Jimi Hendrix – Are You Experienced faz 50 anos

50 anos da explosão cósmico-psicodélica que gerou o Jimi Hendrix Experience (e mudou o blues rock)

Por Gabriel Sacramento

Jimi Hendrix era um guitarrista tentando ganhar a vida com r&b nos Estados Unidos na década de 60. Seu talento já era notável, mas ainda não tinha chamado a atenção de ninguém. Isso mudaria quando Linda Keith, namorada do Keith Richard, viu Jimi empunhar sua guitarra em uma apresentação, ficou surpresa e começou a recomendá-lo. O primeiro interessado foi o ex-baixista do The Animals, Chas Chandler, que decidiu montar um grupo para Hendrix na inglaterra e então gravar um disco. Chandler chamou Mitch Michell para a bateria e Noel Redding (que era guitarrista) para tocar baixo. O trio lançou “Hey Joe” e “Purple Haze” como os primeiros singles. “Hey Joe”, inclusive, foi uma das primeiras que Chas ouviu do trio e pesou significativamente na decisão dele de empresariá-los.

O álbum começou a ser gravado em outubro de 66, passando por dezesseis sessões em três estúdios diferentes de Londres: De Lane Lea Studios, CBS e Olympic. O trio passou mais tempo neste último pois, segundo Chandler, era acusticamente melhor e tinha um equipamento melhor. Are You Experienced é caracterizado por muito uso de overdubs, principalmente nos vocais de Jimi, que não era muito confiante quanto às suas habilidades para cantar. O disco também possui diferentes estilos de mixagem das faixas e timbres dos instrumentos. O estilo de mix varia, por exemplo, em algumas faixas: em algumas músicas, o vocal está voltado para um dos lados; em outras, a sensação é de que tudo se encontra centralizado na mesma região, para gerar o som ruidoso característico.

Como na teoria cósmica do Big Bang, que afirma que a energia se uniu em um único lugar e deu origem à algo enorme e complexo como o universo, Are You Experienced também foi uma explosão. Uma explosão psicodélica, roqueira e intensa que deu origem ao blues rock mais pesado com uma ênfase maior na guitarra e ao reconhecimento do trio Hendrix-Mitchell-Redding. O blues rock já existia, é verdade. Muitos atribuem o nascimento do estilo ao álbum Blues Breakers With Eric Clapton do John Mayall, lançado no ano anterior. Mas mesmo assim, a versão mais efervescente do estilo, guitarreira, garageira e cheia de efeitos começaria com Hendrix e com Are You Experienced, influenciando diversos outros guitarristas de diferentes gerações como Jeff Beck, Richie Kotzen, Gary Moore, Robin Trower, o próprio Clapton, entre outros.

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O ÁLBUM

“Foxy Lady” foi gravada em uma sessão, com exceção de alguns overdubs. A canção começa energética, com o vocal do Jimi de um lado só na mix e a porradaria instrumental centralizada. A lisérgica faixa-título se destaca por seus efeitos e técnicas, que até lembram um pouco as que os Beatles usaram em Revolver. Dentre as faixas mais famosas, temos um dos riffs mais icônicos do rock em “Purple Haze”, com uma verdadeira explosão roqueira psicodélica e a voz do Hendrix do lado direito da mix.

Mesmo sendo cantada de uma forma até rústica, as melodias são marcantes, bem como o domínio guitarrístico do músico. Em “Third Stone From The Sun”, eles resolveram brincar com bateria de jazz e frases jazzistícas de guitarra a la Wes Montgomery. É uma das canções que destacam o lado técnico do guitarrista e sua versatilidade. A faixa é bem longa e possui várias variações no meio, onde a lisergia e a psicodelia tomam conta.

“Stone Free” é aquele blues rock empolgante, arrasa-quarteirão, com um refrão inconfundível. Em uma das performances mais legais do álbum, Mitch Michell ganha espaço e brilha em “Fire”, que também se destaca pelo seu refrão bem pra cima, com vocais de fundo e um delicioso walking-bass. A balada “The Wind Cries Mary” foi a primeira balada gravada para o álbum. É bem envolvente e fala sobre uma discussão que Hendrix teve com sua namorada, de nome Mary. O blues “Red House” foi gravado com duas guitarras e uma bateria, com uma das guitarras fazendo base na região mais grave para suprir a falta do baixo. E é quase impossível falar de Jimi Hendrix e de Are You Experienced sem citar “Hey Joe”, canção cover que ficou super famosa, mezzo folk, mezzo soul, sem refrão e com uma letra bem marcante: conta a história do personagem Joe, que atirou na esposa porque estava traindo ele e agora tem de fugir para o México para se safar. A letra traz um diálogo entre Hendrix e Joe.

