2015

OMI – Me 4 U (2015)

 

OMI tenta um som animado e dançante, porém sem força para durar no tempo

Por Gabriel Sacramento

O jamaicano OMI fez um estrondoso sucesso no verão de 2015, com uma canção reggae pop chamada “Cheerleader”. O single foi uma das músicas mais vendidas no ano. A canção já havia sido gravada anteriormente, mas ficou famosa com a versão remixada do DJ  Felix Jaehn, liberada em 2014 e ganhando notoriedade mundial em 2015.

Aproveitando o sucesso, em outubro do mesmo ano OMI lançou o seu primeiro disco – Me 4 U. Segundo o cantor, o título reflete o seu desejo de entregar um presente aos fãs (4 u é um jeito informal de escrever “para você”, em inglês). Sobre a sonoridade do disco, OMI declarou que seria algo que apresentasse a diversidade da sua música e não somente o estilo do primeiro single. “Todas as canções são diferentes e especiais”, afirmou o jamaicano em uma entrevista.

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A Jamaica é conhecida mundialmente como o grande berço do reggae, consagrado pelo cantor Bob Marley. Os costumes da ilha caribenha e sua musicalidade estão presentes na proposta sonora de OMI – uma música feliz, feita para dançar no verão, em uma bela ilha tropical. No entanto, OMI não faz referência somente à música jamaicana, mas traz um pouco do EDM americano também.

OMI deveria trazer boas canções, empolgantes e agradáveis, certo? Porém, não é isso que temos aqui. Me 4 U apresenta um conjunto de faixas um tanto insossas, com bases pouco criativas e elementos deslocados que não contribuem com o desenvolvimento das mesmas. A voz do cantor que, segundo ele, não foi tratada com autotune, é até boa, se comparada com o estilo de alguns vocalistas pop. Mas os arranjos e as molduras musicais tornam as canções sofríveis. As escolhas de arranjo realçam a falta de criatividade e constituem um importante fator que pesa contra o disco.

“Cheerleader” – o grande sucesso do vocalista – abre o disco. A música possui um trompete deslocadíssimo passeando por ela, tão bem direcionado quanto um cego em meio à um tiroteio. Além disso, há instrumentos percussivos ao fundo que poderiam soar melhor e contribuir para o aspecto dançante da faixa, mas são mal aproveitados. O excesso de simplicidade prejudica bastante a música, que funciona como o carro-chefe do álbum. “Babylon” tem um refrão que poderia estar no disco Royalty do Chris Brown, com harmonias vocais que até funcionam bem. Porém sua base rítmica não convence. “Drop in The Ocean” é uma canção tropical e tipicamente jamaicana. Possui até alguns elementos bem sacados, mas perde força quando a base rítmica começa. A veia reggae é mais facilmente notada em “Midnight Serenade” que é um pouco melhor que as anteriores. “These Are The Days” é formulada para pistas e não tem nada de mais. “Color of My Lips” também não impressiona, pelo mesmo motivo.

A falta de criatividade com relação às bases instrumentais das canções representa um demérito à qualidade do disco. As bases soam simples demais, leves e pouco dinâmicas. Se OMI decidisse incluir mais de reggae em seu disco, por exemplo, o resultado seria mais satisfatório. Os vocais do jamaicano não são ruins, mas não funcionam tão bem quanto funcionariam se as bases fossem outras.

Será que o OMI não acertou a mão neste disco? Sim, acertou. Na faixa-título, com a participação de Sarah West, ele trabalha uma interpretação bem interessante, utilizando a suavidade em seu favor, com falsetes acertados. A voz da cantora convidada soa muito bem combinada com a dele. Embora a música falhe no mesmo ponto das outras – a fraca base rítmica que soa muito deslocada do propósito da música –, esse problema não chega a ofuscar o brilho da boa performance dos vocais.

Me 4 U pode até fazer sucesso e vender bastante – principalmente depois do hype com a música de abertura. Mas não tem força para durar por muito tempo. É um típico disco de verão e tão passageiro quanto.

