Metal

Melvins – A Walk With Love and Death (2017)

Um típico produto da máquina Melvins de fazer música

Por Gabriel Sacramento

23 faixas. 1 hora e 21 minutos. 14 faixas catalogadas na parte chamada Love – trilha sonora para um filme que eles produziram -, outras 9 na parte Death. É com essa divisão e configuração de álbum duplo que os Melvins deram as caras este ano, lançando o seu vigésimo quinto trabalho. Uma banda e tanto. Um dos grandes propulsores do que muitos chamam de sludge metal, uma espécie amaldiçoada de rock pesado, imundo, triste e arrastado que não deixa de ser um primo mais dark do tão bem falado stoner rock. A banda surgiu nos anos 80 erguendo a bandeira da esquisitice brutal e soturna, mais ou menos como o que o Black Sabbath fazia quando despontou nos 70s.

A Walk With Love and Death é também um álbum psicodélico. Uma viagem psicótica, como bem descreveu o batera Dale Crover, que forma a banda junto com o baixista Steven Shane McDonald e o vocalista/guitarrista Buzz Osborne – que curiosamente tem o sobrenome igual ao icônico vocalista do Sabbath. Segundo Crover, é um álbum assustador para fazer as pessoas dormirem com as luzes acesas.

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Os seis minutos de “Black Heath” seguem com uma fluidez lenta, arranjos simples e paradas para reflexão. Buzz e seus companheiros conseguem soar stoner sem guitarras violentas preenchendo tudo, como é de costume. “Sober-delic (acid only)” também passa dos seis minutos e parece uma continuação da primeira: soturna, vagarosa e com destaque para alguns poucos arranjos de guitarra, que por estarem situados no meio dessa atmosfera pesada, ganham um brilho a mais. Em “Flaming Culture” e “Christ Hammer”, Buzz suja um pouco mais as seis cordas, mas ainda com controle. Nas duas, temos refrãos melódicos mais “fofos” para os padrões melvianos, mas que funcionam bem para contrastar com a parte dark. “Euthanasia” honra os velhos tempos, com uma massa robusta de guitarra engolindo os outros instrumentos e os vocais assombrados de Osborne.

O Melvins tem muito a ver com o Pixies: ambas surgiram na cena underground americana nos anos 80, com um som agressivo, lo-fi, que flertava conscientemente com o noise e influenciado diretamente pelo Black Flag. Ambas cresceram como bandas dentro do cenário e vieram a ser a fonte na qual beberiam os grupos do movimento roqueiro mais importante dos anos 90 na terra dos Yankees – o grunge. E as duas, depois de tantos anos, parecem possuir alguma boa poção mágica que mantém a juventude e a essência sonora. O último dos Pixies me deixou com um sabor de nostalgia nos ouvidos e exaltou uma forma de fazer rock sem polimento e muitos recursos. Esse ano os Melvins vêm e engrossam muito bem esse coro.

A parte da trilha sonora para o filme, a parte Love do trabalho, é composta por retalhos de sons, falatórios e ruídos. Nada muito significante e que diga muita coisa sem estar atrelado ao filme. Na real, os fãs que ficarem somente na experiência auditiva sairão com sorrisos no rosto quando terminarem, porque as boas faixas deixam claro a boa fase, que aliás pode-se dizer que começou quando lançaram seus primeiros álbuns. A Walk With Love and Death é um produto composto, uma iniciativa artística interessante e diferente, que merece elogios. Mas a parte musical em especial é um típico produto da máquina Melvins de fazer música, com marca registrada e autenticada – e selo Escuta Essa de qualidade.

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Stone Sour – Hydrograd (2017)

Peso, energia e adrenalina. Mas o problema são os refrãos

Por Gabriel Sacramento

Em uma escala Corey Taylor, como você está se sentindo hoje? Como o mau-humorado, agressivo, das máscaras e guturais do Slipknot, como o bem-humorado, de voz mais limpa, que gosta de diversificar do Stone Sour ou o Corey cool dos All-Stars e entrevistas divertidas? São muitas facetas e o cantor gosta de expor cada uma delas publicamente em seus projetos. O cara já escreveu até livros, mostrando que realmente quer ir fundo em seus dotes.

