Especial

Escuta Essa 36 – 1967: O Ano Mais Psicodélico da Música

1967 é, sem dúvida, um dos anos mais interessantes e importantes da história da música rock e pop em geral. No auge do movimento hippie, foi o ano em que diversas bandas surgiram destilando psicodelismo ou aderindo a ele. Neste podcast especial, Gabriel Sacramento, BrunoChair e Lucas Scaliza falam de 1967 e detalham quatro importantes álbuns: Disraeli Gears, do CreamSgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos BeatlesThe Piper At The Gates Of Dawn, primeiro disco do Pink Floyd, e Domingo, a estreia em álbum de Caetano Veloso e Gal Costa.

Um episódio nostálgico, com citações de fontes históricas e diversas histórias curiosas e coloridas. Coloque seus fones e viaje com a gente para o ano mais psicodélico de todos!

Download do episódio neste link!

00’00”: Abertura
09’36”: Cream – Disraeli Gears
17’33”: Beatles – Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band
42’52”: Pink Floyd – The Piper At The Gates Of Dawn
1h22’36”: Caetano e Gal – Domingo
1h46’37”: The Doors

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Escuta Essa 32 – Nostalgia MTV

Você assistia à MTV? Ou o sinal não chegava até sua TV? Como você conhecia novas bandas?
Brunochair, Gabriel Sacramento e Lucas Scaliza batem um papo com Pedro Molina (Ferozes FC) para discutirem a importância da MTV Brasil em suas formações e descobertas musicais, mas percebem que videogames, o programa Alto Falante (Rede Minas) e groupies foram também importantes nesse processo. A discussão partiu do documentário A Imagem da Música – Os Anos de Influência da MTV Brasil (assista de graça, link abaixo).

Download do episódio neste link!

Neste episódio tocamos músicas novas de:
Lana Del Rey
Mallu Magalhães
alt-j
Saturndust
Muse
Foster The People

Documentário MTV:

 

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Jimi Hendrix – Are You Experienced faz 50 anos

50 anos da explosão cósmico-psicodélica que gerou o Jimi Hendrix Experience (e mudou o blues rock)

Por Gabriel Sacramento

Jimi Hendrix era um guitarrista tentando ganhar a vida com r&b nos Estados Unidos na década de 60. Seu talento já era notável, mas ainda não tinha chamado a atenção de ninguém. Isso mudaria quando Linda Keith, namorada do Keith Richard, viu Jimi empunhar sua guitarra em uma apresentação, ficou surpresa e começou a recomendá-lo. O primeiro interessado foi o ex-baixista do The Animals, Chas Chandler, que decidiu montar um grupo para Hendrix na inglaterra e então gravar um disco. Chandler chamou Mitch Michell para a bateria e Noel Redding (que era guitarrista) para tocar baixo. O trio lançou “Hey Joe” e “Purple Haze” como os primeiros singles. “Hey Joe”, inclusive, foi uma das primeiras que Chas ouviu do trio e pesou significativamente na decisão dele de empresariá-los.

O álbum começou a ser gravado em outubro de 66, passando por dezesseis sessões em três estúdios diferentes de Londres: De Lane Lea Studios, CBS e Olympic. O trio passou mais tempo neste último pois, segundo Chandler, era acusticamente melhor e tinha um equipamento melhor. Are You Experienced é caracterizado por muito uso de overdubs, principalmente nos vocais de Jimi, que não era muito confiante quanto às suas habilidades para cantar. O disco também possui diferentes estilos de mixagem das faixas e timbres dos instrumentos. O estilo de mix varia, por exemplo, em algumas faixas: em algumas músicas, o vocal está voltado para um dos lados; em outras, a sensação é de que tudo se encontra centralizado na mesma região, para gerar o som ruidoso característico.

Como na teoria cósmica do Big Bang, que afirma que a energia se uniu em um único lugar e deu origem à algo enorme e complexo como o universo, Are You Experienced também foi uma explosão. Uma explosão psicodélica, roqueira e intensa que deu origem ao blues rock mais pesado com uma ênfase maior na guitarra e ao reconhecimento do trio Hendrix-Mitchell-Redding. O blues rock já existia, é verdade. Muitos atribuem o nascimento do estilo ao álbum Blues Breakers With Eric Clapton do John Mayall, lançado no ano anterior. Mas mesmo assim, a versão mais efervescente do estilo, guitarreira, garageira e cheia de efeitos começaria com Hendrix e com Are You Experienced, influenciando diversos outros guitarristas de diferentes gerações como Jeff Beck, Richie Kotzen, Gary Moore, Robin Trower, o próprio Clapton, entre outros.

