country

Chris Stapleton – From A Room: Volume 1 (2017)

Um disco emocionante, forte, energético e gostoso

Por Gabriel Sacramento

Se você acompanhou o cenário da música e das premiações em 2015, sabe que o disco do Chris Stapleton foi um dos mais reconhecidos. O cara ganhou Grammy, Billboard Music Awards, Country Music Association Awards e outros com o disco Traveller, sendo um dos artistas mais comentados daquele ano. Tudo isso é impressionante para qualquer álbum de qualquer artista, mas no caso de Stapleton, o efeito foi ampliado, já que era seu primeiro trabalho.

Em seu novo disco, From A Room: Volume 1, Stapleton trabalhou novamente com o produtor Dave Cobb e nos trouxe uma série de ótimas canções, de novo. Se Traveller tinha uma sonoridade que parecia ao vivo, como se o músico estivesse se apresentando bem na sua frente, From a Room… soa um pouco mais dentro do estúdio. E a mix é mais polida também. Mas nada disso tira o brilho e a energia das faixas, intrínsecas ao estilo do compositor de Nashville.

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“Broken Halos” é uma música simples, bem voltada ao country, fácil de assimilar e ótima para começar o disco. “Last Thing I Needed, First Thing This Morning” deixa evidente a ótima timbragem da guitarra principal, um dos destaques do disco, tocada pelo próprio Stapleton. Além disso, é uma balada tocante e poderosa. Em “Second One To Know”, Chris chama a sua guitarra para a frente, numa faixa mais roqueira conduzida por um riff forte. A voz do cantor se encaixa tão bem aqui quanto nas faixas mais emocionais.

Em Traveller tínhamos uma balada chave que partia nossos corações (“Sometimes I Cry”). Dessa vez temos “I Was Wrong”, outra das ótimas baladas, cortante e precisa, com a potência vocal e o ótimo timbre jogando a favor do cantor. “Death Row” chega mais perto do blues, com típicos fills de guitarra um pouco mais distorcida intermitentemente vindo à luz. “Up To No Good Livin'” é a mais caipira do álbum, com direito à slide e backing-vocal feminino e todo o sotaque sulista de Stapleton deixando as referências bem claras.

Compositor de longa data, cooperador de diversos artistas famosos (Adele, Luke Bryan, Peter Frampton), Stapleton deu o primeiro passo em 2015 para uma carreira solo. O debut foi um sucesso e o segundo prova que o artista está sabendo firmar bem seus passos na longa caminhada da estrada da música. O grande destaque da musicalidade do cantor é a sua capacidade de misturar detalhes de estilos diferentes – southern rock, country, bluegrass, soul, blues -, demonstrando total domínio de tudo que insere nos discos. É difícil rotular o que ele faz, até porque sua música não possui pretensão de ficar enclausurada em rótulos, mas visa ser uma expressão pessoal, sincera e singular.

Chegando sem medo no cenário do country – cenário que já teve nomes como Taylor Swift e que hoje conta com nomes como Sturgill Simpson, Blake Shelton e Eric Church -, Stapleton se diferencia dos demais, tanto pelo jeito como coloca sua guitarra nas faixas, flertando com o rock, quanto pela forma de dar vida às letras, com interpretações envolventes, que são capazes de fazer até um robô derramar lágrimas de emoção. É bem provável que o feito do primeiro disco, no que diz respeito às premiações, não se repita. Mas a qualidade do primeiro álbum foi repetida e ouvir tanto um quanto o outro é uma experiência igualmente maravilhosa.

E mais uma vez Dave Cobb conseguiu um ótimo resultado. O produtor, que tem sido também o mentor do Rival Sons na carreira bem-sucedida do grupo, tem se mostrado bastante competente nos trabalhos em que se envolve. Todo seu conhecimento e experiência com músicos e bandas de rock ajudou Chris Stapleton a orientar esse seu lado e buscar evidenciá-lo sem soar exagerado. Além disso, a impressão que se tem é que Cobb soube muito bem aproveitar os pontos fortes do cantor, para gerar uma fórmula sonora infalível.