O Stone Sour é o que mais tem ganhado sua atenção e dedicação ultimamente. O que é até compreensível, visto que o Slipknot já anda com as próprias pernas e se tornou aos poucos uma marca maior que os próprios membros. Já o SS ainda está em fase de consolidação, descobertas e desafios. Sua dedicação à banda tem rendido resultados consistentes, como os dois últimos e conceituais álbuns, da série House of Gold & Bones. O som da banda está cada vez mais metálico, moderno, pesado e diverso dentro do próprio escopo.

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Conheci o grupo num show do Rock In Rio de 2011, quando vieram ao Brasil e tocaram com o baterista Mike Portnoy. Foi com “Orchids”, do primeiro álbum deles, que a banda me ganhou e eu passei a acompanhar e ouvir os álbuns. Eu, que até então só conhecia Corey Taylor dos vocais insanos de “People = Shit” e “Psychosocial”, tive uma boa surpresa ao vê-lo trabalhando ideias vocais menos previsíveis de uma forma menos rígida. Desde então, penso na banda como um projeto totalmente distinto do Slipknot – que já teve dois membros em comum – embora características similares possam ser encontradas. O disco All Hope is Gone (2009), por exemplo, tinha muito do Stone Sour e isso rendeu um resultado final bem interessante. Aliás, muita gente pode não saber, mas o Stone Sour foi fundado antes mesmo do próprio Slipknot, mas o grupo das máscaras acabou ganhando mais atenção de James Root e Corey Taylor no final dos anos 90 e alcançou um sucesso mais estrondoso.

O nome do novo disco, Hydrograd, foi escolhido porque Corey pensou ter visto a palavra escrita em um aeroporto e a achou legal. É o primeiro álbum com Johny Chow no baixo e Christian Martucci na guitarra, substituindo James Root que deixou a banda para se dedicar mais ao Slipknot. Dois singles foram lançados para promover o álbum: “Song #3” – uma faixa mais pop/rock, bem comercial, com alguns momentos que lembram as faixas do novo do Incubus – e “Fabuless”, uma porrada na orelha, com riffs afiadíssimos, vocais melódicos seguidos de gritaria gutural, uma bateria pesada e bem executada por Roy Mayorga e referências à “It’s Only Rock’n’Roll (But I Like it)” dos Stones e “Rock’n’Roll” do Led Zeppelin. Além disso, a faixa ganhou um clipe bem interessante, no qual eles aparecem tocando para bonecos de posto e no final do vídeo, os bonecos assumem o palco e os músicos aparecem na plateia – com direito à um Corey Taylor insano filmando o show do celular. O clipe foi idealizado pelo baterista há sete anos e só agora encontraram a oportunidade de gravar.

No resto do álbum temos momentos bem pesados, como em “Taipei Person/Allah Tea” e “Whiplash Pants”, com ótimos riffs e uma cozinha segura. Mas as faixas mais pesadas do álbum como a já citada “Whiplash Pants”, “Fabuless”, “Knievel Has Landed”, “Friday Knights” e a faixa-título possuem um problema: seus refrãos. O fato delas terem sempre que cair num refrão melódico acaba meio que minando as possibilidades da banda e deixando o álbum previsível demais. Esses refrãos soam um pouco forçados, pouco desenvolvidos, como se estivessem lá só para cumprir a regra mesmo e constituem o ponto fraco do conjunto. Se as partes pesadas são empolgantes do tipo que te fará balançar sua cabeça no ar, os refrãos são do tipo que te fazem desviar a atenção para checar o Twitter ou Instagram. Não funcionam bem como partes marcantes das canções.

Mas o disco tem refrão bom? Tem sim e os melhores ficam justamente nas faixas menos intensas, como “Mercy”, “The Witness Tree” e a emocionante “When The Fever Broke”. Mas além dos refrãos fracos e do peso, o grupo ainda tenta algumas coisas mais ousadas, como o flerte explícito com o country em “St. Marie”.

