Mr. Big – Defying Gravity (2017)

Eles desafiam a gravidade com hard rock à moda antiga

Por Gabriel Sacramento

Existe entre os ouvintes de música algo que chamo de conservadorismo musical, que vem da ideia de conservar no sentido de colocar toda a confiança no que já está estabelecido e se opor a mudanças bruscas. Isso acontece basicamente quando um fã se apega ao que já foi feito na música e não é muito receptivo novas ideias e o que foge à regra. Não dá pra dizer que isso é algo típico da nossa era, pois sempre tivemos ouvintes com esse tipo de percepção por aí – prova disso você encontra aos montes com relatos sobre estilos musicais hoje aceitos, mas que quando nasceram sofreram forte repressão.

Muitos desses fãs também costumam endeusar os artistas/bandas que gostam – afinal são o sustentáculo ao qual eles se apegam firmemente – e parecem acreditar que eles não envelhecem e que tudo que eles lançarem, é, por via de regra, bom por benefício do retrospecto. Por exemplo, o AC/DC merece aplausos a cada novo lançamento, pois já fizeram um Back In Black uma vez na vida. Claro, isso é muito bom para as bandas e gravadoras, que continuam ganhando dinheiro, mesmo quando enfrentam fases ruins na carreira. Mas é uma forma um tanto acomodada de pensar: afinal, os novos álbuns não precisam nem ser analisados, já são tidos como bons se foram lançados pela banda (ou seria marca?) X ou Y.

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Pois é, mas as bandas envelhecem sim e às vezes perdem qualidade com o tempo. É natural e até humano que os grupos passem por momentos menos interessantes em termos artísticos, principalmente se já atingiram um auge algum dia. No campo do rock, onde a energia é fundamental, a idade e o peso da vida pode tirar um pouco da força do artista – e isso é normal. Acostume-se.

Quando o Mr. Big surgiu no final dos anos 80, a banda com certeza incomodava o pessoal que cresceu ouvindo The Who e Rolling Stones duas décadas antes, com sua fórmula precisamente fechada e bem específica de hard rock farofão versus baladas fofinhas – afinal, em tempos de MTV, quem tinha uma balada e um clipe era rei. Mas eles tinham um diferencial: todos os quatro músicos eram excelentes em seus postos. Eric Martin tinha um vocal agudo, potente e cheio de swing que servia bem para o rock e soava bem tanto no estúdio quanto ao vivo, tendo quase sido o vocalista do Van Halen no lugar de Sammy Hagar; Billy Sheehan era sensacional com seu baixo absurdamente agudo, distorcido e suas técnicas não convencionais no instrumento; Paul Gilbert também, com um domínio assombroso das seis cordas; e Pat Torpey, com a pegada e o groove necessário para sustentar o dinamismo das faixas provido pelos duelos baixo-guitarra. A interação das cordas era algo de outro mundo e a banda tinha uma irreverência jovial que ia das letras à atitude rock’n’roll.

Mas a banda envelheceu e hoje naturalmente não soa a mesma, embora eles tentem resgatar a vibe de outros verões. O novo disco, Defying Gravity, traz a banda depois do bom …The Stories Could Tell (2014), com o produtor Kevin Elson, que produziu os três primeiros álbuns do grupo. O disco foi gravado basicamente ao vivo. O objetivo foi retornar ao som dos primeiros registros e garantir a pegada do ao vivo. O disco abre com a ótima “Open Your Eyes”, com um som realmente mais cru e bem hard rock. Os versos intercalados com o riff principal farão os fãs lembrarem dos velhos tempos de Mr. Big (1989). Já o refrão é muito Actual Size (2001). Como sempre, é muito bom ouvir os riffs e fills de baixo-guitarra, em um entrosamento fantástico da dupla Billy e Paul. A intro da faixa título apresenta uma abordagem diferente da guitarra de Paul, duplicada e tocando uma melodia bem lúdica. É uma faixa admirável, que mostra a banda fugindo um pouco da mera repetição com ideias menos comuns.