Are You Experienced parece mais uma coletânea do que um simples álbum. As canções se tornaram clássicos do rock e mostraram ao mundo que o trio tinha um potencial incrível. O álbum brilha mesmo com a sonoridade abafada e os timbres sujos, pois toda a energia e aspecto roqueiro provém das mãos afiadas dos três músicos, que juntos soam mais barulhentos que muita banda completa por aí.

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LEGADO
O primeiro álbum do Jimi Hendrix Experience é até hoje cultuado como um dos maiores álbuns do rock. A revista Mojo elegeu o disco como o principal álbum de guitarra de todos os tempos. A Rolling Stone também classificou o álbum como décimo quinto na lista dos 500 maiores de todos os tempos e várias faixas como algumas das maiores canções de todos os tempos. Muitos jornalistas afirmam categoricamente: O álbum é um dos definitivos da era psicodélica.

Vale lembrar também de todo o reconhecimento da comunidade guitarrística ao redor do mundo, Are You Experienced é um dos álbuns usados como prova em muitas discussões para afirmar que Jimi Hendrix foi o maior guitarrista vivo. O jeito como o músico abordou a guitarra, com toda aquela excentricidade e criatividade, mudou a forma como as pessoas olhariam para o instrumento e deu uma nova função para as seis cordas dentro do rock.

O guitarrista Gary Moore foi um dos grandes influenciados pelo Hendrix, e demonstrou isso quando gravou o álbum Blues For Jimi em 2012. Um álbum ao vivo com as faixas mais famosas do Hendrix sendo executadas com uma timbragem moderna, mas uma abordagem perfeitamente fiel ao original. A homenagem do Moore só mostra o quão importante Jimi Hendrix foi na vida de muitos cidadãos comuns que um dia optaram por fazer da guitarra o instrumento da suas vidas. Assim também foi em 1993, quando um grupo de famosos músicos como Jeff Beck, Nile Rodgers, Eric Clapton, Buddy Guy, Slash e bandas como The Cure e Living Colour gravaram um tributo ao Hendrix, refazendo suas músicas. O nome do álbum é Stone Free: A Tribute to Jimi Hendrix e demonstra o quão amplo foi o campo de influência do guitarrista dentro da música popular, indo além dos aficionados por guitarra.

Mesmo depois de meio século, ouvir Are You Experienced ainda é uma experiência recompensadora. Quem estiver descobrindo o Hendrix agora, ainda pode se maravilhar com a fórmula sonora tresloucada que não se prende à nenhuma fórmula e que se manifesta através de uma viagem de sensações e sentimentos, quase espiritual, guiada por um cara que, em seus dias mais normais, curtia quebrar guitarras e atear fogo nelas. Poucos álbuns reforçam tanto esse aspecto imorredouro do rock como Are You Experienced: ele encontrou renovação em si mesmo ao longo dos anos e continua relevante.

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Are You Experienced foi só o começo. Depois dele, Hendrix ainda gravaria mais dois de estúdio e um ao vivo com a Band of Gypsys, onde reafirmaria o seu nome e seria de fato consagrado ao posto de um dos mais influentes guitarristas de todos os tempos. Aliás, era de se esperar, depois de uma estreia como esta, o sucesso absoluto era só uma questão de tempo.

Strand Of Oaks – Hard Love (2017)

O carisma do indie, o combustível do hard rock clássico e influência de LSD

Por Lucas Scaliza

Um pouco de folk rock nas levadas. Mas soam como hard rock, porque ele usa guitarras com uma boa dose de distorção e fuzz. E mesmo sendo o bom e velho rock’n’roll de sempre, há algo de moderno no som. Não chega a assustar, mas pode incomodar. Hard Love, do Strand Of Oaks, o quinto disco composto pelo músico Timothy Showalter, é definitivamente um registro que não pode passar desapercebido.