Hydrograd é um registro interessante de uma banda em ascensão e que sabe bem o que pode e o que quer fazer. Percebemos que eles exalavam adrenalina e energia no estúdio quando gravaram tudo ao vivo, justamente para captar mais peso e atitude, mesmo esquema usado na gravação dos EPs de covers Meanwhile in Burbank e Straight Outta Burbank.

A bateria de Roy Mayorga ganhou um destaque especial no processo de produção, soando pesada, direta e próxima ao ouvinte, como acontece quando os engenheiros utilizam microfones bem próximos dos tambores. As guitarras soam muito bem, também, com altos e precisos graus de distorção e sujeira. Taylor explora seu gutural, seus vocais melódicos e varia bem em cada nuance diferente, como fez em seus discos mais inspirados na carreira.  O produtor Jay Ruston soube muito bem conduzir a banda no processo e trabalhou com eles para definir bem as estruturas das canções e a dinâmica entre intensidade e alívio, cuidando dos timbres e da pegada.

O Stone Sour entrega peso e energia com uma riffaria precisa – capaz de deixar gente como James Hetfield e Dave Mustaine orgulhosos, inclusive – e execuções agressivas e fortes como um bom disco de metal deve ser. O problema acaba ficando nos refrãos, que impedem o álbum de ser algo fantástico e inesquecível. Ainda assim, em tempos de bandas de metal se repetindo à exaustão, enclausurando o estilo em uma enorme bolha criativa, Hydrograd soa como um bálsamo para os ouvidos cansados da mesmice, visto que eles notavelmente se esforçaram para conseguir um resultado fresco e diferente. Mesmo com alguns problemas, é um bom disco de metal.

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Anathema – The Optimist (2017)

Ingleses acertam na atmosfera, mas não superam o álbum de 2001 que originou a história de The Optimist

Por Lucas Scaliza

Acima de qualquer opinião que possamos ter sobre The Optimist, novo disco da banda Anathema, é importante lembrar que os ingleses estão em uma ótima fase marcada pela maturidade e autoconsciência musical. Depois de nos encantarem com as forças da natureza e Weather Systems (2012) e com as harmonias espaciais de Distant Satellites (2014), resolveram apostar basicamente no que já estava dando certo, mas gravando de uma forma diferente.

O que estava dando certo – e continua muito bom, aliás – são as composições em ciclos. Basicamente, grande parte das músicas do Anathema vem sendo pensadas como uma ciranda, em que o mesmo esquema harmônico se repete às vezes ao longo de uma faixa inteira. E então temos o golpe de mestre: a variação dinâmica. Foi assim com os dois últimos discos e havia sido assim com diversas músicas mais antigas. The Optimist não foge à regra e nos emociona fazendo com que uma faixa comece em um patamar, chegando ao seu final (ou perto dele) de forma épica, com toda a banda tocando bem alto, com arranjos mais fortes, como uma orquestra que começa em piano e termina a mesma sequência de notas e acordes em fortissimo. A roqueirinha “Leaving It Behind”, a mais eletrônica “San Francisco” e a incrível “Springfield” são exemplos disso. Esta última, aliás, belamente cantada por Lee Douglas, parte de uma balada e chega a soar como uma explosão estelar em seu auge.

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Mesmo quando não apostam na mesma harmonia cíclica, apostam em crescendo. “Endless Ways” – com guitarras de Daniel e Vincent Cavanagh que lembram desde Mogwai até U2 – é outra que eleva a dinâmica, transformando qualquer música aparentemente meditativa em uma pedrada roqueira. E o mesmo acontece com “The Optimist”. E com “Can’t Let Go” também (a mais inglesa do disco). E com “Wildfires”. “Back To The Start”, idem. Como se vê, é um recurso usado a exaustão. A questão é que isso tanto é previsível quanto continua sendo emocionante de verdade. Daniel Cavanagh, o mastermind por trás da estrutura da maior parte das músicas da banda, é um mestre nesse esquema e mesmo se repetindo consegue fazer boas músicas. Mas que The Optimist acaba soando manjado a certa altura, soa mesmo.

