Indie

Pedro Salvador – Pedro Salvador (2017)

Primeiro disco é diverso e seguro

Por Gabriel Sacramento

O toca-tudo alagoano Pedro Salvador decidiu lançar seu primeiro álbum solo, depois de dois lançamentos com sua banda Necro. Na sua banda principal, Salvador fica encarregado do baixo, da guitarra e vocais, engrossando os riffs, melodias e a atmosfera psicodélica. Em seu debut solo, o músico gravou tudo e assumiu até o papel da produção.

Temos que considerar que a ideia de Pedro não foi fazer algo fácil. Ele quis abordar suas influências que vão além do som do Necro, temperando com funk e rocksteady e ainda assim recheando o álbum de interlúdios e passagens instrumentais. Em sua faceta guitarrística, Pedro nos presenteia com ótimos solos livres, leves e soltos, com timbres bem escolhidos. Ele também apresenta uma verve mais prog, psicodélica e retrô. Além disso, um quê de brasilidade em diversos instantes, tornando a obra ainda mais complexa, completa e mais fácil de se identificar com os diversos tipos de ouvintes.

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Em algumas faixas, como “Desgraça na Praça”, o cantor joga o velho e bom rockão na nossa cara, com uma linha de baixo galopante, guitarras giratórias e vocais agudos cheios de efeitos. Quaisquer semelhanças com a atmosfera sonora do Black Sabbath nos anos 70 não são meras coincidências. O clima obscuro e doom segue em “Quilombo de Cimento”, uma faixa cheia de elementos de stoner rock e que parece de fato ter mais de 40 anos de idade. “Canção da Lua” traz muito peso de guitarra-baixo e frases jeff-beckianas. Em “Gênese de Destruição”, Salvador mostra que é um ótimo instrumentista, abrindo mão dos vocais e preenchendo a faixa com solos, um baixo especialmente competente e overdubs espertos. Há uma variedade interessante de instrumentos percussivos na faixa, cooperando e se relacionando bem com as guitarras.

A longa “Canção do Fim” tem uma guitarra funkeada estilo anos 70, vocais falados, um baixo redondo e minutos de sobra para desenvolvimento de excelentes arranjos marcados por diferentes nuances em uma jam instrumental. Nessa faixa, Salvador deixa claro sua faceta de arranjador, o cara que emoldura a música e deixa ela acabadinha. Além de que, a faixa é a melhor demonstração da visão de Salvador do que vem a ser rock progressivo de todas do álbum: ele segue à risca a ideia e progride de arranjo em arranjo, suavemente e cuidando bem das conexões entre eles. Este disco em uma música? “Canção do Fim”, sem dúvida.

Pedro experimenta um som mais reggae/rocksteady em “Bananeira em Flor”, com órgãos que deixam tudo tão assustador quanto qualquer faixa dos Fuzztones. Aliás, ele adora os órgãos e os coloca em muitos momentos do álbum, principalmente nos interlúdios instrumentais “Suíte Microscópica” e “Nostálgica”. Entenda-os como momentos de alívio que o músico proporciona para fazer nossa cabeça espairecer. O fato de Salvador trazer vários trechos curtos de música cria um certo tipo de ansiedade pelas faixas completas e chama ainda mais a atenção para elas.

O músico tenta ideias diferentes, experimenta variáveis, adiciona elementos e chega um composto musical diversificado e redondo. E a produção que ele mesmo fez é excelente. Conseguiu mesclar bem todos os seus talentos, usar para o bem da proposta, deixando as faixas soarem espontâneas, marcantes e agressivas, além de evidenciar a força da coesão entre elas. Se o músico se encontra fazendo um bom trabalho com o trio Necro, seu projeto solo também é digno de atenção. Um disco despretensioso, divertido, criativo e, sobretudo, brasileiro.

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Ariel Pink – Dedicated To Bobby Jameson (2017)

O pop pós-moderno de Ariel Pink tem charme particular

Por Lucas Scaliza

Não há como fugir do pós-modernismo na música quando você se propõe, como o Escuta Essa Review, a falar sobre a música que se faz hoje. É claro que sempre encontramos alguns puristas e algumas experiências de soar futurista, mas o que mais encontramos é uma música feita para o hoje que vem com aroma, sabor ou nostalgia de algo que já passou. É mais ou menos por aí mesmo: vive-se o hoje podendo usar tudo o que se tem à disposição, não importa se são canções que remetem a 1974 feitas com guitarras Fender 1969, gravadas em estúdios reformulados nos anos 90 e com uma moderna mesa de som de 2011.

