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Gwen Stefani – This Is What The Truth Feels Like (2016)

Disco atira para todos os lados sem cuidar da personalidade musical

Por Lucas Scaliza

Gwen Stefani, vocalista do No Doubt e jurada do The Voice estadunidense, chega ao terceiro disco solo repetindo os mesmo erros e acertos dos dois primeiros. Ou talvez não sejam erros e acertos, mas apenas uma decisão criativa de uma mente que trafega pelo pop de maneira tão abrangente que tenta abraçar todas as tendências e possibilidades, sem se preocupar – mais uma vez! – com a criação de uma marca pessoal.

É preciso tratar com cuidado a argumentação no caso de This Is What The Truth Feels Like. A versão deluxe do álbum possui 17 músicas e muitas delas são cativantes; algumas são ótimas; mas no geral fica uma impressão difusa do trabalho enquanto formato álbum, porque Gwen Stefani atira para todos os lados, assim como fez há 10 anos em The Sweet Escape (2006). Se a música mainstream radiofônica hoje é um aglomerado de R&B, hip hop, pop, música eletrônica, dance e até reggae, pode apostar que você encontrará tudo isso em TIWTTFL.

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Gwen Renée Stefani se dá bem em praticamente todos os estilos musicais citados acima e, há tanto tempo sem um disco novo no mercado, talvez ela tenha achado uma boa ideia mostrar como é versátil. Nada contra a versatilidade da cantora, mas no final das contas o álbum soa sem foco, mais como uma coleção de faixas muito distantes umas das outras e sem que, mais uma vez, seja possível identificar qual é a assinatura sonora de Stefani. Qual é a essência estética dela? Após três discos de estúdio continua muito difícil determinar. Em menos tempo de estrada e com o mesmo número de discos, Lana Del Rey já se posicionou plenamente como a rainha do drama e do retrô; Lorde e sua economia de meios para fazer dream pop nada alienado; e FKW twigs como a outsider criativa que une R&B e eletrônica de maneira vanguardista.

Talvez a característica de Gwen Stefani seja fazer música variada mesmo, sem uma estética única. Mas nesse caso ela sempre será parecida com outro alguém, e não uma referência forte o bastante por si só.

Mas se no geral This Is What The Truth Feels Like tenta incluir tudo o que o pop permite que seja pop, as músicas individualmente valem a pena. É claro que neste contexto várias delas correm o risco de se tornarem muito genéricas (como o primeiro single, “Make Me Like You”), mas há destaques que atestam a qualidade de Stefani como cantora, frontwoman e voz criativa no pop.

“Truth” é uma balada com potencial para sobreviver no repertório de Stefani por bastante tempo.  Embora ganhe uma roupagem bem apropriada para o pop, fica claro que uma versão voz e violão ficaria ótima ao vivo. Já “Used To Levo You”, “Send Me a Picture” e “Getting Warmer”, também baladas, soam como aquele estilo que Ellie Goulding já deixou para trás no disco anterior.

No campo do R&B e hip hop, “Red Flag” é uma das músicas mais interessantes do álbum, enquanto “Asking 4 It” mais uma reciclagem de ideias já testadas do que uma composição original. “Naughty”, por outro lado, é uma canção que mostra o poder de interpretação de Stefani (easter egg: tem uma referência ao Radiohead nessa canção).

Há muita preocupação para que tudo seja acessível e pop em TIWTTFL, o que inclui fazer músicas curtas. Tão sintéticas que não sobra espaço para arranjos bonitos ou interessantes se destacarem e também preencherem sozinhos lacunas da composição ou e do sentimento de cada canção. Assim, algumas músicas que poderiam se beneficiar do instrumental, como “Me Without You” e “Misery”, soam podadas, como se faltasse amadurecimento para serem ótimas faixas. Curiosamente, “Splash” é uma das faixas mais joviais do álbum e um dos únicos momentos em que ela cria batidas interessantes (que soam como bolhas estourando em um aquário) e faz com que um sintetizador perpasse toda a canção, chegando ao ponto de simular um solo de guitarra. São momentos inspirados como esse que faltam ao TIWTTFL.

