2016

Jackie – trilha sonora de Mica Levi (2016)

Trilha dramática e grave complementa a atuação de Natalie Portman

Por Gabriel Sacramento

Jackie é o novo filme do Pablo Larraín, chileno que também dirigiu Neruda (2016) e tem uma carreira relativamente nova em Hollywood. No novo filme, Larraín trabalha com o roteiro de Noah Oppenheim, escrito originalmente para a TV, mas que acabou nas telonas. O longa narra a história do assassinato de Jonh Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos, do ponto de vista da sua esposa, Jaqueline Kennedy – a mais famosa primeira dama que o país já teve, justamente por ter milhares de olhos voltados para ela no momento mais difícil da sua vida. O filme mostra o luto da esposa e sua luta para superá-lo, ao mesmo tempo em que tenta preparar um funeral digno para JFK. A base para o roteiro foi a entrevista concedida pela primeira dama ao jornalista Theodore White, publicada na revista Life.

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A trilha foi composta por Mica Levi, conhecida como Micachu. Levi é também parte da banda Micachu and The Shapes, um grupo de pop experimental. Esse é o seu segundo trabalho no cinema, sendo que o primeiro, Under the Skin (2013), era uma ficção científica.

No primeiro plano do filme, temos “Intro – Jackie”, a canção de abertura da trilha sonora e o fundo musical para a apresentação da personagem principal aos espectadores. A faixa é tensa, introduzindo um suspense inesperado alavancado pelas pausas dramáticas, que combinam com a dramaticidade de Natalie Portman em seu primeiro diálogo com o jornalista Theodore White, interpretado por Billy Crudup. Os instrumentos interrompem as pausas com cuidado, como em fade-in e aos poucos a faixa vai enchendo todo o espaço em nossas cabeças. Já a atriz se mostra fantástica em seu papel nos primeiros planos, se entregando completamente à personagem, reproduzindo com fidelidade até mesmo os trejeitos e o sotaque da primeira dama.

No desenrolar do filme, vemos as sequências de flashbacks, que entrecortam a entrevista da primeira dama. A maior parte do filme se passa nesses flashbacks, que são utilizados para contar e detalhar toda a história, bem como apresentar o porquê de toda a tensão da personagem no momento da entrevista.

E enquanto isso, Mica Levi vai nos apresentando suas músicas lentas e que não economizam em sensibilidade. Também funcionam perfeitamente para reforçar as emoções que o filme transmite. “Tears” surge com notas pesadas de piano, estabelecendo a melancolia logo após a cena da morte do presidente Kennedy. Esse senso de melancolia permanece implícito em todo o filme e no resto da trilha, porém vai ganhando formas diferentes de expressão. “Autopsy”, por exemplo, usa algumas notas de bateria, apenas para variar. As mesmas notas são usadas em “Graveyard” – que é, inclusive, a mais tensa do repertório, com melodias graves que parecem emboladas e profundas. O piano na faixa soa bem mais grave do que normalmente soaria e isso coopera com a sensação de tensão. Mais próximo do final, temos “Vanity”, com um instrumento de sopro introduzindo um pouco mais de cor ao arranjo escuro e grave do fundo. Na cena do sepultamento do presidente, “Burial” surge com tremolos agonizantes que vão do grave ao agudo, enquanto os personagens demonstram o desconforto de estarem ali, cumprindo a inevitável burocracia do funeral.

A melhor relação entre a trilha de Mica Levi e o filme se dá na cena em que Jackie e John desembarcam em Dallas, lugar onde ele seria assassinado por tiros à longa distância. No momento em que eles estão no avião se preparando para descer, Jackie esbanja confiança e até um pouco de soberba em seu olhar. Quando descem, são bem recebidos pelo público e pelos governantes locais. “Children” toca ao fundo, quase imperceptível. No meio da cena, o enquadramento se fecha no rosto de Jackie e o suspense toma conta do quadro: a faixa que antes tocava mais baixa ganha contornos mais graves e fica mais alta na mixagem. E então, aos poucos, a música vai funcionando como um foreshadowing – recurso que apresenta antes, através de detalhes implícitos, o que vai acontecer depois no desenrolar da narrativa. O suspense começa na música e desenvolve-se na sequência com os tiros acertando o presidente e encharcando a primeira dama de sangue em uma das cenas mais chocantes do longa.

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A fotografia usa bastante os planos fechados, captando de perto o rosto de Natalie Portman e suas expressões. Um dos motivos pelos quais sua performance é notável e brilhante, inclusive. A trilha se relaciona com isso no sentido de, assim como os closes, tentar extrair os pensamentos da personagem e expô-los em forma de música.

