análise

Banda Marília Gabriela – Agora Vai (2017)

Honrando a linhagem cômica do rock nacional

por brunochair

O rock’n roll, por conta da juventude e pretensa liberdade que possui na sua origem, sempre deu margem ao cômico e ao irônico. No Brasil, parece que esses dois ingredientes, unidos, interagem com muita naturalidade. Os exemplos são muitos, de todas as épocas e de todos os tipos: Língua de Trapo, Inimigos do Rei (da Hp, não), Raimundos, Ultraje a Rigor, Baba Cósmica, Virgulóides, Mamonas Assassinas, Pedra Letícia, Velhas Virgens, João Penca e os Miquinhos Amestrados, etc. Desde letras ácidas, irreverentes, palavrões e crônica social*, cada grupo dessa pequena amostra contribuiu, a seu modo, para desenvolver essa linhagem cômica no cenário nacional.

Em 2017 ganhamos um bom referencial para seguir esta linhagem irreverente do rock: a banda Marília Gabriela, e o seu disco Agora Vai. Lançado em 14 de Julho último em todas as plataformas virtuais, o disco prendeu a atenção do resenhista que vos digita (principalmente) pelos seguintes detalhes: ao mesmo tempo que temos um trabalho marcante do power trio, o vocal está muito bem encaixado e perceptível a todo o momento, o que nos faz acompanharmos as letras das músicas com tranquilidade. E aí o grande segredo do grupo, que é casar esse cenário musicalmente interessante com as letras engraçadíssimas.

Comecei a ouvir o disco, pela primeira vez, no trabalho. E acabei rindo alto, o que fez alguns dos colegas de trabalho pararem o que estavam fazendo para entender se eu estava passando bem. Foi um pouco constrangedor, culpa de “Namastrêta” e o seguinte fragmento da canção “sei que as vezes tudo parece difícil/ dá vontade mesmo de entregar a luta/ enfiar a mão inteira no orifício/ e rasgar completamente até a nuca”. Era uma sexta-feira, zilhões de problemas a resolver no trabalho, e… gratidão! A música foi endereçada pra mim! Rir para não chorar. Voadora neles!

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Muitas letras possuem essa irreverência, essa essência libertária e jovial do rock. “Mina tb Gosta de Oral”? É óbvio que sim. Mas os caras têm coragem de falar. Se você não gostou, “Que Se Foda”, música que conta com a participação do Egydio, do Tihuana. Em todas as músicas, bons riffs e refrãos marcantes, o que contribui para que as músicas comecem a grudar nas nossas cabeças. “Comer, Dormir e Dá Umazinha” tenta unir mortadelas e coxinhas sob o mesmo interesse. Se organizar direitinho, todo mundo tem.

“Ano Novo, Vida Torta” fala sobre as promessas de ano novo, difíceis de cumprir por conta das distrações que surgem durante a caminhada, se resumindo (na música) a cachaça e mulheres. Outra frase muito engraçada do disco é a seguinte: “eu bebo pra esquecer/ se fosse pra lembrar tirava uma selfie/ eu bebo pra ficar ruim / se fosse pra ficar legal tomava leite/ ela pediu pra eu escolher/ entre o amor e a birita, pai / confesso que eu não sei se escolho a vodka ou a tequila”. Esse é o refrão de “Bebo pra Esquecer”, música que o grupo também explora o reggae, o que também está em “Brinks”.

Mas a grande música do disco, na opinião deste humilde resenhista, é “Rei do Boteco”. Temos duas personalidades, nesta canção: o rei do camarote, aquele mesmo que virou meme; e o rei do boteco, um rapaz desprovido de bens materiais e que também quer ter sucesso e dar umazinha, ao seu modo. A saga dos dois rapazes é entrelaçada e, assim, temos uma música bem engraçada, com um refrão power e todos os ingredientes que fizeram de Agora Vai um disco interessantíssimo.

Por fim, é isso. Recomendo aos ouvintes atentos de rock nacional, de rock despojado e libertário, a Banda Marília Gabriela. Garantia de bons riffs e algumas risadas durante a audição, além da surpresa com o produto todo que eles entregam. Uma boa referência para rock nacional em 2017, e para essa linhagem cômica, tão bem explorada pelos rockeiros no Brasil.