Temos mais faixas boas, como “Mean To Me”, que foi inspirada em uma música da – pasmem! – Christina Aguilera. Gilbert gostou do groove de “What a Girl Wants” da loira e resolveu criar um riff parecido, que virou o principal da faixa e o que dá consistência à mesma. O monstro Billy Sheehan tocou seu baixo com incríveis quatro dedos nesta música para poder executar as notas rápidas com perfeição. Temos ainda um duelo entre ele e Gilbert, lembrando os velhos e bons tempos em que eram uma pequena banda surgindo das profundezas de Los Angeles. Em “1992” eles abraçam a nostalgia, relembrando o ano que eram os primeiros nas paradas com a faixa “To Be With You”. A faixa é um hard rock mais cadenciado com um refrão que parece ter sido escrito nos anos 80. “Be Kind” é blueseira até o osso, com sete minutos, que tem seus momentos mais açucarados e um final totalmente inesperado com a banda tocando um riff rápido e pesado, daqueles perfeitos para fechar um álbum – e um show.

O problema do álbum novo, no entanto, são as baladas e faixas mais românticas. “Damn I’m in Love Again”, “Nothin’ Bad (‘bout Feeling Good)” – que tem um refrão até legal – e “Forever And Back” são faixas nas quais a banda troca os riffs e fills rápidos por “aaaas”, “doooos” e coisas do tipo. Além de soarem como fillers, são nestas que percebemos o maior grau de fofurice e sacarose no disco, cumprindo a fórmula à risca. É uma pena estas faixas façam tantos gols contra Defying Gravity.

O disco todo foi gravado em seis dias e isso diz bastante acerca da pedra de sustentação do grupo – a dupla Billy e Paul. Junto com Matt Starr, que toca no lugar de Pat Torpey, que está impossibilitado de tocar em decorrência do mal de Parkinson, os caras gravaram arranjos cheios de vigor e fibra, mantendo a atenção enquanto joga em nossa cara doses de ânimo e energia. Um destaque especial merece ser feito à guitarra de Gilbert, que soa muito bem em termos de timbres e compõe riffs excelentes. Além disso, ele oferece novas ideias, inclusive experimentando com sua boa técnica de palhetada. O cara é sensacional, um dos melhores guitarristas da atualidade e só por estar em um disco, já vale a pena ouvir, na certeza de que pelo menos o som do instrumento irá compensar.

Depois de tantos anos, o Mr. Big mostra que ainda tem lenha pra queimar e rock’n’roll na veia. Mesmo com os momentos mais fraquinhos e diluídos, a banda ainda é boa e sabe aplicar bem as ideias e conceitos sonoros que marcam sua identidade. Podem ser considerados conservadores, se você preferir, o que mostra que guardaram a sete chaves as características idiossincráticas do início, para não perdê-las. Como já disse, estão mais velhos, não soam exatamente como antes, mas ainda soam cheios de vida e tentando ao máximo alcançar um nível de intensidade convincente. Defying Gravity é um disco de senhores dando conselhos aos jovens e celebrando os dias de antigamente quando tudo parecia melhor – pelo menos pra eles.

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HAIM – Something To Tell You (2017)

Sound City sem as carreiras de cocaína

Por Eder Albergoni

Imagine o pop de FM verdadeiramente conflitante, indo além de briguinhas de ego e declarações infantis de suas estrelas principais, sobre relações amorosas fracassadas ou amizades falsas e aproveitadoras. A óbvia contradição nos impede o exercício pleno. É preciso recorrer a referências mais antigas, algo que foge das notícias de fofoca em sites de internet. O pop em questão, que se fortalecia em quebrar padrões e subir a barrinha da relevância para marcas maiores que o clichê de fãs ensandecidas que não deixavam jovens ingleses com ridículos cortes de cabelo cantarem direito suas musiquinhas, tinha
roupagem rock, descolada e um representante perfeitamente estabelecido em nossa visão. Rumours, lançado pelo Fleetwood Mac em 1977, é nosso objeto de comparação, desejo e conflitos latentes.

Hoje já não é preciso chocar a sociedade profanando o sagrado com modelitos provocantes, nem conceber discos com letras censuradas por conter palavrões ou insinuações sexuais, e muito menos sofrer de uma doença que muda a cor da sua pele.
Bandas e artistas fizeram, ao longo do tempo, discos repletos de drogas, sexo e postura moralmente questionável, segundo certos preceitos adquiridos em momentos de conservadorismo mais evidentes. Mas isso tudo é chover no molhado. O pop em si era sinônimo de qualquer coisa abaixo da média estabelecida como padrão e geralmente tido como certificado de qualidade. O pop combatia isso. Primeiro contestando em sua vertente punk e aumentando o espectro da atitude rock’n’roll. Depois afirmando movimentos de contracultura e grupos de minorias. O Fleetwood Mac transitava por tudo isso, e mais ainda quando criou Rumours.

