blues

Mark Lanegan Band – Gargoyle (2017)

Mark Lanegan chega ao 3º capítulo de sua caminha gótica e eletroblueseira

Por Lucas Scaliza

Primeiro, tivemos o blues do funeral. Depois, o rádio fantasma. Agora, um gárgula. A mistura de blues, rock, música eletrônica e nuances góticas de Mark Lanegan chega ao terceiro capítulo com Gargoyle, sempre com referências muito claras da capa ao nome do álbum do que ele pretende.

É impossível cansar de sua voz grave e cavernosa, que acaba virando mais um elemento de textura em sua música, por mais simples que sejam suas melodias. E sua música, por mais previsível que possa parecer, consegue manter o mesmo tom dos álbuns anteriores e não se repetir nunca. “Blue Blue Sea” pode até ser uma canção bucaneira, mas toma ares cósmicos com toda a gama de teclados e sintetizadores que a compõe. E “Nocturne”, “Beehive”, “First Day of Winter” e a instigante “Old Swan” mostram como Lanegan ainda é… o próprio Lanegan, o cantor que você sempre imagina cantando nas sombras de um pub, tomando uma de uísque entre uma canção e outra.

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O mesmo de sempre, mas levemente flexível. Duas das mais interessantes faixas de Gargoyle são quase opostas. “Goodbye To Beauty”, entupida de reverb, é o que há de mais tradicional em termos de expressão em Gargoyle – uma das mais fundamentalmente orgânicas do álbum. Enquanto “Sister” é bem mais sintética e árida. Já “Emperor” é a coisa mais animada que ouvimos dele nos últimos 10 anos.

Embora sombrio, enevoado e grave, Gargoyle não é um disco triste e, como tudo que Mark Lanegan tem feito ultimamente, passa longe de soar monótono. Seja cantando sobre os demônios de cada um, fazendo referências ao passado de vícios em drogas ou usando um humor negro e seco, o álbum segue sempre em frente, sem exigir demais do ouvinte.

Gargoyle encontra eco no rock e na new wave oitentista, guardando paralelos com Joy Division, Echo & The Bunnymen e Depeche Mode. Mas a personalidade do cantor se impõe com força. Daí, “Drunk On Destruction” é o rock que você queria ouvir e “Death’s Head Tattoo”, que abre o disco, é a síntese do que Lanegan tem sido nos últimos anos. Pega suas influências, processa suas origens e junta tudo em novas e boas composições que continuam a ampliar o espectro sonoro de sua longa caminha pela noite urbana.

Me And That Man – Songs of Love And Death (2017)

Blues, country e folk sombrio que coloca vampiros para dançar e demônios para dormir

Por Lucas Scaliza

Às vezes os pesos pesados dão uma pausa e aproveitam a vida para pegar leve. Assim, apreciam um outro lado de suas próprias naturezas. Pense em Ozzy Osbourne que deixou de ser conhecido pela sua música por um tempo para virar estrela de reality show. Ou pense em O. J. Simpson que… bem, acho que esse deixou de pegar pesado nos campos de futebol para pegar ainda mais pesado no que deveria ser sua vida “cotidiana”.

Algo assim – dar uma pausa, não cometer crimes e nem virar estrela da TV – aconteceu com Adam “Nergal” Darski, o vocalista da grande banda polonesa de black metal Behemoth, após ouvir o excelente Blues Funeral (2012) de Mark Lanegan. A mistura de blues, southern rock, folk e eletrônica, combinado à voz grave do ex-vocalista do Screaming Trees, inspirou Nergal a apostar em um tipo de música parecido. E Nergal, que fez uma turnê vitoriosa com o Behemoth tocando The Satanist [2014] na íntegra, sentiu prazer em trocar as flying Vs com afinação baixa por semiacústicas em que cada acorde Ré resplandece sem precisar de toneladas de distorção.

