dream pop

JFDR – Brazil (2017)

Islandesa faz belo disco íntimo preferindo a tessitura e o feeling ao invés da extensão

Por Lucas Scaliza

“White Sun”, que abre Brazil, deixa entrever que tipo de artista é a islandesa JFDR. O compasso é 2/4 e ao invés de usar os ciclos de quatro compassos para formar uma frase, ela usa um padrão de cinco (caso curta Radiohead, você ouviu esse padrão de cinco nos versos de “Reckoner”), cada acorde bem marcado pela nota cabeça do teclado. O ritmo é marcada por microbatidas. Há um dedilhado de guitarra tímido, que só toma o holofote nos últimos segundos da canção. A melodia parte de notas altas e vai ficando cada vez mais grave conforme se aproxima do fim de cada ciclo. É um mantra, mas um mantra difícil de repetir. A voz da cantora é frágil, um sussurro. O que se percebe é que há uma personalidade ali que pode sim refutar alguns padrões, que se preocupa em criar a atmosfera correta para o trabalho e não tem ansiedade em disparar hits ou faixas comercialmente mais adequadas para o ouvinte. E a produção é excelente, mesclando dream pop com música abstrata e eletrônica sem parecer atropelada. Há algo de estranho? Há, mas não perde o toque de veludo.

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JFDR é uma simplificação de seu nome, Jófríður Ákadóttir. Aos 14 anos, ela fundou a banda Pascal Pinon junto da irmã gêmea e o grupo já tem quatro discos lançados. Ela também é a voz do grupo eletrônico islandês Samaris e já colaborou com as bandas Gangly e Low Roar. Além da voz, pode contar com algumas habilidades no clarinete, teclado, violão e guitarra. Desde 2015 se dedica à carreira solo e já chamou a atenção de Björk, nada mais, nada menos que a principal embaixadora da música da Islândia. Tudo isso com apenas 22 anos de idade. Brazil fez dela um talento a se observar em 2017.

Em seu primeiro voo solo, JFDR parece evocar algum tempo de elo entre passado e presente de Björk, entre a fase mais eletrônica e em que utilizou microbatidas e a fase em que passou a compor mais arranjos para instrumentos de orquestra. É impossível não sentir a influência dela. Também é fácil perceber como ela difere da conterrânea: Björk mostra um registro vocal mais alto, mais agressivo e expansivo. Já JFDR constrói seu disco apostando principalmente na intimidade de seus sussurros. “Instant Patience” é uma das melhores músicas do disco e também uma das que mais lembram Björk em suas músicas mais contemplativas. O estilo tímido chega ao limite em “Wires”, quando a voz é quase um sopro e tem-se a impressão de que a vida vai deixar o corpo a qualquer momento, e em “Anything Goes”, quando o fiapo de voz quase chega a falhar.

Faixa após faixa, ela nos mostra que sua música vem das vísceras de sua alma. Não é um estouro de som e pode mesmo parecer meditativo em muitos momentos, mas guarda certa tensão no que canta e nos sons que emprega para emoldurar sua performance, como as saturações elétricas de “Higher State”, as batidas assimétricas de “Airborne” e os ruídos que perpassam toda a harmonia de “Destiny’s Upon Us” como fios elétricos numa paisagem urbana.

Embora siga na trilha de Björk, misturando os rastros já explorados por ela e incorporando tendências do indie pop atual – sem esquecer de dar aquele toque de design sonora tão típico dos islandeses –, JFDR constrói Brazil de forma bastante consciente de suas limitações, mas muito bem arquitetado. Mesmo os vídeos possuem sacadas e poesias visuais muito interessantes e estranhas também, mas contribuem com a iconografia nascente da carreira solo de Jófríður Ákadóttir.

Ainda há muito mais para se ver de Jófríður, seja como JDFR ou em suas outras bandas. Ela não parece ter ambições megalomaníacas ou que possam colidir com as delicadas estruturas do que constrói em Brazil. A garota aprendeu logo que começou a gravar o álbum que sua música não precisava ser perfeita, mas tinha que ter feeling. E feeling, textura e tessitura é tudo o que ela entrega com um punhado de boas canções.