*aliás, a crônica é um gênero que também se estabeleceu no Brasil de uma forma contundente, face a leveza e a comicidade existente nos relatos banais do cotidiano, muito bem explorado pelos escritores que desenvolvem o estilo por aqui.

Pó de Café Quarteto – Terra (2017)

O diálogo do jazz com a cultura caipira contemporânea

por brunochair

O Pó de Café Quarteto, grupo de jazz do interior paulista (Ribeirão Preto) que comemora dez anos de união em 2017, lançou recentemente o seu terceiro álbum da carreira, Terra. O disco é composto por nove músicas, sendo algumas delas releituras do cancioneiro popular sertanejo, como “Rei do Gado”, “Rio de Lágrimas”, “O Menino da Porteira” e “Tristeza do Jeca”. Os integrantes do grupo (Bruno Barbosa, no contrabaixo; Rubinho Antunes, no trompete; Duda Lazarini na bateria; Murilo Barbosa, no piano; e Marcelo Toledo, no saxofone) partem da ideia principal, do clima destas conhecidas músicas e as reelaboram, utilizando também a temática do jazz, mas não apenas no jazz.

Vale ressaltar que, nos dois discos anteriores, o Pó de Café Quarteto já se destacava por transitar nos diferentes gêneros musicais: samba, salsa, funk e outros ritmos latinos. E faz isso não como obrigação, mas como se estivesse no DNA de todos os músicos do grupo – ouvir e agir através de outros estilos, outros gêneros, novas formas de se fazer. O nível de pesquisa e comprometimento com a música contemporânea é notadamente sentido nos três álbuns. Porém, neste disco novo o tema caipira e sertanejo se faz muito mais presente do que os outros estilos citados.

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Terra apresenta (sim) essa identidade interiorana e caipira, mas já adaptado aos novos tempos. Não temos mais aquela inocência da vida no campo, nem tanto os causos de outrora, mas um ambiente um tanto hostil das grandes cidades. Essa transição campo/cidade é (ou foi) um tanto melancólica para quem esteve inserido nela, e provavelmente o Pó de Café Quarteto quis retratar um pouco desse sentimento em seus temas. A própria “Rei do Gado”, que abre o disco, parece trazer o relato do declínio desta figura mítica dos rincões brasileiros, que hoje não está condicionado mais a um símbolo de bravura ou virilidade: é apenas um homem de negócios, uma peça inserida no modo de produção capitalista. “Tristeza do Jeca” já contém na música original esta melancolia, e reproduzir (no tema) o fragmento mais conhecido da música já faz termos contato com essa perda, esse elo que não mais existe, esse banzo.

A interconexão entre jazz e música caipira é bastante notada, mas fica muito evidente na última canção do disco, “Caipira Coffee”. A presença da viola de Ricardo Matsuda abrilhanta e dá um novo corpo a ela, sendo uma participação mais que especial. Em “Terra”, faixa que dá nome ao álbum, a viola também aparece aqui e ali. E, por conta da viola ser um elemento tão rico e tradutor deste universo caipira, a impressão que temos é que o álbum poderia contar, tranquilamente, com outras músicas em que o instrumento fosse protagonista. O trabalho de percussão de Neto Braz também é relevante e enriquecedor.

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O jazz, oriundo lá dos Estados Unidos, ganhou proporções universais. Em cada canto do mundo, ele é reelaborado a partir da junção com tantos outros estilos musicais. No Brasil, a cultura caipira é um elemento rico em significações. Reunir estes dois estilos musicais e culturais é agradar aos ouvidos e sentimentos dos amantes de música, sem qualquer distinção étnica, de nacionalidade, de gênero ou credo. É dar sentido a arte e seus elementos. E, por conta desses fatores, o trabalho do Pó de Café Quarteto precisa ser elogiado, por representar esse diálogo, tão rico e fundamental no universo da música.

