2014

Funkadelic – First Ya Gotta Shake The Gate (2014)

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33 músicas para compensar 33 anos sem novidades. Quase uma ode à black music

Por Lucas Scaliza

Em 10 anos, o Funkadelic lançou 11 álbuns. O grupo, sempre liderado por George Clinton, fazia um funk e um soul de respeito com uma pegada rock’n’roll. Psicodelismo, alguma progressividade e muito groove eram os ingredientes da estética hippie que fizeram do Funkadelic – e do Parliament também, a banda irmã – uma das principais forças nos anos 70 que tentavam dar uma cara mais ousada para a música negra, indo bem além das pretensões comerciais das gravadoras Motown e da Stax. Com a virada dos anos 80, Clinton ficou menos rock’n’roll e mais voltado para a música negra no geral.

O último disco gravado e lançado logo na sequência foi The Electric Spanking of War Babies, em 1981. Depois desse, saíram apenas o By The Way of the Drum (2007), com músicas engavetadas de 1989 e o Toys (2008), com as sobras de discos de 1970 até 1972. Assim, foram 33 anos sem nada do Funkadelic.

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Para compensar, George Clinton reuniu um grande número de músicos e gravou o triplo de estúdio First Ya Gotta Shake The Gate, com 33 músicas inéditas, uma para cada ano de ausência. Nada de sobras e nada de demos dessa vez. Só material novo. São mais de 3 horas de som, mas não espere aquele Funkadelic da década de 70, uma volta às origens ou coisa assim. FYGSTG é uma extensa ode à black music, recheado de funk e soul, mas com muito hip hop, rap e R’n’B.

O disco físico saiu bem próximo ao Natal de 2014 e não recebeu a mesma atenção que o ótimo Black Messiah, do D’Angelo, que também não lançava nada há 14 anos, desde o aclamado Voodoo de 2000. Ocorre que D’Angelo continuou fazendo soul e funk de vanguarda e comprimindo tudo em um único disco bastante coerente. O Funkadelic, que também tem elementos de vanguarda, dividiu em três discos músicas boas, aquelas mais ou menos e outras um pouco sem graça. Numa extensão sonora dessas, é difícil manter um alto padrão o tempo todo, ainda mais cobrindo quatro décadas de música (sim, há ecos dos anos 70, 80, 90 e 2000 e além). George Clinton poderia ter cortado as canções que são mais do mesmo e lançado um álbum duplo “apenas”, mas em seus três discos que acabaram sendo lançados temos muitas faixas burocráticas, do tipo que dá vontade de pular mesmo.

Mas quando eles acertam, acertam em cheio. Tem muitas músicas excepcionais, daquelas de parar e prestar atenção, encarar a banda bem de frente e lembrar porque você gosta de Funkadelic e como certos grooves, vocais, guitarras e ritmos fizeram falta nesses 33 anos. Ah, e músicas com 7, 8, 9, 10, 11 e até 12 minutos existem e não são poucas.

Das 33 faixas, Clinton só não participou da composição de cinco. A lista de músicos é extensa: são 17 artistas creditados para os vocais, quatro tecladistas, quatro baixistas, dois bateristas, cinco guitarristas e ainda um violinista, um percussionista e um cara que tocou um instrumento aborígene chamado didjeridu.

“Fucked up”, a primeira a chamar a atenção, tem aquele clima gostoso, aquele baixo cheio de nuances e um tecladista tocando os acordes certos, sem falar na bateria, livre para criar viradas e alterar a dinâmica. Começa como um soul com cara de jazz e abarca até um rap ali no meio. Uma faixa que podia ser do D’Angelo, mas é do Funkadelic, no seu melhor exemplo de progressividade soul (!!!).  “Ain’t that fuckin’ kinda hard on you” é mais regular na forma, mas é um bom exemplo de esforço comercial do grupo, diferente de “Get low”, que soa muito planejada para as rádios. E “Snot n’ Booger” tem mais de 10 minutos e é o Funkadelic atualizando sua black music, entregando uma música que tem rap, refrãozinho de menina pop e um toque de soul na instrumentação.

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Com 12 minutos, “Mathematics of love” é uma daquelas faixas pretensiosas que nunca dispensamos. Meio jazz, meio pop romântico, um toque de modernismo e um piano tão alto quanto o vocal. “Creases” é um rap século XXI, cheio de loops e misturando samples de sons coletados a esmo com instrumentação. E logo na sequência vem “Not your average rapper”, que é o melhor rap de FYGSTG, direto ao ponto e sendo acessível sem tentar ser comercial.

No final do segundo disco, mais uma dobradinha que não passa desapercebida. “As in” é linda com sua orquestração e sua progressão de acordes, com sopro e uma interpretação vocal de Jessica Cleaves que é de tirar o chapéu. Sem virtuosismos e sem cantar lá no alto, “As in” é uma dessas músicas bem executadas e sem gorduras que tiram seu poder de uma estrutura bem montada. É ótimo que a faixa seja de uma beleza acima do normal, pois Jessica Cleaves, cantora de um grupo vocal negro na década de 60, faleceu em maio de 2014, aos 66 anos. Logo depois vem “Bernadette”, um soul de dançar e com um refrão de elevar a alma que lembra os momentos mais iluminados de Marvin Gaye. Imperdível. É uma das faixas que não tiveram a mão de Clinton na composição. Sozinhas, essas duas faixas são melhores que todo o álbum mais recente do Prince, Art Official Age.

