análise

Sheryl Crow – Be Myself (2017)

Fofo e semirebelde em boas proporções

Por Gabriel Sacramento

“If It Makes You Happy, it Can’t Be That Bad”

Comecemos esta resenha com uma citação da letra de “If It Makes You Happy”, clássico da Sheryl Crow dos anos 90. A americana do Missouri, formada em composição, com um histórico de participação em bandas de gente famosa como Stevie Wonder e Rod Stewart, é também atriz, mãe, feminista e uma das grandes representantes do rock country americano na década de 90. Guardadas as devidas proporções, Crow é quase uma Bruce Springsteen versão feminina – e as semelhanças vão do som ao jeito como ela empunha a guitarra nos shows, que lembra muito o The Boss.

O country sempre esteve na veia da americana. Mas no último álbum, Feels Like Home (2013), ouvimos uma vertente mais soft do estilo e menos de rock. Diante da recepção pior do que o esperado, Crow resolveu fazer um back to basics – que retoma a simplicidade e inocência dos primeiros discos, mas também ressalta a veia roqueira da garota que cresceu ouvindo Rolling Stones. Por isso, Be Myself está sendo vendido como um álbum de rock, o que foi reforçado pela volta da parceria entre a loira e Jeff Trott, produtor dos ótimos Sheryl Crow (1996) e The Globe Sessions (1998) – disco que possui aquela bela versão country de “Sweet Child O’ Mine”.

A diferença do anterior para Be Myself vai do som até a capa: No de 2013, vemos a cantora com uma expressão feliz com flores ao fundo. Já nesse novo, temos Crow sentada em uma cadeira em uma expressão séria e vestindo preto. O ensolarado pelo obscuro, afinal. A faixa título soa bastante como os Stones nos velhos tempos. A canção possui esse acento roqueiro misturado com country e uma letra que traz um questionamento interessante: “Se eu posso ser outra pessoa, por que não posso ser eu mesmo?”. A ótima “Heartbeat Away” é marcada por um lirismo misterioso e sofisticado e por uma sonoridade rock alternativo, com vocais distantes nos versos e uma explosão com mais distorção no refrão. Aqui, Crow deixa até o country de lado e se permite enveredar por algo diferente.

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Em “Grow Up”, Crown soa como uma adolescente, dizendo claramente que não quer crescer. Claro, tudo é circundado por guitarras levemente distorcidas e uma vibe roqueira anos 90. “Alone In The Dark” tem aqueles versos que são difíceis de desgrudar da cabeça, com as guitarras executando as melodias, o que deixa tudo mais memorável ainda. Já “Halfway There” tem um refrão que lembra as cantoras de pop da década passada.

A impressão que temos ao ouvir Be Myself é a de que Sheryl Crow decidiu trabalhar em paralelo seu lado mais inocente e ingênuo (que resgata a jovem semi rebelde do início da carreira) com um lado mais pop polido, submetendo as faixas a estruturações bem definidas e a um feeling de tudo arrumadinho, no seu devido lugar. Trott cooperou positivamente com a cantora e ambos conseguiram um resultado que acentua ambas as características muito bem. O desejo por um som polido não sufoca a faceta mais insurgente e ambas dialogam muito bem enquanto convencem o ouvinte de que vale a pena seguir para a próxima faixa.

Mesmo com seus momentos menos fortes – afinal, o disco não é uma obra prima -, o novo trabalho da cantora americana consegue agradar os ouvintes, enquanto os intriga. Afinal, não é todo dia que ouvimos um conjunto de faixas com potencial pop, comercial, grudento e radiofônico revestido com uma capa roqueira e abafada. Crow consegue soar como uma jovem garota iniciando na música, como aquela que ouvia os Stones, mas que sabe a direção a seguir, não se deixa levar por leves distrações e também não se deixa levar pela ansiedade jovial.

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Crow não precisa provar nada a ninguém, atingiu um nível absurdo de segurança em sua carreira e é essa segurança que a permite buscar referências diferentes e trazer um produto distinto e que não segue a mesma linha do anterior. Essa segurança também permite que a cantora mantenha sua personalidade intocável, enquanto tenta se renovar. Be Myself não é nenhuma inovação surpreendente, mas é um presente nostálgico para fãs de longa data. Um oi para aqueles amigos de infância que há muito tempo não se vê.

