20 anos

The Verve – A Northern Soul (1995) faz 20 anos

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Segundo disco da banda inglesa é psicodelia alternativa e intensa

Por Lucas Scaliza

O que é?

A Northern Soul é o segundo disco de estúdio da banda inglesa The Verve, lançado em 20 de junho de 1995.

Histórias e curiosidades

Encaro o primeiro disco do The Verve, A Storm In Heaven, como a versão inglesa e atualizada para os anos 90 do mesmo tipo de rock psicodélico feito pelo The Doors na Los Angeles de meados de 1960. Mas troque o blues dos americanos pelo britpop e pelo rock alternativo e uma dose cavalar de viagens lisérgicas feitas com basicamente baixo, bateria, duas guitarras, violão e vocal e muito reverb e efeitos de pedais e de estúdio. Um disco forte, quase garageiro (“No Knock on my Door”, por exemplo), bastante cru. A Northern Soul, que completou 20 anos em 2015, é um refinamento de todas essas características, mantendo a energia do grupo em primeiro plano, fazendo com que muitas faixas soem caóticas.

É fato que o lado mais desesperado da psicodelia do álbum e seu peso rock’n’roll se devem às angustiadas composições de Richard Ashcroft somadas a um grande uso de drogas que dominou o quarteto durante as gravações. Há uma leve influência da música negra no disco, geralmente perceptível nas levadas mais quebradas e suingadas do baterista Peter Salisbury e do baixista Simon Jones. O vocal de Ashcroft está mais melódico do que no disco anterior, mas ainda conserva a aparência de ser feito espontaneamente, sem muito cálculo. Já a guitarra de Nick McCabe funciona como um dos motores da agressividade lisérgica de faixas como as sensacionais jams “Brainstorm Interlude” e “(Reprise)” e de detalhes viajantes em faixas mais tranquilas como “Drive You Home”.

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Os ensaios começaram em uma sala escura na cidade de Wigan, na região de Manchester, e até cogitaram gravar ali mesmo o disco. Mas as condições eram precárias demais, então contrataram o produtor Owen Morris (o cara que trabalhou no Definitely Maybe do Oasis em 1994) e foram ao Loco Studios, no País de Gales. Lá, muita coisa aconteceu e o processo todo foi bastante conturbado. Fizeram uma festa regada a álcool e ecstasy que durou duas semanas antes de começarem a trabalhar e Ashcroft passou semanas desaparecido. Morris ficou tão puto com a situação de todos os músicos que quebrou uma janela do estúdio após a gravação de “History”.

É impossível saber se as condições da banda ajudaram a fazer as canções soarem tão doloridas ou se foi o clima tortuoso das composições que acabou invadindo a vida do The Verve, mas um se adequa ao outro muito bem. Richard conta que ficou em Londres por três meses tentando resolver alguns problemas com sua namorada na época, mas as coisas não saíram bem e ele passou mais dois meses se remoendo física e mentalmente com a situação. Ao voltar para o convívio da banda, encontrou o grupo fazendo um som que, disse ele, traduzia muito bem o que sentia naquela fase.

O The Verve era uma banda dos anos 90 como mandava o figurino dos dois lados do Atlântico, se envolvendo em vários problemas. Ashcroft já precisou ser hospitalizado por desidratação depois de tanto beber e Salisbury quebrou um quarto de hotel após abusar dos entorpecentes. E já eram amigos dos irmãos problema Gallagher, do Oasis. A faixa “A Northern Soul” foi dedicada a Noel – que dedicou “Cast No Shadow” ao “gênio Ashcroft”, no (What’s The Story) Morning Glory? (1995). E as palmas que você ouve em “History” são de Liam Gallagher. Aliás, Noel achou que A Northern Soul foi o terceiro melhor disco de 1995.

Um cara difícil até hoje, talvez Ashcroft seja o principal inimigo da própria banda, emperrando seu crescimento por conta de sua personalidade. Três meses após o lançamento do disco, o cantor e compositor desfez a banda e a reformulou semanas depois, mas sem Nick McCabe. Ele esperava trabalhar com Bernard Butler, do Suede, mas não deu certo. Foi aí que Simon Tong apareceu – e ficou no grupo de vez, até mesmo quando McCabe voltou para gravar o Urban Hymns em 1997.

Músicas e destaques

A New Decade: uma faixa libertadora. Guitarras altas, baixo e vocal arrastado, bem suja de distorção e arranjos espontâneos. Embora possa-se argumentar que McCabe coloque alguns detalhes psicodélicos, a faixa já indica uma direção mais alternativa e bastante visceral. O mesmo clima pesado e guitarreiro é mantido na faixa seguinte, “This Is Music”, marcando a força e escuridão do álbum.

On Your Own: a primeira balada do disco e uma das mais bonitas já gravadas pela banda. Um lado mais leve e límpido do The Verve que ficaria ainda mais evidente no disco seguinte. Enquanto sua levada é típica de faixas semiacústicas do rock inglês, possui versos inesquecíveis como: “All I want is someone who can fill the hole/ In the life I know/ In between life and death/ When there’s nothing left/ Do you wanna know?” Na gravação original, McCabe toca piano, violão e violão de 12 cordas, todos mixados de forma a ressaltar a levada e os dedilhados da canção.

A Northern Soul: embora a música anterior do álbum, “So It Goes”, seja um exemplo bem acabado de como o The Verve era uma baita banda de rock inglês com mão para o psicodélico, é em “A Northern Soul” que suas habilidades lisérgicas surgem de forma ainda mais acentuada. A guitarra de McCabe carregada de overdrive e de efeitos de expressão e o baixo de Simon Jones bem viajante.

History: a música que mais destoa no álbum e que melhor constrói uma ponte com o estilo que se desenvolveria em Urban Hymns. Também uma balada de fundo acústico, mas com uma utilização bastante destacada do naipe de cordas de uma orquestra, única música do disco a usar esse recurso. A música chegou a 24ª posição nas paradas britânicas de 1995 e foi o último single de A Northern Soul, lançado após a banda se separar. Em 2014, a revista inglesa NME colocou “History” entre as 500 melhores canções de todos os tempos, em 312º lugar. Seus dois primeiros versos – “I wander lonely streets/ Behind where the olt Thames does flow” – foram tirados do poema Londres do também inglês William Blake. Dizem que a letra melancólica é sobre a separação de Ashcroft durante a produção do disco. O cantor nega. Ele diz que cada música do disco é uma faceta do que significa ser um northern soul (pessoa parte de um movimento musical do fim dos anos 60 muito influenciado pelo soul americano).

Stormy Clouds/(Reprise): essas duas faixas mais psicodélicas marcam o grande último suspiro da veia mais lisérgica do The Verve. Algo parecido apareceria muito brevemente no disco seguinte e é praticamente inexiste em Forth (2008).

ca. 1993, Probably UK --- The Verve, a British neo-psychedelic rock band, are (left to right) Simon Jones, Peter Salisbury (back), Richard Ashcroft, and Nick McCabe. --- Image by © S.I.N./CORBIS

Image by © S.I.N./CORBIS

Passa no teste do tempo?

A Northern Soul não foi um disco que fez um baita sucesso na época, mas aumentou o prestígio da banda. Com o tempo, a sonoridade densa e alternativa foi ganhando mais espaço e mais adeptos, fazendo com que hoje seja um dos discos mais interessantes de se revisitar do The Verve. É claro que Urban Hymns continua sendo o disco mais famoso, mais prestigioso e o trabalho mais bem produzido do grupo, mas aí já temos uma banda de som mais clean, polido, calculado e amadurecido para o mercado. A graça de A Northern Soul é encontrar-se com uma banda mais visceral e explorando o lado mais escuro da psicodelia urbana.

