cinema

Logan – a trilha sonora de Marco Beltrami (2017)

Trilha mistura suspense, western e noir e é uma das melhores que um filme baseado em quadrinhos já ganhou

Por Lucas Scaliza

Logan consegue não apenas a proeza de ser o melhor filme da franquia dos mutantes do X-Men até aqui, mas também um filme de herói com uma trilha sonora acertada e que realmente se destaca das outras produções da Fox (que possui os direitos cinematográficos sobre os mutantes) e da Marvel (que é a produtora associada no caso de Logan).

A franquia X-Men nos cinemas virou uma bagunça temporal que vai sendo corrigida ao passo em que novos roteiros vão sendo escritos. E conforme uma correção é feita, outras imperfeições aparecem. Wolverine, talvez o mutante mais popular da série, logo ganhou um filme solo. O primeiro foi fraco de doer. O segundo melhorou, mas continuou bastante desinteressante. Para o terceiro e último com o ator Hugh Jackman vestindo o couro envelhecido e o adamantium do feroz mutante canadense, resolveram fazer direito: um bom roteiro (que sofre um ou outro deslize, fáceis de relevar), atuações irrepreensíveis de Patrick Stewart (Charles Xavier), Boyd Holbrook (Pierce) e da novata Dafne Keen (Laura/X-23), e uma direção que soube retratar uma série de questões sérias (mortalidade, pesquisas com seres humanos, o envelhecimento, problemas psicológicos e a atual política dos EUA) com muito tato, sabendo a hora de deixar fluir o drama e a hora de banhar as garras em sangue.

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Desde o primeiro trailer, com Johnny Cash rolando como trilha, ficou a impressão de que se tratava de um western: personagens envelhecidos, uma missão a ser cumprida, paisagem árida e uma longa viagem de carro. Caso a utilização de Cash não tenha deixado isso bem claro, o compositor Marco Beltrami fez questão de estabelecer o tom e o gênero de Logan desde sua introdução, com o tema do filme (“Main Titles”) sendo executado ao piano, bem ao estilo clássico dos westerns e que lembra também a trilha de introdução de outro faroeste moderno da tevê: Westworld. E pelo menos 60% das 25 faixas da trilha original seguem nesse estilo, contribuindo com o clima de suspense, ameaça e drama da produção.

É um deleite ouvir as canções por si sós, mesmo sem o filme. Além da orquestração tradicional, Beltrami colocou percussão, guitarras com distorção e até violão nas músicas, para criar uma trilha que homenageie tanto os spaghetti westerns de Sergio Leone e as trilhas de Ennio Morricone, como para que nos fazer sentir a modernidade da obra. Músicas como a excelente tríade “Logan’s Limo”, “Loco Logan” e “Logan Drives” emolduram perfeitamente o protagonista na condição de cowboy no deserto do sul dos EUA. Já “Old Mand Logan”, com seu órgão Hammond e fantasmagórico, piano grave e harmônica de vidro, dá os contornos ao drama do homem que tenta sobreviver e não se vê mais como o Wolverine de antigamente.

Beltrami diz que James Mangold, diretor de Logan e dos dois filmes anteriores do personagem, não queria uma trilha sonora tradicional, mas uma música que desse suporte emocional ao filme. “Jim queria que fosse misteriosa e por isso eu a fiz quase minimalista em construção, para que tudo ficasse o mais orgânico possível”, diz o compositor. E ele conseguiu fazer uma obra musical que se equilibra muito bem entre os diversos momentos do filme.

Há música para pancadaria e para perigo iminente, como “That’s Not a Choo-Choo” (uma guitarra roqueira sublinha as insistentes notas do violino) e “X-24” (percussão mais pesada e notas ruidosas intensas). Já “Feral Tween” mantém o ritmo constante da ação enquanto delineia sons agudos enervantes e dissonantes. “Forest Fight”, que acompanha uma grande batalha e perseguição já no terceiro ato do filme, usa percussão, sopros graves e violinos em sua primeira metade, como a maioria das trilhas de ação. Mas sofre uma reviravolta lá pela metade e segue até o fim lembrando demais as trilhas sonoras de jogos de RPG. Já “Farm Aid” é digna de filme de terror.

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As texturas setentistas também estão presentes – como é o caso das etéreas “Goodnight Moon”, “Gabriela’s Video” e da melancólica “Don’t Be What They Made You” – e ajudam a dar um ar mais noir e, de certa forma, irreal à truculência do que é visto no filme. “Alternate Route To Mexico” começa como trilha tradicional e termina mais como música de banda, mantendo apenas as cordas da orquestra no comando da melodia que, aliás, é uma das mais acessíveis da trilha.

Assim como Logan faz referência aos quadrinhos e a momentos passados da saga cinematográfica dos X-Men, Beltrami também tratou de fazer conexões musicais, mas dentro do próprio filme. Os temas do protagonista, de sua “filha” Laura e do oponente X-24 são bem diferentes, mas mantêm um intervalo de duas notas que repetem nos temas de Laura e de Logan e aparecem invertidas entre eles e X-24. Aliás, “Eternum – Laura’s Theme”, é uma das preciosidades da trilha, misturando o piano e a gaita faroeste, uma guitarra lânguida e clima onírico.

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A princípio, Cliff Martinez havia sido contratado para fazer a música de Logan. Conhecido pelo gosto por sintetizadores e pelas trilhas para o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn (de Demônio de Neon e Drive), o filme teria tido, provavelmente, um aspecto bastante diferente no final das contas. Não se sabe se Marco Beltrami chegou a utilizar alguma composição ou ideia de Martinez, mas fica difícil pensar em Logan sem a excelente trilha que faz parte dele. Afinal, o filme foi concebido por Mangold e Jackman muito mais como um western noir que inclui o Wolverine do que um filme de herói que tenta ser faroeste.

Beltrami já fez música para filmes abaixo da média como Deuses do Egito (2016), Jonah Rex (2010), Quarteto Fantástico (2015) e o primeiro Wolverine (2013), mas também já foi indicado ao Oscar por sua trilha para Guerra Ao Terror (2009) e Os Indomáveis (2007), este último um filme do próprio James Mangold. A trilha de Logan é tão boa e se encaixa tão bem na proposta do filme que não me surpreenderia de vê-lo indicado mais uma vez.

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Escuta Essa 20 – As músicas, as trilhas e os filmes do Oscar 2017

Domingo é dia de que? OSCAR 2017! O Escuta Essa Review também fala de cinema (já leu nossas críticas de trilhas sonoras, né?) e neste episódio especial discutimos os filmes, os atores e atrizes, as canções originais e as trilhas sonoras indicadas ao prêmio. Você já fez suas apostas? Então vem conferir as nossas.