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Julie Byrne – Not Even Happiness (2017)

Folk humano, gentil e delicado

Por Gabriel Sacramento

Nos anos 70, James Taylor ficou conhecido por marcar a música folk trazendo mais clareza, suavidade e influências de gospel e country. Alcunhado como Sweet Beat Folk, o estilo que Taylor fazia era marcante e melancólico, bem como pessoal: ia fundo dentro dos sentimentos do cantor, transmitindo-os de uma forma sincera e visceral para o ouvinte. Joni Mitchell também explorava uma veia mais melancólica, suave, triste e solitária do estilo, como ficou bem evidente em seu Blue (1971).

O folk passou então a ser um bom instrumento para externar os sentimentos dos artistas, fazendo com que eles olhassem para dentro primeiro. O quão profundo você ia dentro de si, mais explícita e mais sentimental sua música ficava. Claro, há também vertentes do estilo menos intimistas e mais críticas, como a música de Bob Dylan. Mas essa veia mais solitária do estilo é bem expressiva e já rendeu ótimos lançamentos.

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Assim como os cantores clássicos, a americana Julie Byrne tem muito a dizer com seu folk. Sua história de vida, assim como a de todo mundo, tem suas controvérsias e seus momentos tristes e ela deseja liberar tudo através de um folk sensível e sincero. Cantando suas memórias e anseios de forma poética, Byrne nos convida a conhecer e compreender o seu mundo em uma viagem misteriosa, tendo como trilha sonora sua bela voz, seu violão e alguns elementos intermitentes em Not Even Happiness.

Desde os primeiros – e belíssimos – acordes de “Follow My Voice”, entrecortados pelo ruído da mão passando pelos trastes do seu violão, podemos perceber o grau de intimismo, melancolia e solitude que o álbum evoca. E é tudo muito gentilmente poético e belo. Sua voz ecoa buscando espaços em nossa cabeça e seu lirismo nos cativa. “Siga minha voz, estou bem aqui, além dessa luz, além de todo o medo”, ela canta na faixa de abertura. Ela fala de solidão em “Sleepwalker”, enquanto envolve tudo em um estilo de dedilhar que deixaria Joni Mitchell muito feliz. Fala de um encontro especial com alguém de uma forma tão linda em “Natural Blue”, e “I Live Now As a Singer” – em uma fuga do folk para um flerte com o dream pop – soa como um conjunto de confissões tão próximo do ouvinte que é como se a própria Julie estivesse do seu lado clamando por redenção.

Byrne viaja para dentro de si e com uma capacidade fantástica de expressar seus sentimentos que nos encanta. Além de sua voz e violão, o que chama a atenção na produção é a forma como a voz da cantora ressoa, de forma profunda, tão profunda quanto sua mensagem. Sua voz e suas letras atingem nossos ouvidos e nos maravilham.

Byrne contribui ativamente para que o folk seja relevante, mas o objetivo dela é mais pessoal. Ela não transmite uma simples preocupação com o estilo e com a moldura que utiliza para seus retratos pessoais, mas com o quão íntima soa sua musicalidade. E isso é o destaque de Not Even Happiness. Se estivesse preocupada com o estilo, em obedecer as regras, em fazer algo para obter reconhecimento dentro da cena somente, seu álbum não teria tanto brilho.

A capacidade de Byrne de tornar poético os seus problemas nos toca. Até porque também somos humanos e nossos problemas geralmente parecem soar como uma grande massa sonora antimusical que nos proporciona uma experiência em que é difícil relaxar. A cantora, porém, nos agrada por abarcar seus problemas de uma forma singela e nos influencia a pensar os nossos de uma forma diferente. Assim o álbum se faz acessível para pessoas comuns, como uma trilha que nos acompanha em nossos momentos mais cotidianos.

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The XX – I See You (2017)

Novo disco mostra a banda dialogando com o passado enquanto olha para frente

Por Gabriel Sacramento

Depois que Jamie Smith, um dos membros do The XX, decidiu lançar um álbum solo – In Colour (2015) – no qual se permitiu experimentar com a música eletrônica e fugir um pouco do dream pop indie melancólico e etéreo da sua banda, o som do trio parece ter mudado de rumo. Esse novo direcionamento está em I See You.