O que faz “Jolene” brilhar é uma insistente guitarra com overdrive que perpassa todos os quase 8 minutos da faixa, sujando cada versão e refrão com uma pegada rock’n’roll. “Dirty Queen” é a única faixa completamente rock e metal do disco e também não tem o dedo de Clinton na composição. Embora soe deslocada dentro de todo o disco, ela tem brilho próprio.

“Catching boogie fever” é um funk cheio de ritmo e sintetizadores, mas orgânico e não contaminado pelo bate-estaca eletrônico. A climática de “The wall” parece algo que você poderia ver num disco do Kanye West e “Talking to the wall” é uma balada que elege o baixo como instrumento protagonista.

“Where would I go”, mais um soul de respeito, está inundada de vocais e backing vocais competentes e uma banda cheia de feeling. E “Yesterdejavu”é boa de ouvir e vem com ares de canção especial: o tecladista é Bernie Worrel (membro fundador do Parliament-Funkadelic e trabalhou com o Talking Heads); o baixista Michael B. Patterson e o baterista Lawrence Hilson, de quem não se sabe muita coisa, fazem um excelente trabalho. E a guitarra que você ouve e que te deixa curioso é de Michael Hampton, lendário guitarrista do Funkadelic que iniciou sua carreira aos 17 anos carregando seu timbre de fuzz e que substitui o excelente Eddie Hazel. Para ficar perfeita, só faltou um final a “Yesterdejavu” que não fosse fade out.

Por fim, cito “The Naz”, a faixa com os vocais bem graves de Sly Stone, o cara que ajudou a colocar ácido no funk e no soul entre os anos 60 e 70, integrando-se com o Sly and the Stone Family no mapa da psicodelia americana.

Como se vê, um álbum cheio de momentos especiais. Tem várias músicas que não chegam lá, como “Pole power” e “Meow meow” que apesar das boas ideias, se perdem em repetições em vez de suas composições se concentrarem apenas no que é substância. Esse talento para composições que não enrolam e são precisas e sem “gorduras” é o que vimos, por exemplo, o Opeth apresentar com Pale Communion (2014), que acabou eleito um dos melhores do ano.

Não está claro se o Funkadelic voltou para ficar, mas aí está um novo disco cheio de músicas acessíveis, algumas que dá para pular sem problema, passagens virtuosas, muitas boas ideias e uma vontade de ser contemporâneo ao mesmo tempo em que carrega seu DNA dos anos 70. Uma salada R’n’B, é verdade, e mais do que um poderoso funk e soul, é um longo tributo a cinco décadas de black music.

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Moby – Hotel: Ambient (2014)

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Moby relança disco de música ambiente que se completa com a imaginação do ouvinte

Por Lucas Scaliza

Em 2005, quando Moby lançou o seu animado e pop disco Hotel, lançou também um gêmeo dele chamado Hotel: Ambient. Mas este foi o gêmeo que nasceu mais tranquilo e melancólico. Menos um irmão até do que uma contraparte. Se Hotel é o som para estádios e casas lotadas agitarem, Hotel: Ambient é para o interior de sua mente apenas, mesmo que o ouça em um lugar aberto. Como o nome diz, é um disco de música ambiente.

Nove anos depois de seu lançamento – e de seu aparente desaparecimento no mercado – Moby percebeu que não só o disco estava fora de catálogo como ele próprio não tinha uma cópia em sua casa, em seu estúdio. Então ele relançou o álbum pelo seu próprio selo, o Little Idiot, incluindo três novas faixas: “May 4 Two”, “Spaired (Long)” e a enorme “Live Forever (Long)”. Ah, o relançamento vem em CD, formato para iTunes e em vinil.

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Se você é fã de música ambiente e lounge, encare sem medo essa contraparte gêmea. Se é fã de Moby, provavelmente deverá gostar também, principalmente se gosta do lado do produtor, compositor, DJ e cantor americano que destaca mais as paisagens sonoras do que ritmos e melodias. Não me entenda mal, Hotel Ambient é bem servido de ritmo e melodia, mas não é pulsante e nem melodiosamente comercial. A preocupação musical aqui é criar texturas, construir um cenário e dar forma aos sentimentos apenas com sons, deixando espaço para que as emoções, os humores e principalmente a imaginação de cada ouvinte complete cada faixa com seu próprio subconsciente e inconsciente.

Diria, usando a minha imaginação e o que deve estar contido em meu sub e inconsciente, que o disco é tanto noturno quanto submarino e aeroespacial. Suas primeiras faixas, “Swear”, “Snowball” e a sensível “Blue paper” evocam algo urbano, mas uma urbanidade noturna, de luzes piscando, carros passando, pessoas voltando para casa, apenas luzes de postes guiando melancolicamente o caminho. Uma abordagem que foi utilizada por ele no disco Wait For Me (2009). Também dentro desse espectro está uma versão de quase 11 minutos da ótima “Homeward Angel”, faixa instrumental que fecha o gêmeo pop Hotel.

