Indie

Escuta Essa 32 – Nostalgia MTV

Você assistia à MTV? Ou o sinal não chegava até sua TV? Como você conhecia novas bandas?
Brunochair, Gabriel Sacramento e Lucas Scaliza batem um papo com Pedro Molina (Ferozes FC) para discutirem a importância da MTV Brasil em suas formações e descobertas musicais, mas percebem que videogames, o programa Alto Falante (Rede Minas) e groupies foram também importantes nesse processo. A discussão partiu do documentário A Imagem da Música – Os Anos de Influência da MTV Brasil (assista de graça, link abaixo).

Neste episódio tocamos músicas novas de:
Lana Del Rey
Mallu Magalhães
alt-j
Saturndust
Muse
Foster The People

Documentário MTV:

 

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Fastball – Step Into Light (2017)

Disco resgata os anos 90 como se fosse um seriado daquela década

Por Eder Albergoni

Você pensava que os anos 90 estavam enterrados e que algumas de suas bandas também? Pois bem, não é bem assim. Depois de oito anos, o Fastball lança um novo disco e, com ele, traz um bocado do gostinho noventista. Muito embora soe apenas como mais uma banda limitada, encrustada na reviravolta indie nos anos 2000, Step Into Light revive uma década rica em descobrimentos e potenciais épicos que nunca se comprovaram e menos ainda se adaptaram aos novos dias.

O disco começa com “We’re On Our Way” instigando com um riff mais stoner, logo desmentido pelo tom noventista já citado. O pop de guitarras comanda, ouvimos palminhas nos solos, o refrão é chicletinho e um sintetizador anuncia a festa em que o disco se meteu.

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“Best Friend” é o ponche batizado enquanto na piscina a paquerinha dá seus mergulhos provocantes, o sol ilumina o cenário como uma série adolescente, a trilha sonora nos arranca da perspectiva e servimos de argumento pro roteiro. Se você esteve lá nos 90’s de alguma forma, vai perceber. Se não, resta imaginar.

“Behind the Sun” parece deslocada, fora da ordem natural que a banda já estabeleceu. Mas apesar disso, é só angústia, como seria tristeza se fosse a Legião Urbana. A baladinha no violão, emulando momentos mais tensos e até experimentais de bandas contemporâneas, simplesmente baixa a pulsação do disco, que depois segue o caminho original com “I Will Never Let You Down” e “Love Comes in Waves”.

“Step Into Light” é mais séria e mais folk. A harmonia das vozes é um destaque bastante positivo. “Just Another Dream” é o sonho pop do sucesso e do single que explode na rádio. É a que mais se aproxima da grande música feita pela banda. É possível visualizá-la como parte da coletânea As Mais Mais da Pan lançada junto com a revista mensal da rádio. “Tanzania” é instrumental e ressuscita a vertente surfer dos anos 90, muito característica de Tom Scalzo, nascido em Honolulu no Havaí.

A parte final de Step Into Light fica enfraquecida igual uma festa que acaba cedo. Ainda que caiba destaque pra “Lilian Gish” e “Frenchy and the Punk”, que encerram o episódio da tal série adolescente com um cliffhanger sobre um futuro não muito distante, onde as coisas mais legais daquela época vão ficando ultrapassadas e bregas.

É possível reconhecer a influência de outras bandas conforme o disco toca, quase como um pedaço arrancado de lá e refeito aqui pra ganhar uma cara mais atual. No fim, esse é o tchan do Fastball. Os anos 90 é um traço marcante demais pra ser deixado pra trás e, na falta de coragem de outros, o Fastball mantém o espírito vivo.

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Escuta Essa 31 – Harry Styles é a Melhor Surpresa do Ano?

Harry Styles – fora do One Direction e em carreira solo agora – surpreendeu a todos com seu primeiro álbum e discutimos o que ele faz de bom e discutimos: é cocaína ou não é? Não sabe o que a droga tem a ver com a música dele? Mais um motivo para ouvir este podcast.
Falamos também do novo single da banda Astronauta Marinho (de Fortaleza) e conversamos sobre Crack-Up, novo disco do Fleet Foxes, After Laughter, do Paramore, o super EP Missing Link do Nick Murphy (ex-Chet Faker) e botamos Tiê pra tocar. Coloque os fones e dê o play!

00’00”: Abertura
04’06”: Indicações
08’23”: Harry Styles – “Harry Styles”
48’35”: Astronauta Marinho
59’04”: Fleet Foxes – “Crack-Up”
1h16′: Paramore – “After Laughter”
1h34′: Nick Murphy – “Missing Link” (EP)
1h49′: Tiê

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Confira a playlist What The Funk Is Going On!