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Me And That Man – Songs of Love And Death (2017)

Blues, country e folk sombrio que coloca vampiros para dançar e demônios para dormir

Por Lucas Scaliza

Às vezes os pesos pesados dão uma pausa e aproveitam a vida para pegar leve. Assim, apreciam um outro lado de suas próprias naturezas. Pense em Ozzy Osbourne que deixou de ser conhecido pela sua música por um tempo para virar estrela de reality show. Ou pense em O. J. Simpson que… bem, acho que esse deixou de pegar pesado nos campos de futebol para pegar ainda mais pesado no que deveria ser sua vida “cotidiana”.

Algo assim – dar uma pausa, não cometer crimes e nem virar estrela da TV – aconteceu com Adam “Nergal” Darski, o vocalista da grande banda polonesa de black metal Behemoth, após ouvir o excelente Blues Funeral (2012) de Mark Lanegan. A mistura de blues, southern rock, folk e eletrônica, combinado à voz grave do ex-vocalista do Screaming Trees, inspirou Nergal a apostar em um tipo de música parecido. E Nergal, que fez uma turnê vitoriosa com o Behemoth tocando The Satanist [2014] na íntegra, sentiu prazer em trocar as flying Vs com afinação baixa por semiacústicas em que cada acorde Ré resplandece sem precisar de toneladas de distorção.

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Para dar corpo ao projeto paralelo Me And That Man, Nergal invocou o poeta parte britânico, parte polonês John Porter, que divide com ele as funções de cantor e guitarrista. Todas as canções de Songs Of Love And Death baseiam-se em acordes simples e levadas bem manjadas, porém muito funcionais dentro da proposta bluseira, country e folk da dupla. E não espere encontrar uma cópia de Mark Lanegan, mas sim uma mistura de Johnny Cash com Nick Cave, Leonard Cohen e Wovenhand.

O que há de mais singular no disco é que, apesar do formato mais leve em som do que o black metal gutural da banda principal de Nergal, a visão de mundo que ele e Porter expressam nas letras de Songs Of Love And Death são sombrias e pesadas o suficiente para arrepiar os cristãos, judeus, islâmicos e nova-eras mais cabeças fechadas. O disco já abre com uma das melhores do álbum, “My Church Is Black”, em que além de dizer que “minha igreja é preta”, que “nenhum reino [de Deus] está vindo”,  diz também que “o inferno é minha casa” com a maior naturalidade possível debaixo de um ressoante strum em Mi maior. Na lenta e western “Cross My Heart and Hope To Die” ele encarna um personagem (será?) que deixa claro que é um grande caso de bad news. Para o final, deixa que um coral de crianças cantem versos fofos: “Não viemos pelo perdão/ Não oramos pelos nossos pecados/ Traímos nossos querido Jesus/ Escolhemos o inferno na terra”.

Nergal e Porter continuam trazendo sua visão de mundo dark no restante do álbum, como na roqueira “Better The Devil I Know” e na agitada “Love & Death”. Enquanto o líder do Behemoth toma para si o protagonismo nas faixas mais pesadas, que muito lembram diversas fases do Nick Cave, Porter encarna o Johnny Cash em “Nightride”, “On The Road” e “One Day” e outras. As faixas em que Porter toma mais o vocal são mais luminosas e mais cativantes que as de Nergal, que são muito mais escuras, mas não se deixe enganar: se Nergal é o príncipe das trevas, Porter é guardião do livro das trevas.

Tentando preservar as características do blues rock e deixá-las o mais western possível, a dupla opta por um estilo limpo e acessível, bebendo também na fonte do storytelling das murder balads. Um bom disco para assustar os mais conservadores, capaz de colocar vampiros para dançar e embalar o sono de jovens demônios.

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Little Big Town – The Breaker (2017)

Quarteto volta a gravar com Jay Joyce e faz som cheio de boas referências, maduro e consistente

Por Gabriel Sacramento

Nos últimos anos, vimos bons exemplos de country pop (como o Eric Church), vimos maus exemplos (como o Keith Urban) e até vimos um novato no gênero chegando com gás e fazendo um bom trabalho (Steven Tyler). A verdade é que chegar no terreno conquistado pelo Garth Brooks para tentar fazer sucesso não é fácil. A probabilidade de se vender e acabar diluindo o som com saídas fáceis é muito grande.