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Eric Church – Mr. Misunderstood (2015)

Church aposta em uma simplicidade bucólica e entrega um disco muito bom

Por Gabriel Sacramento

Seu último disco – The Outsiders (2014) – foi um estouro: primeiro lugar no na Billboard nos Estados Unidos e no Canadá; quarto lugar no ranking anual de discos country da revista; e foi um dos discos mais vendidos daquele ano.

O sucesso foi bastante impulsionado pela declaração de Church sobre o estilo musical que fazia: “Eu acho que os estilos musicais estão mortos. É um conceito ultrapassado. Existe somente música boa e música ruim.” Sua declaração deixou a imprensa e a mídia ansiosas para o que ele apresentaria a seguir.

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Foto: Josie Lepe/Bay Area News Group

Criar um sucessor para The Outsiders com certeza não foi uma tarefa fácil para Church. Então, sem o mesmo barulho do anterior, em novembro de 2015, ele libera de surpresa Mr. Misunderstood para os fãs por e-mail. A ideia é parecida com o que a Beyoncé fez em 2013 com seu disco autointitulado, só que Church foi ainda mais não convencional, utilizando somente o correio eletrônico (pelo menos nos primeiros dias, logo depois o álbum apareceu nas mais diversas plataformas digitais).

O disco foi gravado em cerca de vinte dias, na terra do country – Nashville. A produção continuou a cargo de Jay Joyce, uma longa parceria que data desde o début Sinners Like Me (2006).

Quanto à sonoridade do disco, Church foi muito influenciado pelos ares de Nashville e continuou a fazer o seu country pop bem competente. Durante toda sua carreira, vemos evidências de southern rock, gospel e de um country old school. Mas sua musicalidade é centrada no country.

A simplicidade com que ele trata as canções impressiona. Os arranjos são bem simples e conquistam o ouvinte pela singeleza. Simples e ao mesmo tempo afetivos e marcantes. Os violões passeiam pelas canções marcando os acordes e servem de base para a boa voz de Eric – que está recheada de reverbs interessantíssimos em vários momentos. Seu timbre é perfeitamente adequado para o estilo e sua performance é muito boa.

Só para citar alguns destaques: “Chattanooga Lucy” tem uma ênfase maior no ritmo, com alguns elementos bem sacados, como os falsetes que o cantor utiliza no meio da música. A faixa-título, com citações a nomes famosos como Jeff Tweedy e Ray Wylie Hubbard – cantores que foram referências para Eric. A metalinguagem inteligente em “Mistress Named Music”, que descreve a sua relação com a música, com um refrão muito bom – algo que deixaria Johnny Cash muito feliz. “Kill A Word”, com seu bonito arranjo de violão, traz uma letra bem otimista, na qual Church cita palavras negativas (como mentiras, medo, ódio e solidão) que ele gostaria de eliminar de sua vida. A calmaria e tranquilidade de “Round Here Buzz” é estonteante. Com um refrão simples, a música acrescenta uma beleza incrível para o disco como um todo.

Suceder o grande fenômeno The Outsiders não é fácil. Para muitos, a saída para fazer um bom disco subsequente a um grande sucesso é repetir a fórmula. Definitivamente, não é o que Church fez. A energia roqueira presente em The Outsiders, por exemplo, não se encontra em Mr. Misunderstood. No novo, o cantor aposta em algo sem barulho e sem holofotes, acessível e facilmente compreensível.

Não é preciso ser especialista no estilo para saber que Eric sabe fazer um bom country e aproximar o estilo do mainstream. Seu jeito de fazer música com melodias envolventes e bonitas, que não chegam nem perto de soarem melosas, é seu ponto forte e responsável por atrair muitos fãs.

Mr. Misunderstood é direto. Church aposta em uma simplicidade bucólica e nos entrega um disco muito bom. Talvez alguns fãs sintam falta dos resquícios roqueiros que se encontravam espalhados em sua música nos discos anteriores, mas terão de entender que aqui o foco é outro: fazer um som mais leve, diferente dos anteriores, mas com a mesma qualidade.

