country

Sheryl Crow – Be Myself (2017)

Fofo e semirebelde em boas proporções

Por Gabriel Sacramento

“If It Makes You Happy, it Can’t Be That Bad”

Comecemos esta resenha com uma citação da letra de “If It Makes You Happy”, clássico da Sheryl Crow dos anos 90. A americana do Missouri, formada em composição, com um histórico de participação em bandas de gente famosa como Stevie Wonder e Rod Stewart, é também atriz, mãe, feminista e uma das grandes representantes do rock country americano na década de 90. Guardadas as devidas proporções, Crow é quase uma Bruce Springsteen versão feminina – e as semelhanças vão do som ao jeito como ela empunha a guitarra nos shows, que lembra muito o The Boss.

O country sempre esteve na veia da americana. Mas no último álbum, Feels Like Home (2013), ouvimos uma vertente mais soft do estilo e menos de rock. Diante da recepção pior do que o esperado, Crow resolveu fazer um back to basics – que retoma a simplicidade e inocência dos primeiros discos, mas também ressalta a veia roqueira da garota que cresceu ouvindo Rolling Stones. Por isso, Be Myself está sendo vendido como um álbum de rock, o que foi reforçado pela volta da parceria entre a loira e Jeff Trott, produtor dos ótimos Sheryl Crow (1996) e The Globe Sessions (1998) – disco que possui aquela bela versão country de “Sweet Child O’ Mine”.

A diferença do anterior para Be Myself vai do som até a capa: No de 2013, vemos a cantora com uma expressão feliz com flores ao fundo. Já nesse novo, temos Crow sentada em uma cadeira em uma expressão séria e vestindo preto. O ensolarado pelo obscuro, afinal. A faixa título soa bastante como os Stones nos velhos tempos. A canção possui esse acento roqueiro misturado com country e uma letra que traz um questionamento interessante: “Se eu posso ser outra pessoa, por que não posso ser eu mesmo?”. A ótima “Heartbeat Away” é marcada por um lirismo misterioso e sofisticado e por uma sonoridade rock alternativo, com vocais distantes nos versos e uma explosão com mais distorção no refrão. Aqui, Crow deixa até o country de lado e se permite enveredar por algo diferente.

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Em “Grow Up”, Crown soa como uma adolescente, dizendo claramente que não quer crescer. Claro, tudo é circundado por guitarras levemente distorcidas e uma vibe roqueira anos 90. “Alone In The Dark” tem aqueles versos que são difíceis de desgrudar da cabeça, com as guitarras executando as melodias, o que deixa tudo mais memorável ainda. Já “Halfway There” tem um refrão que lembra as cantoras de pop da década passada.

A impressão que temos ao ouvir Be Myself é a de que Sheryl Crow decidiu trabalhar em paralelo seu lado mais inocente e ingênuo (que resgata a jovem semi rebelde do início da carreira) com um lado mais pop polido, submetendo as faixas a estruturações bem definidas e a um feeling de tudo arrumadinho, no seu devido lugar. Trott cooperou positivamente com a cantora e ambos conseguiram um resultado que acentua ambas as características muito bem. O desejo por um som polido não sufoca a faceta mais insurgente e ambas dialogam muito bem enquanto convencem o ouvinte de que vale a pena seguir para a próxima faixa.

Mesmo com seus momentos menos fortes – afinal, o disco não é uma obra prima -, o novo trabalho da cantora americana consegue agradar os ouvintes, enquanto os intriga. Afinal, não é todo dia que ouvimos um conjunto de faixas com potencial pop, comercial, grudento e radiofônico revestido com uma capa roqueira e abafada. Crow consegue soar como uma jovem garota iniciando na música, como aquela que ouvia os Stones, mas que sabe a direção a seguir, não se deixa levar por leves distrações e também não se deixa levar pela ansiedade jovial.

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Crow não precisa provar nada a ninguém, atingiu um nível absurdo de segurança em sua carreira e é essa segurança que a permite buscar referências diferentes e trazer um produto distinto e que não segue a mesma linha do anterior. Essa segurança também permite que a cantora mantenha sua personalidade intocável, enquanto tenta se renovar. Be Myself não é nenhuma inovação surpreendente, mas é um presente nostálgico para fãs de longa data. Um oi para aqueles amigos de infância que há muito tempo não se vê.