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As três faixas seguintes me levaram para baixo d’água. “Chords sounds” é o processo de submergir; “Not sensitive” é como navegar tranquilamente por corais, algas e toda a diversidade marinha noturna (tem até som de bolhas para ajudar você a se situar nesse ambiente, para não dizer que minha imaginação está indo muito longe); “Lilly” é como o despertar ou a descoberta de algo muito curioso ali na imensidão da água; “May 4 Two” é a imersão completa, uma faixa densa e grave; e “The come down” soa como se fosse música vinda de dentro de uma concha na beira da praia. De certa forma, todas essas músicas com um clima mais submarino possuem essa ressonância, mas ela está mais aparente em “The come down”. Moby voltou a esse tipo de cenário sonoro no excelente Destroyed (2011).

E as cinco últimas faixas me levaram aos céus, num voo (ou gentil queda livre) que parece nunca acabar e nunca sair da estratosfera. Um limiar entre o espaço terreno e o vácuo espacial. É a minha seção preferida do disco. “Overland”, “Live Forever” e “Aerial” se desenvolvem lentamente e conduzem sua audição sem solavancos. O baixo sintetizado de “Aerial” impõe um andamento e um ritmo que não se alteram. “Spaired (Long)” mantém o clima das músicas anteriores, mas os sons de sintetizador ou acordes de teclado soam mais agudos e invasivos, mas nada que lhe atrapalhe. Ainda são as ondas graves, em eterno loop, que impõem o ritmo como quem diz “Segura firme!” E os 15 minutos de “Live Forever (Long)” encerram o disco propondo ainda um último passeio. O melhor passeio.

Eu gosto de dormir com música e este Hotel: Ambient tem sido perfeito para essas ocasiões. Mesmo o Moby diz que é o tipo de música que ouve quando está ansiosa, quando precisa de ajuda para dormir ou quando está em algum engarrafamento na 101 de Los Angeles. “É um disco bem calmo e silencioso. Só queria relança-lo para as 10 pessoas que ainda compram discos”, disse o DJ e produtor ao Hollywood Reporter.

Entre as influências de Moby, principalmente para a música ambiente, estão os compositores clássicos de vanguarda Phillip Glass e Steve Reich, o produtor e músico Brian Eno, o lado B do vinil Heroes (1977), de David Bowie, que é mais experimental, e a música de Derrick May, o cara de Detroit que deu forma a música techno.

Se você é cineasta, ou algo assim, saiba que Hotel: Ambient está liberado para que você use as faixas em sua produção artística. Neste site há uma lista completa de músicas que Moby disponibiliza para essa finalidade.

Em 2013 ele lançou o ótimo Innocents. Logo no início de 2014 saiu o incrível ao vivo duplo Almost Home: Live at the Fonda, em que Moby toca o novo álbum na íntegra na primeira parte e depois repassa sua carreira e seus maiores sucessos escolhidos pelo público.

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Damon Albarn – Live At The De De De Der (2014)

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Com participações muito especiais de De La Soul, Kano, Graham Coxon e Brian Eno e dá uma geral em sua carreira em duas noites no Royal Albert Hall, em Londres

por Lucas Scaliza

Após lançar um dos melhores discos do ano, Damon Albarn fechou 2014 com dois shows em Londres, no famoso Royal Albert Royal. Ele não levou aos palcos apenas o seu primeiro trabalho totalmente solo – o inventivo, melancólico e ótimo Everyday Robots –, mas toda a sua carreira.

Os dois dias de shows foram registrados nos dois ao vivo Live At The De De De Der, um do dia 15 de novembro e outro do dia 16. O repertório de ambos é idêntico e têm músicas solos, do Gorillaz, do The Good, The Bad & The Queen e, claro, do Blur.

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Um dos destaques é ver como Albarn adaptou canções de Everyday Robots para funcionarem ao vivo. Baixo, bateria e piano fazem um excelente trabalho nesse sentido, entregando o mesmo clima encontrado no álbum de estúdio, mas com aquele gosto de espontaneidade, de recriação ao vivo, já que alguns efeitos eletrônicos ficaram de fora (mas há o teclado de Mike Smith e um quarteto de cordas para completar “Lonely press play”, por exemplo, e os efeitos concretistas característicos de “Everyday robots” estão lá também).

Toda a melancolia de “Hostiles” também fez parte do show no Royal Albert Royal. “Photographs” ganhou um final climático cm direito a improviso no piano e uma dinâmica crescente e arrebatadora que faz a ponte para animada “Kingdom of Doom”, do TGTB&TQ. “You and me” e Hollow ponds” fecham o primeiro disco. A interpretação de Albarn em “You and me” é uma das melhores partes deste ao vivo, principalmente quando canta apaixonada e sofridamente os últimos refrãos (“Blame, blame, blame me when the twilight comes”).