O grande parceiro de Eric Church é Jay Joyce. Produtor renomado na cena de Nashville, Joyce também trabalhou com Carrie Underwood e no último álbum de Zac Brown Band. Além disso, ele vem cooperando com um grupo que impressiona com seus lançamentos e suas buscas por diferentes nuances e identidades: É o Little Big Town. Grupo americano formado por dois cantores e duas cantoras, que começou a carreira lá em 2002, com um country pop romântico, que evoluiu para um country pop roqueiro e flamejante no seu disco de 2014, Pain Killer. A evolução do grupo se deu em grande parte por causa da boa parceria com Jay Joyce. O produtor foi decisivo para mostrar uma veia roqueira que o grupo possuía, bem como dar apoio a jogadas mais ousadas, mas ainda mantendo o som acessível.

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Depois de Pain Killer, a banda ainda passou por uma fase instável: Em 2016, trabalharam com Pharrel Williams e Justin Timberlake em um álbum que contrasta com o anterior: colorido, pop, pouco country e até dançante. A fase acabou logo e o grupo voltou ao country em The Breaker, assim como voltou para Jay Joyce. Essa busca de identidade da banda, passando por diferentes tipos de sons, acabou enriquecendo a obra e mostrando versatilidade, além de serem bons ao trabalharem com diferentes produtores.

“Happy People” traz um frescor meio folk, junto com os trejeitos country sulistas, reconhecíveis na primeira audição. “Night On Our Side” é encharcada de harmonias vocais apaixonadas. A faixa representa um alívio em relação ao bucolismo da primeira. “Driving Around” mostra um acento roqueiro bem dosado, com efeitos bem futurísticos nos vocais. “Better Man” – escrita pela Taylor Swift – e “Don’t Die Young, Don’t Get Old” são bons exemplos de baladas country pop, feitas para as rádios. “Rollin'” tem uma veia roqueira e alternativa, mostrando que a banda se dá bem passeando por diversos caminhos diferentes. A canção é irresistível e Jay Joyce sabe conduzir bem as vozes para que tudo soe bem encaixado e mantenha o aspecto roqueiro. Já “Free” é uma balada envolta por uma base bem atmosférica e imaginativa.

O novo álbum do Little Big Town deixa claro que a banda não precisa de muito esforço para evidenciar suas diversas facetas. Deixa claro também que a experiência os deixou ainda mais sábios e cuidadosos com seu som e musicalidade. Junto do produtor Jay Joyce, a banda avança na carreira, com um disco maduro e consistente. Ou seja, se precisa de motivos para ouvir o grupo e ser cativado pelo som deles, você os tem de sobra em The Breaker.

Seja pelos timbres diferentes – como a bateria pesada em “Lost in California”, os instrumentos cheios em “Free” e os timbres secos e rurais de “Happy People” – ou pela capacidade de tornar tudo audível e marcante pelas suas próprias características, a produção de Joyce acertou em cheio. O grupo também parece ciente de quem é, depois de todos esses anos, e busca impor isso de forma saudável com seu disco. Eles tem a lógica e também uma espécie de retórica sonora, pois convencem com muita facilidade.

The Breaker não é ousado, nem pretensioso. Mostra a banda se apegando ao seu porto seguro, sem se arriscar demais. Mas ainda assim é aquele mix de referências e detalhes guiado por um desejo de diversificar e expor as influências que formam o vocabulário musical dos quatro membros. Ouça e se deixe levar.

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Lady Gaga – Joanne (2016)

A Lady Gaga de Joanne é a Gaga que se despe dos excessos

Por Lucas Scaliza

Houve um tempo em que cada passo de Lady Gaga virava notícia. Parecia que tínhamos uma nova rainha no pop, mesmo sem termos deposto a rainha anterior. Mas como o show business é cheio de traições e tem certa ojeriza pela ousadia musical (ouse o quanto quiser nas roupas, não vista nada ou cubra-se com carne, mas não faça música difícil de engolir), Gaga foi jogada de escanteio após Artpop (2013) não render o que ela almejava.

Aos poucos, Gaga voltou aos holofotes e ao centro do pop, um passo de cada vez. Seu bom álbum de jazz, Cheek To Cheek (2014), com Tony Bennet, passou batido pelos fãs de outrora, mas chamou a atenção de quem queria mais sua voz e a interpretação madura do que figurinos e danças escalafobéticas. Participou também da quinta temporada da série American Horror Story e ganhou um prêmio – muito merecido! – por sua interpretação. Sem falar em aparição no Oscar 2016 interpretando sua música “Til It Happens To You” e fazendo um tributo de cair o queixo à The Sound Of Music.