Com o revival da estética psicodélica tomando como matriz o que era feito na década de 1960, conhecer a versão do The Verve em meio à explosão do britpop na Inglaterra e ao grunge norte-americano é uma boa maneira de verificar como a banda estava trilhando seu próprio caminho, apostando em uma sonoridade bastante diferente para os padrões da época. E é uma psicodelia bem diferente da praticada atualmente, pois não era retrô. O guitarrista Nick McCabe e o baixista Simon Jones continuam desenvolvendo a proposta, de uma forma diferente agora, na banda Black Submarine, que lançou em 2014 seu primeiro álbum, New Shores, que vale a pena conferir.

Quem conhece o The Verve pelos hits do álbum de 1997 conheceu apenas um lado da banda. A Northern Soul ainda é um dos melhores trabalhos do rock inglês da década de 90 e te apresenta Richard Ashcroft, McCabe, Jones e Salisbury compondo em meio à adversidade não para encontrar paz ou exorcizar seus demônios por meio da música. As canções refletem justamente a luta da banda com seus problemas – e nenhum parece ter se resolvido até hoje.

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Red Hot Chili Peppers – One Hot Minute (1995) faz 20 anos

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O disco mais alternativo dos californianos, as drogas e Dave Navarro

Por Lucas Scaliza

O que é?

One Hot Minute é o sexto disco de estúdio do Red Hot Chili Peppers, lançado em setembro de 1995.

História e curiosidades

Até 1991, o Red Hot Chilli Peppers era uma banda em ascensão. Chegou ao sucesso comercial e o reconhecimento internacional em 1991 com o disco Blood Sugar Sex Magik, até hoje considerado o melhor – ou pelo menos um dos melhores – da discografia do grupo. Naquele mesmo ano, no norte grunge dos EUA, o Nirvana lançava Nevermind, que causou um grande impacto na juventude americana e o Pearl Jam surgia para o mundo com o incrível Ten. Enquanto isso, vindos da ensolarada costa oeste, o funk rock californiano ganhava projeção.

Mas tanta projeção afugentou o guitarrista John Frusciante, que não soube lidar com tamanho sucesso repentino e exposição. Começou a usar heroína, atrapalhava a banda ao vivo e acabou deixando os Peppers em 1992, no Japão, bem no meio da turnê. Recentemente, depois de idas e vindas com a banda, Frusciante declarou que nunca teve tanto prazer assim em fazer shows e longas turnês e, mais recentemente ainda, abandonou de vez o rock para fazer música experimental (e eletrônica, sob a alcunha de Trickfinger). O caso de 1991-92 era só uma fagulha do tamanho do desconforte do músico.

Portrait of US group The Red Hot Chilli Peppers taken on 10th August 1995. © Steve Double / Retna Ltd Credit All Uses

Portrait of US group The Red Hot Chilli Peppers taken on 10th August 1995.
© Steve Double / Retna Ltd. Credit All Uses

O caso é que One Hot Minute é um disco um tanto desprezado pelos fãs do RHCP. Ele é muito menos funkeado, abraçando o rock alternativo. Não tem Frusciante, que foi substituído por Dave Navarro, que é um ótimo guitarrista, mas bastante diferente em abordagem e estilo do que a banda vinha apresentando até então. As músicas são um pouco mais sóbrias e menos divertidas, menos sensuais e sexuais do que era (e ainda é) uma marca dos Chili Peppers. Contudo, é o disco que trouxe novidades para o grupo, diversificando sua sonoridade e mostrando outras possibilidades e capacidades. O grande problema deste álbum é que a banda decidiu não tocar suas músicas após a saída de Navarro em 1998, já que Frusciante (que voltou para o grupo a tempo da gigantesca maré de popularidade com Californication, de 1999) não tocaria como ele. E como One Hot Minute não vendeu nem a metade do que Blood Sugar Sex Magik, virou o patinho feio da discografia.

O processo de composição foi um tanto turbulento. O vocalista Anthony Kiedis, também consumindo muitas drogas na época, embora escondesse isso dos Peppers e da família, não conseguia colocar para fora as letras que imaginava. Além disso, Dave não era como Frusciante e Hillel Slovak (antigo guitarrista da banda, que tocou em dois discos nos anos 80 e morreu de overdose em 1988) que simplesmente criavam a música para acompanhar o vocal de Kiedis. Em uma entrevista há alguns anos, o baterista Chad Smith disse que o Navarro não era do tipo que criava a partir de jam sessions, improvisos e propunha ideias. Ele era um tipo mais reativo: alguém chegava com uma ideia e Dave criaria a partir daquilo. Com o processo demorando mais do que o esperado, Flea tomou um pouco do espaço de composição pela primeira vez e escreveu a letra de “Transcending”, que fecha o disco, a introdução e o encerramento de “Deep Kick” e colocou sua voz na faixa “Pea”, que é apenas baixo e voz mesmo.

Apesar das drogas, dos temas mais sombrios e da recepção mais fria do público, One Hot Minute é um álbum bem feito e eclético, e surpreendentemente com um pezinho na experiência e em trechos mais viajantes. Tem força e vigor (“Warped”, “Coffee Shop”, “One Hot Minute”), visceralidade (“Transcending”, “Shallow Be Thy Game”), diversão (“Aeroplane”), ótimas baladas (“Tearjerker” e “My Friends”) e funk com groove (“Walkabout” e “Falling Into Grace”). Embora não seja Frusciante, Navarro tem suas próprias qualidades e fez com que os Red Hot Chili Peppers soassem um pouco mais pesados. Embora tenha a tendência de cair na fritação e na virtuose, seus solos e arranjos não comprometem a identidade do grupo, sabendo a hora de soltar a mão.

Durante uma entrevista em 1995 sobre o novo disco, Anthony Kiedis disse que odiava falar sobre as músicas da banda e ter que explica-las. Ao perguntar se não gostavam desse assunto por causa de mal entendidos que pudessem ocorrer, Flea respondeu: “ser mal compreendido é parte da coisa, pelo menos para nós. Acho que provavelmente por causa de certas coisas que fizemos, houveram muitos equívocos sobre a banda. Equívocos de que éramos só uma banda de festa da Califórnia, que surfa e anda de skate o tempo todo e que todas as nossas músicas eram sobre isso. Acho que os Red Hot Chili Peppers sempre percorreram um amplo espectro [de som] ao longo da carreira e, obviamente com o passar dos anos, nos tornamos mais capazes de expressar essa amplitude”.

Durante a turnê mundial que se seguiu, Anthony conseguiu se manter sóbrio. Durante um show em Praga, ele errou um mortal de costas e caiu no chão, o que o obrigou a usar um cinturão para as costas que limitou seus movimentos nos shows seguintes. Já Navarro logo começou a se cansar da desgastante turnê. Voltaram a Los Angeles e, com isso, Anthony voltou às drogas – e se forçou a largá-las muitas semanas depois para um show no Polo Norte para uma marca de cerveja e 100 fãs. O vocalista teve outra recaída e foi para a reabilitação.  Ao sair, o grupo estava pronto para iniciar uma turnê de verão, mas Kiedis sofreu um acidente de moto e machucou a mão. Por causa de seu vício em drogas, ele precisou de sete doses de morfina até que a dor fosse amenizada. Eles ainda tocaram no Fuji Festival em 1997 debaixo de tanta chuva que estava quase impossível continuar no palco. Após oito músicas, a iluminação e o som caíram e os Peppers tiveram que dar a apresentação por encerrada.

A banda só tentou compor de novo em 1998, época em que Dave Navarro estava usando drogas constantemente, até tornar-se um dependente delas, e Kiedis continuava lutando entrando e saindo. Navarro foi demitido do grupo após cair sobre um amplificador e se recusar a fazer reabilitação. Treze anos depois, ele comentou o caso, dizendo que sua queda tinha e diferenças musicais haviam motivado sua demissão, mas que Kiedis usava mais drogas do que ele naquela época.