Damon Albarn alternou suas músicas novas com velhas conhecidas do público, nunca deixando que a melancolia tomasse conta por completo do clima do show. Assim, mandou uma ótima versão de “Tomorrow comes today”, “Slow country”, “Kids with guns”, “El mañana” e “Don’t get lost in the heaven”, todas do Gorillaz ao longo do show. Como é um músico interessado em diversas formas de música (opera, rock, pop, funk, hip hop, eletrônica, etc), mandou dois covers de música do Mali: a instrumental “Bamako city” e a bela “Sunset coming on”, ambas com a participação dos músicos Afel Bocoum e Madou Sidiki Diabete.

Albarn aqueceu os motores do Blur mandando com sua banda solo “Out of time” e “All your life” e saiu do palco. Ao voltar para o primeiro bis, chamou ao palco Graham Coxon, guitarrista do Blur. Ao lado dele, Damon mandou a tríade “End of a century”, “The man who left himself” e uma versão de 9 minutos de “Tender”, para não deixar nenhum fã do grupo inglês triste.

O segundo bis começou com “Mr. Tembo”, uma das únicas músicas animadas de Everyday Robots (embora seja sobre um elefante que morreu) com a participação do coral gospel The Leytonstone Mission Choir. O trio de rappers americanos De La Soul subiu ao palco logo depois e entoaram um riso característica para dar início a “Feel good Inc.”, sucesso de Demon Days (2005), do Gorillaz. Eles incendiaram o show. Kano, um rapper inglês, tomou seu lugar para um dos maiores sucessos de Albarn e sua banda animada, entregando uma versão longa e cheia de groove de “Clint Eastwood”. Esperto, Kano não seguiu a letra original da música e deu ao público uma nova versão, cheia de improvisos, vigorosa e violenta.

Por fim, o produtor Brian Eno, uma figura de vanguarda na música europeia, se juntou a Albarn e sua banda para encerrarem o show com a ótima “Heavy seas of love”, música que também fecha Everyday Robots.

Acompanhado de um quarteto de cordas, um coral formado por seis cantores, várias participações especiais e Mike Smith no teclado, Jeff Woothon na guitarra Seye Adelekan se dividindo entre baixo e ukelelê e Pauli Stanley-McKenzie na bateria, Damon Albarn coroa com Live At The De De De Der um ano em que sua musicalidade deu sinais de vida pulsante e criatividade que não cessa. Um jovem que iniciou sua carreira no britpop agora atinge patamares bem mais elevados e como bem disse o Bruno Chair, o outro editor do Escuta Essa!, Damon não precisa provar mais nada para ninguém. Um artista em um de seus melhores momentos, desfrutando de amizades importantes e entregando dois shows perfeitos no Royal Albert Hall.

Os 20 Melhores Discos de 2014

Preparamos uma postagem especial para revelar os melhores álbuns de 2014. Decidimos gravar em vídeo a nossa justificativa para cada uma de nossas escolhas.

Importante dizer que não ranqueamos os 20 álbuns. Seria muito difícil escolher tão milimetricamente qual deveria ser melhor ou pior que outro. Portanto, a ordem da revelação não revela a superioridade de um sobre o outro. São 20 álbuns, todos eles valem muito a pena em nosso humilde julgamento. Contudo, dentre nossas 20 escolhas, separamos dois que elegemos os melhores e mais significativos de 2014. Os dois melhores estão no final do vídeo e mereceram um espaço maior de discussão.

A lista reflete a nossa opinião sobre o que foi o ótimo ano de 2014 para a música. Muita coisa boa acabou ficando de fora, nós sabemos, mas tentamos separar um pouco do que de melhor foi lançado entre diversos estilos musicais diferentes. Use os comentários para deixar a sua lista ou discutir/criticar a nossa. Todos os discos eleitos possuem uma resenha crítica no Escuta Essa!. Clique no nome do álbum abaixo para acessar a resenha em outra janela.

Obs. Há dois trechos do vídeo em que houve uma falha na captação do som. Contudo, ainda é possível ouvir bem nossa discussão, é só aumentar um pouquinho o volume, ok?

Intro: 0’00”
– Transatlantic “Kaleidoscope”: 0’25”
– Foo Fighters “Sonic Highways“: 2’32”
– Robert Plant “Lullaby and… The Ceaseless Roar“: 4’50”
– Gong “I See You“: 5’51”
– Flying Lotus “You’re Dead“: 6’48”
– Thiago Pethit “Rock’n’Roll Sugar Darling“: 8’29”
– Tiê “Esmeraldas“: 10’37”
– Sharon Van Etten “Are We There“: 11’24”
– Mastodon “Once More ‘Round The Sun“: 13’01”
– Rise Against “The Black Market“: 14’30”
– Cloud Nothings “Here And Nowhere Else“: 15’52”
– Mark Lanegan Band “Phantom Radio“: 17’06”
– Silva “Vista Pro Mar“: 18’23”
– deadmau5 “while(1<2)“: 20’38”
– The Antlers “Familiars“: 21’52”
– Opeth “Pale Communion“: 23’16”
– Criolo “Convoque Seu Buda“: 26’00”
– Jack White “Lazaretto“: 27’56”
– Damon Albarn “Everyday Robots“: 30’29”
– Pink Floyd “The Endless River“: 34’38”
Créditos: 40’30”

O mesmo vídeo acima, mas dividido em duas partes, caso facilite para você.