Se algo deixa a cantora feliz é referenciar seus ídolos com sua música. Be Myself permite que ela o faça, sem abrir mão da ambição comercial. Aqui, se deixar levar em busca da felicidade e realização profissional é sinônimo de resultados redondos. Afinal, se te faz feliz, não deve ser tão ruim. E não é.

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Harry Styles – Harry Styles (2017)

Em carreira solo, Harry Styles mostra versatilidade, entrega e surpreende com folk, rock e country

Por Lucas Scaliza

Este é o ano de Harry Styles. Vai fazer sua estreia no cinema como ator em Dunkirk, drama de Segunda Guerra do diretor Christopher Nolan e já liberou Harry Styles, seu primeiro álbum solo, o primeiro com suas criações fora do famoso grupo que o revelou, One Direction. A princípio, como ocorrera com Zayn Malik (o primeiro integrante da boyband inglesa a deixar a trupe e sair em carreira solo), esperávamos que ele seguisse a moda do mercado fonográfico e fizesse um disco pop raso. Mas quando “Sign Of The Times” aportou em nossos ouvidos, fomos surpreendidos por um cantor que fazia, sim, uma balada rock segura, nada inventiva, mas com muito bom gosto, orgânica e emocionante. Ao aparecer cantando a faixa ao vivo, tive a certeza de que estava diante de um cantor de verdade que estava utilizando a possibilidade da carreira solo para fazer honesto e pessoal, não apenas uma continuação do que vinha fazendo na boyband, vigiado de perto demais pela gravadora, pelo empresário e pelos produtores.

E Harry Styles é um ótimo disco. Não está preocupado em criar sons novos e nem em desconstruir o pop ou a imagem que Styles já tinha no 1D. Ele continua sendo um bom garoto, carismático e bonito. Mas trocou os três companheiros de palco por uma banda que é tão importante no palco quanto ele e se permitiu brincar com diversos tipos de pop, do mais roqueiro ao acústico, passando pelo country e folk e nunca apostando no eletrônico (o que também contrariou várias previsões). E ainda faz uma referência a Johnny Cash a fazer uma música sobre cocaína (“Carolina”, uma das melhores do disco) e manda muito bem em uma faixa sensual (“Woman”).

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O disco já abre com “Meet Me In The Hallway”, uma balada tranquila, com um vocal de versos até meio viajante, uma excelente linha de violão, baixo melódico (tocado por Ryan Nasci) e omnichord discretamente construindo um clima de sonho tocado pelo próprio cantor. Para um astro do pop, não seria a música mais indicada para se iniciar um disco. É por essa e por outras que Harry Styles desponta como uma promessa. Mas tem muito mais para ouvirmos no disco. A emoção de “Sign Of The Times” só aumenta ao sabermos que foi escrita do ponto de vista de uma mãe que acaba de dar a luz e não vai sobreviver.

O segundo single do álbum, a singela “Sweet Creature”, é acústica, sem percussão e com ótimos vocais de fundo que entregam um aspecto mais etéreo a faixa. E tudo bem se o refrão de “Ever Since New York” ficar grudado em sua cabeça por dias. É uma ótima faixa que também deixa emergir o trabalho vocal de Styles como mais um arranjo da canção.

Há uma boa variedade de gêneros musicais presentes em Harry Styles e ele nunca parece ansioso. As músicas têm qualidades de sobra pelo que são e também não estão repletas de arranjos que, na mão de artistas e produtores mais inseguros, serviriam para preencher as lacunas criativas das faixas. Por isso, pelo menos para mim, fica claro que há qualidades em Harry Styles que me levam direto a David Bowie. Os deliciosos rocks “Only Angel” e “Kiwi” coroam esse paralelo com o camaleão inglês, mas ao longo do disco todo Styles se mostra versátil e dotado de um feeling raro. Se o carisma já era conhecido desde o 1D, essa boa mão e ouvido para canções só veio a público agora. Claro que é cedo demais para dizer que Harry Styles é um novo David Bowie ou segue seus passos, mas o álbum certamente deixa pistas disso. A entrega e a consciência de como abordar cada composição é algo que realmente se destaca no disco e que também era uma das marcas de Bowie.

Aliás, seja sozinho, em dupla ou em grupo, todas as 10 músicas do disco tiveram a mão de Styles na composição. Jeff Bhasker (Kanye West, Rihanna, Ed Sheeran, Mark Ronson, Jay-Z) é o principal produtor e parceiro de composição no trabalho, que inclusive cedeu o estúdio de sua casa na Califórnia para boa parte das gravações.