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La La Land – a trilha sonora de Justin Hurwitz (2016)

Musical é todo retrô e usa os clichês do jazz no cinema, mas Hurwitz e Chazelle sabem como fazer funcionar

Por Lucas Scaliza

Do primeiro ao último frame, La La Land – Cantando Estações (2016) é uma homenagem ao cinema e ao musical, assim como mais um reforço do que a cidade de Los Angeles inspira em seus habitantes. O filme tem sua própria trajetória original, mas no caminho paga tributo para produções da Europa e de Hollywood incontáveis vezes, seja em passos de dança, na cenografia, na iluminação, em determinados ângulos de câmera e até em uma surreal e sonhadora valsa por um céu estrelado.

Fred Astaire, Ginger Rogers, Gene Kelly, Sinfonia de Paris (1951), Ritmo Louco (1936), Cantando na Chuva (1952), Duas Garotas Românticas (1967), Grease (1978), Amor, Sublime Amor (1961), Give a Girl a Break (1953), Eu Sou Cuba (1964), Dança Comigo? (1957), A Bela Adormecida (1959) e ainda outros, estão todos representados no filme do jovem Damien Chazelle (diretor de Whiplash). Ao invés de dissecarmos como cada cena remete a esses filmes, o vídeo abaixo vai mostrar para vocês, dando uma boa introduzida no que consiste o filme, tanto uma produção original por si só, quanto uma colcha de retalhos de referências ao passado.

E também da primeira a última cena, La La Land (com 14 indicações ao Oscar, sendo o 3º filme da história da premiação a conseguir tal reconhecimento) é retrô. A história de Mia (Emma Stone) – atendente em uma cafeteria dentro da Warner que quer ser atriz – e Sebastian (Ryan Gosling) – um virtuoso jazzista que pena para conciliar a necessidade de trabalhar com o sonho de trabalhar com o jazz que realmente importa para ele – se passa na Los Angeles atual, mas o filme retrata a cidade quase como um espaço atemporal: carros de 2016 dividem espaço com modelos de 1970 e 1950, celulares convivem com vinis, a obsessiva paleta de cores reproduzem o esquema tecnicolor e os figurinos combinam cores e cortes casuais e luxuosos que reconhecemos de nossos álbuns de família. Mia, aliás, viu muitos filmes antigos junto de uma tia. E Sebastian ainda tem um toca-fitas no carro. Chazelle não faz com que essas referências temporais entrem em choque. Na verdade, tudo está em perfeita sintonia e harmonia.

Faz sentido, pois a Los Angeles de hoje, que fascina as pessoas pelos sonhos que pode conter e que promete a quem chega até ela cheio(a) de esperança, é a mesma desde a década de 1920 nesse sentido, mantendo Hollywood como o centro gravitacional que gera essa atração de artistas e aspirantes a artistas.

A música da trilha sonora do filme joga com essas mesmas cartas. A felicidade e as cores vivazes evocadas em “Another Day Of Sun”, “Someone In The Crowd” e na longa “Epilogue” nos levam de volta aos musicais antigos citados acima. São números feitos para agradar, ao mesmo tempo em que servem à história e dão dinâmica às coreografias. Já “A Lonely Night” e “Audition (The Fools Who Dream)” são calculadíssimas para que a riqueza de melodia substitua o diálogo. Não temos dúvida nenhuma de que estamos diante de um musical ao ver La La Land.

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Já as faixas instrumentais “Herman’s Habit”, “Summer Montage/Madeline” e “Engagement Party” representam o jazz mais puro, com ênfase na instrumentação. Embora não seja o tipo mais tranquilo de jazz (as músicas possuem improvisação, tonalidade modal e turn overs), não destoam da leveza geral que o resto da parte musical dá ao filme e representam o gênero como ele é mais classicamente conhecido no cinema desde a década de 30. Sim, Hurwitz usa os clichês do estilo para isso, enquanto os exemplos mais contemporâneos de jazz – e aí podemos citar desde Badbadnotgood até Donny McCaslin – não estão na Los Angeles de La La Land, ou pelo menos não nos pensamentos de Sebastian.

A única exceção vem com a participação de John Legend no filme e na trilha. Esse excelente cantor, que sabe manter a classe mesmo quando faz uma música bastante acessível, interpreta Keith, um músico que está montando uma banda pop com elementos de jazz e eletrônica. O resultado que vemos no filme e na trilha é “Start a Fire”, a única música que claramente é contemporânea. Mesmo quando usa algum elemento que pode ser considerado retrô, o faz consciente disso, para que seja notado e admirado por isso, e não porque tenha real coragem de se devotar a música “do passado”. Aliás, repare no nome dessa música e o que ocorre durante uma discussão entre o casal de protagonistas para sacar um easter egg sensacional do filme, em que a trilha sonora antecipa o roteiro.

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Mas a principal música do filme – e a que vai ficar em sua memória – é “City Of Stars”. Cuidadosamente apresentada em três momentos diversos do filme, com três roupagens diferentes, a balada em Sol menor é um triunfo de Hurwitz. Melodiosa, cativante e fácil de assimilar (embora não seja óbvia), é a cola que liga Mia e Sebastian um ao outro e ao significado de Los Angeles na produção. E o clima levemente melancólico terá sua resolução refletida no final da própria história de Mia e Sebastian – que é outro dos trunfos da narrativa do filme, curiosamente parecido com Café Society (2016), de Woody Allen.

Hurwitz primeiro compôs os temas do filme e de cada personagem, para depois desenvolvê-los em canções. Tinha apenas a melodia musical de “City Of Stars” quando os compositores Benji Pasek e Justin Paul colocaram a letra, e então souberam qual seria o tema do filme e como ele se comportaria dentro da história. Hurwitz queria que fosse uma música que ficasse na lembrança e conseguiu. Apesar de as outras músicas do filme conquistarem pela energia e pelo ritmo, a melodia é muito complexa e expansiva. Já “City Of Stars” se comporta melhor como canção, com suas repetições e convenções, o que facilita a memorização.

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Hurwitz, um compositor de trilhas que trabalhou nos dois filmes anteriores de Chazelle (ambos ligados os jazz) e na comédia Curb Your Enthusiasm, sabe o que é fazer uma boa música fácil e uma boa música extraindo o melhor de uma atriz em um set e em uma tela. Por isso, para ele, sua melhor composição em La La Land é “Audition”, música que Emma Stone cantou ao vivo no set e em único take, ou seja, sem cortes. A música, além de sofisticada e de um exemplo perfeito do tipo de performance de um musical, marca o segundo plot twist do roteiro, quando uma mudança importantíssima ocorre. Foi a última música composta por Hurwitz e ele acompanhou a atriz ao piano durante a gravação da cena, deixando que ela ditasse o passo da música. O acorde Lá que se espera ao final, para concluir a canção e dar um senso de harmonia, está ausente, deixando a melancolia no ar – e mais uma sacada musical que se conecta com os eventos que sucedem logo depois na história.