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O ÁLBUM

“Foxy Lady” foi gravada em uma sessão, com exceção de alguns overdubs. A canção começa energética, com o vocal do Jimi de um lado só na mix e a porradaria instrumental centralizada. A lisérgica faixa-título se destaca por seus efeitos e técnicas, que até lembram um pouco as que os Beatles usaram em Revolver. Dentre as faixas mais famosas, temos um dos riffs mais icônicos do rock em “Purple Haze”, com uma verdadeira explosão roqueira psicodélica e a voz do Hendrix do lado direito da mix.

Mesmo sendo cantada de uma forma até rústica, as melodias são marcantes, bem como o domínio guitarrístico do músico. Em “Third Stone From The Sun”, eles resolveram brincar com bateria de jazz e frases jazzistícas de guitarra a la Wes Montgomery. É uma das canções que destacam o lado técnico do guitarrista e sua versatilidade. A faixa é bem longa e possui várias variações no meio, onde a lisergia e a psicodelia tomam conta.

“Stone Free” é aquele blues rock empolgante, arrasa-quarteirão, com um refrão inconfundível. Em uma das performances mais legais do álbum, Mitch Michell ganha espaço e brilha em “Fire”, que também se destaca pelo seu refrão bem pra cima, com vocais de fundo e um delicioso walking-bass. A balada “The Wind Cries Mary” foi a primeira balada gravada para o álbum. É bem envolvente e fala sobre uma discussão que Hendrix teve com sua namorada, de nome Mary. O blues “Red House” foi gravado com duas guitarras e uma bateria, com uma das guitarras fazendo base na região mais grave para suprir a falta do baixo. E é quase impossível falar de Jimi Hendrix e de Are You Experienced sem citar “Hey Joe”, canção cover que ficou super famosa, mezzo folk, mezzo soul, sem refrão e com uma letra bem marcante: conta a história do personagem Joe, que atirou na esposa porque estava traindo ele e agora tem de fugir para o México para se safar. A letra traz um diálogo entre Hendrix e Joe.

Are You Experienced parece mais uma coletânea do que um simples álbum. As canções se tornaram clássicos do rock e mostraram ao mundo que o trio tinha um potencial incrível. O álbum brilha mesmo com a sonoridade abafada e os timbres sujos, pois toda a energia e aspecto roqueiro provém das mãos afiadas dos três músicos, que juntos soam mais barulhentos que muita banda completa por aí.

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LEGADO
O primeiro álbum do Jimi Hendrix Experience é até hoje cultuado como um dos maiores álbuns do rock. A revista Mojo elegeu o disco como o principal álbum de guitarra de todos os tempos. A Rolling Stone também classificou o álbum como décimo quinto na lista dos 500 maiores de todos os tempos e várias faixas como algumas das maiores canções de todos os tempos. Muitos jornalistas afirmam categoricamente: O álbum é um dos definitivos da era psicodélica.

Vale lembrar também de todo o reconhecimento da comunidade guitarrística ao redor do mundo, Are You Experienced é um dos álbuns usados como prova em muitas discussões para afirmar que Jimi Hendrix foi o maior guitarrista vivo. O jeito como o músico abordou a guitarra, com toda aquela excentricidade e criatividade, mudou a forma como as pessoas olhariam para o instrumento e deu uma nova função para as seis cordas dentro do rock.

O guitarrista Gary Moore foi um dos grandes influenciados pelo Hendrix, e demonstrou isso quando gravou o álbum Blues For Jimi em 2012. Um álbum ao vivo com as faixas mais famosas do Hendrix sendo executadas com uma timbragem moderna, mas uma abordagem perfeitamente fiel ao original. A homenagem do Moore só mostra o quão importante Jimi Hendrix foi na vida de muitos cidadãos comuns que um dia optaram por fazer da guitarra o instrumento da suas vidas. Assim também foi em 1993, quando um grupo de famosos músicos como Jeff Beck, Nile Rodgers, Eric Clapton, Buddy Guy, Slash e bandas como The Cure e Living Colour gravaram um tributo ao Hendrix, refazendo suas músicas. O nome do álbum é Stone Free: A Tribute to Jimi Hendrix e demonstra o quão amplo foi o campo de influência do guitarrista dentro da música popular, indo além dos aficionados por guitarra.

Mesmo depois de meio século, ouvir Are You Experienced ainda é uma experiência recompensadora. Quem estiver descobrindo o Hendrix agora, ainda pode se maravilhar com a fórmula sonora tresloucada que não se prende à nenhuma fórmula e que se manifesta através de uma viagem de sensações e sentimentos, quase espiritual, guiada por um cara que, em seus dias mais normais, curtia quebrar guitarras e atear fogo nelas. Poucos álbuns reforçam tanto esse aspecto imorredouro do rock como Are You Experienced: ele encontrou renovação em si mesmo ao longo dos anos e continua relevante.