 

Melhores Músicas de 2014

Clique no nome da música para ouvi-la no YouTube!

Jack White – Lazaretto
The Black Keys – Weight of Love
Damon Albarn – Heavy Seas of Love
Robert Plant – A Stolen Kiss
Mark Lanegan Band – Harvest Home
Criolo – Cartão de Visita
Tiê – Gold Fish
Beck – Waking Light
Banda do Mar – Pode Ser
Lenny Kravitz – New York City
Flying Lotus – Never Catch Me
Rise Against – The Black Market
The Antlers – Revisited
Real Estate – Primitive
Skank – Alexia
MØ – Never Wanna Know

Björk – Biophilia Live (2014)

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Inovação, recriação e proximidade com a música erudita

Por Lucas Scaliza

A era Biophilia, a mais ambiciosas da carreira de Björk, chega ao fim com o lançamento de Biophilia Live, um disco duplo ao vivo que documenta um show da islandesa em Londres, na Alexandra Palace. De 2011, quando o disco de estúdio Biophilia foi lançado, até agora, Björk se lançou numa grande turnê mundial que passou por diversos festivais importantes, uma série de shows solos em Nova York e na capital inglesa e quase passou pela América do Sul em 2012. Bateu na trave: a cantora chegou a confirmar  shows em Buenos Aires e em São Paulo, no festival Sónar, mas cancelou por conta de um problema na garganta. Em São Paulo ela foi substituída pelos veteranos do Kraftwerk. Após uma cirurgia, ela disse que estava cantando ainda melhor do que antes, e seguiu com sua turnê.

O projeto não era apenas musical. Envolvia o meio-ambiente, uma maior consciência dos seres vivos no planeta e no contexto geral do cosmos e o papel da tecnologia em tudo isso. Não a toa, Björk levou “instrumentos” criados especialmente para reproduzir os sons de Biophilia ao vivo, um show de visual e de tecnologia. Lançou também um aplicativo que complementava o sentido ético do projeto.

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Toda a base de Biophilia Live é o Biophilia de 2011 e suas faixas ricas em graves e timbres ameaçadores. Não há entre as 20 faixas nenhum medalhão de seu repertório. “All is full of love”, “Pagan poetry”, “Unravel”, “Hyperballad” e a magnífica “Wanderlust” ficaram de fora. Mas há “Hidden place”, “Isobel”, “Possibly maybe”, “Declare Independence” e “Mouth’s cradle”, todas executadas com os aparelhos e com a estética das músicas do álbum Biophilia. Ou seja, estão um pouco transformadas.

Além de um aparato sonoro inovador e de uma concepção visual bastante afetada, mas que ajuda a representar a história cosmogônica que Björk quer encenar, a cantora está cercada de seu habitual coral de mulheres. Todas as faixas de seu último álbum são executadas ao vivo. “Thunderbolt” com seus ruídos que parecem provenientes de uma série de descargas elétricas; “Crystalline” e seu ritmo complicado que finda com uma bateria eletrônica violenta. A estranha “Hollow”, que vai sendo preenchida aos poucos. “Dark matter”, praticamente carregada pelos vocais de Björk e do coral, tendo como acompanhamento apenas uma espécie de emulação de órgão. Cada canção possui alguma instrumentação diferente e andamento peculiar. Algumas, como “Moon”, “Solstice” e “Virus”, são mais melódicas e acessíveis. Mas a grande maioria são músicas que exigem do ouvinte. Ela chega a usar, em estúdio e neste ao vivo, uma bobina de Tesla, um transformador ressonante inventado pelo cientista Nikola Tesla. Não é para qualquer artista e, imagino, nem para qualquer público.

Já faz algum tempo que críticos musicais listam Björk na categoria de música eletrônica mais por conveniência do que por precisão estética. Sim, ela usa muita programação (e mais ainda ao vivo, para não precisar excursionar com vários músicos diferentes), bateria eletrônica e sons processados por computadores e sintetizadores. No entanto, sua estrutura musical, a forma de cantar e a vanguarda de sua composição a colocam numa região fronteiriça com a música erudita. A princípio, quando se fala de música erudita, pensa-se logo em peças instrumentais executadas por uma orquestra. No caso de Björk, ela até usa partes de orquestra em estúdio, mas a questão é que mesmo os equipamentos eletrônicos não deixam de produzir música – e música ambiciosa. Embora sejam instrumentos usados há décadas na música pop, eles podem sim avançar em direção à música erudita. Acredito que não seja uma questão de QUAL instrumento é usado, mas de COMO e com qual INTENÇÃO.

Biophilia Live apenas aprofunda essa percepção de que a música de Björk tem muito a ver com o erudito. A forma como ela usa as notas graves de seus equipamentos-instrumentos dá uma ideia de como fazer a força da gravidade ser sentida em termos de onda sonora. Algo realmente inovador, embora de difícil assimilação. Mas ao mesmo tempo que diversas de suas faixas caminhem nesse meio-fio, outras ainda se mantém dentro do reino pop. Pelo menos até definirem o que é ser erudito e se toda essa carga de complexidade, ambição e sons intrincados de Björk ainda pode ser chamada, nem que seja de longe, de pop.