Além da trilha de Mica Levi, temos uma faixa especial. “Camelot”, cantada por Richard Burton, no musical homônimo que estreou em 1960, na Broadway. 60 é, aliás, a década em que Jackie se passa. Diz-se que a canção era uma das favoritas do presidente Kennedy e aparece duas vezes no roteiro: primeiro quando Jackie põe para tocar a vitrola enquanto passeia pela Casa Branca e no final, logo depois de finalizar a entrevista com uma citação ao musical. A faixa é solene e contrapõe-se ao resto da triha, encaminhando a trilha do filme à um final contemplativo. A solenidade com que a história termina nos tira um pouco do clima de luto da protagonista e foca-se no legado do ex-presidente. As memórias, quem ele foi e o que ele fez, tiveram grande importância e não podem ser deixados de lado pelo luto e pela tristeza. Isso é o que a faixa de Richard Burton transmite em contraste com o tom geral do filme.

A trilha de Mica Levi funciona muito bem em um filme que possui um tom e um humor o tempo inteiro. Quando quis mudar um pouco as coisas ou direcionar o espectador para outro lado, Larraín utilizou outra música, deixando claro que a trilha é bem encaixada no filme, mas é monotemática. Ou seja, ainda que seja adequada para o luto e para todo o desenrolar da narrativa, não seria adequado para outro contexto ou para ser analisada fora da ideia do filme.

A atuação de Natalie Portman por si só chama bastante a atenção, mas a trilha está sempre trabalhando com a situação da atriz e complementa sua ótima performance. Há apenas um momento em que a trilha antecipa o que estamos prestes a ver e participa ativamente na construção do roteiro (o caso do foreshadowing). No mais, ela apenas está lá para, em termos musicais, nos contar o que se passa na mente de uma Jackie inundada pelo luto e sem expectativa para o futuro.

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La La Land – a trilha sonora de Justin Hurwitz (2016)

Musical é todo retrô e usa os clichês do jazz no cinema, mas Hurwitz e Chazelle sabem como fazer funcionar

Por Lucas Scaliza

Do primeiro ao último frame, La La Land – Cantando Estações (2016) é uma homenagem ao cinema e ao musical, assim como mais um reforço do que a cidade de Los Angeles inspira em seus habitantes. O filme tem sua própria trajetória original, mas no caminho paga tributo para produções da Europa e de Hollywood incontáveis vezes, seja em passos de dança, na cenografia, na iluminação, em determinados ângulos de câmera e até em uma surreal e sonhadora valsa por um céu estrelado.

Fred Astaire, Ginger Rogers, Gene Kelly, Sinfonia de Paris (1951), Ritmo Louco (1936), Cantando na Chuva (1952), Duas Garotas Românticas (1967), Grease (1978), Amor, Sublime Amor (1961), Give a Girl a Break (1953), Eu Sou Cuba (1964), Dança Comigo? (1957), A Bela Adormecida (1959) e ainda outros, estão todos representados no filme do jovem Damien Chazelle (diretor de Whiplash). Ao invés de dissecarmos como cada cena remete a esses filmes, o vídeo abaixo vai mostrar para vocês, dando uma boa introduzida no que consiste o filme, tanto uma produção original por si só, quanto uma colcha de retalhos de referências ao passado.

E também da primeira a última cena, La La Land (com 14 indicações ao Oscar, sendo o 3º filme da história da premiação a conseguir tal reconhecimento) é retrô. A história de Mia (Emma Stone) – atendente em uma cafeteria dentro da Warner que quer ser atriz – e Sebastian (Ryan Gosling) – um virtuoso jazzista que pena para conciliar a necessidade de trabalhar com o sonho de trabalhar com o jazz que realmente importa para ele – se passa na Los Angeles atual, mas o filme retrata a cidade quase como um espaço atemporal: carros de 2016 dividem espaço com modelos de 1970 e 1950, celulares convivem com vinis, a obsessiva paleta de cores reproduzem o esquema tecnicolor e os figurinos combinam cores e cortes casuais e luxuosos que reconhecemos de nossos álbuns de família. Mia, aliás, viu muitos filmes antigos junto de uma tia. E Sebastian ainda tem um toca-fitas no carro. Chazelle não faz com que essas referências temporais entrem em choque. Na verdade, tudo está em perfeita sintonia e harmonia.

Faz sentido, pois a Los Angeles de hoje, que fascina as pessoas pelos sonhos que pode conter e que promete a quem chega até ela cheio(a) de esperança, é a mesma desde a década de 1920 nesse sentido, mantendo Hollywood como o centro gravitacional que gera essa atração de artistas e aspirantes a artistas.

