20th

Red Hot Chili Peppers – One Hot Minute (1995) faz 20 anos

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O disco mais alternativo dos californianos, as drogas e Dave Navarro

Por Lucas Scaliza

O que é?

One Hot Minute é o sexto disco de estúdio do Red Hot Chili Peppers, lançado em setembro de 1995.

História e curiosidades

Até 1991, o Red Hot Chilli Peppers era uma banda em ascensão. Chegou ao sucesso comercial e o reconhecimento internacional em 1991 com o disco Blood Sugar Sex Magik, até hoje considerado o melhor – ou pelo menos um dos melhores – da discografia do grupo. Naquele mesmo ano, no norte grunge dos EUA, o Nirvana lançava Nevermind, que causou um grande impacto na juventude americana e o Pearl Jam surgia para o mundo com o incrível Ten. Enquanto isso, vindos da ensolarada costa oeste, o funk rock californiano ganhava projeção.

Mas tanta projeção afugentou o guitarrista John Frusciante, que não soube lidar com tamanho sucesso repentino e exposição. Começou a usar heroína, atrapalhava a banda ao vivo e acabou deixando os Peppers em 1992, no Japão, bem no meio da turnê. Recentemente, depois de idas e vindas com a banda, Frusciante declarou que nunca teve tanto prazer assim em fazer shows e longas turnês e, mais recentemente ainda, abandonou de vez o rock para fazer música experimental (e eletrônica, sob a alcunha de Trickfinger). O caso de 1991-92 era só uma fagulha do tamanho do desconforte do músico.

Portrait of US group The Red Hot Chilli Peppers taken on 10th August 1995. © Steve Double / Retna Ltd Credit All Uses

Portrait of US group The Red Hot Chilli Peppers taken on 10th August 1995.
© Steve Double / Retna Ltd. Credit All Uses

O caso é que One Hot Minute é um disco um tanto desprezado pelos fãs do RHCP. Ele é muito menos funkeado, abraçando o rock alternativo. Não tem Frusciante, que foi substituído por Dave Navarro, que é um ótimo guitarrista, mas bastante diferente em abordagem e estilo do que a banda vinha apresentando até então. As músicas são um pouco mais sóbrias e menos divertidas, menos sensuais e sexuais do que era (e ainda é) uma marca dos Chili Peppers. Contudo, é o disco que trouxe novidades para o grupo, diversificando sua sonoridade e mostrando outras possibilidades e capacidades. O grande problema deste álbum é que a banda decidiu não tocar suas músicas após a saída de Navarro em 1998, já que Frusciante (que voltou para o grupo a tempo da gigantesca maré de popularidade com Californication, de 1999) não tocaria como ele. E como One Hot Minute não vendeu nem a metade do que Blood Sugar Sex Magik, virou o patinho feio da discografia.

O processo de composição foi um tanto turbulento. O vocalista Anthony Kiedis, também consumindo muitas drogas na época, embora escondesse isso dos Peppers e da família, não conseguia colocar para fora as letras que imaginava. Além disso, Dave não era como Frusciante e Hillel Slovak (antigo guitarrista da banda, que tocou em dois discos nos anos 80 e morreu de overdose em 1988) que simplesmente criavam a música para acompanhar o vocal de Kiedis. Em uma entrevista há alguns anos, o baterista Chad Smith disse que o Navarro não era do tipo que criava a partir de jam sessions, improvisos e propunha ideias. Ele era um tipo mais reativo: alguém chegava com uma ideia e Dave criaria a partir daquilo. Com o processo demorando mais do que o esperado, Flea tomou um pouco do espaço de composição pela primeira vez e escreveu a letra de “Transcending”, que fecha o disco, a introdução e o encerramento de “Deep Kick” e colocou sua voz na faixa “Pea”, que é apenas baixo e voz mesmo.

Apesar das drogas, dos temas mais sombrios e da recepção mais fria do público, One Hot Minute é um álbum bem feito e eclético, e surpreendentemente com um pezinho na experiência e em trechos mais viajantes. Tem força e vigor (“Warped”, “Coffee Shop”, “One Hot Minute”), visceralidade (“Transcending”, “Shallow Be Thy Game”), diversão (“Aeroplane”), ótimas baladas (“Tearjerker” e “My Friends”) e funk com groove (“Walkabout” e “Falling Into Grace”). Embora não seja Frusciante, Navarro tem suas próprias qualidades e fez com que os Red Hot Chili Peppers soassem um pouco mais pesados. Embora tenha a tendência de cair na fritação e na virtuose, seus solos e arranjos não comprometem a identidade do grupo, sabendo a hora de soltar a mão.

Durante uma entrevista em 1995 sobre o novo disco, Anthony Kiedis disse que odiava falar sobre as músicas da banda e ter que explica-las. Ao perguntar se não gostavam desse assunto por causa de mal entendidos que pudessem ocorrer, Flea respondeu: “ser mal compreendido é parte da coisa, pelo menos para nós. Acho que provavelmente por causa de certas coisas que fizemos, houveram muitos equívocos sobre a banda. Equívocos de que éramos só uma banda de festa da Califórnia, que surfa e anda de skate o tempo todo e que todas as nossas músicas eram sobre isso. Acho que os Red Hot Chili Peppers sempre percorreram um amplo espectro [de som] ao longo da carreira e, obviamente com o passar dos anos, nos tornamos mais capazes de expressar essa amplitude”.

Durante a turnê mundial que se seguiu, Anthony conseguiu se manter sóbrio. Durante um show em Praga, ele errou um mortal de costas e caiu no chão, o que o obrigou a usar um cinturão para as costas que limitou seus movimentos nos shows seguintes. Já Navarro logo começou a se cansar da desgastante turnê. Voltaram a Los Angeles e, com isso, Anthony voltou às drogas – e se forçou a largá-las muitas semanas depois para um show no Polo Norte para uma marca de cerveja e 100 fãs. O vocalista teve outra recaída e foi para a reabilitação.  Ao sair, o grupo estava pronto para iniciar uma turnê de verão, mas Kiedis sofreu um acidente de moto e machucou a mão. Por causa de seu vício em drogas, ele precisou de sete doses de morfina até que a dor fosse amenizada. Eles ainda tocaram no Fuji Festival em 1997 debaixo de tanta chuva que estava quase impossível continuar no palco. Após oito músicas, a iluminação e o som caíram e os Peppers tiveram que dar a apresentação por encerrada.

A banda só tentou compor de novo em 1998, época em que Dave Navarro estava usando drogas constantemente, até tornar-se um dependente delas, e Kiedis continuava lutando entrando e saindo. Navarro foi demitido do grupo após cair sobre um amplificador e se recusar a fazer reabilitação. Treze anos depois, ele comentou o caso, dizendo que sua queda tinha e diferenças musicais haviam motivado sua demissão, mas que Kiedis usava mais drogas do que ele naquela época.

Sem guitarrista, o grupo foi perguntar a Frusciante se ele estava a fim de voltar. O guitarrista tinha acabado de sair da reabilitação – depois de cinco anos usando heroína – e aceitou o convite. O resultado foi o megassucesso Californication. Com tantas drogas antes, durante e depois de One Hot Minute, não espanta que seus temas tenham sido um pouco mais sombrios e pesados.

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Músicas e destaques

Deep Kick: embora tenha os grooves do funk, tem uma pegada mais punk e trocas abruptas entre as partes. Em seu terço final, um violão e um vocal mais melódico dominam a faixa, mas a guitarra de Navarro progressivamente continua a manter o tom anárquico da composição. Sem dúvida um dos melhores exemplos do que é o “alternativo” neste álbum.