“Hidden place” se apropria do coral feminino para substituir os instrumentos que não estão no palco, ao mesmo tempo em que outros ruídos eletrônicos são introduzidos para completar a música. “Isobel” também perdeu aquela batida dançante e ganhou contornos mais sóbrios e econômicos. Falando em economia, a recriação de “One day” é a maior adaptação deste disco ao vivo, tendo que confiar apenas em uma percussão mais tribal e assovios para completar algumas melodias da gravação original. “Possibly maybe” passa pelo mesmo processo de adaptação.

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Uma vez que Björk e sua equipe decidem o que vai excursionar com eles e entrará no palco, todo o resto do repertório é adaptado. Durante a turnê de Volta (2007), seu coral feminino estava munido de instrumentos de sopro. Dessa forma, várias músicas ganharam arranjos para esses instrumentos, diferentes dos usados nas gravações originais. Não deixa de ser uma estratégia interessante e inteligente, capaz de sempre atualizar a música dela e mostrar diversas maneiras de ser recriada. Em Biophilia Live é exatamente o que ocorre.

Desde o princípio, Biophilia Live foi concebido para ser um projeto audiovisual. Embora o disco seja muito bom, seu sentido ético e estético só pode ser completamente aproveitado quando assistido. O visual importa. É mais como uma ópera (outra aproximação da música erudita, veja só) do que um show. Portanto, não deixe de ouvir e nem de VER este disco, que conclui a era Biophilia.

Em 2015 Björk lançará um novo disco de inéditas.

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Interestelar – trilha sonora de Hans Zimmer (2014)

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Trilha vai do minimalismo aos arroubos sonoros com ajuda de um órgão de tubos. Mas no centro de tudo está uma composição intimista

Por Lucas Scaliza

No começo, era apenas um ruído intermitente. Começo da criação do mundo? Não, o início da trilha sonora do alemão Hans Zimmer para Interestelar (Interstellar, 2014) filme mais recente do diretor Christopher Nolan.

Ainda que não deixe suas marcas para trás totalmente, Zimmer consegue sim se distanciar de suas últimas trilhas compostas para Nolan, sobretudo na recente trilogia Cavaleiro das Trevas e para o filme O Homem de Aço, filme do Superman dirigido por Zack Snyder e produzido por Nolan. A ambição do diretor em Interestelar é aliar ficção-científica a dramas humanos, exploração espacial e catarse, cérebro e emoção. E a música não podia ser a mesma de um filme de ação de super-herói, épica com baterias fortes e orquestração virtuosa.

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Para Interestelar Zimmer ainda deixa seus crescendos característicos conduzirem a emoção do público, mas aposta em algo mais paciente, mais misterioso. A trilha é um misto de sons que evocam sonhos, como a faixa “Dust”, e algo que soa maravilhoso e inexplicável, como “Cornfield chase”, com suas notas em looping que acabam se tornando recorrentes no filme. Repete-se, por exemplo, na faixa “Day one”, quando nosso protagonista encontra uma base escondida da NASA e recebe a proposta de uma missão tão incerta quanto instigante e inédita.

O filme é um grande spoiler. Difícil escrever sobre ele sem esbarrar em alguma revelação que possa ser capital para a história. Digamos que envolve um engenheiro e ex-piloto que precisou desistir da carreira aerodinâmica para se tornar fazendeiro. Uma praga acabou com a alimentação do planeta e gigantescas tempestades de poeira tornam a vida de quem permanece vivo uma preocupação constante. A NASA foi desativada, pois o mundo precisa comer, não de respostas ou perguntas vindas do espaço. Até a história nos livros didáticos foi mudada. Mas olhar para cima e se perguntar o que há lá na imensidão do firmamento é quase um instinto humano. Cooper (Matthew McCounaghey), o protagonista, não consegue deixar de sonhar com isso. Não a toa a primeira cena do filme é um acidente que sofreu anos atrás, antes de tudo dar errado. E sua filha tem o mesmo interesse científico do pai.

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Embora Nolan seja um realizador cerebral e bastante pretensioso, a trilha sonora não almeja transcender os limites do gênero musical. Embora em certos momentos Zimmer seja mais estridente e pesado, dá para sentir a procura pela humanidade em suas escolhas. “Stay”, por exemplo, é a trilha de um dos últimos momentos familiares do filme, quando a filha pede ao pai que não se vá. É basicamente a mesma nota ruidosa que abre o filme e a trilha, quando Cooper sonha com o acidente. Isso demonstra uma ligação entre ambos – ligação mais profunda (e mais relativa, nos termos da física moderna) – que só entenderemos no último ato. É a música dando pistas das ligações entre histórias e personagens. Mas “Stay” ganha corpo conforme a dramaticidade em cena aumenta. Não se torna explosiva, como nos filmes do Batman, e nem tem um “baaaum”, de A Origem, mas é cortante e enervante.

