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Mr. Big – Defying Gravity (2017)

Eles desafiam a gravidade com hard rock à moda antiga

Por Gabriel Sacramento

Existe entre os ouvintes de música algo que chamo de conservadorismo musical, que vem da ideia de conservar no sentido de colocar toda a confiança no que já está estabelecido e se opor a mudanças bruscas. Isso acontece basicamente quando um fã se apega ao que já foi feito na música e não é muito receptivo novas ideias e o que foge à regra. Não dá pra dizer que isso é algo típico da nossa era, pois sempre tivemos ouvintes com esse tipo de percepção por aí – prova disso você encontra aos montes com relatos sobre estilos musicais hoje aceitos, mas que quando nasceram sofreram forte repressão.

Muitos desses fãs também costumam endeusar os artistas/bandas que gostam – afinal são o sustentáculo ao qual eles se apegam firmemente – e parecem acreditar que eles não envelhecem e que tudo que eles lançarem, é, por via de regra, bom por benefício do retrospecto. Por exemplo, o AC/DC merece aplausos a cada novo lançamento, pois já fizeram um Back In Black uma vez na vida. Claro, isso é muito bom para as bandas e gravadoras, que continuam ganhando dinheiro, mesmo quando enfrentam fases ruins na carreira. Mas é uma forma um tanto acomodada de pensar: afinal, os novos álbuns não precisam nem ser analisados, já são tidos como bons se foram lançados pela banda (ou seria marca?) X ou Y.

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Pois é, mas as bandas envelhecem sim e às vezes perdem qualidade com o tempo. É natural e até humano que os grupos passem por momentos menos interessantes em termos artísticos, principalmente se já atingiram um auge algum dia. No campo do rock, onde a energia é fundamental, a idade e o peso da vida pode tirar um pouco da força do artista – e isso é normal. Acostume-se.

Quando o Mr. Big surgiu no final dos anos 80, a banda com certeza incomodava o pessoal que cresceu ouvindo The Who e Rolling Stones duas décadas antes, com sua fórmula precisamente fechada e bem específica de hard rock farofão versus baladas fofinhas – afinal, em tempos de MTV, quem tinha uma balada e um clipe era rei. Mas eles tinham um diferencial: todos os quatro músicos eram excelentes em seus postos. Eric Martin tinha um vocal agudo, potente e cheio de swing que servia bem para o rock e soava bem tanto no estúdio quanto ao vivo, tendo quase sido o vocalista do Van Halen no lugar de Sammy Hagar; Billy Sheehan era sensacional com seu baixo absurdamente agudo, distorcido e suas técnicas não convencionais no instrumento; Paul Gilbert também, com um domínio assombroso das seis cordas; e Pat Torpey, com a pegada e o groove necessário para sustentar o dinamismo das faixas provido pelos duelos baixo-guitarra. A interação das cordas era algo de outro mundo e a banda tinha uma irreverência jovial que ia das letras à atitude rock’n’roll.

Mas a banda envelheceu e hoje naturalmente não soa a mesma, embora eles tentem resgatar a vibe de outros verões. O novo disco, Defying Gravity, traz a banda depois do bom …The Stories Could Tell (2014), com o produtor Kevin Elson, que produziu os três primeiros álbuns do grupo. O disco foi gravado basicamente ao vivo. O objetivo foi retornar ao som dos primeiros registros e garantir a pegada do ao vivo. O disco abre com a ótima “Open Your Eyes”, com um som realmente mais cru e bem hard rock. Os versos intercalados com o riff principal farão os fãs lembrarem dos velhos tempos de Mr. Big (1989). Já o refrão é muito Actual Size (2001). Como sempre, é muito bom ouvir os riffs e fills de baixo-guitarra, em um entrosamento fantástico da dupla Billy e Paul. A intro da faixa título apresenta uma abordagem diferente da guitarra de Paul, duplicada e tocando uma melodia bem lúdica. É uma faixa admirável, que mostra a banda fugindo um pouco da mera repetição com ideias menos comuns.

Temos mais faixas boas, como “Mean To Me”, que foi inspirada em uma música da – pasmem! – Christina Aguilera. Gilbert gostou do groove de “What a Girl Wants” da loira e resolveu criar um riff parecido, que virou o principal da faixa e o que dá consistência à mesma. O monstro Billy Sheehan tocou seu baixo com incríveis quatro dedos nesta música para poder executar as notas rápidas com perfeição. Temos ainda um duelo entre ele e Gilbert, lembrando os velhos e bons tempos em que eram uma pequena banda surgindo das profundezas de Los Angeles. Em “1992” eles abraçam a nostalgia, relembrando o ano que eram os primeiros nas paradas com a faixa “To Be With You”. A faixa é um hard rock mais cadenciado com um refrão que parece ter sido escrito nos anos 80. “Be Kind” é blueseira até o osso, com sete minutos, que tem seus momentos mais açucarados e um final totalmente inesperado com a banda tocando um riff rápido e pesado, daqueles perfeitos para fechar um álbum – e um show.

O problema do álbum novo, no entanto, são as baladas e faixas mais românticas. “Damn I’m in Love Again”, “Nothin’ Bad (‘bout Feeling Good)” – que tem um refrão até legal – e “Forever And Back” são faixas nas quais a banda troca os riffs e fills rápidos por “aaaas”, “doooos” e coisas do tipo. Além de soarem como fillers, são nestas que percebemos o maior grau de fofurice e sacarose no disco, cumprindo a fórmula à risca. É uma pena estas faixas façam tantos gols contra Defying Gravity.