Portugal. The Man – Woodstock (2017)

Conservando elementos experimentais e psicodélicos, Woodstock marca a guinada mainstream do grupo

por brunochair

Se você acompanha as resenhas que escrevo para o Escuta Essa Review, sabe (ou tem uma impressão, pelo menos) de que gosto de contextualizar o gênero musical de um determinado artista/grupo. Não faço isso para delimitá-los, mas sim para facilitar na pesquisa do ouvinte de música, direcioná-lo para o conteúdo que pode interessar de imediato. Pois bem. Sempre que leio, internet afora, que o Portugal. The Man é um grupo de rock progressivo, todos os cabelos do meu corpo, da minha alma e os que eu perdi durante a caminhada da existência ficam arrepiados. Ainda que o grupo contenha a sua pitada de experimentalismo e psicodelia, nunca alcançou um status de progressivo em sua carreira musical.

O Portugal. The Man, banda oriunda do Alasca (EUA), está mais para o terreno do indie pop. O que os diferencia dos demais grupos do gênero é a sonoridade experimental e psicodélica alcançada através de elementos eletrônicos. É o toque de estranheza e curiosidade que atrai o ouvinte para a discografia deles. Em Woodstock, o grupo continua apostando nessa junção de instrumentos com os elementos eletrônicos. Porém, neste disco novo a aposta do grupo foi em desenvolver uma sonoridade bastante mainstream, um pop massivo que conseguisse abarcar uma enorme quantidade de consumidores.

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Se esta resenha tivesse sido escrita há algumas semanas, teríamos dito que a aposta foi essa: continuar soando indie pop (experimental e com presença de elementos eletrônicos) com a intenção de soar massivo. Mas o disco já ganhou o rumo das rádios e do YouTube, e bombou. “Feel it Still” tem quase 30 milhões de audições no Spotify. Já pude ouvir a música tocar nas rádios da minha cidade (Bauru) algumas vezes, inclusive a partir de pedido do público. Ou seja, o grupo atingiu o seu objetivo, e o single citado já disputa espaço com artistas como Ed Sheeran, Calvin Harris e o single “Despacito”, de Luis Fonsi.

Outras canções do disco possuem chance de também alcançar o status de singles radiofônicos. É o caso de “Easy Tiger”, “Rich Friends”, “Keep On”, “Tidal Wave” (inspiração em Magic!). Outras canções do disco não tem o mesmo potencial, ainda estão no terreno do alternativo, mas certamente o ouvinte de rádio (essa pessoa que imaginamos existir) se ela procurar ouvir o disco de ponta a ponta não terá problemas em entender a linguagem do Portugal. The Man. As músicas são descoladas, os temas e títulos de música simples e (em boa parte) descontraídos.

Para quem conhece a banda há mais tempo, talvez essa guinada mainstream tenha impressionado. No entanto, caso esse mesmo fã (ou ouvinte) da banda analise o percurso do grupo sem tanta paixão, verá que o caminho para o pop das massas era algo possível. Inevitável? Obviamente que sim. O que importa é que o Portugal. The Man conseguiu desenvolver esse pop massivo sem perder suas características experimentais e psicodélicas. Apenas subverteu ao mercado. Como não nos cabe fazer aqui juízos de valor e apenas apontar a direção que tomaram, eis o caminho tomado. Ouça, e faça seu próprio julgamento.

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Braxton Cook – Somewhere in Between (2017)

Na linha entre o clássico e o experimental, o saxofonista americano entrega um excelente disco de jazz

por brunochair

Apresento-lhes Braxton Cook. Nascido entre Maryland e Washington DC durante a década de 90, cresceu ouvindo artistas como Parliament, Funkadelic e Bill Withers e vários discos de jazz clássico. Seu primeiro contato com a música ocorreu quando tinha cinco anos de idade, ao ouvir o pai tocar o tema “Somewhere Over The Rainbow” no sax. Além de ficar impressionado com a melodia que saía daquele instrumento, Braxton também ficou impressionado com o tamanho do saxofone: será que um dia conseguiria ao menos segurar um instrumento daquele nas mãos?