Sem guitarrista, o grupo foi perguntar a Frusciante se ele estava a fim de voltar. O guitarrista tinha acabado de sair da reabilitação – depois de cinco anos usando heroína – e aceitou o convite. O resultado foi o megassucesso Californication. Com tantas drogas antes, durante e depois de One Hot Minute, não espanta que seus temas tenham sido um pouco mais sombrios e pesados.

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Músicas e destaques

Deep Kick: embora tenha os grooves do funk, tem uma pegada mais punk e trocas abruptas entre as partes. Em seu terço final, um violão e um vocal mais melódico dominam a faixa, mas a guitarra de Navarro progressivamente continua a manter o tom anárquico da composição. Sem dúvida um dos melhores exemplos do que é o “alternativo” neste álbum.

One Big Mob: uma das músicas mais interessantes de One Hot Minute. Tem uma seção agitada que lembra os momentos mais loucos da banda, como “Give it Away” e as vindouras “Can’t Stop” e “Around The World”. Mas também tem um interlúdio viajante que não se parece com quase nada que os Peppers fizeram antes ou depois.

Tearjerker: uma das músicas mais legais do álbum, foi escrita por Anthony Kiedis sobre a morte de Kurt Cobain no ano anterior e o seu amor por ele. Logo no início, ele canta: “Meu queixo caiu/ Esperando que a verdade não fosse real/ Recuso as notícias”.

Shallow Be Thy Game: uma das faixas mais intensas e diretas do disco, tem uma mensagem direta de rejeição às religiões, em especial o cristianismo que se baseia no medo para ganhar adeptos e manter sua autoridade. Navarro faz um ótimo trabalho em cima dela e explode em dinâmica em seu espaço para solar.

Transcending: uma das músicas escritas por Flea como um tributo ao ator River Phoenix, seu amigo. Eles estavam juntos no The Viper Room, em outubro de 1993, quando Phoenix teve uma overdose. Flea o levou para o hospital, mas ele não sobreviveu. O dedilhado no baixo realmente dá o tom da música, que vai progressivamente mostrando que é uma das melhores faixas de One Hot Minute. A guitarra vai criando arranjos diferentes para cada parte da canção até tornar-se visceral no final, enquanto Kiedis grita os versos finais da letra.

Passa no teste do tempo?

Perto de Blood Sugar Sex Magik, Californication e Stadium Arcadium (2006), One Hot Minute tem menos baladas radiofônicas, menos suingue, menos melodias que ficam na memória, menos potencial comercial. Apesar de terem dito que não tocariam nada dele após a saída de Navarro, Flea executou “Pea” ao vivo. E após a entrada do atual guitarrista, Josh Klinghoffer, eles já apresentaram “My Friends” e “Walkabout”. Mas a própria banda parece não dar muita bola para o trabalho. Chad Smith declarou em 2014 que o grupo não se sente mais tão conectado ao disco, embora isso não queira dizer que não vão tocar as músicas de 1995.

É também um disco que retrata um período difícil. Bem na hora em que precisam lançar um trabalho para manter o grupo em alta, acabam com um relativo fracasso de vendas. No entanto, os problemas pessoais de seus integrantes parecem dar a tônica. Era uma época em que o abuso de entorpecentes estava consumindo dois membros e um ex-integrante.

Ainda assim, se One Hot Minute não flui tão bem quanto grande parte dos fãs gostaria, soa mais fresco do que Stadium Arcadium, By The Way (2002) e I’m With You (2011), álbuns que mais ou menos já sabíamos o que esperar e o que não esperar. Vinte anos depois e o disco ainda é um esforço criativo e diferenciado dentro da discografia do RHCP. Se falta força e distorção em algum disco, é em One Hot Minute que você pode encontrá-la, e o tempo não fez com que essa impressão diminuísse.

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Alanis Morissette – Jagged Little Pill (1995) faz 20 anos

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A sexualidade, a igreja católica e as angústias de uma jovem retratados no álbum ainda são as mesmas de jovens de hoje

Por Lucas Scaliza

O que é?

Jagged Little Pill é o terceiro disco de estúdio de Alanis Morissette, lançado em junho de 1995.

Histórias e curiosidades

Ela já tinha lançado dois discos, Alanis (1991) e Now Is The Time (1992), mas nada perto das 33 milhões de cópias que seu disco seguinte venderia no mundo todo. Tinha só 21 anos quando coescreveu as músicas que fariam parte de Jagged Little Pill e mudaria sua carreira. Além disso, sendo uma canadense de Ottawa, Alanis Morissette teve de lidar com o fato de entrar nas programações de rádio e competir por espaço, que já era usado por outras mulheres, como Sinéad O’Connor e Tori Amos, como se, para o mercado do entretenimento, houvesse uma cota para a promoção de cantorAs. Questões de gênero que eram estranhas no meio da década de 1990 mas que, hoje, se tornam ainda mais relevantes.

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O disco trouxe o rock alternativo de Alanis para o primeiro plano da música mainstream. Esse tipo de movimento – do nicho para as massas – é algo que sempre ocorreu na música: seja com os psicodelismos dos anos 60, o progressivo dos 70, o punk e a new wave de 70-80, o hip hop ou o grunge. No caso de Alanis, além do rock dela ser diferente do britpop que rolava na Europa e do grunge que tinha virado uma onda nos Estados Unidos, seu timbre de voz e interpretação vocal eram muito peculiares. “You Oughta Know”, seu primeiro monstruoso sucesso, já trazia todos esses elementos. (Mesmo assim, “Right Through You” é inegavelmente uma canção que deve muito ao grunge de Nirvana e Soundgarden).

Alanis foi chamada de “jovem angustiada” por algum tempo, tornando-se uma marca dela. Ela começou a colocar sua música no mundo ainda adolescente e com uma energia agressiva e até um pouco amarga, resquícios do grunge e do punk que se infiltravam na juventude daquela época. Jagged Little Pill conseguiu chegar ao grande público aproveitando muito bem toda a atitude que a cantora tinha de sobra, mas com um polimento especial do produtor Glen Ballard, que ajudou a escrever as músicas. Mas Ballard não podou Alanis. Ao que parece, canalizou suas potencialidades. O resultado foi um álbum de 12 faixas, sendo que seis se tornaram singles, e ficou em primeiro lugar no Canadá por 24 semanas. Nos EUA, 12 semanas como número um da Billboard 200.

Alanis Morissette ainda estava no ensino médio quando consegui o disco de platina com seu primeiro álbum e viu o segundo vender só metade do primeiro. Após se formar, trocou Ottawa por Toronto e mesmo assim não teve muito progresso. Deu um grande passo geográfico, indo para Los Angeles, a Meca do entretenimento. Foi um movimento arriscado: ela não tinha tanta grana assim e dormia nos sofás de amigos. Foi uma época difícil e está descrita em “Hand In My Pocket”. Ganhou a confiança de Ballard, que a ajudou e permitiu que usasse seu estúdio. Além das boas letras que ela compunha, sua capacidade vocal era – e continua sendo – impressionante, ainda mais para uma menina de apenas 19-20 anos. Claro que ela é do tipo que pode soar (e às vezes soava) histriônica a cada verso, mas ela aprendeu a domar o estilo de cantar e Jagged Little Pill é um ótimo exemplo de como isso começou a funcionar.

Ballard e Morissette escreviam e gravavam uma música por dia, mas sem fazer mais do que uma ou duas tentativas, para preservar o estilo natural da cantora, sem floreá-la demais. A gravação dos instrumentos que aparecem em cada música foi adicionado depois, usando as gravações demo da voz. O baixista Flea e o guitarrista Dave Navarro, ambos no Red Hot Chili Peppers na época, tocam em “You Oughta Know”. Uma curiosidade: Taylor Hawkings, do Foo Fighters, foi o baterista da turnê deste álbum.