O histórico do disco também vale a pena ser compartilhado. Gwen Stefani passou por um divórcio e toda a dor, mágoa e raiva desse processo lhe deu a inspiração e coragem para colocar suas ideias em novas músicas, descartando diversas outras que já estavam sendo trabalhadas anteriormente. No meio do caminho ela encontrou um novo companheiro e também essa experiência que lhe deu nova fé no amor está presente no álbum.

Dessa forma Stefani compartilha com os fãs e com o público o que ela diz ser a “verdade”, suas reais impressões sobre um rompimento e uma reconstrução. Contudo, a carga emocional das músicas não condiz com o que suas letras almejam retratar, reforçando aquela impressão de pop genérico ou de pop embalado mais embalado para seus jovens seguidores do que para pessoas que pretendam realmente se conectar à sua música por meio de seus temas e nuances. 1989 da Taylor Swift, por mais embalado que seja para servir ao mainstream, guarda maior carga emocional.

No final das contas, TIWTTFL é um concentrado de catchy songs que funcionam muito bem, mas que não trabalham juntas e nem se conectam de forma musicalmente coerente. Gwen Stefani é uma veterana dos palcos e da indústria e trabalhou com produtores de renome nessa mesma indústria. Por isso é estranho que ela não consiga deixar uma marca sonora indelével, justamente em um momento em que cada artista (mesmo os iniciantes) tenta dar uma cara própria ao que faz mesmo quando suas músicas não têm o apelo comercial necessário para estourar. E os produtores não ficam atrás: se o artista não tem estilo coeso o suficiente, eles deixam sua marca por eles (e não é o que acontece com o Purpose do Justin Bieber?).

Depois de toda a exposição com The Voice, Stefani virou mais uma celebridade que precisa ser abrangente do que ter uma personalidade forte. Mesmo que a derrocada de seu casamento e o nascimento de uma nova relação sejam experiências significativas que ela queira compartilhar, o disco carece de personalidade musical.

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Troye Sivan – Blue Neighbourhood (2015)

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Troye Sivan estreia com o pé direito exalando originalidade e com um lirismo corajoso

Por Gabriel Sacramento

Os fãs da franquia X-Men no cinema irão reconhecer esse garoto. Troye Sivan é ator e fez o papel do Wolverine jovem no filme X-Men – Origins: Wolverine, filme que narra a história do herói desde o início. Além disso, Sivan chegou a participar de outros filmes, mas menores em termos de sucesso.

Como cantor, ele começou em 2007. Uma série de EPs: Dare To Dream (2007), June Harvely (2012), TRYXE (2013) e WILD (2015). No dia 4 de dezembro, Troye lançou seu primeiro álbum de estúdio, Blue Neighbourhood, com algumas músicas de WILD e outras inéditas, uma estratégia usada por vários artistas estreantes, como a Halsey.

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O disco é bastante pop, mas não soa desesperadamente radiofônico, com melodias muito coloridas e/ou doces. Sivan canta linhas melódicas maduras, que cativam o ouvinte, sem irritar pelos excessos. Também soa eletrônico, mas sem aquele apelo aos movimentos corporais. As músicas deste disco não são embaladas para as pistas, mas seus toques eletrônicos cooperam com a proposta. A beleza do disco se encontra na fronteira do eletrônico com o pop, sem pender para nenhum lado.

Abrindo o disco, “Wild” nos apresenta a voz do Troye com sua tessitura vocal permitindo que o cantor chegue a graves interessantes. Possui um refrão legal, com melodia pop, mas sem soar exagerada. A base densa e pesada de “Bite” nos antecipa o quem vem por aí: “Talk Me Down”, que possui uma base bem distante que preenche a atmosfera da canção. “DKLA” também impressiona pela sua atmosfera pesada e carregada. O sintetizador rouba a cena no refrão de “The Quiet” e Sivan entrega o melhor refrão do disco em “Ease”. “Fools” traz um clima melancólico, mas dosado, com uma interpretação bastante emocional da parte de Troye.