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O futuro diria que conseguiria, sim. E não só isso: o rapaz apresentaria uma habilidade/sensibilidade com o instrumento que o levaria a uma das escolas de música mais respeitadas dos Estados Unidos: a Juilliard, onde Braxton pôde estudar o saxofone para o jazz. E foi ali que o saxofonista também conheceu outro jovem e experimental músico do gênero: Christian Scott. Pouco tempo depois, Braxton Cook aceitou fazer parte do grupo que acompanhava Christian Scott mundo afora.

Portanto, nesta breve biografia vocês já podem ter uma base do caminho musical do saxofonista, bem como o que esperar de qualquer disco dele. É jazz, sim. Mas tem aquela pegada experimental e contemporânea que o faz ligarmos a artistas como o próprio Christian Scott, mas também Brad Mehldau, Theo Croker. Podemos relacioná-lo a outros artistas de jazz que são bastante experimentais, como Cameron Graves e Ronald Bruner Jr, Thundercat e Kamasi Washington.

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Somewhere in Between contém essa essência jazzística. O timbre de Braxton Cook é muito mais clássico que o Kamasi Washington, por exemplo. Braxton permite-se virtuoses, como no caso de “Until”. Porém, observamos que experimentação em seu disco está muito mais nos outros instrumentos do que propriamente no sax, como em guitarras e teclados, que oferecem uma ambientação moderna para a sonoridade do disco.

Outro ponto importante a ressaltar é a habilidade vocal de Braxton Cook. Ele não canta em todas as músicas do álbum, e considera a voz mais um elemento artístico a ser explorado – portanto, tão importante quanto os outros. Porém, as músicas ganham uma perspectiva interessante com o seu vocal: um timbre agradável e bem relaxante, que prende a atenção do ouvinte de primeira viagem.

E nessa linha do clássico/experimental que o disco segue, apresentando grande poder. A diferença de Braxton Cook para Christian Scott e Theo Croker é que estes dois últimos são mais transgressores, rompem mais as fronteiras do jazz para dialogar com outras esferas. Somewhere in Between está mais assentado no jazz. Ainda assim, belíssimo disco de mais um ótimo instrumentista formado nos Estados Unidos.

Rise Against – Wolves (2017)

Disco não possui singles tão impactantes, mas segue numa sonoridade mainstream

por brunochair

Quando comentamos The Black Market, disco do Rise Against de 2014, enfatizamos a virada mainstream que a banda ali tomou. Músicas mais palatáveis deram lugar um pouco à agressividade hardcore até então conhecida. E o disco perdurou em nossos ouvidos por um bom tempo, o que culminou na eleição dele como um dos melhores de 2014. Três anos depois, temos a chegada do novo álbum de inéditas dos caras (o oitavo da carreira, inclusive), chamado Wolves. E o que temos a considerar sobre ele?

Primeiramente, Wolves segue a pegada de The Black Market quanto à sonoridade: o grupo, mais uma vez, dá preferência a um fator melódico em contraponto a essa pegada mais roots. Aliás, ouvindo o disco algumas vezes, pode-se concluir que ele é até menos agressivo que o anterior. O Rise Against parece mais preocupado em trabalhar músicas que funcionem bem tanto para rádios, ouvintes de streaming e (sobretudo) quem acompanhará algum show da banda – aquela equalização perfeita para um rock de arena.

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E, ainda que tenhamos dito que o fator melódico é mais importante que a agressividade, o que ficou faltando neste disco foram singles com refrãos e riffs mais bem trabalhados, mais melódicos, inclusive. Em The Black Market temos as belas “Tragedy+Time”, “The Black Market”, “Bridges” e a balada “People Live Here”. Todas as canções são acima da média e tornaram-se músicas importantes do repertório do grupo. Ainda que Wolves tenha mantido a qualidade sonora do álbum anterior, nenhum single se destaca de uma forma tão impactante. O único single poderoso, segundo a nossa opinião, é a última do disco: “Miracle”, que dá um gosto de quero mais. Por conta dela, o repeat geralmente é acionado.

Um fator que continua sendo decisivo para a relevância do Rise Against são as letras. São filosóficas, são contestatórias e não são banais – há ali um linha tênue entre simplicidade e complexidade que conta muito na experiência sonora do ouvinte. Obviamente que a interpretação de Tim Mcllrath contribui muito para que essa experiência seja ainda mais interessante, sendo mais um segredo do sucesso do grupo. Enfim, se o Rise Against não criou o álbum mais criativo da carreira em matéria musical, ao menos preferiu seguir a fórmula de The Black Market e entregou ao público outro bom álbum de rock/hardcore de arena.