A explosão causada pelo álbum catapultou Morissette para o topo da cadeia alimentar do pop entre 1995 e 1996. Com a internet pouco desenvolvida, era comum as pessoas se interessarem pela música dela mas só se darem conta de quem ela é de fato – de como se parece, qual o seu penteado, que roupas usa – ao vê-la ao vivo. Muitos novos fãs, a julgar por suas letras, achavam que a canadense teria um visual mais punk, mas na verdade ela era bem sóbria.

Existem dezenas de temas que são caros às mulheres e aos jovens de qualquer gênero no álbum, mas a sexualidade ali presente tinha ares de posicionamento político e espiritual, principalmente em “Forgiven”. Em uma entrevista para a Rolling Stone em novembro de 1995, Alanis, que vem de uma formação religiosa católica, diz que acabou rejeitando qualquer conceito de religião organizada, mas ainda tinha espiritualidade. “Quando estou no palco, é muito espiritual. Me sinto perto de Deus quando estou lá em cima”, ela diz. Contudo, conta que seus problemas com a igreja católica têm a ver com a repressão sexual. Jovem e indo à igreja todos os domingos, sua personalidade acabou dividida. “Eu era ativa e fazia mesmo coisas que eram sexuais quando era mais nova. Havia um lado meu que era louco e depravado, fazendo coisas que estavam a frente do meu tempo, e por outro lado eu era muito contida, querendo permanecer virgem como uma boa menina branca e católica”, ela disse há 20 anos.

Mas Jagged Little Pill não é sobre sexo e sexualidade (apenas). Há uma grande variedade de temas que para adolescentes da época eram extravasados em forma de música pela primeira vez. “O disco é a minha história”, disse Morissette. “Acho que ele discorre sobre as diferentes facetas de minha personalidade, uma delas sendo a sexual”.

O álbum foi indicado para nove prêmios Grammy e ganhou cinco, incluindo o de Álbum do Ano. Ela tinha apenas 21 anos na época e era a artista mais jovem até então a ganhar o prêmio. Ela manteve esse título por 14 anos, até Taylor Swift, aos 20 anos, levar a premiação com Fearless.

Músicas e destaques

You Oughta Know: o primeiro grande sucesso de Alanis Morissette. Ela já começa suscitando uma traição sofrida com os dois primeiros versos e segue com uma bela letra sobre ser trocada e deixada por outra, até mandar o recado no poderoso refrão: “Estou aqui, para te lembrar da bagunça que deixou quando foi embora/ Não é justo negar que a cruz que eu carrego foi você que me deu/ Você devia saber”. A guitarra de Dave Navarro com delay nos versos e com wah-wah no refrão ajudou a criar o tipo de som que se esperaria do rock de Alanis. E o baixo de Flea completa a canção, tocando uma série de notas e criando uma linha bem eloquente.

Perfect: uma balada doce ao violão, mas irônica. Alanis pede para sorris mais, tentar mais, não esquecer de sempre conseguir o primeiro lugar. Uma canção sobre as pressões sobre a juventude e o quanto esperam sempre o melhor de meninos e meninas, pais que querem despejar nos ombros dos filhos o que não conseguiram, mas esperam que as crias alcancem. E termina a canção amargamente doce: “Nós sempre iremos te amar do jeito que você é/ Se você for perfeita”.

Forgiven: talvez a canção mais complicada do disco, e mesmo assim foi um single. É onde Alanis relata sua relação com a igreja católica de uma forma bastante pesada. “Eu cantava Aleluia no coral/ Confessava minhas atitudes mais escusas a um homem invejoso”, ela canta. No final, após dar a entender que rompia com as regras da religião, muda a letra do último refrão para: “Nós todos tínhamos ilusões/ Nós todos tínhamos nossa mente controlada/ Tínhamos que acreditar em alguma coisa/ Então acreditamos”.

You Learn: logo depois de se mudar para Los Angeles, Alanis foi assaltada numa rua deserta, o que a deixou um tanto ansiosa e precisou de psicoterapia para aliviar os ataques de pânico que se seguiram. Afinal, era uma jovem que mal tinha saído das pacatas Ottawa e Toronto e caído em uma das cidades mais agitadas do mundo. Escrever as letras para o álbum foi uma espécie de terapia que deu certo. E “You Learn”, o quarto single de Jagged Little Pill, foi um enorme sucesso no mundo todo e fala sobre como cada acontecimento na vida, bom ou ruim, acaba te ensinando algo. Musicalmente, é uma das faixas mais acessíveis de seu repertório. Destaque para a forma como ela sobe e desce a altura da voz com fluidez, principalmente no refrão.

Passa no teste do tempo?

Jagged Little Pill é o tipo de álbum que precisa ser resgatado, o que já está acontecendo por parte das comemorações de seus 20 anos. Com o feminismo ascendente, é especialmente importante analisá-lo sob essa perspectiva. Em uma recente entrevista, Morissette revelou que não se deu conta até recentemente como o disco era um hino feminista. “Em termos de percepção do público sobre isso, só percebi depois. Não havia outra intenção além de fazer um disco que eu pudesse apoiar e amar. No que concerne o feminismo, acho que o que está acontecendo agora é que mais homens estão sendo convidados para essa jornada e, pelo menos eu, chamo isso de movimento feminino – tem a ver com adotar os aspectos femininos de nossa humanidade”.

Jagged Little Pill foi mais uma força no sentido de fortalecer aspectos alternativos no mainstream. No mesmo ano, na Europa, víamos Björk lançar Post e PJ Harvey com To Bring You My Love. Como Lucy Jones bem apontou na NME, o álbum também abriu caminho para outras cantoras que usavam a própria vida como base para suas letras, como Christina Aguilera e Taylor Swift. E não há como deixar de citar Avril Lavigne, que ano depois seria a próxima jovem revelação do rock canadense, conhecida também pelo apelo pop e por escrever as próprias letras e músicas.

Mas o maior teste do tempo é retornar a um álbum e reparar se ele ainda fala, de algum modo, sobre o nosso presente. As pressões, os problemas e as angústias de um jovem (de qualquer sexo), e de uma mulher mais especificamente, continuam sendo as mesmas que Alanis relatou 20 anos atrás. Qualquer adolescente ou jovem-adulto que voltar a Jagged Little Pill vai descobrir um disco que terá muito a ver com o que ocorre ao seu redor e dentro de sua cabeça ainda hoje. Sendo assim, não há como não passar no teste.

Canadian singer-songwriter Alanis Morissette performing on stage, circa 1995. (Photo by Denis O'Regan/Getty Images)

Canadian singer-songwriter Alanis Morissette performing on stage, circa 1995. (Photo by Denis O’Regan/Getty Images)

Blur – The Great Escape (1995) comemora 20 anos

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O disco mais cínico dos anos 90 e do britpop duas décadas depois

Por Lucas Scaliza

O que é?

The Great Escape, lançado em setembro de 1995, é o quarto álbum de estúdio do Blur.

História e curiosidades

The Great Escape pode não ser o melhor disco do Blur, mas vendeu muito bem assim que foi lançado, chegou a número 1 nas paradas britânicas e foi o primeiro álbum do quarteto inglês a entrar nas paradas dos Estados Unidos.