One Big Mob: uma das músicas mais interessantes de One Hot Minute. Tem uma seção agitada que lembra os momentos mais loucos da banda, como “Give it Away” e as vindouras “Can’t Stop” e “Around The World”. Mas também tem um interlúdio viajante que não se parece com quase nada que os Peppers fizeram antes ou depois.

Tearjerker: uma das músicas mais legais do álbum, foi escrita por Anthony Kiedis sobre a morte de Kurt Cobain no ano anterior e o seu amor por ele. Logo no início, ele canta: “Meu queixo caiu/ Esperando que a verdade não fosse real/ Recuso as notícias”.

Shallow Be Thy Game: uma das faixas mais intensas e diretas do disco, tem uma mensagem direta de rejeição às religiões, em especial o cristianismo que se baseia no medo para ganhar adeptos e manter sua autoridade. Navarro faz um ótimo trabalho em cima dela e explode em dinâmica em seu espaço para solar.

Transcending: uma das músicas escritas por Flea como um tributo ao ator River Phoenix, seu amigo. Eles estavam juntos no The Viper Room, em outubro de 1993, quando Phoenix teve uma overdose. Flea o levou para o hospital, mas ele não sobreviveu. O dedilhado no baixo realmente dá o tom da música, que vai progressivamente mostrando que é uma das melhores faixas de One Hot Minute. A guitarra vai criando arranjos diferentes para cada parte da canção até tornar-se visceral no final, enquanto Kiedis grita os versos finais da letra.

Passa no teste do tempo?

Perto de Blood Sugar Sex Magik, Californication e Stadium Arcadium (2006), One Hot Minute tem menos baladas radiofônicas, menos suingue, menos melodias que ficam na memória, menos potencial comercial. Apesar de terem dito que não tocariam nada dele após a saída de Navarro, Flea executou “Pea” ao vivo. E após a entrada do atual guitarrista, Josh Klinghoffer, eles já apresentaram “My Friends” e “Walkabout”. Mas a própria banda parece não dar muita bola para o trabalho. Chad Smith declarou em 2014 que o grupo não se sente mais tão conectado ao disco, embora isso não queira dizer que não vão tocar as músicas de 1995.

É também um disco que retrata um período difícil. Bem na hora em que precisam lançar um trabalho para manter o grupo em alta, acabam com um relativo fracasso de vendas. No entanto, os problemas pessoais de seus integrantes parecem dar a tônica. Era uma época em que o abuso de entorpecentes estava consumindo dois membros e um ex-integrante.

Ainda assim, se One Hot Minute não flui tão bem quanto grande parte dos fãs gostaria, soa mais fresco do que Stadium Arcadium, By The Way (2002) e I’m With You (2011), álbuns que mais ou menos já sabíamos o que esperar e o que não esperar. Vinte anos depois e o disco ainda é um esforço criativo e diferenciado dentro da discografia do RHCP. Se falta força e distorção em algum disco, é em One Hot Minute que você pode encontrá-la, e o tempo não fez com que essa impressão diminuísse.

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Alanis Morissette – Jagged Little Pill (1995) faz 20 anos

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A sexualidade, a igreja católica e as angústias de uma jovem retratados no álbum ainda são as mesmas de jovens de hoje

Por Lucas Scaliza

O que é?

Jagged Little Pill é o terceiro disco de estúdio de Alanis Morissette, lançado em junho de 1995.

Histórias e curiosidades

Ela já tinha lançado dois discos, Alanis (1991) e Now Is The Time (1992), mas nada perto das 33 milhões de cópias que seu disco seguinte venderia no mundo todo. Tinha só 21 anos quando coescreveu as músicas que fariam parte de Jagged Little Pill e mudaria sua carreira. Além disso, sendo uma canadense de Ottawa, Alanis Morissette teve de lidar com o fato de entrar nas programações de rádio e competir por espaço, que já era usado por outras mulheres, como Sinéad O’Connor e Tori Amos, como se, para o mercado do entretenimento, houvesse uma cota para a promoção de cantorAs. Questões de gênero que eram estranhas no meio da década de 1990 mas que, hoje, se tornam ainda mais relevantes.

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O disco trouxe o rock alternativo de Alanis para o primeiro plano da música mainstream. Esse tipo de movimento – do nicho para as massas – é algo que sempre ocorreu na música: seja com os psicodelismos dos anos 60, o progressivo dos 70, o punk e a new wave de 70-80, o hip hop ou o grunge. No caso de Alanis, além do rock dela ser diferente do britpop que rolava na Europa e do grunge que tinha virado uma onda nos Estados Unidos, seu timbre de voz e interpretação vocal eram muito peculiares. “You Oughta Know”, seu primeiro monstruoso sucesso, já trazia todos esses elementos. (Mesmo assim, “Right Through You” é inegavelmente uma canção que deve muito ao grunge de Nirvana e Soundgarden).

Alanis foi chamada de “jovem angustiada” por algum tempo, tornando-se uma marca dela. Ela começou a colocar sua música no mundo ainda adolescente e com uma energia agressiva e até um pouco amarga, resquícios do grunge e do punk que se infiltravam na juventude daquela época. Jagged Little Pill conseguiu chegar ao grande público aproveitando muito bem toda a atitude que a cantora tinha de sobra, mas com um polimento especial do produtor Glen Ballard, que ajudou a escrever as músicas. Mas Ballard não podou Alanis. Ao que parece, canalizou suas potencialidades. O resultado foi um álbum de 12 faixas, sendo que seis se tornaram singles, e ficou em primeiro lugar no Canadá por 24 semanas. Nos EUA, 12 semanas como número um da Billboard 200.

Alanis Morissette ainda estava no ensino médio quando consegui o disco de platina com seu primeiro álbum e viu o segundo vender só metade do primeiro. Após se formar, trocou Ottawa por Toronto e mesmo assim não teve muito progresso. Deu um grande passo geográfico, indo para Los Angeles, a Meca do entretenimento. Foi um movimento arriscado: ela não tinha tanta grana assim e dormia nos sofás de amigos. Foi uma época difícil e está descrita em “Hand In My Pocket”. Ganhou a confiança de Ballard, que a ajudou e permitiu que usasse seu estúdio. Além das boas letras que ela compunha, sua capacidade vocal era – e continua sendo – impressionante, ainda mais para uma menina de apenas 19-20 anos. Claro que ela é do tipo que pode soar (e às vezes soava) histriônica a cada verso, mas ela aprendeu a domar o estilo de cantar e Jagged Little Pill é um ótimo exemplo de como isso começou a funcionar.

Ballard e Morissette escreviam e gravavam uma música por dia, mas sem fazer mais do que uma ou duas tentativas, para preservar o estilo natural da cantora, sem floreá-la demais. A gravação dos instrumentos que aparecem em cada música foi adicionado depois, usando as gravações demo da voz. O baixista Flea e o guitarrista Dave Navarro, ambos no Red Hot Chili Peppers na época, tocam em “You Oughta Know”. Uma curiosidade: Taylor Hawkings, do Foo Fighters, foi o baterista da turnê deste álbum.