Se algo deixa a cantora feliz é referenciar seus ídolos com sua música. Be Myself permite que ela o faça, sem abrir mão da ambição comercial. Aqui, se deixar levar em busca da felicidade e realização profissional é sinônimo de resultados redondos. Afinal, se te faz feliz, não deve ser tão ruim. E não é.

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Fleet Foxes – Crack-Up (2017)

A terceira ramificação

por brunochair

O quanto um reconhecimento artístico massivo pode causar de dor e delícia em alguém, apenas os artistas de grande renome podem dizer. Nós, aqui do anonimato, espectadores do triunfo e da decadência, podemos apenas imaginar alguns dos possíveis efeitos. Senti-los? Não há realidade virtual que possa abarcar tamanha experiência, feita do suor dos poros e da carne.

Robin Pecknold, vocalista e compositor do Fleet Foxes, viu a sua trupe experimentar o sucesso de uma forma bastante abrupta. Logo no disco de homônimo de estreia, Fleet Foxes (2008) a banda viu surgir ao redor de si uma legião de fãs, ser convidada a tocar em grandes festivais pelo mundo afora. Todos os integrantes, jovens aprendizes em matéria de mundo, tiveram que lidar com essa nova realidade. Realidade esta que implica em conhecer a si e aos outros com uma certa rudeza, sem os rodeios que a vida comum às vezes nos proporciona. “Você precisa ser emocionalmente estável, você precisa estar confiante, você precisa ser diplomático”, disse Pecknold em uma entrevista.

Para Helpless Blues (2011) não houve o tempo de maturação necessário. A loucura do showbizz ainda aturdia e não centrava os integrantes. Para que esse processo fosse integralmente preenchido, foram precisos ao menos cinco anos, tempo este que os integrantes puderam olhar mais para dentro, enxergar o que não estava bem, aparar arestas que ficaram pelo caminho. Josh Tillman, agora ex-baterista do Fleet Foxes, preferiu seguir o seu próprio caminho solo como Father John Misty; Skyler Skjelset envolveu-se em outros projetos musicais; Robin Pecknold preferiu surfar e voltar a estudar.

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Fleet Foxes : no centro, Robin Pecknold; à direita dele, Skyler Skjelset

Após seis anos de hiato, temos os principais integrantes já na faixa dos 30 anos – um pouco mais donos de si, um pouco mais sabedores do que fazer e não fazer. E assim surge Crack-Up, disco que marca o retorno do Fleet Foxes. As letras do disco, todas compostas por Robin Pecknold, não mostram o processo final dessa caminhada, e sim ressalta o penoso caminho para se chegar até onde hoje se está. Privilegia-se a caminhada, os espinhos, os insucessos, os problemas de relacionamento, a penúria. Está tudo ali realçado, reelaborado em metáforas. As palavras procuram transmitir, pelo menos em parte, o que se sente.

A sonoridade também é explorada para transmitir estes sentimentos. O que notamos são grandes gangorras, um sobe-e-desce entre sussurros e plena exaltação. “I Am All That I Need/ Arroyo Seco/ Thumbprint Scar”, a primeira canção do álbum, é exemplo pontual deste processo. “Third Of May/ Odaigahara”, que já havia sido lançado em single e que trata da relação humana (pautada por conflito e afeto) entre os integrantes Robin Pecknold e Skyler Skjelset, é outro grande exemplo.

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O Fleet Foxes tornou-se uma banda conhecida por desenvolver uma estética sonora bastante peculiar, juntando elementos do folk, do pop e criando uma esfera um pouco passadista. Ouvir Fleet Foxes é uma experiência singular, única. E em Crack-Up o grupo permanece fiel a essa identidade sonora única, mas ao mesmo tempo consegue criar, a partir dela, uma terceira ramificação. Fleet Foxes foi um álbum ingênuo, alegre, criativo; Helpless Blues possuía uma certa melancolia e já apresentava um grupo tateando suas próprias características; e Crack-Up é a expressão máxima dessa busca sonora, individual e coletiva.

Ainda que o grupo tenha essa característica de “tocar fundo” o ouvinte através de seus arranjos, este disco é o que parece falar menos dos outros, e um pouco mais de nós mesmos. Essa característica mais humana que trará ao ouvinte uma experiência mais concreta no que diz respeito ao sentir. Portanto, não são apenas palavras que poderão refletir o estado de espírito de Crack-Up: ouvir é essencial.