O disco é atmosférico, denso, pesado e traz um clima bem intimista e introspectivo. O tom é confessional e autobiográfico. Troye canta sobre sua vida, suas relações amorosas e sobre sua homossexualidade, de forma bem aberta. Ao contrário de outros artistas que se declararam homossexuais, como o Sam Smith, Troye Sivan fala sobre o assunto sem rodeios, incluindo mensagens de amor para pronomes masculinos (como por exemplo em “for him”).

A simplicidade instrumental trabalha o eletrônico e o pop de forma balanceada. Há uma presença forte de sintetizadores, que me faz lembrar do synthpop dos anos 80. As bases mesclam arranjos simples com batidas eletrônicas. Mas também há espaço para teclados climáticos e agradáveis que acompanham a voz do Troye. Os arranjos se desenvolvem de forma espacial, para preencher todo o espaço da sua sala quando você estiver ouvindo (ou da sua cabeça, no caso de fones de ouvido). As bases pesadas e cheias complementam bem a mensagem forte que o cantor quer passar.

Outro fator que me faz admirar este disco é a entrega vocal de Troye, que se adequa perfeitamente a cada música. Ele transmite a inquietude de alguém que fala sobre incertezas, banhado por melancolia. A conexão letra-música é certeira e funciona muito bem.

Troye já é famoso na internet. Seja por seus vídeos, músicas, ou até mesmo por elogios de artistas como Taylor Swift. Neste disco de estreia, Sivan demonstra coragem ao cantar sobree sua vida, com uma sonoridade pop, mas não óbvia. Troye não canta o que todo mundo está cantando só para obter sucesso. Mesmo que um dos temas seja amor, sua visão sobre o amor é diferenciada. O seu jeito de adequar sua personalidade e originalidade ao disco faz com que ele crie algo único, digno de nota.

Uma onda de sucesso vem por aí para o garoto. Como ele reagirá à isso é a incógnita. O que nos resta é esperar para ver o que o cantor irá criar no futuro  e, claro, torcer para que siga a linha deste disco.

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The Chemical Brothers – Born In The Echoes (2015)

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Dupla de Manchester continua avançando, mas sempre dando aquela olhadinha para trás

Por Lucas Scaliza

Faz 20 anos que Exit Planet Dust (1995), o primeiro disco do Chemical Brothers, foi lançado, uma obra seminal para compreender para onde a disco e a música eletrônica havia evoluído até meados dos anos 90 e como ela começou a se desenvolver a partir dali. Era tudo eletrônico, mas tínhamos a impressão de ouvir uma banda real tocando, principalmente bateria e baixo. Havia algo de banda de rock, não nos moldes do Prodigy, mas bastante jeito inglês de ser criativo e experimentar. E já no primeiro álbum víamos que a dupla de Manchester Tom Rowlands e Ed Simons seguiam diretrizes diferentes, mas a mesma intenção artística que os franceses do Daft Punk.

E faz 10 anos que lançaram Push The Button, quando a mudança no status quo da música eletrônica e dance já estava consolidado (graças ao Chemical Brothers, ao Daft Punk, ao DJ Fatboy Slim, ao Prodigy e a tantos outros DJs e produtores): o bate-estaca era palavra de ordem na pista e chegou à música mainstream, um elemento que perdura até hoje e invadiu os refrãos de artistas pop e até de rock.