A explosão causada pelo álbum catapultou Morissette para o topo da cadeia alimentar do pop entre 1995 e 1996. Com a internet pouco desenvolvida, era comum as pessoas se interessarem pela música dela mas só se darem conta de quem ela é de fato – de como se parece, qual o seu penteado, que roupas usa – ao vê-la ao vivo. Muitos novos fãs, a julgar por suas letras, achavam que a canadense teria um visual mais punk, mas na verdade ela era bem sóbria.

Existem dezenas de temas que são caros às mulheres e aos jovens de qualquer gênero no álbum, mas a sexualidade ali presente tinha ares de posicionamento político e espiritual, principalmente em “Forgiven”. Em uma entrevista para a Rolling Stone em novembro de 1995, Alanis, que vem de uma formação religiosa católica, diz que acabou rejeitando qualquer conceito de religião organizada, mas ainda tinha espiritualidade. “Quando estou no palco, é muito espiritual. Me sinto perto de Deus quando estou lá em cima”, ela diz. Contudo, conta que seus problemas com a igreja católica têm a ver com a repressão sexual. Jovem e indo à igreja todos os domingos, sua personalidade acabou dividida. “Eu era ativa e fazia mesmo coisas que eram sexuais quando era mais nova. Havia um lado meu que era louco e depravado, fazendo coisas que estavam a frente do meu tempo, e por outro lado eu era muito contida, querendo permanecer virgem como uma boa menina branca e católica”, ela disse há 20 anos.

Mas Jagged Little Pill não é sobre sexo e sexualidade (apenas). Há uma grande variedade de temas que para adolescentes da época eram extravasados em forma de música pela primeira vez. “O disco é a minha história”, disse Morissette. “Acho que ele discorre sobre as diferentes facetas de minha personalidade, uma delas sendo a sexual”.

O álbum foi indicado para nove prêmios Grammy e ganhou cinco, incluindo o de Álbum do Ano. Ela tinha apenas 21 anos na época e era a artista mais jovem até então a ganhar o prêmio. Ela manteve esse título por 14 anos, até Taylor Swift, aos 20 anos, levar a premiação com Fearless.

Músicas e destaques

You Oughta Know: o primeiro grande sucesso de Alanis Morissette. Ela já começa suscitando uma traição sofrida com os dois primeiros versos e segue com uma bela letra sobre ser trocada e deixada por outra, até mandar o recado no poderoso refrão: “Estou aqui, para te lembrar da bagunça que deixou quando foi embora/ Não é justo negar que a cruz que eu carrego foi você que me deu/ Você devia saber”. A guitarra de Dave Navarro com delay nos versos e com wah-wah no refrão ajudou a criar o tipo de som que se esperaria do rock de Alanis. E o baixo de Flea completa a canção, tocando uma série de notas e criando uma linha bem eloquente.

Perfect: uma balada doce ao violão, mas irônica. Alanis pede para sorris mais, tentar mais, não esquecer de sempre conseguir o primeiro lugar. Uma canção sobre as pressões sobre a juventude e o quanto esperam sempre o melhor de meninos e meninas, pais que querem despejar nos ombros dos filhos o que não conseguiram, mas esperam que as crias alcancem. E termina a canção amargamente doce: “Nós sempre iremos te amar do jeito que você é/ Se você for perfeita”.

Forgiven: talvez a canção mais complicada do disco, e mesmo assim foi um single. É onde Alanis relata sua relação com a igreja católica de uma forma bastante pesada. “Eu cantava Aleluia no coral/ Confessava minhas atitudes mais escusas a um homem invejoso”, ela canta. No final, após dar a entender que rompia com as regras da religião, muda a letra do último refrão para: “Nós todos tínhamos ilusões/ Nós todos tínhamos nossa mente controlada/ Tínhamos que acreditar em alguma coisa/ Então acreditamos”.

You Learn: logo depois de se mudar para Los Angeles, Alanis foi assaltada numa rua deserta, o que a deixou um tanto ansiosa e precisou de psicoterapia para aliviar os ataques de pânico que se seguiram. Afinal, era uma jovem que mal tinha saído das pacatas Ottawa e Toronto e caído em uma das cidades mais agitadas do mundo. Escrever as letras para o álbum foi uma espécie de terapia que deu certo. E “You Learn”, o quarto single de Jagged Little Pill, foi um enorme sucesso no mundo todo e fala sobre como cada acontecimento na vida, bom ou ruim, acaba te ensinando algo. Musicalmente, é uma das faixas mais acessíveis de seu repertório. Destaque para a forma como ela sobe e desce a altura da voz com fluidez, principalmente no refrão.

Passa no teste do tempo?

Jagged Little Pill é o tipo de álbum que precisa ser resgatado, o que já está acontecendo por parte das comemorações de seus 20 anos. Com o feminismo ascendente, é especialmente importante analisá-lo sob essa perspectiva. Em uma recente entrevista, Morissette revelou que não se deu conta até recentemente como o disco era um hino feminista. “Em termos de percepção do público sobre isso, só percebi depois. Não havia outra intenção além de fazer um disco que eu pudesse apoiar e amar. No que concerne o feminismo, acho que o que está acontecendo agora é que mais homens estão sendo convidados para essa jornada e, pelo menos eu, chamo isso de movimento feminino – tem a ver com adotar os aspectos femininos de nossa humanidade”.

Jagged Little Pill foi mais uma força no sentido de fortalecer aspectos alternativos no mainstream. No mesmo ano, na Europa, víamos Björk lançar Post e PJ Harvey com To Bring You My Love. Como Lucy Jones bem apontou na NME, o álbum também abriu caminho para outras cantoras que usavam a própria vida como base para suas letras, como Christina Aguilera e Taylor Swift. E não há como deixar de citar Avril Lavigne, que ano depois seria a próxima jovem revelação do rock canadense, conhecida também pelo apelo pop e por escrever as próprias letras e músicas.

Mas o maior teste do tempo é retornar a um álbum e reparar se ele ainda fala, de algum modo, sobre o nosso presente. As pressões, os problemas e as angústias de um jovem (de qualquer sexo), e de uma mulher mais especificamente, continuam sendo as mesmas que Alanis relatou 20 anos atrás. Qualquer adolescente ou jovem-adulto que voltar a Jagged Little Pill vai descobrir um disco que terá muito a ver com o que ocorre ao seu redor e dentro de sua cabeça ainda hoje. Sendo assim, não há como não passar no teste.

Canadian singer-songwriter Alanis Morissette performing on stage, circa 1995. (Photo by Denis O'Regan/Getty Images)

Canadian singer-songwriter Alanis Morissette performing on stage, circa 1995. (Photo by Denis O’Regan/Getty Images)

PJ Harvey – To Bring You My Love (1995) faz 20 anos

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O blues, o sexo, a morte e o início da ascensão

Por Lucas Scaliza

O que é?

To Bring You My Love é o terceiro disco de PJ Harvey, mas o primeiro creditado somente a ela, já que seus dois primeiros trabalhos (Dry de 1992 e Rid Of Me de 1993) eram creditados originalmente como PJ Harvey Trio. Foi lançado em fevereiro de 1995 e já completou 20 anos.

História e curiosidades

Em To Bring You My Love, PJ Harvey se tornou mais musical e começou a sua escalada de sucesso no mundo do rock alternativo. Assim como o The Bends do Radiohead foi um disco alternativo de 95 que ganhou mais espaço por causa dos vídeos para “Just”, “Street Spirit” e “Fake Plastic Trees”, To Bring You My Love ganhou notoriedade em parte pelo vídeo de “Down By The Water” principalmente. O disco realmente abriu fronteiras para PJ Harvey.