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Are You Experienced foi só o começo. Depois dele, Hendrix ainda gravaria mais dois de estúdio e um ao vivo com a Band of Gypsys, onde reafirmaria o seu nome e seria de fato consagrado ao posto de um dos mais influentes guitarristas de todos os tempos. Aliás, era de se esperar, depois de uma estreia como esta, o sucesso absoluto era só uma questão de tempo.

Os melhores clipes de 2016

Ficção-científica, mundo nerd e Stranger Things. Decisões que criam um universo paralelo e morte. Surrealismo, racismo e feminismo. Esses são alguns dos elementos que marcam a seleção dos melhores clipes de 2017 do Escuta Essa Review. Cada indicação acompanhada por brevíssimos comentários.

1. False Alarm – The Weeknd

É como um first person shooter e Weeknd não esconde um ladinho galhofa. O clipe é frenético, enervante e sem cortes, uma direção que entende tanto de vídeo-game como de cinema. E se quer saber como ele se conecta ao resto dos clipes do canadense, espere até o último frame. Leia a crítica do álbum.

Dir. Ilya Naishuller

2. Nobody Speak – DJ Shadow & Run The Jewels

Uma reunião de cúpula política como todos nós gostaríamos de ver nesses tempos conservadores de pós-verdade, dando a melhor cara aos versos afiados de Killer Mike e El-P.

Dir. Sam Pilling

3. Lazarus – David Bowie

O clipe em que Bowie nos avisou que estava partindo. E o único da lista, mesmo que tivesse 500 indicações, a ser filmado na vertical com propósito estético bem definido. Bowie rompendo barreiras até o fim. Leia a crítica do álbum.

Dir. Johan Renck

4. Up&Up – Coldplay

Pagando tributo na corte de Michel Gondry, Coldplay fez um clipe para lá de especial com sobreposições de imagens. Impossível não sonhar junto da banda. Leia a crítica do álbum.

Dir. Vania Heymann e Gal Muggia

5. Subways – The Avalanches

Bizarro as fuck. Assim como o álbum, o clipe usa animação e psicodelia retrô para fazer uma obra colorida, surreal e que resume o universo do trio australiano The Avalanches. Leia a crítica do álbum.

Dir. Mrzyk & Moriceau

6. Feliz e Ponto – Silva

Belo clipe que deu o que falar ao escancarar a bissexualidade de Silva e até a questão dos relacionamentos abertos e do poliamor. Assista e veja se toca seu íntimo. Leia a crítica do álbum.

Dir. William Sossai

7. PUP – Sleep In The Heat

Uma banda, a estrada e o melhor amigo do homem. Tudo traduzido com o poder do rock de garagem. Participação de Finn Wolfhard, que ficou conhecido pela série Stranger Things, mas apareceu no vídeo de “Guilt Trip”, do PUP, em 2014.

Dir. Jeremy Schaulin-RIoux

8. Lavender – Badbadnotgood (ft. Kaytranada)

Jazzistas canadenses que curtem hip-hop e jogam RPG. A música instrumental – e o clipe – mais nerd desde os épicos do Rush. Leia a crítica do álbum.

Dir. Fantavious Fritz

9. Sleep On The Floor – The Lumineers

O amor a partir do luto. Fofo pra dizer o mínimo e esperto para dizer o máximo, já que o clipe se conecta de forma interessantíssima aos vídeos das músicas “Angela” e “Cleopatra”. Ponto para o The Lumineers.

Dir. Isaac Ravishankara

10. Holy – Zolita

Contra a opressão, contra o patriarcado e poder para as mulheres! Zolita mostra que a busca por liberdade feminista pode ser trágica, mas não é em vão.

Dir. Zolita e Jane Saner

11. Never Ever – Röyksopp (ft. Susanne Sundfør)

DANCE COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ!

Dir. Röyksopp

12. River – Leon Bridges

Um motel, um violão, balões negros no céu, uma camisa manchada de sangue. Com jeito gospel, Bridges usa sua faixa para refletir sobre os recentes conflitos raciais de Baltimore.  Leia a crítica do álbum.

Dir. Miles Jay

13. I’ll Be Around – The Growlers

Para acompanhar a mudança de som da banda, esta faixa dançante ganhou um clipe hospitalar sensacional em que até os fantasmas se divertem.