Dedicated To Bobby Jameson leva a sério tudo isso e faz um pop espetacularmente vívido e feliz, soando como uma bomba temporal onde o brega e o kitsch dividem espaço com o indie sofisticado e o rock alternativo. Ariel Pink, ao que parece, tenta saturar ainda mais as cores dessa vez do que com pom pom (2014), criando um borrão musical bastante divertido e despretensioso.

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“Feels Like Heaven” talvez seja a faixa mais tradicionalmente pop do disco e não à toa é o single. Mas “Another Weekend”, que carrega um pouquinho mais na experimentação (inclusive mudando de 4/4 para ¾, além de acrescentar uma série de psicodelias), também é single do disco. “Kitchen Witch” é um desses momentos que parece que a qualquer momento descambará para um experimentalismo surreal arieliano, mas segue até o fim bastante acessível. Já “Acting” traz batidas e baixo que se adaptaria muito bem no repertório de Thundercat. Há ainda o poder anarcorroqueiro de Pink em “Time To Live” e uma série de canções psicodélicas e animadinhas, como “Dreamdate Narcissist”, “I Wanna Be Young” e a faixa-título. Mas nada se compara a abertura com “Time To Meet Your God”, faixa que parece uma releitura de algum progressivo de 1977, mas com os sons consagrados da década seguinte.

Já o Bobby Jameson a que o título se refere foi um músico real de Los Angeles que passou 35 anos recluso e, por isso, dado como morto, mas que ressurgiu na internet em 2007 após abrir um blog e um canal no YouTube para contar as tragédias de sua vida. Jameson morreu em 2015, tornando-se mais um personagem da cidade e uma lenda urbana musical. Ariel Pink ficou tão comovido com a vida e a situação do conterrâneo que sentiu a necessidade de dedicar seu próximo disco a ele.

Esse é o estilo do californiano Ariel Marcus Rosenberg desde sua estreia, juntando o que foi o pop, o que é o indie, o que pode ser o rock em uma coleção de músicas que fazem parte da cultura hipster. Pink é hipster e totalmente consciente disso. Dedicated To Bobby Jameson é uma realização não maior ou melhor do que pom pom, mas mantém o cantor e compositor na dianteira dessa intersecção do pop com o rock que é tão peculiar ao ser esquisito e comercial ao mesmo tempo. Pós-moderno, afinal.

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Capitão Nemo – Bon Voyage (2017)

Quinteto de Piracicaba (SP) aborda questões sociais atuais sem perder a fluidez do rock vintage

Por Lucas Scaliza

Em Piracicaba, cidade do interior de São Paulo onde a música sertaneja é rainha, o rock ainda é crítico. E lírico. Bruno Razera (vocal), Denis Floriano e Matheus Fagionato (guitarras), Caio Mendes (baixo) e Otavio Bacchin (batera) são a atual formação da banda Capitão Nemo. Bon Voyage, produzido por Claudio Sanchez Vicente, aposta em canções de rock que visitam décadas passadas enquanto as ideias e mensagens são reflexo atualíssimo de nossa realidade.

Embora “Palavra de Ilusão” e “Mais Valia” tenham cara de single, pois são músicas facilmente alinháveis à tradição do rock/pop brasileiro (inclua aí de Titãs a Skank), a banda Capitão Nemo mostra do que é capaz tecnicamente e criativamente a partir da terceira faixa: “Quero Sim” tem riffs à Jimmy Page, um refrão infalível e mudanças de ritmo fluidas que lembram os melhores momentos do Tianastácia. Em seguida, “Otário ou Visionário” é um passeio por tantas referências que deixo para os ouvintes pescarem o que quiserem de lá. Dá pra adiantar que a banda faz bem uma mistura de violão MPB, com acordes com crunch, ponte com acordes que dão um efeito de suspensão da gravidade e participação bem encaixada do teclado.

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Enquanto álbum de rock, Bon Voyage aposta em um meio termo sonoro: não é acelerado como o Rebel Machine (falamos dessa banda gaúcha neste podcast) e nem aposta em um som encorpadíssimo como o do Ego Kill Talent (resenhado neste podcast). A distorção existe que no disco todo, mas bastante comedida, com o knob do pedal regulado conscientemente em um grau suficiente para tocar em rádios sem assustar ninguém. Ou seja, Bon Voyage é um disco que tem sim qualidades comerciais sem precisar abrir mão da identidade roqueira.