O disco todo foi gravado em seis dias e isso diz bastante acerca da pedra de sustentação do grupo – a dupla Billy e Paul. Junto com Matt Starr, que toca no lugar de Pat Torpey, que está impossibilitado de tocar em decorrência do mal de Parkinson, os caras gravaram arranjos cheios de vigor e fibra, mantendo a atenção enquanto joga em nossa cara doses de ânimo e energia. Um destaque especial merece ser feito à guitarra de Gilbert, que soa muito bem em termos de timbres e compõe riffs excelentes. Além disso, ele oferece novas ideias, inclusive experimentando com sua boa técnica de palhetada. O cara é sensacional, um dos melhores guitarristas da atualidade e só por estar em um disco, já vale a pena ouvir, na certeza de que pelo menos o som do instrumento irá compensar.

Depois de tantos anos, o Mr. Big mostra que ainda tem lenha pra queimar e rock’n’roll na veia. Mesmo com os momentos mais fraquinhos e diluídos, a banda ainda é boa e sabe aplicar bem as ideias e conceitos sonoros que marcam sua identidade. Podem ser considerados conservadores, se você preferir, o que mostra que guardaram a sete chaves as características idiossincráticas do início, para não perdê-las. Como já disse, estão mais velhos, não soam exatamente como antes, mas ainda soam cheios de vida e tentando ao máximo alcançar um nível de intensidade convincente. Defying Gravity é um disco de senhores dando conselhos aos jovens e celebrando os dias de antigamente quando tudo parecia melhor – pelo menos pra eles.

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The Winery Dogs – Hot Streak (2015)

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Power trio diversifica e faz um álbum eclético sem perder a veia hard rock

Por Lucas Scaliza

Como qualquer cão que se preze, o The Winery Dogs já chega marcando território com um riff progressivo e acelerado em “Oblivion”, faixa de abertura de Hot Streak, segundo álbum desse power trio com cara de superbanda. Richie Kotzen nos vocais e na guitarra, Billy Sheehan (Steve Vai, David Lee Roth, Mr. Big) no baixo e o grande Mike Portnoy (ex-Dream Theater) na bateria.

Embora a faixa de abertura tenha seus momentos mais progressivos, Hot Streak é muito mais eclético e muito menos prog do que o primeiro, The Winery Dogs (2013). O ecletismo, contudo, sempre colocado num contexto de hard rock.

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“Captain Love”, “Devil You Know”, a balada “Think It Over” e a excelente “Empire” são faixas quase oitentistas em todos os seus elementos. Músicas simples, com bom andamento e diretas (com exceção dos solos de “Devil You Know”, momento bastante prog do álbum). “Hot Streak” flerta com o soul, mostrando suingue de todo o grupo aliado à velocidade dos riffs e solos de Kotzen. “How Long” é uma faixa conduzida especialmente pelo baixo de Billy Sheehan.

“Ghost Town” e “Spiral” são duas das melhores surpresas do disco e exemplos de modernidade. Mesmo quando visitam os anos 70 e 80, a banda sabe manter seus timbres bem modernos. “Ghost Town”, com base acelerada e voz e guitarra mais flutuantes, consegue um efeito etéreo muito interessante, lembrando algumas faixas de Joe Satriani. Já “Spiral” é quase um synthpop, a faixa mais diferente que a banda produziu até aqui. “The Bridge” é outra em que a banda se encontra com maestria: é um hard rock, ninguém duvida, mas bastante calcada no soul. A balada “Fire” caberia muito bem no último disco solo de Kotzen, Cannibals, talvez até melhor do que em Hot Streak.

Embora não tenha músicas que sejam especialmente marcantes, não há faixas ruins no disco. De vícios precoces do grupo, vistos tanto no primeiro quanto neste segundo trabalho, estão os solos um pouco ansiosos de Kotzen. Se na carreira solo o cantor sabe diversificar bem seu som e suas técnicas, no The Winery Dogs sobressai sua veia velocista das seis cordas. Em faixas como “Oblivion” a velocidade é um recurso que cai bem, mas em tantas outras poderia ter uma abordagem diferente, como a que escolhe para “Empire”, por exemplo. Contudo, ele acerta a mão na maior parte do tempo.

Portnoy, que poderia tender para o exagero, veste a camisa do hard rock e segura muito bem a onda na maior parte das faixas, deixando para se soltar apenas quando necessário. As linhas de bateria espaçadas, tão comuns em seus trabalhos com Neal Morse, Transatlantic e Flying Colors, dão lugar a uma forma mais convencional de encarar o instrumento (mas isso não quer dizer que ele não saiba encaixar sua assinatura musical, sobretudo nos momentos de maior dinâmica, como nos solos de “The Bridge” e “War Machine”).

O lado mais progressivo da banda volta a dar as caras em “The Lamb”, a faixa final. Após uma introdução bastante soul, caem em versos de polirritmos e, em seguida, em um refrão bastante acessível. Um exemplo de como a banda está mesclando bem suas referências na mesma composição, conseguindo dar uma cara bastante própria ao The Winery Dogs.

Se o primeiro disco apresentou uma banda de rock com três supermúsicos para quem curtia rock, dessa vez a banda leva seu som até quem está interessado em música em um contexto maior. Hot Streak é rock and roll como o Guns N’ Roses no início dos anos 90: músicas com ótimas sacadas, bastante diversificadas e com várias influências, mas sem perder de vista o foco roqueiro da banda. Essa miríade de influências ajuda a mostrar um lado mais aberto de todos os músicos. A variedade de Kotzen já era bem conhecida, mas Sheehan e Portnoy surpreendem, colocando para fora nuances que seus projetos até agora podem ter suprimido. A energia de sempre, mas agora com uma amplitude musical bem maior.

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