Embora ela se mostre mais musical, ela não perdeu sua veia alternativa. Para este terceiro disco, a cantora e compositora inglesa se inspirou bastante no blues americano, nos riffs, licks e escolhas harmônicas típicas do estilo. Mas não pense que o que se houve vai te lembrar algum blueseiro famoso, como B. B. King, Eric Clapton ou Buddy Guy. PJ Harvey se mantém underground, lúgubre e um tantinho arrastado durante todo o álbum. O blues está lá, mas assume a forma de um post punk como o de Nick Cave, o australiano que também fez muita música underground pervertendo o blues principalmente na década de 1980.

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Além da própria Polly Jean Harvey, os responsáveis por conseguirem essa estética blues alternativa foram os coprodutores do álbum. De um lado, o amigo e parceiro John Parish, com quem ela gravaria o ótimo A Woman A Man Walked By quatorze anos mais tarde; de outro, o produtor Flood, que na época era conhecido por ter trabalhado com U2, Depeche Mode e Nine Inch Nails. Há também a participação de Mick Harvey, baixista de Nick Cave & The Bad Seeds, tocando seu estilo característico de baixo na ótima “Long snake moan” e órgão em “Send his love to me”.

O disco abre com a faixa-título “To bring you my love”, talvez a canção mais arrastado da obra, sustentada por um riff de guitarra com sete notas que se repete e se repete como um mantra. Há também dois violinos, uma viola e um cello nas músicas “C’mon, Billy”, “Down By The Water” e “Send his love to me”, mas esses instrumentos não servem para fazer grandes e divertidas orquestrações como outras bandas faziam no mesmo ano (como o Blur em The Great Escape). A presença dos arranjos de cordas é mais sóbrio e menos grandiloquente, melhor diluído na composição sem chamar tanta atenção para si. Além disso, há vários momentos em que Harvey sussurra ou canta baixinho (como em “Working for the man”), de um modo sombrio que lembra um pouco o estilo que Marilyn Manson adotaria para si. Aliás, este ano Manson também lançou seu melhor disco dos últimos 10 anos, The Pale Emperor, também buscando as raízes do blues do sul dos EUA e mesclando-o a seu próprio estilo.

Amor e morte, o diabo e Jesus, o terreno e o espiritual, os rios e o vento, o sexo e o abandono e o desespero. Todos temas e contradições que estão no álbum e casam muito bem com o som explorado por Harvey, Parish e Flood.

“Sinto que tenho oposições completas dentro de mim. Metade de mim ama o que faço, a outra metade só quer ficar quietinha e sozinha no interior”, ela diz em uma entrevista em maio de 1995. “O mesmo se aplica a minha música. Tem muita confusão, muita frustração nela… É sobre a luta para encontrar ajuda espiritual ou apoio emocional por meio do amor ou do sexo. É uma súplica por algo mais que preencha esse buraco, aquela coisinha que está faltando em sua vida”.

E ela completa o pensamento: “O que eu busco na música e o que quero produzir são… obras que sejam comoventes e inquietas, um ataque emocional. Não quero escrever uma música que só passe pela minha cabeça e não me faça sentir nada”.

Músicas e destaques

C’mon Billy: a quarta faixa de To Bring You My Love é a primeira a mostrar uma fluidez mais leve. Violão na mão de PJ Harvey, percussão com o parceiro John Parish e arranjos de cordas para completar os sentimentos de uma mãe que pede para Billy voltar para casa e finalmente conhecer seu filho. Na época, “C’mon Billy” não foi um sucesso, mas a faixa se tornou uma das preferidas do público de Harvey.

Long Snake Moan: o baixo de Mick Harvey, dos Bad Seeds, está presente desde o primeiro segundo e carrega o ritmo arrastado da faixa. A frequência vocal de Harvey está rachada e a guitarra de Parish é ruidosa e carregada de overdrive. Uma das faixas mais poderosas do disco. Uma das letras que ressaltam o poder mítico e folclórico que o blues distorcido da inglesa evoca. “Você terá que ouvir a minha longa cobra gemer”, ela canta no refrão.

Down By The Water: a música de maior sucesso de PJ Harvey até então, com sussurros macabros e cada verso sendo respondido por uma repetição, algo que é uma tradição no blues. Há também a referência a “Salty dog blues”, canção tradicional afro-americana que já foi gravada por artistas de blues, jazz e bluegrass que procuravam referências à América Profunda. O vídeo rodou bastante na MTV e impulsionou o álbum. A música, no entanto, não é tão comercial como se pensa: a música fala de uma mãe que afoga a própria filha.

Send His Love To Me: outra faixa, já no fim do disco, que soa mais aberta e iluminada, mais fluida, levada por violão, órgão, uma percussão e uma letra que retrata uma tristeza bastante mundana que implora a Jesus por um alívio. “Quanto mais tenho que sofrer? / Bom Deus, já aguentei o bastante / Esse amor é a minha tortura / Esse amor, meu único crime / Amor, por favor me liberte / Meus braços estão muito fracos para segurar / Meus olhos muito secos para chorar / Meus lábios muito secos para beijar”, ela canta com notável desespero feminino.

Passa no teste do tempo?

Passa. PJ Harvey ainda lançaria outras preciosidades anos mais tarde, como Stories From The City, Stories From The Sea (2000) e um de seus trabalhos mais maduros e assombrados, White Chalk (2007), sem falar no perfeito Let England Shake (2011). Mas To Bring You My Love, para a época e em vista do que já tinha feito, significou um despertar musical novo e que deu força para sua carreira.

Apesar da alta rotação de “Down By The Water”, da opinião favorável dos críticos e do contrato com empresários que trabalhavam com o U2, PJ Harvey não foi alçada ao estrelato. Mas sedimentou sua imagem de artista cult e passou, a partir de então, a atrair muito mais pessoas para o seu lado e ganhar o respeito do mercado e do público. Sua música, que nunca foi descartável, tinha a chance de ser reconhecida dessa maneira.

To Bring You My Love é como os discos da também inglesa Kate Bush ou da islandesa Björk, contemporânea de Harvey na briga por espaço no mundo pop: todas elas faziam suas músicas aspirando a algo mais do que apenas sucessos comerciais. Todas elas criavam álbuns que poderiam explorar uma ideia, uma tendência, aumentando seus próprios horizontes e repertórios e convidando o público para que embarcasse junto. Haveria prazer, haveria experiências, mas também haveria excentricidades e marcas de estilo que se provaram fundamentais. No caso de To Bring You My Love, PJ te transporta para um mundo mais escuro e te faz sentir desconforto – e quem sabe alguma catarse.

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Blur – The Great Escape (1995) comemora 20 anos

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O disco mais cínico dos anos 90 e do britpop duas décadas depois

Por Lucas Scaliza

O que é?

The Great Escape, lançado em setembro de 1995, é o quarto álbum de estúdio do Blur.

História e curiosidades

The Great Escape pode não ser o melhor disco do Blur, mas vendeu muito bem assim que foi lançado, chegou a número 1 nas paradas britânicas e foi o primeiro álbum do quarteto inglês a entrar nas paradas dos Estados Unidos.