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Foto: Collier Schorr/Billboard

O que ela aprendeu é que às vezes é interessante dar um passo para trás para poder dar dois para a frente. Joanne, seu novo disco solo e sexto da carreira, é o mais convencional e o que aposta em um estilo de composição bastante clássico e padronizado. Antes, ela tinha poder pop aliado às bizarrices de clipes, figurinos e shows em The Fame Monster (2009) e Born This Way (2011). O lado musical forçou a barra e atingiu pretensões muito maiores em Artpop, mas ela acabou ficando complicada demais para seu público, artsy demais para quem queria apenas uma Gaga para se divertir, não para observar na sala de casa como se fosse uma instalação artística contemporânea.

Joanne afasta tudo isso de Gaga e deixa apenas sua bela voz e uma produção mais orgânica e muito fácil para qualquer um apreciar. Sua performance está longe de ser ousada, mas ela interpreta muito bem cada uma das canções. É um disco mais curto que os anteriores também, mas isso é bom, pois acaba destacando cada faixa em seu próprio universo. Interessante notar como Joanne é sensato em sua produção. Muito diferente de Artpop e Born This Way, o time de produtores que acompanham a cantora – Mark Ronson (que fez o melhor disco da Amy Winehouse), Kevin Parker (do Tame Impala) e BloodPop (que produziu sucessos lá do 2º disco) – souberam extrair o melhor dela sem que fosse necessário preencher o álbum com músicas cheias de som. Isso acaba até nos pegando de surpresa, pois músicas como “Angel Down”, a folk “Joanne” e a balada “Million Reasons” são quase espartanas: usam apenas os elementos necessários e todos com muita sabedoria, sem em nenhum momento pender para o exagero ou para a superprodução.

A Lady Gaga de Joanne é a Gaga que se despe dos excessos, afinal.

“Hey Girl”, com participação de Florence Welch, do Florence + The Machine, é uma típica produção de Mark Ronson, prezando pelo passo comedido e apostando na interação melódica das duas vozes – que funcionam maravilhosamente bem juntas. “Sinner’s Prayer”, com uma veia mais western, é outro dos bons momentos do disco e a composição tem a mão de Father John Misty. Nada de bate-estaca e nem de sintetizadores oitentistas. É um pop-country com violão, dedilhado e direito a subir o tom no refrão final. “John Wayne” – música sobre se relacionar com homens mesmo sabendo que os John Waynes da vida são uma cilada – também não se entrega à ansiedade e mantém um andamento médio totalmente ditado pelo baixo. A guitarra de Josh Homme (Queens Of The Stone Age e Eagles Of Death Metal) também dá as caras aqui e faz um solo bastante processado por pedais e filtros digitais.

“Dancin’ In Circles” também não é apressada. Para uma artista que fazia as pistas e até prezava por uma certa pressão no ritmo, Gaga está mostrando que a música importa mais dessa vez. Embora não seja uma escolha óbvia para esta finalidade, “Dancin’ In Circles” tem o poder de fazer seu corpo mexer com seu ritmo caliente. Beck, aquele cantor indie, é um dos compositores da faixa. E então temos “Perfect Illusion”, que é a faixa mais cheia de som e mais ansiosa de Joanne, a música que denunciou a referência à Madonna dos anos 80 que, de certa forma, está presente em Joanne como um todo. É também a única faixa em que Parker participa como compositor e coprodutor. “Diamond Heart” também está entre as faixas poderosas do álbum e com produção mais sintética (além de mais uma participação da guitarra de Homme). Mesmo assim, ela conseguiu não transformar a faixa em um pastiche e entrega uma performance vocal bastante vistosa. “A-YO” é divertida e confia totalmente em suas batidas, no baixo e nos sopros do refrão, além de mais uma guitarrinha excêntrica para completar o arranjo. Ou seja, tem Mark Ronson pra caramba na música.

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“Come To Mama”, também composta em parte por Father John Misty, é uma das canções com jeitinho mais retrô de Joanne e, apesar de ser bastante convencional, é um dos momentos em que fica claro como Gaga pode, se quiser, transformar coisas simples em extraordinárias. Uma música que desce fácil, quase cafona, mas que é um hino à união do público LGBT, público este que é muito importante para Gaga e sempre a apoiou. Se ela queria apostar em classic songwriting, conseguiu.