Embora o filme tenha caído no gosto do público, ele ainda é um musical clássico. Quem não gosta desse gênero pode encontrar algumas barreiras, mas nada que esteja deslocado ou que invalide o filme como um todo (é uma questão de gosto, afinal, não de competência). A trilha, sem o acompanhamento do filme, é uma mostra de como soa um musical com inspiração nos clássicos do passado. Dá para acusar Hurwitz de compor um jazz muito cheio de clichês para um filme que é sobre amor, sonhos e um pouco jazz, principalmente quando comparado ao pesado jazz de big band de Whiplash. Mas é evidente, desde a primeira cena, que a intenção não é dificultar a audição e o prazer musical de La La Land. Ainda assim, a forma como as cenas musicais foram gravadas (em planos sequências) e a forma como as canções possuem detalhes técnicos que se liguem à narrativa mostram que não é, nem de longe, um musical em que qualquer nota está valendo.

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Doutor Estranho (Doctor Strange) – a trilha sonora de Michael Giacchino (2016)

Compositor coloca orientalismos e psicodelia com segurança demais para não sair da “fórmula”

Por Lucas Scaliza

Parte do sucesso dos filmes da Marvel Studios no cinema se deve ao desenvolvimento de uma fórmula que garante que cada um de seus filmes terá uma certa carga dramática (mas nunca dramática demais), personagens cativantes interpretados por bons atores, sempre colocar piadas para aliviar toda e qualquer tensão e sempre seguir a velha jornada do herói que, embora seja um tipo narrativo já bem manjado, continua conquistando crianças, adolescentes e adultos pelo mundo afora, quase todos não percebendo que estão lhes vendendo a mesma coisa de novo e de novo.

Essa fórmula também está presente – e bem executada – em Doutor Estranho (Doctor Strange), o filme que traz o multiverso e as diferentes dimensões acessadas por meio da magia oculta para o universo cinematográfico da Marvel. Os ingredientes da fórmula estão todos aí: temos excelentes atores na tela: o inglês Benedict Cumberbatch é o arrogante, mas determinado, Dr. Strange do título, um neurocirurgião que acaba buscando as artes mágicas após ter suas mãos estraçalhadas em um acidente de carro. Tilda Swinton e Mads Mikkelsen, que dispensam apresentações, também estão no elenco. Strange vê sua vida completamente modificada após o acidente e gasta todo o seu dinheiro na busca por uma cura. Chega ao fundo do poço até encontrar uma mentora (a Anciã), um sidekick (Mordo) e um antagonista que é, aliás, muito parecido com ele (Kaecilius). Aí estão os elementos para identificarmos a jornada do herói.

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A Marvel vem tentando sofisticar seus filmes colocando temas adjacentes à trama principal. Tivemos, por exemplo, a questão da vigilância e da espionagem criminosa do governo americano em Capitão América: Soldado Invernal, representando toda a crise do escândalo da NSA denunciada por Edward Snowden. Em Doutor Estranho, o diretor Scott Derrickson fala sobre a morte, mas de uma forma bastante superficial, sempre encaixando piadas nos momentos que poderiam ser mais dramáticos para não deixar ninguém ficar down.

Mas e quanto à música? Bem, a música não faz feio, mas segue o receituário da Marvel e acaba sendo mediana. É um elemento importante para as cenas, mas óbvio demais. Aliás, todas as trilhas para filmes da Marvel passam quase despercebidas. Carecem de alma, de melodia e, principalmente de originalidade. Como demonstra este vídeo, os diretores primeiro montam as cenas com músicas de outros filmes, e só depois incluem as músicas originais compostas para seus filmes. No caso da Marvel, eles se utilizam de trilhas de filmes do próprio estúdio e acabam se baseando demais nelas, causando um autoplágio flagrante e preocupante.

A escolha de Michael Giacchino para Doutor Estranho faz sentido. Ele tem personalidade para poder mudar essa realidade sonora do estúdio, é autor da ótima trilha de Divertida Mente (2015), da Pixar, que, assim como a Marvel, faz parte da Disney. Tinha esperanças de que ele tivesse mais liberdade para criar. Bem, acontece na maioria das vezes, Giacchino demonstra imaginação, mas fica em lugares comuns. Apenas ouvindo o disco da trilha, sem assistir ao filme, é possível identificar quais são as cenas de maior intensidade emocional, quais se conectam a vilões, quais demonstram perigo e quais acompanham as cenas de ação. A primeira, a pungente “Ancient Sorceress’ Secret”, deixa claro que trata de uma cena de ação grandiosa mesmo que você a ouça sem ter visto o filme. E o mesmo vale para a genérica “Hong Kong Kabooley” e “Astral Worlds Worst Killer”, ambas usadas nas cenas finais de ação do longa.

Como grande parte da história se passa no Oriente e emprega a mística oriental e viagens por diferentes dimensões, mas sem perder o foco da ação também em Nova York, a trilha de Giacchino contém sim escalas orientais e um leve tempero psicodélico que ouvimos em diversas faixas – como em “Astral Doom”, “Post Op Paracosm”, “Inside The Mirror Dimension” e “Strange Days Ahead”, mas especialmente em “Sanctimonious Sanctum Sacking”. É uma trilha de ação com alguns vestígios psicodélicos que tentam resistir ao teor mais padronizado da música. O coro e o sopro pesado dos metais denotam o maneirismo contemporâneo de todas as trilhas de ação e de filmes de heróis. Já o baixo sintetizado e as batidas eletrônicas discretas trazem algo de diferente para quem a ouve com atenção.

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Como também trata de magia, Giacchino não resiste e usa os mesmos sons que já ouvimos oito vezes (até agora) na série cinematográfica Harry Potter (caso de “Reading Is Fundamental” e “Smote And Mirrors”, principalmente). Nas faixas comentadas até agora, o compositor se esforça para dar o sabor do oriente e o feeling da magia, mas não pensa muito fora da caixa. Sua música soa muito padronizada e ocidentalizada. Nos quadrinhos, o Ancião que treina Strange é um místico budista do Tibete, mas temendo não ir tão bem no mercado chinês (que tem ódio do Tibete), fizeram a personagem ser interpretada por um ocidental (Swinton) e que pratica um tipo de ocultismo oriental mais genérico.

