blues

The Strypes – Spitting Image (2017)

Confie no rock’n’roll que vem da irlanda

Por Gabriel Sacramento

Quatro garotos europeus muito jovens, de boa aparência, fazendo rock. Não, não estou falando dos Beatles, embora esse grupo que vem da Irlanda goste de referenciar o fabfour, desde o som à aparência do início da carreira. Os Strypes não parecem intimidados pelo fato de serem muito jovens (começaram a banda com membros de 15, 14 e, pasmem, 13 anos) e pelo fato de terem como fãs declarados Elton John, Dave Grohl e Paul Weller. Não estão nem um pouco assustados, mas na verdade os garotos, que hoje têm vinte e poucos anos, acham até bom o fato desses medalhões torcerem por eles.

O visual varia dos Beatles aos Byrds, indo do arrumadinho com terno bem passado ao mais desleixado. O som era mais blues rock no primeiro disco e evoluiu, mas sempre mantendo uma aura anacrônica e referenciando os clássicos Dr. Feelgood, The Clash, Rolling Stones, Chuck Berry, dentre outras influências. Enquanto outros quartetos de meninos de vinte anos estão por aí tocando música adolescente, estes garotos resolveram tocar rock’n’roll, punk, blues, misturando tudo isso sob uma égide garageira e a velha filosofia do faça-você-mesmo. 

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Se você, assim como eu, também acha curioso que as bandas de rock agressivas e divertidas da década passada injetaram muitas doses de bom-mocismo em seu som, perdendo a urgência tão característica, como fizeram os Arctic Monkeys, Kaiser Chiefs e The Killers, vai se surpreender com o som desses garotos que têm mantido a atitude até agora, deixando transparecer até nas entrevistas um visual e uma pegada um tanto transgressora que lembra os grupos dos anos 60.

Spitting Image tem produção de Ethan Johns (Paul McCartney, Tom Jones) e parece soar um pouco mais garageiro e com uma produção menos polida que o anterior, Little Victories (2015). “(I Need a Break From) Holidays” mostra toda a veia punk, com um pouco de indie, que vai lembrar os bons momentos de Arctic Monkeys e Strokes. “Easy Riding” começa mais tranquila e chega a um refrão empolgante, total rock’n’roll. A faixa mostra como a banda trabalha bem a dinâmica, indo bem de momentos mais melódicos a outros mais cheios de adrenalina. “Turnin’ My Back” lembra bem as boas bandas punk dos anos 70, com um órgão bem articulado no fundo. “Grin and Bear it” é uma aula de como fazer uma música cool, mas com uma boa atitude roqueira. Mesmo envolvidas em guitarras agressivas e diretas, as melodias de “Behind Closed Doors” são ótimas e ficam na cabeça.

Spitting Image é um grande disco do quarteto e continua reafirmando que eles são uma boa referência para quem procura um som mais agressivo e garageiro. Em cada álbum, eles focaram em facetas diferentes, o que pode ser interpretado de duas formas: 1) Não definiram perfeitamente o som ainda ou 2) Suas influências e referências são tão amplas que eles desejaram fazer discos diferentes para explorar mesmo. O fato é que tudo soa muito bem e há uma coesão interessante entre o que já lançaram. Eles conseguem soar garageiros sem a grande produção do Royal Blood ou Black Keys, com ótimas faixas, ótimas melodias, solos e todos os outros elementos desse tipo de rock que as suas influências faziam. A evolução da banda tem sido impressionante, o som deles tem tomado forma e tem ganhando consistência, com tudo sendo feito sem muito esforço. Eles soam como o tipo de banda que chega no estúdio e não tem muitos problemas em gravar suas ideias, pois sabem exatamente o que querem.

