abba

Lindsey Buckingham & Christine McVie -Lindsey Buckingham Christine McVie (2017)

Gravado pelo Fleetwood Mac, mas não é Fleetwood Mac

Por Gabriel Sacramento

Poucas bandas conseguiram uma proeza tão notável quanto o Fleetwood Mac em seus dias mais gloriosos: explorar a fronteira – se é que realmente existe – entre o pop e o rock, em uma época que a referência de pop era o ABBA e a referência de rock, o Led Zeppelin. O grupo parece ter a fórmula para canções irresistíveis e enxutas no seu esqueleto, sendo merecidamente uma das bandas mais importantes da história.

O disco em pauta neste texto foi gravado por 4/5 do Fleetwood Mac atual, mas saiu como uma parceria do vocalista/guitarrista Lindsey Buckingham e Christine McVie – que lembra muito a ideia da parceria Buckingham Nicks, do guitarrista com a outra voz feminina famosa do grupo antes de ingressarem na banda. Buckingham e McVie eram membros ativos e importantes compositores do Mac, que juntos já eternizaram hits como “Don’t Stop”, do Rumors (1977). Lindsey Buckinham Christine McVie marca a volta da cooperação criativa dos dois, depois de um tempo separados. Também é o primeiro disco de inéditas da galera toda junta, menos a Stevie Nicks, em anos.

buckingham_mcvie_2017

Como o disco foi gravado pela mesmíssima cozinha rítmica/harmônica e parte das vozes do Fleetwood Mac, é quase impossível que não soe realmente como algo que o grupo faria. Aqui a leveza sônica joga a favor do grupo em canções como “On With the Show”, cantada pelo Buckingham. A faixa é bem tranquila e caracterizada pela marcação pontual dos acordes pelo baixo. A contemplativa “Carnaval Begin” é uma canção que mesmo despida de maquiagem e excessos, soa completa e bela. O teclado de Christine chama a atenção pelas melodias que servem completamente à música e ainda conversam bem com parte rítmica. O dedilhado típico e singular de Buckingham rouba a cena em “Love is Here To Stay”, uma canção bem simples também e igualmente bela. “Too Far Gone” tem uma veia mais roqueira, com um jogo sensacional de vozes e a bateria sendo usada como recurso criativo, diferente da função típica de marcação de ritmo, como o Mick Fleetwood já tinha feito em ocasiões como na clássica “Go Your Own Way”, de 1977. Temos três faixas especiais com cara de hit: “Sleeping Around the Corner” – com um refrão chiclete e um instrumental ousado -, a tropical “Feel About You”, com suas influências de doo-wop e “In My World”, com um arranjo sofisticado e refrão inesquecível, que parece alguma coisa criada originalmente para o ABBA.

Quando perguntado sobre suas influências musicais e seu estilo de tocar, Buckingham afirmou que não gosta do estilo de Eddie Van Halen, por exemplo, pois prefere guitarristas que toquem para a música e não somente para se destacarem individualmente. Essa visão com certeza guiou o músico na sua carreira e o levou a desenvolver essa fórmula de criar e produzir hits, em que todas as partes cooperam decisivamente para um todo forte. O resultado são faixas imbatíveis em termos de sensibilidade e apelo pop, mas não soando necessariamente descartável para ouvintes mais exigentes. Outra banda que também dominou esse modus operandi foi o Steely Dan, por exemplo.

Seu novo disco com a McVie segue esse modus. Como sempre, sobra capacidade de entrar e sair pelo rock e pop, com foco na força das faixas, no quanto soam agradáveis e marcantes para o ouvinte médio/fácil, sem se preocupar em se prender a gêneros ou idéias padronizadas. Um álbum que proporciona uma tranquila viagem pelo mundo das ideias sonoras, cheia de conforto e segurança. Esse disco vai te fazer querer ouvir Fleetwood Mac de novo e respeitar ainda mais esse grupo sensacional, que é tão seminal para a música pop.