Pode não ser uma ruptura total com o que fazia no 1D, mas já é um enorme passo a frente da boyband, sem dúvida. Embora a marca One Direction seja enorme, Harry Styles mostra que seu talento solo é, artisticamente falando, mais amplo, exploratório e maduro do que é permitido a uma boyband demonstrar. Assim, Styles se firma não apenas como um grande cantor com futuro, mas também como alguém para se ficar de olho. Desde já, uma das melhores surpresas de 2017.

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Chris Stapleton – From A Room: Volume 1 (2017)

Um disco emocionante, forte, energético e gostoso

Por Gabriel Sacramento

Se você acompanhou o cenário da música e das premiações em 2015, sabe que o disco do Chris Stapleton foi um dos mais reconhecidos. O cara ganhou Grammy, Billboard Music Awards, Country Music Association Awards e outros com o disco Traveller, sendo um dos artistas mais comentados daquele ano. Tudo isso é impressionante para qualquer álbum de qualquer artista, mas no caso de Stapleton, o efeito foi ampliado, já que era seu primeiro trabalho.

Em seu novo disco, From A Room: Volume 1, Stapleton trabalhou novamente com o produtor Dave Cobb e nos trouxe uma série de ótimas canções, de novo. Se Traveller tinha uma sonoridade que parecia ao vivo, como se o músico estivesse se apresentando bem na sua frente, From a Room… soa um pouco mais dentro do estúdio. E a mix é mais polida também. Mas nada disso tira o brilho e a energia das faixas, intrínsecas ao estilo do compositor de Nashville.

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“Broken Halos” é uma música simples, bem voltada ao country, fácil de assimilar e ótima para começar o disco. “Last Thing I Needed, First Thing This Morning” deixa evidente a ótima timbragem da guitarra principal, um dos destaques do disco, tocada pelo próprio Stapleton. Além disso, é uma balada tocante e poderosa. Em “Second One To Know”, Chris chama a sua guitarra para a frente, numa faixa mais roqueira conduzida por um riff forte. A voz do cantor se encaixa tão bem aqui quanto nas faixas mais emocionais.

Em Traveller tínhamos uma balada chave que partia nossos corações (“Sometimes I Cry”). Dessa vez temos “I Was Wrong”, outra das ótimas baladas, cortante e precisa, com a potência vocal e o ótimo timbre jogando a favor do cantor. “Death Row” chega mais perto do blues, com típicos fills de guitarra um pouco mais distorcida intermitentemente vindo à luz. “Up To No Good Livin'” é a mais caipira do álbum, com direito à slide e backing-vocal feminino e todo o sotaque sulista de Stapleton deixando as referências bem claras.

Compositor de longa data, cooperador de diversos artistas famosos (Adele, Luke Bryan, Peter Frampton), Stapleton deu o primeiro passo em 2015 para uma carreira solo. O debut foi um sucesso e o segundo prova que o artista está sabendo firmar bem seus passos na longa caminhada da estrada da música. O grande destaque da musicalidade do cantor é a sua capacidade de misturar detalhes de estilos diferentes – southern rock, country, bluegrass, soul, blues -, demonstrando total domínio de tudo que insere nos discos. É difícil rotular o que ele faz, até porque sua música não possui pretensão de ficar enclausurada em rótulos, mas visa ser uma expressão pessoal, sincera e singular.

Chegando sem medo no cenário do country – cenário que já teve nomes como Taylor Swift e que hoje conta com nomes como Sturgill Simpson, Blake Shelton e Eric Church -, Stapleton se diferencia dos demais, tanto pelo jeito como coloca sua guitarra nas faixas, flertando com o rock, quanto pela forma de dar vida às letras, com interpretações envolventes, que são capazes de fazer até um robô derramar lágrimas de emoção. É bem provável que o feito do primeiro disco, no que diz respeito às premiações, não se repita. Mas a qualidade do primeiro álbum foi repetida e ouvir tanto um quanto o outro é uma experiência igualmente maravilhosa.

E mais uma vez Dave Cobb conseguiu um ótimo resultado. O produtor, que tem sido também o mentor do Rival Sons na carreira bem-sucedida do grupo, tem se mostrado bastante competente nos trabalhos em que se envolve. Todo seu conhecimento e experiência com músicos e bandas de rock ajudou Chris Stapleton a orientar esse seu lado e buscar evidenciá-lo sem soar exagerado. Além disso, a impressão que se tem é que Cobb soube muito bem aproveitar os pontos fortes do cantor, para gerar uma fórmula sonora infalível.