Os jovens irlandeses captam bem o espírito roqueiro, jovial, insurgente, muitas vezes inconseqüente, que marcou os anos 50, os anos 60 com a psicodelia, os anos 70 com o punk, os anos 80 com o glam rock, os 90 com o grunge e britpop e a década passada com os revivals e o que ficou conhecido como indie rock. Os Strypes trazem todo esse panorama para o nosso tempo, mantendo a chama acesa e honrando o rock’n’roll de ontem, de hoje e de sempre.

É impossível não associar com o som dos já citados Arctic Monkeys e Strokes, que fizeram tanto alarde no cenário roqueiro mundial na década de 2000, chegando a serem chamados de “salvadores do rock”. Depois de tantos anos, a confiança nesses dois já não é a mesma, mas podemos confiar nos nomes menos esperados e que surgem com menos pretensão, mas que são honestos na hora de entregar um produto que garante uma boa experiência. Os Strypes têm isso e podem ganhar o mundo sem problemas com seu som e proposta super interessantes. Confie nesses garotos. O rock está muito bem de saúde e são jovens como estes que fazem questão de deixar isso bem claro.

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Chuck Berry – Chuck (2017)

Disco celebra o nome e a carreira do icônico músico do Missouri

Por Gabriel Sacramento

Quando Chuck Berry anunciou aos 90 anos que iria lançar um álbum, todos ficamos surpresos e curiosos. Mas quando, depois de sua morte, pudemos ouvir o primeiro single – “Big Boys” -, a curiosidade diminuiu um pouco e percebemos que estava tudo em casa. Afinal, aquele riff e frases de guitarra que foram imortalizadas pelo guitarrista em canções sensacionais como “Johnny B. Goode” e “Roll Over Beethoven”, reaparecem nesta, como uma espécie de homenagem de Chuck para ele mesmo. Muitos ouvintes podem achar incômodo a repetição de ideias, mas não é algo novo na carreira do músico. Quem conhece seu catálogo já deve estar um pouco mais acostumado.

“Big Boys” impressiona por ser aquele rock’n’roll dos anos 50 mesmo, só que sem guitarras saturadas e baterias abafadas. O lance são os timbres maravilhosos e modernosos dos instrumentos, mesmo que com arranjos totalmente ambientados na década de ouro do estilo em que Chuck foi pioneiro. A bateria bem timbrada foi bem executada pelo Keith Robinson e as guitarras contaram com Nathaniel Rateliff e Tom Morello. Com certeza foi uma honra para esses caras tocar com o mestre que definiu a forma como seriam as coisas no rock e captou o espírito da juventude que queria ser livre, transformando sua música em uma boa oportunidade para se reunir com os amigos, dançar e esquecer o mundo e os problemas porta afora.

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Aí, lançaram também “Lady B. Goode”, faixa que referencia “Johnny B. Goode” desde a estrutura musical até a letra – que continua a saga do personagem Johnny, sempre recorrente nas histórias do cantor, desta vez falando sobre a mulher dele. Mais uma vez a impressão é de que o velho Chuck queria homenagear a si mesmo, com essas canções que gravou em mais de uma década – de 1991 a 2014 -, para dar uma conclusão à sua carreira. Infelizmente, ele não conseguiu ver o disco ser lançado, deixando todo mundo já meio nostálgico desde sua morte em março.

A sequência daquele que pensávamos ser o último – o bom Rock It (1979) – ainda possui “Wonderful Woman”, faixa que conta com o talentoso Gary Clark Jr. nas seis cordas. É um rockzão classudo, com gaita, vários solos, melodias típicas e cinco minutos de duração – que podem ser cansativos para alguns ouvidos. É uma oportunidade interessante de conferir um representante da geração pioneira do rock e um da geração atual dividindo o mesmo espaço. Temos também “Dutchman”, com uma proposta diferente: um ritmo forte pontuado pelo baixo, com um riffzinho de guitarra e o vocal do Chuck em um estilo declamatório, contando uma história. A ideia do vocal lembra um pouco o que o Leonard Cohen fez em seus últimos discos e quem curte o canadense vai adorar isso aqui.