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Acontece que o pop se atualizou e existem tantas ramificações sonoras que é impossível classificar bandas, artistas e estilos em nomenclaturas, mesmo que isso as identifique como tais representantes daquilo que servem em seus cardápios musicais. Aquilo: passamos a consumir música. Estamos menos empenhados em sentir o que ouvimos, pra elencar a quantidade do que ouvimos. Só que certos momentos nos puxam de volta à história. A música como era nas entranhas, na pretensão de transcender a física e as leis
divinas, na emergência demorada de experimentar uma obra específica como se fosse o elemento necessário e único pra garantir a sobrevivência humana. Rumours era sobre altos e baixos da vida.

A gente já concluiu de régua passada que nada mais pode ser clássico, ou ter vida longa, nesse modelo de consumo onde discos são lançados de semana em semana como filmes que lotam salas ao redor do mundo tão somente pra bater recordes de bilheteria. Eis que um sopro, um frescor, uma fagulha, uma palma no meio da multidão, um grito na cara de qualquer imbecil nasce. Nós esperávamos, sabíamos de onde viria e… voilà! A expectativa bem-sucedida desses nossos tempos nos brinda com um disco que é muito mais que só outro bom lançamento totalmente substituível na semana que vem.

Something To Tell You tem 100% de Rumours em seu DNA. Recorre intimamente às soluções sonoras e tenta ao máximo reproduzir, não imitar, os feitos técnicos. O disco é a soma dos quatro anos de experiência desde Days Are Gone (2013) com a empreitada da produção dividida, aspecto que parece ter virado o mais usual no que de mais contemporâneo existe nesse ramo. É preciso lembrar o que o disco do Fleetwood Mac significou na história da produção sonora. Gravado em vários estúdios, mas finalizado no lendário Sound City, se tornou um marco e direcionou a arte pra novos rumos, ideias e soluções pra usar tecnologias emergentes.

Mas o componente mais importante nunca deixou de ser o conflito entre a banda e o mundo. Neste segundo álbum, as Haim mostram maturidade, palavra que não pode ser outra pra definir a relação com o presente, e fogem de qualquer coisa que as aproximem de seus pares. Nada em Something To Tell You é banal. Nem imprime  formas polêmicas com o intuito de criar interesse. Argumento nenhum é desperdiçado. Nenhum discurso é inflamado. E mesmo assim o disco desenha o tempo a que pertence, ainda que “Nothing’s Wrong” nos confirme a comparação descarada com Rumours.

A fórmula usada em Days Are Gone aparece como recurso, nunca como repetição. Há uma evolução muito clara, tanto no aspecto musical (ouça “Kept Me Crying”. Danielle Haim empunhando a guitarra nos faz pensar em coisas pouco ortodoxas e suscitar o profano sobre o sagrado), quanto no aspecto pessoal. Porque tudo parece bem resolvido, ensolarado e aparado, há uma alegria desconcertante em seus shows e apresentações, e nada disso parece pop o suficiente para ser estragado. A principal virtude de Something To Tell You é replicar conflitos atuais, mesmo que pareçam menos importantes, sobre a alma de um disco de 1977 e conseguir ser um disco livre e completamente independente de datas. Um disco de, e para, todos os tempos.

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Pó de Café Quarteto – Terra (2017)

O diálogo do jazz com a cultura caipira contemporânea

por brunochair

O Pó de Café Quarteto, grupo de jazz do interior paulista (Ribeirão Preto) que comemora dez anos de união em 2017, lançou recentemente o seu terceiro álbum da carreira, Terra. O disco é composto por nove músicas, sendo algumas delas releituras do cancioneiro popular sertanejo, como “Rei do Gado”, “Rio de Lágrimas”, “O Menino da Porteira” e “Tristeza do Jeca”. Os integrantes do grupo (Bruno Barbosa, no contrabaixo; Rubinho Antunes, no trompete; Duda Lazarini na bateria; Murilo Barbosa, no piano; e Marcelo Toledo, no saxofone) partem da ideia principal, do clima destas conhecidas músicas e as reelaboram, utilizando também a temática do jazz, mas não apenas no jazz.