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Para dar corpo ao projeto paralelo Me And That Man, Nergal invocou o poeta parte britânico, parte polonês John Porter, que divide com ele as funções de cantor e guitarrista. Todas as canções de Songs Of Love And Death baseiam-se em acordes simples e levadas bem manjadas, porém muito funcionais dentro da proposta bluseira, country e folk da dupla. E não espere encontrar uma cópia de Mark Lanegan, mas sim uma mistura de Johnny Cash com Nick Cave, Leonard Cohen e Wovenhand.

O que há de mais singular no disco é que, apesar do formato mais leve em som do que o black metal gutural da banda principal de Nergal, a visão de mundo que ele e Porter expressam nas letras de Songs Of Love And Death são sombrias e pesadas o suficiente para arrepiar os cristãos, judeus, islâmicos e nova-eras mais cabeças fechadas. O disco já abre com uma das melhores do álbum, “My Church Is Black”, em que além de dizer que “minha igreja é preta”, que “nenhum reino [de Deus] está vindo”,  diz também que “o inferno é minha casa” com a maior naturalidade possível debaixo de um ressoante strum em Mi maior. Na lenta e western “Cross My Heart and Hope To Die” ele encarna um personagem (será?) que deixa claro que é um grande caso de bad news. Para o final, deixa que um coral de crianças cantem versos fofos: “Não viemos pelo perdão/ Não oramos pelos nossos pecados/ Traímos nossos querido Jesus/ Escolhemos o inferno na terra”.

Nergal e Porter continuam trazendo sua visão de mundo dark no restante do álbum, como na roqueira “Better The Devil I Know” e na agitada “Love & Death”. Enquanto o líder do Behemoth toma para si o protagonismo nas faixas mais pesadas, que muito lembram diversas fases do Nick Cave, Porter encarna o Johnny Cash em “Nightride”, “On The Road” e “One Day” e outras. As faixas em que Porter toma mais o vocal são mais luminosas e mais cativantes que as de Nergal, que são muito mais escuras, mas não se deixe enganar: se Nergal é o príncipe das trevas, Porter é guardião do livro das trevas.

Tentando preservar as características do blues rock e deixá-las o mais western possível, a dupla opta por um estilo limpo e acessível, bebendo também na fonte do storytelling das murder balads. Um bom disco para assustar os mais conservadores, capaz de colocar vampiros para dançar e embalar o sono de jovens demônios.

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Rag’n’Bone Man – Human (2017)

Ele é humano e gosta de coletar velharias e revendê-las como novas

Por Gabriel Sacramento

A voz é de um bluesman. O nome “Rag’n’Bone Man”, também. Mas o inglês Rory Graham – que começou realmente cantando blues, enfatizando seu timbre vantajoso para o estilo – agora parece aceitar seu lado pop sem preconceitos. Na verdade, ponto para ele e toda a equipe que trabalhou em Human, seu debut, por imaginar: “E se levássemos esse timbre blueseiro para o pop, soaria bem diferente e interessante”. E realmente soa.

No entanto, outro estilo foi referência e ideal a ser alcançado por Graham em sua carreira: o hip-hop. Foi no cenário urbano inglês que ele idealizou o nome “Rag’N’bonez”, que virou Rag’n’Bone Man, seu atual nome artístico. Nos seus primeiros EPs, percebemos que o cara ainda transitava entre o hip-hop e o blues, sem muita delimitação entre os gêneros.

Rag 'N' Bone Man by Deans Chalkley

Human é resultado de cooperação entre diversos profissionais. Alguns deles bem conhecidos: O produtor Mark Crew, conhecido por trabalhar com a banda Bastille, além de Johnny McDaid, colaborador do também inglês Ed Sheeran, fora os diversos nomes que constam nas assinaturas das canções. A verdade é que o grupo trabalhou bem e chegou a um consenso interessante diante de todas as possibilidades que o talento do Rag’n’Bone poderia criar. São muitas facetas a explorar.