Enquanto o filme está em solo terreno, toda a trilha é construída de forma a criar ou acompanhar tensões, seja uma briga de pai e filho, o medo de uma tempestade de poeira ou a caçada a um drone. No espaço – e dois terços do filme se passam lá – a trilha ganha contornos mais sci-fi. Zimmer sabe onde está pisando e não tenta reinventar a roda. Além disso, suas características ficam mais evidentes. A entrada no buraco de minhoca, por exemplo, é acompanhada por um pulsação que acaba engolida por sons altos e duros de orquestração.

“Mountains” é uma das músicas mais originais, combinando sons orgânicos (criando uma batida continua) que acaba desembocando em uma parede sonora do tamanho da onde gigante que se abate sobre a nave de Cooper em um dos planetas que visitam. E o órgão de tubo de Zimmer soa poderoso e libertador. A ideia de usar esse órgão, cujo som foi gravado direto de uma igreja em Londres, foi ideia do próprio Nolan. Para o diretor, o uso desse instrumento na trilha sonora desse filme tinha tudo a ver. Segundo Zimmer, o órgão de tubos era a máquina mais complexa inventada até o século 17, sendo superada apenas pelo telefone. “Pense na forma do instrumento: aqueles tubos eram como propulsores de naves espaciais. E poucos filmes, a não ser alguns filmes de terror góticos, tinham músicas escritas para ele”, o compositor justifica.

Já no final do filme, em uma das cenas mais tensa, “Coward” surge mostrando a boa mão de Zimmer no órgão de tubos. Notas que constroem o tema da canção vão sendo substituídas por um fraseado mais rápido e agudo. E há espasmos duros que lembram a materialidade da percussão em A Origem e na trilogia Cavaleiro das Trevas.

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Vários instrumentos, como o piano de “Running out”, soam como se tocados em quartos vazios, reverberando sozinhos. É a típica trilha para filmes espaciais que tenta emular ao mesmo tempo o vazio, a solidão e o mistério da imensidão escura. O teclado em “I’m going home” evoca tudo isso e acrescenta uma desilusão fantasmagórica ao som lânguido e melodioso que executa o tema da composição.

Vale ressaltar que Nolan tenta criar aqui uma ficção científica classe A, mirando alto para 2001: Um Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, filme em que a trilha sonora é marcante. Mas também o silêncio é marcante nesse tipo de produção, tendo a capacidade de ressaltar o que se passa na tela e testar a paciência e a atenção dos espectadores. Embora tenha 2h45 de filme, a trilha sonora cobre apenas 1h11 de filme.

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Não se trata de um filme intimista. Christopher Nolan almeja coisas grandes, sua ambição cinematográfica é grande. A trilha, ao que parece, sempre parte do minimalista para algo com mais notas e mais intensidade. Não é o mesmo pulso de Atticus Ross e Trent Reznor na trilha de Garota Exemplar. Interestelar também se leva muito a sério, então a música acaba não sendo parte da vida dos personagens como em Boyhood e Guardiões da Galáxia. E essa – digamos assim – frieza é uma característica tanto de Hans Zimmer quanto do diretor Christopher Nolan.

Interestelar é um filme para dividir opiniões. Ao mesmo tempo em que possui diversas qualidades, possui também problemas narrativos que um diretor experiente como Nolan deveria saber deixar de lado. A trilha sonora funciona e tem ótimas sacadas, mas não é tão inventiva quanto a de Reznor e Ross, por exemplo.

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Mas para que não reste dúvidas, a história do filme é sobre pais e filhos, não sobre o espaço em si. A prova disso está na música:

Nolan deu uma história sobre a relação de um pai com seu filho para Zimmer ler e depois escrever uma música baseando-se naquilo. Era uma folha escrita em máquina de escrever. Quando terminou, Zimmer telefonou e Nolan foi até seu estúdio prontamente. O músico tocou a composição intimista pela primeira vez sem olhar para o diretor. O diretor sabe que o filho de Zimmer vai se tornar um cientista, eles são amigos há algum tempo. Ao terminar de tocar, Nolan disse: “Acho melhor ir embora e escrever esse filme”. “Mas que filme é esse?”, questionou o compositor. Pela primeira vez, então, Nolan detalhou para alguém sua ideia e o tamanho do universo que exploraria. Confuso, Zimmer perguntou se sua composição era relevante para aquela história, já que era uma música intimista sobre um pai e um filho. “Sim”, o diretor respondeu, “mas agora eu sei qual é o coração do filme”. Esta pequena peça musical é o tema que ouvimos pouco depois do início e no fim do filme.

Zimmer compôs todas as faixas em seus computadores e com a ajuda de sintetizadores. Ele tocou cada nota. Somente depois de ter uma boa ideia de como cada música ia soar é que encontrou músicos reais para tocar cada instrumento. O órgão de tubos é um Harrisson & Harrisson de 1926, instalado em uma igreja londrina construída no século 12. Roger Sayer, o diretor musical dessa igreja, assumiu a difícil missão de usar o órgão para dar vida às partituras de Zimmer. Usou ainda 34 instrumentos de cordas, 24 sopros, 60 vozes em coro e quatro pianos. Mas não é uma trilha que soa como música clássica. A mixagem final deu uma cara mais sci-fi e um tantinho eletrônica. E é o próprio Zimmer quem toca o piano solitário de “Message from home”, que acompanha uma das cenas mais tristes, pouco antes de chegarem a Saturno e toda a aventura começar.