E quando lançaram “On Hold”, percebemos a pegada mais pop dançante. O sample da faixa é da sacolejante “I Can’t Go for That (No Can Do)” da dupla Daryl Hall e John Oates, pop famoso lá dos anos 80. Mesmo com as batidas mais fortes, a canção trabalha bem a dinâmica com momentos calmos e econômicos que nos remetem à fase inicial da banda. A ideia de utilizar batidas diferentes para gerar climas diferentes, que esteve presente no disco de Jamie, está em I See You também. “Say Something Loving” foi lançada mais tarde. A faixa traz aqueles típicos duetos entre a guitarrista Romy Madley Croft e o baixista Oliver Sim e uma melodia belíssima sobre uma base onírica.

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“Dangerous” anuncia uma base mais focada no ritmo, diferente das músicas antigas, que eram densas e climáticas. “Lips” apresenta um mix bem definido entre uma sonoridade mais atmosférica e algo mais dançante. A balada “Performance” traz a melodia mais inspirada do álbum, com um quê melancólico impressionante e tocante. A vocalista Romy – que canta esta sozinha – interpreta com uma maestria e sinceridade tão grandes que é como se estivesse prestes a chorar enquanto canta. Podemos ouvir claramente as bases e toda a estrutura de “Replica” serem trabalhadas para explorar esse conceito mais pop e radiofônico. As batidas mais rítmicas voltam pulsantes em “I Dare You” e “Test Me” fecha o álbum com um ótimo interlúdio de música ambiente.

Como podemos perceber, o trio inglês conseguiu chegar a um estágio superior com sua música, sem negar suas influências básicas. Sem abrir mão da identidade que marca a banda desde o seu início e que chama a atenção para sua sonoridade, eles chegaram a um bom resultado.

Como disse antes, a influência de In Colour de Jamie Smith é inegável, afinal, ele idealiza as bases do The XX. Sua ideia de musicalidade expansiva e experimental além dos limites se aplica ao trio, mas respeitando as ideias e vontades dos outros dois membros também. Com isso, temos o melhor álbum do grupo, que transmite a liberdade criativa em paralelo com a vontade de soar mais amigável.

Este ano, a banda irá tocar no Lollapalooza Brasil. Uma ótima oportunidade para mostrar o som do grupo para os brasileiros que ainda não tiveram contato com os ingleses. Com canções de I See You no setlist, essa experiência de audição se torna mais fácil. A boa dose do disco pode não ser repetida em outros, a banda pode seguir por um caminho mais pop ou pelo resgate do som anterior, mas I See You deve ser lembrado por esse mix interessante e feito com muita competência.

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Birdy – Beautiful Lies (2016)

Melhor produzida, está pronta para ganhar um público maior

Por Lucas Scaliza

Se Birdy cortasse as canções fillers (que só estão ali para encher espaço mesmo), Beautiful Lies seria pelo menos 1/3 menor e faria um bem danado ao álbum.

A cantora tem boas composições, boas letras e boa voz, mas perde-se às vezes em passagens menos inspiradas e que apenas ficam na média do pop mais simples e comum. Baladas como “Deep End”, “Words”, “Save Yourself” e “Hear You Calling”, que possui apenas um refrão marcante pouco mais que isso para ser ouvido.

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São várias as faixas boas, embora não sejam especialmente únicas, como é o caso de “Hear You Calling”, “Wild Horses” e “Lost It All”, “Lifted” (uma música de toada quase relaxante, linda melodia e feita para poder ser um dos singles do trabalho) e “Take My Heart” (toda construída em volta de uma atmosfera que configura o lado dream pop do disco).

Já as faixas que conseguem sair da média e fazer parte Beautiful Lies valer a pena devem muito à beleza de suas melodias de voz e boa interpretação de Birdy. É o caso de “Growing Pains”, “Shadow”, “Keep Your Head Up” e “Silhouette”. O instrumental não é ruim, mas não possui grande ênfase, apenas mantendo a música acontecendo e servindo como base para a voz, subindo a dinâmica e o volume em diversos refrãos. Embora tenha um pouco de Florence Welch (do Florence + The Machine) em como Birdy estrutura e canta suas músicas, Florence faz uma utilização mais consistente da banda que a acompanha.