A novidade de The Optimist é que o sexteto gravou grande parte das instrumentações ao vivo no estúdio Castle Of Doom, na Escócia, todos juntos de uma vez só (as vozes foram gravadas separadamente). Principalmente o baixo de James Cavanagh e a bateria de Daniel Cardoso e John Douglas soam realmente menos processados e mais “ao vivo”, com uma pegada que qualquer fã de rock e metal vai reconhecer de shows. As guitarras também foram beneficiadas, principalmente porque soam mais secas e viscerais do que em todos os últimos discos da banda (a parte final de “Wildfires” não me deixa mentir).

Tony Doogan foi o produtor contratado e que realmente deixa sua marca na banda. Conhecido por produzir outras duas bandas escocesas, os pot-rockers do Mogwai e os indies Belle And Sebastian, ele não mexeu na estruturação que dá cara ao som do Anathema, mas no que se refere a criar ambientações sonoras (com teclados, sintetizadores, equipamentos eletrônicos e orquestrações), pôde criar uma identidade realmente mais ambiente rock do que em Weather Systems e Distant Satellites. Se o álbum de 2012 era mais força da natureza e o de 2014 mais imensidão espacial, The Optimist deriva mais de uma mente urbana.

As letras, em grande parte, são menores do que antes, o que indica uma preocupação muito maior com a atmosfera do ambiente e não com a história que se pretende contar. Afinal, The Optimist é uma continuação da história de A Fine Day To Exit (2001), que acho, inclusive, muito mais diverso, criativo e, no geral, melhor que sua continuação. Aliás, durante a campanha de divulgação do novo disco, a banda afirmou que seria a coisa mais “dark” que já fizeram. Isso com certeza não é verdade. “Underworld”, “Pressure”, “Panic”, “Breaking Down The Barriers”, todas lá de 2001, são muito mais pesadas e com harmonias mais “dark”.

Não é o melhor disco da banda e nem fica acima dos celebrados dois últimos lançamentos. Tentaram unir o Anathema roots com o Anathema bem produzido da última década e conseguiram um disco legal, mas longe de penetrar na alma e no coração do ouvinte por muito tempo.

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Escuta Essa 37 – Os 15 Melhores Álbuns do Ano Até Agora

Chegou a hora de elegermos os 15 melhores discos lançados neste primeiro semestre de 2017. Após uma criteriosa avaliação de tudo o que foi resenhado no site e nos podcasts passados (indicações do Instagram não valem), Lucas Scaliza, Gabriel Sacramento e Brunochair explicam porque cada um merece estar nesta lista.
E o que o Antonio Fagundes tem a ver com isso? Amigo, só mesmo ouvindo este episódio para entender. Vale a pena!

Download do episódio neste link!

PLAYLIST: Não deixe de conferir nossa playlist do Spotify com as 15 músicas dos 15 melhores álbuns e mais 15 músicas que achamos incríveis lançadas neste primeiro semestre.

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At The Drive-In – In•ter a•li•a (2017)

Continuação perfeitamente natural de Relationship of Command

Por Gabriel Sacramento

Imagina se o Zack De La Rocha cantasse num estilo mais melódico? Pois é, o At The Drive-In satisfez nossas imaginações há 17 anos, com Relationship of Command, um disco que lembrava o Rage Against The Machine, mas apontava para uma direção diferente: o punk, sendo reconhecido como um dos grandes lançamentos do que ficou conhecido como post-hardcore, estilo associado com a onda emo da década de 2000. Tudo bem, o estilo é bem diferente, mas a voz do Cedric Bixler-Zavala permite essas divagações delirantes com relação à voz do RATM.

O sucesso do álbum foi contagiante, mas mesmo assim a banda acabou entrando em hiato no ano seguinte (2001). O resultado foi a necessidade de sobrevivência, satisfeita pela criação de duas bandas, The Mars Volta e Sparta, com os membros divididos entre ambas. No entanto, a história se repetiu com as duas bandas acabando ou entrando em hiato. Restou novamente a necessidade de sobrevivência, que causou, felizmente, o retorno do At The Drive-In.

