Eletronica

Calvin Harris – Funk Wav Bounces Vol. 1 (2017)

Um estrangeiro passeando em terras americanas

Por Gabriel Sacramento

Um novo disco do Calvin Harris é quase um megaevento que deixa pessoas de várias partes do mundo em estado de alerta. Afinal, todos querem saber o que o DJ mais bem pago da atualidade tem pra dizer com seu novo conjunto de músicas. E depois dos dois últimos discos, estádios lotados, festivais grandiosos, singles de sucesso estrondoso – como “How Deep Is Your Love” – e recordes quebrados, o artista escocês parece bem acostumado com o sucesso e todo o buzz envolvendo seu trabalho e sua vida artística. Acostumado, mas não acomodado. Pelo menos não mais.

Em seu novo álbum, Funk Wav Bounces Vol. 1, o produtor reuniu um all-star team de artistas que têm se destacado na música americana recentemente e coordenou a equipe para chegar a um álbum com influências de funk, disco e neo-soul. Sim, o cara decidiu resgatar referências de décadas passadas, o que não é de longe algo novo, mas não deixa de ser válido quando feito com honestidade e competência.

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“Slide” surge com vocais de Frank Ocean e raps do trio americano Migos. A sonoridade é bem fortemente pontuada pelo baixão firme, um Ibanez tocado pelo próprio Harris. Temos teclados para fornecer um quê de lounge à faixa também – lounge que remete instantaneamente à dobradinha D’Angelo e Maxwell – e as vozes funcionam bem dentro desse esquema sonoro. “Rollin” foi fruto da cooperação de Harris com o rapper Future e com o jovem Khalid. É uma boa faixa R&B, charmosa e elegantemente simples. “Feels” é totalmente ambientada no fim dos anos 70 e começo dos anos 80, quando as pessoas costumavam frequentar clubes e dançavam sob um globo brilhante. Nesta cantam Pharrel Williams, Katy Perry e o rapper Big Sean. “Cash Out” surge num contexto mais hip-hop clássico, com os raps de SchoolBoyQ, PARTYNEXTDOOR e DRAM. “Faking It” tem os vocais da Kehlani e é uma boa faixa que podia estar no primeiro álbum dela. Assim como “Holiday” podia estar no Bush do Snoop Dogg, que nesta destila seu flow acompanhado das melodias de John Legend. “Hearstroke” é uma das melhores faixas do ano, muito por causa da interação vocal de Ariana Grande com Pharrel Williams em um jogo suave de vozes.

Em seu novo disco, Calvin parece respeitar bastante os limites e ideais criativos de cada artista, deixando que cada convidado trazer um pouco de seu mundo e fazendo deste Vol. 1 um mergulho bem sucedido do europeu no oceano da música americana. Pode ser entendido também como uma viagem de um turista aos Estados Unidos, guiada por vários residentes do país, que em cada faixa situam o estrangeiro no que há de melhor na música negra produzida nos últimos 40 anos. Vale lembrar que Drake fez algo parecido este ano, experimentando com estilos de outros países, e se deu bem. Funk Wav Bounces teve um processo de concepção diferente dos últimos trabalhos, principalmente porque Harris ficou exclusivamente encarregado da produção, o que ajudou a  direcionar melhor o produto final. Ele também tocou uma série de instrumentos, incluindo o clássico Fender Rhodes e uma guitarra Fender Stratocaster 1965 – cruciais para que ele alcançasse esse som especialmente vintage.

Se afastando da artificialidade dos samples e sintetizadores grandiosos, Harris dá um passo um tanto arriscado rumo à expansão criativa, experimentando com música orgânica, ensolarada e com os balanços corporais que este tipo de música pode provocar. Uma ótima pedida para quem admira artistas que transcendem limites geográficos para elevar o nível de sua forma de expressão.

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Portugal. The Man – Woodstock (2017)

Conservando elementos experimentais e psicodélicos, Woodstock marca a guinada mainstream do grupo

por brunochair

Se você acompanha as resenhas que escrevo para o Escuta Essa Review, sabe (ou tem uma impressão, pelo menos) de que gosto de contextualizar o gênero musical de um determinado artista/grupo. Não faço isso para delimitá-los, mas sim para facilitar na pesquisa do ouvinte de música, direcioná-lo para o conteúdo que pode interessar de imediato. Pois bem. Sempre que leio, internet afora, que o Portugal. The Man é um grupo de rock progressivo, todos os cabelos do meu corpo, da minha alma e os que eu perdi durante a caminhada da existência ficam arrepiados. Ainda que o grupo contenha a sua pitada de experimentalismo e psicodelia, nunca alcançou um status de progressivo em sua carreira musical.