Mas há bons momentos na trilha também. “The Hands Dealt”, que acompanha o sofrimento de Strange após o acidente, é belíssima e ressalta com perfeição o interior triste e turbulento do neurocirurgião. É um dos únicos momentos de pura beleza melancólica do filme, onde ele permite que o drama seja completo, sem as fugas para as piadinhas (que ocorrem automaticamente, como manda a cartilha da fórmula Marvel). “A Long Strange Trip” acompanha a primeira viagem astral do personagem e é sensacional. Psicodélica, acordes tensos, efeitos que a fazem parecer ser tocada de trás para frente e um crescendo de vozes enervantes. E no final do filme e durante os créditos é que Giacchino se liberta e faz uma música sem amarras do padrão Marvel, podendo experimentar com guitarras cheias de efeitos psicodélicos e com um feeling oriental em “The Master Of The Mystic End Credits”.

Teria sido uma trilha mais condizente com o personagem e o contexto de suas histórias (que começaram a ser publicadas nos psicodélicos anos 60) se a trilha, como um todo, fosse mais experimental. Fica claro que Giacchino foi chamado por ser um compositor imaginativo e competente, mas seguro o bastante para não fritar em ácido. Para isso, incluíram a sensacional “Interstellar Overdrive”, do Pink Floyd de 1967 (a única música totalmente e verdadeiramente psicodélica de todo o filme), e dançante “Shining Star”, do Earth, Wind & Fire. Dois acertos e tanto.

Como nenhum filme da Marvel Studios teve uma trilha sonora original digna de nota até então (dada a popularidade e orçamento dos filmes), Doutor Estranho pode facilmente levar o título de melhor trilha desse universo cinematográfico. Mas como todos os outros ficaram abaixo da média, essa vitória está longe de demonstrar que trata-se de uma trilha notável. Ela funciona e tem mesmo ótimos momentos, mas carece da magia que, em outro contexto e em outra época, Harry Potter conseguiu traduzir para a pauta musical tão bem.

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Esquadrão Suicida (Suicide Squad) – a trilha sonora (2016)

Ótima seleção de músicas, mas mal aproveitada ao longo do filme

Por Lucas Scaliza

A ideia era muito boa: reunir alguns vilões de segundo escalão da DC Comics em uma superequipe para realizar missões secretas e com poucas chances de sucesso para o governo dos Estados Unidos. Como esses vilões estão cumprindo penas perpétuas, talvez seja a única chance de conseguirem negociar suas penas. E para o governo – e para a sociedade – fariam pouca falta no mundo caso morram. São vistos como a escória da humanidade, afinal. Somente a premissa da história abre um caldeirão de possibilidades narrativas, com inversões morais interessantíssimas. Afinal, como conduzir uma história em que o leitor ou telespectador precisa torcer para caras maus de verdade?

O Esquadrão Suicida nunca foi uma das séries mais populares da DC. Assim como os Guardiões da Galáxia da Marvel, apenas os mais aficionados pelos quadrinhos da editora conheciam ou tinham alguma noção do que seria esse supergrupo. O poder do cinema blockbuster – e de suas milionárias campanhas de marketing – se encarregou de criar todo o buzz em cima da marca. Some isso à presença de um novo Coringa vivido por Jared Leto, um ator vencedor do Oscar e que também é cantor da banda de rock 30 Seconds To Mars, e temos talvez o filme com o maior hype do ano.

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Tinha tudo para ser um filme que colocaria os dilemas morais frequentemente vistos na enxurrada de filmes super-heroicos de cabeça para baixo, trazendo algo novo ao gênero. O diretor David Ayer, de filmes como Dia de Treinamento (2001), Marcados Para Morrer (2012) e o filme de tanque de guerra Corações de Ferro (2014), já tinha provado que sabe construir cenas de ação interessantes, criar tensão e dirigir atores. Mas o resultado em Esquadrão Suicida é decepcionante em todos esses aspectos, inclusive no musical.

Para começar, a história é apenas um fiapo. O grupo de vilões (que não cometem vilania nenhuma ao longo de todo o filme) precisa atravessar a cidade de Midway para primeiro resgatar Amanda Waller (Viola Davies), a chefe linha-dura do Esquadrão Suicida, e depois enfrentar dois inimigos poderosos (com um grau de destruição totalmente fora dos padrões enfrentados pelo Esquadrão em suas histórias originais).

Há muitos furos de roteiro, basta olhar com mais atenção e menos empolgação para vê-los. A produção inclusive utiliza a trilha sonora – repleta rock, pop e hip hop – para ajudar a construir cada personagem. Mas como o espaço dado para a apresentação de cada um é pequeno, a música vira uma muleta. Quando Amanda Waller (a verdadeira anti-heroína do filme, aquela personagem casca grossa mesmo) surge para recrutar Arlequina, a música é “Symphathy For The Devil”, dos Rolling Stones. E a personagem de Margot Robbie ainda pergunta “Você é o diabo?”, deixando claro como a redundância do roteiro e da música utilizada desconfia da inteligência do espectador.

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Há muito mais músicas no filme do que na trilha sonora lançada (ficaria muito caro licenciar tudo para o disco do filme) e a seleção é excelente. Tem The White Stripes, Black Sabbath, AC/DC, Queen, Etta James, Kanye West e muitos outros. O repertório não é o problema: juntar todas essas músicas (que listei lá embaixo para facilitar) forma uma ótima playlist condizente com o espírito do filme, misturando clássicos com canções mais atuais. No entanto, nem todas são bem utilizadas e várias surgem para realçar a obviedade da narrativa, como na cena com Amanda Waller chegando na cela de Arlequina.

Assim que o filme começa, vemos o Pistoleiro (Will Smith) preso, socando um saco de boxe com a música “The House Of The Rising Sun”, clássico dos The Animals, ao fundo. A prisão em que ele está fica na Louisiana. Junte todos os elementos e a primeira estrofe da música: “Tem uma casa em New Orleans/ Chamam de Casa do Sol Nascente/ E ela foi a ruína de muitos outros pobres garotos/ E Deus, eu sei que sou um deles”. Ou seja, uma música que fala de um lugar para condenados no estado da Louisiana e um personagem condenado numa prisão na principal cidade da Louisiana. Ótima música, mas literal demais.