Se a julgar pelas duas primeiras músicas do disco parecia que o quinteto piracicabano tendia para canções mais protocolares, as oito seguintes mostram que não: misturas, referências acertadas (que vão de Led Zeppelin à The Doors), técnica a serviço da musicalidade e não da exibição. Se me dissessem que “Pseudolgum Lugar” é uma composição feita entre 1967 e 1969 eu acreditaria. E a riqueza de arranjos dessas oito músicas e uma boa quantidade de solos destoam do que é feito no rock/pop atualmente, já que a maior parte das bandas de rock – ou o que sobrou delas que ainda tocam em rádios – preferem dar ênfase em suas músicas mais padrão. E o padrão já faz alguns ano é não ter solo de guitarra e nem variar muito no ritmo ou dinâmica, duas coisas que Capitão Nemo faz e eu os saúdo por isso!

Bruno Razera, cantor e principal compositor do grupo, mostra que Capitão Nemo não é uma banda apenas de entretenimento. Os temas de suas letras passam longe do amor juvenil ou da angústia mais dramática de um millennial. Vamos percebendo essa qualidade no jeito de abordar assuntos faixa após faixa, mas quando chega a balada “Joe”, rica em violões e com uma das melhores performances vocais de Bon Voyage, vemos que Razera segue uma linha de autor como a de Nando Reis, do tipo que te fisga com versos certeiros e desenvolve uma história com a qual fica difícil não se envolver caso você preste atenção no que está sendo dito. Dá até para descer até o Rio Grande do Sul e encontrar uma intenção parecida com a de Humberto Gessinger em músicas que refletem sobre nossa injusta sociedade.

O teclado não é onipresente, porém é notável quando aparece. Em “Minha Pequena” ele não só consegue algum protagonismo como também exibe um timbre vintage oitentista que remete mais à MPB do período do que propriamente ao rock. Já “Dama de Vermelho” é a composição mais suja do disco, com riffs carregados de fuzz e pegada roqueira clássica.

Bon Voyage é um ótimo primeiro álbum. Preocupado com as letras e com os arranjos, não deixa de ser rock ao mesmo tempo em que deixa claro que tem mais que rock no seu mix de referências. Numa época de golpes políticos e notícias reais que parecem fictícias, Capitão Nemo faz uma viagem pra psedolgum lugar e espera que você enxergue o que está a sua volta de forma mais crítica, que tenha empatia pelos Joe que encontrar no caminho e que, acima de tudo, não perca a esperança e nem a vontade de viver.

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HAIM – Something To Tell You (2017)

Sound City sem as carreiras de cocaína

Por Eder Albergoni

Imagine o pop de FM verdadeiramente conflitante, indo além de briguinhas de ego e declarações infantis de suas estrelas principais, sobre relações amorosas fracassadas ou amizades falsas e aproveitadoras. A óbvia contradição nos impede o exercício pleno. É preciso recorrer a referências mais antigas, algo que foge das notícias de fofoca em sites de internet. O pop em questão, que se fortalecia em quebrar padrões e subir a barrinha da relevância para marcas maiores que o clichê de fãs ensandecidas que não deixavam jovens ingleses com ridículos cortes de cabelo cantarem direito suas musiquinhas, tinha
roupagem rock, descolada e um representante perfeitamente estabelecido em nossa visão. Rumours, lançado pelo Fleetwood Mac em 1977, é nosso objeto de comparação, desejo e conflitos latentes.

Hoje já não é preciso chocar a sociedade profanando o sagrado com modelitos provocantes, nem conceber discos com letras censuradas por conter palavrões ou insinuações sexuais, e muito menos sofrer de uma doença que muda a cor da sua pele.
Bandas e artistas fizeram, ao longo do tempo, discos repletos de drogas, sexo e postura moralmente questionável, segundo certos preceitos adquiridos em momentos de conservadorismo mais evidentes. Mas isso tudo é chover no molhado. O pop em si era sinônimo de qualquer coisa abaixo da média estabelecida como padrão e geralmente tido como certificado de qualidade. O pop combatia isso. Primeiro contestando em sua vertente punk e aumentando o espectro da atitude rock’n’roll. Depois afirmando movimentos de contracultura e grupos de minorias. O Fleetwood Mac transitava por tudo isso, e mais ainda quando criou Rumours.