A música da trilha sonora do filme joga com essas mesmas cartas. A felicidade e as cores vivazes evocadas em “Another Day Of Sun”, “Someone In The Crowd” e na longa “Epilogue” nos levam de volta aos musicais antigos citados acima. São números feitos para agradar, ao mesmo tempo em que servem à história e dão dinâmica às coreografias. Já “A Lonely Night” e “Audition (The Fools Who Dream)” são calculadíssimas para que a riqueza de melodia substitua o diálogo. Não temos dúvida nenhuma de que estamos diante de um musical ao ver La La Land.

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Já as faixas instrumentais “Herman’s Habit”, “Summer Montage/Madeline” e “Engagement Party” representam o jazz mais puro, com ênfase na instrumentação. Embora não seja o tipo mais tranquilo de jazz (as músicas possuem improvisação, tonalidade modal e turn overs), não destoam da leveza geral que o resto da parte musical dá ao filme e representam o gênero como ele é mais classicamente conhecido no cinema desde a década de 30. Sim, Hurwitz usa os clichês do estilo para isso, enquanto os exemplos mais contemporâneos de jazz – e aí podemos citar desde Badbadnotgood até Donny McCaslin – não estão na Los Angeles de La La Land, ou pelo menos não nos pensamentos de Sebastian.

A única exceção vem com a participação de John Legend no filme e na trilha. Esse excelente cantor, que sabe manter a classe mesmo quando faz uma música bastante acessível, interpreta Keith, um músico que está montando uma banda pop com elementos de jazz e eletrônica. O resultado que vemos no filme e na trilha é “Start a Fire”, a única música que claramente é contemporânea. Mesmo quando usa algum elemento que pode ser considerado retrô, o faz consciente disso, para que seja notado e admirado por isso, e não porque tenha real coragem de se devotar a música “do passado”. Aliás, repare no nome dessa música e o que ocorre durante uma discussão entre o casal de protagonistas para sacar um easter egg sensacional do filme, em que a trilha sonora antecipa o roteiro.

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Mas a principal música do filme – e a que vai ficar em sua memória – é “City Of Stars”. Cuidadosamente apresentada em três momentos diversos do filme, com três roupagens diferentes, a balada em Sol menor é um triunfo de Hurwitz. Melodiosa, cativante e fácil de assimilar (embora não seja óbvia), é a cola que liga Mia e Sebastian um ao outro e ao significado de Los Angeles na produção. E o clima levemente melancólico terá sua resolução refletida no final da própria história de Mia e Sebastian – que é outro dos trunfos da narrativa do filme, curiosamente parecido com Café Society (2016), de Woody Allen.

Hurwitz primeiro compôs os temas do filme e de cada personagem, para depois desenvolvê-los em canções. Tinha apenas a melodia musical de “City Of Stars” quando os compositores Benji Pasek e Justin Paul colocaram a letra, e então souberam qual seria o tema do filme e como ele se comportaria dentro da história. Hurwitz queria que fosse uma música que ficasse na lembrança e conseguiu. Apesar de as outras músicas do filme conquistarem pela energia e pelo ritmo, a melodia é muito complexa e expansiva. Já “City Of Stars” se comporta melhor como canção, com suas repetições e convenções, o que facilita a memorização.

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Hurwitz, um compositor de trilhas que trabalhou nos dois filmes anteriores de Chazelle (ambos ligados os jazz) e na comédia Curb Your Enthusiasm, sabe o que é fazer uma boa música fácil e uma boa música extraindo o melhor de uma atriz em um set e em uma tela. Por isso, para ele, sua melhor composição em La La Land é “Audition”, música que Emma Stone cantou ao vivo no set e em único take, ou seja, sem cortes. A música, além de sofisticada e de um exemplo perfeito do tipo de performance de um musical, marca o segundo plot twist do roteiro, quando uma mudança importantíssima ocorre. Foi a última música composta por Hurwitz e ele acompanhou a atriz ao piano durante a gravação da cena, deixando que ela ditasse o passo da música. O acorde Lá que se espera ao final, para concluir a canção e dar um senso de harmonia, está ausente, deixando a melancolia no ar – e mais uma sacada musical que se conecta com os eventos que sucedem logo depois na história.

Embora o filme tenha caído no gosto do público, ele ainda é um musical clássico. Quem não gosta desse gênero pode encontrar algumas barreiras, mas nada que esteja deslocado ou que invalide o filme como um todo (é uma questão de gosto, afinal, não de competência). A trilha, sem o acompanhamento do filme, é uma mostra de como soa um musical com inspiração nos clássicos do passado. Dá para acusar Hurwitz de compor um jazz muito cheio de clichês para um filme que é sobre amor, sonhos e um pouco jazz, principalmente quando comparado ao pesado jazz de big band de Whiplash. Mas é evidente, desde a primeira cena, que a intenção não é dificultar a audição e o prazer musical de La La Land. Ainda assim, a forma como as cenas musicais foram gravadas (em planos sequências) e a forma como as canções possuem detalhes técnicos que se liguem à narrativa mostram que não é, nem de longe, um musical em que qualquer nota está valendo.