A música “You Don’t Own Me” é de 1963, gravada por Lesley Gore quando ela tinha apenas 17 anos, mas a versão executada no filme é de Grace e G-Eazy, misturando a música original com partes de rap. A letra diz: “Não sou sua/ Não sou um de seus brinquedos/ Não sou sua/ Não diga que não posso ir com outros rapazes”. Não é difícil supor que é a música que introduz Arlequina, né? Mas é uma boa escolha. “Super Freak”, de Rick James, sucesso da Motown em 1981, é outra cuja letra e o jeito divertido e colorido foi associada à Arlequina, desta vez acertando em cheio.

“Paranoid”, do Black Sabbath, chega com tudo em um momento do filme em que coisas emocionantes parecem estar para acontecer. Assim, os acordes de Tony Iommi e o baixo Geezer Butler servem como uma injeção de ânimo ao momento. A clássica “Seven Nation Army”, do The White Stripes, surge justamente na cena em que todos os integrantes do Esquadrão e mais alguns soldados americanos se reúnem (apressadamente) para saírem em missão. De novo, ótima música, mas usada de modo literal demais. Em seguida, com o time já formado, ouvimos “Without Me”, um tremendo sucesso comercial de Eminem em 2002. A música é ótima para o momento em que é executada e sua letra combina perfeitamente com o Esquadrão Suicida, já que é uma música em que o rapper de Detroit afirma a sua posição de figura contraditória na música mainstream. O problema desta é que acaba totalmente picotada. Temos a intro, a primeira parte pela metade, um refrão apressado e já pula para o final. Se tem uma música que simboliza o filme como um todo, é esta. Toda editada acaba não fazendo muito sentido (como o filme) e embora a controvérsia e o espírito mais caótico esteja no centro do Esquadrão nos quadrinhos e na música, é justamente o que falta ao filme.

Clássicos roqueiros como “Spirit In The Sky”, de Normal Greenbaum,  “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, do AC/DC, e “Fortunate Son”, do Creedence Clearwater Revival, dividem espaço com hip hops modernos como “Know Better”, de Kevin Gates, a pesada “Black Skinhead”, de Kanye West, e a eletrônica “Gangsta”, de Kehlani. Todas executadas sem ocupar muito tempo e, como cada uma serve para complementar a apresentação de um personagem ou situação, é fácil perceber como o roteiro se apressa.

Se Esquadrão Suicida sofre com o fraco storytelling, sofre também ao tentar ser o Guardiões da Galáxia da DC/Warner. O filme da Marvel, além de melhor construído, cuidou direitinho de sua seleção musical. Além de escolher músicas populares de rock e soul dos anos 70 e 80, soube dar a elas um motivo especial e marcante para existir ao longo de todo o filme. Não apenas Peter Quill tem uma relação emocional com sua Awesome Mixtape, mas nós também somos levados a ter, como espectadores, por sempre significarem algo em uma parte significativa do filme. A seleção de Esquadrão é boa, mas nada menos que 17 músicas (de um total de 23) são tocadas na primeira meia hora de filme, comprometendo demais o aproveitamento de cada uma.

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A boa versão do Panic! At The Disco para “Bohemian Rhapsody”, do Queen, fica para as últimas cenas do filme, sendo sucedida pelo hit “Heathens”, do Twenty One Pilots, que é ameaçadora no discurso e doce na expressão (um pouco como os pretensos vilões do filme). No fim, há “Sucker For Pain”, feita exclusivamente para o filme pelo combo Lil Wayne, Imagine Dragons, Logic e Ty Dolla $ign, sem falar na participação de Ambassadors. Uma faixa comercial que aposta em um rap levinho e um refrão melodioso.

“Purple Lamborghini”, de Rick Ross e Skrillex, funciona como a música tema do filme. É burocrática e esquecível que se aproveita das tendências do rap e do eletrônico, sem nenhuma intenção de ser transgressora. É um filme mainstream e a música tema reflete esse mercado também, afinal de contas. O clipe tem a participação de luxo de Jared Leto como Coringa, mas é totalmente vazio de significado.

Mais sorte tiveram os músicos e produtores Mark Ronson e Dan Auerbach (The Black Keys, The Arcs) que, junto do rapper Action Bronson, entregaram especialmente para o filme “Standing In The Rain”, uma boa versão da resgatada “The Rain”, de Oran Juicy Jones, lançada originalmente em 1986. Embora siga a mesma ideia de “You Don’t Own Me” – regravar música antiga e enfiar um rap no meio –, o bom gosto dos envolvidos faz com que seja uma faixa interessante, principalmente pelo ótimo refrão de Oran Jones na voz de Auerbach.

As pesadinhas “Wreak Havoc”, de Skylar Grey, e “Medieval Warfare”, da Grimes, estão no disco da trilha sonora, mas nunca dão as caras no filme. Ou os direitos autorais e de licenciamento de Black Sabbath, The White Stripes, AC/DC e Rolling Stones são altos demais e quiseram completar o álbum com um bônus, ou então as músicas de Grey e Grimes estavam em cenas que acabaram de fora da versão final do filme. Afinal, essa versão esquálida de Esquadrão Suicida teve diversas cenas importantes para o desenvolvimento dos personagens cortadas – e várias delas dariam um tom mais grave à narrativa.

O Esquadrão Suicida que funcionou no cinema foi lançado em 2015 e foi dirigido por Quentin Tarantino. Os Oito Odiados é uma reunião de caras maus de verdade que, ao longo de três horas, fazem questão de mostrar o quanto são misóginos, violentos, amorais, mentirosos e manipuladores até na hora da morte. O filme de Tarantino tem tantos personagens quanto o de Ayer, a diferença é que todos vão revelando porque são escrotos e percebemos que estamos diante de gente ruim de verdade. Mesmo o protagonista é um dos mais sádicos, coisa que nem mesmo o Coringa ou capitão Bumerangue conseguem parecer no Esquadrão.

Resumindo, o roteiro de Esquadrão Suicida tem mais furos que os alvos do Pistoleiro e a boa seleção de músicas acaba sendo mal aproveitada. O álbum da trilha acaba deixando de fora a maioria dos clássicos do rock, ao passo que a trilha de Guardiões da Galáxia, só para efeito de comparação, teve uma melhor curadoria para manter em sua Awesome Mixtape Vol. 1 clássicos nostálgicos que nos ligam sentimentalmente ao filme e à história de Peter Quill e seu grupo. Quase como uma piada, o disco de Esquadrão fecha com a versão climática de “I Started a Joke”, música dos Bee Gees que deu o tom mais sombrio do primeiro trailer do filme, quando realmente parecia algo ameaçador. No entanto, é só um lembrete do que o filme poderia ter sido e essa música nem está no corte final.