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Aí o roteiro você já conhece: aquele papo alegre de “estamos com saudades um do outro e queremos voltar a fazer música juntos”. Essa vontade de trabalhar junto fica ainda mais questionável quando ficamos sabendo que o baterista original, Jim Ward, recusou deliberadamente a participar da reunião. Para substituí-lo, os caras convocaram o ex-guitarrista do Mars Volta, Keely Davis. A produção e mixagem de In•ter a•li•a ficou por conta de Rich Costey, que produziu discos do Muse na década passada e mixou Foo Fighters e Audioslave.

Diante de toda essa novela envolvendo bandas e hiatos, para nós, ouvintes, restou a esperança de que o novo álbum fosse tão bom ou até melhor que o anterior. A boa notícia é que esses 41 minutos deixam claro que a banda manteve a boa forma depois de todos esses anos, permanecendo saudável e mantendo a boa e velha identidade. Aliás, ponto também para Rich Costey, que soube conduzir bem essa galera e captou um espírito total anos 2000, como se nada tivesse sido perdido. Quem sabe até como uma forma de recompensar os fãs desapontados com tantos anos sem nada da banda, eles trouxeram um álbum com um sabor de nostalgia que não sai da boca.

Assim, quando ouvimos o coro e a bateria quebrada de “No Wolf Like The Present” ou a pegada post-hardcore mais moderna de “Incurably Innocent”, percebemos de cara que não estamos diante de algo necessariamente novo. Esta última, inclusive, lembra bastante aquelas bandas de PHC que invadiram os EUA em meados da década de 2000. “Governed By Contagions” deixa claro a semelhança do timbre vocal de Cedric com o Zack do RATM, aliás o som é bem parecido com os caras de Los Angeles, a diferença é que o At The Drive-In é mais sujo e com bases propositalmente menos bem definidas. Destaco também as ótimas “Holtzclaw” e “Torrentially Cutshaw”, com uma cozinha super afiada e um entrosamento cirúrgico de toda a banda.

O som da banda texana tem uma característica interessante: diferente da versão mais metaleira do hardcore, como as praticadas por bandas como Hatebreed e Suicidal Tendencies, o At The Drive-In possui uma ênfase no som do baixo e as guitarras geralmente são utilizadas para criar peso e ruído ao redor da noção de harmonia provida pelo instrumento mais grave. E como é punk, o ouvinte é conduzido durante a audição pelas rápidas transições de acordes marcadas pelo baixo enquanto as guitarras ficam mais livres para dançar, explorando harmonias e melodias complementares. As guitarras são bem divididas e às vezes podem segurar a harmonia base também, mas percebemos que essa é uma função essencial do baixo e o instrumento brilha na mix para dar essa ideia ao ouvinte.

O vocal do Cedric varia bem entre o cantado, o “rapeado estilo Zack De La Rocha” e o gritado. A dinâmica do cantor é importante para fazer o disco variar e criar ramificações interessantes dentro da essência e fórmula típica do grupo. Assim, a banda garante a empolgação, o mosh, as cabeças balançando até o último minuto, com um ou outro instante de descanso, para beber água ou algo assim. A volta dos texanos em In•ter a•li•a está imperdível e mostra que eles não perderam nem um pouco do brilho do som de 17 anos atrás. Continua intenso, punk, sujo e ao mesmo tempo melódico. Se você se sente velho por ter percebido que já se passaram quase duas décadas desde o último, não se preocupe: o At The Drive-In vai te fazer se sentir novo, de novo.

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Royal Blood – How Did We Get So Dark? (2017)

Banda reafirma seu posto como uma das mais interessantes na cena roqueira inglesa

Por Gabriel Sacramento

Os ingleses do Royal Blood impressionaram em 2014 com um álbum excelente que conquistou unanimemente a crítica e os fãs de rock ávidos por novos nomes interessantes. Três anos depois do disco de estreia arrasa-quarteirões, o duo lança a continuação, que pontua o quanto a carreira tem ido bem e deixa claro que a fonte está longe de secar. Com o título How Did We Get So Dark?, cheguei a me perguntar se a banda realmente mudaria o som para algo mais obscuro, mas não foi o que aconteceu.