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Giraffe Tongue Orchestra – Broken Lines (2016)

Supergrupo se equilibra entre diversão e qualidade técnica de sobra

Por Lucas Scaliza

Formado por integrantes de diferentes bandas de rock e metal, o supergrupo Giraffe Tongue Orchestra seguiu um caminho bastante diferente de outro supergrupo formado em 2016, o Gone Is Gone. Enquanto o Gone Is Gone deixou seu som sisudo e arrastado, forte mas lento e atmosférico, o GTO se apresenta animado e ágil, menos experimental e mais dedicado a uma veia roqueira direta.

Encabeçada pelos guitarristas Ben Weiman (The Dillinger Escape Plan) e Brent Hinds (Mastodon), o GTO é divertida e descomplicada desde o título que escolheram para o projeto. Completam o time o vocalista William Duvall (Alice In Chains), o baixista Pete Griffin (Dethklok) e o baterista Thomas Pridgen (The Mars Volta). E claro que com um time desse você pode esperar não apenas música rock’n’roll da boa, mas também um rock bem feito, como fica claro bem rápido em Broken Lines.

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A faixa de abertura, “Adapt Or Die”, é o abre-alas com cara de single. Já a segunda, “Crucifixion”, mostra a habilidade de todos os instrumentistas em fraseados tão diretos quanto complicados, além das qualidades vocais de Duvall, que vão desde cantar com voz limpa, drive ou com uma agressividade típica das bandas do hair metal dos anos 80.

Broken Lines é um compilado consistente de rock feroz, divertido e com alto nível técnico, misturando hard rock, metal alternativo e alguns laivos de progressivo (tudo isso pode ser ouvido em “No-One Is Innocent” e “Thieves And Whores”). “Blood Moon” poderia ser dançante, mas é quase uma balada com guitarras distorcidas. “All We Have Is Now”, com seu belo dedilhado e banda bem mais comedida, fica com o posto de balada do álbum. E “Everybody Gets Everything They Really Want” fica com o posto de faixa dançante, fazendo um belo casamento entre ritmo disco, groove e guitarras de rock.

“Fragments & Ashes” e “Back To The Light Of The Day” são uma dobradinha interessante, mostrando as guitarras de Hinds e Weiman às vezes colidir e às vezes se somar, sem falar em linhas de baixo bem marcantes de Griffin e a bateria nervosa e cheia de viradas seguras por parte de Pridgen. Apesar da liderança do grupo estar concentrada nas seis cordas, todos os instrumentistas são ressaltadas a todo momento. “Broken Lines”, por exemplo, é uma dessas faixas que apresenta em 5 minutos uma quantidade de ideias que 90% das outras bandas do planeta não apresentariam em 10.

O grupo quase não aconteceu, mas Weiman e Hinds persistiram e fizeram o quarteto instrumental se encontrar em um som totalmente novo. Duvall foi escalado somente depois que as músicas já estavam prontas, mas ele se enfia nas composições com tanta presença que não há como pensar em outro vocalista para o posto.

Broken Lines não quebra nenhuma convenção da música e nem reinventa a roda, mas se esforça para não ser repetição de nada que seus gabaritados membros tenham feito em suas bandas principais. Junto de Gone Is Gone, Crystal Fairy e Liv, fica a certeza de que Giraffe Tongue Orchestra é mais um motivo para 2016 ter sido um ótimo ano para as superbandas.

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Os melhores clipes de 2016

Ficção-científica, mundo nerd e Stranger Things. Decisões que criam um universo paralelo e morte. Surrealismo, racismo e feminismo. Esses são alguns dos elementos que marcam a seleção dos melhores clipes de 2017 do Escuta Essa Review. Cada indicação acompanhada por brevíssimos comentários.

1. False Alarm – The Weeknd

É como um first person shooter e Weeknd não esconde um ladinho galhofa. O clipe é frenético, enervante e sem cortes, uma direção que entende tanto de vídeo-game como de cinema. E se quer saber como ele se conecta ao resto dos clipes do canadense, espere até o último frame. Leia a crítica do álbum.

Dir. Ilya Naishuller

2. Nobody Speak – DJ Shadow & Run The Jewels

Uma reunião de cúpula política como todos nós gostaríamos de ver nesses tempos conservadores de pós-verdade, dando a melhor cara aos versos afiados de Killer Mike e El-P.