Mew – Visuals (2017)

Agora um power trio, Mew aposta na mesma ambientação sonora do disco anterior

por brunochair

O Escuta Essa não traz somente novidades para o público. Os editores também trocam figurinhas e conhecem grupos novos a partir da indicação dos demais. Foi assim que eu conheci o Mew, em 2015: a partir de uma resenha do Lucas Scaliza sobre o disco + –e uma recomendação mais específica, do tipo, “ouça esse disco com atenção”. Tornou-se um dos que mais ouvi naquele ano.

O Mew tem grande habilidade para preencher uma sonoridade pop com elementos de música alternativa e elementos do rock progressivo. Na época, comparei-os aos Keane, dizendo que trata-se de um Keane “alternativo”, ou Keane “melhorado” (espero que os fãs do Mew entendam a comparação, já que o Keane teve dois ótimos discos, “Hopes and Fears” (2004) e “Under the Iron Sea” (2006)). Além disso, há sim uma influência de música nórdica, uma forma distinta (gelada) de lidar com arranjos e harmonias, o que as diferencia do pop de bandas análogas a ela.

Ao ouvir a discografia do Mew, notei que + – é uma busca do grupo em oferecer uma sonoridade mais palatável ao público. And The Glass Handed Kites, disco de 2005, mostra o que era o Mew em seu início: muito menos pop, dando ênfase nas experimentações e na virtuose, no hermetismo. No More Stories… (2009) já começa a dar vistas de uma guinada do grupo, e até mesmo as capas do disco vão representando essas mudanças estéticas, sonoras, visuais.

De + – para cá, houve uma mudança significativa no Mew: o guitarrista e fundador da banda, Bo Madsen, anunciou sua saída. Houve quem acreditasse que a banda anunciaria seu fim, mas os demais membros (Jonas Bjerre, vocalista e tecladista; Johan Wohlert, baixista e backing vocals; Silas Utke Graae Jørgensen, baterista) não só mantiveram o grupo como decidiram aproveitar o que eles chamaram de “pico criativo” para já produzir material novo, que é Visuals.

E aqui já sentimos a primeira diferença entre o álbum anterior e Visuals: o guitarrista convidado Mads Wenger faz um trabalho até razoável, mas percebe-se o quanto o Mew privilegiou as ambientações promovidas pelos synths aos riffs de guitarra. Para fazer o contraponto, basta pegar a música “Witness” do + – e tentar encontrar algo parecido em Visuals. Não, não há. A guitarra está ali, mas ela está longe de ser protagonista em qualquer momento. Isso não significa dizer que o disco novo é melhor ou pior que o anterior, e sim que a banda soube concentrar suas potencialidades no que os três integrantes originais poderiam oferecer de mais criativo. E sim, conseguiram obter êxito nesse ponto.

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Analisando o disco num aspecto mais geral, Visuals tem ótimas músicas. Outras, regulares. Nessas que estão mais na média do razoável, o problema encontra-se no grupo preso na sua própria proposta, e fica “mais do mesmo”. Exemplos disso são as canções “In a Better Place”, “Shoulders” e, num menor grau, “Candy Pieces All Smeared Out”. Ou seja, se você é ouvinte de primeira viagem do Mew, talvez goste dessas músicas por elas serem novidade. Porém, quem ouve o grupo há mais tempo, poderá sentir um certo tédio ao se deparar com elas.

Agora, algumas músicas se destacam exatamente pelo Mew conseguir amarrar o pop alternativo (alguns definem como art pop) ao progressivo. Casos das músicas “85 Videos”, “Carry Me To Safety” e “The Wake Of Your Life”. Em “Twist Quest”, mais uma música que considerava bem agradável, mas tornou-se genial no momento em que apareceu um solo de sax no decorrer da música, algo que até então não tinha aparecido. Ou seja, um recurso utilizado em um momento especial da música e que nos pegou de surpresa. Ponto positivo pro Mew.