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Há 5 anos sem lançar nada novo, eu estava meio cético quanto ao novo disco do Chemical Brothers. Mas Born In The Echoes me traz a mesma sensação que tinha ao ouvir Exit Planet Dust: um duo eletrônico que faz música que parece metade banda, metade máquina, cheia de vontade de pular alguns anos e alcançar logo o futuro. A única diferença é que, ouvindo novamente a estreia da dupla inglesa, fica claro como lhes parecia o futuro. E agora que o futuro chegou, não temos mais essa preocupação. Mas há experimentação (eles ainda estão tentando propor novos meios para o gênero em que se inserem) sem nunca tirar os quatro pés do chão. Isso faz com que Born In The Echoes seja bastante acessível a qualquer ouvinte (inclusive aos novos) e ainda entrega músicas para que velhos fãs e interessados em música eletrônica sintam que eles continuam interessantes.

Eles já possuem oito álbuns de estúdio, um ao vivo e uma trilha sonora de filme (Hanna, de 2011).  Assim como no début havia ótimas faixas como “Leave Home”, “Chico’s Groove” e “Life Is Sweet”, havia outras que dependiam mais da paciência. Born In The Echoes também segue alternando momentos bastante empolgantes com outros mais burocráticos, mas as boas faixas superam as não tão boas em larga medida, felizmente.

 

“Sometimes I Feel So Deserted” é aquela faixa de abertura típica dos irmãos químicos que brinca com ritmos, ruídos e sinais eletrônicos que vão constituindo a melodia da canção. Uma faixa construída com os anos 90 em mente, até parece. Mas a força do álbum surge mesmo com “Go”, com ótimo vocal de Q-Tip (que também participou de Push The Button), sempre completado por uma linha excelente de baixo. Essa é a faixa que te faz enxergar porque você precisava de um novo disco dos ingleses. Lembra também uma daquelas boas faixas do Moby dos anos 90. “Under Neon Lights”, com vocais de St. Vincent (creditada com seu nome real, Annie Clark), é outro acerto, mantendo um clima mais tenso e arrastado. Já o acid-house “EML Ritual” e “Just Bang” exige um pouco mais de paciência.

“I’ll See You There” é outro desses momentos iluminados de Rowlands e Simons. Uma bateria incrível, um sintetizador (ou seria guitarra com efeito de sintetizador? Não sei dizer!) fazendo escalas indianas enquanto o baixo vai encaixando linhas melódicas na base. Uma visceralidade que faz a música eletrônica se comportar da música feita por uma banda de rock, soul ou funk. Eles não tem medo de fugir do formato quadradinho e conseguiram com “I’ll See You There” uma das melhores músicas da carreira.

“Reflexion” também pode desagradar ao ouvinte mais impaciente, mas é uma composição com camadas sobrepostas de teclado e sintetizador que fica entre o ambiente e a experimentação. “Taste of Honey” tem a piração de colocar como um dos elementos da música um zumbido de abelha. É bem arrastada e parece uma experiência sonora que o The Flaming Lips faria em um de seus mais recentes álbuns.

“Born In The Echoes” traz o big beat e o groove que o Chemical Brothers ajudou a desenvolver há 20 anos com vocais da galesa Cate Le Bom. Uma faixa mais interessante do que marcante. “Radiate” é quente e convidativa, o momento mais lento e terno do álbum e que menos carrega em si o DNA dos anos 90. A acessível “Wide Open”, com vocais de Beck, concluí Born In The Echoes deixando a certeza de que o Chemical Brothers avança, sim, mas sempre virando a cabeça para olhar para trás e ver o que podem reciclar ou desenvolver a partir do que foi feito há 10, 20 anos.

Diferente do Prodigy que com The Day Is My Enemy mostrou vigor, mas a mesmíssima música de sempre, Rowlands e Simons tentam equilibrar novas sonoridades com o que já são formas conhecidas de longa data do público. Mas mesmo com sua música mais acessível, o Chemical Brothers nunca cai na música eletrônica comercial, nunca é uma entrega de músicas simplistas como faz o David Guetta. Há muita música para pistas, sim, mas músicas que o DJ deverá saber executar e/ou remixar para que cumpram bem seu papel.