Dir. Warren Fu

14. Real Thing – Pale Honey

Inspirado na série Stranger Things, essa dupla de meninas suecas fez um clipe despretensioso, divertido e que brinca com os clichês sobre o desconhecido.

Dir. Johan Stolpe

15. Voodoo In My Blood – Massive Attack (ft. Young Fathers)

Você está andando até o metrô da cidade e então uma bola dourada começa a controlar sua mente. Um clipe para mostrar como uma boa atriz, uma boa ideia e uma boa coreografia resultam em algo

Dir. Ringan Ledwidge

Menção + do que especial:

Lemonade – Beyoncé

Não é um vídeo-clipe. É um filme inteiro. Além de falar da própria vida – principalmente sobre um suposto caso fora do casamento que Jay-Z teria tido com uma mulher “de cabelo bom” –, Beyoncé usa o álbum para falar de emancipação feminina, da questão racial e explora vários sentimentos (e sonoridades). Leia a crítica do álbum.

Bob Dylan – Blonde On Blonde (1966) faz 50 anos

Primeiro disco duplo da história do rock fecha a trilogia que trouxe um novo Dylan para o mundo

Por Gabriel Sacramento

O que é

Blonde on Blonde, sétimo álbum de Bob Dylan e o primeiro álbum duplo da história do rock.

História e curiosidades

Em julho de 1965, um jovem cantor de folk americano mudou a cara do estilo para sempre. Ao cantar no Newport Folk Festival com guitarra elétrica e uma banda completa, ele ajudou a iniciar o movimento conhecido como folk rock, que tratava-se da música folk da época mesclada aos elementos roqueiros, como a instrumentação eletrizada. Além da performance, Dylan já tinha lançado um disco de folk rock chamado Bringing It All Back Home em março do mesmo ano e estaria para lançar o icônico Highway 61 Revisited em agosto. Com os dois álbuns, Dylan se afastou da fase trovador solitário de The Freewhelin’ Bob Dylan (1963) e The Times They Are a-Changin’ (1964) e deu início a uma fase mais roqueira.

Depois do lançamento de Highway, Bob começou as gravações de um novo álbum, que se chamaria Blonde on Blonde. Ele começou tentando acertar algumas ideias que ficaram de fora do anterior, com sua banda de apoio nas turnês, The Hawks (futura The Band), em Nova York. Porém as sessões no ano de 1965 não foram nada produtivas, pois nenhum dos takes gravados agradaram o cantor. Ciente da insatisfação do seu cliente, o produtor Bob Johnston – o mesmo do Highway 61 Revisited – sugeriu que eles mudassem para Nashville e tentassem gravar por lá. As gravações em Nashville começaram em fevereiro de 1966 e finalmente deram certo. Al Kooper, organista que já tinha tocado com Dylan no anterior, e Robbie Robertson (guitarrista da The Band) foram os únicos músicos que seguiram com Dylan de Nova York para Nashville. O resto da banda foi composta por instrumentistas famosos da região. Dylan e Kooper compunham inicialmente as canções no piano, e depois o organista ensinaria para os outros músicos.

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Blonde on Blonde foi lançado oficialmente em maio de 66 e complementou a trilogia que figura entre os discos mais conhecidos do cantor. A ideia de Dylan era continuar o som roqueiro mesclando-o com o folk de suas origens. Além de fazer parte da famosa trilogia, o disco também ficaria bastante conhecido por ser o primeiro disco duplo da história do rock. Dylan possuía muitas boas músicas – algumas bem longas – e não queria esperar para lançá-las em discos separados. Embora o som siga a mesma pegada dos dois anteriores, Blonde on Blonde possui suas particularidades, que veremos a seguir.

As canções

A maioria das canções apresenta introdução com a gaita de Dylan (o cantor não era ótimo no instrumento, mas seu jeito singular de tocar acrescentava muito aos arranjos). O instrumento foi bastante enfatizado pelo cantor, talvez até como uma forma de manter balanceado o aspecto folk com a instrumentação rock. “Leopard-Skin Pill-Box Hat” e “Absolutely Sweet Marie” são as únicas que não apresentam a gaita na primeira seção. Os arranjos possuem até mesmo solos improvisados do instrumento como em “Pledging My Time”. Além de Dylan, o músico Charlie McCoy também toca gaita no disco.