“Learn Our Crystals” é a minha preferida do disco. Nela, fica evidente o quanto a banda consegue desenvolver a característica progressiva dentro desse art pop. Começa com um simples dedilhado de guitarra, e aos poucos o vocal e os synths começam a aparecer e preencher os espaços. A linha de baixo também é um aspecto a ser observado. A bateria surge discreta, mas toma uma cadência completamente diferente aos 1’15” e leva a canção pra um lugar completamente diferente. Mais uma guinada da música acontece lá para o fim, lá pelos quatro minutos cravados de música: um instrumental poderoso, em boa parte por conta da emulação de órgão realizada por Jonas Bjerre.

Enfim, em Visuals o Mew consegue provar ao público e a si mesmos que é possível seguir adiante sem o guitarrista fundador da banda. Deram mais força à ambientação promovida pelos synths, e seguem apostando numa sonoridade próxima àquela realizada em + -, ainda que estejam agora num power trio. O que permanece (e prevalece) é a vontade de escutar o grupo dinamarquês. Pode dar play, sem medo.

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Stormzy – Gang Signs & Prayer (2017)

Por Gabriel Sacramento

Histórias de vida, tretas entre rappers, drogas e louvores ao senhor

Stormzy surgiu como muita gente dentro do circuito da música hip-hop: participando de batalhas de freestyles e com colaborações com outros rappers. O britânico lançou em 2014 um EP chamado Dreamers Disease, e desde então conseguiu atenção dentro da cena grime da Inglaterra. Para quem não sabe, o grime é uma especie de hip-hop que vem do cenário underground inglês misturando Dancehall, música eletrônica e hip-hop americano. Dentro do gênero, muitos artistas têm surgido para fazer frente ao estilo americano e tem conseguido destaque.

Naturalmente, o grime já pressupõe um estilo dinâmico que aborda vários estilos em fusão, buscando sempre uma sonoridade pesada e mais energética. O Drake, por exemplo, obteve um resultado no seu novo que diferiu da mesmice do anterior, em grande parte por tentar experimentar com o estilo. Stormzy em seu novo disco, Gang Signs & Prayer, trabalha bem os ideais do grime, mas vai além disso. E é essa ousadia e disposição para experimentar novos rumos que o faz bem sucedido em sua estreia.

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Os temas de Gang Signs & Prayer variam bastante. Em “Bad Boys”, por exemplo, o assunto é treta entre dois rappers: O Ghetts, que participa na faixa, e outro rapper chamado Bashy. A faixa traz uma base lenta, profunda, com Stormzy alternando com o rap do Ghetts e os vocais melódicos do J HUS. Tretas também foram a base para criação de “Shut Up” – famoso single do rapper, pela qual ela já havia sido bastante reconhecido antes. É uma resposta bem direta do Stormzy à outro rapper que afirmou ser melhor que ele.

Assim como em “Shut Up”, temos outros versos de auto-afirmação em “Big For Your Boots”, na qual ele fala sobre sua história e ascensão na carreira. A faixa possui uma base bem criativa com batidas frenéticas. Frenético também é o ritmo de “Cold”, segunda música do track-list e uma das melhores, representando totalmente o típico som grime. “Cigarettes & Cush” é uma parceria com a americana Kehlani, que fala sobre a relação do rapper com uma mulher e com a marijuana. A faixa possui um clima mais R&B, principalmente pelas vozes femininas e pelo bom refrão – bem como pela instrumentação orgânica, com piano proeminente.

Mas a grande surpresa que o rapper britânico reserva pra nós em seu debut, é a presença de duas canções gospel. “Blinded By Your Grace” ganhou parte 1 e parte 2, para basicamente, falar de salvação e ajuda divina. A primeira parte apresenta somente o rapper cantando sobre um piano suave. Segundo ele, foi um desafio cantar isso, pois ele sempre achava sua voz ruim, mas acabou superando a falta de autoconfiança. A segunda parte traz o cantor também britânico MNEK, corais, harmonias e versos de rap. Aqui, ele “manda a real” rapeando dentro da temática religiosa. MNEK contribui muito bem com seu timbre – e que tem a ver com gospel, inclusive.

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Musicalmente, Stormzy explora tanto batidas eletrônicas típicas do grime, quanto instrumentação mais orgânica, utilizando pianos e até mesmo orquestração. Isso é mais um fator interessante acerca do que ele tenta neste disco, indo além dos padrões tanto do hip-hop quanto das produções britânicas. GSAP conversa bem com outros discos de grime e não só isso, tem o poder de ser uma grande introdução para o estilo, assim como é para o Stormzy.