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The Outsiders World Tour - New York, New York

Foto: Mike Coppola/Getty Images for EB Media PR

Mike Zito & The Wheel – Keep Coming Back (2015)

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Disco novo traz um tom confessional, mescla estilos e é o melhor da carreira do Mike Zito

Por Gabriel Sacramento

Mike Zito é um dos músicos atuais que trabalham para manter viva a chama do blues nos Estados Unidos. Estilo lendário que já teve tantos representantes como B. B. King, Muddy Waters e Albert King, agora conta com atos como Eric Sardinas, Bernard Alisson e Jonny Lang.

O guitarrista fez parte do grupo Royal Southern Brotherhood por cerca de dois anos (2012-2014), até que resolveu sair e focar em sua carreira solo. Carreira que já estava a todo vapor, com discos como os ótimos Pearl River (2009) e Gone To Texas (2013). Neste, Zito começou a contar com a colaboração de uma banda de apoio – The Wheel Band.

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Foto: Walter Vanheuckelom

Zito sempre demonstrou que domina as linguagens do blues, rock e country. Estilos que ele mesmo já afirmou que são seus favoritos. Seus discos trazem essas linguagens misturadas e dispersas, mesclando um bom som vintage com toques bem dosados de modernidade. Pearl River era um blues mais intenso e pesado, enquanto Gone To Texas apresentava um som mais acessível e influenciado pelo country.

Keep Coming Back é o mais novo disco do guitarrista/vocalista americano. O título tem a ver com sua recuperação dos problemas com álcool no passado. O disco passa uma mensagem positiva, mas realista, embasada nas experiências do músico.

O disco começa com um clima festeiro, acentuado pelas guitarras de Zito com níveis consideráveis de distorção, com canções como a faixa-título – que traz uma mensagem motivacional – e “Chin Up”, na qual Zito entrega ótimos riffs. Em uma clima mais cool, vem a confessional “Get Busy Living”, “Lonely Heart” e a bucólica “Early in The Morning”. As três faixas poderiam soar melhor se o baixo estivesse menos comprimido na mix.

A mais alternativa “Girl From Liberty” traz um pouco mais de distorção que as anteriores, porém o efeito está bem controlado para combinar com a veia acessível da faixa. “Nothin’ But the Truth” é um blues bem parecido com o estilo do Eric Clapton e “Cross The Border” traz um ótimo refrão, com acentos bem colocados. Zito gravou dois covers: “Get Out of Denver”, do Bob Seger, e “Bootleg”, do Creedence Clearwater Revival. A primeira tem até uma boa execução da banda, mas os instrumentos soam muito embolados na mix. A segunda é uma versão bem legal e moderna, com uma boa presença do saxofone.

Os melhores momentos do disco são as baladas “I Was Drunk” e “What’s on Your Mind”. A primeira – composta em parceria com Anders Osborne – tem letra inspirada que versa sobre os problemas do cantor com álcool e como isso afetou as pessoas ao seu redor. Já a segunda, mostra um eu-lírico que tenta descobrir porque o seu relacionamento com a amada não está dando certo, desembocando no refrão: “Eu preciso saber, o que se passa na sua cabeça”. A canção possui a melhor interpretação de Mike no disco e se desenvolve de uma forma apaixonante em seus longos seis minutos.

O novo disco é menos intenso do que Pearl River e um pouco mais profundo que Gone To Texas. Este último já apresentava um conceito forte incutido no título – uma homenagem ao estado americano onde Mike morou por muitos anos. Comparado com Pearl River, o novo disco traz menos blues, assim como Gone To Texas. Percebe-se que o estilo está ficando cada vez mais diluído na sonoridade do músico. Em Keep Coming Back há mais espaço para um som alternativo e acessível, que pode até angariar novos públicos.

Quanto aos instrumentos, além da guitarra de Mike, que entrega solos e riffs  convincentes, destaco também a atuação do saxofonista Jimmy Carpenter, com ótimos solos que tornam o seu instrumento onipresente nos arranjos. Já o baixo não soa tão bom, embora os arranjos exijam muito do baixista Scot Sutherland.  Ele atende às exigências, mas seu instrumento acaba sendo injustiçado na mix, com pouco volume. Quanto ao resto, as performances são boas e contribuem para o bom desenvolvimento das canções.