O Portugal. The Man, banda oriunda do Alasca (EUA), está mais para o terreno do indie pop. O que os diferencia dos demais grupos do gênero é a sonoridade experimental e psicodélica alcançada através de elementos eletrônicos. É o toque de estranheza e curiosidade que atrai o ouvinte para a discografia deles. Em Woodstock, o grupo continua apostando nessa junção de instrumentos com os elementos eletrônicos. Porém, neste disco novo a aposta do grupo foi em desenvolver uma sonoridade bastante mainstream, um pop massivo que conseguisse abarcar uma enorme quantidade de consumidores.

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Se esta resenha tivesse sido escrita há algumas semanas, teríamos dito que a aposta foi essa: continuar soando indie pop (experimental e com presença de elementos eletrônicos) com a intenção de soar massivo. Mas o disco já ganhou o rumo das rádios e do YouTube, e bombou. “Feel it Still” tem quase 30 milhões de audições no Spotify. Já pude ouvir a música tocar nas rádios da minha cidade (Bauru) algumas vezes, inclusive a partir de pedido do público. Ou seja, o grupo atingiu o seu objetivo, e o single citado já disputa espaço com artistas como Ed Sheeran, Calvin Harris e o single “Despacito”, de Luis Fonsi.

Outras canções do disco possuem chance de também alcançar o status de singles radiofônicos. É o caso de “Easy Tiger”, “Rich Friends”, “Keep On”, “Tidal Wave” (inspiração em Magic!). Outras canções do disco não tem o mesmo potencial, ainda estão no terreno do alternativo, mas certamente o ouvinte de rádio (essa pessoa que imaginamos existir) se ela procurar ouvir o disco de ponta a ponta não terá problemas em entender a linguagem do Portugal. The Man. As músicas são descoladas, os temas e títulos de música simples e (em boa parte) descontraídos.

Para quem conhece a banda há mais tempo, talvez essa guinada mainstream tenha impressionado. No entanto, caso esse mesmo fã (ou ouvinte) da banda analise o percurso do grupo sem tanta paixão, verá que o caminho para o pop das massas era algo possível. Inevitável? Obviamente que sim. O que importa é que o Portugal. The Man conseguiu desenvolver esse pop massivo sem perder suas características experimentais e psicodélicas. Apenas subverteu ao mercado. Como não nos cabe fazer aqui juízos de valor e apenas apontar a direção que tomaram, eis o caminho tomado. Ouça, e faça seu próprio julgamento.

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Escuta Essa 37 – Os 15 Melhores Álbuns do Ano Até Agora

Chegou a hora de elegermos os 15 melhores discos lançados neste primeiro semestre de 2017. Após uma criteriosa avaliação de tudo o que foi resenhado no site e nos podcasts passados (indicações do Instagram não valem), Lucas Scaliza, Gabriel Sacramento e Brunochair explicam porque cada um merece estar nesta lista.
E o que o Antonio Fagundes tem a ver com isso? Amigo, só mesmo ouvindo este episódio para entender. Vale a pena!

Download do episódio neste link!

PLAYLIST: Não deixe de conferir nossa playlist do Spotify com as 15 músicas dos 15 melhores álbuns e mais 15 músicas que achamos incríveis lançadas neste primeiro semestre.

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Vince Staples – Big Fish Theory (2017)

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Por Gabriel Sacramento

Quando perguntado sobre o novo álbum, sucessor do Summertime ‘06, Vince Staples chegou a mencionar um termo chamado afrofuturismo, que em suma, representa um conceito que combina ficção científica, histórica, fantasia e cultura negra. O George Clinton gostava de brincar com isso em suas bandas Parliament e Funkadelic, trabalhando com temas diferentes do comum e da ideia de arte mais, digamos, verossímil. Porém, numa entrevista mais descontraída, Vince disse que o álbum não seria realmente fundamentado com base nesse conceito, mas que ele apenas escolheu o termo aleatoriamente para ter algo pra dizer.

Um brincalhão, pra variar.