Enquanto o Oasis tinha apenas o ótimo Definitely Maybe na discografia e estavam preparando o lançamento do também ótimo (What’s The Story) Morning Glory, em 1995 o Blur já tinha colocado seu britpop para rodar há mais tempo e estavam, como sempre estiveram, mais prontos para inovar. No caso de The Great Escape, eles ficaram realmente pretensiosos. Além do quarteto no comando de voz, guitarra, baixo, bateria, piano, teclado e sintetizadores, foram convocados instrumentistas para saxofone, trombone, trompete, violino, viola e cello. Tudo isso serviu para dar uma encorpada no som e ampliar a sonoridade da banda – algo que anos mais tarde continuaria a ser marca do grupo, principalmente das carreiras do guitarrista Graham Coxon e do vocalista Damon Albarn, como seu disco solo e sua carreira no Gorillaz deixou bem claro.

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Apesar de lidar com temas como a solidão, a exclusão e a alienação, a grande maioria das músicas em The Great Escape são animadas e solares. Se o britpop é a reação positiva aos tons menores e sentimentos mais pesados do grunge, The Great Escape pode ser a epítome desse lado menos sombrio do rock na década de 1990 que consegue soar iluminado e esconder temas nada animadores e nem tão diferentes assim do grunge, afinal. Em diversas faixas é possível perceber que há uma “bagunça” sonora. Pode ser uma passagem de sintetizadores ou de guitarras que destoam da canção, ou mesmo uma parte inteira que parece escapar da harmonia e melodia da canção. É a forma utilizada pela banda para demonstrar musicalmente a inadequação humana de que trata o álbum.

Mas é preciso lembrar que no ano anterior, 1994, o Blur tinha lançado Parklife, seu álbum mais celebrado até hoje e que significou a entrada definitiva do grupo no grupo de atenção da mídia e dos fãs. A “bagunça” e as pretensões de The Great Escape extrapolaram a espontaneidade do trabalho anterior. Afinal, nunca foi fácil fazer um disco cínico e esperar que o público o entenda como o criador o entende. Mesmo sendo o disco que melhor vendeu até os dias de lançamento de 13 em 1999, em 2007 Damon Albarn declararia que só não gostava de dois discos de que participou: Leisure, de 1991, antes de o grupo inventar o britpop, e The Great Escape.

E ainda há a polêmica envolvendo o Oasis. Foi em 1995 que a briga, sempre intermediada pela imprensa (pois não existia rede social ainda), entre as duas bandas britânicas ficou séria. O Blur lançou seu primeiro single de The Great Escape, “Country house”, no mesmo dia que o Oasis lançou “Roll with it”. O Blur venceu, foi sua primeira música da carreira a chegar ao primeiro lugar nas paradas. Havia críticos e revistas dizendo que o britpop não teria nada melhor do que The Great Escape naquele ano. Bem, a reviravolta foi amarga para Albarn, Coxon, Alex James e Dave Rowntree: durante a turnê pelos EUA, viram que o novo disco dos rivais já ultrapassava as vendas do seu disco. Mais do que isso: 20 anos depois, o público do mundo tem em mente mais canções de (What’s The Story) Morning Glory do que de The Great Escape. “Wonderwall” sozinha simboliza quem saiu vitorioso dessa “batalha do britpop”.

Músicas e destaques

Country House: a primeira do Blur a alcançar o topo das paradas é sobre um homem que fica rico e se muda para o interior a fim de fugir das pressões da grande cidade. É uma música digna do Blur. Ao mesmo tempo que vemos Alex James e Coxon fazerem jogadas espertas e criativas com baixo e guitarra, a música se mantém com a mesma pegada do Blur de Parklife.

Charmless Man: essa é a música avó de “O Vencedor” e “Cara Estranho” dos Los Hermanos. Parece feliz, mas é a história de um desajustado que, ao que parece, não teria motivos para ser o outsider. É para coroar o contraste entre música aparentemente feliz (mas com um sintetizador que evidencia os ruídos da história) e personagem em situação nada louvável.

The Universal: A música é bonita e, apesar disso, quase não entrou no disco. Ela já tinha sido um ska e ninguém sabia mais o que fazer para terminar a canção e torna-la boa de verdade. Mas Albarn apareceu com as orquestrações e todo o clima mudou para a balada que se tornou, com cara de trilha sonora. A faixa acabou sendo uma homenagem ao cineasta Stanley Kubrick. O seu clipe claramente utiliza os temas visuais do filme Laranja Mecânica (1971) e a capa do single faz referência a 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968).

Yuko and Hiro: Uma das músicas com mais sintetizadores do disco e que dão o aspecto mais inadequado do disco. Há uma desafinação constante – não de Albarn, do sintetizador – que faz dessa faixa uma das mais estranhas e tristes.

Passa no teste do tempo?

Vinte anos depois, continua a não ser um dos melhores do Blur, mas pode merecer uma ouvida nova. A banda, como um todo, está muito bem em todas as faixas. Coxon criativo como nunca, mostrando que até o britpop poderia mostrar outros meios de usar os instrumentos. Embora (What’s The Story) Morning Glory tenha vencido a batalha e se consagrado muito melhor, é um disco que encara o rock’n’roll e a música pop de maneira mais convencional. Mas talvez o problema seja que The Great Escape seja mesmo diverso demais em seu cinismo e isso feriu seu poder de coesão e fez com que poucas faixas realmente se destacassem.

Em abril o Blur lançaram um novo disco, The Magic Whip. A julgar pela declaração de Albarn de que basicamente serão os quatro músicos tocando juntos, sem muita pós-produção, fica claro que não é o modelo e a pretensão de The Great Escape que estão procurando. Assim, é um álbum para ser redescoberto, longe do auge do britpop e longe das disputas com o Oasis. O problema é que nunca poderá ser visto longe dos discos que o precederam e também dos que o sucederam.

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Radiohead – The Bends (1995) faz 20 anos

Front

A guinada alternativa começou aqui, mas ninguém esperava o que estava por vir

Por Lucas Scaliza

O que é?

The Bends é o segundo disco da banda inglesa Radiohead, lançado em março de 1995.

Histórias e curiosidades

Pablo Honey, o primeiro disco do Radiohead, teve algum reconhecimento e a música “Creep” tocou bastante, fez sucesso e apresentou o grupo para muita gente. Eram os anos dominados ainda pelo grunge, sobretudo nos EUA, e muita gente achou que seria por aí que o Radiohead se desenvolveria. Mas em 1994 estourou o movimento britpop, lançando uma nova tendência na música inglesa. Em 1995 o Oasis também apareceu para o mundo todo com a balada “Wonderwall”, mas Blur, Supergrass e Elastica também seguiam a cartilha. Mas com The Bends o Radiohead apareceu mais estranho, alternativo, com canções sobre sentimentos complicados e nada animadores. Não era grunge e não era britpop, afinal, uma trilha que desembocaria em OK Computer anos mais tarde.

Em uma entrevista em 1996, o repórter por quê a banda parece se afastar do britpop, embora seja contemporânea ao movimento. “Não gostamos tanto assim de cocaína”, Yorke responde. Johnny complementa: “Somos da cidade errada… Oxford”.

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O Radiohead ia sair em turnê com o R.E.M e o Soul Asylum, duas bandas alternativas dos Estados Unidos. Uma reportagem da época dizia que enquanto bandas como Red Hot Chili Peppers e Green Day expressavam a personalidade de seus integrantes nas músicas, o Radiohead era um turbilhão de sentimentos diferentes. E não apenas pela total inadequação do rapaz de “Creep”. “O pop esquisito do Radiohead expressa inadequação sexual, temos existencial e raiva extrema – sentimentos que a maioria dos membros da banda tem dificuldade de expressar sem a ajuda de amplificadores e guitarras”, dizia o texto.