Keep Coming Back traz um clima positivo, confessional e inspirador. Zito canta sobre seus problemas pessoais, expondo-os de forma muito clara, sob uma visão bem otimista. Suas letras se conectam perfeitamente com os arranjos instrumentais, cheios da energia do rock, melancolia do blues e do clima relaxado e campestre do country. Aqui, o cantor equilibra os três estilos, sem deixar que nenhum tome o espaço do outro.

Conclusão: é um ótimo disco, com um conceito forte passado com muita competência. A sonoridade tem destaque para a guitarra do líder da banda, mas também há espaço para outros instrumentos, como o sax. Mistura sensações e estilos e tem força para ser classificado como o melhor disco do Mike Zito até agora.

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James Morrison – Higher Than Here (2015)

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Britânico canta melodias grudentas e arrebatadoras em disco que representa uma continuação de sua sonoridade

Por Gabriel Sacramento

Dono de um nome bastante comum na música (esse é o nome de pelo menos dois famosos cantores – um deles foi o lendário vocalista do The Doors), o britânico James Morrison surgiu em 2006, surpreendendo o mundo – e especialmente este que vos escreve – com seu lançamento Undiscovered, que na primeira semana alcançou o topo das paradas no Reino Unido. Morrison faz um pop simples e elegante, abusando das melodias cativantes e de uma sonoridade bastante acessível.

Morrison continuou com seu trabalho lançando ainda Songs for You, Truths for Me (2008) e The Awakening (2011). Até que em outubro de 2015, liberou seu quarto disco, intitulado Higher Than Here. O novo álbum é praticamente uma continuação natural do som dos primeiros discos: pop gostoso de ouvir, com influências implícitas de R&B e soul.

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O som de James lembra bastante o som de John Mayer em discos como Continuum (2006). Seu novo disco continua fiel à sua sonoridade típica. “Demons” possui uma base quase densa e vocais relaxados, envolventes sem soarem ultramelosos. A letra versa sobre demônios internos, em uma visão bem otimista e positiva. “Stay Like This” tem um ar de R&B, com harmonias vocais espertíssimas. “Right Here” possui alguns efeitos eletrônicos e harmonias vocais interessantes que surgem nos momentos certos. Os vocais de Morrison são destaque em canções como “Something Right”, “Heaven To a Fool” e “Reach Out”.

O cantor exala positividade em “We Can”, na qual canta: “Nós podemos fazer as coisas que disseram que nunca poderíamos … nós podemos amar”. A soulful “Too Late for Lullabies” torna explícita a admiração que James tem por cantores como Stevie Wonder, mas dentro de um contexto bem pop. Com um timbre de bateria bem retrô, que remete aos anos 80, “I Need You Tonight” traz até uma guitarra clean com frases legais, mas que poderia soa melhor. A acústica “Just Like a Child” é climática e relaxante. Mas James guarda o melhor mesmo para o final: a melhor interpretação dele está na faixa-título, que fecha o disco. Traz também um acompanhamento rítmico feito por palmas e harmonias vocais que complementam a beleza de sua voz.

James Morrison continua perito em fazer uma boa música, relaxante, acessível e cool. Foge totalmente da possibilidade de soar descartável e/ou fácil demais. Ele é preciso. Disse acima que sua sonoridade lembra o John Mayer, só que o britânico é mais constante em sua carreira do que o americano, que sofre com problemas de identidade.

A voz levemente rouca de um britânico com sotaque americanizado, bem colocada em uma base pop, bem moderna e descomplicada, que prioriza bastante o desenvolvimento dos vocais nas faixas. Interpretações bem interessantes que fazem a audição valer a pena. Melodias agradáveis, grudentas e arrebatadoras. Tudo isso condensado em 12 canções. Este é o Higher Than Here.