O novo álbum ganhou o título Big Fish Theory. E a teoria que o título trata é bem interessante. É a teoria que diz que um peixe só cresce até o tamanho do tanque que o comporta. Ou seja, ainda que cresça, não será tão grande, pois algo o limita. A ideia pode ser associada com muitas coisas, inclusive com a situação dos afro-americanos diante da falta de oportunidades para desenvolverem seus talentos e irem além. Mesmo não necessariamente desenvolvendo o tema em seu álbum, sua mensagem começa sem nem precisarmos abrir o encarte, com o título servindo de uma boa chamada à reflexão.

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O álbum contém diversos nomes na produção e participações de peso como Kendrick Lamar, Juicy J, ASAP Rocky e Damon Albarn. A ideia do músico foi de fugir um pouco do hip-hop mais comum do seu primeiro álbum e fazer algo diferente que obedecesse sua filosofia pessoal de perseguir a mudança e de não continuar buscando a mesma sonoridade. No twitter, ele logo avisou que o álbum foi feito para ser ouvido em um equipamento adequado por causa dos graves. E é verdade, junto com as influências do techno de Detroit, aquele do final dos anos 80 que tinha uma veia futurista e fria, Staples investiu em graves robustos para as bases de seu álbum, servindo de cama sólida e resistente para que ele e seus convidados passeiem livremente com raps e melodias.

A primeira faixa, “Crabs in a Bucket” já antecipa uma abordagem mais eletrônica, com a base mudando ao longo da faixa e surpreendendo pelos ótimos timbres. Aqui, percebemos que a parte instrumental ganha um destaque maior que ganharia em qualquer faixa mais comum do gênero e a sensação é que os timbres competem com os vocais pela atenção do ouvinte. “Big Fish” traz uma pegada que lembra o hip-hop de dez anos atrás, com uma letra que fala da sua vida e de como o rap a mudou para melhor. Juicy J empresta seus vocais nesta. “745” lembra o feel das faixas do Thundercat no seu álbum mais recente. “Yeah Right” surge com seus graves soberbos e profundos e ainda conta com participação da Kučka e do Kendrick Lamar. Ao longo da faixa, podemos ouvir alguns sons meio industriais bem proeminentes, que evidenciam o nível de experimentação eletrônica que Vince explorou aqui.

“BagBak” é rap em cima de samples eletrônicos bem loucos, já “Rain Come Down” é um dos poucos momentos em que temos um destaque maior para as melodias, com o Ty Dolla $ign fazendo os vocais cantados. A base segue a ideia das outras do álbum de ser totalmente fora da caixa e diferentona. Em “SAMO”, Vince fala de fazer a mesma coisa, do mesmo jeito e ter que falsificar sorriso para câmeras, apenas pelo dinheiro. O que é algo que ele diz não gostar, já que critica enfaticamente artistas que se acomodam na repetição das ideias. Nesta também temos timbres industriais bem interessantes, como vários metais sendo utilizados para gerar sons bem intrigantes.

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Com Big Fish Theory, Staples não esconde sua pretensão de virar o hip-hop de cabeça pro ar. O rapper aborda elementos da música eletrônica, indo mais profundo no uso de samples e sintetizadores, para criar algo que soa experimental, futurista e avant-garde para os nossos padrões atuais. Ele não somente coloca holofotes no próprio nome, mas chama a atenção para a possibilidade de ser extremamente criativo dentro do gênero, sem deixar de erguer as bandeiras típicas e de falar a linguagem típica.

Além de seu trabalho mais interessante, o disco confirma as expectativas de quem esperou pelo seu álbum depois de conhecê-lo quando ouviu “Ascension”, uma das melhores faixas do Humanz do Gorillaz. O feat. com certeza serviu para isso e estes ouvintes com certeza devem se sentir totalmente satisfeitos com a proposta do rapper de Chicago em seu disco – pensando diferente e perseguindo incansavelmente o som da sua cabeça, que ele mesmo diz que é impossível alcançar.

Se o Jamiroquai se destacou esse ano, misturando como poucos a frieza do eletrônico, o futurismo sci-fi e o velho groove do acid jazz, Vince Staples se destaca por misturar a frieza, o aspecto futurístico e o bom e velho hip-hop dos versos críticos e das colaborações entre amigos. Staples consegue desempenhar uma função de bom intérprete: conversar com distintos públicos de distintos lugares e convidá-los todos a consumir o seu produto. Experimentando bastante, ele segue mandando a real, sem esquecer de fugir um pouco da realidade.