Vale ressaltar que, nos dois discos anteriores, o Pó de Café Quarteto já se destacava por transitar nos diferentes gêneros musicais: samba, salsa, funk e outros ritmos latinos. E faz isso não como obrigação, mas como se estivesse no DNA de todos os músicos do grupo – ouvir e agir através de outros estilos, outros gêneros, novas formas de se fazer. O nível de pesquisa e comprometimento com a música contemporânea é notadamente sentido nos três álbuns. Porém, neste disco novo o tema caipira e sertanejo se faz muito mais presente do que os outros estilos citados.

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Terra apresenta (sim) essa identidade interiorana e caipira, mas já adaptado aos novos tempos. Não temos mais aquela inocência da vida no campo, nem tanto os causos de outrora, mas um ambiente um tanto hostil das grandes cidades. Essa transição campo/cidade é (ou foi) um tanto melancólica para quem esteve inserido nela, e provavelmente o Pó de Café Quarteto quis retratar um pouco desse sentimento em seus temas. A própria “Rei do Gado”, que abre o disco, parece trazer o relato do declínio desta figura mítica dos rincões brasileiros, que hoje não está condicionado mais a um símbolo de bravura ou virilidade: é apenas um homem de negócios, uma peça inserida no modo de produção capitalista. “Tristeza do Jeca” já contém na música original esta melancolia, e reproduzir (no tema) o fragmento mais conhecido da música já faz termos contato com essa perda, esse elo que não mais existe, esse banzo.

A interconexão entre jazz e música caipira é bastante notada, mas fica muito evidente na última canção do disco, “Caipira Coffee”. A presença da viola de Ricardo Matsuda abrilhanta e dá um novo corpo a ela, sendo uma participação mais que especial. Em “Terra”, faixa que dá nome ao álbum, a viola também aparece aqui e ali. E, por conta da viola ser um elemento tão rico e tradutor deste universo caipira, a impressão que temos é que o álbum poderia contar, tranquilamente, com outras músicas em que o instrumento fosse protagonista. O trabalho de percussão de Neto Braz também é relevante e enriquecedor.

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O jazz, oriundo lá dos Estados Unidos, ganhou proporções universais. Em cada canto do mundo, ele é reelaborado a partir da junção com tantos outros estilos musicais. No Brasil, a cultura caipira é um elemento rico em significações. Reunir estes dois estilos musicais e culturais é agradar aos ouvidos e sentimentos dos amantes de música, sem qualquer distinção étnica, de nacionalidade, de gênero ou credo. É dar sentido a arte e seus elementos. E, por conta desses fatores, o trabalho do Pó de Café Quarteto precisa ser elogiado, por representar esse diálogo, tão rico e fundamental no universo da música.

Portugal. The Man – Woodstock (2017)

Conservando elementos experimentais e psicodélicos, Woodstock marca a guinada mainstream do grupo

por brunochair

Se você acompanha as resenhas que escrevo para o Escuta Essa Review, sabe (ou tem uma impressão, pelo menos) de que gosto de contextualizar o gênero musical de um determinado artista/grupo. Não faço isso para delimitá-los, mas sim para facilitar na pesquisa do ouvinte de música, direcioná-lo para o conteúdo que pode interessar de imediato. Pois bem. Sempre que leio, internet afora, que o Portugal. The Man é um grupo de rock progressivo, todos os cabelos do meu corpo, da minha alma e os que eu perdi durante a caminhada da existência ficam arrepiados. Ainda que o grupo contenha a sua pitada de experimentalismo e psicodelia, nunca alcançou um status de progressivo em sua carreira musical.

O Portugal. The Man, banda oriunda do Alasca (EUA), está mais para o terreno do indie pop. O que os diferencia dos demais grupos do gênero é a sonoridade experimental e psicodélica alcançada através de elementos eletrônicos. É o toque de estranheza e curiosidade que atrai o ouvinte para a discografia deles. Em Woodstock, o grupo continua apostando nessa junção de instrumentos com os elementos eletrônicos. Porém, neste disco novo a aposta do grupo foi em desenvolver uma sonoridade bastante mainstream, um pop massivo que conseguisse abarcar uma enorme quantidade de consumidores.