Embora tudo pareça mais redondo, profissional e bem acabado em Beautiful Lies, faz parecer também que Fire Within (2013), o disco anterior, tem mais personalidade (como esquecer a bela interação dos dedilhados folk com a orquestração em “Words As Weapons”? Ou a doçura despojada com que “Maybe” faz sua mágica?). Perder algumas dessas características mais orgânicas é o que pode acontecer quando a produção melhora e trata de aparar as arestas da música. Mais profissional, porém, quando se trata do cenário pop radiofônico, fica também mais homogêneo.

Dessa forma, a jovem inglesa Jasmine Lucilla Elizabeth Jennifer van den Bogaerde se apresenta não apenas como uma potencial cantora e compositora para aparecer em festivais e ganhar mais exposição e mais público, mas se apresentar principalmente “vestida” de acordo com as regras do mainstream para “merecer” essa posição que pleiteia. Os fãs que gostavam da forma mais indie como suas músicas se apresentavam podem, porventura, notar as diferenças de produção em Beautiful Lies e não terem certeza do que pensar por um momento sobre Birdy. Mas o novo público que ela deverá abocanhar não tem o mesmo apego e vai adotá-la já sabendo que trata-se de uma artista bem produzida (e bem assessorada, se levarmos em conta o espaço que ela já mostra ter ganho nos Estados Unidos).

Embora seja um pop que não oferece perigo e nem desafio, há muita dignidade na música de Birdy. Por mais que a tenham formatado, ainda é possível reconhecer suas composições e seu jeito próprio de cantar. As faixas bônus da versão deluxe possuem desenvolvimento lento, como a triste “Start Again”, mas guardam bons momentos da cantora. “Winter” é a canção mais orgânica e praticamente a única em que sentimos uma banda real tocando ao fundo, adornada posteriormente por uma atmosfera bem construída que a liga ao resto da sonoridade do álbum.

Beautiful Lies representa um crescimento para Birdy. Deixou sua cidade natal para morar em Londres, favorecendo sua carreira. Perdeu as marcas das dificuldades de gravação dos dois primeiros discos e ganhou uma forma, exatamente como Elliphant e seu Living Life Golden. O pop praticado por ela ao longo do álbum pode deslumbrar ou soar enfadonho, depende de como você se relaciona com o estilo dela. Mas nunca vai te deslumbrar por tempo suficiente para ser considerado o melhor disco do ano e nem cansar ao ponto de não reparar seus vários pontos positivos.

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Elliphant – Living Life Golden (2016)

As músicas são melhores, mas perder a visceralidade é o preço por se tornar pop

Por Lucas Scaliza

Conhecemos muito bem as exigências da indústria fonográfica e da maioria do público consumidor de música. O que geralmente é visceral demais, não tão bem lapidado, acaba sendo relegado a um nicho de mercado bem específico. Se quiser ser maior, precisa se ajustar. O caso de Elliphant é mais um exemplo de ajuste que teve como resultado a quase imediata maior visibilidade para ela e sua música. Ao mesmo tempo em que sua música parece melhor acabada e com mais direção, fica evidente também que perdeu o vigor das ruas.

Living Life Golden é o segundo disco completo da sueca Ellinor Miranda Salome Olovsdotter, mas antes ela já havia liberado diversas músicas avulsas e alguns EPs (vários deles disponíveis no Spotify) e um primeiro disco chamado A Good Idea (2013) que não foi distribuído por uma grande gravadora ou selo no mundo todo.

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O que encontramos em um EP como Look Like You Love It¸de 2014, são canções longe de serem perfeitas, mas que contaram com produções de gente como Diplo, Skrillex e The Reef e mostraram as garras de uma jovem cantora e compositora. Este EP mostra muito bem como Elliphant tem a energia do hip hop e o poder crítico que o estilo é capaz de disseminar com suas letras. É um exemplo de como a sueca tinha uma pegada bem underground.

