixa-título se destaca por seus efeitos e técnicas, que até lembram um pouco as que os Beatles usaram em Revolver. Dentre as faixas mais famosas, temos um dos riffs mais icônicos do rock em “Purple Haze”, com uma verdadeira explosão roqueira psicodélica e a voz do Hendrix do lado direito da mix.

Mesmo sendo cantada de uma forma até rústica, as melodias são marcantes, bem como o domínio guitarrístico do músico. Em “Third Stone From The Sun”, eles resolveram brincar com bateria de jazz e frases jazzistícas de guitarra a la Wes Montgomery. É uma das canções que destacam o lado técnico do guitarrista e sua versatilidade. A faixa é bem longa e possui várias variações no meio, onde a lisergia e a psicodelia tomam conta.

“Stone Free” é aquele blues rock empolgante, arrasa-quarteirão, com um refrão inconfundível. Em uma das performances mais legais do álbum, Mitch Michell ganha espaço e brilha em “Fire”, que também se destaca pelo seu refrão bem pra cima, com vocais de fundo e um delicioso walking-bass. A balada “The Wind Cries Mary” foi a primeira balada gravada para o álbum. É bem envolvente e fala sobre uma discussão que Hendrix teve com sua namorada, de nome Mary. O blues “Red House” foi gravado com duas guitarras e uma bateria, com uma das guitarras fazendo base na região mais grave para suprir a falta do baixo. E é quase impossível falar de Jimi Hendrix e de Are You Experienced sem citar “Hey Joe”, canção cover que ficou super famosa, mezzo folk, mezzo soul, sem refrão e com uma letra bem marcante: conta a história do personagem Joe, que atirou na esposa porque estava traindo ele e agora tem de fugir para o México para se safar. A letra traz um diálogo entre Hendrix e Joe.

Are You Experienced parece mais uma coletânea do que um simples álbum. As canções se tornaram clássicos do rock e mostraram ao mundo que o trio tinha um potencial incrível. O álbum brilha mesmo com a sonoridade abafada e os timbres sujos, pois toda a energia e aspecto roqueiro provém das mãos afiadas dos três músicos, que juntos soam mais barulhentos que muita banda completa por aí.

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LEGADO
O primeiro álbum do Jimi Hendrix Experience é até hoje cultuado como um dos maiores álbuns do rock. A revista Mojo elegeu o disco como o principal álbum de guitarra de todos os tempos. A Rolling Stone também classificou o álbum como décimo quinto na lista dos 500 maiores de todos os tempos e várias faixas como algumas das maiores canções de todos os tempos. Muitos jornalistas afirmam categoricamente: O álbum é um dos definitivos da era psicodélica.

Vale lembrar também de todo o reconhecimento da comunidade guitarrística ao redor do mundo, Are You Experienced é um dos álbuns usados como prova em muitas discussões para afirmar que Jimi Hendrix foi o maior guitarrista vivo. O jeito como o músico abordou a guitarra, com toda aquela excentricidade e criatividade, mudou a forma como as pessoas olhariam para o instrumento e deu uma nova função para as seis cordas dentro do rock.

O guitarrista Gary Moore foi um dos grandes influenciados pelo Hendrix, e demonstrou isso quando gravou o álbum Blues For Jimi em 2012. Um álbum ao vivo com as faixas mais famosas do Hendrix sendo executadas com uma timbragem moderna, mas uma abordagem perfeitamente fiel ao original. A homenagem do Moore só mostra o quão importante Jimi Hendrix foi na vida de muitos cidadãos comuns que um dia optaram por fazer da guitarra o instrumento da suas vidas. Assim também foi em 1993, quando um grupo de famosos músicos como Jeff Beck, Nile Rodgers, Eric Clapton, Buddy Guy, Slash e bandas como The Cure e Living Colour gravaram um tributo ao Hendrix, refazendo suas músicas. O nome do álbum é Stone Free: A Tribute to Jimi Hendrix e demonstra o quão amplo foi o campo de influência do guitarrista dentro da música popular, indo além dos aficionados por guitarra.