E fica cada vez mais fácil acreditar que quando esse pessoal se junta não tem como sair algo ruim.

buckingham_mcvie_2

Steven Wilson – Cover Version (2014)

steven

Nada é tão melancólico que Steven Wilson não possa entristecer ainda mais

Por Lucas Scaliza

Steven Wilson é um incansável compositor, cantor e multi-instrumentista inglês que embarcou em uma exitosa carreira solo depois de se tornar conhecido em projetos e bandas como No-Man, Porcupine Tree (sua banda mais famosa de rock progressivo), Blackfield (pop melancólico com o israelense Aviv Geffen), Bass Communion (de música ambiente sombria e experimental), I.E.M (projeto de kautrock) e Storm Corrosion (espécie de folk sombrio e experimental ao lado do amigo Mikael Akerfeldt, do Opeth), sem falar nas inúmeras participações especiais. Ele também é um dos mestres em mixagem 5.1 e tem feito esse trabalho para o catálogo de diversas bandas de rock progressivo, como King Crimson, Yes, Jethro Tull e Genesis. Além disso, é um produtor de bandas atuais de mão cheia. Com um currículo desses e com uma carreira solo que só cresce desde 2009, Steven Wilson é um dos músicos com maior trânsito no rock progressivo e na música mundial atualmente. Ele é uma espécie de Josh Homme (Queens of the Stone Age) ou Dave Grohl (Foo Fighters) dentro de seu nicho progressivo.

Sempre às voltas com alguma gravação – dele ou de amigos –, ao longo dos anos ele acumulou EPs de duas faixas: uma sempre é uma música original sua (não gravada por nenhuma de suas bandas) e um cover de algum artista ou banda. Este ano, após lançar o aclamado The Raven That Refused to Sing em 2013 e finalizar uma turnê mundial com um show no tradicional Royal Albert Hall em Londres, Wilson lançou Cover Version, uma compilação de seis composições suas e seis covers em forma de álbum (um formato mais fácil de vender [e de achar] do que seus EPs).

wilsonbanner

“Thank you”, da canadense Alanis Morissette, abre o disco. Steven Wilson a interpreta com sua voz suave e com um violão apenas, tornando a composição uma peça triste e com menos excessos. “The day before you came” é mais uma interpretação de SW para uma música original do grupo pop sueco Abba. Na mão dos suecos, a faixa é um eletropop que consegue disfarçar sua porção mais “down”, mas na mão de SW toda a melancolia da composição emerge com força. “A forest”, música do disco Seventeen Minutes do The Cure, sempre foi soturna. Wilson preserva essa característica com uma levada dark e lenta com efeitos eletrônicos e uma voz assombrada.

No início de “The guitar lesson”, do Momus, SW troca o teclado pelo dedilhado no violão. Ao longo da faixa novos sons aparecem. Não que a música original fosse feliz (não é!), mas na voz e na produção de Steven Wilson a tristeza latente é trazida para o primeiro plano. Até mesmo o dance de guitarra de “Signo o’ the times”, do Prince, ganhou uma versão mais eletrônica de SW. Mas os riffs originais foram mantidos, dentro de um clima mais opressor. “Lord of the reedy river”, do escocês Donovan, Wilson traz a melancolia à tona nas batidas de seu violão e em sua voz melodiosa e lamentosa. O solo, usando a escala menor harmônica, só reforça essas impressões. Afinal, nada é tão melancólico que SW não possa entristecer ainda mais. Entretanto, o compositor de rock progressivo se mantém fiel ao clima original de Donovan e inclusive preserva a pegada mais jazzística da canção.

“Moment I lost”, “Please come home”, “Four trees down” e “An end to end” são todas músicas próprias de SW que reforçam o sentimento geral de Cover Versions e sua habilidade para fazer melodias bonitas e músicas interessantes só com piano, violão e voz. “Well you’re wrong” surpreende: embora ainda seja para baixo, é uma canção que traz SW cantando em falsete e um piano doce. O que contrasta totalmente com a soturna e sepulcral “The uniquet grave”, que é uma roupagem muito própria de Steven Wilson para uma canção folclórica. Com quase sete minutos, o cantor sussurra uma história de fantasmas enquanto é acompanhado por coro e efeitos sonoros que só reforçam o clima de terror da faixa.

Cover Version é um lançamento “menor” de Steven Wilson, que atualmente trabalha em seu próximo disco solo, que deverá ser lançado no primeiro trimestre de 2015. A compilação é muito coerente com o gosto pessoal do compositor e pode ajudar quem começou a acompanha-lo a pouco tempo a conhecer melhor seu estilo fora do rock e do metal progressivo. Para quem já está há tempos na cola do líder do Porcupine Tree, Cover Version é mais um artigo de colecionador, não exatamente algo que revele melhor o músico e compositor. De qualquer forma, a nova roupagem que dá aos covers só reforça sua versatilidade e boa mão para produções finas, equilibradas e de bom gosto.

steven_wilson_covers_lp_2