“Hard Love”, que introduz o álbum, bebe na fonte de Ryan Adams e não mostra a sonzeira que vem a seguir. “Radio Kids” e “Everything” resumem o que ele é capaz de fazer. Você não vai perceber nada de muito diferente de outras canções de rock que ouviu nos últimos 10 anos, principalmente se deu uma boa rodada entre o que há de indie e psicodélico à disposição, mas vai gostar. E conforme o disco avança, vai perceber que está totalmente tomado ou tomada pela energia de suas batidas e pela barulheira de sua guitarra. O fuzz exagerado em “Salt Brothers” vai soar fora de lugar, mas como uma ótima ideia ainda assim. O psicodelismo de “On The Hill” te pega desprevenido e então você exclama: “Uau, que puta som!”.

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É verdade que “Cry” interrompe o poderio de fogo do Strand Of Oaks e que “Quit It” poderia ser uma faixa melhor, mas cumprem seu papel de tentar equilibrar o álbum pisando um pouco no freio e trazer interferências que não são musicais ao trabalho. Paciência. Todo mundo pisa na bola, até o Pink Floyd e o Iron Maiden. Mas desculpe a bagunça e não desista de Showalter ainda. O importante é que ele percebe o que fez e já manda “Rest Of It” para recuperar nossa fé em Hard Love. Faixa bem colegial e com um solo daqueles que te faz lembrar (caso tenha idade para isso) do Marty McFly em De Volta Para o Futuro (fato recentemente relembrado pelo Gabriel Sacramento neste podcast).

E o melhor fica para o final. Voz mais rouca, ritmo menos alucinado e paisagem sonora lisérgica fazem de “Taking Acid and Talking to My Brother” o grand finale espetacular em que os grandes vencedores são o rock e o som do pedal de fuzz.

Se não ouviu falar de Strand Of Oaks, é uma boa começar com Hard Love, seguir para Heal (2014) e assim conhecer o que Showalter tem a oferecer. Se já viu o nome dele por aí, dê o play. O disco interpola o folk com o rock psicodélico, constrói algumas de suas canções com o carisma do indie e com o combustível do hard rock clássico. É ótimo.

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Warrant – Louder Harder Faster (2017)

Festança rock’n’roll oitentista, divertida e irreverente

Por Gabriel Sacramento

Ouvindo este disco pode não parecer, mas o Warrant não é uma banda nova. O grupo nasceu na cena do glam rock de Los Angeles dos anos 80, onde surgiram grupos megafamosos como o Poison, Motley Crue e o Guns N’ Roses. Mas depois de tantos anos de atividade, a banda soa totalmente rejuvenescida, cheia de fôlego e energia roqueira de uma forma impressionante. Se comparada com bandas novas que gostam de resgatar essa vibe anos 80 como Danko Jones e Airboune, o Warrant não soa muito diferente, pois não dá sinais de rugas e nem de fraqueza no esqueleto.

Mas são mais de 30 anos de carreira e ao mesmo tempo em que soa como uma banda nova, soa também como um grupo maduro que sabe bem o que faz e como chegar precisamente ao resultado desejado. A direção é bem definida e o objetivo alcançado com louvor. Foi assim com o ótimo Rockaholic (2011) – primeiro álbum com os vocais de Robert Mason, que fez um bom trabalho como vocalista do Lynch Mob – e está sendo com Louder Harder Faster, novo trabalho do quinteto de LA.

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O disco possui a identidade do glam dos Estados Unidos oitentista. Riffs pesados, vocais agressivos, baladas que surgem para aliviar o tracklist. Em LHD, temos ainda mais músicas mais orientadas aos vocais do que às guitarras, com grandes melodias e ganchos que ficarão na sua cabeça por muito tempo. “Devil Dancer” chama a atenção pelo seu riff principal e sua cadência, mas o principal é o refrão, bem marcante. “New Rebellion” é o tipo de faixa que resgata o hard rock oitentista, mas também traz um quê do heavy metal que bandas como o Accept têm feito atualmente. “Only Broken Heart” é marcada por uma guitarra melódica no início e melodias vocais proeminentes no desenrolar da faixa. É bem estruturada, bem dividida e o refrão ganha ênfase. “U in My Life” cumpre a função da balada obrigatória com violão. A banda consegue manter o equilíbrio e não cai no excesso de açúcar que às vezes acomete este tipo de composição.