Temos algumas faixas blues clássico do estilo de Detroit, como “Eyes of Man”, “Darlin’” e “You Go to my Head”, com aquela estrutura harmônica e desenvolvimento melódico típicos de centenas de outros blues por aí. “Jamaica Moon” lembra “Havana Moon”, faixa do primeiro álbum de Berry, com uma vibe bem tropical. Temos ainda um blues especial em 3/4 com o compasso impresso no título, “3/4 (enchiladas)”.

Depois de ouvir todo o álbum do Chuck, chegamos a conclusão de que o músico foi bastante inteligente quanto ao que veio a ser o seu lançamento póstumo e definitivamente o seu último. A estratégia foi tentar novas ideias, com moderação, mas referenciando bem toda a sua carreira e seu nome que é muito representativo dentro da indústria musical. Carreira essa que inclui tanto a definição da forma do rock’n’roll nos anos 50 e nos anos posteriores, influenciando todo mundo que veio depois, quanto a importância para a cultura pop, sendo trilha das loucuras de Marty McFly em uma viagem no tempo ou de uma dança maluca de John Travolta e Uma Thurman em um restaurante temático. A música de Berry é inesquecível, diante de tudo que nos instiga, seja vontade de dançar, de fazer air guitar, duck walk ou simplesmente de assistir aquele clássico do cinema que marcou nossa vida.

Por isso, Chuck é um disco nostálgico. Na verdade, seria difícil imaginar algo diferente vindo de alguém de uma geração tão antiga, mas tão seminal e tão importante para diversas outras gerações. Mas também é um esforço da lenda americana em mostrar algumas coisas novas que ele aprendeu com o passar do tempo. O fato do músico estar bem velho quando começou as gravações e durante todo esse período em que elas ocorreram, justifica o fato de ser arrastado, lento e possuir mais faixas blues do que necessariamente rock’n’roll. De qualquer jeito, ele dominava o blues como poucos também, sendo total autoridade para aplicar o estilo. E as faixas mais energéticas são suficientes para nos fazer lembrar dos momentos de ouro do showman e criar a imagem na nossa mente dele fazendo o duck walk enquanto gravava as faixas no estúdio.

Descanse em paz, grande Chuck Berry.

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Benjamin Booker – Witness (2017)

Blues + punk. Você precisa conhecer Benjamin Booker

Por Gabriel Sacramento

Benjamin Booker é um sujeito complexo. Um cara que se diz influenciado por Blind Willie Johnson e The Gun Club respectivamente, um bluesman da década de 1920 e uma banda punk que surgiu no final dos anos 70. Mas não é a disparidade das suas influências que o torna enigmático, mas sim sua disposição para fazer músicas que unem os dois universos, indo do blues encharcado de elementos do soul ao punk rock garageiro. Sua produção artística reflete diretamente a complexidade dos seus gostos.

Foi assim no primeiro disco, que levou o seu nome e foi lançado em 2014. Era incrível ouvi-lo e a cada faixa imaginar o que ele tentaria a seguir: se blues ou punk. No seu segundo trabalho, Witness, Booker mantém essa ideia de misturar os extremos, só que predomina a calmaria que foi menos frequente no anterior. Ou seja, o segundo álbum é quase um complemento do primeiro, o que torna sua pequena obra discográfica ainda mais interessante, um poço profundo de boas referências e preciosidades.

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O timbre vocal de Booker é fantástico e ele o usa estrategicamente. Em muitos momentos, o guitarrista da Virginia soa como um Gary Clark Jr., só que com suas particularidades e sem os solos expressivos.

A faixa-título foi lançada como single e foi uma música escrita para o movimento Black Lives Matter, falando portanto sobre racismo. A sonoridade beira o folk, com o coro marcante e a voz rouca do Booker prendendo a atenção. “The Slow Drag Under” é marcada pela estrutura harmônica típica do blues, com direito à um solo e vocais mais suavizados. “Truth is Heavy” possui uma linha melódica inquieta em contraponto com a melodia vocal cantada por Benjamin, com uma voz especialmente suave e arenosa, com uma técnica de drive que lembra a de James Morrison.