Living Life Golden é muito mais fácil de digerir. O hip hop não é mais tanto um estilo que ela exercite, mas sim uma grande influência ao pop que desfila pelas 12 faixas do álbum. As músicas não têm mais o vigor e a rebeldia de Look Like You Love It, mas estão melhor estruturadas e com arranjos mais interessantes. Algumas faixas são o eletropop mainstream mais genérico que se pode encontrar (como “Love Me Long”, com Mazor Lazer e Gyptian), mas várias outras foram feitas para funcionar nas paradas pop e indie pop – e de fato conseguem.

Além do esperto jogo de linguagem da primeira e do clima mais indie da segunda, “Love Me Badder”, “Thing Called Life” e “Where Is Home” têm ótimos refrãos que grudam na cabeça. São músicas simples e não diferem da maior parte do pop que ouvimos por aí, mas que crescem no ouvinte. Até mesmo “Not Ready” tem uma graça particular: carrega o DNA do reggae com linhas de baixo e bateria eletrônicas que lembram o groove do Gorillaz.

É muito difícil ouvir Living Life Golden e não levar em conta como o dream pop ganhou espaço e importância estética comercial após o sucesso de Lorde. Seguindo essa linha de pensamento, até mesmo o ótimo Badlands (2015) da Halsey é parte desse processo em que Elliphant está inserida. Desse cenário, o disco da sueca se beneficia utilizando produções mais econômicas – como na ótima “One More” (com participação da dinamarquesa ) e “Hit And Run”. Letras mais críticas sobre estilo de vida também permeiam o disco, fazendo com que, felizmente, Living Life Golden não seja um trabalho de pop alienado. É com toda certeza uma tentativa de ser menos politizado ou pesado do que as músicas mais hip hop apresentadas por ela anteriormente, mas se está menos rebelde na forma, pelo menos algumas mensagens ainda são importantes.

“Step Down”, single do disco e a primeira faixa, sintetiza essa nova fase de Elliphant. A música é descomplicada e tem um daqueles refrãos que pegam fácil; a letra é sobre um relacionamento nada sério em que uma das partes se acha em posição mais cômoda. No final, há uma superposição de versos em que Elliphant surge cantando de forma mais agressiva, com sua voz rouca, um lampejo da visceralidade de outrora. Com participação de Azealia Banks, “Everybody” é aquele momento de papo sério e reto em que ambas podem apontar o dedo para fãs, mídia, sociedade e falar da massificação dos desejos e expectativas. E “Where Is Home” é a busca pelo seu lugar no mundo, tanto físico quanto emocional na companhia de alguém. Não há grandes sacadas ou profundidade nos versos dela, mas já são exemplos de música pop que tenta não repetir os mesmos clichês de amor e fossa. “Living Life Golden”, que fecha o trabalho, se aproxima muito dos temas de Lorde em Pure Heroine, em que retrata-se uma juventude que falha – ou não sabe como ter sucesso e até contesta essa noção –, mas tenta encarar a vida de peito aberto. “One More” também é parte desse contexto, uma música sobre sair com um(a) amigo(a) para beber e fugir momentaneamente dos problemas da vida até que possa voltar a ter coragem de encará-los.

Living Life Golden é um caminho sem volta. Elliphant está mesmo trilhando um caminho que se ajusta melhor ao gosto musical de uma maioria. Se ela voltar ao hip hop mais underground será para um trecho de canção ou composição episódica, não mais como exercício de um estilo pelo qual será reconhecida. Seus shows poderão conter faixas dessa época que serão bem aceitas pelos fãs mais antigos, mas não estarão no repertório da maioria do público. Mas vale a pena ouvir Living Life Golden e acompanhar como será o desenvolvimento artístico dela a partir de agora.

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Bloc Party – Hymns (2016)

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Ingleses trocam o indie rock pelo trip hop de sintetizadores e faz o álbum mais intimista da carreira

Por Lucas Scaliza

Já ouviu Hymns? A própria banda liberou as faixas essa semana no YouTube. Era o que você esperava? Garanto que após quatro anos desde FOUR (2012) estava ávido por uma banda cheia de energia, com timbres modernos e som encorpado, talvez demonstrando com mais afinco a sua vertente roqueira. Hymns, como se vê e se ouve, é diferente disso. É bem diferente dos outros quatro discos da banda. As doses de trip hop e new wave que dominam a sonoridade causa até espanto inicialmente, mas proporciona deleite sonoro também.