Ou seja, GSAP é uma coletânea de ótimas canções que misturam grime, R&B, hip-hop e gospel. Stormzy vai além do seu esperado, até mesmo pelos seus fãs, apresentando um disco dinâmico, que experimenta com liberdade e que vai fundo na sinceridade do rapper e na transparência no sentido de refletir exatamente o que ele quer, independente de quem irá agradar ou desagradar. O cantor faz o seu papel como rapper, mas também como um músico que não se contenta com o comum.

E o melhor do disco é justamente isso: um cara com tanta propriedade dentro do cenário do grime, respeitado de onde vem, que conta a sua história, afirma quem é, deixa claro as brigas e a concorrência com os colegas, mas também acha espaço para fazer preces religiosas musicais. A coragem e a tranquilidade com que Stormzy faz isso é incrível. Gang Signs & Prayer se tornou o primeiro disco de grime a aparecer no topo dos charts britânicos, o que reafirma o reconhecimento do rapper e, também, a explosão que o estilo está protagonizando.

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Future Islands – The Far Field (2017)

Aqui está uma banda que você precisa (urgentemente) conhecer

por brunochair

Samuel T. Herring e sua trupe estão de volta com disco novo! Caso você nunca tenha ouvido falar de Future Islands, faça um pequeno favor a você antes de começar a ler esta resenha: assista ao vídeo abaixo do grupo apresentando-se no extinto programa do Late Show With David Letterman, em 2014:

Assistiu? Riu, achou estranho? Poxa, alguma impressão Samuel T. Herring deve ter passado pra você. Desde a primeira vez que assisti a uma apresentação do Future Islands, quando estou desanimado com alguma coisa (depressivo até) coloco um vídeo qualquer do grupo ao vivo para apreciar a performance apaixonada de seu vocalista. O cara é um barato. Assistir a ele desfigurando-se no palco durante as performances, batendo no peito e dançando tal qual uma serpente e suando em bicas aquelas camisas alinhadas é algo que nos aproxima dele, do humano que há nele. E sim, é muito engraçado. Impactante e impressionante, também.

Após essa apresentação no programa de David Letterman, o Future Islands passou do underground para uma posição de destaque dentro de um cenário alternativo dos Estados Unidos. Em Singles, disco que resenhei anteriormente, ressaltei a simplicidade sonora do grupo. Não espere nada muito extravagante, a não ser um synthpop bastante influenciado por bandas dos anos 80, como Depeche Mode, New Order e Duran Duran. Neste novo disco, The Far Field, a fórmula continua a mesma: apostar nas linhas de baixo de William Cashion e nas programações atmosféricas promovidas por Gerrit Welmers através do seu teclado. Ou seja, a cozinha é toda desenvolvida a partir desses dois instrumentistas e o baterista Michael Lowry (músico contratado). Samuel T. Herring recebe todo o espaço para brilhar – seja a partir de sua performance, do seu vocal e de suas composições.

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Os integrantes do Future Islands. Samuel T. Herring é o que está à direita

Quanto às composições, vale lembrar que na resenha de Singles relatávamos uma certa “breguice” no conteúdo das letras. Neste álbum, parece que Samuel T. Herring soube trabalhar melhor as suas narrativas, ainda que carregadas das costumeiras experiências pessoais e sentimentalismo. As composições estão mais artísticas, digamos. Em “North Star”, por exemplo, Herring devaneia sobre a chuva em um aeroporto. Em “Cave”, importante são as escolhas e circunstâncias das escolhas. Em “Through the Roses”, um filho dá adeus a seus pais, prefere errar sozinho (aliás, essa letra me fez lembrar um conto lindíssimo de Osman Lins, chamado “A Partida”). Não perdendo a vista da literatura, o nome do álbum (The Far Field) é inspirado em um livro de um poeta estado-unidense, Theodore Roethke.

The Far Field não é um disco assim, tão inovador. Mas Future Islands é um grupo que todo mundo deveria conhecer. A parte sonora é simples, mas ainda assim muito criativa; as composições são carregadas de sentimentalismo; o vocal de Samuel T. Herring é muito bom, já personifica o que seja a banda. E além disso tudo, as performances do cara ao vivo: impagáveis! A banda apresentou-se no Coachella, e o seu líder mais uma vez deu um verdadeiro show.