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Músicas usadas no filme (na ordem em que aparecem):

“House Of The Rising Sun” — The Animals
“You Don’t Own Me” — Lesley Gore
“Sympathy For The Devil”— The Rolling Stones
“Standing In The Rain” — Action Bronson, Mark Ronson and Dan Auerbach
“Super Freak”— Rick James
“Purple Lamborghini” — Skrillex and Rick Ross
“Dirty Deeds Done Dirt Cheap” — AC/DC
“Slippin’ Into Darkness” — War
“Fortunate Son”— Creedence Clearwater Revival
“Black Skinhead”— Kanye West
“Gangsta” — Kehlani
“Over Here” — Rae Sremmurd feat. Bobo Swae
“Know Better” — Kevin Gates
“Paranoid” — Black Sabbath
“Seven Nation Army” — The White Stripes
“Without Me”—Eminem
“Spirit In The Sky” — Norman Greenbaum
“Come Baby Come”— K7
“I’d Rather Go Blind” — Etta James
“Symphony No. 3, Op. 36 “Symphony of Sorrowful Songs”: III. Lento – Cantabile semplice” — Henryk Górecki
“Bohemian Rhapsody” — Queen
“Heathens” — twenty one pilots
“Sucker For Pain” — Lil Wayne, Wiz Khalifa & Imagine Dragons with Logic and Ty Dolla $ign (Feat. X Ambassadors)

Batman V. Superman: A Origem da Justiça – a trilha sonora de Hans Zimmer e Junkie XL (2016)

Trilha épica reforça os maneirismos de Zimmer

Por Lucas Scaliza

Há uma diferença de tom considerável nos filmes da Disney/Marvel para com os filmes da Warner/DC. Na casa do Mickey dá-se mais espaço para o alívio cômico e uma visão de mundo que revolve em torno dos próprios super-heróis. O mundo é medido a partir deles e suas jornadas, de maneira mais leve e pueril. Se o mundo externo (e real) tem algum peso, é pouco visto na tela. Talvez Capitão América: Soldado Invernal tenha conseguido trazer uma discussão acerca das políticas de vigilância dos Estados Unidos, mas trazer o peso do mundo para as telas não é algo recorrente. Já nos estúdios Warner/DC os heróis são mais sérios, com maior peso moral e, apesar do gigantismo da presença desses seres com capas e habilidades especiais, o mundo em torno deles os molda e os afeta de maneira mais indelével. Esse retrato começou com a trilogia Batman, dirigida por Christopher Nolan, e continuou no Homem de Aço e em Batman V. Superman: A Origem da Justiça (Batman V. Superman: Dawn of Justice, 2016) dirigidos por Zack Snyder. Como os filmes da DC adotam um tom mais épico, a trilha sonora acompanha: os primeiros acordes da primeira música, “Beautiful Lie”, são trovejantes e sisudos. Reconhecemos o estilo do alemão Hans Zimmer de longe.

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Mas Zimmer não encarou essa tarefa sozinho. O filme tem mais de 2h20 e ganhará uma versão de 3 horas para blu-ray. Para conseguir compor mais de 1h30 de som, Junkie XL (o holandês Tom Holkenborg) foi chamado para o papel também. Junkie já trabalhou com Zimmer nas trilhas de Homem de Aço e O Cavaleiro das Trevas Ressurge, mas nos dois casos foi creditado como autor de música adicional. Vale lembrar que ele fez sozinho a incrível trilha de Mad Max: Estrada da Fúria (2015) e de Deadpool (2016), provando que, apesar de suas origens alternativas na música eletrônica, podia sim compor para blockbusters e para um público mais amplo. Agora ele responde pela trilha do filme de Zack Snyder em pé de igualdade com o veterano alemão.

Para Zimmer, foi difícil encontrar um tema para a Mulher Maravilha (Gal Gadot). Tinha que ser forte, marcante e feminino. Após várias tentativas frustradas, encontraram o som ideal para ela proveniente de um cello elétrico que rasga pelas trovejantes percussões e nos dá uma melodia acelerada, agressiva e tribal. A música da Mulher Maravilha aparece em “Is She With You”, um dos melhores temas de ação do filme. Já o tema para o Superman (Henry Cavill) reflete sua busca por humanidade, muito mais simples e comovente. E está bem representada na faixa “Day of The Dead”, de fato uma das melhores da trilha, mostrando que Zimmer tinha razão ao dedicar um pouco de tempo e imaginação à representação do Homem de Aço. Já o novo Batman (Ben Affleck) tem um tema épico, pesado e imponente que pode ser ouvido logo no início de “Beautiful Lie” e com diversas variações ao longo da trilha.

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A participação de Junkie XL é melhor sentida quando a orquestração abraça o eletrônico, levando novas sensações à trilha Zimmer. “Must There Be a Superman” é um épico e tanto. Começa com uma polifonia de vozes humanas que soam como almas atormentadas (recurso usado com maestria na trilha de A Bruxa). Logo em seguida, Junkie cria uma espécie de marcha que simula uma respiração ofegante e pesada. A canção segue crescendo, aglutinando sintetizadores e corais, confusa e atormentada, como é típico dele. Outra de suas participações mais interessantes está em “The Red Capes Are Coming”. Apesar de ser a faixa projetada para conter o tema de Lex Luthor (Jesse Eisenberg) – um tema mais clássico e puro, com violinos –, Holkenborg encaixa fraseados eletrônicos que simbolizam tanto a faceta tecnológica do personagem e sua empresa (LexCorp) quanto sublinham seu aparente desajuste mental. São nos últimos segundos da faixa entra o violino, revelando o tema de Luthor, marcando a passagem de batuta de Junkie para Zimmer. Já “Vigilante” é uma faixa que poderia muito bem figurar em um filme de terror. Uma legião de vozes contidas e espremidas pelos sussurros eletrônicos. E por fim, entra o tema do vigilante de Gotham.

No finalzinho de “Beautiful Lie”, primeira faixa da trilha, ouvimos um clarinete entoar três notas. Mistério, tensão e melancolia. Simples, mas é o tema do filme e vai se repetir várias vezes por outras faixas, como em “New Rules”, mas nunca de forma exagerada, sempre como uma citação sublinhando sonoramente em que reino estamos. Aliás, o tema pesado e percussivo do Batman também dá as caras em diversos momentos, mas não estende-se demais. Assim, seja qual for o personagem, nunca temos uma música tema para ele, mas sim um curto tema musical que surge episodicamente no contexto de outras situações, assim como a Warner/DC têm a preocupação de incluir os heróis em um mundo, e não fazer o mundo a partir da existência deles.