Mesmo depois de meio século, ouvir Are You Experienced ainda é uma experiência recompensadora. Quem estiver descobrindo o Hendrix agora, ainda pode se maravilhar com a fórmula sonora tresloucada que não se prende à nenhuma fórmula e que se manifesta através de uma viagem de sensações e sentimentos, quase espiritual, guiada por um cara que, em seus dias mais normais, curtia quebrar guitarras e atear fogo nelas. Poucos álbuns reforçam tanto esse aspecto imorredouro do rock como Are You Experienced: ele encontrou renovação em si mesmo ao longo dos anos e continua relevante.

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Are You Experienced foi só o começo. Depois dele, Hendrix ainda gravaria mais dois de estúdio e um ao vivo com a Band of Gypsys, onde reafirmaria o seu nome e seria de fato consagrado ao posto de um dos mais influentes guitarristas de todos os tempos. Aliás, era de se esperar, depois de uma estreia como esta, o sucesso absoluto era só uma questão de tempo.

Richie Kotzen – Salting Earth (2017)

Disco ressalta a capacidade do músico de harmonizar suas muitas facetas

Por Gabriel Sacramento

Desde que descobri que o Richie Kotzen tinha sido o guitarrista do Mr. Big em um dos meus discos favoritos dos californianos, passei a acompanhar a carreira dele, desde suas participações, bandas e carreira solo. O que sempre foi muito recompensador, visto que o músico é bastante talentoso, tem uma identidade forte e transmite isso bem em cada música que grava. Além de um guitarrista virtuoso, o cara também é um excelente cantor, com um ótimo timbre vocal (que lembra demais o Chris Cornell) e uma técnica que está sempre em forma.

Seu estilo sempre foi composto por muito de funk, soul e blues misturados com rock. Kotzen sabe como poucos pegar um elemento de um estilo e jogar no outro, mantendo-os reconhecíveis na mistura e enriquecendo a experiência e a audição. Foi assim no Mr. Big, quando sua presença na banda permitiu que eles enveredassem por um som mais funkeado, com muita consistência, e tem sido assim com os projetos de que tem participado.

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Kotzen também é sempre muito prolífico. Recentemente, tem se dedicado ao The Winery Dogs, trio que formou com Billy Sheehan e Mike Portnoy, mas também tem achado tempo para continuar o fluxo frequente de lançamentos de sua carreira solo. Em 2015, ele lançou Cannibals, um disco que representava uma fase menos roqueira e menos intensa do músico. Este ano, lançou Salting Earth. Ele continua gravando e produzindo quase tudo que entra no disco, o que ressalta ainda mais o seu talento e versatilidade. A única exceção aqui é a voz feminina gravada pela sua namorada, a brasileira Julia Lage.

Salting Earth traz mais peso e agressividade que seus dois antecessores – 24 Hours (2011) e Cannibals (2015). Há menor predominância da sonoridade R&B e dançante e pode ser entendido como uma tímida volta aos discos mais roqueiros como Get Up (2004). Temos várias músicas com as guitarras distorcidas dando o tom: “End of Earth”, “Thunder”, “Make it Easy” e “Divine Power”. A primeira possui um vocal distorcido bem diferente do comum do Kotzen, com um pouco mais de agressividade (soando ainda mais como o Cornell). O vocal soa muito bem colocado entre os riffs potentes. Já “Make It Easy” traz um quê oitentista, com um refrão que lembra a ex-banda do guitarrista, o Poison.

Mas também temos baladas: “I’ve Got You”, com letra simples, um baixo forte e uma guitarra que dá um charme sem prejudicar o refrão melodioso e chamativo. O baixo também chama a atenção na também romântica “My Rock”, o que mostra que Kotzen está cada vez melhor no instrumento. Ainda entre as baladas, temos a semiblueseira “This is Life” e a good vibes “Grammy”, com um violão bem ensolarado. Dentre todas, a que mais se destaca e até destoa um pouco é essa última. “Meds” parece ter sobrado de Cannibals, tamanha é a vibe um pouco roqueira mas sem tanta distorção que predominou no anterior.