LHD foi produzido pelo ex-DIO Jeff Pilson, que soube bem explorar as facetas mais interessantes e obter um resultado consistente. Dá ênfase maior aos vocais, deixando muitas vezes as guitarras em segundo plano, sendo difícil acreditar que realmente existam duas guitarras em vários momentos. O timbre das distorções, mais polido e abafado, também é um pouco diferente do usado em Rockaholic. Joey Allen e Erik Turner estão bem entrosados e ambos trabalham juntos para que as guitarras soem coesas e harmonizadas. Já Jerry Dixon se destaca no baixo, colocando boas notas no meio da porradaria e chefiando bem a cozinha. O vocalista Robert Mason se destaca também, cantando mais melodias e gritando nos momentos certos, acrescentando o que as faixas precisam.

Além de soar jovens e experientes ao mesmo tempo, o Warrant consegue manter a empolgação do ouvinte todo o tempo. A banda nos convida para a festa de celebração dos anos 80, da irreverência, diversão e rock’n’roll e não nos deixa na mão em nenhum momento. LHD são 42 minutos de pura adrenalina e disposição e até os momentos de alívio são usados estrategicamente para dinamizar e ganhar nossa atenção para o que vem a seguir. Mesmo nos levando a uma Los Angeles perigosa de 30 anos atrás, o quinteto não soa totalmente datado, pois há um frescor de novidade, algo do século XXI enrustido no som. Som esse que inclusive pode sair de LA e visitar outras quebradas, sem problemas.

Prepare-se para ouvir um som pesado do bom, puro e feito com honestidade por caras que conhecem bem e dominam essa linguagem musical. Prepare-se também para se perder cantando os refrões e as melodias. Arraste os móveis da sala e balance ao som mais alto, mais pesado e mais rápido rock’n’roll do Warrant.

Harry Styles – Harry Styles (2017)

Em carreira solo, Harry Styles mostra versatilidade, entrega e surpreende com folk, rock e country

Por Lucas Scaliza

Este é o ano de Harry Styles. Vai fazer sua estreia no cinema como ator em Dunkirk, drama de Segunda Guerra do diretor Christopher Nolan e já liberou Harry Styles, seu primeiro álbum solo, o primeiro com suas criações fora do famoso grupo que o revelou, One Direction. A princípio, como ocorrera com Zayn Malik (o primeiro integrante da boyband inglesa a deixar a trupe e sair em carreira solo), esperávamos que ele seguisse a moda do mercado fonográfico e fizesse um disco pop raso. Mas quando “Sign Of The Times” aportou em nossos ouvidos, fomos surpreendidos por um cantor que fazia, sim, uma balada rock segura, nada inventiva, mas com muito bom gosto, orgânica e emocionante. Ao aparecer cantando a faixa ao vivo, tive a certeza de que estava diante de um cantor de verdade que estava utilizando a possibilidade da carreira solo para fazer honesto e pessoal, não apenas uma continuação do que vinha fazendo na boyband, vigiado de perto demais pela gravadora, pelo empresário e pelos produtores.

E Harry Styles é um ótimo disco. Não está preocupado em criar sons novos e nem em desconstruir o pop ou a imagem que Styles já tinha no 1D. Ele continua sendo um bom garoto, carismático e bonito. Mas trocou os três companheiros de palco por uma banda que é tão importante no palco quanto ele e se permitiu brincar com diversos tipos de pop, do mais roqueiro ao acústico, passando pelo country e folk e nunca apostando no eletrônico (o que também contrariou várias previsões). E ainda faz uma referência a Johnny Cash a fazer uma música sobre cocaína (“Carolina”, uma das melhores do disco) e manda muito bem em uma faixa sensual (“Woman”).

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O disco já abre com “Meet Me In The Hallway”, uma balada tranquila, com um vocal de versos até meio viajante, uma excelente linha de violão, baixo melódico (tocado por Ryan Nasci) e omnichord discretamente construindo um clima de sonho tocado pelo próprio cantor. Para um astro do pop, não seria a música mais indicada para se iniciar um disco. É por essa e por outras que Harry Styles desponta como uma promessa. Mas tem muito mais para ouvirmos no disco. A emoção de “Sign Of The Times” só aumenta ao sabermos que foi escrita do ponto de vista de uma mãe que acaba de dar a luz e não vai sobreviver.