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Katy Perry – Witness (2017)

Cantora deixa a adolescência musical, mas falta carisma ao novo disco

Por Lucas Scaliza

Por essa eu não esperava. Após me submeter a sucessivas audições de Witness, em diferentes dias, locais e contextos, minhas reações às novas músicas de Katy Perry foram quase nulas. Me senti apático na maior parte do tempo. Logo eu, que me entreguei à experiência após curtir a música e a letra de “Chained To The Rhythm” (que discutimos no podcast). Logo ela, tão dada a fazer músicas chicletes e poderosas.

É fácil notar o que aconteceu. Katy Perry trocou o ultrapop pelo pop. Músicas muito mais contidas e muito menos catchy é o que encontramos em 80% do álbum. A própria “Witness”, que deveria abrir o disco com os dois pés no peito do ouvinte, não conquista e fica a impressão de que ela quis soar mais adulta, deixando para depois a tarefa de fisgar a audiência. Mas são pouquíssimos os momentos em que nos sentimos engajados pela cantora.

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Katy Perry é amplamente conhecida por transformar seus álbuns, clipes e shows em enormes parques de diversão, construindo uma Disney própria em que um pouco de libido é permitida, mas sem perder de vista a fofura de unicórnios e sereias da moda. Witness não compactua bem com isso. Por um lado, seu pop ainda é acessível e tornou-se mais maduro, ainda confiando no trabalho de produção eletrônica (com influências de house noventista, R&B, EDM topzera) e em algumas levadas orgânicas bem sacadas. De outro, falta o carisma que ela esbanjava em Teenage Dream (2010) e até em Prism (2013) e possui linhas vocais exigentes que nunca sabemos ao certo se ela realmente consegue reproduzir sozinha em cima do palco.

“Hey Hey Hey”, coescrita pela Sia e com backing vocals da norueguesa Astrid S, tem a pretensão de ser um hino ao empoderamento feminino. Já “Swish Swish”, com participação de Nick Minaj, é um morteiro que mira cabeça de trolls e haters. O texto de “Power” procura dar força às mulheres para que saiam da sombra de homens que não as deixam mostrar a capacidade que têm. “Chained To The Rhythm”, a mais poderosa do repertório do álbum, é um retrato bem feito de nosso mundo. Claramente inspirada no governo Trump e em sua retórica da pós-verdade, é a canção que mais se aproxima do ultrapop de outrora e se aproveita de um rap bem feito de Skip Marley, neto de Bob Marley. E “Bigger Than Me” foi inspirada na derrota presidencial de Hilary Clinton.

Em um universo de 17 canções, são essas que vêm com alguma carga política ou procurando a lacração de alguma forma. Ainda temos “Tsunami” e “Bon Appetit”, ambas sobre sexo e a forever teenage “Act My Age”. O restante são canções sobre relacionamentos passados e questões pessoais. É ótimo que os temas de Perry tenham ampliado horizontes, mas Witness está longe de ser um disco crítico (e estiloso) como Humanz, do Gorillaz, ou o álbum pop engajado do ano. E mesmo quanto às questões pessoais, está um degrau abaixo de Melodrama, da amiga Lorde.

No cerne dos acertos e erros do álbum está o compositor e produtor Ali Payami, sueco e descendente dos persas iranianos que já trabalhou com The Weeknd, Tove Lo, Ellie Goulding, Taylor Swift e Ariane Grande. Ele produziu, tocou praticamente todos os instrumentos do disco e fez as programações. Se gostar do resultado final, faça uma reverência a ele. Se, como eu, achar que faltou construir pontes mais carismáticas com o ouvinte, culpe a ele também. Em discos assim, que contam com uma equipe de compositores e arranjadores, Katheryn Hudson não pode ser responsabilizada sozinha.

Witness mostra que Katy Perry chegou a maturidade, sim, e que pode começar a trilhar uma nova fase. Embora um orgasmo possa ser comparado a um tsunami, não dá para dizer que se este álbum “chegue lá” tão bem. De fato, ao terminar, a gente quer logo olhar o que mais há por aí e não sentimos tanta vontade de repetir a dose. Você queria o tsunami, mas só levou uma brisa.