Human é um trabalho bem pensado e bem produzido, com um repertório que começa com canções mais encorpadas e termina com baladas. A abertura é com a faixa-título, com versos reflexivos, em que ele admite sua fraqueza e que não pode resolver tudo: “Algumas pessoas têm seus problemas, outras pensam que posso resolvê-los, mas eu sou apenas humano afinal de contas, não ponha a culpa em mim”, ele canta, usando melodias que não saem da cabeça.”Innocent Man” traz batidas pop, vocais sobrepostos, ganchos melódicos e mostra o cantor em dia com seu lado mais comercial. “Bitter End” deixa evidente uma forte influência de cantores da saudosa soul music no estilo vocal de Graham. À medida em que vamos avançamos no setlist, conhecemos sua voz mais crua, com menos tratamento e com mais sentimento. “Grace” é uma prova disso. Uma canção sensível, com piano ao fundo no início, melodias que, mesmo sutis, tocam profundamente. “Die Easy” é fantástica e blueseira até o talo, dispensa instrumentação e somos convidados a ouvir o vozeirão cru e forte do Rag’n’Bone e sua habilidade para segurar o ritmo e a emoção.

A equipe de Human soube bem explorar as facetas mais interessantes de Graham, deixando tudo muito atrativo. As possibilidades eram muitas, mas aqui foram reduzidas para algumas, as mais fortes e com mais potencial. Além do blues, há uma forte veia soul, com toques de hip-hop e um molho pop deixando tudo ainda mais saboroso – e acessível. Se o disco não tenta entregar profundidade em termos estilísticos, entrega um retrato sonoro fiel à pessoa talentosa de Rory Graham.

O quê pop do álbum pode ser – e tem sido – decisivo para colocar o cantor no topo das listas de mais vendidos e de mais ouvidos nos serviços de música online. Mas em Human, até esse apelo é bem administrado, ressaltando as boas características particulares do cantor e mantendo tudo bem embalado para o mercado. Foi uma ótima sacada trazer esse timbre soulful e blueseiro para o pop comum. Deu um aspecto singular ao trabalho dentro do gênero.

Uma curiosidade é que seu nome artístico – Rag’n’Bone Man – era usado para definir um profissional antigo que coletava objetos velhos e inservíveis para revendê-los a outro mercado. O interessante é que isso tem muito a ver com o que Graham faz: coleta elementos de soul e blues que poderiam ter se perdidos no meio do caminho em meio à evolução musical e os revende com uma nova roupagem, mais agradável para as grandes massas. Rory não é o único a fazer isso, embora seu jeito de fazê-lo seja único.

O disco mostrou que o cara é um dos destaques de 2017. O seu vozeirão, sua atitude (reforçada por sua imagem) e originalidade são os fatores que fizeram o projeto dar certo e o produto ser bem recebido. Vale a pena ficar de olho nos próximos trabalhos desse Rag’n’Bone Man que em 12 faixas fez o suficiente para agradar a todo mundo, sem soar banal.

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John Mayall – Talk About That (2017)

John Mayall mostra mais uma vez que sabe fazer blues como poucos

Por Gabriel Sacramento

O ícone do blues britânico John Mayall está com um novo trabalho. Mais um da carreira prolífica. O seu legado é indiscutível: liderou a banda que lançou alguns dos mais conhecidos guitarristas do Reino Unido – Mick Taylor, Mick Fleetwood, Peter Green e Eric Clapton são alguns dos nomes. Além de ter lançado em 1966 o disco que é considerado o início do blues rock (que seria “reinventado” por Jimi Hendrix um ano depois) e que influenciou diversas bandas importantes como Deep Purple e Led Zeppelin.

Outra coisa indiscutível é: Mayall domina completamente o blues. Desde muito novo, já foi exposto ao blues americano de artistas como Albert Ammons e Lead Belly. No seu novo álbum, Talk About That, ele deixa isso bem claro. O músico se mostra confortável fazendo aquilo que sempre fez durante a carreira, mas sem se restringir à fórmulas fáceis e engessadas. Mesmo que seja majoritariamente blues, percebemos o esforço do britânico em fazer algo interessante e dinâmico.