Em Salting Earth, Kotzen explora diversos timbres, indo do piano elétrico à típica guitarra distorcida, passando pelo baixo, bateria e até violão. Mesmo que a bateria, por exemplo, soe bem simples em alguns momentos, a dinâmica que o músico consegue desenvolver é suficiente para as canções funcionarem bem. A impressão é que ele se dedicou com igual intensidade a todos os instrumentos que se propôs a gravar e não somente aos principais.

O novo disco, assim como o anterior, é muito bom de ouvir, mesmo que não seja excelente. O mais legal do álbum é o equilíbrio que Kotzen consegue destacando todas as suas facetas da mesma forma, sem exagerar demais em nenhuma delas. Se você gosta mais do Kotzen vocalista ou do Kotzen guitarrista do começo da carreira, prepare-se para ouvir essas duas características um pouco mais tímidas aqui, a fim de harmonizar com as outras e oferecer um resultado mais coeso e consistente.

A sua discografia continua irrepreensível. Cada disco parece aumentar a validade da fórmula e de sua capacidade criativa. Salting Earth é superior à Cannibals: além de abarcar os mesmos parâmetros, ainda traz um feel mais old school. Ouça sem medo.

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Mark Lanegan Band – Gargoyle (2017)

Mark Lanegan chega ao 3º capítulo de sua caminha gótica e eletroblueseira

Por Lucas Scaliza

Primeiro, tivemos o blues do funeral. Depois, o rádio fantasma. Agora, um gárgula. A mistura de blues, rock, música eletrônica e nuances góticas de Mark Lanegan chega ao terceiro capítulo com Gargoyle, sempre com referências muito claras da capa ao nome do álbum do que ele pretende.

É impossível cansar de sua voz grave e cavernosa, que acaba virando mais um elemento de textura em sua música, por mais simples que sejam suas melodias. E sua música, por mais previsível que possa parecer, consegue manter o mesmo tom dos álbuns anteriores e não se repetir nunca. “Blue Blue Sea” pode até ser uma canção bucaneira, mas toma ares cósmicos com toda a gama de teclados e sintetizadores que a compõe. E “Nocturne”, “Beehive”, “First Day of Winter” e a instigante “Old Swan” mostram como Lanegan ainda é… o próprio Lanegan, o cantor que você sempre imagina cantando nas sombras de um pub, tomando uma de uísque entre uma canção e outra.

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O mesmo de sempre, mas levemente flexível. Duas das mais interessantes faixas de Gargoyle são quase opostas. “Goodbye To Beauty”, entupida de reverb, é o que há de mais tradicional em termos de expressão em Gargoyle – uma das mais fundamentalmente orgânicas do álbum. Enquanto “Sister” é bem mais sintética e árida. Já “Emperor” é a coisa mais animada que ouvimos dele nos últimos 10 anos.

Embora sombrio, enevoado e grave, Gargoyle não é um disco triste e, como tudo que Mark Lanegan tem feito ultimamente, passa longe de soar monótono. Seja cantando sobre os demônios de cada um, fazendo referências ao passado de vícios em drogas ou usando um humor negro e seco, o álbum segue sempre em frente, sem exigir demais do ouvinte.

Gargoyle encontra eco no rock e na new wave oitentista, guardando paralelos com Joy Division, Echo & The Bunnymen e Depeche Mode. Mas a personalidade do cantor se impõe com força. Daí, “Drunk On Destruction” é o rock que você queria ouvir e “Death’s Head Tattoo”, que abre o disco, é a síntese do que Lanegan tem sido nos últimos anos. Pega suas influências, processa suas origens e junta tudo em novas e boas composições que continuam a ampliar o espectro sonoro de sua longa caminha pela noite urbana.