O rock indie, o rock eletrônico, o eletrônico de balada e o trip hop sempre estiveram na sonoridade do Bloc Party convivendo harmonicamente. Intimacy (2008) destaca-se como um disco que equilibrou-se muito bem entre todas essas vertentes, propondo uma miríade sonora bastante rica. Hymns soa como um passo à frente: como abusa muito mais do trip hop, o novo trabalho soa muito mais íntimo do que Intimacy. As batidas profundas, a atmosfera ao redor dos arranjos criando a impressão de escuridão (a capa do álbum representa muito bem a música que embala) e interpretação vocal de Kele Okereke, frágil como nunca, é um convite à entrega.

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Sintetizadores e teclados, baixo e bateria bem regulares, dão a tônica de “The Love Within”, que não chega a assustar na abertura do álbum. Já vimos o quarteto fazer uma baladinha antes. Porém, tudo o que vem em seguida deixa claro que não se trata da mesma banda – mas não de um modo ruim. É como ter ouvido Amnesiac (2002) e depois Hail To The Thief (2005): não é o mesmo Radiohead. “Only He Can Heal Me” revela as verdadeiras cores e formas de Hymns: voz em primeiro plano e uma cama sonora discreta, arranjos econômicos, batidas que nunca se exacerbam. Já uma composição delicada como “Fortress” teria ganhado aqueles dedilhados característicos de baladas do grupo caso estivesse em outro álbum, outra fase. Mas em Hymns soa eletrônica, quase como James Blake. Onde o bumbo soaria numa banda de rock há apenas uma pulsação grave; saem os crescendo cheios de guitarras de Intimacy e deixa-se o teclado cumprir essa função.

Tem pouca guitarra no disco. O instrumento geralmente surge em momentos chaves, como em um riff no pós-refrão da acessível “So Real” ou como a base para a colorida “Into The Earth”, cuja roupagem mais feliz e relaxada destoa da melancolia e escuridão do restante do álbum. A guitarra também surge como um instrumento de pura textura post punk, cheio de reverb e colocado bem ao fundo da mixagem em “Different Drugs”, uma das melhores faixas do trabalho. Essa faixa é rica em sensações: além de uma das melhores linhas vocais já criadas por Okereke, a harmonia descreve curvas sonoras muito agradáveis que preencherão os sentidos dos sinestésicos. “My True Name” é outra das boas canções do disco que só melhora conforme progride.

Hymns dividirá opiniões. Qualquer ecletismo que o Bloc Party tenha demonstrado em discos anteriores não chega aos pés do mergulho no pop, dream pop e trip hop de suas novas faixas. Quando querem ser eletrônicos, não é como uma vez o foram em “Flux”, do A Weekend In The City (2007); quando usam a guitarra, não é como em “Where Is Home”; quando aumentam os BPMs, não é como “Halo” e “Trojan Horse”, do Intimacy; a bateria não soa como em “Sunday”; o baixo é mais discreto, nada com o mesmo peso de “Ares”. FOUR foi o trabalhado com sonoridade mais direta da banda, muito baseado no que guitarra, baixo e bateria poderiam fazer em conjunto. Foi tudo o que Hymns não pretende ser.

A banda teve algumas mudanças na formação. Nada que tenha influenciado a sonoridade do novo álbum, mas é importante registrar mesmo assim. Matt Long pulou foram em 2013, sendo substituído pela baterista Louise Bartle só depois que o disco já estava gravado. Em 2015 o baixista Gordon Moakes deixou a banda, sendo substituído logo depois por Justin Harris, a tempo de entrar em estúdio. Enquanto Okereke canta, toca guitarra e piano elétrico, Russel Lissack continua respondendo pela guitarra e pelos sintetizadores. Além do baixo, Justin também assumiu o teclado e o glockenspiel.

Há um lado espiritual nas letras escritas por Kele Okereke que influenciam a sonoridade. Se pelo menos metade das músicas soam como uma chama bruxuleando no escuro, é porque às vezes é preciso voltar-se para si mesmo, para seu interior, caso queira encontrar algum sentido ou reposta. Mas não é um álbum religioso, de forma alguma, e a temática não é uma evangelização cristã ou de qualquer vertente da fé. O espiritual está no disco, porém não é sua força motriz.