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Os Melhores Clipes de 2015

Macaco safado, vida punk, Superman do gueto, ocultismo, perda, praia e sci-fi. Esses são alguns dos elementos que compõe a seleção do Escuta Essa Review para os 15 melhores clipes de 2015. Confira a lista e deixe nos comentários os seus clipes preferidos.

1. Blackstar – David Bowie

Morte, Major Tom, Estado Islâmico, jazz, Aleister Crowley, H.P. Lovecraft, Arte. O curta-metragem de despedida de quem foi vanguarda até o fim. Leia a crítica do álbum.

Dir. Johan Renck

2. The Less I Know The Better – Tame Impala

Divertido, colorido, sem medo de ser sexy, psicodélico e cheios de objetos fálicos. Freud ia adorar. E tem o Trevor. Leia a crítica do álbum.

Dir. Canada

3. Alright – Kendrick Lamar

Realismo fantástico no mundo do hip hop & comentário social rasgado. Um negro como uma espécie de Superman (que não usa capa e nenhuma dessas indumentárias bregas). Veja a crítica do álbum.

Dir. Colin Tilley

4. Acid Reflux – Rone feat. Toshinori Kondo

Isso é como devemos nos sentir após 48 horas acordados e nos mantendo em pé graças a toneladas de cafeína e taurina. Trabalho impressionante.

Dir. Ilan Cohen (com Boris Levy)

5. Boa Esperança – Emicida

Assistiu ao clipe? Viu o filme Que Horas Ela Volta? As questões raciais e de classe social foram pesadas na música do Brasil este ano. Ainda bem! Leia a crítica do álbum.

Dir. Karia Lund e João Wainer

6. Cirice – Ghost

A doce sedução do mal por meio do carisma de um pregador. Leia a crítica do álbum.

Dir. Roboshobo

7. Sometimes I Feel So Deserted – The Chemical Brothers

Pós-punk lindamente fotografado. Leia a crítica do álbum.

Dir. Ninian Doff

8. Dayzed Inn Daydreams – Ariel Pink

Lembra aquele filme Aqui é o Meu Lugar, do Paolo Sorrentino, mas é melhor, bem melhor.

Dir. Grant Singer

9. Coronus, The Terminator – Flying Lotus

Transcendental, mas com um plot twist sci-fi. Leia a crítica do álbum.

Dir. Young Replicant

10. Samba Triste / Saiba Ficar Quieto – Mariana Aydar

Violão, Mar e Mariana. Leia a crítica do álbum.

Dir. Mihay Freire

11. Queen of Peace & Long and Lost – Florence + The Machine

Cinematografia, coreografia, interpretação e muita emoção. Leia a crítica do álbum.

Dir. Vincent Haycock / Coreografia Ryan Heffington

12. Kim’s Caravan – Coutney Barnett

Uma das melhores estreias de 2015 escolheu uma música nada comercial para produzir um dos melhores clipes do ano. Leia a crítica do álbum.

Dir. Bec Kingma

13. Routine – Steven Wilson

Animação o “ninho vazio” e como preencher a fantasmagórica falta cotidiana de alguém. Leia a crítica do álbum.

Dir. Jess Cope

14. REALiTi – Grimes

É difícil definir e explicar a Grimes para quem não a conhece. Esse vídeo resume quem ela é e como ela é. Além disso, ela compôs e produziu a música. Dirigiu e editou o clipe. O diretor de fotografia é Mac Boucher. Leia a crítica do álbum.

15. Irreversible – Remove Silence

Ótima edição de vídeo para um vídeo de ideia simples, mas totalmente adequada à música. Leia a crítica do EP.

Dir. Duca Mendes e Americo Fazio

Menção + do que especial:

Björk – Stonemilker e Black Lake

A música do primeiro clipe é puro sentimento, sentimos seu abrir de coração. Já o vídeo é a sua contribuição com a tecnologia do meio (porque sempre há algo de novo no que ela faz. Sempre). O segundo é o triunfo de sua música na fronteira entre o pop e o erudito, usando a Islândia, sua terra natal, como cenário. Leia a crítica do álbum.