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Pain of Salvation – Falling Home (2014)

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Muito feeling e muita musicalidade em novo registro acústico e poderoso

Por Lucas Scaliza

Falling Home desce fácil. O novo disco da banda sueca de rock progressivo Pain of Salvation é extremamente musical e cheia de feeling, um registro acessível para quem não conhece o trabalho da banda ainda e uma obra que apresenta versões retrabalhadas e até surpreendentes de músicas já conhecidas.

Não é  a primeira vez que Daniel Gildenöw e Cia. gravam um acústico. Em 2004 eles lançaram o excelente ao vivo 12:5, que mostrava muitos clássicos da banda substituindo as guitarras pelos violões. Lá estavam “Second love”, “Undertow”, “Ashes”, “Oblivion ocean”, “Winning a war” e “This heart of mine”. A única canção que estava em 12:5 que é refeita em Falling Home é “Chainsling”.

O álbum abre com “Stress”, uma das músicas mais malucas que o PoS gravou no primeiro álbum, Entropia (1997), cheia de alternância de dinâmica e de compassos. A versão acústica mantém tudo isso e com roupagem não apenas roqueira, mas flertando muito com jazz. Tão logo começa, ouvimos o teclado fazer a citação de “The immigrant song”, do Led Zeppelin. É de abrir um largo sorriso já de saída. “Linoleum”, da fase mais recente da banda, ganhou contornos mais suaves, sobretudo nos refrãos, mas mantém passagens que nos lembram da agressividade da gravação original.

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Já “To the shoreline” e “1979”, ambas de Road Salt Two (2011), permanecem fiéis à gravação original, que já contava com violões e o formato canção que geralmente é facilmente transposto para o formato acústico. O vocal do novo guitarrista, Ragnar Zolberg, é posto à prova no refrão de “To the soreline” e passa com louvor. “Chainsling”, uma velha conhecida, também muda pouco, mas ganha nuances mais agressivas neste disco do que na versão de 12:5, mais uma vez com Zolberg assumindo os vocais mais altos.

“Mrs. Modern Mother Mary” e “Flame to the moth”, ambas de Scarsick (2007) também se parecem bastante com suas versões originais. Na primeira, mantiveram o compasso complicadinho e os violões soam como um teclado, criando uma redoma suave e até um pouco psicodélica. Para a segunda, cortaram um trecho agressivo demais que não ficaria bem no formato acústico. Usam também bastante da escala menor melódica, dando um ar todo espanhol a certos trechos da reinterpretação. Ficou interessante, mas fica aquele sentimento de que poderia ter sido melhor.

“Spitfall”, também do disco Scarsick, é originalmente um rap para criticar artistas de rap que acabam se tornando muito artificiais e hipócritas. Como transformar isso em uma boa faixa acústica? A solução encontrada pelo PoS, pelo menos neste caso, foi abortar o speech do rap que havia nos versos da música para um tipo mais narrativo de cantar e com arranjos que adaptam muito bem o papel de guitarra, baixo e teclado na gravação original.

Há dois covers em Falling Home. “Holy Diver”, de Ronnie James Dio, virou uma versão jazz bastante diferente da original e é uma das surpresas do disco. “Perfect Day”, de Lou Reed, continua sendo uma balada emocional que ficou excelente na interpretação vocal de Gildenlöw. A musicalidade da banda é tão grande que fazem u ótimo trabalho seja mantendo a canção em seus parâmetros originais como imaginando-a totalmente diferente.

Fechando o acústico, “Falling Home” é uma balada folk, bastante levada pelos violões e que ganha corpo com os vocais agudos de Zolberg. O PoS já gravou várias baladas, mas essa é a que soa mais como uma canção pop acessível.

Falling Home está pronto há vários meses, mas está sendo lançado só em novembro devido a uma série de problemas enfrentados pela banda, incluindo uma internação por quatro meses devido a uma infecção de bactéria carnívora que começou a devorar as costas de Gildenlöw. Recebeu alta, voltou para casa, para sua esposa e seus três filhos, mas por pouco tempo. Engatou logo shows pelos Estados Unidos (com tempo para se esbaldarem por Nova Iorque) e alguns outros pela Europa (foram até headliners em um festival polonês e tocaram no Be Prog My Friend em Barcelona, em um lineup que tinha também Opeth e Anathema).

Embora não seja um esperado álbum de inéditas do Pain of Salvation, Falling Home sacia a sede por algum material novo da banda. E é um acústico que vale a pena. Toda a variada musicalidade só nos deixa mais ávidos para saber qual será o próximo passo do grupo, que tem o costume de não se repetir e encarar cada novo disco como uma obra única, reproduzindo apenas a essência estética que o PoS mantém desde sempre.

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