Dir. Sam Pilling

3. Lazarus – David Bowie

O clipe em que Bowie nos avisou que estava partindo. E o único da lista, mesmo que tivesse 500 indicações, a ser filmado na vertical com propósito estético bem definido. Bowie rompendo barreiras até o fim. Leia a crítica do álbum.

Dir. Johan Renck

4. Up&Up – Coldplay

Pagando tributo na corte de Michel Gondry, Coldplay fez um clipe para lá de especial com sobreposições de imagens. Impossível não sonhar junto da banda. Leia a crítica do álbum.

Dir. Vania Heymann e Gal Muggia

5. Subways – The Avalanches

Bizarro as fuck. Assim como o álbum, o clipe usa animação e psicodelia retrô para fazer uma obra colorida, surreal e que resume o universo do trio australiano The Avalanches. Leia a crítica do álbum.

Dir. Mrzyk & Moriceau

6. Feliz e Ponto – Silva

Belo clipe que deu o que falar ao escancarar a bissexualidade de Silva e até a questão dos relacionamentos abertos e do poliamor. Assista e veja se toca seu íntimo. Leia a crítica do álbum.

Dir. William Sossai

7. PUP – Sleep In The Heat

Uma banda, a estrada e o melhor amigo do homem. Tudo traduzido com o poder do rock de garagem. Participação de Finn Wolfhard, que ficou conhecido pela série Stranger Things, mas apareceu no vídeo de “Guilt Trip”, do PUP, em 2014.

Dir. Jeremy Schaulin-RIoux

8. Lavender – Badbadnotgood (ft. Kaytranada)

Jazzistas canadenses que curtem hip-hop e jogam RPG. A música instrumental – e o clipe – mais nerd desde os épicos do Rush. Leia a crítica do álbum.

Dir. Fantavious Fritz

9. Sleep On The Floor – The Lumineers

O amor a partir do luto. Fofo pra dizer o mínimo e esperto para dizer o máximo, já que o clipe se conecta de forma interessantíssima aos vídeos das músicas “Angela” e “Cleopatra”. Ponto para o The Lumineers.

Dir. Isaac Ravishankara

10. Holy – Zolita

Contra a opressão, contra o patriarcado e poder para as mulheres! Zolita mostra que a busca por liberdade feminista pode ser trágica, mas não é em vão.

Dir. Zolita e Jane Saner

11. Never Ever – Röyksopp (ft. Susanne Sundfør)

DANCE COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ!

Dir. Röyksopp

12. River – Leon Bridges

Um motel, um violão, balões negros no céu, uma camisa manchada de sangue. Com jeito gospel, Bridges usa sua faixa para refletir sobre os recentes conflitos raciais de Baltimore.  Leia a crítica do álbum.

Dir. Miles Jay

13. I’ll Be Around – The Growlers

Para acompanhar a mudança de som da banda, esta faixa dançante ganhou um clipe hospitalar sensacional em que até os fantasmas se divertem.

Dir. Warren Fu

14. Real Thing – Pale Honey

Inspirado na série Stranger Things, essa dupla de meninas suecas fez um clipe despretensioso, divertido e que brinca com os clichês sobre o desconhecido.

Dir. Johan Stolpe

15. Voodoo In My Blood – Massive Attack (ft. Young Fathers)

Você está andando até o metrô da cidade e então uma bola dourada começa a controlar sua mente. Um clipe para mostrar como uma boa atriz, uma boa ideia e uma boa coreografia resultam em algo

Dir. Ringan Ledwidge

Menção + do que especial:

Lemonade – Beyoncé

Não é um vídeo-clipe. É um filme inteiro. Além de falar da própria vida – principalmente sobre um suposto caso fora do casamento que Jay-Z teria tido com uma mulher “de cabelo bom” –, Beyoncé usa o álbum para falar de emancipação feminina, da questão racial e explora vários sentimentos (e sonoridades). Leia a crítica do álbum.

Glenn Hughes – Resonate (2016)

Com mais um ótimo disco solo, ex-Deep Purple volta ao hard rock

Por Gabriel Sacramento

Quando se fala em Deep Purple e sobre a melhor fase da banda, a resposta é quase sempre unânime. A melhor fase é a que envolve Richie Blackmore, Ian Gillan e Roger Glover, ou seja, a que gravou, entre outros álbuns, o Machine Head (1972). Pouquíssimos vão dizer – como este que vos digita – que a melhor fase da banda foi a fase MKIII, que tinha nomes como David Coverdale e Glenn Hughes. Com esse line-up, a banda gravou Burn (1974), que foi um disco importantíssimo para o rock britânico setentista.