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A faixa-título abre o álbum com uma pegada mais dançante e um molho funky, realçado pelos slaps do baixo. Poderia ter soado melhor se a levada de bateria não fosse tão quadrada. “Hard Going Up” começa com riffs de blues entrecortados pelas notas do piano do Mayall. Mantém-se estável como um bom blues, mas sem soar cansativa. “The Devil Must Be Laughing” e “Cards on the Table” conta com o grande guitarrista do Eagles, Joe Walsh. As duas foram gravadas em um take. E o álbum todo foi finalizado em três dias apenas. Isso ocorreu porque Mayall queria captar um som “ao vivo”, que dá a ideia de algo mais espontâneo e improvisado.

“Gimme Some of That Gumbo” traz um ritmo diferenciado, com staccatos e acentos bem entrosados dos instrumentos. O piano de Mayall brilha como sempre. “Blue Midnight” lembra o som de JJ Cale, que tanto tem influenciado Eric Clapton ultimamente. “Across The County Line” mostra o britânico tentando variar, trazendo um pouco de um jazz clássico que lembra Ray Charles. “You Never Know” também possui uma veia jazzística, lembrando o som de Bob Dylan em Fallen Angels (2016).

Talk About That é um disco bem interessante de John Mayall justamente por buscar referências diferentes para tornar as canções diferentes. Mesmo sendo totalmente fluente na linguagem do blues, uma autoridade no uso das estruturas do gênero, o britânico preferiu experimentar com o jazz também, tendo o cuidado de não soar repetitivo demais.

Assim como Mike Zito em Make Blues Not War, John Mayall busca novas experiências com sua música sem variar muito o estilo. Não é um trabalho moderno e não tem intenção de ser. Mas também não é anacrônico, se apega ao aspecto atemporal que caracteriza o blues. Também não é o melhor trabalho da sua carreira e nem tem a intenção de ser, mas funciona como mais uma prova de que se alguém pode tocar blues com qualidade e sem decepcionar, esse alguém é John Mayall.

Além de tudo, é preciso reconhecer o legado do cantor, pianista e guitarrista. Por todo o seu esforço, por ter sido um pioneiro e ter trazido esses elementos americanos para a música do seu país. O blues foi a pedra fundamental da sua carreira, afinal, John Mayall como conhecemos não seria ninguém sem o blues. E o blues do Reino Unido também não seria ninguém sem ele.

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Rolling Stones – Blue & Lonesome

Os Stones fazem blues, mas não tão bem como antigamente

Por Gabriel Sacramento

E os Stones lançaram um álbum novo depois de 11 anos. E o álbum não é de inéditas, embora faça tanto barulho como se realmente fosse. Em Blue & Lonesome, os bad boys londrinos trazem covers do estilo que os influenciou em toda a carreira musical – o blues.

Covers de blues não são uma ideia nova da gangue de Mick Jagger e Keith Richards. Afinal, eles começaram na música tocando covers de artistas como Muddy Waters e Chuck Berry. O ótimo Rolling Stone (1964) é uma prova de que a banda tinha um jeito muito próprio de interpretar canções do estilo americano. Assim como outras bandas inglesas, inclusive, que traziam mais do que o sotaque para o estilo que nasceu do outro lado do Atlântico.

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Esse jeito próprio aliado a uma inocência característica de jovens iniciantes no mundo da música era o que tornava fantásticas as coleções de clássicos do blues que executavam. E isso foi justamente o que faltou em Blue & Lonesome. A inocência deu lugar a megafama e pretensão de um grupo que conquistou o mundo com seu som, gerando um álbum que obedece aos limites do estilo, mas não brilha como antigamente.