Enquanto o Oasis tinha apenas o ótimo Definitely Maybe na discografia e estavam preparando o lançamento do também ótimo (What’s The Story) Morning Glory, em 1995 o Blur já tinha colocado seu britpop para rodar há mais tempo e estavam, como sempre estiveram, mais prontos para inovar. No caso de The Great Escape, eles ficaram realmente pretensiosos. Além do quarteto no comando de voz, guitarra, baixo, bateria, piano, teclado e sintetizadores, foram convocados instrumentistas para saxofone, trombone, trompete, violino, viola e cello. Tudo isso serviu para dar uma encorpada no som e ampliar a sonoridade da banda – algo que anos mais tarde continuaria a ser marca do grupo, principalmente das carreiras do guitarrista Graham Coxon e do vocalista Damon Albarn, como seu disco solo e sua carreira no Gorillaz deixou bem claro.

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Apesar de lidar com temas como a solidão, a exclusão e a alienação, a grande maioria das músicas em The Great Escape são animadas e solares. Se o britpop é a reação positiva aos tons menores e sentimentos mais pesados do grunge, The Great Escape pode ser a epítome desse lado menos sombrio do rock na década de 1990 que consegue soar iluminado e esconder temas nada animadores e nem tão diferentes assim do grunge, afinal. Em diversas faixas é possível perceber que há uma “bagunça” sonora. Pode ser uma passagem de sintetizadores ou de guitarras que destoam da canção, ou mesmo uma parte inteira que parece escapar da harmonia e melodia da canção. É a forma utilizada pela banda para demonstrar musicalmente a inadequação humana de que trata o álbum.

Mas é preciso lembrar que no ano anterior, 1994, o Blur tinha lançado Parklife, seu álbum mais celebrado até hoje e que significou a entrada definitiva do grupo no grupo de atenção da mídia e dos fãs. A “bagunça” e as pretensões de The Great Escape extrapolaram a espontaneidade do trabalho anterior. Afinal, nunca foi fácil fazer um disco cínico e esperar que o público o entenda como o criador o entende. Mesmo sendo o disco que melhor vendeu até os dias de lançamento de 13 em 1999, em 2007 Damon Albarn declararia que só não gostava de dois discos de que participou: Leisure, de 1991, antes de o grupo inventar o britpop, e The Great Escape.

E ainda há a polêmica envolvendo o Oasis. Foi em 1995 que a briga, sempre intermediada pela imprensa (pois não existia rede social ainda), entre as duas bandas britânicas ficou séria. O Blur lançou seu primeiro single de The Great Escape, “Country house”, no mesmo dia que o Oasis lançou “Roll with it”. O Blur venceu, foi sua primeira música da carreira a chegar ao primeiro lugar nas paradas. Havia críticos e revistas dizendo que o britpop não teria nada melhor do que The Great Escape naquele ano. Bem, a reviravolta foi amarga para Albarn, Coxon, Alex James e Dave Rowntree: durante a turnê pelos EUA, viram que o novo disco dos rivais já ultrapassava as vendas do seu disco. Mais do que isso: 20 anos depois, o público do mundo tem em mente mais canções de (What’s The Story) Morning Glory do que de The Great Escape. “Wonderwall” sozinha simboliza quem saiu vitorioso dessa “batalha do britpop”.

Músicas e destaques

Country House: a primeira do Blur a alcançar o topo das paradas é sobre um homem que fica rico e se muda para o interior a fim de fugir das pressões da grande cidade. É uma música digna do Blur. Ao mesmo tempo que vemos Alex James e Coxon fazerem jogadas espertas e criativas com baixo e guitarra, a música se mantém com a mesma pegada do Blur de Parklife.

Charmless Man: essa é a música avó de “O Vencedor” e “Cara Estranho” dos Los Hermanos. Parece feliz, mas é a história de um desajustado que, ao que parece, não teria motivos para ser o outsider. É para coroar o contraste entre música aparentemente feliz (mas com um sintetizador que evidencia os ruídos da história) e personagem em situação nada louvável.

The Universal: A música é bonita e, apesar disso, quase não entrou no disco. Ela já tinha sido um ska e ninguém sabia mais o que fazer para terminar a canção e torna-la boa de verdade. Mas Albarn apareceu com as orquestrações e todo o clima mudou para a balada que se tornou, com cara de trilha sonora. A faixa acabou sendo uma homenagem ao cineasta Stanley Kubrick. O seu clipe claramente utiliza os temas visuais do filme Laranja Mecânica (1971) e a capa do single faz referência a 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968).

Yuko and Hiro: Uma das músicas com mais sintetizadores do disco e que dão o aspecto mais inadequado do disco. Há uma desafinação constante – não de Albarn, do sintetizador – que faz dessa faixa uma das mais estranhas e tristes.

Passa no teste do tempo?

Vinte anos depois, continua a não ser um dos melhores do Blur, mas pode merecer uma ouvida nova. A banda, como um todo, está muito bem em todas as faixas. Coxon criativo como nunca, mostrando que até o britpop poderia mostrar outros meios de usar os instrumentos. Embora (What’s The Story) Morning Glory tenha vencido a batalha e se consagrado muito melhor, é um disco que encara o rock’n’roll e a música pop de maneira mais convencional. Mas talvez o problema seja que The Great Escape seja mesmo diverso demais em seu cinismo e isso feriu seu poder de coesão e fez com que poucas faixas realmente se destacassem.

Em abril o Blur lançaram um novo disco, The Magic Whip. A julgar pela declaração de Albarn de que basicamente serão os quatro músicos tocando juntos, sem muita pós-produção, fica claro que não é o modelo e a pretensão de The Great Escape que estão procurando. Assim, é um álbum para ser redescoberto, longe do auge do britpop e longe das disputas com o Oasis. O problema é que nunca poderá ser visto longe dos discos que o precederam e também dos que o sucederam.

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Björk – Post (1995) faz 20 anos

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Post sedimentou a importância que os vídeos sempre teriam na carreira da islandesa e mostra a evolução estética

Por Lucas Scaliza

O que é

Post, lançado em junho de 1995, é o segundo disco solo de Björk.

Histórias e curiosidades

Após a separação do grupo de vanguarda Sugarcubes, Björk foi para Londres preparar sua entrada na carreira solo e lançou Début, um ótimo álbum para uma carreira em ascensão. Mas ainda havia muito pelo que batalhar para a islandesa escrever seu nome no mundo e no showbiz da música mundial. Evoluindo e amadurecendo ainda mais sua vertente eletrônica e experimental, ela escalou ótimos produtores da cena londrina para seu segundo disco. Nellee Hopper (que produziu seu primeiro disco e trabalhava com o Massive Attack na época), Tricky (membro do Massive Attack) e Graham Massey, o cara que co-escreveu e co-produziu com a cantora o sucesso “Army of me” e “The modern things”, ambas feitas antes de Début.

Havia um toque de jazz e de eletrônico no primeiro álbum de Björk que foi aprofundado a partir de Post. A enérgica “Army of me” divide espaço com o jazz Broadway “It’s oh so quiet”, com o trip hop de “Possibly maybe” e com a orquestração de “You’ve been flirting again”. Há ainda as misturas, como o eletro-jazz de “The modern things” e “Enjoy”.

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A voz de Björk, de timbre único e versátil, vem de seu estômago, não do peito, o que dificulta as coisas para os engenheiros de som que trabalham com ela, principalmente porque ela se acostumou a grava tudo em lugares abertos (e aí os engenheiros escolhiam os mesmos microfones que usavam para captar os baixos acústicos). Em Londres era praticamente impossível encontrar um lugar que a deixasse confortável assim, então Nellee Hopper voou com ela para a Bahamas e gravaram os vocais todos na praia, no Compass Point Studio. Ela usou um microfone e um fone de ouvi com fios bem longos, sentava na praia por volta da meia-noite e cantava. “Era a primeira vez que fazia uma música assim em 20 anos. Eu chorava de alegria, porque era algo que eu queria muito. Quase como se você fizesse sexo várias vezes, e fosse ótimo, e aí você não teria sexo tão bom por 20 anos, e então de repente você tem de novo. Foi completamente chocante”, ela diz em uma entrevista de 1995.