Para ser bem claro e bem sincero, Joanne é uma mudança de rumos que Lady Gaga precisava não para se provar ou para continuar a fazer coisas diferentes. É o que ela precisava para conquistar novamente o público. O grande problema de Artpop, sua derrapada, foi achar que o público entenderia sua pretensão artística quando, claramente, queriam apenas algo que conversasse com eles sem forçar a barra. Afinal, por mais que estimem as qualidades e ousadias de Gaga, seu público não espera (e nem quer) que ela vire um Greatful Dead ou lance seu equivalente de Pet Sounds, dos Beach Boys. Por isso, Joanne é seu disco mais simples, mais despojado, menos pretensioso e que agrada uma larga faixa de público sem nunca, em nenhuma de suas 11 faixas, exigir grande esforço do ouvinte.

A certeza que o álbum nos traz é que Gaga não é um talento passageiro, nem mais uma voz qualquer no pop. Ela só precisa saber maneirar. E Mark Ronson, que fez Amy Winehouse ser celebrada e continuará a ser lembrada após sua morte, vai se confirmando como um produtor dotado de bom senso e visão musical comercial suficiente para por nos eixos mais uma carreira. Ele merece os créditos pelo que Joanne tem de interessante e de cafona, tanto quanto Stefani Joanne Angelina Germanotta.

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Van Morrison – Keep Me Singing (2016)

Cantor irlandês se esforça para se manter relevante

Por Gabriel Sacramento

Disco novo do Van Morrison não é nenhuma surpresa – só nos últimos 10 anos, o cara lançou cerca de quatro álbuns, sendo que o último deles, em 2015, foi uma regravação do seu próprio material, em duetos. Disco novo em que o irlandês aborda um caldeirão de estilos e os conecta de uma forma singular também não é surpresa. Morrison já fez isso em muitos álbuns, fazendo com que rotular seu som seja uma tarefa complicada. Sobretudo, o diferencial dele é não soar confuso com a mistura, mas fazer isso de uma forma muito natural.

Keep Me Singing é o 36º da carreira e mostra que ele não vai parar tão cedo.

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Mesmo lançando muitos álbuns, Morrison não possui pressa nenhuma para mostrar novas ideias ou algo muito diferente do que ele já mostrou. Depois de tanta coisa, do místico ao jazzístico, consagrando o seu jeito irlandês de fazer soul e blues, o cantor parece descansar e agora compor dentro de um universo restrito (ainda que seja um universo vasto se comparado a outros artistas).

Se em Pay The Devil (2006) Morrison focou no country, nos seus dois últimos de inéditas – Keep It Simple (2007) e Born To Sing: No Plan B (2012) –, ele trouxe as suas variadas influências, como de costume. Keep Me Singing pode ser encarado como uma boa extensão dos dois últimos.

Sem pressa e com a idade avançada, Morrison apresenta um disco elegante e leve. Temos faixas mais voltadas ao soul (“Every Time I See a River” e “Keep Me Singing”), outras mais jazz easy-listening (“Out in The Cold Again”, “Memory Lane” e “Look Behind The Hill”), canções com acento country (“Too Late”), blues escancarado (“Going Down To Bangor”) e swing festivo e solene (“Caledonia Swing”).

A única faixa que não foi composta por Van Morrison é “Share Your Love With Me”, que ficou famosa na voz de Aretha Franklin. A canção foi gravada para um tributo a Bobby Bland. Como o disco nunca aconteceu, o irlandês decidiu colocar a sua versão da faixa no álbum.

O estilo dele é resultado de muitos estilos diferentes condensados e unidos por sua voz singular. Em Keep Me Singing, Morrison alcança um resultado satisfatório, com uma sonoridade que agrada por ser sincera, simples e direta, sem rodeios.

Não é sensacional ou um grande destaque em sua carreira, mas também não é, de maneira alguma, decepcionante. Vale muito a audição. É um disco gostoso de ouvir e representa um momento inspirado do cantor. Como sugere seu título, este é mais um esforço de Van Morrison para continuar cantando e se mantendo relevante.

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Steven Tyler – We’re All Somebody From Somewhere (2016)

Disco solo do vocalista do Aerosmith apresenta uma faceta do cantor até então pouco explorada

Por Gabriel Sacramento

O americano Steven Tyler é uma das figuras mais emblemáticas da história do rock. Disso, poucos duvidam. Mas quando em 2015 anunciou que lançaria um álbum solo country, Tyler surpreendeu muita gente – e desagradou a outros. Mesmo assim, ele seguiu em frente com o projeto e aproveitou a sua fama para conseguir um contrato com a gravadora Big Machine Label Group – considerada uma das maiores gravadoras do country. Tyler também se mudou para a capital do gênero, Nashville, e se uniu a famosos músicos da região para composição e produção do álbum.