Não estou sendo saudosista, até porque não sou daqueles que admiram somente os Stones do anos 60 e 70 de “Gimme Shelter” e “Brown Sugar”. Gosto também das produções mais modernas do grupo, como o Voodoo Lounge (1994). A questão é que Blue & Lonesome soa como um grupo de velhinhos que sabe fazer música extravagante, festeira e que não respeita regras rígidas, mas que optam por fazer justamente o contrário – música superprevisível e engessada.

“Just Your Fool” abre o álbum com uma das características marcantes do blues britânico, a presença da gaita. A voz cansada e sem energia de Mick Jagger entra em cena sobre uma base estática e um desenvolvimento sem surpresas. É o blues que você já ouviu 98.177 vezes por aí, afinal. A faixa que dá o nome ao álbum tenta ser um blues mais triste, mas a interpretação de Jagger fica devendo. “I Can’t Quit You, Baby” é uma versão da icônica faixa do Willie Dixon, e é impossível não lembrar da versão emblemática que o Led Zeppelin gravou, que soava bem mais marcante que a desse álbum, inclusive. O grande destaque da faixa é ter Eric Clapton na guitarra (que também fez um álbum de blues esse ano, que soa bem menos previsível que esse dos Stones). A guitarra de Clapton também surge em “Everybody Knows About My Good Thing”.

Os Rolling Stones sempre foram conhecidos pela irreverência musical. Afinal, era fabuloso ouvir discos como Exile On Main Street (1971) ou Let It Bleed (1969) e ficar imaginando se, quando eles gravaram, estava rolando uma grande festa dentro do estúdio, tamanha a energia da banda nestes registros. Tudo bem, era rock’n’roll; agora é blues. Era esperado que soassem menos festeiros. Porém, agora vemos muito pouco (abaixo do pouco que era esperado) da energia e vigor típicos deles e a banda soa cansada e mecânica.

Além disso, eles também não soam emocionais como deveriam. Algumas das canções que escolhidas e o estilo em si requerem entrega e sensibilidade, justamente o que os Stones não conseguem passar muito bem. Eles tentaram simular um disco de blues, trazendo as estruturas do estilo, as harmonias, mas falta o quê de desolação e tristeza profunda que um bom disco do gênero apresentaria.

É comum que muita gente elogie os caras por trazerem um disco novo depois de tantos anos e levando em conta a importância deles para o que conhecemos como rock and roll. Mas temos de considerar que Blue & Lonesome não representa os Stones fazendo blues da melhor forma. Talvez a idade dos músicos tenha pesado. Ou simplesmente foi a pretensão de fazer algo muito blues que acabou suprimindo a criatividade.

Enfim, dessa vez não estava rolando uma festa no estúdio quando gravaram.

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Escuta Essa 04 – Lady Gaga: não era amor, era Cilada!

Episódio 04 do Escuta Essa Review. Nossas impressões e informações sobre “Perfect Illusion”, a nova música da Lady Gaga. Ainda discutimos a participação de Kendrick Lamar em “The Greatest”, da Sia, e quem se beneficia com isso.

Outros artistas do episódio:

  • Norah Jones
  • Nick Murphy (ex-Chet Faker)
  • Zack De La Rocha
  • Lee Ranaldo
  • Carlos Café
  • Ghost

Coloque seus fones, aumente o volume e divirta-se!

Podcasts: soundcloud.com/escutaessareview
Facebook: www.facebook.com/EscutaEssaReview
Contato: escutaessareview@gmail.com

Sia (feat. Kendrick Lamar) – “The Greatest” (clipe): www.youtube.com/watch?v=GKSRyLdjsPA
Lee Ranaldo – “Angles” (clipe): www.youtube.com/watch?v=HQigMoQvk1I

Jeff Beck – Loud Hailer (2016)

Jeff Beck alcança um resultado ainda instigante mesmo para quem já o acompanha há muito tempo

Por Gabriel Sacramento

Jeff Beck sempre foi um guitarrista muito virtuoso que chama a atenção de todos que o veem tocar. Foi um dos grandes nomes do instrumento que surgiu nos anos 60 na Inglaterra, junto com outros como Jimmy Page e Eric Clapton. Hoje, depois de tantos anos, o experiente guitarrista continua demonstrando as mesmas habilidades que o consagraram como um grande mestre das seis cordas.