O nome do disco tem até três significados: o primeiro é de “pós”, já que Début foi escrito na Islândia e Post é sua carreira após essa fase, quando ela tinha se mudado para Londres. Também tem a ver com o verbo postar, como se cada letra fosse um “post” para alguém ver sobre como ela se sente. E por fim tem a ver com postagem, correio (post mail, em inglês). O tracejado azul e vermelho na roupa branca que ela usa na capa do disco é uma referência à bandeira do Reino Unido e um tracejado encontrado nos envelopes do Correio Real aéreo do país.

As letras de Björk sempre foram instigantes. Seja o que ela escreve sozinha ou o que vem de parceiros – como o escritor e poeta islandês Sjón – possui um ponto de vista bem interessante. Segundo ela (pelo menos até 95), sempre que uma letra vem na primeira pessoa ela narra os sentimentos de amigos e de terceiros. É quando escreve em terceira pessoa que está falando de si própria. No entanto, a excepcional “Possibly maybe” está em primeira pessoa e, até onde se sabe, é sobre um relacionamento que não deu certo. Nessa faixa ela fala de um amor que pode ocorrer não se sabe como e nem quando, mas que não é para sempre (Björk não acredita em amor para sempre, mas definitivamente acredita em um amor tão colossal que mexe com toda a sua existência). “Desde que nos separamos estou usando batom novamente/ Vou chupar minha língua como uma lembrança sua”, ela diz no último verso. Sem falar que logo os primeiros versos da música deixam claro um ar bastante sexual. No refrão fica bem evidente o verso “possibly maybe”, mas não a resposta “problably love”, quase um suspiro baixinho. Já na animada “I miss you”, com seus sopros jazzísticos e percussão étnica, ela imagina um amor que ainda não encontrou. Um tema interessante para encaixar aquele sentimento de falta ou de saudade de algo que não sabemos bem o que é, mas sabemos que existe em algum lugar. “Agora eu sei que você vai chegar, assim que eu parar de esperar”, ela conclui.

“Cover me” pode não ser a preferida de muita gente, mas é uma música que anuncia muito do que consiste a estética de Björk até hoje. A música consiste de dois elementos principais: a voz dela e um cravo tocado por Guy Sigsworth (que já colaborou com Madonna, Imogen Heap, entre várias outras cantoras), quase como uma música clássica moderna, mas é completada por ruídos e atmosferas que transformam “Cover me” em uma música mais densa e sombria. Esse tipo de roupagem musical deu a tônica de muita coisa que Björk produziu, inclusive em seu último disco ao vivo, Biophilia Live.

Músicas e destaques

Army of me: música pesada de abertura do disco, com um riff marcante no baixo, cheio de notas dissonantes, e um refrão acompanhado por um cromatismo descendente de Ré – Ré bemol – Dó. Segundo a cantora, é uma música sobre pessoas que ficam se vitimizando e não resolvem seus problemas. “Chega ao ponto de você fazer tudo o que pode por elas e a única coisa no caminho delas são elas mesmas”.

Hyper-Ballad: uma de minhas músicas preferidas de toda a discografia da Björk. A parte dos versos é composta por uma sequência em que três acordes ficam se repetindo em um intervalo de três compassos, e não de quatro, como ocorre com 90% das músicas pop. Uma música bastante acessível para quem quer conhecer o lado mais colorido da islandesa. A letra é como uma fábula sobre um casal que vive numa colida no meio do oceano. Ela acorde antes dele e se livra de todos os objetivos que não fazem parte da relação deles. Ela até imagina como seria se ela se jogasse. Quando ele acorda, ela já fez tudo isso e já imaginou esse tipo de coisa destrutiva e então pode sentir-se feliz por estar com ele, sozinha com ele, no topo de uma colina.

Isobel: uma das faixas mais clássicas de Björk, uma mistura de trip hop com orquestração clássica e trompete jazzístico. É a segunda parte da trilogia sobre uma mulher que vive isolada. As outras duas partes são “Human behavior”, de Début, e Bacherolette, do Homogeniac (1997). A letra é um conto de fadas sobre uma garota chamada Isobel que nasce em uma floresta e chega ao amadurecimento quando o verde ao redor dá lugar à cidade. Ela não gosta da cidade e decide se isolar de novo. Foi a primeira letra que Sjón escreveu em sua vida, após Björk lhe explicar a ideia. O tema da floresta explica a percussão da música. E a orquestração foi feita pelo pianista brasileiro Eumir Deodato. (“Human behavior”, a primeira da trilogia, foi composta a partir de um trecho de uma música de Tom Jobim.) Mais tarde, as músicas “Oceania” e “Wanderlust” seriam incluídas nessa série também.

Possibly maybe: a música retrata um rompimento e foi a primeira música triste escrita pela cantora. É sobre sua experiência após o término com o fotógrafo francês Stéphane Sednaoui. Sednaoui, aliás, foi quem fez a foto para a capa de Post e também dirigiu o clipe da música. Se hoje Lana Del Rey constrói sua carreira falando de romances complicados de forma arrastada e letárgica, é porque Björk abriu caminho para isso.

Headphones: a última faixa de Post, uma música que não é muito comentada, mas vale a história. “Headphones” foi feita em parceria com Tricky. A letra, Björk diz, é uma carta para a pessoa que passa um dia estressante e no final de tudo coloca os fones de ouvido e põe para tocar uma fita no walkman (lembre que estamos na metade da década de 90 aqui) e dorme ouvindo música. A produção da música valorizou sons bastante modernosos que chegam de uma forma que só é possível compreender bem ouvindo com fones de ouvido. As batidas planejadas por Tricky chegam ao fundo dos tímpano enquanto a mixagem faz os barulhinhos irem de um lado dos fones para o outro.

Passa no teste do tempo?

Sim. Além de representar uma evolução no trabalho de Björk, mostra também ela escolhendo produtores que identificam bem uma era para fazer um som que tenha a ver com a contemporaneidade e com suas ambições artísticas. Além de tudo o que já foi discutido, é importantíssimo ressaltar que cinco faixas de Post ganharam videoclipes, uma forma de arte que ajudou muito a impulsionar a carreira de Björk e de seus colaboradores. Três deles (“Army of me”, “Isobel” e “Hyper-Ballad”) foram dirigidos pelo francês surrealista Michel Gondry (Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças). O clipe de “It’s oh so quiet” foi feito por Spike Jonze (Onde Vivem os Monstros, Ela) e ajudou a fazer a música ser mais conhecida em vários países. Em Post está uma série de características que a islandesa desenvolveria ainda mais em sua carreira. Um disco fundamental em sua carreira e para os fãs

Kate Garner

Kate Garner

Bruce Dickinson – Balls To Picasso (1994)

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Disco com o clássico do rock “Tears of the Dragon” completa 20 anos em muito boa forma

Por Lucas Scaliza

O que é:

Balls To Picasso é o segundo álbum solo de Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, lançado em 1994. É o primeiro disco solo de Bruce já fora do Maiden.

Histórias e curiosidades

Foi só em 1996 que Bruce Dickinson iria dar um susto em fãs e mudar bastante seu estilo e abandonar momentaneamente o heavy metal, mas em 1994 ele lançou Balls To Picasso, seu segundo disco solo de hard rock que continuava a dar indícios de como o inglês queria explorar uma musicalidade mais aberta que não era possível adentrar no Iron Maiden, banda que Bruce deixou após o exitoso Fear of The Dark, em 1993.