Chama a atenção a forma inteligente como as canções do repertório foram posicionadas. O disco se mantém empolgante mesclando canções mais blueseiras com semibaladas e as típicas canções no estilo folk rock, diversificando sem manter uma sequência de faixas idênticas. Mesmo sendo um disco duplo e possuindo 14 faixas, ele mantém o ouvinte interessado do início ao fim. A abertura é com a irreverente “Rainy Day Women #12 & 35”, música que caracteriza andamento de marchinha, risadas e sons de conversa ao fundo. O próprio Dylan ri enquanto interpreta. O título da canção foi retirado da bíblia: Livro de Provérbios, capítulo 27, verso 15, verso no qual as três palavras do título aparecem. No entanto, a canção ficou conhecida pela polêmica causada pelo verso “Everybody must get stoned” (um trocadilho entre “ficar chapado” e “ser apedrejado”). Dylan foi acusado de fazer apologia às drogas, mas depois explicou que a letra se referia ao acontecimento no Newport Festival, no qual ele foi “apedrejado” pelas críticas e vaias do público que não gostou de ver o ícone da música folk trocar o violão pela guitarra.

O encerramento é com “Sad Eyed Lady of the Lowlands”, uma canção de 11 minutos com andamento linear e letra que foi dedicada à sua esposa, Sara Lownds, com quem tinha se casado recentemente. Dylan confirmou que a música era para ela quando escreveu “Sara” em 1975, em cuja letra dizia que realmente escreveu “Sad Eyed…” para ela.

A blueseira “Pledging My Time” possui o andamento típico do estilo e a gaita onipresente do Dylan por todo o arranjo (a presença da gaita dá o toque de blues britânico). Também apresenta notas de guitarra estaladas ao fundo. O arranjo é linear, a não ser pela nota de nove segundos sustentada pela gaita, que a diferencia um pouco e gera um aumento na dinâmica. “Visions of Johanna” é uma das grandes obras-primas literárias de Dylan e uma das provas de que Dylan mereceu o recente Nobel de Literatura. Construindo a imagem da personagem Johanna, Bob faz referências a Leonardo Da Vinci, misturando o clássico com o comum em uma escrita complexa e bem elaborada. “I Want You” é mais uma das composições surrealistas de Dylan, com referências implícitas aos contemporâneos Brian Jones – dos Stones – e Edie Sedgwick (atriz com quem ele havia se relacionado antes de se casar secretamente com Sara Lownds). Musicalmente, possui um andamento mais animado, com Bob colocando bem sua voz dentro do ritmo.

A semibalada “One of Us Must Know (Sooner or Later)” cresce no refrão e possui uma guitarra limpa no acompanhamento dos vocais. A mesma guitarra, desta vez com um timbre mais agudo e um pouco distorcido, domina o arranjo na blueseira “Leopard-Skin Pill-Box Hat”, que apresenta um lamento sobre frustação amorosa e dinheiro. Al Kooper e seu órgão faz um trabalho excelente no álbum, sobretudo na já citada “One of Us Must Know” e em “Absolutely Sweet Marie”.

Abordando a vulnerabilidade feminina, “Just Like a Woman” é, talvez, a balada mais famosa de Dylan. Existiram rumores de que ele estivesse se referindo à Edie Sedgwick novamente. A canção também foi duramente criticada por apresentar um tom misógino.

Legado

O disco é considerado um dos melhores de todos os tempos, segundo uma lista da Rolling Stone (inclusive, uma das influências para o nome da revista foi a música “Like a Rolling Stone”, de Dylan). Além disso, Blonde on Blonde é classificado como um dos discos seminais do cantor pelos fãs. No site que ranqueia discos baseado na opiniões dos internautas – o Best Ever Albums –, Blonde on Blonde só perde para o Highway 61 Revisited e aparece em diversas listas de melhores discos de todos os tempos e dos anos 60.

É também um disco usado para classificar o cantor como um dos grandes letristas do rock. O surrealismo e a mistura do comum com o inovador foram os principais fatores que consagraram Dylan neste álbum. O cantor fugia das letras politizadas, pois estava cansado de ser cultuado como a voz de uma geração e começou a experimentar ideias diferentes, influenciado ainda mais pela poesia beat.

Na época dos Rolling Stones e dos Beatles, Bob tinha que se manter relevante com o próprio estilo. A trilogia ajudou e influenciou muita gente. Nina Simone, Mick Jagger, Jeff Buckley, Van Morrison, Bruce Springsteen e o Grateful Dead são alguns dos artistas e bandas que prestaram tributo a Blonde on Blonde, reconhecendo a importância das canções para eles. Outro exemplo foi o guitarrista/vocalista britânico Ralph Denyer, que nomeou sua banda de rock psicodélico com o mesmo nome do álbum.