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Se esta resenha tivesse sido escrita há algumas semanas, teríamos dito que a aposta foi essa: continuar soando indie pop (experimental e com presença de elementos eletrônicos) com a intenção de soar massivo. Mas o disco já ganhou o rumo das rádios e do YouTube, e bombou. “Feel it Still” tem quase 30 milhões de audições no Spotify. Já pude ouvir a música tocar nas rádios da minha cidade (Bauru) algumas vezes, inclusive a partir de pedido do público. Ou seja, o grupo atingiu o seu objetivo, e o single citado já disputa espaço com artistas como Ed Sheeran, Calvin Harris e o single “Despacito”, de Luis Fonsi.

Outras canções do disco possuem chance de também alcançar o status de singles radiofônicos. É o caso de “Easy Tiger”, “Rich Friends”, “Keep On”, “Tidal Wave” (inspiração em Magic!). Outras canções do disco não tem o mesmo potencial, ainda estão no terreno do alternativo, mas certamente o ouvinte de rádio (essa pessoa que imaginamos existir) se ela procurar ouvir o disco de ponta a ponta não terá problemas em entender a linguagem do Portugal. The Man. As músicas são descoladas, os temas e títulos de música simples e (em boa parte) descontraídos.

Para quem conhece a banda há mais tempo, talvez essa guinada mainstream tenha impressionado. No entanto, caso esse mesmo fã (ou ouvinte) da banda analise o percurso do grupo sem tanta paixão, verá que o caminho para o pop das massas era algo possível. Inevitável? Obviamente que sim. O que importa é que o Portugal. The Man conseguiu desenvolver esse pop massivo sem perder suas características experimentais e psicodélicas. Apenas subverteu ao mercado. Como não nos cabe fazer aqui juízos de valor e apenas apontar a direção que tomaram, eis o caminho tomado. Ouça, e faça seu próprio julgamento.

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Japanese Breakfast – Soft Sounds From Another Planet (2017)

O synthpop garageiro de Michelle Zauner fica ainda mais legal

Por Lucas Scaliza

De todas as coisas que deixamos passar em 2016 (como o lindo Kodama do Alcest, um disco da Emma Ruth Rundle, e muito do que rola no Instagram do Escuta Essa Review), com certeza me arrependo de não ter falado de Psychopomp, a estreia de Michelle Zauner solo, sob a alcunha de Japanese Breakfast. Ela deixa o emo do Little Big League para lá e abraça um som que fica entre o “deixa-que-eu-mesma-faço-minhas-coisas” de uma Courtney Barnett e a produção indie pop cheia de teclados do Little Dragon (que é uma banda sueca liderada por uma descendente de japoneses, e apesar do nome do projete, Zauner descende de coreanos).

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O caso é que Psychopomp é uma gracinha de disco, suave como um synthpop e com atitude roqueira. Faixas curtas que se entrelaçam muito bem e fazem o álbum soar quase como uma única peça musical. Soft Sounds From Another Planet segue a mesma receita, mas melhor e mais exploratório. “Diving Woman” já abre o álbum com quase tudo o que ela tem: uma interpretação vocal emocional, mas não dramática, solo de guitarra noiser, teclados estranhos, linha de baixo contagiante. E nada forçado, tudo descendo pelos tímpanos com naturalidade.

Embora o estilo sonoro seja o mesmo do álbum anterior, fica evidente a melhora na qualidade de gravação e mixagem. Em diversos momentos de Psychopomp parecia que a voz de Michelle Zauner estava “descolada” da música, como uma cena em que a cena entre um ator e um fundo de chroma key parece mal recortada. Havia até um charme meio indie, meio punk nisso, mas agora está devidamente corrigido.

Músicas como os singles “Boysh” e “Road Home” (que tem um ótimo clipe, aliás) definem muito bem quem é e como é o Japanese Breakfast. Música levemente new wave, com melodias e melífluas e aquela doçura que é misto de melancolia e fofura indie. Já “Machinist” e “Planetary Ambience” carregam a artista um pouco mais para o território da música eletrônica. Já “12 Steps” volta a mostrar sua veia mais relaxada e roqueirinha. E lá no fim do álbum ela fica bastante sentimental com a beleza clean de “Till Death” e o folk árido de “This House”.