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Acontece que o pop se atualizou e existem tantas ramificações sonoras que é impossível classificar bandas, artistas e estilos em nomenclaturas, mesmo que isso as identifique como tais representantes daquilo que servem em seus cardápios musicais. Aquilo: passamos a consumir música. Estamos menos empenhados em sentir o que ouvimos, pra elencar a quantidade do que ouvimos. Só que certos momentos nos puxam de volta à história. A música como era nas entranhas, na pretensão de transcender a física e as leis
divinas, na emergência demorada de experimentar uma obra específica como se fosse o elemento necessário e único pra garantir a sobrevivência humana. Rumours era sobre altos e baixos da vida.

A gente já concluiu de régua passada que nada mais pode ser clássico, ou ter vida longa, nesse modelo de consumo onde discos são lançados de semana em semana como filmes que lotam salas ao redor do mundo tão somente pra bater recordes de bilheteria. Eis que um sopro, um frescor, uma fagulha, uma palma no meio da multidão, um grito na cara de qualquer imbecil nasce. Nós esperávamos, sabíamos de onde viria e… voilà! A expectativa bem-sucedida desses nossos tempos nos brinda com um disco que é muito mais que só outro bom lançamento totalmente substituível na semana que vem.

Something To Tell You tem 100% de Rumours em seu DNA. Recorre intimamente às soluções sonoras e tenta ao máximo reproduzir, não imitar, os feitos técnicos. O disco é a soma dos quatro anos de experiência desde Days Are Gone (2013) com a empreitada da produção dividida, aspecto que parece ter virado o mais usual no que de mais contemporâneo existe nesse ramo. É preciso lembrar o que o disco do Fleetwood Mac significou na história da produção sonora. Gravado em vários estúdios, mas finalizado no lendário Sound City, se tornou um marco e direcionou a arte pra novos rumos, ideias e soluções pra usar tecnologias emergentes.

Mas o componente mais importante nunca deixou de ser o conflito entre a banda e o mundo. Neste segundo álbum, as Haim mostram maturidade, palavra que não pode ser outra pra definir a relação com o presente, e fogem de qualquer coisa que as aproximem de seus pares. Nada em Something To Tell You é banal. Nem imprime  formas polêmicas com o intuito de criar interesse. Argumento nenhum é desperdiçado. Nenhum discurso é inflamado. E mesmo assim o disco desenha o tempo a que pertence, ainda que “Nothing’s Wrong” nos confirme a comparação descarada com Rumours.

A fórmula usada em Days Are Gone aparece como recurso, nunca como repetição. Há uma evolução muito clara, tanto no aspecto musical (ouça “Kept Me Crying”. Danielle Haim empunhando a guitarra nos faz pensar em coisas pouco ortodoxas e suscitar o profano sobre o sagrado), quanto no aspecto pessoal. Porque tudo parece bem resolvido, ensolarado e aparado, há uma alegria desconcertante em seus shows e apresentações, e nada disso parece pop o suficiente para ser estragado. A principal virtude de Something To Tell You é replicar conflitos atuais, mesmo que pareçam menos importantes, sobre a alma de um disco de 1977 e conseguir ser um disco livre e completamente independente de datas. Um disco de, e para, todos os tempos.

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Portugal. The Man – Woodstock (2017)

Conservando elementos experimentais e psicodélicos, Woodstock marca a guinada mainstream do grupo

por brunochair

Se você acompanha as resenhas que escrevo para o Escuta Essa Review, sabe (ou tem uma impressão, pelo menos) de que gosto de contextualizar o gênero musical de um determinado artista/grupo. Não faço isso para delimitá-los, mas sim para facilitar na pesquisa do ouvinte de música, direcioná-lo para o conteúdo que pode interessar de imediato. Pois bem. Sempre que leio, internet afora, que o Portugal. The Man é um grupo de rock progressivo, todos os cabelos do meu corpo, da minha alma e os que eu perdi durante a caminhada da existência ficam arrepiados. Ainda que o grupo contenha a sua pitada de experimentalismo e psicodelia, nunca alcançou um status de progressivo em sua carreira musical.

O Portugal. The Man, banda oriunda do Alasca (EUA), está mais para o terreno do indie pop. O que os diferencia dos demais grupos do gênero é a sonoridade experimental e psicodélica alcançada através de elementos eletrônicos. É o toque de estranheza e curiosidade que atrai o ouvinte para a discografia deles. Em Woodstock, o grupo continua apostando nessa junção de instrumentos com os elementos eletrônicos. Porém, neste disco novo a aposta do grupo foi em desenvolver uma sonoridade bastante mainstream, um pop massivo que conseguisse abarcar uma enorme quantidade de consumidores.