O novo álbum traz a produção de Joylon Thomas e a finalização do produtor que trabalhou no anterior, Tom Dagelty. Foi gravado em seis semanas, o que é um bom tempo, mesmo se considerarmos que eles não gravam muitos overdubs e o foco está em apenas dois instrumentos. Depois da pré-produção, dez canções foram selecionadas de cerca de 50 que tinham composto e sentimos que foram realmente as melhores canções – as faixas do novo disco não só são boas em termos de qualidade, mas também são interessantes para mostrar que Ben e Mike não optaram por fazer um simples mais do mesmo, um volume 2 insosso.

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No entanto, desde “Where Are You Now” – que foi divulgada em 2016, como parte da trilha de Vinyl, série da HBO criada por Mick Jagger, Martin Scorsese e Terence Winter -, percebemos que o lance é manter o foco e o conceito sonoro do primeiro álbum, sem muitas mudanças bruscas. A canção é uma das poucas do álbum (e da banda) em que o baixo de Mike soa realmente como um baixo, no começo da canção, embora em outros momentos o instrumento ganhe boost e passe a soar como uma guitarra soterrada de drive. Além do peso, Mike preza por melodias simples, mas fortes. Em “She’s Creeping”, o baixista e vocalista explora leves saídas do tom nos versos, que soam fantásticas, e um sexy falsete no refrão, que tira um pouco do aspecto sisudo da banda e leva pra algo mais solto.

“Look Like You Now” anuncia uma influência indie mais forte, das melodias vocais à estrutura e ao refrão. “Don’t Tell” é quase uma semibalada, só que com doses cavalares de distorção. O refrão é composto pelos recorrentes falsetes de Mike e um andamento mais arrastado. É uma faixa que pode trazer diferentes tipos de ouvintes e atrair mais atenção para a banda. Podia até ter sido single. “I Only Lie When I Love You” tem o jeitão stoner que fez a banda agradar tanta gente no primeiro disco – com direito à palmas e um cowbell que deixam tudo um tanto mais festeiro – e “Hook, Line & Sinker” mantém a pegada pesadona, orientada aos riffs ultradistorcidos.

Embora não possamos dizer que How Did We Get So Dark? tenha tantos singles de sucesso quanto Royal Blood, podemos dizer que esse álbum é uma reafirmação importante da capacidade de dois músicos competentes de fazer música descomplicada, intensa, viva, com ótimos ganchos e riffs que não desgrudam da mente. Os refrãos são impulsionados pela força dos riffs do baixo e por isso são tão marcantes e animados, sendo natural que provoque em nós a vontade de balançar nossas cabeças no ar.

Se no primeiro álbum o duo não aceitava de jeito algum o fato de gravar backing vocals, aqui eles deram uma trégua e preencheram a faixa-título com vocais que soam um tanto assustadores por serem tão repetidos no meio da base pesada – como se as vozes não se abalassem pelo peso absurdo que as envolve. Mesmo com essa mudança e, por exemplo, com a adição de mais falsetes nos vocais de Mike, a banda soa bem fiel ao seu som, sem abrir mão do que faz eles serem interessantes e, de certa forma, únicos. Os falsetes se encaixaram perfeitamente bem na proposta, deixando as melodias ainda mais irresistíveis e adicionando uma certa sensação de fragilidade em meio à toda a porradaria inquebrável. Além disso, é uma forma de diferenciar os vocais e conseguir uma forma distinta de expressão, por isso, muito válida.

A lógica instrumental continua a mesma: as referências sonoras da banda fazem com que eles componham músicas que necessariamente pedem um solo de guitarra em algum momento. Mas para suprir essa falta, eles encharcam o espectro sonoro com o ruído da distorção agressiva do baixo, executando riffs bem elaborados e que são tão importantes que geralmente são os primeiros elementos criados. O destaque interessante é o meio de “Lights Out”, com um fill de bateria, que segundo Mike, foi o que Ben executou no estúdio para atender ao seu pedido de tocar a coisa mais ridícula que ele pudesse pensar. O fato do fill ser longo e composto por apenas duas notas dá uma sensação de que estamos presos ao mesmo trecho (como se tivesse travado), quando na verdade foi mais um acessório criativo usado para deixar as coisas diferentes por aqui.