Samsara Blues Experiment – One With The Universe (2017)

Guitarras menos violentas, mas o mesmo vigor do stoner metal viajante de antes

Por Lucas Scaliza

Embora facilmente localizável ali no final da década de 1960, com a alta do movimento hippie, a música psicodélica nunca saiu de moda. Na verdade, saiu sim. Ou nunca esteve “na moda”. Mas sempre foi feita, refeita, recriada, recontextualizada. Sempre esteve presente, digo. E hoje a oferta é muito melhor e maior do que nos anos 80, por exemplo. No Tame Impala, temos sua versão mais pop dope; no Radio Moscow, uma psicodelia que nos leva a Woodstock e Hendrix; e Samsara Blues Experiment traz o delírio em meio à riffs pesados, solos incendiários e longas jams roqueiras.

O que já foi um quarteto hoje é um trio. Christian Peters (guitarra e voz), Hans Eiselt (que era guitarrista, e agora toca baixo) e Thomas Vedder (bateria) são os alemães que compõe o Samsara Blues Experiment e fazem um trabalho primoroso, bem equilibrado e com todos os elementos que o bom stoner rock deve ter em One With The Universe. Como o título sugere, há até um certo ar místico na produção, o que se conecta perfeitamente com os hippies de 50 anos atrás.

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Mais sintetizadores, mas nada que atrapalhe a sonoridade roqueira geral, se é altas doses de distorção e ataques potentes de bateria que você procura. Aliás, os sintetizadores ajudam a ressaltar o aspecto mais viajante do grupo. O lado indiano dos alemães (afinal, a banda chama-se “Samsara”) está preservado. O disco conta até com uma cítara em “Glorious Daze”. E o blues pode ser sentido nas escolhas das notas da maioria dos riffs. O stoner, mesmo em sua vertente metaleira, continua bebendo na fonte primordial do rock. Já era assim com o Black Sabbath, continua a ser com o SBE.

São apenas cinco faixas e quase 50 minutos de som, mas cada faixa tem uma boa dose de exploração sonora e passam longe, bem longe, do tédio. “Vipassana”, que abre o disco, tem tudo o que fãs do estilo curtem. Eiselt mostra que é um baixista de mão cheia e Peters, embora ainda não seja um grande vocalista, está muito melhor como cantor do que nos álbuns anteriores (“Glorious Daze” é a melhor prova disso). Já a instrumental “Sad Guru Returns” vem com uma carga generosa de distorção nas guitarras e um sintetizador bem disfarçado ali no meio que ajuda a dar melodia à faixa. Vedder está um monstrinho atrás do kit da bateria. Com 15 minutos de duração, a faixa títulos mostra todas as armas sonoras da banda, não deixando nada de fora. O feeling desses alemães é impressionante!

Algo que não dá para deixar de notar é que, embora peguem pesado ao longo das faixas, há bem menos seções em que Christian Peters sola feito um louco, com aquelas notas estridentes e rápidas que estimulavam a agressividade em Revelation & Mystery (2011) e Long Distance Trip (2010). No entanto, Peters está mais viajante do que nunca e ambiência de seu instrumento supera com folga em One With The Universe o que fora demonstrado nesse quesito nos discos anteriores.

Após quatro anos de espera por material novo – embora tenham começado a tocar novas músicas em 2016, em uma turnê que inclusive passou pelo Brasil este ano –, o resultado é uma banda que soube não decepcionar fãs e fazer um som que não é cópia do que fizeram no passado. Blues, música indiana, psicodelismo e rock ainda podem tomar muitas formas. O universo, afinal, está em expansão.