Resumiria o disco em quatro ótimas faixas: “Go” e seu poder de batida e de refrão, juntando o hoje e o ontem; “I’ll See You There” e sua caótica fuga do eletrônico, mesmo sendo eletrônica (ouça e descubra porque tantas bandas, como Metallica, já quiseram colaborar com a dupla) ; “Radiate” e seu clamor por transcendência; e “Wide Open”, acessível mas não besta, bem construída e capaz de te convidar para dançar uma última vez. Mas todo o resto também conta, pois, como Dorian Linskey notou muito bem para o The Guardian, “o coração do Chemical Brothers reside nesses pequenos barulhinhos” que permeiam todas as faixas e estão ali para serem notadas. E se você notar, vai ver que o bate-estaca está presente, só que é muito menos importante para eles e para a música agora. Sem querer, o recurso é muito mais importante para DJs e produtores mais preocupados em serem celebridades do que artistas.

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Ratatat – Magnifique (2015)

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Indie rock, eletrônico, violão havaiano: instrumental amigável

Por Lucas Scaliza

Magnifique, do Ratatat, é um disco amigável. Você escuta do começo ao fim e se sente em casa, acolhido, como se o som instrumental meio indie rock, meio eletrônico dos caras fosse a trilha sonora para qualquer hora do seu dia. Eu mesmo testei: ouvi o disco logo pela manhã ao acordar, ouvi durante o trabalho, ouvi a noite enquanto lia. Só não testei ainda na estrada, mas estou certo de que caberá direitinho nessa função road sountrack também.

O Ratatat é uma dupla criativa do Brooklyn que atende pelos nomes de Mike Stroud (guitarra, percussão e sintetizador) e Evan Mast (baixo, percussão e sintetizador). E eles são muito bons no que fazem: as melodias de guitarra são ótimas, sempre guardando um leve cheiro de overdrive e super equilibradas. Os sintetizadores dão o ar mais eletrônico do projeto e complementam as melodias.

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Os timbres escolhidos tanto ajudam a moldar o som moderno do Ratatat quanto emprestam uma personalidade única às suas músicas. E pelo menos em Magnifique não há uma só batida que não seja bem encaixada ou uma linha de baixo que não seja excelente para o estilo. E olha que o espectro sonoro do álbum vai da preguiça praieira de “Drift” e “Supreme”, ao indie eletrônico de “Cream on Chrome” e “Rome”, que lembram muito o Air, passando também pelo roque moderninho “Abrasive” e “Cold Fingers”, a daftpunkiana “Nightclub Amnesia” e tem ainda uma versão de “I Will Return”, faixa grava originalmente pelo Springwater (codinome do britânico Phil Cordell) em 1971. Depois de incorporarem elementos do hip hop em álbuns passados, a dupla está mais próxima de seu primeiro disco, Ratatat (2004), mais objetiva e também bastante atualizada com novos equipamentos que produzem novos sons.

 

Embora exista muita qualidade técnica nessa dupla – os temas de guitarra de Stroud são muito melódicos, cheios de bends e principalmente de slides espertos para conseguir o som do violão de aço havaiano –, não é um projeto de música instrumental que preze pela virtuose ou por momentos histriônicos. É menos Steve Vai e mais Mogwai, mas alinhado com a música eletrônica, e não com o post rock. Pode parecer confuso ao tentar ilustrar o som da banda – e do disco – por meio dessas comparações e referências, mas como disse logo no início da crítica Magnifique é amigável, desce fácil e você logo entende onde e como ele se posiciona no universo de estilos musicais que conhecemos.

O Ratatat começou a excursionar com o novo show antes mesmo de o novo álbum sair, inclusive com passagens pelo festival californiano Coachella e pelo nova-iorquino Governor’s Ball. E, novamente como o Air, a dupla vira uma baita banda animada ao vivo: Stroud se concentra na guitarra, Mast no baixo e músicos contratados assumem os demais instrumentos. De duo, o Ratatat se torna uma banda. Se o disco já transborda de boas vibrações, no palco é pura vitalidade.