Dessa fase MKIII, um dos egressos foi o baixista/vocalista Glenn Hughes. Hughes já demonstrava um talento impressionante ao dividir os vocais com Coverdale enquanto tocava baixo, com uma voz potente, aguda e cheia de vigor. Depois de superar alguns problemas com drogas, ele conseguiu estabelecer uma ótima carreira solo para desenvolver e expor esse talento. A carreira rendeu excelentes discos na década passada como Songs in The Key of Rock (2003) – sim, uma referência ao álbum do Stevie Wonder, que é influência para o Glenn – e Music for The Divine (2006).

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Seu novo disco trazia a promessa de ser o mais pesado em anos, visto que nesses discos que acabei de mencionar, Glenn abria mão do peso para flertar com funk, soul e outros estilos. Resonate realmente é mais bruto, agressivo, mas é perfeitamente formulado e mostra um artista supermaduro no auge da sua carreira. Sim, no auge. Depois de fazer sucesso no Deep Purple, Hughes conseguiu desenvolver um trabalho solo consistente, como poucos, e Resonate representa o ápice dos seus esforços.

Glenn trouxe onze músicas pesadas, que não dão tempo para os ouvintes respirarem. Perdemo-nos em meio a tantos riffs densos de guitarra, seus típicos e marcantes vocais, refrãos expressivos, embora não acessíveis, estruturas muito bem definidas, sem soar confuso. Hughes sabe situar os ouvintes em cada seção de cada música e entrega um conjunto coeso, consistente e bem preciso de ótimas canções como “Heavy”, “My Town” e “Flow”. Vale destacar que essas faixas citadas seguem uma linha mais pesada, mas que não é a única na qual o disco segue.

“When I Fall” é o mais próximo de balada que temos aqui. Com destaque para os violões macios tocados pelo próprio Hughes (que também toca baixo) e o onipresente órgão tocado pelo Lachy Doley. A faixa também apresenta vocais mais aveludados e um preenchimento maior de harmonias. “Long Time Gone” – com bateria do Chad Smith (do Red Hot Chili Peppers) – também parece ser uma balada no início, mas depois desbanca no velho hard rock. “Landmines” vem com uma guitarra que lembra o estilo funkeado de tocar de Richie Kotzen e uma pegada que remete aos trabalhos anteriores de Hughes. No entanto, esse não foi o foco do ex-Purple no resto do álbum. Na maioria das faixas, ele soa mais voltado para o hard rock cadenciado, moderno, cheio de energia e peso. Portanto, baladas e canções mais suingadas são exceções em Resonate.

Esse fator é mais um bom argumento para atestar a qualidade do álbum. Tudo soa bem articulado, unido, apontando para uma direção específica, com competência de sobra.

A banda que acompanha Hughes é excelente: Søren Andersen é o cara das guitarras pesadas que sustentam as canções com os riffs afiados, mas também foi o cara que mixou e deixou tudo precisamente seco – o que favorece o peso. O órgão e teclados são tocados por Lachy Doley e são absurdamente bem colocados no meio das canções, chegando a lembrar o trabalho do mestre Jon Lord no Deep Purple. Repare como o instrumento rouba a cena, mesmo não necessariamente estando na linha de frente das faixas, com arranjos lindos que acrescentam muito ao conjunto. Chad Smith toca bateria na faixa de abertura e na última. Sua performance é boa, não é sensacional, mas não fica devendo em nada comparado com a performance de Pontus Enborg, que assume o kit no resto do álbum.

E o próprio Glenn tocou o baixo, violão, participou da produção e da mix também. Sua performance vocal é sempre ótima. Mesmo sua voz estando mais cansada e limitada, ele se mostra ciente dos limites e indo bem até onde pode. Se for fã das qualidades vocais do cara, fique tranquilo: suas características e seus agudos agressivos estão aqui. Hughes também impressiona no baixo, sabendo colocar o instrumento perfeitamente nos arranjos, com frases bonitas, mas sem abrir mão ou negligenciar o peso grave.

Glenn Hughes nos mostra com seu novo trabalho que ele está longe de nos decepcionar. Seja a carreira solo ou os trabalhos em parceria, como o Black Country Communion, Hughes está em ótima forma na carreira e consegue manter um padrão de excelência admirável em seus discos. Sua ousadia e atitude estão presentes e ele mantém a sua identidade. Seu novo disco também expõe que ele é, sim, um dos destaques daquela geração britânica dos anos 60/70 que permanece relevante até hoje – sem ficar só colhendo frutos da banda famosa da qual foi membro –, mesmo depois de passar por tanta coisa na vida e na carreira.