O segundo single do álbum, a singela “Sweet Creature”, é acústica, sem percussão e com ótimos vocais de fundo que entregam um aspecto mais etéreo a faixa. E tudo bem se o refrão de “Ever Since New York” ficar grudado em sua cabeça por dias. É uma ótima faixa que também deixa emergir o trabalho vocal de Styles como mais um arranjo da canção.

Há uma boa variedade de gêneros musicais presentes em Harry Styles e ele nunca parece ansioso. As músicas têm qualidades de sobra pelo que são e também não estão repletas de arranjos que, na mão de artistas e produtores mais inseguros, serviriam para preencher as lacunas criativas das faixas. Por isso, pelo menos para mim, fica claro que há qualidades em Harry Styles que me levam direto a David Bowie. Os deliciosos rocks “Only Angel” e “Kiwi” coroam esse paralelo com o camaleão inglês, mas ao longo do disco todo Styles se mostra versátil e dotado de um feeling raro. Se o carisma já era conhecido desde o 1D, essa boa mão e ouvido para canções só veio a público agora. Claro que é cedo demais para dizer que Harry Styles é um novo David Bowie ou segue seus passos, mas o álbum certamente deixa pistas disso. A entrega e a consciência de como abordar cada composição é algo que realmente se destaca no disco e que também era uma das marcas de Bowie.

Aliás, seja sozinho, em dupla ou em grupo, todas as 10 músicas do disco tiveram a mão de Styles na composição. Jeff Bhasker (Kanye West, Rihanna, Ed Sheeran, Mark Ronson, Jay-Z) é o principal produtor e parceiro de composição no trabalho, que inclusive cedeu o estúdio de sua casa na Califórnia para boa parte das gravações.

Pode não ser uma ruptura total com o que fazia no 1D, mas já é um enorme passo a frente da boyband, sem dúvida. Embora a marca One Direction seja enorme, Harry Styles mostra que seu talento solo é, artisticamente falando, mais amplo, exploratório e maduro do que é permitido a uma boyband demonstrar. Assim, Styles se firma não apenas como um grande cantor com futuro, mas também como alguém para se ficar de olho. Desde já, uma das melhores surpresas de 2017.

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Fleet Foxes – Crack-Up (2017)

A terceira ramificação

por brunochair

O quanto um reconhecimento artístico massivo pode causar de dor e delícia em alguém, apenas os artistas de grande renome podem dizer. Nós, aqui do anonimato, espectadores do triunfo e da decadência, podemos apenas imaginar alguns dos possíveis efeitos. Senti-los? Não há realidade virtual que possa abarcar tamanha experiência, feita do suor dos poros e da carne.

Robin Pecknold, vocalista e compositor do Fleet Foxes, viu a sua trupe experimentar o sucesso de uma forma bastante abrupta. Logo no disco de homônimo de estreia, Fleet Foxes (2008) a banda viu surgir ao redor de si uma legião de fãs, ser convidada a tocar em grandes festivais pelo mundo afora. Todos os integrantes, jovens aprendizes em matéria de mundo, tiveram que lidar com essa nova realidade. Realidade esta que implica em conhecer a si e aos outros com uma certa rudeza, sem os rodeios que a vida comum às vezes nos proporciona. “Você precisa ser emocionalmente estável, você precisa estar confiante, você precisa ser diplomático”, disse Pecknold em uma entrevista.

Para Helpless Blues (2011) não houve o tempo de maturação necessário. A loucura do showbizz ainda aturdia e não centrava os integrantes. Para que esse processo fosse integralmente preenchido, foram precisos ao menos cinco anos, tempo este que os integrantes puderam olhar mais para dentro, enxergar o que não estava bem, aparar arestas que ficaram pelo caminho. Josh Tillman, agora ex-baterista do Fleet Foxes, preferiu seguir o seu próprio caminho solo como Father John Misty; Skyler Skjelset envolveu-se em outros projetos musicais; Robin Pecknold preferiu surfar e voltar a estudar.