Após Blonde on Blonde, tivemos grandes álbuns duplos na história da música: The Wall (1979) do Pink Floyd, Physical Graffiti (1975) do Led Zeppelin, o White Album (1968) dos Beatles, Exile On Main Street (1972) dos Stones e Goodbye Yellow Brick Road (1973) do Elton John são alguns deles. Dylan criou uma nova forma de lançar canções em álbuns, pensando-os mais como um conjunto coeso e não como um conjunto de singles esparsos, assim como inovou com os onze minutos de duração de “Sad Eyed Lady of the Lowlands”.

Blonde on Blonde fechou o ciclo dos discos de rock mais importantes da carreira do Bob Dylan. Era a conclusão da sua mensagem ao mundo, dividida em três partes, que anunciava um novo momento para o rock mundial. Para a galera do folk, um traidor; para os roqueiros, um novo herói. E para os loucos que curtiram a mistura de folk com rock, o grande líder. Dylan dividia opiniões enquanto avançava para se eternizar como um ícone da música.

1966-6FB The Saturday Evening Post-Bob Dylan: 1966-6FB-005 July 30, USA 1966

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The Beatles – Revolver (1966) completa 50 anos

O disco que representou a guinada criativa de uma banda em busca de mudança

Por Gabriel Sacramento

O que é?

Revolver, lançado em 5 de agosto de 1966, é o sétimo álbum dos Beatles e representa o início da virada estética na carreira da banda.

Histórias e curiosidades

Em 1966 os Beatles já tinham alcançado o mundo com hits de sucesso, oriundos dos álbuns anteriores. Mas o sucesso – que sempre acarreta consequências – estava pesando nos ombros dos quatro rapazes de Liverpool. Os concertos lotados, os gritos histéricos dos fãs, toda a fama e prestígio perante a imprensa, tudo isso fazia parte da vida dos músicos na época e não os agradava mais. Algo precisava mudar para o fab four.

Ao contrário dos fenômenos do pop atual que quanto mais famosos ficam, mais querem ficar, os Beatles não queriam todo aquele hype. Desejavam mudança, estavam cansados de toda a atenção e decidiram dar um passo adiante, fazendo algo diferente. Daí veio o Revolver.

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Vale ressaltar que o desejo dos Beatles por uma nova fase também refletia a vida deles naquele momento: John e George começaram a experimentar LSD e a pensar diferente, todos amadureceram e assumiram o risco da mudança e da busca pelo inexplorado.

A mudança começou com a escolha do local onde gravar. Primeiro, tentaram gravar no estúdio da Stax (gravadora famosa de soul music da época), mas logo depois desistiram e preferiram continuar no velho Abbey Road. E com o velho George Martin na produção.

No Abbey Road, passaram a encarar o estúdio de uma forma inovadora, como um enorme instrumento, algo que contribuiria ativamente com as músicas, junto com os instrumentos. Utilizaram ruídos, solos que eram colocados ao contrário, instrumentos exóticos, overdubs vocais, efeitos diversos para tratamento de vozes (inclusive uma técnica de duplicação de voz foi inventada durante as sessões deste álbum) e muito mais. Tudo isso a pedido dos quatro músicos que ansiavam por coisas diferentes.

Bem, vamos às músicas:

“Taxman” é de autoria de George Harrison. A canção fala de uma forma crítica e sarcástica sobre os abusos de impostos na Inglaterra na época. Possui uma influência forte da soul music. Já “Here, There and Everywhere” é uma belíssima balada escrita e cantada por McCartney. A lisérgica “She Said, She Said” fala sobre a experiência do uso de drogas, cantada por John Lennon. “Yellow Submarine” foi idealizada por Ringo Starr para ser uma canção infantil e possui melodias agradáveis e marcantes. “Love You To” é cantada por Harrison e mostra a influência da música indiana sobren os ingleses, com preponderância da cítara. “Tomorrow Never Knows” é o ápice da lisergia sonora: com apenas uma nota, efeitos e ruídos diversos, instrumentos executados de trás para frente e uma levada de bateria icônica executada por Ringo.

“Eleanor Rigby” é mais uma criação de McCartney. A curiosidade sobre ela é que nenhum Beatle tocou nada, somente gravaram vozes. O arranjo (feito por George Martin) é preenchido somente por violinos, cellos e violas, rompendo com o formato de banda que os Beatles tinham utilizado até então. É uma faixa importante por ter sido lançada como single, mesmo sendo uma faixa com letra melancólica sobre a solidão. Além disso, ninguém esperava que um single dos Beatles seria tão fora dos padrões do rock e do pop radiofônico da época (é famosa a mudança de Dó maior do refrão para o Mi menor dos versos). Assim, “Eleanor Rigby” acaba simbolizando muito bem a guinada para o lado mais vanguardista do grupo.