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Dark Tranquility – Atoma (2016)

Mais um ótimo lançamento de uma das melhores bandas de metal sueco

Por Gabriel Sacramento

Recentemente, falei do In Flames, uma banda sueca egressa de um movimento musical chamado “som de Gotemburgo” que fazia death metal melódico. Enquanto criticava o disco deles, apresentei um overview do estilo e como ele influenciou outras vertentes do metal contemporâneo. Agora, falarei sobre outra banda que veio da mesma cena, mas que com o passar do tempo se tornou ainda mais pesada e singular: o Dark Tranquility.

É uma das bandas daquele estilo sueco que mais lança discos atualmente. O mérito deles consiste justamente no que já falei: com o passar dos anos, o som do grupo se tornou ainda mais consistente, super pesado, caótico, próximo ao black metal e com uma sofisticação harmônica e melódica impressionante. É tudo feito com uma originalidade muito grande – eles soam como eles mesmos, respeitando as raízes –, diferente dos seus conterrâneos que soam como uma versão sueca de um estilo americano.

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Depois do fabuloso Construst (2013), a banda mudou sua formação, mas a pegada é a mesma. Antes, tínhamos duas guitarras, já no novo álbum, Atoma, temos apenas Niklas Sundin nas seis cordas e o baixista Anders Iwers (que já tocou no In Flames) se juntou ao time.

O novo disco é um conjunto de canções fortíssimas, sólidas e harmonicamente belas. A beleza com que estes suecos constroem harmonias, adicionando teclados climáticos de Martin Brändström à mistura, é extremamente admirável. Os teclados não encontram tanto espaço quanto encontravam em canções como “Senses Tied”, do álbum Character (2005), mas se estão inseridos na grande e sombria massa de distorção das faixas, se destacando mesmo assim. “Encircled”, por exemplo, abre o disco com uma passagem que você sabe que é o refrão, por ser mais harmônico e denso. O vocal gutural do Mikael Stanne se encaixa perfeitamente nas harmonias e melodias que surgem dentro da grande densidade de informações, com uma simbiose assombrosa.

“Faithless By Default” alterna segmentos pesados e brutais com momentos depressivos, limpos e arrastados, bem como o Opeth faz. O teclado belíssimo do Brändström nos envolve e nos oferece uma noção tão forte de melodia que faz parecer que acabamos de ouvir uma música cantada e não gritada. O que falta de melodias nos vocais de Stanne, os teclados fazem questão de compensar. “Our Proof of Life” traz uma introdução sensacional com uma progressão harmônica bem elaborada. Aliás, essa progressão volta no refrão, com o teclado de novo aparecendo com destaque. Stanne tenta vocais limpos nesta, ainda que seu forte sejam os berros.

A música do Dark Tranquillity é densa, obscura, pesada e sombria. Eles conseguem como poucos musicalizar o caos, envolvendo esse caos sonoro com melodias e harmonias marcantes. A sofisticação com que tratam isso eleva a música à um nível altíssimo e é um dos fatores mais convincentes acerca da qualidade do trabalho dos músicos. O caos é tão bonito e tão bem apresentado que nos dá uma interpretação diferente do que comumente seria entendido como caos.

O trabalho de Niklas Sundin (guitarra), Anders Jivap (bateria), Martin Brändström (teclado) merece destaque não só pelas execuções dos instrumentos, mas também pelas composições das faixas que ouvimos em Atoma. Tudo foi composto com muita precisão por mentes criativas e dispostas a dar o melhor em favor da música.

Mesmo quando usam pedal point nos riffs, acentos de bateria ou vocais limpos e partes acústicas – elementos que pegam emprestados de outras bandas, inclusive bandas de metalcore –, eles o fazem com qualidade, aplicando tudo isso muito bem ao estilo deles e soando particulares da mesma forma. É tudo muito bem pensado e muito bem arquitetado.

A brutalidade e o aproximação do black metal contrastam com a beleza e um toque mais preciso nas escolhas de melodias e harmonias. Esse contraste permite que o som do DT seja incisivo, marcante e fale por si só quanto à competência da banda. Eles não são como qualquer banda pesada e brutal, também não são como qualquer banda com melodias e harmonias bem feitas. Logo eles soam como uma das melhores bandas suecas de metal moderno, que merece ser ouvida com atenção a cada lançamento.

O tempo só provou que o Dark Tranquility ficou melhor.