E assim como nas obras pregressas de Zimmer para filmes superheróicos (os três Batman de Nolan e Homem de Aço), não falta marcha militar, tambores de guerra e metais, muitos metais, soprando a materialidade e o peso tão marcante em suas composições. Se o filme da Warner/DC se diferencia dos filmes da Disney/Marvel por ser épico e grandiloquente, e se o filme retrata o herói mais poderoso do universo, capaz de acabar com o planeta se ele assim quiser, a trilha acompanha essa escala e tenta esmagar o ouvinte. É importante notar que a trilha sabe exatamente quando deve pesar a mão durante o filme. Ouvi-la separadamente, no entanto, dá uma impressão muito mais acachapante da experiência.

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Enquanto “Is She With You” é uma das trilhas mais legais de ação do disco (e uma das mais assobiáveis também), “Do You Bleed” e “Fire Night” são as mais diretas ao ponto, os grandes heavy metal sinfônicos do filme, cheias de percussão, corais e intervenções eletrônicas. E a épica “Men Are Still Good (Batman Suite)” é mastodôntica: 14 minutos percorrendo desde o violino que faz o tema de Lex Luthor até a passagem emocional de Superman, tema do Batman, tema de três notas no clarinete que se repetem ao longo do filme todo, e, nos minutos finais, um daqueles crescendos que almejam fazer o coração sair pela boca.

Além dos temas musicais, das referências aos quadrinhos e a outros filmes, da preocupação em retratar uma Terra onde existem seres que são deuses, um mundo pós 11 de setembro e ameaças globais, há um tema bastante delicado que se repete na narrativa: o papel do amor. Amor pela humanidade, por uma companheira e por uma mãe, sempre muito bem representado pela expressão “Ela é meu mundo” ou “Isso é meu mundo”. Zimmer e Holkenborg não perderam a chance de fazer uma música para esse tema narrativo. “This Is My World” é bastante sentimental do segundo ao terceiro ato, mas como estamos em uma produção de larga escala, onde o minimalismo tem pouco espaço, a primeira parte da canção traz uma orquestração bastante épica. Zimmer até deixa as cordas respirar, mas é uma preparação de terreno antes dos metais chegarem para potencializar a música, tornando-a digna de ser ouvida em uma catedral. Mas não se engane: apesar da grandiloquência, é uma música muito bonita, tocante como poucas vezes Zimmer se permite ser em filmes de ação. O tema de piano da música é recuperado depois em “Men Are Still Good”.

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Apesar das habilidades de Junkie XL e apesar de trabalhar bem junto do compositor alemão, a trilha sonora reforça os maneirismos de Zimmer. A dupla não reinventa e nem subverte a trilha de ação, mantendo tudo grandiloquente, o que acaba fazendo do filme uma obra musical um tanto barulhenta e pesada, mas que se conecta com o espírito e o tom da produção. Convenhamos que Batman V. Superman: A Origem da Justiça não é um filme de arte que pode se permitir a muitas soluções vanguardistas, já que precisa se manter dentro de um gosto popular mais geral. No entanto, conseguem fazer músicas que funcionam bem sozinhas e fazem sentido acompanhando o enredo. A escolha de temas que se repetem num contexto maior – ao invés de temas que são o próprio contexto de determinadas canções – é bem interessante, assim como as veias eletrônicas de Junkie correm vigorosas pelo corpo metálico dos sons planejados por Zimmer.

Mas se Batman V. Superman tem sido um desses filmes de polarizar opiniões, sua trilha sonora também sofrerá dessa divergência de opiniões e sensibilidades no tímpano. Não faltam pessoas que categorizariam a trilha como escandalosa. Não faltam também quem a defenderia, enxergando seu papel dentro do contexto da indústria. Não acho que seja uma questão de tomar lados, mas somente as assinaturas de Hans Zimmer e Tom Holkenborg são suficientes para se esperar algo épico e pesado. Contudo, todos os temas do filme são marcantes desde que você consiga notá-los.

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O Regresso (The Revenant) – a trilha sonora (2015)

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Música minimalista mistura o erudito e o eletrônico para acompanhar o drama de sobrevivência de DiCaprio na tela e de Ryuichi Sakamoto na vida real

Por Lucas Scaliza

Se for mesmo verdade que temos um ótimo filme diante de nós se ele for projetado mudo e ainda assim ele não perde a sua força, então O Regresso (The Revenant, 2015) é um dos melhores filmes que veremos nos últimos anos. Não é o mais arrebatador, o mais criativo ou revolucionário, nem mesmo o mais emocionante, mas com certeza poderia ser exibido sem sons que entenderíamos perfeitamente as motivações de seus personagens e o grau de dramaticidade de sua história.

Pode parecer um contrassenso dizer que o filme poderia não ter sons justamente em um texto que busca analisar sua trilha sonora, mas é verdade. Os diálogos de O Regresso servem para dar contexto sobre a geografia do oeste dos Estados Unidos durante o inverno, sobre quem é quem, quem é filho de quem e quem desconfia de quem, mas não é como em Os Oito Odiados (2015), em que cada fala, até mesmos as aparentemente mais prosaicas, revelam a força do filme e o fazem seguir adiante. Até mesmo a trilha sonora é tímida em 80% das vezes. Você quase não há percebe em meio às florestas ou campos tomados pelo gelo.

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O que abunda com ímpeto, elegância, sensibilidade artística e destreza técnica é de fato a fotografia do mexicano Emmanuel Luzbeki. As imagens que ele capta, o seu olhar para enquadramentos e para a luz é de tirar o fôlego. O diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, encontrou em Luzbeki um parceiro ciente das imagens que homens e natureza podem proporcionar e competente o suficiente para dar conta de filmar em lugares difíceis, sob condições difíceis, e realizando todos os planos-sequência que são a marca de Iñárritu. Cabe lembrar que Luzbeki também é responsável pela fotografia de filmes de Terrence Malick, sempre referências nesse campo. (Luzbeki ganhou o Oscar pela fotografia de Gravidade, de Alfonso Cuarón, e de Birdman, o filme anterior de Iñárritu).

Ainda que seja discreta a maior parte do tempo, a trilha é importante na produção. Assim como Os Oito Odiados, O Regresso é um western cuja música não é típica do gênero. Quem foi contratado para a tarefa foi o experiente compositor japonês Ryuichi Sakamoto, que congrega tanto o espírito clássico como o de vanguarda, com laivos de minimalismo também. Sakamoto venceu o Oscar de melhor trilha por O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci, e não trabalhava para uma produção de cinema americano desde 1992. Além disso, quando aceitou o convite do diretor, já estava travando uma batalha contra um câncer na garganta, da qual saiu vitorioso, mas teve dúvidas se conseguiria levar o trabalho até o fim. Por isso convocou o alemão Alva Noto (Carsten Nicolai) para lhe ajudar. A pedido de Iñárritu, o músico Bryce Dessner (guitarrista do The National, mas com formação clássica) também contribui.