Future Islands, a banda legal com o tiozão que você mais respeita.

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Boas músicas: “Ran”, “Through The Roses”, “Shadows” (com Debbie Harry, ex-vocalista do Blondie), “Ancient Water” e “Black Rose”.

Incubus – 8 (2017)

Uma aula de equilíbrio

Por Gabriel Sacramento

Sabe o Incubus? Sim, aquela banda dos anos 90, que marcou muita gente com singles de sucesso, com sua sonoridade roqueira que alternava new metal com funk, e uma veia divertida, típica da Califórnia? Bem, eles estão de volta depois de um breve hiato, que foi importante para que os membros se dedicassem aos seus trabalhos paralelos e à vida fora da música.

Analisando a obra discográfica da banda, tiramos algumas conclusões: a banda nunca teve a intenção de se prender a um estereótipo musical e soube com cuidado renovar o som ao longo do tempo, mantendo um fator comum nos discos, que é a identidade. Outra conclusão é que isso acabou desagradando alguns fãs, aqueles que chamam qualquer álbum de “pop”, se, por exemplo, tiver mais de uma balada e fizer mais sucesso que o comum. Mas o grupo liderado por Brandon Boyd deseja se divertir com sua música, tentando a cada álbum não se repetir. E é assim também com o novo trabalho, intitulado 8 (que e é justamente o oitavo).

If Not Now, When (2011) é o disco anterior dos caras. Trazia uma pegada bem mais sensível e sentimental, mas que não tira o brilho das boas composições. E até as partes mais pesadas do disco não se comparam com os discos anteriores. Por sua vez, 8 pode proporcionar momentos de nostalgia para os fãs mais antigos, com guitarras pesadas e um feel que remete aos primeiros álbuns. A produção é assinada pelo Dave Sardy (Royal Blood, Oasis, Chris Cornell) e pelo Skrillex. O segundo assinou também a mixagem.

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A abertura é com “No Fun”, uma faixa que resgata uma vibe rock anos 2000, com peso, mas soando também divertida e com um refrão marcante. É um som até datado, mas não deixa de ser interessante. “Nimble Bastard” não foge dessa veia nostálgica e divertida, com Brandon mostrando porque é um dos melhores cantores dessa geração roqueira dos anos 90-2000, com uma interpretação fantasticamente precisa. Se nas duas primeiras tivemos peso com acessibilidade e refrões chamativos, no resto da tracklist temos uma sequência de faixas que mostram que a banda sabe trabalhar o equilíbrio entre partes bem pesadas e partes mais leves.

“Familiar Faces” é grudenta, apostando na repetição de palavras e no jogo inteligente de conexão entre elas. Mas não é pesada. Já “Glitterbomb” e “Throw Out The Map” mesclam bem momentos de guitarras distorcidas no primeiro plano e outros com as seis cordas mais afastadas. Esta última com um riff que lembra muito os do Tom Morello no finado Audioslave. “Loneliest” é uma balada bem doce, mas que mantém o tom e clima de balada típica da banda.

“Make No Sound In The Digital Forest” é uma prova de que a banda se permite criar livremente também. Faixa sem vocal, bem ambiente, com notas de guitarra espalhadas, efeitos diversos e um baixo forte. Aliás, também é uma prova de que a parceria com Skrillex funcionou bem, já que aqui ele deixa evidente a sua marca e consegue um resultado muito bom, que traz uma diferença notável na audição. É possível perceber o Skrillex claramente em outros momentos do disco também, o produtor soube bem trabalhar a sua identidade e a identidade da banda em paralelo.

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Se você gosta das bandas de rock alternativo que invadiram o cenário fonográfico na última virada de século e infestaram as rádios com seus singles acessíveis, vai se sentir muito bem ouvindo este disco. Aqui, ainda mais do que nos anteriores, a banda aprofunda a veia alternativa e descomplicada do Make Yourself (1999), mas inserindo boas guitarras no meio de tudo e uma intensidade roqueira intermitente. Ou seja, se pudesse descrever este disco com apenas uma palavra, seria equilíbrio. O mesmo que faltou para muitas bandas daquela época – que acabaram encharcando o som de açúcar -, aqui sobra.