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Escuta Essa 30 – Guardiões da Galáxia: A Incrível Mixtape é Incrível Mesmo!

A segunda aventura dos Guardiões da Galáxia é ainda melhor que a primeira, e isso inclui as músicas na Incrível Mixtape de Peter Quill. Neste episódio discutimos o papel da ótima trilha sonora e coletamos surpreendentes easter eggs que ressaltam a importância da música no filme.

Resenhamos ainda os novos álbuns da banda de stoner metal Mothership, o pop cheio de fusões do Elastic Bond e o novo e complicado disco da canadense Feist. E escolhemos três bandas nacionais independentes (Ozu e Blues Drive Monster, de São Paulo, e Mezatrio, de Manaus) que nos mandaram material para analisar no programa. Coloque os fones e divirta-se!

Download do episódio neste link!

00’00”: Abertura
03’28”: Guardiões da Galáxia Vol. 2 – a trilha sonora
58’14”: Mothership – High Strangeness
1h08′: Elastic Bond – Honey Bun
1h18′: Feist – Pleasure
1h27′: Ozu / Mezatrio / Blues Drive Monster
1h42′: Steven Wilson

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John Mayer – The Search For Everything (2017)

John Mayer em busca por tudo

A busca por tudo poderia ser o resumo da carreira de Jonh Clayton Mayer. Sete álbuns de estúdio se passaram e ainda não temos certeza sobre o que ele quer ser. Ele já passou pela fase “garoto pop cool”, quando surgiu com o Room For Squares (2001), produzido pelo John Alagía (mesmo cara que produziu o Jason Mraz no início), chegou a flertar fortemente com o blues e nos apresentar uma faceta de guitarrista e vocalista, bem como sua técnica apurada nas seis cordas em Continuum (2006) e em Battle Studies (2009). E então recentemente, começou uma parceria com Don Was (produtor de Willie Nelson, Van Morrison e Jackson Browne), enveredando pelo folk/country em uma fase que, assim como a blueseira, durou dois álbuns – Born and Raised (2012) e Paradise Valley (2013). Finalmente, em seu novo disco (The Search For Evertyhing) Mayer se volta para a inocência pop do seus primórdios.

Vale lembrar que o cantor é muito competente em seus trabalhos. Mesmo que tente várias coisas diferentes, ele consegue chegar a resultados satisfatórios. Foi assim com seus últimos quatro discos, por exemplo. Mas essa crise de identidade acaba por não deixar que ele encontre o seu som e invista mais fortemente em uma direção para obter um resultado mais consistente. The Search For Everything marca a volta da parceria com Pino Palladino e Steve Jordan, que juntos com o Mayer começaram um trio de blues em 2005 e não gravavam juntos desde 2009. A produção do álbum ficou a cargo de Chad Franscoviak, junto com o próprio Mayer. O cantor liberou as faixas aos poucos, dividindo-as em dois EPs – Wave one e Wave two.

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“Still Feel Like Your Man” abre o álbum trazendo um quê dançante, com guitarras suingadas e ótimas harmonias de vozes no grudento refrão. “Helpless” carrega um pouco de nostalgia da fase mais guitarreira do cantor, com o instrumento na frente de ataque destilando licks e riffs cheios de suingue e um solo bem legal. “Love On The Weekend” traz um clima tranquilão de”fim de tarde de sexta”, que contrasta com as mais dançantes que vieram antes. Temos várias baladas como “In the Blood”, “Changing”, “Never on the Day You Leave”. Para fechar, a singela, infantil e incrivelmente bonita, “You’re Gonna Live Forever in Me”. Temos ainda faixas com acento folk/country como “Roll It On Home” e “Emoji of a Wave” e uma faixa que flerta com o R&B como o Mayer nunca tinha feito antes: “Moving On and Getting Over”.

O cantor americano parece ter sido bastante influenciado por black music ultimamente e percebemos isso em seu novo disco. Ele, que já usou sua guitarra pra solar, tocar riffs de rock, agora usa para fortalecer a noção de ritmo das faixas, engrossando o groove. O que é aliás, mais uma faceta do multifacetado John Mayer. Sua guitarra soa, como sempre, bem timbrada e aparece bem dentro das faixas. O trabalho de timbres do álbum todo lembra os últimos álbuns do Eric Clapton, tudo é muito límpido, solto, leve e confere um bom clima de tranquilidade.