Strand Of Oaks – Hard Love (2017)

O carisma do indie, o combustível do hard rock clássico e influência de LSD

Por Lucas Scaliza

Um pouco de folk rock nas levadas. Mas soam como hard rock, porque ele usa guitarras com uma boa dose de distorção e fuzz. E mesmo sendo o bom e velho rock’n’roll de sempre, há algo de moderno no som. Não chega a assustar, mas pode incomodar. Hard Love, do Strand Of Oaks, o quinto disco composto pelo músico Timothy Showalter, é definitivamente um registro que não pode passar desapercebido.

“Hard Love”, que introduz o álbum, bebe na fonte de Ryan Adams e não mostra a sonzeira que vem a seguir. “Radio Kids” e “Everything” resumem o que ele é capaz de fazer. Você não vai perceber nada de muito diferente de outras canções de rock que ouviu nos últimos 10 anos, principalmente se deu uma boa rodada entre o que há de indie e psicodélico à disposição, mas vai gostar. E conforme o disco avança, vai perceber que está totalmente tomado ou tomada pela energia de suas batidas e pela barulheira de sua guitarra. O fuzz exagerado em “Salt Brothers” vai soar fora de lugar, mas como uma ótima ideia ainda assim. O psicodelismo de “On The Hill” te pega desprevenido e então você exclama: “Uau, que puta som!”.

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É verdade que “Cry” interrompe o poderio de fogo do Strand Of Oaks e que “Quit It” poderia ser uma faixa melhor, mas cumprem seu papel de tentar equilibrar o álbum pisando um pouco no freio e trazer interferências que não são musicais ao trabalho. Paciência. Todo mundo pisa na bola, até o Pink Floyd e o Iron Maiden. Mas desculpe a bagunça e não desista de Showalter ainda. O importante é que ele percebe o que fez e já manda “Rest Of It” para recuperar nossa fé em Hard Love. Faixa bem colegial e com um solo daqueles que te faz lembrar (caso tenha idade para isso) do Marty McFly em De Volta Para o Futuro (fato recentemente relembrado pelo Gabriel Sacramento neste podcast).

E o melhor fica para o final. Voz mais rouca, ritmo menos alucinado e paisagem sonora lisérgica fazem de “Taking Acid and Talking to My Brother” o grand finale espetacular em que os grandes vencedores são o rock e o som do pedal de fuzz.

Se não ouviu falar de Strand Of Oaks, é uma boa começar com Hard Love, seguir para Heal (2014) e assim conhecer o que Showalter tem a oferecer. Se já viu o nome dele por aí, dê o play. O disco interpola o folk com o rock psicodélico, constrói algumas de suas canções com o carisma do indie e com o combustível do hard rock clássico. É ótimo.

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Fleet Foxes – Crack-Up (2017)

A terceira ramificação

por brunochair

O quanto um reconhecimento artístico massivo pode causar de dor e delícia em alguém, apenas os artistas de grande renome podem dizer. Nós, aqui do anonimato, espectadores do triunfo e da decadência, podemos apenas imaginar alguns dos possíveis efeitos. Senti-los? Não há realidade virtual que possa abarcar tamanha experiência, feita do suor dos poros e da carne.

Robin Pecknold, vocalista e compositor do Fleet Foxes, viu a sua trupe experimentar o sucesso de uma forma bastante abrupta. Logo no disco de homônimo de estreia, Fleet Foxes (2008) a banda viu surgir ao redor de si uma legião de fãs, ser convidada a tocar em grandes festivais pelo mundo afora. Todos os integrantes, jovens aprendizes em matéria de mundo, tiveram que lidar com essa nova realidade. Realidade esta que implica em conhecer a si e aos outros com uma certa rudeza, sem os rodeios que a vida comum às vezes nos proporciona. “Você precisa ser emocionalmente estável, você precisa estar confiante, você precisa ser diplomático”, disse Pecknold em uma entrevista.

Para Helpless Blues (2011) não houve o tempo de maturação necessário. A loucura do showbizz ainda aturdia e não centrava os integrantes. Para que esse processo fosse integralmente preenchido, foram precisos ao menos cinco anos, tempo este que os integrantes puderam olhar mais para dentro, enxergar o que não estava bem, aparar arestas que ficaram pelo caminho. Josh Tillman, agora ex-baterista do Fleet Foxes, preferiu seguir o seu próprio caminho solo como Father John Misty; Skyler Skjelset envolveu-se em outros projetos musicais; Robin Pecknold preferiu surfar e voltar a estudar.