“Believe” é total soul anos 60, lembrando a era espectoriana mesmo, com uma ótima linha de baixo melódica que caminha pelo arranjo. Na letra, Booker diz: “Eu só quero acreditar em algo, não me importo se é certo ou errado”. Outra soulful deliciosa é “Carry”, com destaque para a interpretação do vocalista. Também temos momentos mais nervosos em Witness: “Right on You” abre o álbum com alto-astral e a veia roqueira típica do cantor. Temos também “Off The Ground” que começa com um violão dialogando com um piano, até que lá pra depois do primeiro minuto assusta o ouvinte com a urgência punk garageira. Booker consegue acertar a mão nas faixas mais agitadas tanto quanto nas mais calmas.

Witness é tranquilo, mas acelera nos momentos certos. É um disco que envolve o ouvinte em uma tranquilidade incrível, mas fornece a energia necessária para que o conjunto não seja sonolento. Misturando estilos distintos, de uma forma inventiva e original, é como o cantor nos cativa com suas boas canções, nos fazendo apreciar o tempo que passamos com ele. Um talento facilmente identificável. Uma das propostas sonoras mais curiosas do ano. Você precisa conhecer Benjamin Booker.

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Mark Lanegan Band – Gargoyle (2017)

Mark Lanegan chega ao 3º capítulo de sua caminha gótica e eletroblueseira

Por Lucas Scaliza

Primeiro, tivemos o blues do funeral. Depois, o rádio fantasma. Agora, um gárgula. A mistura de blues, rock, música eletrônica e nuances góticas de Mark Lanegan chega ao terceiro capítulo com Gargoyle, sempre com referências muito claras da capa ao nome do álbum do que ele pretende.

É impossível cansar de sua voz grave e cavernosa, que acaba virando mais um elemento de textura em sua música, por mais simples que sejam suas melodias. E sua música, por mais previsível que possa parecer, consegue manter o mesmo tom dos álbuns anteriores e não se repetir nunca. “Blue Blue Sea” pode até ser uma canção bucaneira, mas toma ares cósmicos com toda a gama de teclados e sintetizadores que a compõe. E “Nocturne”, “Beehive”, “First Day of Winter” e a instigante “Old Swan” mostram como Lanegan ainda é… o próprio Lanegan, o cantor que você sempre imagina cantando nas sombras de um pub, tomando uma de uísque entre uma canção e outra.

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O mesmo de sempre, mas levemente flexível. Duas das mais interessantes faixas de Gargoyle são quase opostas. “Goodbye To Beauty”, entupida de reverb, é o que há de mais tradicional em termos de expressão em Gargoyle – uma das mais fundamentalmente orgânicas do álbum. Enquanto “Sister” é bem mais sintética e árida. Já “Emperor” é a coisa mais animada que ouvimos dele nos últimos 10 anos.

Embora sombrio, enevoado e grave, Gargoyle não é um disco triste e, como tudo que Mark Lanegan tem feito ultimamente, passa longe de soar monótono. Seja cantando sobre os demônios de cada um, fazendo referências ao passado de vícios em drogas ou usando um humor negro e seco, o álbum segue sempre em frente, sem exigir demais do ouvinte.

Gargoyle encontra eco no rock e na new wave oitentista, guardando paralelos com Joy Division, Echo & The Bunnymen e Depeche Mode. Mas a personalidade do cantor se impõe com força. Daí, “Drunk On Destruction” é o rock que você queria ouvir e “Death’s Head Tattoo”, que abre o disco, é a síntese do que Lanegan tem sido nos últimos anos. Pega suas influências, processa suas origens e junta tudo em novas e boas composições que continuam a ampliar o espectro sonoro de sua longa caminha pela noite urbana.