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The Search For Everything não é um disco ruim. Aponta para várias direções diferentes, mas até isso é feito com muito cuidado e a produção do disco acerta em manter essas direções arrumadas de forma coesa. Nesse álbum, Mayer trouxe um pouco do seu lado guitarrista, seu lado folk, bem como seu lado mais pop do começo da carreira. Se em toda a carreira, isso não foi apresentado de uma forma tão harmônica assim, em TSFE, todas as facetas parecem estar bem conectadas. Ele conseguiu manter a constância de seus trabalhos e lançou mais um, que é interessante e vale a audição. Se, ao final de tudo, o saldo é positivo pelo disco em si, por outro lado, a carreira do americano continua bem imprevisível. O cantor parece que ainda não se encontrou e permanece em busca de algo.

Ou em busca de tudo.

Me And That Man – Songs of Love And Death (2017)

Blues, country e folk sombrio que coloca vampiros para dançar e demônios para dormir

Por Lucas Scaliza

Às vezes os pesos pesados dão uma pausa e aproveitam a vida para pegar leve. Assim, apreciam um outro lado de suas próprias naturezas. Pense em Ozzy Osbourne que deixou de ser conhecido pela sua música por um tempo para virar estrela de reality show. Ou pense em O. J. Simpson que… bem, acho que esse deixou de pegar pesado nos campos de futebol para pegar ainda mais pesado no que deveria ser sua vida “cotidiana”.

Algo assim – dar uma pausa, não cometer crimes e nem virar estrela da TV – aconteceu com Adam “Nergal” Darski, o vocalista da grande banda polonesa de black metal Behemoth, após ouvir o excelente Blues Funeral (2012) de Mark Lanegan. A mistura de blues, southern rock, folk e eletrônica, combinado à voz grave do ex-vocalista do Screaming Trees, inspirou Nergal a apostar em um tipo de música parecido. E Nergal, que fez uma turnê vitoriosa com o Behemoth tocando The Satanist [2014] na íntegra, sentiu prazer em trocar as flying Vs com afinação baixa por semiacústicas em que cada acorde Ré resplandece sem precisar de toneladas de distorção.

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Para dar corpo ao projeto paralelo Me And That Man, Nergal invocou o poeta parte britânico, parte polonês John Porter, que divide com ele as funções de cantor e guitarrista. Todas as canções de Songs Of Love And Death baseiam-se em acordes simples e levadas bem manjadas, porém muito funcionais dentro da proposta bluseira, country e folk da dupla. E não espere encontrar uma cópia de Mark Lanegan, mas sim uma mistura de Johnny Cash com Nick Cave, Leonard Cohen e Wovenhand.

O que há de mais singular no disco é que, apesar do formato mais leve em som do que o black metal gutural da banda principal de Nergal, a visão de mundo que ele e Porter expressam nas letras de Songs Of Love And Death são sombrias e pesadas o suficiente para arrepiar os cristãos, judeus, islâmicos e nova-eras mais cabeças fechadas. O disco já abre com uma das melhores do álbum, “My Church Is Black”, em que além de dizer que “minha igreja é preta”, que “nenhum reino [de Deus] está vindo”,  diz também que “o inferno é minha casa” com a maior naturalidade possível debaixo de um ressoante strum em Mi maior. Na lenta e western “Cross My Heart and Hope To Die” ele encarna um personagem (será?) que deixa claro que é um grande caso de bad news. Para o final, deixa que um coral de crianças cantem versos fofos: “Não viemos pelo perdão/ Não oramos pelos nossos pecados/ Traímos nossos querido Jesus/ Escolhemos o inferno na terra”.

Nergal e Porter continuam trazendo sua visão de mundo dark no restante do álbum, como na roqueira “Better The Devil I Know” e na agitada “Love & Death”. Enquanto o líder do Behemoth toma para si o protagonismo nas faixas mais pesadas, que muito lembram diversas fases do Nick Cave, Porter encarna o Johnny Cash em “Nightride”, “On The Road” e “One Day” e outras. As faixas em que Porter toma mais o vocal são mais luminosas e mais cativantes que as de Nergal, que são muito mais escuras, mas não se deixe enganar: se Nergal é o príncipe das trevas, Porter é guardião do livro das trevas.