Considerado por muitos como a versão britânica do White Stripes e do Black Keys, além de ser uma das bandas novas que ganharam mais destaque – e que mais venderam – na cena roqueira da terra do chá, o Royal Blood tem mostrado que sabe bem como lidar com o sucesso e o reconhecimento, buscando, sobretudo, fazer música por diversão e divertindo e entretendo os seus ouvintes. Resta saber se eles continuaram fiéis a isso com o tempo e como a maturidade na carreira irá afetar a forma como pensam música.

No final, percebemos que How Did We Get So Dark? não é obscuro no seu núcleo, embora seja em alguns pequenos momentos estratégicos. Pode ser rotulado como mais do mesmo, mas feito com muita qualidade e competência, que não desaponta o ouvinte em nenhum instante e ainda funciona como uma ótima seleção de faixas que cumprem o objetivo de um bom disco de rock garageiro: soar incrivelmente sujo e agressivo.

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Elder – Reflections OF A Floating World (2017)

O stoner metal que você já respeitava agora nos dá um clássico do gênero

Por Lucas Scaliza

Deem logo uma coroa aos músicos do Elder. A banda americana de stoner metal conseguiu superar o ótimo resultado que obtiveram em Lore (2015) e chegam muito perto do nível de clássico com o álbum duplo Reflections Of A Floating World.

Com músicas bastante longas (de oito a 13 minutos!), conseguem fazer com que cada uma seja seu próprio universo de riffs e pegada instrumental, fazendo do álbum uma galáxia inteira. Não é brincadeira. “Sanctuary”, que abre o álbum, já faz o fã do estilo sorrir com um riff incrível. Depois que baixo e guitarra com distorção poluem tudo então, é só correr para o abraço.

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Dessa vez há algo de mais místicos no som feito pelo trio. Algo mais pinkfloydiano, se você preferir, e dá pra dizer que até tem passagens mais claramente progressivas (como “The Failing Veil” e “Blind” deixam bastante claro). Eles não usam sintetizadores como o Samsara Blues Experiment e com certeza fogem da abordagem mais direta do Mothership. As passagens mais etéreas são feitas aproveitando dedilhados de guitarra, a exploração de efeitos de pedal e um teclado que aparece aqui e ali, nunca roubando a cena. E sempre carregam o som com a energia necessária para manterem-se instigantes como sempre.

Como já era de se esperar, o disco é paulada atrás de paulada, riff atrás de riff e solos animalescos que parecem brotar naturalmente de dentro da massa de overdrive dos instrumentos de corda. Até mesmo a jam instrumental “Sonntag”, a faixa mais calma, é deliciosa em sua condução rítmica e temperada com acid rock, desembocando finalmente na psicodélica e intensa “Thousand Hands”.

A dinâmica continua sendo uma das armas mais interessantes que o Elder tira da algibeira. Quando você acha que não dá para ter mais pressão no som, eles conseguem fazer tudo soar ainda mais épico ou mastodôntico (como certas passagens em “Staving Off Truth”).

O trio é formado pelos habilidosos Nicholas DiSalvo (vocal, guitarra e teclado), Jack Donovan (baixo) e Matt Couto (bateria). Dessa vez, no entanto, contaram com contribuições de Michael Samos (pedal steel, que dá o tom pinkfloydiano do trabalho) e Michael Risberg em uma segunda guitarra, que é chave para conseguirem elevar a dinâmica aos níveis épicos pelos quais Reflections Of A Floating World merece ser reconhecido.

As faixas são compostas de tantas partes boas que é necessário ouvir diversas vezes para começar a colocar os pedaços de música em ordem dentro da cabeça, aprendendo a organizar esse universo todo. Mas a primeira ouvida é impactante. Quem já conhece a banda de Boston sentirá que está diante de algo realmente grande neste quarto álbum. E quem não a conhece deverá cair a seus pés e perguntar: “por onde foi que vocês andaram esses anos todos que não estavam na minha playlist?”

Lore é para sempre um dos discos mais consistentes de stoner metal que já ouvi. Reflections é o stoner metal que expande seu próprio mundo, mostrando que o Elder olha para a frente e não entrega nem um minuto de música que fique abaixo do ótimo.

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