O novo disco marca o aprofundamento do grupo dentro do universo da música indiana, bem como da música psicodélica (que seria muito mais explorada até o final da discografia). Também marca maior participação de George Harrison nas composições e nos vocais principais. O guitarrista viria a ser o responsável pela inserção de elementos exóticos no som dos Beatles e chegou a estudar a música produzida na Índia.

Revolver é um disco sincero. Reflete o momento que o quarteto vivia e suas necessidades de romper com o som e a imagem que os definiam anteriormente. Explicita bem as experiências dos músicos com as drogas e como isso afetou a música. Além disso, não é um disco de hits radiofônicos e bonitos, como era Help (1965), por exemplo, mas é um disco com canções bem construídas, criativas e relevantes.

A experimentação de Revolver é seu ponto mais forte: a clareza com que percebemos o que cada Beatle pensou no momento de gravar cada seção e cada arranjo, sempre direcionados por George Martin, é o que faz o disco ser brilhante.

Se comparado com o disco anterior, o também sensacional Rubber Soul (1965), podemos perceber a ruptura que Revolver causou na sonoridade dos Beatles. O primeiro trazia um mix bem definidos de estilos musicais, como pop, soul e folk. Já Revolver era um caldeirão de ideias inovadoras e diferentes, passando pelo rock, mas com uma experimentação que expandia as ideias típicas do estilo. Embora seja diferente, o álbum continuou o que começara em Rubber Soul: pensar cada álbum como uma obra completa e não como um conjunto de singles.

Passa pelo teste do tempo?

Depois de cinquenta anos, o legado de Revolver continua sendo indiscutível. A abordagem criativa e diferenciada dos músicos e dos produtores influenciou produtores e músicos de todo o mundo. Uma prova disso é que a técnica de duplicação vocal criada no processo de gravação é até hoje utilizado nos estúdios mundo afora.

O disco aparece em diversas listas de melhores e mais importantes discos como as das revistas Time e Rolling Stone. Além disso, é um dos grandes lançamentos da era psicodélica da década de 60, que foi muito importante para a o rock e para a música no geral, ajudando a definir estilos modernos como o shoegaze e o stoner rock.

Phil Collins, David Gilmour, a banda Living Colour, o vocalista David Lee Roth e o Oasis são alguns dos artistas/bandas que prestaram tributos aos Beatles, especialmente ao disco Revolver, assim como o duo eletrônico The Chemical Brothers já declarou publicamente a influência de “Tomorrow Never Knows” para eles.

É um disco que marcou a música rock e a música dos Beatles. A sonoridade do grupo nunca mais seria a mesma depois do lançamento do álbum. Unindo baladas melódicas, orquestrações, experimentações, psicodelia de uma forma tão marcante e expressiva, o álbumn inaugurou um novo momento na história da música que jamais deve ser esquecido.

Ps.: A ótima série Mad Men, que retrata o mundo dos publicitários de Nova York ao longo da década de 1960, usou a música de Revolver no episódio “Lady Lazarus” (o oitavo da quinta temporada). Don, diretor criativo de uma agência em Manhattan, quer entender a mudança cultural em curso e acaba colocando para rodar o recém-lançado disco dos Beatles daquele ano de 1966. Começa a ouvir por “Tomorrow Never Knows” e dá-se conta de que as coisas mudaram mesmo e talvez ele não tenha percebido. E muito provavelmente não será capaz de dizer para onde as coisas vão também.

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Amy Winehouse – Back To Black (2006) faz 10 anos

10 anos de uma grande obra-prima da música soul e pop moderna

Por Gabriel Sacramento

O que é?

Back To Black é o segundo e último álbum que Amy Winehouse lançou em vida, em outubro de 2006.

Histórias e curiosidades

Em 2003, o mundo assistiu ao surgimento de uma cantora londrina amante de jazz chamada Amy Winehouse. Isso mesmo, jazz cinquentista era uma das coisas que a garota mais gostava e foi o que ela preferiu registrar em seu primeiro trabalho, mesclando com soul music e R&B. Frank chegou ao mercado em 2003, com a maioria das canções escritas pela própria Amy.

Mas foi no segundo registro que a cantora se superou. Amw Winehouse declarava estar cansada de compor jazz e, muito influenciada pela música das girl groups dos anos 60, decidiu fazer um álbum com uma direcionamento mais próximo do soul clássico. Para tanto, ela convocou Salaam Remi e Mark Ronson para a produção e contratou os músicos do grupo Sharon Jones & the Dap-Kings para tocar com ela em estúdio e na turnê. A ideia de Ronson e Remi na produção foi emular um som típico das girl groups, com direito à Wall of Sound (técnica de gravação usada para contornar os vocais com camadas densas de instrumentos). Os instrumentos de base – guitarra, baixo, piano e bateria – foram gravados ao vivo em uma única sala, sendo que a bateria foi gravada com apenas um microfone. Tudo isso para conseguir uma crueza bem característica dos anos 60.