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Fleet Foxes : no centro, Robin Pecknold; à direita dele, Skyler Skjelset

Após seis anos de hiato, temos os principais integrantes já na faixa dos 30 anos – um pouco mais donos de si, um pouco mais sabedores do que fazer e não fazer. E assim surge Crack-Up, disco que marca o retorno do Fleet Foxes. As letras do disco, todas compostas por Robin Pecknold, não mostram o processo final dessa caminhada, e sim ressalta o penoso caminho para se chegar até onde hoje se está. Privilegia-se a caminhada, os espinhos, os insucessos, os problemas de relacionamento, a penúria. Está tudo ali realçado, reelaborado em metáforas. As palavras procuram transmitir, pelo menos em parte, o que se sente.

A sonoridade também é explorada para transmitir estes sentimentos. O que notamos são grandes gangorras, um sobe-e-desce entre sussurros e plena exaltação. “I Am All That I Need/ Arroyo Seco/ Thumbprint Scar”, a primeira canção do álbum, é exemplo pontual deste processo. “Third Of May/ Odaigahara”, que já havia sido lançado em single e que trata da relação humana (pautada por conflito e afeto) entre os integrantes Robin Pecknold e Skyler Skjelset, é outro grande exemplo.

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O Fleet Foxes tornou-se uma banda conhecida por desenvolver uma estética sonora bastante peculiar, juntando elementos do folk, do pop e criando uma esfera um pouco passadista. Ouvir Fleet Foxes é uma experiência singular, única. E em Crack-Up o grupo permanece fiel a essa identidade sonora única, mas ao mesmo tempo consegue criar, a partir dela, uma terceira ramificação. Fleet Foxes foi um álbum ingênuo, alegre, criativo; Helpless Blues possuía uma certa melancolia e já apresentava um grupo tateando suas próprias características; e Crack-Up é a expressão máxima dessa busca sonora, individual e coletiva.

Ainda que o grupo tenha essa característica de “tocar fundo” o ouvinte através de seus arranjos, este disco é o que parece falar menos dos outros, e um pouco mais de nós mesmos. Essa característica mais humana que trará ao ouvinte uma experiência mais concreta no que diz respeito ao sentir. Portanto, não são apenas palavras que poderão refletir o estado de espírito de Crack-Up: ouvir é essencial.

OutroEu – OutroEu (2017)

Disco apresenta momentos de beleza, mas esbarra na monotonia

Por Gabriel Sacramento

Bandas egressas de programas de calouros, como o Superstar da Globo, têm um grande desafio a enfrentar: trabalhar para tornar a banda um negócio sério, digno de respeito como um grupo capaz de ser muito mais do que aquilo que apresentaram na TV.

Recentemente, o programa revelou diversos grupos e temos visto como cada um se adequa ao mercado fonográfico – alguns com mais facilidade, outros nem tanto. Em suma, as bandas devem se levar a sério, para que os ouvintes as levem a sério também.
Isso de se levar a sério e seguir na – muita vezes espinhosa – estrada da música é mais difícil ainda para bandas como Jamz e OutroEu, que foram formadas especificamente para o programa. Com o término deste, fica o questionamento se o grupo realmente terá fôlego para continuar.

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Bem, o OutroEu continuou. Acabou de lançar o seu primeiro álbum auto-intitulado, trazendo uma sonoridade orientada ao folk – com proeminência de violões -, mas com um quê muito forte de pop.

A faixa de abertura é um dos singles e uma das primeiras faixas originais que eles tocaram no programa global. É uma boa introdução ao que vamos ouvir ao longo do disco, com folk fofo e simples. Em seguida, temos “Zade”, com uma bela melodia de guitarra, que acaba sendo a melodia vocal também. Percebemos beleza na faixa, mas o problema é que ela é arrastada e não engata. “O que te faz Feliz” segue na mesma ideia, sendo prejudicada também pela falta de um pouco de energia.

O som do OutroEu lembra muito o do Tiago Iorc. Principalmente no lado folk e na forma como o estilo é manipulado para criar atmosferas tranquilas e suaves que visam tirar toda a tensão de quem estiver ouvindo. Também se parece muito com os Arrais, principalmente nas melodias belas e na conexão simbiótica entre instrumental e vocal. Porém, mesmo que soe bonito em momentos mais inspirados, o conjunto do álbum é fraco, pois não empolga e nem se esforça para surpreender ao longo da audição. Ou seja, a banda não concede opções aos ouvintes, impondo sempre a mesma fofura confortável.