Não acredito que Hymns seja o melhor trabalho do Bloc Party, mas isso não quer dizer que eu esteja achando ruim a mudança na sonoridade. Pelo contrário: construíram muito bem a sonoridade que queriam. A mudança pode ser um pouco brusca, porém marca um passo artístico importante para a banda inglesa, tirando eles próprios da zona de conforto e fazendo com que os fãs apreciem um outro lado de suas perspectivas musicais. Se você gosta de Radiohead, The Maccabees ou de qualquer outra banda que saiba diversificar seu som ao longo do tempo, já deve estar ciente de como isso traz resultados positivos a longo prazo. Por isso acredito que o melhor disco do Bloc Party ainda está por vir.

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Halsey – Badlands (2015)

Cover

Boas letras, boas músicas e atitude mesmo quando everything is blue

Por Lucas Scaliza

Halsey chamou a atenção primeiro no Soundcloud, com uma versão prévia de “Ghost”. Depois, com seus cabelos azuis, ficou (bem) falada no South By Southwest, o grande e diversificado festival texano. Havia algo de bom ali e, para além do que ela apresentava no palco, devem ter notado potencial. Pois é isso que ela demonstrou com as cinco faixas do EP Room 93 e com o recém-lançado Badlands, seu primeiro LP.

Halsey (pronuncia-se “Rauzi”), cujo nome real é Ashley Frangipane, nasceu em Nova Jérsei e passou bons bocados até chamar a atenção no circuito musical e abrir shows do The Kooks e da recente turnê de Smoke And Mirrors do Imagine Dragons. Antes de começar a compor música eletrônica, ela tocou cello, viola, violino e violão. A princípio, a jovem queria cursar a faculdade de belas artes, mas a grana estava curta. Acabou cursando composição em uma faculdade pública. Por um tempo, se sustentou tocando por aí munida de seu violão. Detalhe: ainda na adolescência foi diagnosticada com transtorno bipolar. Essa fez essa revelação durante uma entrevista para a revista Elle.

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Foto: Lexie Alley

A voz dela cai bem para a melancolia, como a da Nanna Bryndís Hilmarsdóttir do Of Monsters And Men, e fica muito bem também para as partes mais R&B de suas faixas. Talvez não tenha o alcance vocal de uma Lorde, mas me agrada que ela cante bem sem forçar, sem precisar de artifícios para impressionar plateias impressionáveis. Mostra uma sobriedade que é bem vinda ao dream pop – e sem que essa sobriedade atrapalhe o caráter dreamy de Badlands. Ela não chega a ter a mesma sutileza estilística que quase coloca Lorde como minimalista, mas é perceptível que Halsey bebe na mesma fonte (o que inclui vários artistas americanos do rap e hip hop, além de bandas de punk, grunge e new wave) – e bebe também da própria neozelandesa.

Assim que “Castle” começa, abrindo o disco muito bem, dá até impressão que Halsey vai tentar umas batidas diferentes e caóticas, na linha da FKA twigs. Mas conforme a faixa e o disco seguem, percebemos que ela não está tão interessada em fazer sua música perder os lastros com as bases rítmicas. Ela investe sim em boas batidas, mas nada que lhe faça perder a contagem dos compassos. “New Americana”, apesar de ser uma das mais acessíveis do disco, tem uma das melhores letras, onde ela imagina uma nova geração de americanos que ouvem Nirvana, fumam maconha legalizada, o casamento gay já não é uma utopia. Tirando a parte da maconha (que só é legalizada em alguns estados dos EUA), o resto já é realidade. A canção pop vira um pertinente registro da juventude da América (mas aceitar o Nirvana, a maconha e o casamento gay de forma irrestrita são outros quinhentos).