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John Mayer – The Search For Everything (2017)

John Mayer em busca por tudo

A busca por tudo poderia ser o resumo da carreira de Jonh Clayton Mayer. Sete álbuns de estúdio se passaram e ainda não temos certeza sobre o que ele quer ser. Ele já passou pela fase “garoto pop cool”, quando surgiu com o Room For Squares (2001), produzido pelo John Alagía (mesmo cara que produziu o Jason Mraz no início), chegou a flertar fortemente com o blues e nos apresentar uma faceta de guitarrista e vocalista, bem como sua técnica apurada nas seis cordas em Continuum (2006) e em Battle Studies (2009). E então recentemente, começou uma parceria com Don Was (produtor de Willie Nelson, Van Morrison e Jackson Browne), enveredando pelo folk/country em uma fase que, assim como a blueseira, durou dois álbuns – Born and Raised (2012) e Paradise Valley (2013). Finalmente, em seu novo disco (The Search For Evertyhing) Mayer se volta para a inocência pop do seus primórdios.

Vale lembrar que o cantor é muito competente em seus trabalhos. Mesmo que tente várias coisas diferentes, ele consegue chegar a resultados satisfatórios. Foi assim com seus últimos quatro discos, por exemplo. Mas essa crise de identidade acaba por não deixar que ele encontre o seu som e invista mais fortemente em uma direção para obter um resultado mais consistente. The Search For Everything marca a volta da parceria com Pino Palladino e Steve Jordan, que juntos com o Mayer começaram um trio de blues em 2005 e não gravavam juntos desde 2009. A produção do álbum ficou a cargo de Chad Franscoviak, junto com o próprio Mayer. O cantor liberou as faixas aos poucos, dividindo-as em dois EPs – Wave one e Wave two.

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“Still Feel Like Your Man” abre o álbum trazendo um quê dançante, com guitarras suingadas e ótimas harmonias de vozes no grudento refrão. “Helpless” carrega um pouco de nostalgia da fase mais guitarreira do cantor, com o instrumento na frente de ataque destilando licks e riffs cheios de suingue e um solo bem legal. “Love On The Weekend” traz um clima tranquilão de”fim de tarde de sexta”, que contrasta com as mais dançantes que vieram antes. Temos várias baladas como “In the Blood”, “Changing”, “Never on the Day You Leave”. Para fechar, a singela, infantil e incrivelmente bonita, “You’re Gonna Live Forever in Me”. Temos ainda faixas com acento folk/country como “Roll It On Home” e “Emoji of a Wave” e uma faixa que flerta com o R&B como o Mayer nunca tinha feito antes: “Moving On and Getting Over”.

O cantor americano parece ter sido bastante influenciado por black music ultimamente e percebemos isso em seu novo disco. Ele, que já usou sua guitarra pra solar, tocar riffs de rock, agora usa para fortalecer a noção de ritmo das faixas, engrossando o groove. O que é aliás, mais uma faceta do multifacetado John Mayer. Sua guitarra soa, como sempre, bem timbrada e aparece bem dentro das faixas. O trabalho de timbres do álbum todo lembra os últimos álbuns do Eric Clapton, tudo é muito límpido, solto, leve e confere um bom clima de tranquilidade.

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The Search For Everything não é um disco ruim. Aponta para várias direções diferentes, mas até isso é feito com muito cuidado e a produção do disco acerta em manter essas direções arrumadas de forma coesa. Nesse álbum, Mayer trouxe um pouco do seu lado guitarrista, seu lado folk, bem como seu lado mais pop do começo da carreira. Se em toda a carreira, isso não foi apresentado de uma forma tão harmônica assim, em TSFE, todas as facetas parecem estar bem conectadas. Ele conseguiu manter a constância de seus trabalhos e lançou mais um, que é interessante e vale a audição. Se, ao final de tudo, o saldo é positivo pelo disco em si, por outro lado, a carreira do americano continua bem imprevisível. O cantor parece que ainda não se encontrou e permanece em busca de algo.

Ou em busca de tudo.

Me And That Man – Songs of Love And Death (2017)

Blues, country e folk sombrio que coloca vampiros para dançar e demônios para dormir

Por Lucas Scaliza

Às vezes os pesos pesados dão uma pausa e aproveitam a vida para pegar leve. Assim, apreciam um outro lado de suas próprias naturezas. Pense em Ozzy Osbourne que deixou de ser conhecido pela sua música por um tempo para virar estrela de reality show. Ou pense em O. J. Simpson que… bem, acho que esse deixou de pegar pesado nos campos de futebol para pegar ainda mais pesado no que deveria ser sua vida “cotidiana”.