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Em abril de 2015, Ryuichi Sakamoto voou até Los Angeles para se encontrar com o diretor. Naquela etapa da produção o filme já estava pronto e usava temp tracks feitas por Dessner, nome dado às músicas que servem de guia para o diretor durante a edição do filme, pontuando o clima e o humor de cada cena e depois substituídas pela trilha original. Alejandro G. Iñárritu não queria uma trilha orquestral comum e, caso fosse esse o objetivo, nem teria sentido contratar Sakamoto. O mexicano queria uma trilha que tivesse tanto o som acústico dos instrumentos quanto uma vibe mais sintetizada e esse intercâmbio sonoro é justamente o que Sakamoto e Alva Noto produzem conjuntamente desde 2002.

Sakamoto não tem um processo de composição para trilhas bem definido. Ele é muito intuitivo com sua música e diz que geralmente as primeiras impressões de como a música deverá se encaixar no filme são as certas. Assim, o tema principal do filme foi escrito logo no início do processo.

Praticamente não há bateria ou percussão para acompanhar as cenas da primeira metade do filme. Os personagens, em especial o vivido por Leonardo DiCaprio, precisam chegar do ponto A ao B antes que morram (os perigos são vários: ursos, indígenas, franceses, o frio, a fome, o medo). Embora seja um filme sobre mover-se pelo terreno, essa “marcha” não ganha acompanhamento de bateria ou percussão ritmados. E há muita tensão e pesar na música. Não é como a tensão ameaçadora de Os Oito Odiados, em que a ênfase nos acordes e nos intervalos de meio tom deixa clara a medida da maldade. É um tipo mais sutil de ameaça que temos aqui.

O volume é bem baixo em diversas faixas, fazendo com que a trilha realmente se integre ao cenário do filme como mais uma força da natureza. Sério, você quase não percebe a trilha agindo em diversos momentos. O sintetizador de Noto entra de forma tão minimalista que não se percebe facilmente a intervenção eletrônica na música de Sakamoto, como em “Discovering Bufallo” e “Church Dream”. Já em “Carrying Glass” as ondas sintetizadas ganham todo o protagonismo. Na bela e atmosférica “Hawk Punished”, composição de Noto e Dessner, o ruído ganha espaço em meio a sintetizadores, criando um dos únicos momentos de em que o som torna-se estridente. “Imagining Bufallo” é apenas de Dessner. Você só percebe que há um sintetizador fazendo boa parte da faixa conforme suas camadas ganham volume.

Nada a se estranhar nessa mistura de erudito e eletrônico: Sakamoto é um compositor que estudou piano clássico, harmonia e contraponto, mas já na década de 1970 entrou para um grupo de vanguarda chamado Yellow Magic Orchestra, fazendo música eletrônica. Na virada do milênio, se uniu diversas vezes a Alva Noto para produzir música minimalista: o japonês toca piano clássico enquanto o alemão contribui com ondas sonoras, e há economia de notas em todos os discos lançados pela dupla. Então é natural que ele(s) saiba(m) mesclar muito bem suas partes e balanceá-las.

Ryuichi e Alva Noto não compuseram juntos. Diversos trechos foram trabalhados independentes um do outro e depois reunidos em uma mesma música. Outras faixas dependeram da troca de arquivos entre eles para cada um saber para onde o outro estava levando a composição. Dessner sabia o que Sakamoto estava fazendo, mas compôs suas partes de forma independente também. Quando a música fica mais alta e mais forte, com contornos mais materiais e menos abstratos ou etéreos, desconfie que sejam músicas de Dessner. Sua orquestração em “Looking For Glass” e “Final Fight” dão uma cara mais convencional à trilha. Já “Cat & Mouse” é tão vasta que congrega as seis mãos de uma só vez: o abstrato do japonês, os sintetizadores e ruídos do alemão e as orquestrações do americano, que encaixa até uma percussão.

Há melodia também. “The Revenant Theme 2” surge como uma das faixas com melodia mais destacável do álbum, com cellos pesarosos e um piano marcando o tempo e a harmonia. Em “Goodbye to Hawk” temos a escolha de uma flauta para descrever um tema lamurioso para um personagem meio-índio. “Out of Horse” também mostra a mão de Sakamoto para o trágico, faixa em que provavelmente toda a melodia foi criada com um antigo sintetizado do compositor e que o próprio Iñárritu pediu que ele usasse novamente. Em “Revenant Main Theme Atmospheric” percebe-se os traços estilísticos de Sakamoto e seu piano, bem como a melodia mais “japonesa” da trilha. E “Final Fight” é a maior contribuição de Bryce Dessner ao projeto. Sakamoto não gosta de compor coisas explosivas e não é bom com cenas de ação. Mas Dessner é. O músico até coloca uma bateria trovejante para acompanhar a tensão do embate entre o personagem de DiCaprio e o de Tom Hardy.

THE REVENANT, Leonardo DiCaprio, 2015. TM and Copyright ©20th Century Fox Film Corp. All rights

O Regresso, de várias maneiras, é um filme com formato mais clássico do que a produção anterior do diretor, o oscarizado Birdman (2014). Birdman dificilmente poderia ser convertido em filme mudo e preservado todo o seu potencial. Feito para parecer um longo plano sequência, com apenas um corte, era um filme que dependia muito dos atores, do diretor e da câmera de Luzbeki para funcionar. A trilha sonora era nada convencional também, consistindo apenas de trilhas de bateria gravadas pelo jazzista Antonio Sánchez, pontuando o desassossego mental do protagonista. O novo filme também tem pretensões de grandeza, mas diferentes.

O que move Hugh Glass (DiCaprio) é a vingança, mas antes ele precisa sobreviver. Há muito sangue, mas nem sempre resultado de um confronto direto. Aliás, a maior batalha acontece logo nos primeiros minutos. É um filme de contemplação e meditação. Por isso a trilha lhe cai muito bem.

Aos 63 anos e lutando contra o câncer, Ryuichi Sakamoto foi pessoalmente reger a Northwest Sinfonia, em Seattle, que deu vida às suas partituras. o combate ao câncer foi o momento em que Ryuichi Sakamoto mais se sentiu perto da morte, e essa sensação influenciou sua produção musical. “O passo dessa música, o tema, é baseado na minha respiração: pesada e longa, talvez um pouco triste também”, diz o compositor, que venceu o câncer. “Esse é o sentido de O Regresso: uma volta dos mortos”.

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