“O único momento em que me sinto confortável é na frente de um microfone”, disse Thom Yorke, o vocalista, em 1995. “Sou obcecado pela ideia de que estou perdendo completamente a ligação com quem eu sou e cheguei a conclusão de que não há um Thom Yorke que não seja o cara que faz essas canções doloridas.”

A letra e o clipe de “Fake plastic trees” revisita o tema de “Creep”. O clipe de “Just” mostra uma inadequação que contagia e ainda assim não entendemos bem o que é e por quê. The Bends vinha com temas tão deprê que a revista Melody Maker disse que o Radiohead poderia ter o próximo suicídio ou mártir do rock’n’roll. (Kurt Cobain se suicidara no ano anterior).

“Muita gente acha que é feliz e eles vivem essas vidas chatas e fazem as mesmas coisas todo dia. Mas um dia acordam e percebem que não viveram ainda”, diz Yorke. “Eu prefiro muito mais celebrar os altos e baixos da vida cotidiana do que tentar negá-los”.

É o vocalista quem dá o tom emocional da banda, aquela roda gigante de sentimentos que nunca para de girar. Mas era o baixista Colin Greenwood quem dava os tons musicais da coisa, repensando acordes e ajeitando a estrutura daquilo tudo. Inclusive ao vivo ele não toca solos pré-compostos, preferindo criar algo na hora, improvisar. Se não fosse assim “não seria perigoso e não haveria chance de tudo dar errado”, ele diz. Bem, o tempo mostrou que o seu irmão, o guitarrista Jonny Greenwood, é igualzinho.

O produtor de The Bends foi John Leckie. Ele foi escolhido por ter sido o produtor de Real Life, disco do grupo Magazine de que os ingleses eram fãs (mas Leckie também tinha trabalhado com os Stone Roses e com o Ride). Em 2008 Leckie contou que assim que as másters do disco ficaram prontas, após meses de trabalho cansativo, a banda simplesmente enviou o material para os EUA, para os mesmos caras que produziram Pablo Honey. Leckie se sentiu ultrajado, como se “tivesse dado à luz 12 bebês” que lhe foram tirados. Ele não foi nem convidado para a audição final do disco.

A princípio, Leckie tinha sugerido que eles gravassem no estúdio Manor, que fica na área rural de Oxfordshire (e cujo dono é o fundador da Virgin), mas o grupo achou que era rock’n’roll demais, então foram para o Mickie Most’s RAK, em Londres. Trabalharam por nove semanas lá, Thom chegando às 9h e os outros ao meio-dia. Depois saíram em turnê pela Ásia. Quando voltaram, não gostaram do que tinham feito no RAK e decidiram usar o Manor mesmo. “Depois fui ao Abbey Road para começar a mixagem. Após algum tempo soube que a banda teria dito que foi como se o professor deixasse a classe. Talvez fosse uma coisa da idade, pois eu era 20 anos mais velho que eles. Eles se sentiam mais confortáveis com um assistente de engenharia do RAK, esse cara novo, Nigel Godrich”, contou Leckie. E, como você deve saber, Godrich virou o 6º membro do Radiohead, produzindo todos os outros discos do quinteto e inclusive discos solo de Yorke e fazendo parte de seu projeto paralelo, Atoms for Peace, ao lado do baixista Flea (RHCP) e do percussionista brasileiro Mauro Refosco.

“High and dry”, primeiro single do disco e uma das faixas que permanecem entre uma das mais queridas dos fãs, foi gravada durante as sessões de Pablo Honey, mas descartada por não ser o que a banda queria que fosse. Felizmente a demo foi redescoberta e remasterizada do jeito que estava. No meio de um disco bastante guitarreiro e cheio de efeitos como The Bends, a canção surge com seus violões e fraseados melódicos com um respiro. Mas Yorke não gosta da música.

No âmbito das loucuras, o Radiohead acabou sendo uma espécie de Rush do rock alternativo. Se os caras do Rush não iam para festas, não saiam com prostitutas, não bebiam até cair e nem destruíam quartos de hotel, como se esperava de astros do rock, os caras do Radiohead preferiam livros a festas, ficaram na pacata Oxford ao invés de se mudarem para as badaladas Manchester e Londres e eram amplamente reconhecidos como uma banda educada – com exceção dos surtos de Yorke, que eram bem anotados pela imprensa da época em suas matérias e preâmbulos de entrevistas. Questionado sobre o por quê de os jornalistas sempre citarem sua personalidade volátil (leia-se: explosiva), Yorke responde: “Porque muita gente na minha posição aprendeu a se comportar, só que eu não, e não sou muito bom nisso”. “Acho que as pessoas gostam de popstars calmos”, disse Jonny em seguida. “Como as estrelas de cinema. Elas não podem ser temperamentais, são basicamente uma distração.”

Durante um show no Canadá, um fã insistiu em ter um autógrafo de Greenwood no braço. No dia seguinte, havia uma tatuagem seguindo as linhas da assinatura.

Os quinteto tinham muitas influências musicais diferentes. Mesmo o trip hop dos anos 90, como o Massive Attack, já estavam com a banda desde antes de enveredarem por um caminho mais eletrônico. Sob este prisma não é de se estranhar os elementos do estilo incorporados à sonoridade de Kid A para a frente. E foi Jonny que fez Yorke gostar de jazz.

Ah, e já havia vazamento de informações em 1996, mesmo com os primórdios da internet. Nos estágios iniciais de trabalho para o que viria a ser OK Computer, um entrevistador pergunta sobre as referências a carros nas letras de Yorke e cita o verso “An airbag saved my life”, que está em “Airbag”, primeira faixa de OK Computer.

Yorke: Onde você conseguiu esse verso?

Entrevistador: Todo mundo no mailing list do Radiohead está falando sobre isso.

Yorke: Ah, merda. Deixa pra lá.

Jonny: Essa nem foi gravada e nem filmada ao vivo ainda. (Até hoje o Radiohead tem o costume de tocar algumas novas músicas ao vivo antes de gravá-las e lança-las oficialmente).

Entrevistador: Alguém tem uma fita com isso aí.

Yorke: Ah, merda. Londres!

Músicas e destaques

Planet Telex: faixa que abre The Bends, era para se chamar “Planet Xerox”, mas deixaram a ideia de lado, já que Xerox é uma marca. Única faixa criada durante o processo de gravação do álbum e gravada depois que a banda saiu e bebeu pra caramba. O vocal de Yorke foi gravado com o vocalista deitado no chão do estúdio ainda sob pesado efeito de álcool. Ouvindo o resultado final, dá para acreditar? É uma faixa que já anuncia que o disco será alternativo e mais esquisito, por conta de todos os efeitos de guitarra, teclado e sintetizador que dominam a faixa.

Fake Plastic Trees: uma música melancólica com letra bastante depressiva. Acredito que o sucesso dessa música deixou o estigma de “Radiohead, banda música deprê” que ainda se alastra entre quem não parou para ouvir a banda. A inspiração para a música veio de uma área a leste de Londres que foi projetada apenas com árvores artificiais. Os violões nunca perdem o volume, mas aos poucos a guitarra noise de Jonny ganha espaço e tudo soa enorme. Após passar muitas horas no estúdio, por determinação do produtor Yorke gravou três vezes um guia de voz e violão da música. Ao final da terceira, Yorke chorou.