A ideia foi um tanto perigosa: não é todo mundo que depois de anos de carreira em um gênero, se aventura do nada aos 68 anos para outro estilo musical. Mas Tyler quis expressar o que sente e isso o motivou a escrever novas canções. Seu primeiro álbum solo ganhou o nome de We’re All Somebody From Somewhere.

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Foto: Gregory Shamus/Getty Images

Embora tenha sido composto calcado no country, o disco possui pontas de outros estilos. “My Own Worst Enemy” abre é a balada confessional cheia de feeling e com uma performance vocal digna de nota que abre o trabalho. Tyler consegue ser ele mesmo, com o drive e as notas altas, ao mesmo tempo em que canta uma balada country que termina com um solo bem rock’n’roll. A esquisita “Hold On (Won’t Let Go)” traz um toque de psicodelia ao repertório, mostrando que Tyler soube diversificar as coisas. Os efeitos e o experimentalismo dosado me lembram algumas ideias que Jeff Beck explorou em seu último álbum solo, Loud Hailer.

Temos uma série de baladas amorosas como “It Ain’t Easy”, “Love Is Your Name” e “What Am I Doin’ Right”. Uma série de canções country pop que farão Luke Bryan e Eric Church se incomodarem com mais um concorrente no topo das paradas, como “Red, White and You” e “Sweet Lousiana”. Ainda tem um cover do Aerosmith de “Janie’s Got A Gun” (com o instrumental tocado pelos caras do Stone Temple Pilots) e “Piece of My Heart”, que ficou conhecida na voz da Janis Joplin. Destaco a interpretação do vocalista nestas duas faixas.

A ideia era ousada e Tyler embarcou com empenho para obter bons resultados. E ele conseguiu. O disco traz o velho Steven Tyler que todos conhecem e gostam, com seus trejeitos, seu estilo vocal e um pouco da loucura que estamos acostumados a ver e ouvir. Embora a impressão da sua personalidade roqueira seja mais dosada (afinal, o foco de We’re All Somebody From Somewhere não foi esse”, Tyler consegue manter sua personalidade vocal mesmo quando nos apresenta novas canções diferentes e variadas.

Muita gente criticou o álbum por querer agradar o público country e ao mesmo tempo o público do Aerosmith. Na verdade, Tyler fez a jogada mais inteligente que podia. Seria arriscado demais para ele se afastar completamente das suas influências roqueiras e das características de sua banda que já impregnam suas cordas vocais. Por isso, ele faz algo novo ao mesmo tempo em que louva o passado com algumas referências ao som mais roqueiro.

É bom lembrar também que o próprio Aerosmith fez um disco inteirinho de covers de blues chamado Honkin’ On Bobo (2004) e, na época, a gravadora achava que o grupo deveria continuar com seu rock habitual. Como a banda bateu o pé e seguiu em frente com a ideia, a gravadora anunciou que se afastaria do projeto, lançariam o álbum, mas não investiriam nele. Ao chegar ao mercado, o resultado de vendas do álbum foi excelente e a gravadora voltou atrás. Parece que o público entendeu que o Aerosmith sempre fora uma banda blueseira desde sempre. A gravadora é que não tinha entendido.

O que alguns críticos e fãs chamaram de falta de personalidade pode ser entendido como uma impressão de uma outra faceta do cantor que até então tinha sido pouco explorada. É pop country, com melodias acessíveis e fáceis de serem cantadas, aliado à veia roqueira, que fica mais evidente com os drives e com a agressividade vocal de alguns momentos.

We’re All Somebody From Somewhere é um bom álbum que possui suas virtudes na variedade e na diversidade que tenta apresentar. Depois de tantos anos de carreira e de estrada, Tyler meio que quer apresentar um pouco de cada coisa que aprendeu na vida, construindo um conjunto com as diferentes partes que compõem sua experiência no mundo da música.

Além disso, é legal ouvir a voz do cantor americano usada em novas e interessantes ideias, diferentes do que ele já produziu.