Me And That Man – Songs of Love And Death (2017)

Blues, country e folk sombrio que coloca vampiros para dançar e demônios para dormir

Por Lucas Scaliza

Às vezes os pesos pesados dão uma pausa e aproveitam a vida para pegar leve. Assim, apreciam um outro lado de suas próprias naturezas. Pense em Ozzy Osbourne que deixou de ser conhecido pela sua música por um tempo para virar estrela de reality show. Ou pense em O. J. Simpson que… bem, acho que esse deixou de pegar pesado nos campos de futebol para pegar ainda mais pesado no que deveria ser sua vida “cotidiana”.

Algo assim – dar uma pausa, não cometer crimes e nem virar estrela da TV – aconteceu com Adam “Nergal” Darski, o vocalista da grande banda polonesa de black metal Behemoth, após ouvir o excelente Blues Funeral (2012) de Mark Lanegan. A mistura de blues, southern rock, folk e eletrônica, combinado à voz grave do ex-vocalista do Screaming Trees, inspirou Nergal a apostar em um tipo de música parecido. E Nergal, que fez uma turnê vitoriosa com o Behemoth tocando The Satanist [2014] na íntegra, sentiu prazer em trocar as flying Vs com afinação baixa por semiacústicas em que cada acorde Ré resplandece sem precisar de toneladas de distorção.

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Para dar corpo ao projeto paralelo Me And That Man, Nergal invocou o poeta parte britânico, parte polonês John Porter, que divide com ele as funções de cantor e guitarrista. Todas as canções de Songs Of Love And Death baseiam-se em acordes simples e levadas bem manjadas, porém muito funcionais dentro da proposta bluseira, country e folk da dupla. E não espere encontrar uma cópia de Mark Lanegan, mas sim uma mistura de Johnny Cash com Nick Cave, Leonard Cohen e Wovenhand.

O que há de mais singular no disco é que, apesar do formato mais leve em som do que o black metal gutural da banda principal de Nergal, a visão de mundo que ele e Porter expressam nas letras de Songs Of Love And Death são sombrias e pesadas o suficiente para arrepiar os cristãos, judeus, islâmicos e nova-eras mais cabeças fechadas. O disco já abre com uma das melhores do álbum, “My Church Is Black”, em que além de dizer que “minha igreja é preta”, que “nenhum reino [de Deus] está vindo”,  diz também que “o inferno é minha casa” com a maior naturalidade possível debaixo de um ressoante strum em Mi maior. Na lenta e western “Cross My Heart and Hope To Die” ele encarna um personagem (será?) que deixa claro que é um grande caso de bad news. Para o final, deixa que um coral de crianças cantem versos fofos: “Não viemos pelo perdão/ Não oramos pelos nossos pecados/ Traímos nossos querido Jesus/ Escolhemos o inferno na terra”.

Nergal e Porter continuam trazendo sua visão de mundo dark no restante do álbum, como na roqueira “Better The Devil I Know” e na agitada “Love & Death”. Enquanto o líder do Behemoth toma para si o protagonismo nas faixas mais pesadas, que muito lembram diversas fases do Nick Cave, Porter encarna o Johnny Cash em “Nightride”, “On The Road” e “One Day” e outras. As faixas em que Porter toma mais o vocal são mais luminosas e mais cativantes que as de Nergal, que são muito mais escuras, mas não se deixe enganar: se Nergal é o príncipe das trevas, Porter é guardião do livro das trevas.

Tentando preservar as características do blues rock e deixá-las o mais western possível, a dupla opta por um estilo limpo e acessível, bebendo também na fonte do storytelling das murder balads. Um bom disco para assustar os mais conservadores, capaz de colocar vampiros para dançar e embalar o sono de jovens demônios.