OutroEu é um álbum fácil e tranquilo de ouvir e de entender. Por um lado, isso é bom, pois delimita bem a identidade e a marca sonora da banda. Mas é por isso também que ele falha. Acaba sendo fácil demais e o ouvinte se sente um tanto desmotivado a continuar, já que rapidamente saca a identidade sonora. A banda se arrisca pouco e ficamos com a sensação de que falta muito para que o disco seja memorável. Além disso, dentro do folk pop que se propõe a fazer, não apresenta nada acima da média.

A banda ainda tem muito a fazer. Este primeiro álbum foi uma declaração de que eles estão dispostos a continuar depois da experiência na TV. Resta agora um pouco mais de ousadia e uma renovação sonora para reparar os erros e seguir em frente.

Paramore – After Laughter (2017)

Hayley Williams & Co. se reinventam e fazem álbum seguro de indie colorido

Por Lucas Scaliza

Agora que o álbum está entre nós, não resta dúvidas de que o Paramore resolveu investir no lado mais pop da banda e o temperou com elementos indie e tropicais. É o quinto disco da banda de Nashville, que desta vez resolveu gravar pela primeira vez em sua cidade natal, o que parece ter servido para unir melhor os seus quatro membros e dar a eles mais conforto (afinal, a banda passou por maus bocados, mesmo tendo chegado ao ápice de sua popularidade com o último disco, Paramore, de 2013), já que o som não parece ter sofrido nenhum impacto ou influência da cena country ou roqueira de Nashville. A banda é pop agora – e eles deixaram claro que dariam essa guinada musical.

Como banda de rock, o Paramore sempre foi bem básico. Não é como se o Metallica deixasse de compor hinos metaleiros épicos para se dedicar agora ao punk rock de três acordes, entende? Por isso achei, lá em 2013, que a faixa “Ain’t It Fun?” de fato foi uma das melhores composições que a banda já tinha feito. Não era a mais rock’n’roll e nem a mais pesada, mas misturava com maestria diversos elementos diferentes que ressaltavam as qualidades musicais totais do grupo.

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After Laughter é bem divertido, por um tempo. A trinca que abre o disco, com os singles “Hard Times”, “Told You So” e “Rose-Colored Boy” é excelente e mostra que o grupo está muito bem situado nessa nova roupagem. O guitarrista Taylor York nem parece ter feito esforço para encontrar um novo jeito de encarar riffs e fills mais solares (um bom exemplo está em “Forgiveness”). Zac Faro, que voltou à banda, comanda a bateria com a retidão de quem sabe que essas novas faixas precisam de ritmo e precisão, não de viradas sensacionais (mas ele encontra alguns espaços para sair do feijão com arroz).

Aliás, não há nada de sensacional no álbum. As melodias são cativantes, mas nenhuma é excepcional. As harmonias e timbres estão muito bem colocadas na proposta, porém sem grandes sacadas. Em suma, não traz inovação alguma para o indie colorido, mas entrega tudo muito bem feito e de fato cumpre o papel de propor outra sonoridade para a banda. “26” não só mostra a cantora Hayley Williams se dando bem com registros mais baixos, mas também traz arranjos orquestrais para complementar o violão doce e de harmonia muito bem escolhida de York no violão. E há diversos sons que vão surgindo e ampliando o espectro do grupo, como os teclados em “Pool” e “Grudges”. E com uma ótima narração de fundo, “No Friend” se constrói como uma faixa instrumental do tipo que não se espera do Paramore (sempre tão calcado em sua vocalista) e nem de um disco como After Laughter, que preza pela segurança.

O veredito, assim, é que After Laughter não é o melhor trabalho da banda, mas está entre os melhores. É uma mudança sonora que deu certo, embora fique a sensação de que poderiam ter sido mais ousados. Hayley Williams continua sendo a cara da banda e sua principal força magnética, mostrando mais uma vez que é uma ótima cantora e bastante consciente do que pode cantar e como. Diferente de quem canta como se precisasse impressionar jurados a cada refrão (alô, Sia!), ela não vê problema em cantar sem forçar a voz, sem elevar demais a tonalidade das músicas e sem saltos de oitavas. Ah, e mesmo que não seja mais rock, punk ou emo, você sabe que Hayley Williams cantando, tal é a personalidade de sua voz preservada mesmo quando embalada em um produto diferente.