Tentando preservar as características do blues rock e deixá-las o mais western possível, a dupla opta por um estilo limpo e acessível, bebendo também na fonte do storytelling das murder balads. Um bom disco para assustar os mais conservadores, capaz de colocar vampiros para dançar e embalar o sono de jovens demônios.

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Little Big Town – The Breaker (2017)

Quarteto volta a gravar com Jay Joyce e faz som cheio de boas referências, maduro e consistente

Por Gabriel Sacramento

Nos últimos anos, vimos bons exemplos de country pop (como o Eric Church), vimos maus exemplos (como o Keith Urban) e até vimos um novato no gênero chegando com gás e fazendo um bom trabalho (Steven Tyler). A verdade é que chegar no terreno conquistado pelo Garth Brooks para tentar fazer sucesso não é fácil. A probabilidade de se vender e acabar diluindo o som com saídas fáceis é muito grande.

O grande parceiro de Eric Church é Jay Joyce. Produtor renomado na cena de Nashville, Joyce também trabalhou com Carrie Underwood e no último álbum de Zac Brown Band. Além disso, ele vem cooperando com um grupo que impressiona com seus lançamentos e suas buscas por diferentes nuances e identidades: É o Little Big Town. Grupo americano formado por dois cantores e duas cantoras, que começou a carreira lá em 2002, com um country pop romântico, que evoluiu para um country pop roqueiro e flamejante no seu disco de 2014, Pain Killer. A evolução do grupo se deu em grande parte por causa da boa parceria com Jay Joyce. O produtor foi decisivo para mostrar uma veia roqueira que o grupo possuía, bem como dar apoio a jogadas mais ousadas, mas ainda mantendo o som acessível.

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Depois de Pain Killer, a banda ainda passou por uma fase instável: Em 2016, trabalharam com Pharrel Williams e Justin Timberlake em um álbum que contrasta com o anterior: colorido, pop, pouco country e até dançante. A fase acabou logo e o grupo voltou ao country em The Breaker, assim como voltou para Jay Joyce. Essa busca de identidade da banda, passando por diferentes tipos de sons, acabou enriquecendo a obra e mostrando versatilidade, além de serem bons ao trabalharem com diferentes produtores.

“Happy People” traz um frescor meio folk, junto com os trejeitos country sulistas, reconhecíveis na primeira audição. “Night On Our Side” é encharcada de harmonias vocais apaixonadas. A faixa representa um alívio em relação ao bucolismo da primeira. “Driving Around” mostra um acento roqueiro bem dosado, com efeitos bem futurísticos nos vocais. “Better Man” – escrita pela Taylor Swift – e “Don’t Die Young, Don’t Get Old” são bons exemplos de baladas country pop, feitas para as rádios. “Rollin'” tem uma veia roqueira e alternativa, mostrando que a banda se dá bem passeando por diversos caminhos diferentes. A canção é irresistível e Jay Joyce sabe conduzir bem as vozes para que tudo soe bem encaixado e mantenha o aspecto roqueiro. Já “Free” é uma balada envolta por uma base bem atmosférica e imaginativa.

O novo álbum do Little Big Town deixa claro que a banda não precisa de muito esforço para evidenciar suas diversas facetas. Deixa claro também que a experiência os deixou ainda mais sábios e cuidadosos com seu som e musicalidade. Junto do produtor Jay Joyce, a banda avança na carreira, com um disco maduro e consistente. Ou seja, se precisa de motivos para ouvir o grupo e ser cativado pelo som deles, você os tem de sobra em The Breaker.

Seja pelos timbres diferentes – como a bateria pesada em “Lost in California”, os instrumentos cheios em “Free” e os timbres secos e rurais de “Happy People” – ou pela capacidade de tornar tudo audível e marcante pelas suas próprias características, a produção de Joyce acertou em cheio. O grupo também parece ciente de quem é, depois de todos esses anos, e busca impor isso de forma saudável com seu disco. Eles tem a lógica e também uma espécie de retórica sonora, pois convencem com muita facilidade.

The Breaker não é ousado, nem pretensioso. Mostra a banda se apegando ao seu porto seguro, sem se arriscar demais. Mas ainda assim é aquele mix de referências e detalhes guiado por um desejo de diversificar e expor as influências que formam o vocabulário musical dos quatro membros. Ouça e se deixe levar.

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