Em uma entrevista na época do lançamento do disco, Dickinson diz que seu primeiro disco solo Tattooed Millionaire (1990), gravado enquanto ele ainda estava no Maiden, foi divertido de fazer mas não era algo assim tão sério. Tattooed era um disco de rock, mas bebia das influências do rock setentista e oitentista. Ele também confessa que sempre foi um fã de Peter Gabriel, mas não de Genesis. Diz que a música estava mudando, a sociedade estava mudando e ele próprio mudava – uma série de mudanças que o levaram a gravar seu primeiro álbum, que é bem agressivo, mas nada perto do que fazia com o Maiden e com uma pegada de homenagem e reverência às suas influências. Tinha até um cover de David Bowie para “All the young dudes”.

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Em Los Angeles, Bruce Dickinson conheceu o guitarrista e compositor Roy Z, da banda Tribe of Gypsies, e foi com essa parceria e com esse time – acostumado às guitarras mais pesadas – que nasceu Balls To Picasso. Não foi tão simples assim, pois Bruce precisou gravar o disco três vezes até chegar ao resultado final. Antes de Roy Z e sua banda entrarem na parada, ele tocou com uma banda britânica chamada Skin. Depois com o músico e produtor Keith Olsen. É por isso que a versão deluxe lançada em 2004 contém um segundo disco com 16 músicas bônus, todos b-sides dessas outras sessões de gravação.

Em 1994, Bruce dizia como estava cansado do Maiden, embora gostasse da banda, dos fãs, dos companheiros de banda. Em sua opinião, ele estava fazendo o mesmo tipo de música há 12 anos e queria algo diferente – e algo diferente é o que o Maiden não faria. Dizia que o esquema para o Maiden era sempre o mesmo: lançar álbum, sair em turnê, lançar álbum, sair em turnê, vender discos para as mesmas pessoas e nunca para um público diferente. As coisas sempre iam bem na Europa, mas a América do Norte sempre foi um mercado complicado para a donzela de ferro.

Comercialmente, Balls To Picasso vendeu em seu primeiro mês a metade do que Tattooed Millionaire vendeu, mas o disco foi se espalhando e continuou vendendo ao logo do tempo. E “Tears of the Dragon”, a faixa mais longa e mais bem feita do disco, se tornou um clássico do hard rock, imediatamente reconhecível por seu dedilhado no violão, seu refrão forte e pelo solo de guitarra caprichado de Roy Z.

Aliás, o Tribe og Gypsies teve uma oportunidade de aparecer na cena rock’n’roll de Los Angeles e dos EUA como um todo após a colaboração com Bruce Dickinson. Segundo Roy, a história foi a seguinte: a Tribe estava gravando em um estúdio chamado Good Night L.A. durante a noite e a madrugada, uma forma de pagar menos pelas horas de estúdio. O lugar era do produtor Keith Olsen. Um dia, o engenheiro de som pediu que Roy chegasse mais cedo porque Bruce ia tirar um dia de folga. Quando o guitarrista chegou, viu Bruce curtindo o som da Tribe of Gypsies. Essa amizade gerou não somente Balls To Picasso, mas também os grandes Accident of Birth (1997), Chemical Wedding (1998) e Tyrany of Souls (2005).

Músicas e destaques

“Cyclops”: com quase 8 minutos de duração, é uma faixa que flerta com o heavy metal e mantém um intenso clima de mistério. Ela abre Balls To Picasso assinalando o quanto o trabalho será diferente do álbum anterior e dando um tom mais sério e grave para a sua música em carreira solo.

“Hell No”: misturar hard rock com passagens flamencas, uma dessas experiências que nunca seriam bem aceitas pelo Maiden e pelo público da banda. Mas Bruce e Roy Z fazem isso sem afetação. Há escala menor harmônica, mas há muita distorção também.

“Change of heart”: mais uma vez vemos em ação a escala menor harmônica para uma balada cheia de sentimento e que se permite trazer elementos de outras culturas para o disco. Isso faz sentido: Bruce é inglês, Roy Z tem ascendência mexicana e tudo foi gravado em Los Angeles, grande cidade cuja maior parte da população é ou tem ascendência latina.

“Shoot all the clowns”: menos tensa e menos sombria, mas ainda com guitarras nervosas e um vocal rasgado de Bruce Dickinson e uma passagem em rap.

“Sacred cowboys”: além da boa letra, apontando o dedo na cara da sociedade, é uma música que combina riffs acelerados com versos em speech de rap também e um grande refrão.

“Tears of the Dragon”: melhor música do disco e a mais famosa da carreira solo de Bruce Dickinson. Feeling e técnica extraordinários. A música fala, alegoricamente, da saída do vocalista do Iron Maiden. Roy Z conta que se inspirou em “Hotel California”, dos Eagles, e em “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin, para gravar o solo dessa música. Ele queria algo que conseguisse transcender o tempo. Ele conseguiu!

Passa no teste do tempo?

A carreira solo de Bruce Dickinson iria se consolidar alguns anos mais tarde, quando o inglês se voltou para o heavy metal em Accident of Birth e The Chemical Wedding, mas entre 1993 e 1994 ele queria se distanciar do metal e dos clichês do gênero. Balls To Picasso é um disco bem legal de hard rock com elementos do metal e outros elementos étnicos que realmente se distancia do Maiden. “Tears of the Dragon” é um destaque, uma música maior do que o álbum, mas o disco em si vale a pena até hoje. Acredito que chega aos 20 anos em boa forma. Acredito que as experiências em Balls To Picasso levaram não só a uma maior ruptura com Skunkworks, mas a maturidade musical dos três últimos discos da carreira solo.

Marilyn Manson – Portrait Of An American Family (1994)

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20 anos depois, a história desse álbum tem serial killers, casa assombrada, crítica aos Estados Unidos e uma mãozinha de Trent Reznor

Por Lucas Scaliza

O que é?

Portrait of an American Family é o primeiro disco de Marilyn Manson, lançado em 1994.

História e curiosidades

1994 foi um bom e interessante ano para a música. E foi bem diversificado, com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Nos Estados Unidos, estávamos em um momento grunge de pesar (a morte de Kurt Cobain) e de inovação com o ambicioso Superunknown, do Soundgarden, vindo para a luz do dia. Além disso, o Pearl Jam continuava em sua jornada alternativa com o Vitalogy. Foi o ano também que o punk voltou à pauta dos EUA impulsionado pelo hit “Basket Case” de Dookie, do Green Day. Do outro lado do Atlântico, o Pink Floyd lançava seu (até então) último disco de estúdio, The Division Bell, sem a participação de Roger Waters e embarca numa grande turnê, que deixava saudade antes mesmo de acontecer por ser a última. Ao mesmo tempo o Oasis fazia sua estreia com o animado Definitely Maybe, dando uma arrancada no britpop e afastando aquela tristeza grunge que havia no rock. Também foi o ano em que o Dream Theater lançou Awake e deixou claro que seguiria firme com o metal progressivo, um estilo que a partir dali iria se expandir e aos poucos retomar o interesse de parte do público por esse tipo de música.

Foi o ano também que vimos surgir Marilyn Manson. Antes um jornalista chamado Brian Warner, ele se revoltou contra o sistema e chegou despejando raiva e crítica ao famigerado way of life com Portrait of an American Family. Musicalmente, era algo entre o grunge e o metal, mas já continha elementos eletrônicos, berros e riffs pesados que definiriam o som da banda nos anos seguintes. Costumeiramente visto como figura polêmica, sobretudo após o segundo disco, Antichrist Superstar, Marilyn Manson cultivava uma figura sombria e corrosiva. Se nos anos 70 as mamães americanas achavam que uma banda divertida como Kiss eram “cavaleiros a serviço de satã” (Knights In Satan’s Service), o que pensariam de Manson que, este sim, chegava com letras ácidas, palavrões e fúria contra a sociedade?

(Bom, existe todo o episódio de Columbine para discutirmos o que pensaram de Manson, mas isso fica para outra hora.)