Algo assim – dar uma pausa, não cometer crimes e nem virar estrela da TV – aconteceu com Adam “Nergal” Darski, o vocalista da grande banda polonesa de black metal Behemoth, após ouvir o excelente Blues Funeral (2012) de Mark Lanegan. A mistura de blues, southern rock, folk e eletrônica, combinado à voz grave do ex-vocalista do Screaming Trees, inspirou Nergal a apostar em um tipo de música parecido. E Nergal, que fez uma turnê vitoriosa com o Behemoth tocando The Satanist [2014] na íntegra, sentiu prazer em trocar as flying Vs com afinação baixa por semiacústicas em que cada acorde Ré resplandece sem precisar de toneladas de distorção.

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Para dar corpo ao projeto paralelo Me And That Man, Nergal invocou o poeta parte britânico, parte polonês John Porter, que divide com ele as funções de cantor e guitarrista. Todas as canções de Songs Of Love And Death baseiam-se em acordes simples e levadas bem manjadas, porém muito funcionais dentro da proposta bluseira, country e folk da dupla. E não espere encontrar uma cópia de Mark Lanegan, mas sim uma mistura de Johnny Cash com Nick Cave, Leonard Cohen e Wovenhand.

O que há de mais singular no disco é que, apesar do formato mais leve em som do que o black metal gutural da banda principal de Nergal, a visão de mundo que ele e Porter expressam nas letras de Songs Of Love And Death são sombrias e pesadas o suficiente para arrepiar os cristãos, judeus, islâmicos e nova-eras mais cabeças fechadas. O disco já abre com uma das melhores do álbum, “My Church Is Black”, em que além de dizer que “minha igreja é preta”, que “nenhum reino [de Deus] está vindo”,  diz também que “o inferno é minha casa” com a maior naturalidade possível debaixo de um ressoante strum em Mi maior. Na lenta e western “Cross My Heart and Hope To Die” ele encarna um personagem (será?) que deixa claro que é um grande caso de bad news. Para o final, deixa que um coral de crianças cantem versos fofos: “Não viemos pelo perdão/ Não oramos pelos nossos pecados/ Traímos nossos querido Jesus/ Escolhemos o inferno na terra”.

Nergal e Porter continuam trazendo sua visão de mundo dark no restante do álbum, como na roqueira “Better The Devil I Know” e na agitada “Love & Death”. Enquanto o líder do Behemoth toma para si o protagonismo nas faixas mais pesadas, que muito lembram diversas fases do Nick Cave, Porter encarna o Johnny Cash em “Nightride”, “On The Road” e “One Day” e outras. As faixas em que Porter toma mais o vocal são mais luminosas e mais cativantes que as de Nergal, que são muito mais escuras, mas não se deixe enganar: se Nergal é o príncipe das trevas, Porter é guardião do livro das trevas.

Tentando preservar as características do blues rock e deixá-las o mais western possível, a dupla opta por um estilo limpo e acessível, bebendo também na fonte do storytelling das murder balads. Um bom disco para assustar os mais conservadores, capaz de colocar vampiros para dançar e embalar o sono de jovens demônios.

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Rag’n’Bone Man – Human (2017)

Ele é humano e gosta de coletar velharias e revendê-las como novas

Por Gabriel Sacramento

A voz é de um bluesman. O nome “Rag’n’Bone Man”, também. Mas o inglês Rory Graham – que começou realmente cantando blues, enfatizando seu timbre vantajoso para o estilo – agora parece aceitar seu lado pop sem preconceitos. Na verdade, ponto para ele e toda a equipe que trabalhou em Human, seu debut, por imaginar: “E se levássemos esse timbre blueseiro para o pop, soaria bem diferente e interessante”. E realmente soa.