Ela não perde a mão – e nem a vibe – em momento algum, expandindo a gama de sonoridades que já estavam no disco do ano passado. O que já era bom, ficou ainda mais legal em SSFAP. Embora rico em sons e ambiências, não é um disco que parece distante do ouvinte, como a jornada espacial-folk-experimental de Sufjan Stevens e tchurminha no recém-lançado Planetarium. É como se Michelle Zauner, cantando com o despojo de “Body Is A Blade”, fosse sua amiga. Ela te entende e espera que você também veja a sinceridade de sua melancolia good vibes.

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Lindsey Buckingham & Christine McVie -Lindsey Buckingham Christine McVie (2017)

Gravado pelo Fleetwood Mac, mas não é Fleetwood Mac

Por Gabriel Sacramento

Poucas bandas conseguiram uma proeza tão notável quanto o Fleetwood Mac em seus dias mais gloriosos: explorar a fronteira – se é que realmente existe – entre o pop e o rock, em uma época que a referência de pop era o ABBA e a referência de rock, o Led Zeppelin. O grupo parece ter a fórmula para canções irresistíveis e enxutas no seu esqueleto, sendo merecidamente uma das bandas mais importantes da história.

O disco em pauta neste texto foi gravado por 4/5 do Fleetwood Mac atual, mas saiu como uma parceria do vocalista/guitarrista Lindsey Buckingham e Christine McVie – que lembra muito a ideia da parceria Buckingham Nicks, do guitarrista com a outra voz feminina famosa do grupo antes de ingressarem na banda. Buckingham e McVie eram membros ativos e importantes compositores do Mac, que juntos já eternizaram hits como “Don’t Stop”, do Rumors (1977). Lindsey Buckinham Christine McVie marca a volta da cooperação criativa dos dois, depois de um tempo separados. Também é o primeiro disco de inéditas da galera toda junta, menos a Stevie Nicks, em anos.

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Como o disco foi gravado pela mesmíssima cozinha rítmica/harmônica e parte das vozes do Fleetwood Mac, é quase impossível que não soe realmente como algo que o grupo faria. Aqui a leveza sônica joga a favor do grupo em canções como “On With the Show”, cantada pelo Buckingham. A faixa é bem tranquila e caracterizada pela marcação pontual dos acordes pelo baixo. A contemplativa “Carnaval Begin” é uma canção que mesmo despida de maquiagem e excessos, soa completa e bela. O teclado de Christine chama a atenção pelas melodias que servem completamente à música e ainda conversam bem com parte rítmica. O dedilhado típico e singular de Buckingham rouba a cena em “Love is Here To Stay”, uma canção bem simples também e igualmente bela. “Too Far Gone” tem uma veia mais roqueira, com um jogo sensacional de vozes e a bateria sendo usada como recurso criativo, diferente da função típica de marcação de ritmo, como o Mick Fleetwood já tinha feito em ocasiões como na clássica “Go Your Own Way”, de 1977. Temos três faixas especiais com cara de hit: “Sleeping Around the Corner” – com um refrão chiclete e um instrumental ousado -, a tropical “Feel About You”, com suas influências de doo-wop e “In My World”, com um arranjo sofisticado e refrão inesquecível, que parece alguma coisa criada originalmente para o ABBA.

Quando perguntado sobre suas influências musicais e seu estilo de tocar, Buckingham afirmou que não gosta do estilo de Eddie Van Halen, por exemplo, pois prefere guitarristas que toquem para a música e não somente para se destacarem individualmente. Essa visão com certeza guiou o músico na sua carreira e o levou a desenvolver essa fórmula de criar e produzir hits, em que todas as partes cooperam decisivamente para um todo forte. O resultado são faixas imbatíveis em termos de sensibilidade e apelo pop, mas não soando necessariamente descartável para ouvintes mais exigentes. Outra banda que também dominou esse modus operandi foi o Steely Dan, por exemplo.

Seu novo disco com a McVie segue esse modus. Como sempre, sobra capacidade de entrar e sair pelo rock e pop, com foco na força das faixas, no quanto soam agradáveis e marcantes para o ouvinte médio/fácil, sem se preocupar em se prender a gêneros ou idéias padronizadas. Um álbum que proporciona uma tranquila viagem pelo mundo das ideias sonoras, cheia de conforto e segurança. Esse disco vai te fazer querer ouvir Fleetwood Mac de novo e respeitar ainda mais esse grupo sensacional, que é tão seminal para a música pop.