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Manson já fazia demo tapes de rock sinistro e subversivo antes de entrar em estúdio para o seu primeiro álbum. Foram essas demos que chamaram a atenção de ninguém menos do que Trent Reznor, o líder do Nine Inch Nails, e músico-produtor que viabilizou a estreia de Manson na música. Para esta oportunidade, o jornalista chamou amigos e músicos locais para fazer parte de sua banda – inclusive um baterista de verdade, substituindo a bateria programada que utilizava até então. A princípio, gravaram com o produtor Roli Mossimann do Celtic Frost, que fez o que Manson não queria: ao invés de preservar o som subversivo e sinistro do grupo, ele polia o material e deixava tudo mais palatável, com menos arestas. Trent Reznor sentiu que Manson estava certo e se voluntariou para mexer no material e fazer as coisas voltarem ao anormal. E é essa versão mixada por Reznor que foi lançada (embora a versão de Roli possa ser encontrada online também).

Como vocês já devem saber, Brian Warner escolheu seu nome artístico misturando Marilyn Monroe, o ícone do cinema, do glamour e da sensualidade dos anos 60 nos EUA, com Charles Manson, o serial killer que mostrou o lado negro do sonho hippie e também virou um ícone dos EUA, símbolo da monstruosidade humana.

Para retrabalhar o material com o novo produtor, o cantor alugou a casa de Sharon Tate para as novas mixagens. Tate foi uma das vítimas de Charles Manson e diziam que a casa era assombrada. Manson conta que durante as mixagens de “Wrapped in Plastic” o sample com a voz de Charles Manson que aparece logo no início de “My Monkey”, começou a surgir no meio da música, sem motivo ou explicação lógica e tecnológica aparente. Era o trecho em que o serial killer diz “Por quê uma criança iria matar sua mãe e seu pai?”. “A gente ficou totalmente assustado e pensamos que era melhor parar por ali”, Manson lembra. “Voltamos no dia seguinte e não havia problema nenhum. Os samples de Charles Manson não estavam mais na fita. Foi um verdadeiro momento sobrenatural que me matou de medo!”

Antes de Marilyn Manson se tornar o codinome de Brian Warner, era o nome da banda dele: Marilyn Manson & The Spooky Kids. O guitarrista e cofundador da banda, que permaneceu com Manson até 1996, é Scott Putesky, mas o nome de palco era Daisy Berkowitz – nome que combinava a Daisy do seriado Os Gatões (também símbolo de sensualidade) com David Berkowitz, conhecido também como o serial killer Son of Sam. Atualmente o músico – que já não se parece em nada com a figura apocalíptica da época da banda – luta contra o câncer em estágio 4 desde setembro de 2013. Putesky conta que no início o som e as letras do grupo eram para soar estranhas, como viagens psicodélicas. Com o tempo é que tudo foi ganhando contornos sociais que explodiram em Portrait of an American Family. Críticas às religiões, a mídia dos EUA, ao jeitinho americano e canções inspiradas por assassinatos (como “Get your Gunn”, baseada no assassinato do médico David Gunn na Florida. Veja abaixo mais informações).

Logo que o disco saiu a banda enfrentou protestos. Putesky lembra de um show em que iriam abrir para o Nine Inch Nails em 1994, em Utah. Era uma apresentação em um estádio, mas os donos do local proibiram o Marilyn Manson de subir no palco. “Foi fofo, porque o NiN podia tocar, mas nós não. Isso prova que eles não fizeram a lição de casa”, o ex-guitarrista ironiza, já que o NiN tinha altas doses de críticas, estranhezas e letras contundentes em seu repertório também. Putesky também diz que logo os pais dos adolescentes da época começaram a ouvir falar da banda e das supostas mensagens anticristãs que propagavam. Então os pais proibiam os filhos de ouvir a banda Marilyn Manson. Mas foi exatamente essa fama seguida de proibição que atraiu a juventude para o som (e mensagens) do grupo.

“Eu queria dizer [no álbum] um monte de coisas que disse em entrevistas. Mas queria abordar a hipocrisia dos talk shows na América, como a moral é usada como um crachá para te fazer parecer bom e como é muito mais fácil falar sobre suas crenças do que viver a partir delas”, diz Manson em uma entrevista. “Eu estava muito preso ao conceito de que enquanto crianças crescendo, um monte de coisas que nos são apresentadas tem um significado mais profundo do que nossos pais gostariam que enxergássemos, como o Willy Wonka e os Irmãos Grim. Então o que eu tentava dizer é que quando nossos pais escondem a verdade isso é muito mais prejudicial do que se nos expusessem a coisas como o Marilyn Manson pra começar”.

Não é por acaso que o disco abre com uma citação do filme A Fantástica Fábrica de Chocolates. A recriação torna o trecho do filme infantil assustadora e sombria, subterraneamente maléfica mesmo. E na sequência vem a música “Cake & Sodomy” (bolo e sodomia), cuja inspiração foi a programação da TV americana da madrugada, vendo o pastor Pat Robertson se esforçando para conseguir o número do cartão de crédito dos telespectadores. “I am the god of fuck”, ele canta. (Este ano o mesmo tema foi ironizado no clipe de “Fever”, do duo The Black Keys).

Além do cantor, que permanece ativo até hoje, todos os músicos que participaram da gravação de Portrait of an American Family deixaram a banda. Além de Scott Putesky, o baixista Gidget Gein foi demitido por consumir heroína demais. Algum tempo depois ele morreria em decorrência de uma overdose. O baterista Sara Lee Lucas também foi tirado por falta de compromisso e entusiasmo com o grupo.

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Músicas e destaques

“Lunchbox”: uma das faixas mais conhecidas do disco, traz uma ótima bateria e riffs de guitarra que já mostram a característica da banda. A música se baseia em uma leia de 1972 que proibia lancheiras de metal nas escolas da Flórida. É uma música sobre ser alvo de bullying mas querer ser uma estrela do rock.

“Get Your Gunn”: música com uma pegada mais industrial. Baseia-se no assassinato do ginecologista David Gunn, que provia serviços de métodos contraceptivos e abortos para mulheres no interior dos EUA. Morreu na Flórida, vítima de um homem antiaborto e fundamentalista cristão. Anos depois, Marilyn Manson diria que a morte de Gunn pelas mãos de um membro de uma organização pró-vida era a hipocrisia definitiva que havia visto no mundo pouco antes de chegar a idade adulta.

“Wrapped in Plastic”: música baseada no série Twin Peaks, criada e dirigida pelo diretor surrealista David Lynch. A série aos poucos vai mostrando as segundas vidas de todos os habitantes de uma pequena cidade americana e como todos têm sujeira a esconder debaixo de seus tapetes e como a realidade é muito mais dúbia, ambígua e sombria. É esse tipo de situação que essa música expõe.

“Dogma”: é o principal ataque do disco às religiões organizadas. Mas ao invés de simplesmente proferir o ódio contra elas, a canção inverte o jogo e diz que são as religiões que estão cheias de ódio e tentam sublimar tudo isso que as incomoda.

Passa no teste do tempo?

O disco está cheio de significados e conteúdos importantes em suas letras. Numa época em que o punk retomado pelo Green Day – só para citar um exemplo – não questionava mais nada, foi a música underground de Marilyn Manson que terminou fazendo a crítica aos EUA e ao mundo. Nesse sentido, o disco permanece atual, sem dúvida. Com o passar dos anos, a música da banda passaria por algumas transformações, mas as bases da estética do grupo está contida já neste primeiro disco.

Portrait of an American Family é um bom disco, mas não é o melhor de Manson. Mas, se comparado com seus últimos três álbuns pelo menos, possui muito mais energia e ódio criativo (se é que isso existe de fato). É claro que na época muita gente achou que tudo o que Manson fazia era só pose. E em alguma medida deveria ser mesmo. Mas parte daquele teatro todo era verdade.

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