Just: explosiva canção do álbum com um dos clipes mais interessantes daquele ano. A faixa nasceu de uma competição entre Jonny Greenwood e Thom Yorke para ver quem faria a faixa com o maior número de acordes. Todo aquele riff principal da música são acordes que vão sempre variando de tom e semi-tom até quase o fim do braço da guitarra. O uso do pedal Whammy, que viria a ser característico de Jonny, está neste riff também.

My Iron Lung: a guitarra barulhenta de Jonny Greenwood no final da faixa é um exemplo do estilo torto de utilizar o instrumento que acabou caracterizando músico e banda. A princípio é uma balada com um ar de cinismo (já que se trata de uma resposta ao que o sucesso de “Creep” havia se tornado) que tem arroubos sonoros violentos, como a personalidade do vocalista.

Street Spirit (Fade Out): música que fecha o disco e maior representante da tristeza e melancolia em que The Bends se apoiava. Seu dedilhado em variações de acordes Dó maior, Lá menor e Mi menor é marcante. A música alcançou o 5º lugar nas paradas inglesas, a melhor marca deles até então. Uma bela faixa que soaria bem em qualquer apresentação ao vivo deles de 1995 até hoje.

Passa no teste do tempo?

The Bends é um exemplo de como o Radiohead começou a se tornar uma boa banda de rock que não abria mão de alguma estranheza e mesmo assim sabia esculpir ótimas canções. É o disco que demonstrava evolução, mas que deixava insuspeito o que viria depois – Ok Computer e Kid A. Foi o disco que capturou a admiração do R.E.M. e do Garbage, o que não se joga fora – embora Johnny e Yorke tenham dito que não entendem essa admiração porque, segundo eles, “Não somos tão bons assim” e “A banda deles é melhor que a nossa”. É o que parecia há 20 anos. E hoje?

Sem querer causar polêmica, e respeitando muito toda a trajetória de R.E.M. e Garbage, é possível afirmar que os horizontes do Radiohead foram mais amplos do que o das duas bandas. Com a carreira que construíram, com toda a inovação e ambição sonora que já deixaram como legado para o rock inglês e mundial, não é uma banda que deixe algo a desejar para alguma outra. Aí está a importância do Radiohead e de The Bends, onde foi dada a guinada alternativa definitiva. Um disco que acabou ficando no coração de muitos fãs.

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Björk – Post (1995) faz 20 anos

Front Cover

Post sedimentou a importância que os vídeos sempre teriam na carreira da islandesa e mostra a evolução estética

Por Lucas Scaliza

O que é

Post, lançado em junho de 1995, é o segundo disco solo de Björk.

Histórias e curiosidades

Após a separação do grupo de vanguarda Sugarcubes, Björk foi para Londres preparar sua entrada na carreira solo e lançou Début, um ótimo álbum para uma carreira em ascensão. Mas ainda havia muito pelo que batalhar para a islandesa escrever seu nome no mundo e no showbiz da música mundial. Evoluindo e amadurecendo ainda mais sua vertente eletrônica e experimental, ela escalou ótimos produtores da cena londrina para seu segundo disco. Nellee Hopper (que produziu seu primeiro disco e trabalhava com o Massive Attack na época), Tricky (membro do Massive Attack) e Graham Massey, o cara que co-escreveu e co-produziu com a cantora o sucesso “Army of me” e “The modern things”, ambas feitas antes de Début.

Havia um toque de jazz e de eletrônico no primeiro álbum de Björk que foi aprofundado a partir de Post. A enérgica “Army of me” divide espaço com o jazz Broadway “It’s oh so quiet”, com o trip hop de “Possibly maybe” e com a orquestração de “You’ve been flirting again”. Há ainda as misturas, como o eletro-jazz de “The modern things” e “Enjoy”.

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A voz de Björk, de timbre único e versátil, vem de seu estômago, não do peito, o que dificulta as coisas para os engenheiros de som que trabalham com ela, principalmente porque ela se acostumou a grava tudo em lugares abertos (e aí os engenheiros escolhiam os mesmos microfones que usavam para captar os baixos acústicos). Em Londres era praticamente impossível encontrar um lugar que a deixasse confortável assim, então Nellee Hopper voou com ela para a Bahamas e gravaram os vocais todos na praia, no Compass Point Studio. Ela usou um microfone e um fone de ouvi com fios bem longos, sentava na praia por volta da meia-noite e cantava. “Era a primeira vez que fazia uma música assim em 20 anos. Eu chorava de alegria, porque era algo que eu queria muito. Quase como se você fizesse sexo várias vezes, e fosse ótimo, e aí você não teria sexo tão bom por 20 anos, e então de repente você tem de novo. Foi completamente chocante”, ela diz em uma entrevista de 1995.

O nome do disco tem até três significados: o primeiro é de “pós”, já que Début foi escrito na Islândia e Post é sua carreira após essa fase, quando ela tinha se mudado para Londres. Também tem a ver com o verbo postar, como se cada letra fosse um “post” para alguém ver sobre como ela se sente. E por fim tem a ver com postagem, correio (post mail, em inglês). O tracejado azul e vermelho na roupa branca que ela usa na capa do disco é uma referência à bandeira do Reino Unido e um tracejado encontrado nos envelopes do Correio Real aéreo do país.

As letras de Björk sempre foram instigantes. Seja o que ela escreve sozinha ou o que vem de parceiros – como o escritor e poeta islandês Sjón – possui um ponto de vista bem interessante. Segundo ela (pelo menos até 95), sempre que uma letra vem na primeira pessoa ela narra os sentimentos de amigos e de terceiros. É quando escreve em terceira pessoa que está falando de si própria. No entanto, a excepcional “Possibly maybe” está em primeira pessoa e, até onde se sabe, é sobre um relacionamento que não deu certo. Nessa faixa ela fala de um amor que pode ocorrer não se sabe como e nem quando, mas que não é para sempre (Björk não acredita em amor para sempre, mas definitivamente acredita em um amor tão colossal que mexe com toda a sua existência). “Desde que nos separamos estou usando batom novamente/ Vou chupar minha língua como uma lembrança sua”, ela diz no último verso. Sem falar que logo os primeiros versos da música deixam claro um ar bastante sexual. No refrão fica bem evidente o verso “possibly maybe”, mas não a resposta “problably love”, quase um suspiro baixinho. Já na animada “I miss you”, com seus sopros jazzísticos e percussão étnica, ela imagina um amor que ainda não encontrou. Um tema interessante para encaixar aquele sentimento de falta ou de saudade de algo que não sabemos bem o que é, mas sabemos que existe em algum lugar. “Agora eu sei que você vai chegar, assim que eu parar de esperar”, ela conclui.

“Cover me” pode não ser a preferida de muita gente, mas é uma música que anuncia muito do que consiste a estética de Björk até hoje. A música consiste de dois elementos principais: a voz dela e um cravo tocado por Guy Sigsworth (que já colaborou com Madonna, Imogen Heap, entre várias outras cantoras), quase como uma música clássica moderna, mas é completada por ruídos e atmosferas que transformam “Cover me” em uma música mais densa e sombria. Esse tipo de roupagem musical deu a tônica de muita coisa que Björk produziu, inclusive em seu último disco ao vivo, Biophilia Live.

Músicas e destaques

Army of me: música pesada de abertura do disco, com um riff marcante no baixo, cheio de notas dissonantes, e um refrão acompanhado por um cromatismo descendente de Ré – Ré bemol – Dó. Segundo a cantora, é uma música sobre pessoas que ficam se vitimizando e não resolvem seus problemas. “Chega ao ponto de você fazer tudo o que pode por elas e a única coisa no caminho delas são elas mesmas”.