E fica cada vez mais fácil acreditar que quando esse pessoal se junta não tem como sair algo ruim.

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Jay-Z – 4:44 (2017)

Rapper mostra lado mais vulnerável e faz hip hop com samples de rock progressivo e balanço

Por Lucas Scaliza

Um disco novo do poderoso Jay-Z, originado de uma polêmica marital lançada pela poderosa esposa, Beyoncé, em seu Lemonade, só poderia chegar carregado de significados e pretensões. A começar pelo título. Capítulo 4, versículo 44? De que livro? De qual evangelho? O Evangelho segundo Shawn Corey Carter? Pode muito bem ser a sua versão dos fatos, embora a história “oficial” diga que o rapper acordou um dia às 4h44 e escreveu a faixa-título do disco e depois gravou os vocais em casa mesmo, usando o microfone da esposa.

Embora faça referências suficientes ao Lemonade para ser considerado um álbum de resposta, 4:44 acaba falando de outros assuntos que não tem a ver com a dinâmica do casamento. Porém, sabemos que um disco de Jay-Z levaria algum tempo para ficar pronto e contaria com um time de produtores e participações. Mas 4:44 foi feito de uma forma mais despojada, contando apenas com o bom trabalho do produtor No I.D. e produção adicional do próprio Z. Ou seja: é um disco feito para ser a contraparte de Lemonade. Caso o disco que Beyoncé lançou em 2016 não existisse, aposto que o novo de Jay-Z seria uma besta completamente diferente.

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Não são os 36 minutos de música mais inspirados que o rapper já produziu, mas é interessante mesmo assim. Para começar, ele confia demais em samples, mesmo o hip hop dos últimos anos tendo se distanciado dessa fórmula (Kanye West é uma exceção). Daí temos dois samples de Nina Simone (em “The Story of O. J.” e “Caught Their Eyes”), Steve Wonder (em “Smile”), Funk Inc. e Sister Nancy, entre outros. Já as participações especiais de vulto se resumem a Damian Marley, Frank Ocean e a esposa.

A princípio, No I.D. recusou o trabalho com Jay-Z dizendo que não tinha boas ideias para contribuir. Mas acabou encontrando inspiração em discos importantes de Marvin Gaye, Nas, Kanye West e o próprio clássico The Blueprint, de Jay-Z. Daí então um novo senso de hip-hop floresceu e, de fato, a maior contribuição de 4:44 para o estilo neste momento é utilizar o swing para um hip-hop que soe tanto alternativo, com boas levadas quebradinhas (“Caught Their Eyes”, “The Story Of O. J.” e a ótima “Legacy”), batidas profundas e suaves (“Smile”) e boas construções de harmonia (“Kill Jay Z”), como também dançante e cheio de balanço (“Marcy Me” e “4:44”). O álbum também vai e volta no tempo, ora nos dando texturas modernosas, ora nos jogando ao passado reinterpretado pelo hip hop way. Samples de instrumentos de sopro também aparecem aqui e acolá para dar uma mexida nas coisas e entregar uma textura ainda mais diferenciada do que o rap de 2017 já viu.

Uma das inspirações de No I.D. foi justamente o ambicioso My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010), de West. E assim como West abriu o disco com uma canção que sampleava a banda de inglesa de rock progressivo King Crimson (um tanto obscura para o público de hip hop americano), 4:44 se utiliza da obra do grupo de música experimental e progressiva Alan Parsons Project (na faixa inicial do disco) e pedacinhos da música “Todo o Mundo e Ninguém”, do grupo de rock progressivo português Quarteto 1111 (em “Marcy Me”, outra das melhores do álbum).

Talvez seja um dos discos mais pessoais de Jay-Z. Falar sobre família, assumir erros e dizer que pretende se acertar na vida publicamente não é para todos, mas nem de longe é algo que só ele faz. A história da música está cheia de álbuns reveladores e íntimos, só não tínhamos visto Jay-Z ainda sob uma lupa tão apurada (e dá-lhe Lemonade mais uma vez, que é essa lupa no final das contas). Ainda assim, é um passo à frente para ele como homem, marido, pai e músico. 4:44 não é o seu melhor trabalho, mas deixa boas faixas, ideias e novas referências na discografia.

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