A capa do disco, uma imagem que já associam ao Revolver e ao Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles, saiu, assim, naturalmente. Stroud e Mast escreveram as novas músicas em uma cabana em Long Island (Nova Iorque) e perceberam que a parede da cozinha precisa de uma nova pintura. Usaram suas habilidades e esboçaram rostos: o cantor Roy Orbison, o ator Al Pacino, o skatista Lance Mountain, e uma série de outros rostos. Pronto, virou a capa do ótimo novo disco.

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The Prodigy – The Day Is My Enemy (2015)

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Estruturas quadradinhas, mas sobra distorção e força na volta do trio eletropunk

Por Lucas Scaliza

O The Prodigy está de volta após seis anos sem novidades. Disseram que o novo trabalho seria uma porrada e podemos dizer agora que The Day Is My Enemy é o que você sempre esperou: um disco com a cara do grupo, com aquela sonoridade da virada do século XX para o XXI e incorporando algumas tendências dos últimos anos.

Você acha que podem soar datados? Bem, eles podem e não é difícil você identificar batidas e esquemas bem típicos dos anos 90, mas no caso deles não chega a ser um problema. Isso garante que a música em The Day Is My Enemy continue soando como se fosse uma banda punk no comando de baterias eletrônicas, teclados, sintetizadores e pick ups, com toda a energia anárquica que sempre caracterizou o som do grupo e o clima de rebeldia e conspiração de músicas do passado. Não precisa nem fechar os olhos enquanto ouve faixas como “Wild frontier”, “Rebel radio”, “Nasty” e a própria faixa-título para se sentir e um universo ciberpunk, como o do filme The Matrix.

Foto: Paul Dugdale

Foto: Paul Dugdale

Já faixas como “Ibiza”, com participação de Sleaford Mods, e “Rok-Weiler” chegam para mostrar como se faz música eletrônica pesada e com pegada roqueira para raves e pistas. Há muita distorção em tudo que se ouve no disco. Até mesmo “Rhythm Bomb”, com Flux Pavilion, pode parecer pop e acessível, mas é uma impressão que dura pouco. Há uma distância entre os sintetizadores cheios de eletricidade de Liam Howlett, a mente por trás da música do Prodigy, e as produções pop com participações famosas que vemos em David Guetta, por exemplo.

A ótima instrumental “Beyond the deathray” é o único momento mais introspectivo do álbum. De forma geral, o trio Howlett, Keith Flint e Maxim Reality continuam com os dois pés no chão, apostando na diversão, impondo força em cada uma das músicas e apostando nas baterias bem marcadas. Se há um ponto fraco a ser destacado, porém, podem ser as batidas. Ainda são as mesmas de sempre e o The Prodigy parece ter optado por seguir um esquema seguro que ajuda as músicas a ficarem bastante instigantes (como ficar parado com a incrível “Get your fight on”?), mas não mostra criação e nem intenção de levar suas técnicas nesse âmbito para outro nível.

A atualização deles para a cena eletrônica de 2015 também é bastante comedida, feita para não macular as características do grupo que mantêm The Day Is My Enemy como um disco reconhecível do Prodigy a milhas de distância. Portanto, não espere viagens sonoras e nem flertes com música abstrata, como o fazem outros artistas eletrônicos contemporâneos, como Thom Yorke em sua carreira solo, os noruegueses do Röyksopp, deadmau5 ou Warpaint. Também não é, como não daria para esperar que fosse, um eletro mais suave e moderninho como faz o Chet Faker, modernão como o Sohn, ou sofisticadíssimo e sincrético como o You’re Dead! do Flying Lotus.