Bryan Adams – Get Up (2015)

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Jovial, roqueiro e vintage. Novo disco do cantor canadense traz muitas surpresas

Por Gabriel Sacramento

Nos últimos anos, muitos artistas que estão há tempos na música têm lançado discos realmente dignos de atenção especial. Foi o caso de Bruce Springsteen com o High Hopes (2014), David Gilmour com o ótimo Rattle That Lock (2015), Buddy Guy com o Born to Play Guitar (2015), Keith Richards e seu Crosseyed Heart (2015) e Rod Stewart com o Another Country (2015), sem falar no recém-lançado Blackstar de David Bowie. É bom ver que esses artistas sabem gerenciar suas carreiras e continuam buscando nos surpreender, mesmo depois de consolidados e bem-sucedidos.

Bryan Adams se encaixa nesse contexto. O cantor ficou conhecido por músicas românticas como “Heaven” e “Everything I Do”, mas pouca gente lembra de sua veia roqueira e da sua paixão pelo rock. Nos primeiros lançamentos esse estilo era mais evidente, mas acabou se diluindo com o passar do tempo. Aos 56 anos, o cantor continua lançando discos e busca impressionar o público com novas ideias. Seu mais novo álbum, Get Up, foi lançado em outubro de 2015 e é o 13º de sua safra.

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Os fãs acostumados com o direcionamento que a sonoridade de Adams nos últimos anos tomaram um grande susto com o que ouviram dessa vez. Adams traz uma atitude roqueira que há muito tempo não se via nele. É notável a vontade de Bryan resgatar a sonoridade agressiva e rebelde dos primeiros discos, principalmente Reckless (1984).

“Belong To Me” traz de volta o espírito roqueiro do início da carreira, com linhas vocais bem cativantes e faz uma referência explícita ao country rock. “Go Down Rocking” soa como se Bryan tivesse 17 anos de novo, possuísse uma guitarra em suas mãos e saísse pelo mundo com a única missão de expressar toda a sua rebeldia tocando o mais puro rock and roll.

“We Did it All” é uma balada que traz ideias harmônicas bem elaboradas e que não soam tão previsíveis. “That’s Rock and Roll” é uma ode ao estilo, com um ótimo timbre de guitarra limpo, que lembra muito Chuck Berry, além de possuir um ritmo contagiante acentuado por palmas. “Don’t Even Try” tem ritmo intrigante e um foco maior nas melodias. “Do What Ya Gotta Do” é outra que enfatiza o ótimo timbre da guitarra, com um refrão simples e harmonias vocais interessantes. As harmonias e os riffs também roubam a cena em “Thunderbolt”. “Yesterday Was Just A Dream” é a segunda balada do disco, com vocais bem entrosados. “Brand New Day” é bem pop/rock, com arranjos acessíveis e guitarras distorcidas, mas bem dosadas. Sentimos o peso da idade do cantor em Get Up, já que é perceptível como ele não canta mais como antes. Agora, sua voz soa bem limitada. Lembra levemente o rock oitentista que Bruce Springsteen fazia. Para os fãs de Bryan Adams das melodias bonitinhas, ele inseriu quatro versões acústicas de “Don’t Even Try”, “You Belong To Me”, “Brand New Day”  e “We Did It All”, que ressaltam a beleza e elegância dessas composições.

O cantor declara que cada música foi sendo escrita e gravada esporadicamente entre 2013 e 2015, sem pressão de gravadora, selo, empresário ou produtor. Para isso, contou com a produção de Jeff Lynne, o líder da Electric Light Orchestra, que dava o acabamento de cada faixa conforme podia. Na outra ponta da composição está o amigo Jim Vallance, que já é um velho colaborador de Adams. Pela internet, os três iam trocando figurinhas e gravações, fazendo os arquivos serem transmitidos do Canadá para a Europa e para Los Angeles ao longo do processo.