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Keith Urban – Ripcord (2016)

Pop fácil, inofensivo e embaladinho

Por Gabriel Sacramento

Desde que casou com Nicole Kidman em 2006, o cantor Keith Urban vem se tornando uma celebridade pop, bem mais em voga do que antes. Como é de se supor, sua música acompanhou essa crescente fama e popularidade, se tornando cada vez mais pop e deixando de lado aquele molho country que outrora temperava seus álbuns.

Com o passar dos anos, o country foi ficando cada vez mais diluído na sonoridade do australiano. Hoje, temos o cantor em uma tentativa de soar mais pop, mais acessível, mesmo que continue sendo considerado por muitos como artista country.

American Idol XV (2016 tv) - Keith Urban

Foto de Michael Becker

Seu novo trabalho, Ripcord, foi gravado em Hollywood, o que confirma ainda mais a grandiloquência pop na qual Keith está envolvido. Outra característica típica de música popular é a presença de diversos nomes famosos como Carrie Underwood, Nile Rodgers e Pitbull. A produção e a mixagem também envolvem vários nomes.

Bem, vamos às faixas. “Gone Tomorrow (Here Today)” abre com um banjo onipresente, executado pelo próprio Keith Urban. Segue ideias bem padronizadas, sem muitas surpresas pelo meio do caminho. “John Cougar, John Deere, John 3:16” e “Wasted Time” também não surpreendem, muito parecidas com músicas de country pop que já ouvimos em outros álbuns, com melodias comuns e arranjos básicos. Já “Habit of You” parece algo do Nick Jonas.

Em “Sun Don’t Let Me Down”, Urban chamou o fantástico Nile Rodgers para ajudá-lo. Porém, como a canção é diferente do mundo de Rodgers, sua participação acaba sendo bem tímida. A faixa também possui um rap do Pitbull. “Blue Ain’t Your Color” é inocente e adolescente, nem parece estar sendo cantada por um cara de 48 anos. A participação de Carrie Underwood em “The Fighter” só contribui com a sonoridade pop jovial – e padrão –, com um duo pergunta-resposta no refrão.

O novo disco de Keith Urban é totalmente pop. E o pop do cantor é inofensivo, padrão, easy listening e embaladinho. O disco é embalado no formato típico e seguindo os parâmetros da música pop comum. Não é um disco que irá te surpreender ou te deixar maravilhado. O objetivo de Urban é soar pop, mesmo que isso signifique abrir mão da identidade ou de uma marca pessoal mais significativa.

Se a falta de personalidade é um convite ao ouvinte para entender melhor quem é Urban e isso configura um problema, a falta de ousadia configura outro. O australiano investe em bases simples, sem muitos elementos que tornem os arranjos preciosos. Há simplesmente o necessário para fazer a “cama” para seus vocais. Em si, não é um demérito. Mas a simplicidade se transforma em monotonia, indo em sentido contrário ao dinamismo musical. Assumir riscos tornaria as coisas mais quentes no álbum.

Como consequência, a música do cantor soa comum demais. Os andamentos, arranjos e os direcionamentos musicais pelos quais o disco passeia são bem conhecidos e nos dão a sensação de previsibilidade. Ao seguir as regras de forma tão obediente, o músico acabou suprimindo um pouco a liberdade que guia a criatividade e que gera destaque à música.

Embora seja fraco musicalmente e pouco marcante, o disco preenche bem as lacunas da música country pop atual. Daí vem o sucesso do cantor e seu reconhecimento na cena. Seu som emula o desejo de muitos outros cantores do estilo que vem se rendendo ao pop cada vez mais em detrimento do country. Devido ao seu sucesso também fora da música, Keith pode ser visto como um grande representante (comercial) desse cenário musical. Há que se lembrar que Taylor Swift é uma das maiores estrelas da música atualmente, uma das que mais vende discos e das mais cobiçadas, e também veio do country, largando o estilo somente em 2014 para assumir de vez o pop. Deu no que deu.

A tendência é que Urban continue produzindo álbuns pop inofensivos como este. Não é de hoje que a carreira do cantor vem se tornando alvo de clichês. Desde quando o cantor começou a se tornar uma figura pública e seu nome passou a ter como referência a atriz famosíssima de Hollywood, sua música tem sofrido com a grandiloquência e com o sucesso exacerbado. Isso é tudo o que Ripcord é. Um disco superpop de uma celebridade famosa.

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