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Ronson então foi para o Metropolis Studios, em Londres, gravar alguns overdubs como metais, cordas e percussão que podemos ouvir complementando os arranjos. Tom Elmhirst foi chamado para mixar o álbum e contribuiu com seus conhecimentos para trazer um pouco de contemporaneidade ao som de Amy. No geral, podemos perceber que além de aludir a um som tipicamente sessentista, o som de Back To Black também possui boas referências modernas.

“Rehab” – talvez a mais famosa canção de Amy – abre o álbum com uma letra autobiográfica sobre quando ela se recusou ir a uma clínica de reabilitação para tratar o vício alcoólico. A sonoridade é totalmente anos 60, com direito a andamento típico e metais adornando os versos, como outrora faziam Ray Charles e Otis Redding. Nesta faixa, a voz de Amy foi comparada com a de ninguém menos que Ella Fitzgerald. “Rehab” é a canção de assinatura da inglesa e mostra exatamente o que ela sabe fazer de melhor. A história da composição da canção é curiosa: os versos que abrem a música foram ditos por Amy em uma conversa sobre reabilitação, na qual ela deixava claro sua falta de vontade de frequentar clínicas do tipo. Ao ouvir, Ronson pensou que a frase daria uma boa canção. E realmente deu. Amy escreveu em 3 horas, gravando logo em seguida, no estúdio de Ronson em Nova York. A ideia original era utilizar elementos de blues, mas Ronson sugeriu que a canção soasse como uma mix de R&B contemporâneo com um quê dos anos 60.

“Me and Mr. Jones” possui um leve andamento R&B da década de 1950 combinado com backing vocals que nos levam ao início da soul music. “Just Friends” é Amy flertando com o ska e acrescentando uma sonoridade diferente ao repertório do disco. A faixa-título deixa bem explícito as referências clássicas, do som das girl groups, com o Wall of Sound aplicado na base instrumental da canção. Sendo franca, Amy fala sobre um triste fim de relacionamento. Totalmente cool e jazzy, surge a bela “Love is a Losing Game”. Já “Tears Dry on Their Own” traz a mesma progressão harmônica do clássico “Ain’t No Mountain High Enough” de Marvin Gaye.

Passa pelo teste do tempo?

O sucesso de Amy Winehouse impulsionou a carreira de muitas mulheres na música. No som, na moda e na atitude. A cantora foi uma grande representante feminina dos tempos modernos, algo como foi a Madonna nos anos 80. Ela também revigorou o cenário musical britânico nos anos 2000.

Back To Black também foi fundamental por trazer de volta às paradas pop o som da soul music e todos os seus trejeitos clássicos. Essa onda, conhecida como neosoul, que resgasta o estilo e o mixa a alguns elementos modernos, foi fortalecida depois do sucesso do álbum. Cantoras como Adele e Duffy foram fortemente influenciadas pelo estilo de Amy. Beyoncé, Sam Smith e Troye Sivan são outros artistas que fizeram covers de canções dela. Bruno Mars elogiou o produtor Mark Ronson e se inspirou no som de Back To Black para compor uma de suas canções mais conhecidas, “Locked Out of Heaven”. Já a popstar Lady Gaga afirmou que a cantora britânica era sua heroína pessoal.

O disco é muito reconhecido comercialmente até hoje. Está presente na lista dos álbuns mais vendidos em território britânico junto com os Beatles, Queen e Oasis. Além de ser um dos discos mais vendidos do século no Reino Unido. Por sua sonoridade única, emocional e suas letras autobiográficas, o disco causou um impacto muito forte na indústria da música, difícil de ser batido. Uma obra-prima da música soul e pop.

Amy foi ousada o bastante para exprimir tão claramente suas influências, sua personalidade, decepções com o amor, problemas com os entorpecentes, bem como sua criatividade, resultando em um ótimo trabalho. Um álbum que possui uma sonoridade que remete ao passado, cheio de recursos utilizados no século anterior, mas que conseguiu ser mais chocante e expressivo que muitos lançamentos novos da época. Amy, Ronson e Remi souberam aliar o moderno e o clássico. Ela homenageou seus ídolos ao mesmo tempo em que escrevia seu nome na história da música.

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