Bryan Adams não tem que provar nada para ninguém. Possui uma carreira de sucesso alavancada por seus singles românticos e acessíveis. Mas mesmo assim, o cantor resolve surpreender com um lançamento roqueiro, jovial, agressivo e rebelde, que faz parecer que ele ainda está nos anos 80. O disco possui uma sonoridade direta, vintage, independente e forte que faz algumas bandas de rock atuais soar infantis.

O último disco de inéditas que Bryan lançou foi o 11 em 2008. Comparando este com o novo Get Up fica ainda mais evidente a ousadia ao escrever as novas canções. 11 soa como um pop/rock bem dosado, com arranjos acessíveis e limpinhos. Já o novo soa como algo rústico, excêntrico e obstinado ou, se preferir, soa como o bom e velho rock and roll.

Com esse lançamento, há surpresa para todos. Tanto para os que adoram ou adoravam Bryan Adams, quanto para os que não gostam/gostavam do seu som. O disco é, simplesmente, um “back to basics”, mais ou menos como o Nheengatu (2014) do Titãs, que se afastou da sonoridade comercial para novelas e voltou a pisar sem dó no pedal de distorção. Assim, Get Up nos deixa muito curiosos com relação ao que há de vir.

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Steven A. Clark – The Lonely Roller (2015)

Steven A Clark - The Lonely Roller

Steven A. Clark impressiona com pop bem feito, envolvente e experimental

Por Gabriel Sacramento

Uma nova onda de artistas de R&B está surgindo  em todo o mundo. Artistas como The Weeknd, Frank Ocean e Miguel estão se tornando cada vez mais comuns no cenário musical contemporâneo, trazendo uma abordagem mais ousada e experimental do estilo. Basicamente, essa onda é caracterizada por ser um pop influenciado pelo minimalismo, simples e levemente eletrônico, com bases densas e sintetizadas. A herança do R&B clássico se nota nos vocais: românticos, sensuais e submetidos a notáveis harmonias.

Dentre esses artistas, Steven A. Clark merece destaque. The Lonely Roller é o primeiro lançamento do cantor sob o selo Secretly Canadian. Os lançamentos anteriores foram feitos de forma independente, algo que, inclusive, é muito comum nessa nova leva de artistas R&B (por causa disso, esses artistas foram rotulados como indie R&B).

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Antes de tudo: o disco não é tão fácil de ser compreendido. Requer muita atenção e cuidado por causa das escolhas nada óbvias que Clark toma a todo momento. Tudo isso envolve experimentalismos que podem até mesmo soar estranhos. A faixa-título abre o disco com melodias viciantes e uma batida rítmica pesada ao fundo. As melodias são destaque também em “I Can’t Have”, “Bounty” e em “She’s In Love”. “Trouble Baby” e “Not You” impressionam por trazer uma sonoridade densa e espacial. “Floral Print” possui um fundo pesado, quase hipnótico, além de vocais sombrios. Nesta, Steven abre mão de uma batida rítmica, reforçando o poder dos vocais. “Part Two” é a segunda parte de “Floral Print”, e aí temos a volta da batida ritmada. “Young, Wild, Free” traz uma boa performance de Steven, na qual ele alcança graves bem interessantes.

O disco explora esta nova sonoridade R&B com bases minimalistas e harmonias vocais muito bem feitas. O lance de The Lonely Roller não são as batidas para pistas, nem flertes com o hip-hop. O que predomina é uma sonoridade introspectiva e forte, que se revela de forma tímida, mas insurreta.

É também cheio de melodias cativantes que têm o poder de prender a atenção do ouvinte. A instrumentação é sempre muito simples, com acompanhamento harmônico discreto. Há um flerte com o pop feito por artistas como Troye Sivan, que é reflexivo, denso, mas também representa um resgate da sonoridade R&B dos anos 90, remetendo à obra de cantores como Maxwell.

The Lonely Roller é muito bom. Pop bem feito, tocante e envolvente, mas ao mesmo tempo não previsível e nem fácil de ser digerido. As referências ao som de cantores como os já citados The Weeknd e Frank Ocean são claras, pois Clark bebe na mesma fonte que esses artistas e busca ser um personagem importante nesse novo e revolucionário momento que vive a música pop/R&B.

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