Mas uma das características da carreira solo de Jeff Beck – que começou com o ótimo Truth (1968) – é que o músico não concentra todo o foco em sua guitarra. Por exemplo, a obra-prima Blow By Blow (1975), que mostra Beck tocando o melhor do seu jazz fusion, dá protqgonismo aos temas que cria e dá espaço para todos os instrumentos, não fica ressaltando a guitarra o tempo todo. Diferente de muitos guitarristas que vemos por aí, Beck prioriza a construção dos temas e pensando em cada elemento de sua banda.

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Em seu novo trabalho, Loud Hailer, não é diferente. Para tal, o veterano guitarrista chamou Rosie Bones e Carmen Vandenberg do grupo inglês Bones. A lista de músicos envolvidos é menor do que a dos que tocaram no seu último disco, Emotion and Commotion (2010). Mas isso não é um demérito, pelo contrário, porque faz o álbum seguir uma regularidade sonora bem melhor definida.

Como eu disse antes, o foco não se encontra somente na guitarra de Beck. Ele divide os holofotes com os vocais. Temos músicas politizadas como “The Revolution Will Be Televised” – que traz a ideia já em seu título – e a densa “Shrine”. Temos singles grudentos como “Live In The Dark” e “Right Now”. Além dos versos melódicos, “Live In The Dark” tem fills de guitarra que mostram o quão bom Jeff Beck ainda é. Já a segunda é um blues rock distorcido que faz os fãs do Jeff Beck Group sentirem-se nostálgicos. Também encontramos canções mais calmas como a soulful “Shame” e “Scared For The Children”. Beck também nos presenteia com canções que remetem à fase Blow By Blow como “O.I.L (Can’t Get Enough of That Sticky)”, flertando com o fusion.

Jeff Beck está em uma ótima fase. Discos bons, criativamente inspirado e ousando mais para entregar coisas diferentes. Segundo ele, Loud Hailer seria um “statement album” (algo como álbum de declaração, em tradução livre). Ou seja, ele pretende passar uma mensagem com as letras, com o instrumental e com todo o conceito do disco. Isso pode ser confirmado pelas letras politizadas e engajadas e até mesmo pela imagem e título do álbum (“loud hailer” = alto falante).

Como guitarrista, Beck continua sensacional. Ele preenche as canções com frases que mostram as técnicas que ele melhor utiliza e contribui significativamente com os arranjos. Sua guitarra cheia de distorção e wah-wah dá o tom em “Right Now” – com uma introdução que soa como se a guitarra estivesse tentando falar e aos poucos fosse encontrando força para fazer isso – e se destaca preenchendo o swing de “O.I.L”, por exemplo. Os outros instrumentos também aparecem quando necessário. Destaco a bateria que possui um timbre pesado em canções como “The Revolution Will Be Televised” e “Live In The Dark”.

Em Loud Hailer, Jeff inclusive investe em atmosferas bem trabalhadas que resultam em experimentos sonoros intrigantes em algumas faixas. A instrumental “Pull It” é o ápice de seus experimentos no álbum. Toda aquela mistura entre ruídos e explosão de efeitos, bem como uma bateria climática, ressalta a criatividade do músico e a disposição para entregar algo diferenciado. Ele faz de tudo para entregar um trabalho completo e complexo, que não se limita ao que ele já fez no passado. E isso o ajuda a alcançar um resultado ainda instigante mesmo para quem já o acompanha há muito tempo.

A parceria com a banda Bones dá muito certo. Os dois integrantes trouxeram um pouco da personalidade deles à música de Jeff e isso contribui com o álbum. Além de tudo, o inglês mostra que sabe ser relevante depois de tantos anos, como muitos veteranos da música têm feito, nos apresentando um álbum que, acima de tudo, proporciona uma experiência única.

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