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Vince Staples – Big Fish Theory (2017)

avant-garde-eletronic-hip-hop

Por Gabriel Sacramento

Quando perguntado sobre o novo álbum, sucessor do Summertime ‘06, Vince Staples chegou a mencionar um termo chamado afrofuturismo, que em suma, representa um conceito que combina ficção científica, histórica, fantasia e cultura negra. O George Clinton gostava de brincar com isso em suas bandas Parliament e Funkadelic, trabalhando com temas diferentes do comum e da ideia de arte mais, digamos, verossímil. Porém, numa entrevista mais descontraída, Vince disse que o álbum não seria realmente fundamentado com base nesse conceito, mas que ele apenas escolheu o termo aleatoriamente para ter algo pra dizer.

Um brincalhão, pra variar.

O novo álbum ganhou o título Big Fish Theory. E a teoria que o título trata é bem interessante. É a teoria que diz que um peixe só cresce até o tamanho do tanque que o comporta. Ou seja, ainda que cresça, não será tão grande, pois algo o limita. A ideia pode ser associada com muitas coisas, inclusive com a situação dos afro-americanos diante da falta de oportunidades para desenvolverem seus talentos e irem além. Mesmo não necessariamente desenvolvendo o tema em seu álbum, sua mensagem começa sem nem precisarmos abrir o encarte, com o título servindo de uma boa chamada à reflexão.

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O álbum contém diversos nomes na produção e participações de peso como Kendrick Lamar, Juicy J, ASAP Rocky e Damon Albarn. A ideia do músico foi de fugir um pouco do hip-hop mais comum do seu primeiro álbum e fazer algo diferente que obedecesse sua filosofia pessoal de perseguir a mudança e de não continuar buscando a mesma sonoridade. No twitter, ele logo avisou que o álbum foi feito para ser ouvido em um equipamento adequado por causa dos graves. E é verdade, junto com as influências do techno de Detroit, aquele do final dos anos 80 que tinha uma veia futurista e fria, Staples investiu em graves robustos para as bases de seu álbum, servindo de cama sólida e resistente para que ele e seus convidados passeiem livremente com raps e melodias.

A primeira faixa, “Crabs in a Bucket” já antecipa uma abordagem mais eletrônica, com a base mudando ao longo da faixa e surpreendendo pelos ótimos timbres. Aqui, percebemos que a parte instrumental ganha um destaque maior que ganharia em qualquer faixa mais comum do gênero e a sensação é que os timbres competem com os vocais pela atenção do ouvinte. “Big Fish” traz uma pegada que lembra o hip-hop de dez anos atrás, com uma letra que fala da sua vida e de como o rap a mudou para melhor. Juicy J empresta seus vocais nesta. “745” lembra o feel das faixas do Thundercat no seu álbum mais recente. “Yeah Right” surge com seus graves soberbos e profundos e ainda conta com participação da Kučka e do Kendrick Lamar. Ao longo da faixa, podemos ouvir alguns sons meio industriais bem proeminentes, que evidenciam o nível de experimentação eletrônica que Vince explorou aqui.

“BagBak” é rap em cima de samples eletrônicos bem loucos, já “Rain Come Down” é um dos poucos momentos em que temos um destaque maior para as melodias, com o Ty Dolla $ign fazendo os vocais cantados. A base segue a ideia das outras do álbum de ser totalmente fora da caixa e diferentona. Em “SAMO”, Vince fala de fazer a mesma coisa, do mesmo jeito e ter que falsificar sorriso para câmeras, apenas pelo dinheiro. O que é algo que ele diz não gostar, já que critica enfaticamente artistas que se acomodam na repetição das ideias. Nesta também temos timbres industriais bem interessantes, como vários metais sendo utilizados para gerar sons bem intrigantes.