Depois de tantos anos e tantas mudanças, o Incubus recupera aquele som com propriedade, sabendo o terreno em que está pisando e exalando consistência. 8, portanto, é mais pesado que o anterior, mas também sabe aproveitar bem a sensibilidade deste. Mesmo diante das mudanças de sonoridade, a banda sempre manteve uma regularidade no quesito qualidade, e 8 não é diferente.

Ouça e divirta-se.

John Mayer – The Search For Everything (2017)

John Mayer em busca por tudo

A busca por tudo poderia ser o resumo da carreira de Jonh Clayton Mayer. Sete álbuns de estúdio se passaram e ainda não temos certeza sobre o que ele quer ser. Ele já passou pela fase “garoto pop cool”, quando surgiu com o Room For Squares (2001), produzido pelo John Alagía (mesmo cara que produziu o Jason Mraz no início), chegou a flertar fortemente com o blues e nos apresentar uma faceta de guitarrista e vocalista, bem como sua técnica apurada nas seis cordas em Continuum (2006) e em Battle Studies (2009). E então recentemente, começou uma parceria com Don Was (produtor de Willie Nelson, Van Morrison e Jackson Browne), enveredando pelo folk/country em uma fase que, assim como a blueseira, durou dois álbuns – Born and Raised (2012) e Paradise Valley (2013). Finalmente, em seu novo disco (The Search For Evertyhing) Mayer se volta para a inocência pop do seus primórdios.

Vale lembrar que o cantor é muito competente em seus trabalhos. Mesmo que tente várias coisas diferentes, ele consegue chegar a resultados satisfatórios. Foi assim com seus últimos quatro discos, por exemplo. Mas essa crise de identidade acaba por não deixar que ele encontre o seu som e invista mais fortemente em uma direção para obter um resultado mais consistente. The Search For Everything marca a volta da parceria com Pino Palladino e Steve Jordan, que juntos com o Mayer começaram um trio de blues em 2005 e não gravavam juntos desde 2009. A produção do álbum ficou a cargo de Chad Franscoviak, junto com o próprio Mayer. O cantor liberou as faixas aos poucos, dividindo-as em dois EPs – Wave one e Wave two.

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“Still Feel Like Your Man” abre o álbum trazendo um quê dançante, com guitarras suingadas e ótimas harmonias de vozes no grudento refrão. “Helpless” carrega um pouco de nostalgia da fase mais guitarreira do cantor, com o instrumento na frente de ataque destilando licks e riffs cheios de suingue e um solo bem legal. “Love On The Weekend” traz um clima tranquilão de”fim de tarde de sexta”, que contrasta com as mais dançantes que vieram antes. Temos várias baladas como “In the Blood”, “Changing”, “Never on the Day You Leave”. Para fechar, a singela, infantil e incrivelmente bonita, “You’re Gonna Live Forever in Me”. Temos ainda faixas com acento folk/country como “Roll It On Home” e “Emoji of a Wave” e uma faixa que flerta com o R&B como o Mayer nunca tinha feito antes: “Moving On and Getting Over”.

O cantor americano parece ter sido bastante influenciado por black music ultimamente e percebemos isso em seu novo disco. Ele, que já usou sua guitarra pra solar, tocar riffs de rock, agora usa para fortalecer a noção de ritmo das faixas, engrossando o groove. O que é aliás, mais uma faceta do multifacetado John Mayer. Sua guitarra soa, como sempre, bem timbrada e aparece bem dentro das faixas. O trabalho de timbres do álbum todo lembra os últimos álbuns do Eric Clapton, tudo é muito límpido, solto, leve e confere um bom clima de tranquilidade.

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The Search For Everything não é um disco ruim. Aponta para várias direções diferentes, mas até isso é feito com muito cuidado e a produção do disco acerta em manter essas direções arrumadas de forma coesa. Nesse álbum, Mayer trouxe um pouco do seu lado guitarrista, seu lado folk, bem como seu lado mais pop do começo da carreira. Se em toda a carreira, isso não foi apresentado de uma forma tão harmônica assim, em TSFE, todas as facetas parecem estar bem conectadas. Ele conseguiu manter a constância de seus trabalhos e lançou mais um, que é interessante e vale a audição. Se, ao final de tudo, o saldo é positivo pelo disco em si, por outro lado, a carreira do americano continua bem imprevisível. O cantor parece que ainda não se encontrou e permanece em busca de algo.

Ou em busca de tudo.