No entanto, outro estilo foi referência e ideal a ser alcançado por Graham em sua carreira: o hip-hop. Foi no cenário urbano inglês que ele idealizou o nome “Rag’N’bonez”, que virou Rag’n’Bone Man, seu atual nome artístico. Nos seus primeiros EPs, percebemos que o cara ainda transitava entre o hip-hop e o blues, sem muita delimitação entre os gêneros.

Rag 'N' Bone Man by Deans Chalkley

Human é resultado de cooperação entre diversos profissionais. Alguns deles bem conhecidos: O produtor Mark Crew, conhecido por trabalhar com a banda Bastille, além de Johnny McDaid, colaborador do também inglês Ed Sheeran, fora os diversos nomes que constam nas assinaturas das canções. A verdade é que o grupo trabalhou bem e chegou a um consenso interessante diante de todas as possibilidades que o talento do Rag’n’Bone poderia criar. São muitas facetas a explorar.

Human é um trabalho bem pensado e bem produzido, com um repertório que começa com canções mais encorpadas e termina com baladas. A abertura é com a faixa-título, com versos reflexivos, em que ele admite sua fraqueza e que não pode resolver tudo: “Algumas pessoas têm seus problemas, outras pensam que posso resolvê-los, mas eu sou apenas humano afinal de contas, não ponha a culpa em mim”, ele canta, usando melodias que não saem da cabeça.”Innocent Man” traz batidas pop, vocais sobrepostos, ganchos melódicos e mostra o cantor em dia com seu lado mais comercial. “Bitter End” deixa evidente uma forte influência de cantores da saudosa soul music no estilo vocal de Graham. À medida em que vamos avançamos no setlist, conhecemos sua voz mais crua, com menos tratamento e com mais sentimento. “Grace” é uma prova disso. Uma canção sensível, com piano ao fundo no início, melodias que, mesmo sutis, tocam profundamente. “Die Easy” é fantástica e blueseira até o talo, dispensa instrumentação e somos convidados a ouvir o vozeirão cru e forte do Rag’n’Bone e sua habilidade para segurar o ritmo e a emoção.

A equipe de Human soube bem explorar as facetas mais interessantes de Graham, deixando tudo muito atrativo. As possibilidades eram muitas, mas aqui foram reduzidas para algumas, as mais fortes e com mais potencial. Além do blues, há uma forte veia soul, com toques de hip-hop e um molho pop deixando tudo ainda mais saboroso – e acessível. Se o disco não tenta entregar profundidade em termos estilísticos, entrega um retrato sonoro fiel à pessoa talentosa de Rory Graham.

O quê pop do álbum pode ser – e tem sido – decisivo para colocar o cantor no topo das listas de mais vendidos e de mais ouvidos nos serviços de música online. Mas em Human, até esse apelo é bem administrado, ressaltando as boas características particulares do cantor e mantendo tudo bem embalado para o mercado. Foi uma ótima sacada trazer esse timbre soulful e blueseiro para o pop comum. Deu um aspecto singular ao trabalho dentro do gênero.

Uma curiosidade é que seu nome artístico – Rag’n’Bone Man – era usado para definir um profissional antigo que coletava objetos velhos e inservíveis para revendê-los a outro mercado. O interessante é que isso tem muito a ver com o que Graham faz: coleta elementos de soul e blues que poderiam ter se perdidos no meio do caminho em meio à evolução musical e os revende com uma nova roupagem, mais agradável para as grandes massas. Rory não é o único a fazer isso, embora seu jeito de fazê-lo seja único.

O disco mostrou que o cara é um dos destaques de 2017. O seu vozeirão, sua atitude (reforçada por sua imagem) e originalidade são os fatores que fizeram o projeto dar certo e o produto ser bem recebido. Vale a pena ficar de olho nos próximos trabalhos desse Rag’n’Bone Man que em 12 faixas fez o suficiente para agradar a todo mundo, sem soar banal.

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