Lorde – Melodrama (2017)

A perda da inocência: a nossa, a da juventude e a de Lorde

Por Lucas Scaliza

Faz quatro anos que Pure Heroine (2013) foi lançado. Chegou como quem não queria nada e foi galgando seu espaço naturalmente. A então jovem Ella Marija Yelich-O’Connor não era nada (nem famosa em redes sociais), mas tinha um disco com produção esperta, um acordo com a Universal e letras ainda mais espertas sobre a juventude. O sucesso a tirou da periferia do mundo pop e da sua Nova Zelândia natal para colocá-la entre pessoas, lugares e festas badalados em Londres, Nova York e Los Angeles. As ~inimigas~ Taylor Swift e Katy Perry viraram amigas de Lorde, a garota dos então cabelos volumosos.

Seria muita inocência de nossa parte achar que quatro anos depois Lorde seria a mesma pessoa e faria a mesma música. Seríamos como os adolescentes em “Perfect Places”, que tomam drogas (lícitas e ilícitas) e fazem sexo para esconder algo que falta a eles. O sucesso alcançado por ela foi estrondoso e uma estrutura de mídia e marketing foi criada em torno de Lorde para atendê-la. Melodrama é mais pop e menos dream pop, de fato. Isso se revela fácil para quem ouvir “Green Light” e tiver ouvidos e coragem para reconhecer que diversas outras partes de outras músicas são bem comuns do pop que se faz atualmente. No entanto, há uma boa quantia de indie e eletrônica que ainda resguardam não o Pure Heroine em si, mas o jeito como Lorde se expressa, chegando a soar alternativa.

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Lorde também não é inocente: teve que dar algo ao mercado, à gravadora e aos fãs que fosse capaz de “moldá-la” a um padrão. Perdeu-se um pouco da originalidade, mas no miolo do álbum existem boas ideias e um fio condutor que fazem Melodrama valer a pena. “Sober”, sobre uma relação que está se desfazendo e como isso fica claro quando o casal não está sob efeito da bebida, é o primeiro vislumbre da Lorde que aposta no diferente e no fora do comum. No mundo ideal – da gravadora -, “Sober” nunca seria um single. “Homade Dynamite” tem uma pega derivada do R&B que a cantora tanto gosta, mas é bem esquisitinha no final das contas, virando umas esquinas inesperadamente.

“The Louvre” é um belo trabalho de produção, procurando, em certo ponto, como emular as reverberações de uma festa real. “Hard Feelings/Loveless”, a música que marca o rompimento que vem se desenhando, é quando o melhor dream pop de Lorde emerge e nos faz reverenciar sua habilidade de fazer uma boa canção que não se rende ao pop fácil. “Write In The Dark” coloca o vocal de Lorde em primeiríssimo plano. No refrão, ela sobe e desce a escala e lembra que sim, é uma cantora e tanto, e que isso também foi um dos fatores que a ajudou a ser uma estrela. Por fim, “Supercut”é a evolução mais natural do estilo oferecido em seu primeiro álbum e lapidado agora para uma segunda obra mais madura.

A história do disco se passa durante uma dessas festas de jovens em uma casa, quando os adultos não estão por perto e os convidados se pegam, brigam, se amam, vão pra cama, bebem e tomam drogas. No meio disso tudo, Lorde rompe com o namorado (ela realmente passou por um grande término nos últimos dois anos), pensa a respeito, vai e volta da festa, e reflete sobre como é estar só. Quem julgar apenas pelas faixas mais baladeiras vai perder toda a parte mais interessante de Melodrama.

Se para construir sua imagem grandes equipes foram contratadas, quase todo o som do álbum foi criado de forma íntima, com Lorde e o produtor Jack Antonoff sendo responsáveis por quase tudo, desde as letras e os acordes até as intervenções eletrônicas. Isso garante que mesmo que nós, a Lorde e a juventude das festas já não sejamos mais tão inocentes assim com a vida, com o amor e com o que a neozelandesa se tornou, sua música ainda reflete sua sinceridade. Talvez de forma não tão criativa e cortante quanto antes, mas ainda assim bastante íntegra.

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Dua Lipa – Dua Lipa (2017)

Mais do mesmo deluxe edition

Por Gabriel Sacramento

Lembro-me de ver em algum lugar uma crítica a respeito da necessidade de lançamentos de edições deluxe de álbuns hoje em dia, já que boa parte do consumo se dá por meios digitais – downloads ou streaming. A crítica é válida. Afinal, não seria melhor para os artistas tornar os trabalhos mais enxutos? As audições por meios digitais cresceram e as audições de álbuns inteiros diminuíram, afinal as pessoas estão mais acostumadas a conferirem os singles e seus clipes no YouTube do que parar o que estiverem fazendo para encarar 50 minutos de música ininterrupta. Claro, cabe um parêntesis, versões deluxe são até interessantes quando se tratam de álbuns de bandas clássicas – como o Led Zeppelin que lançou em 2014 uma séries de edições de luxo dos seus discos antigos -, mas seria isso viável para discos de estreia ou discos de artistas novos?