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Fleet Foxes : no centro, Robin Pecknold; à direita dele, Skyler Skjelset

Após seis anos de hiato, temos os principais integrantes já na faixa dos 30 anos – um pouco mais donos de si, um pouco mais sabedores do que fazer e não fazer. E assim surge Crack-Up, disco que marca o retorno do Fleet Foxes. As letras do disco, todas compostas por Robin Pecknold, não mostram o processo final dessa caminhada, e sim ressalta o penoso caminho para se chegar até onde hoje se está. Privilegia-se a caminhada, os espinhos, os insucessos, os problemas de relacionamento, a penúria. Está tudo ali realçado, reelaborado em metáforas. As palavras procuram transmitir, pelo menos em parte, o que se sente.

A sonoridade também é explorada para transmitir estes sentimentos. O que notamos são grandes gangorras, um sobe-e-desce entre sussurros e plena exaltação. “I Am All That I Need/ Arroyo Seco/ Thumbprint Scar”, a primeira canção do álbum, é exemplo pontual deste processo. “Third Of May/ Odaigahara”, que já havia sido lançado em single e que trata da relação humana (pautada por conflito e afeto) entre os integrantes Robin Pecknold e Skyler Skjelset, é outro grande exemplo.

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O Fleet Foxes tornou-se uma banda conhecida por desenvolver uma estética sonora bastante peculiar, juntando elementos do folk, do pop e criando uma esfera um pouco passadista. Ouvir Fleet Foxes é uma experiência singular, única. E em Crack-Up o grupo permanece fiel a essa identidade sonora única, mas ao mesmo tempo consegue criar, a partir dela, uma terceira ramificação. Fleet Foxes foi um álbum ingênuo, alegre, criativo; Helpless Blues possuía uma certa melancolia e já apresentava um grupo tateando suas próprias características; e Crack-Up é a expressão máxima dessa busca sonora, individual e coletiva.

Ainda que o grupo tenha essa característica de “tocar fundo” o ouvinte através de seus arranjos, este disco é o que parece falar menos dos outros, e um pouco mais de nós mesmos. Essa característica mais humana que trará ao ouvinte uma experiência mais concreta no que diz respeito ao sentir. Portanto, não são apenas palavras que poderão refletir o estado de espírito de Crack-Up: ouvir é essencial.

OutroEu – OutroEu (2017)

Disco apresenta momentos de beleza, mas esbarra na monotonia

Por Gabriel Sacramento

Bandas egressas de programas de calouros, como o Superstar da Globo, têm um grande desafio a enfrentar: trabalhar para tornar a banda um negócio sério, digno de respeito como um grupo capaz de ser muito mais do que aquilo que apresentaram na TV.

Recentemente, o programa revelou diversos grupos e temos visto como cada um se adequa ao mercado fonográfico – alguns com mais facilidade, outros nem tanto. Em suma, as bandas devem se levar a sério, para que os ouvintes as levem a sério também.
Isso de se levar a sério e seguir na – muita vezes espinhosa – estrada da música é mais difícil ainda para bandas como Jamz e OutroEu, que foram formadas especificamente para o programa. Com o término deste, fica o questionamento se o grupo realmente terá fôlego para continuar.

outroeu_Outroeu_2017

Bem, o OutroEu continuou. Acabou de lançar o seu primeiro álbum auto-intitulado, trazendo uma sonoridade orientada ao folk – com proeminência de violões -, mas com um quê muito forte de pop.

A faixa de abertura é um dos singles e uma das primeiras faixas originais que eles tocaram no programa global. É uma boa introdução ao que vamos ouvir ao longo do disco, com folk fofo e simples. Em seguida, temos “Zade”, com uma bela melodia de guitarra, que acaba sendo a melodia vocal também. Percebemos beleza na faixa, mas o problema é que ela é arrastada e não engata. “O que te faz Feliz” segue na mesma ideia, sendo prejudicada também pela falta de um pouco de energia.

O som do OutroEu lembra muito o do Tiago Iorc. Principalmente no lado folk e na forma como o estilo é manipulado para criar atmosferas tranquilas e suaves que visam tirar toda a tensão de quem estiver ouvindo. Também se parece muito com os Arrais, principalmente nas melodias belas e na conexão simbiótica entre instrumental e vocal. Porém, mesmo que soe bonito em momentos mais inspirados, o conjunto do álbum é fraco, pois não empolga e nem se esforça para surpreender ao longo da audição. Ou seja, a banda não concede opções aos ouvintes, impondo sempre a mesma fofura confortável.