 

“Drive” é rica em microbatidas e efeitos sonoros, além de um violão arpejando acordes para complementar sutilmente o arranjo. A letra lembra – e bastante – a Lorde: “Só dirigimos/ Só pensamos nos sentimentos que escondemos/ Só nos sentamos em silêncio esperando um sinal/ Enjoados e cheios de orgulho/ Só dirigimos/ E a Califórnia nunca pareceu um lar pra mim…” E “Hurricane”, com suas batidas cheias de eco, é um pequeno achado. Embora seja uma canção simples, as palavras fluem com muita graça na voz de Halsey. A letra fala de drogas, de casos de uma noite, de liberdade e de sedução. Se fosse Lana Del Rey, viraria uma homenagem trágica à sensualidade criminosa. Mas com Halsey é um poema urbano.

As músicas em Badlands nunca se afastam do dream pop e nunca aceleram demais, nem mesmo quando querem produzir uma faixa mais radiofônica como “Roman Holiday”. Esteticamente, é um álbum bastante coeso. “Ghost”, a faixa que a revelou, aparece no álbum com uma mixagem diferente daquele presente em Room 93. A guitarra que dava um ar mais indie foi subtraída, em favor da coesão sonora do disco. Mas veja que, de certa forma, Halsey é indie em seus próprios termos: o pop eletrônico que mira o mainstream é mais acelerado e precisa ter algo de mais sensual, aí está a Demi Lovato, a Ariana Grande e até a Taylor Swift para provar.

Acredito que “Colors” seja a grande música de Badlands. Os versos iniciais são matadores: “Seu irmãozinho nunca diz, mas ele te ama/ Você disse que sua mãe só sorri pra tevê/ Você só fica feliz quando sua pobre cabeça tá dopada/ Espero que você chegue aos 28 anos”, canta ela, fazendo referência aos 27 anos que levaram cedo pessoas como Jim Morrison, Janis Joplin, Jimmi Hendrix, Kurt Cobain e Amy Winehouse, todos com talento e sucesso, mas também com uma inclinação feroz para as drogas. Uma letra afiada embalada por um som bastante envolvente que nos transmite os tons de azul e cinza a que essa juventude está exposta. Sem falar da forma bonita como ela prolonga a nota ao cantar “Everything is blue” no refrão.

Em “Strange Love” ela experimentar mudar a direção da canção umas três vezes, assim como “Coming Down” é mais linear. Já “Haunting” é outra dos grandes momentos do álbum, uma vez que Ashley mostra trabalhar melhor sua dinâmica vocal (ainda que a amplitude dessa dinâmica não seja tão grande). Em “Control” o som deixa de ser dreamy e abraça uma harmonia mais gótica e dramática, além de usar o falsete. O clímax de “I Walk The Line” aposta em uma orquestração sintética para dar mais corpo à música, carregando nos contornos da produção (mas talvez uma guitarra distorcida deixaria a conclusão do disco ainda mais barroca).

O potencial que se enxerga em Halsey é o mesmo que vemos em Lorde: o pop que não se entrega às banalidades e nem soa deslumbrado com o sucesso, dinheiro e fama (pelo menos não por enquanto) e dá esperança de continuar avançando com personalidade e relevante para a plateia que pretendem atingir com algo mais do que apenas boas músicas para dançar que falam de curtição. As letras da americana contém muita curtição, mas ela fica subentendida em um contexto social (em termos de família, relacionamentos e sociedade) maior do que o mero prazer hedonista proporcionado por drogas, sexo e bebidas.

Halsey não pesa a mão no eletrônico como acontece com FKA twigs e Björk ou como as experiências mais ricas em texturas de Jamie XX e The Chemical Brothers, mas ela acerta no clima e na profundidade dos graves. Ao mesmo tempo, não é a melhor good vibe de todos os tempos para se ouvir – o que combina com sua intenção de não ser pop e nem besta. O álbum está muito bem servido de ótimas canções e de atitude. Quando ela revelou que sofria de distúrbio bipolar, o fez sem querer, mas recebeu um bom feedback dos fãs, não só em termos de apoio, pois muitos se sentiram confiantes para se assumirem portadores desse distúrbio (e de outros) após a publicação da revelação. E quando fez o vídeo lésbico de “Ghost”, foi uma decisão contrária ao que seu selo, Astralwerks, queria. Por eles, seria um romance hetero. Que essa atitude não desvaneça.

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