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Rag’n’Bone Man – Human (2017)

Ele é humano e gosta de coletar velharias e revendê-las como novas

Por Gabriel Sacramento

A voz é de um bluesman. O nome “Rag’n’Bone Man”, também. Mas o inglês Rory Graham – que começou realmente cantando blues, enfatizando seu timbre vantajoso para o estilo – agora parece aceitar seu lado pop sem preconceitos. Na verdade, ponto para ele e toda a equipe que trabalhou em Human, seu debut, por imaginar: “E se levássemos esse timbre blueseiro para o pop, soaria bem diferente e interessante”. E realmente soa.

No entanto, outro estilo foi referência e ideal a ser alcançado por Graham em sua carreira: o hip-hop. Foi no cenário urbano inglês que ele idealizou o nome “Rag’N’bonez”, que virou Rag’n’Bone Man, seu atual nome artístico. Nos seus primeiros EPs, percebemos que o cara ainda transitava entre o hip-hop e o blues, sem muita delimitação entre os gêneros.

Rag 'N' Bone Man by Deans Chalkley

Human é resultado de cooperação entre diversos profissionais. Alguns deles bem conhecidos: O produtor Mark Crew, conhecido por trabalhar com a banda Bastille, além de Johnny McDaid, colaborador do também inglês Ed Sheeran, fora os diversos nomes que constam nas assinaturas das canções. A verdade é que o grupo trabalhou bem e chegou a um consenso interessante diante de todas as possibilidades que o talento do Rag’n’Bone poderia criar. São muitas facetas a explorar.

Human é um trabalho bem pensado e bem produzido, com um repertório que começa com canções mais encorpadas e termina com baladas. A abertura é com a faixa-título, com versos reflexivos, em que ele admite sua fraqueza e que não pode resolver tudo: “Algumas pessoas têm seus problemas, outras pensam que posso resolvê-los, mas eu sou apenas humano afinal de contas, não ponha a culpa em mim”, ele canta, usando melodias que não saem da cabeça.”Innocent Man” traz batidas pop, vocais sobrepostos, ganchos melódicos e mostra o cantor em dia com seu lado mais comercial. “Bitter End” deixa evidente uma forte influência de cantores da saudosa soul music no estilo vocal de Graham. À medida em que vamos avançamos no setlist, conhecemos sua voz mais crua, com menos tratamento e com mais sentimento. “Grace” é uma prova disso. Uma canção sensível, com piano ao fundo no início, melodias que, mesmo sutis, tocam profundamente. “Die Easy” é fantástica e blueseira até o talo, dispensa instrumentação e somos convidados a ouvir o vozeirão cru e forte do Rag’n’Bone e sua habilidade para segurar o ritmo e a emoção.

A equipe de Human soube bem explorar as facetas mais interessantes de Graham, deixando tudo muito atrativo. As possibilidades eram muitas, mas aqui foram reduzidas para algumas, as mais fortes e com mais potencial. Além do blues, há uma forte veia soul, com toques de hip-hop e um molho pop deixando tudo ainda mais saboroso – e acessível. Se o disco não tenta entregar profundidade em termos estilísticos, entrega um retrato sonoro fiel à pessoa talentosa de Rory Graham.

O quê pop do álbum pode ser – e tem sido – decisivo para colocar o cantor no topo das listas de mais vendidos e de mais ouvidos nos serviços de música online. Mas em Human, até esse apelo é bem administrado, ressaltando as boas características particulares do cantor e mantendo tudo bem embalado para o mercado. Foi uma ótima sacada trazer esse timbre soulful e blueseiro para o pop comum. Deu um aspecto singular ao trabalho dentro do gênero.

Uma curiosidade é que seu nome artístico – Rag’n’Bone Man – era usado para definir um profissional antigo que coletava objetos velhos e inservíveis para revendê-los a outro mercado. O interessante é que isso tem muito a ver com o que Graham faz: coleta elementos de soul e blues que poderiam ter se perdidos no meio do caminho em meio à evolução musical e os revende com uma nova roupagem, mais agradável para as grandes massas. Rory não é o único a fazer isso, embora seu jeito de fazê-lo seja único.