Hyper-Ballad: uma de minhas músicas preferidas de toda a discografia da Björk. A parte dos versos é composta por uma sequência em que três acordes ficam se repetindo em um intervalo de três compassos, e não de quatro, como ocorre com 90% das músicas pop. Uma música bastante acessível para quem quer conhecer o lado mais colorido da islandesa. A letra é como uma fábula sobre um casal que vive numa colida no meio do oceano. Ela acorde antes dele e se livra de todos os objetivos que não fazem parte da relação deles. Ela até imagina como seria se ela se jogasse. Quando ele acorda, ela já fez tudo isso e já imaginou esse tipo de coisa destrutiva e então pode sentir-se feliz por estar com ele, sozinha com ele, no topo de uma colina.

Isobel: uma das faixas mais clássicas de Björk, uma mistura de trip hop com orquestração clássica e trompete jazzístico. É a segunda parte da trilogia sobre uma mulher que vive isolada. As outras duas partes são “Human behavior”, de Début, e Bacherolette, do Homogeniac (1997). A letra é um conto de fadas sobre uma garota chamada Isobel que nasce em uma floresta e chega ao amadurecimento quando o verde ao redor dá lugar à cidade. Ela não gosta da cidade e decide se isolar de novo. Foi a primeira letra que Sjón escreveu em sua vida, após Björk lhe explicar a ideia. O tema da floresta explica a percussão da música. E a orquestração foi feita pelo pianista brasileiro Eumir Deodato. (“Human behavior”, a primeira da trilogia, foi composta a partir de um trecho de uma música de Tom Jobim.) Mais tarde, as músicas “Oceania” e “Wanderlust” seriam incluídas nessa série também.

Possibly maybe: a música retrata um rompimento e foi a primeira música triste escrita pela cantora. É sobre sua experiência após o término com o fotógrafo francês Stéphane Sednaoui. Sednaoui, aliás, foi quem fez a foto para a capa de Post e também dirigiu o clipe da música. Se hoje Lana Del Rey constrói sua carreira falando de romances complicados de forma arrastada e letárgica, é porque Björk abriu caminho para isso.

Headphones: a última faixa de Post, uma música que não é muito comentada, mas vale a história. “Headphones” foi feita em parceria com Tricky. A letra, Björk diz, é uma carta para a pessoa que passa um dia estressante e no final de tudo coloca os fones de ouvido e põe para tocar uma fita no walkman (lembre que estamos na metade da década de 90 aqui) e dorme ouvindo música. A produção da música valorizou sons bastante modernosos que chegam de uma forma que só é possível compreender bem ouvindo com fones de ouvido. As batidas planejadas por Tricky chegam ao fundo dos tímpano enquanto a mixagem faz os barulhinhos irem de um lado dos fones para o outro.

Passa no teste do tempo?

Sim. Além de representar uma evolução no trabalho de Björk, mostra também ela escolhendo produtores que identificam bem uma era para fazer um som que tenha a ver com a contemporaneidade e com suas ambições artísticas. Além de tudo o que já foi discutido, é importantíssimo ressaltar que cinco faixas de Post ganharam videoclipes, uma forma de arte que ajudou muito a impulsionar a carreira de Björk e de seus colaboradores. Três deles (“Army of me”, “Isobel” e “Hyper-Ballad”) foram dirigidos pelo francês surrealista Michel Gondry (Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças). O clipe de “It’s oh so quiet” foi feito por Spike Jonze (Onde Vivem os Monstros, Ela) e ajudou a fazer a música ser mais conhecida em vários países. Em Post está uma série de características que a islandesa desenvolveria ainda mais em sua carreira. Um disco fundamental em sua carreira e para os fãs

Kate Garner

Kate Garner

Gov’t Mule – Dark Side of the Mule (2014)

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Show incrível, energia de sobra e tributo ao Pink Floyd

Por Lucas Scaliza

No Halloween de 2008, a banda Gov’t Mule, formada pelo guitarrista Warren Haynes (que integrou a reformulação do The Allman Brothers em 1989), fez um show incrível no Orpheum Theater em Boston (EUA). Com 3 horas de duração, tinha três sets. O primeiro composto de 8 músicas da própria banda. O segundo, mais do que especial, foi uma coleção de boas canções do Pink Floyd, reproduzindo boa parte dos discos Dark Side of the Moon (1973) e Wish You Were Here (1975). E um bis com mais duas supermúsicas do grupo.

Ou seja: um set list incrível que agora foi lançado como disco triplo ao vivo, chamado Dark Side of the Mule. É, desde já, obrigatório para quem 1) já gostava de Haynes e sua banda; 2) é fã de Pink Floyd; 3) gosta de discos ao vivo; e 4) para quem não dispensa uma boa música de guitarra.

Gravado em 2008 em áudio e vídeo, mas lançado só agora, Dark Side of the Mule comemora os 20 anos da banda.

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Mesmo que você gravite até o disco por causa do extenso repertório pink-floydiano, deverá curtir bastante as músicas da banda no primeiro disco. Blues rock com passagens bastante interessantes e cheias de energia em todas elas: “Brighter days”, “Bad Little Dog”, “Child of the Earth” e “Brand new angel”. Mas o destaque ficam por conta das longuíssimas (todas acima de 10 minutos) “Gameface” e “Kind of Bird”, sem falar na jam de 19 impressionantes minutos formada por “Trane/ Eternity’s breath/ St. Stephan”. Tem de tudo um pouco: jazz, blues, rock, passagens mais viajantes e até um toque de progressivo. E toda a banda está irrepreensível ao vivo: Haynes acerta nos timbres e o baterista Matt Abts dá um show em diversos momentos.

O segundo disco, que inaugura o setlist do Floyd, começa acertadamente com a climática “One of these days” e sua pesada linha de baixo e guitarra com eco. Na sequência temos “Fearless”, fazendo um merecido resgate da canção, e a primeira parte de “Pigs on the wings”, que é acompanhada espontaneamente pela plateia do show.

Um dos trunfos deste disco é a presença de um público empolgado na mixagem final. Eles cantam junto com a banda, aplaudem, assobiam e dá para perceber o quanto estão se divertindo com essa homenagem. E até completam as frases nas horas certas em coro, deixando o registro com um verdadeiro gosto de ao vivo.

Gov’t Mule é ambicioso e competente: tocam as duas partes de “Shine on your crazy Diamond” na íntegra, a clássica “Wish you were here” e até “Have a cigar”. Do Dark Side of The Moon, executam quase o disco todo, de “Speak to me” a “Money”, passando por “Time”, “Breath (in the air)” e “The great gig in the sky”. E claro que há também “Comfortably numb”, em que Haynes toma a liberdade de colocar seu toque blueseiro todo especial sobre a progressão de acordes originalmente feita por de David Gilmour. Há também um saxofonista convidado pela banda que empresta ainda mais feeling a todo o show.

Para o bis, Gov’t Mule volta para tocar a “Million miles from yesterday” e, por fim, a poderosa “Blind man in the dark”, com 10 minutos de duração, no melhor estilo blues de Chicago.

Dark Side of the Mule é um registro e tanto do Gov’t Mule sobre um palco. Um dos melhores discos ao vivo que você poderá ouvir este ano – caso seja fã de rock e Pink Floyd, naturalmente.