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Com Big Fish Theory, Staples não esconde sua pretensão de virar o hip-hop de cabeça pro ar. O rapper aborda elementos da música eletrônica, indo mais profundo no uso de samples e sintetizadores, para criar algo que soa experimental, futurista e avant-garde para os nossos padrões atuais. Ele não somente coloca holofotes no próprio nome, mas chama a atenção para a possibilidade de ser extremamente criativo dentro do gênero, sem deixar de erguer as bandeiras típicas e de falar a linguagem típica.

Além de seu trabalho mais interessante, o disco confirma as expectativas de quem esperou pelo seu álbum depois de conhecê-lo quando ouviu “Ascension”, uma das melhores faixas do Humanz do Gorillaz. O feat. com certeza serviu para isso e estes ouvintes com certeza devem se sentir totalmente satisfeitos com a proposta do rapper de Chicago em seu disco – pensando diferente e perseguindo incansavelmente o som da sua cabeça, que ele mesmo diz que é impossível alcançar.

Se o Jamiroquai se destacou esse ano, misturando como poucos a frieza do eletrônico, o futurismo sci-fi e o velho groove do acid jazz, Vince Staples se destaca por misturar a frieza, o aspecto futurístico e o bom e velho hip-hop dos versos críticos e das colaborações entre amigos. Staples consegue desempenhar uma função de bom intérprete: conversar com distintos públicos de distintos lugares e convidá-los todos a consumir o seu produto. Experimentando bastante, ele segue mandando a real, sem esquecer de fugir um pouco da realidade.

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Boogarins – Lá Vem a Morte (2017)

Doa a quem doer

por brunochair*

Pegando a todos de surpresa, o Boogarins lançou seu trabalho novo no dia 07 de Junho, através do Consequence of Sound, site especializado em música lá dos Estados Unidos. Lá Vem a Morte é o terceiro trabalho do grupo. Como os próprios Boogarins ressaltaram, o disco é um EP longo e um LP curto, ou seja: em tempos de álbuns virtuais, chame-o da forma que melhor desejar. Hoje, o disco já pode ser ouvido e baixado também pelo Bandcamp da banda, streamings, YouTube, enfim… o play é tão livre quanto a extensão.

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“Eu amo vocês / Eu só tô defendendo uma parada que é pra sempre / E nunca mais volta”. A enigmática mensagem que abre o novo trabalho do Boogarins consegue ser um resumo do que é o embate entre ser quem sou e o que os outros são/ querem que eu seja. Uma relação sempre complicada, essa do mundo do eu e o mundo dos outros. Mas, não. Não diria que é um disco melancólico, como críticos e ouvintes de Boogarins consideraram. O que as letras curtas e detentoras de alta carga de subjetividade (talvez aí a confusão que se faz com a melancolia) nos transmitem é essa dificuldade de comunicação entre as pessoas, essa incompreensão da subjetividade e escolhas por conta de censura, civilização, bandeiras.

Aí fica a sensação desse não dito, dessa ejaculação incerta e não sabida, da intensidade despercebida. O inconsciente está ali, rondando, e pergunta se está tudo bem, se há alguma queixa, se podemos seguir além com outros corpos, outras vidas, num astral bom, o líquido vital a escorrer por tantos outros canais. Portanto, o disco não é assim tão down quanto dizem por aí: ele é auto-afirmativo, doa a quem doer. E, partindo dessa ideia da auto-afirmação, fica mais fácil ao disco escorrer por outros universos e possibilidades, dando maior ênfase e sabor aos elementos eletrônicos do que tem feito até então.

Doa a quem doer.

E muita gente não entendeu o significado disso tudo, talvez não tenha ouvido com a atenção necessária, se deixou levar pela primeira tradução, pelo primeiro texto, sentimento. Ele consegue ser muito experimental, mas não abre mão da psicodelia dos discos anteriores. É corajoso e auto-afirmativo lançar um álbum tão diferente quanto o bem-sucedido Manual, de 2015. As marcas do comodismo ficaram expostas – nos outros. No Boogarins?

Passou longe.

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*O resenhista que vos escreve é da turma que pirou ouvindo o segundo disco do Boogarins e o defenderá até a morte, mas conseguiu encontrar méritos, superações e coragens neste disco novo.