Feitas as devidas considerações acerca deste assunto, vamos adentrar no objetivo principal este texto: o primeiro disco da cantora inglesa de origem albanesa, encarada como revelação pop, Dua Lipa. Começou a carreira postando na internet covers de Cristina Aguilera e Nelly Furtado e entre 2015 e 2016 já fazia bastante sucesso sem nem ter lançado o primeiro álbum ainda. Seu som vai na direção mais pop padrão e mesmo que ela tenha descrito sua própria música como dark pop, sua veia é bem alto-astral e colorida, salvo pouquíssimos momentos mais sombrios.

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“Genesis” já mostra o tom do álbum. Batidas simples, economia de elementos no arranjo e foco na voz da cantora. Mas a interpretação parece deixar algo faltando e não encanta. “Lost in Your Light” tem uma base até interessante, meio distante. A faixa marca a presença do cantor Miguel, com seu ótimo timbre vocal contrastando com a voz feminina. No refrão, as coisas melhoram um pouco e não é tão sem sal quanto a primeira. “Blow Your Mind (Mwah)” e seus vocais dobrados também não surpreendem, não sendo nada diferente de qualquer coisa que já ouvimos no pop moderno. Principalmente porque parece algo que poderia ter entrado no último disco da Meghan Trainor.

“Garden” é o tipo de música que requer uma entrega mais emocional do vocal, necessidade que Dua Lipa acaba não satisfazendo. “Thinking ‘Bout You” troca a instrumentação mais eletrônica por um violão. A canção parece que vai engatar, mas esbarramos, mais uma vez, na falta de uma expressão vocal mais emocionante. “Begging” também é fraca, só não esquecível por causa da base que tem um quê de dream pop, um pouco obscuro até. Por fim, “Homesick” acaba sendo a melhor faixa, com a cantora indo além com seu vocal em termos de interpretação, enquanto um piano sustenta a base. A faixa ainda ganha um vocal masculino ao fundo, novamente oferecendo um contraste interessante.

Dua Lipa foi lançado em versão deluxe no Spotify. Cinco faixas extra, sendo que delas, só uma tem algo realmente interessante a ser destacado neste texto: “Room For 2”, com vocais monocromáticos, ambientados de uma forma diferente, muito na frente na mix, mas com efeitos que mascaram e não deixam tão limpinhos quanto os vocais principais. Além dessa boa sacada, a canção também possui uma batida simples, lenta e marcante, em staccato e com um groove sutil. O resto das faixas da edição de luxo é tão líquido e esquecível quanto boa parte das faixas principais.

E isso nos leva de volta à discussão: é mesmo necessário lançar uma versão deluxe com mais músicas de um disco com um número já satisfatório de faixas (12)? Existem tantos fãs hardcore assim que fazem compensar a produção dos deluxes? No caso da Dua Lipa, a versão traz mais do mesmo do que ouvimos no disco, o que torna a experiência ainda mais penosa e difícil de agradar, pois dá a impressão que ela fica o tempo todo repetindo sua fórmula, que já não é tão rica e diversificada assim.

No mais, além das muitas faixas, Dua Lipa acaba seguindo a onda do pop padrão com bases felizes e dançantes, sem uma renovação de ideias que poderia ser decisiva para animar o ouvinte um pouco mais ou surpreendê-lo. Tudo é muito polido e bem produzido, com um som tão limpo quanto o rosto da cantora na foto da capa, mas o disco parece não querer ser nada além do que simplesmente isso: um disco pop bem feitinho. A “cosmética” acaba superando a capacidade de expressão, afinal.

Sendo seu primeiro trabalho, não sabemos o que será dela no futuro, mas seu sucesso e bom reconhecimento na imprensa – em grande parte por causa dos singles – nos permite supor que ela continuará investindo no pop fácil. No final, o primeiro disco da inglesa acaba sendo um álbum que pode até te fazer dançar ou curtir um pouco em uma audição descompromissada, mas não será lembrado como um álbum de grandes canções.

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