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Se esta resenha tivesse sido escrita há algumas semanas, teríamos dito que a aposta foi essa: continuar soando indie pop (experimental e com presença de elementos eletrônicos) com a intenção de soar massivo. Mas o disco já ganhou o rumo das rádios e do YouTube, e bombou. “Feel it Still” tem quase 30 milhões de audições no Spotify. Já pude ouvir a música tocar nas rádios da minha cidade (Bauru) algumas vezes, inclusive a partir de pedido do público. Ou seja, o grupo atingiu o seu objetivo, e o single citado já disputa espaço com artistas como Ed Sheeran, Calvin Harris e o single “Despacito”, de Luis Fonsi.

Outras canções do disco possuem chance de também alcançar o status de singles radiofônicos. É o caso de “Easy Tiger”, “Rich Friends”, “Keep On”, “Tidal Wave” (inspiração em Magic!). Outras canções do disco não tem o mesmo potencial, ainda estão no terreno do alternativo, mas certamente o ouvinte de rádio (essa pessoa que imaginamos existir) se ela procurar ouvir o disco de ponta a ponta não terá problemas em entender a linguagem do Portugal. The Man. As músicas são descoladas, os temas e títulos de música simples e (em boa parte) descontraídos.

Para quem conhece a banda há mais tempo, talvez essa guinada mainstream tenha impressionado. No entanto, caso esse mesmo fã (ou ouvinte) da banda analise o percurso do grupo sem tanta paixão, verá que o caminho para o pop das massas era algo possível. Inevitável? Obviamente que sim. O que importa é que o Portugal. The Man conseguiu desenvolver esse pop massivo sem perder suas características experimentais e psicodélicas. Apenas subverteu ao mercado. Como não nos cabe fazer aqui juízos de valor e apenas apontar a direção que tomaram, eis o caminho tomado. Ouça, e faça seu próprio julgamento.

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Japanese Breakfast – Soft Sounds From Another Planet (2017)

O synthpop garageiro de Michelle Zauner fica ainda mais legal

Por Lucas Scaliza

De todas as coisas que deixamos passar em 2016 (como o lindo Kodama do Alcest, um disco da Emma Ruth Rundle, e muito do que rola no Instagram do Escuta Essa Review), com certeza me arrependo de não ter falado de Psychopomp, a estreia de Michelle Zauner solo, sob a alcunha de Japanese Breakfast. Ela deixa o emo do Little Big League para lá e abraça um som que fica entre o “deixa-que-eu-mesma-faço-minhas-coisas” de uma Courtney Barnett e a produção indie pop cheia de teclados do Little Dragon (que é uma banda sueca liderada por uma descendente de japoneses, e apesar do nome do projete, Zauner descende de coreanos).

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O caso é que Psychopomp é uma gracinha de disco, suave como um synthpop e com atitude roqueira. Faixas curtas que se entrelaçam muito bem e fazem o álbum soar quase como uma única peça musical. Soft Sounds From Another Planet segue a mesma receita, mas melhor e mais exploratório. “Diving Woman” já abre o álbum com quase tudo o que ela tem: uma interpretação vocal emocional, mas não dramática, solo de guitarra noiser, teclados estranhos, linha de baixo contagiante. E nada forçado, tudo descendo pelos tímpanos com naturalidade.

Embora o estilo sonoro seja o mesmo do álbum anterior, fica evidente a melhora na qualidade de gravação e mixagem. Em diversos momentos de Psychopomp parecia que a voz de Michelle Zauner estava “descolada” da música, como uma cena em que a cena entre um ator e um fundo de chroma key parece mal recortada. Havia até um charme meio indie, meio punk nisso, mas agora está devidamente corrigido.

Músicas como os singles “Boysh” e “Road Home” (que tem um ótimo clipe, aliás) definem muito bem quem é e como é o Japanese Breakfast. Música levemente new wave, com melodias e melífluas e aquela doçura que é misto de melancolia e fofura indie. Já “Machinist” e “Planetary Ambience” carregam a artista um pouco mais para o território da música eletrônica. Já “12 Steps” volta a mostrar sua veia mais relaxada e roqueirinha. E lá no fim do álbum ela fica bastante sentimental com a beleza clean de “Till Death” e o folk árido de “This House”.