OutroEu é um álbum fácil e tranquilo de ouvir e de entender. Por um lado, isso é bom, pois delimita bem a identidade e a marca sonora da banda. Mas é por isso também que ele falha. Acaba sendo fácil demais e o ouvinte se sente um tanto desmotivado a continuar, já que rapidamente saca a identidade sonora. A banda se arrisca pouco e ficamos com a sensação de que falta muito para que o disco seja memorável. Além disso, dentro do folk pop que se propõe a fazer, não apresenta nada acima da média.

A banda ainda tem muito a fazer. Este primeiro álbum foi uma declaração de que eles estão dispostos a continuar depois da experiência na TV. Resta agora um pouco mais de ousadia e uma renovação sonora para reparar os erros e seguir em frente.

Paramore – After Laughter (2017)

Hayley Williams & Co. se reinventam e fazem álbum seguro de indie colorido

Por Lucas Scaliza

Agora que o álbum está entre nós, não resta dúvidas de que o Paramore resolveu investir no lado mais pop da banda e o temperou com elementos indie e tropicais. É o quinto disco da banda de Nashville, que desta vez resolveu gravar pela primeira vez em sua cidade natal, o que parece ter servido para unir melhor os seus quatro membros e dar a eles mais conforto (afinal, a banda passou por maus bocados, mesmo tendo chegado ao ápice de sua popularidade com o último disco, Paramore, de 2013), já que o som não parece ter sofrido nenhum impacto ou influência da cena country ou roqueira de Nashville. A banda é pop agora – e eles deixaram claro que dariam essa guinada musical.

Como banda de rock, o Paramore sempre foi bem básico. Não é como se o Metallica deixasse de compor hinos metaleiros épicos para se dedicar agora ao punk rock de três acordes, entende? Por isso achei, lá em 2013, que a faixa “Ain’t It Fun?” de fato foi uma das melhores composições que a banda já tinha feito. Não era a mais rock’n’roll e nem a mais pesada, mas misturava com maestria diversos elementos diferentes que ressaltavam as qualidades musicais totais do grupo.

paramore_2017

After Laughter é bem divertido, por um tempo. A trinca que abre o disco, com os singles “Hard Times”, “Told You So” e “Rose-Colored Boy” é excelente e mostra que o grupo está muito bem situado nessa nova roupagem. O guitarrista Taylor York nem parece ter feito esforço para encontrar um novo jeito de encarar riffs e fills mais solares (um bom exemplo está em “Forgiveness”). Zac Faro, que voltou à banda, comanda a bateria com a retidão de quem sabe que essas novas faixas precisam de ritmo e precisão, não de viradas sensacionais (mas ele encontra alguns espaços para sair do feijão com arroz).

Aliás, não há nada de sensacional no álbum. As melodias são cativantes, mas nenhuma é excepcional. As harmonias e timbres estão muito bem colocadas na proposta, porém sem grandes sacadas. Em suma, não traz inovação alguma para o indie colorido, mas entrega tudo muito bem feito e de fato cumpre o papel de propor outra sonoridade para a banda. “26” não só mostra a cantora Hayley Williams se dando bem com registros mais baixos, mas também traz arranjos orquestrais para complementar o violão doce e de harmonia muito bem escolhida de York no violão. E há diversos sons que vão surgindo e ampliando o espectro do grupo, como os teclados em “Pool” e “Grudges”. E com uma ótima narração de fundo, “No Friend” se constrói como uma faixa instrumental do tipo que não se espera do Paramore (sempre tão calcado em sua vocalista) e nem de um disco como After Laughter, que preza pela segurança.

O veredito, assim, é que After Laughter não é o melhor trabalho da banda, mas está entre os melhores. É uma mudança sonora que deu certo, embora fique a sensação de que poderiam ter sido mais ousados. Hayley Williams continua sendo a cara da banda e sua principal força magnética, mostrando mais uma vez que é uma ótima cantora e bastante consciente do que pode cantar e como. Diferente de quem canta como se precisasse impressionar jurados a cada refrão (alô, Sia!), ela não vê problema em cantar sem forçar a voz, sem elevar demais a tonalidade das músicas e sem saltos de oitavas. Ah, e mesmo que não seja mais rock, punk ou emo, você sabe que Hayley Williams cantando, tal é a personalidade de sua voz preservada mesmo quando embalada em um produto diferente.