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Kate Bush – Before The Dawn (2016)

A inglesa voltou aos palcos com um espetáculo a altura da ambição de sua obra

Por Lucas Scaliza

Levou 35 anos para que Kate Bush se apresentasse novamente. Entre seu afastamento dos palcos e seu retorno houveram novos álbuns lançados pela cantora e compositora inglesa, como Aerial (2005) e 50 Words For Snow (2011), mas nada de turnês ou contato com o público. Em 2014 o hiato foi quebrado com uma série de 22 shows no Hammersmith Apollo, em Londres. O espetáculo foi chamado de Before The Dawn e não se tratou de um catadão dos hits ou uma espécie de “the best of” da carreira de Bush (não adianta procurar por “Wuthering Heights”, por exemplo). Foi uma oportunidade para ela e sua equipe criarem um espetáculo artístico que vai além da música e mostra a completude da artista. Before The Dawn pode facilmente ser comparado ao recente The Wall que Roger Waters levou ao redor do globo.

O álbum é triplo, assim como o show também é dividido em três atos (já deixando claro também os contornos teatrais do espetáculo). A primeira parte é um senhor abre-alas em que a banda de Kate Bush deixa claro a forma mais roqueira que músicas mais pop e eletrônicas tomariam ao vivo. “Lily” (versão de Director’s Cut, 2011) coloca uma guitarra para fazer um riff, bateria e baixo proeminentes e os teclados do refrão dão a carga dramática que afastam a faixa do pop sintetizado original (do disco The Red Shoes, 1993) e a levam ao rock. Sem falar que a interpretação de Bush para ela está melhor do que nas duas gravações de estúdio. O clássico pop “Hounds of Love”, que dá nome ao seu mais famoso álbum, também já aparece logo no início, não muito diferente do que já estamos acostumados ao ouvir.

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Já a climática “Joanni” rouba a cena nesse primeiro ato com toda a sua sensibilidade e sem o excesso de teclados e sintetizadores da gravação original. “Top Of The City” mostra mais uma vez o poder dinâmico da performance de Bush e não deixa nada a dever para a versão de estúdio de Director’s Cut. A balada “Never Be Mine” – lá do The Sensual World (1989), mas recriada em 2011 – faz o dream pop inglês dar as caras no show. A música que vem em seguida dispensa apresentações: “Running Up That Hill”, a primeira faixa de Hounds Of Love. Por fim , “King Of The Mountain”, com o dobro do tempo original e um clímax

O primeiro ato é um grande apanhado da cantora, uma grande apresentação de sua boa forma vocal e de como conseguiu formatar as canções para os palcos ao lado de uma boa banda. A partir do segundo ato o álbum pode se tornar um pouco hermético para quem é novato em Kate Bush, mas mesmo assim vale a pena ouvir, pois é quando ela põe em prática o espetáculo que além de musical é também visual (e ficamos na espera do lançamento do DVD e blu-ray com o show completo).

As 10 faixas do segundo disco, com mais de 70 minutos de música, reproduz o The Ninth Wave, o álbum conceitual e lado B de Hounds Of Love (leia nossa resenha especial do álbum para entender melhor). Com alguns interlúdios para criar uma unidade teatral, Bush entrega ótimas interpretações para as sete faixas dessa suíte sobre o ciclo de vida e morte de uma mulher perdida no mar durante a noite. “And Dream Of Sheep”, “Under The Ice”, “Waking The Witch” (que ainda conserva os efeitos eletrônicos e vozes da gravação original), “Watching You Without Me”, a celta “Jig Of Life”, uma versão poderosa de “Hello Earth” (incluindo o final mais soturno) e, por fim, a iluminada “The Morning Fog”.

O terceiro disco é composto quase totalmente pela suíte A Sky Of Honey, que ocupa o segundo disco de Aerial. É quando o rock’n’roll dá um tempo e deixa o lado mais suave e climático da inglesa se expressar. Embora seja um bom disco de Kate Bush, ele não é tão popular quanto os lançados na década de 80 ou anteriores. Ao fim de “Aerial”, longa e forte canção que encerra a suíte, temos “Among Angels”, representante de 50 Words For Snow. Fechando o disco, temos a excelente “Cloudbursting”, que toca como se 1985 tivesse sido ontem e mesmo após três atos musicais, a voz de Bush soa bem e não parece nada cansada. Além disso, quando a música termina, apoteótica, ouvimos Bush agradecer a plateia e parece bastante sincera e emocionada.

Seu retorno com Before The Dawn mostra que Kate Bush honrou a importância de Hounds Of Love, que foi de fato um divisor de águas em sua carreira, e nos lembrou como também é importante para ela os discos mais recentes e como parece ter “virado a página” de sua visão musical ao não incluir nada de seus discos pop de 1982 e da década de 1970.

O disco triplo Before The Dawn é bastante visual graças ao storytelling e à performance teatral evidente que une atos e faixas. Por isso, essa experiência só poderá ser completa com o registro em vídeo do show. Ainda assim, a versão apenas em áudio atesta como Kate Bush continua amadurecendo e propondo desafios a si e ao público.

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