Ela não perde a mão – e nem a vibe – em momento algum, expandindo a gama de sonoridades que já estavam no disco do ano passado. O que já era bom, ficou ainda mais legal em SSFAP. Embora rico em sons e ambiências, não é um disco que parece distante do ouvinte, como a jornada espacial-folk-experimental de Sufjan Stevens e tchurminha no recém-lançado Planetarium. É como se Michelle Zauner, cantando com o despojo de “Body Is A Blade”, fosse sua amiga. Ela te entende e espera que você também veja a sinceridade de sua melancolia good vibes.

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Lindsey Buckingham & Christine McVie -Lindsey Buckingham Christine McVie (2017)

Gravado pelo Fleetwood Mac, mas não é Fleetwood Mac

Por Gabriel Sacramento

Poucas bandas conseguiram uma proeza tão notável quanto o Fleetwood Mac em seus dias mais gloriosos: explorar a fronteira – se é que realmente existe – entre o pop e o rock, em uma época que a referência de pop era o ABBA e a referência de rock, o Led Zeppelin. O grupo parece ter a fórmula para canções irresistíveis e enxutas no seu esqueleto, sendo merecidamente uma das bandas mais importantes da história.

O disco em pauta neste texto foi gravado por 4/5 do Fleetwood Mac atual, mas saiu como uma parceria do vocalista/guitarrista Lindsey Buckingham e Christine McVie – que lembra muito a ideia da parceria Buckingham Nicks, do guitarrista com a outra voz feminina famosa do grupo antes de ingressarem na banda. Buckingham e McVie eram membros ativos e importantes compositores do Mac, que juntos já eternizaram hits como “Don’t Stop”, do Rumors (1977). Lindsey Buckinham Christine McVie marca a volta da cooperação criativa dos dois, depois de um tempo separados. Também é o primeiro disco de inéditas da galera toda junta, menos a Stevie Nicks, em anos.

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Como o disco foi gravado pela mesmíssima cozinha rítmica/harmônica e parte das vozes do Fleetwood Mac, é quase impossível que não soe realmente como algo que o grupo faria. Aqui a leveza sônica joga a favor do grupo em canções como “On With the Show”, cantada pelo Buckingham. A faixa é bem tranquila e caracterizada pela marcação pontual dos acordes pelo baixo. A contemplativa “Carnaval Begin” é uma canção que mesmo despida de maquiagem e excessos, soa completa e bela. O teclado de Christine chama a atenção pelas melodias que servem completamente à música e ainda conversam bem com parte rítmica. O dedilhado típico e singular de Buckingham rouba a cena em “Love is Here To Stay”, uma canção bem simples também e igualmente bela. “Too Far Gone” tem uma veia mais roqueira, com um jogo sensacional de vozes e a bateria sendo usada como recurso criativo, diferente da função típica de marcação de ritmo, como o Mick Fleetwood já tinha feito em ocasiões como na clássica “Go Your Own Way”, de 1977. Temos três faixas especiais com cara de hit: “Sleeping Around the Corner” – com um refrão chiclete e um instrumental ousado -, a tropical “Feel About You”, com suas influências de doo-wop e “In My World”, com um arranjo sofisticado e refrão inesquecível, que parece alguma coisa criada originalmente para o ABBA.

Quando perguntado sobre suas influências musicais e seu estilo de tocar, Buckingham afirmou que não gosta do estilo de Eddie Van Halen, por exemplo, pois prefere guitarristas que toquem para a música e não somente para se destacarem individualmente. Essa visão com certeza guiou o músico na sua carreira e o levou a desenvolver essa fórmula de criar e produzir hits, em que todas as partes cooperam decisivamente para um todo forte. O resultado são faixas imbatíveis em termos de sensibilidade e apelo pop, mas não soando necessariamente descartável para ouvintes mais exigentes. Outra banda que também dominou esse modus operandi foi o Steely Dan, por exemplo.

Seu novo disco com a McVie segue esse modus. Como sempre, sobra capacidade de entrar e sair pelo rock e pop, com foco na força das faixas, no quanto soam agradáveis e marcantes para o ouvinte médio/fácil, sem se preocupar em se prender a gêneros ou idéias padronizadas. Um álbum que proporciona uma tranquila viagem pelo mundo das ideias sonoras, cheia de conforto e segurança. Esse disco vai te fazer querer ouvir Fleetwood Mac de novo e respeitar ainda mais esse grupo sensacional, que é tão seminal para a música pop.

E fica cada vez mais fácil acreditar que quando esse pessoal se junta não tem como sair algo ruim.

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