O disco mostrou que o cara é um dos destaques de 2017. O seu vozeirão, sua atitude (reforçada por sua imagem) e originalidade são os fatores que fizeram o projeto dar certo e o produto ser bem recebido. Vale a pena ficar de olho nos próximos trabalhos desse Rag’n’Bone Man que em 12 faixas fez o suficiente para agradar a todo mundo, sem soar banal.

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John Mayall – Talk About That (2017)

John Mayall mostra mais uma vez que sabe fazer blues como poucos

Por Gabriel Sacramento

O ícone do blues britânico John Mayall está com um novo trabalho. Mais um da carreira prolífica. O seu legado é indiscutível: liderou a banda que lançou alguns dos mais conhecidos guitarristas do Reino Unido – Mick Taylor, Mick Fleetwood, Peter Green e Eric Clapton são alguns dos nomes. Além de ter lançado em 1966 o disco que é considerado o início do blues rock (que seria “reinventado” por Jimi Hendrix um ano depois) e que influenciou diversas bandas importantes como Deep Purple e Led Zeppelin.

Outra coisa indiscutível é: Mayall domina completamente o blues. Desde muito novo, já foi exposto ao blues americano de artistas como Albert Ammons e Lead Belly. No seu novo álbum, Talk About That, ele deixa isso bem claro. O músico se mostra confortável fazendo aquilo que sempre fez durante a carreira, mas sem se restringir à fórmulas fáceis e engessadas. Mesmo que seja majoritariamente blues, percebemos o esforço do britânico em fazer algo interessante e dinâmico.

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A faixa-título abre o álbum com uma pegada mais dançante e um molho funky, realçado pelos slaps do baixo. Poderia ter soado melhor se a levada de bateria não fosse tão quadrada. “Hard Going Up” começa com riffs de blues entrecortados pelas notas do piano do Mayall. Mantém-se estável como um bom blues, mas sem soar cansativa. “The Devil Must Be Laughing” e “Cards on the Table” conta com o grande guitarrista do Eagles, Joe Walsh. As duas foram gravadas em um take. E o álbum todo foi finalizado em três dias apenas. Isso ocorreu porque Mayall queria captar um som “ao vivo”, que dá a ideia de algo mais espontâneo e improvisado.

“Gimme Some of That Gumbo” traz um ritmo diferenciado, com staccatos e acentos bem entrosados dos instrumentos. O piano de Mayall brilha como sempre. “Blue Midnight” lembra o som de JJ Cale, que tanto tem influenciado Eric Clapton ultimamente. “Across The County Line” mostra o britânico tentando variar, trazendo um pouco de um jazz clássico que lembra Ray Charles. “You Never Know” também possui uma veia jazzística, lembrando o som de Bob Dylan em Fallen Angels (2016).

Talk About That é um disco bem interessante de John Mayall justamente por buscar referências diferentes para tornar as canções diferentes. Mesmo sendo totalmente fluente na linguagem do blues, uma autoridade no uso das estruturas do gênero, o britânico preferiu experimentar com o jazz também, tendo o cuidado de não soar repetitivo demais.

Assim como Mike Zito em Make Blues Not War, John Mayall busca novas experiências com sua música sem variar muito o estilo. Não é um trabalho moderno e não tem intenção de ser. Mas também não é anacrônico, se apega ao aspecto atemporal que caracteriza o blues. Também não é o melhor trabalho da sua carreira e nem tem a intenção de ser, mas funciona como mais uma prova de que se alguém pode tocar blues com qualidade e sem decepcionar, esse alguém é John Mayall.

Além de tudo, é preciso reconhecer o legado do cantor, pianista e guitarrista. Por todo o seu esforço, por ter sido um pioneiro e ter trazido esses elementos americanos para a música do seu país. O blues foi a pedra fundamental da sua carreira, afinal, John Mayall como conhecemos não seria ninguém sem o blues. E o blues do Reino Unido também não seria ninguém sem ele.

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