Não há grandes inovações ou pretensões com o sexto álbum da carreira. Às vezes soa até meio saudosista essa volta do Prodigy, principalmente nos flertes mais abertos com o rock, como em “Invisible sun” ou nas estruturas mais quadradinhas e previsíveis que abundam ao longo de todas as faixas. No entanto, tudo funciona muito bem. É uma porrada atrás da outra como queríamos que fosse mesmo. Nada de paz e amor e pistas felizes aqui. Eles querem que você dance, mas dance um som distorcido.

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Charli XCX – Sucker (2014)

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Nem feminista e nem tão bom assim

Por Lucas Scaliza

“Vai se foder, idiota”, canta a menina no refrão logo da primeira faixa de seu primeiro disco, em um clima de festa de debutante. Sucker é o segundo disco completo lançado pela britânica Charlotte Emma Aitchison, conhecida nos palcos como Charli XCX. Seu novo disco, uma ofensa declarada (“sucker” é um dos termos para idiota em inglês), vem com um ar de contestação jovial e vontade de criticar o status quo. Bem contesta bem de leve… você quase não sente.

A balada da faixa introdutória se estende também para a segunda, “Break the rules”, onde ela diz que não quer ir para a escoa e canta sobre dançar na discoteca, onde a moçada fica chapada e se acaba. Embora seja uma música para a pista, há um ritmo e uma progressão de acordes bem simples que lembra punk rock. Uma passagem só ao violão – tocando bem secamente – confirma isso.

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“London Queen”, a terceira faixa, é praticamente um tributo ao punk inglês. Acelerada, guitarra sujinha e com distorção. Na letra ela fala sobre viver nos EUA, viver o American way of life, e levar uma vida de rainha. Há uma certa ironia aqui – a pegada punk rock da canção evocaria isso por si só, mas – que fica clara quando ela canta “E quando estou dirigindo pelo lado errado da estrada, me sinto como o JFK, sabe?”.

Sucker é bem direto. São 40 minutos de música em 13 faixas. Há guitarras e efeitos eletrônicos espalhados por todo o disco. Ela não chega a ser punk e nem eletrônica totalmente, ficando na divisão entre os dois. É bom deixar claro que o público perseguido pela inglesa são os adolescentes, os mesmos disputados a tapa por Selena Gomez, Taylor Swift, One Direction, Ariana Grande e Kate Perry, entre tantos outros. Por isso, as músicas fluem sem muita sofisticação na composição e na estrutura, deixando tudo bastante familiar. O diferencial dela é trazer o punk rock para a música ultrapop de pista. Mas é um punk rock cor-de-rosa, com glamour, com brilho, de salto alto e de Melissa nos pés. Existe a simplicidade e objetividade punk, mas permeado de elementos pop para adolescentes.

“Breaking up” é um rock de termino animado, com clima de festa de colégio norte-americano. “Gold coins” é um exercício de imaginação para o caso da personagem da música, que pode ser a própria Charlotte ou algum garoto/a que esteja ouvindo, ficar milionária. A neozelandesa Lorde, que é amiga de Charli XCX, fez músicas sobre isso também, mas rejeitando a ostentação e denunciando o vazio da situação. Charli é menos safa e apenas imagina docemente, sem querer dizer muita coisa com isso, aparentemente.

“Boom Clap”, “Doing it” e “Famous” dão um tempo na pega Ramones e Sex Pistols para voltar àquela baladinha debutante do início do álbum.

Para fazer este álbum, Charli contou com a ajuda de Rivers Cuomo, do Weezer, e Rostam Batmanglij, do Vampire Weekend. Ela, uma artista do pop indie, recebendo ajuda de dois artistas do mundo indie também. E já falamos da conexão com a Lorde – que até escalou uma música dela para a trilha sonora de Jogos Vorazes – A Esperança Pt. 1. Mesmo assim, percebe-se uma imaturidade bastante grande. Apenas “London Queen”, por conta da referência punk, e “Body of my own”, com um ritmo mais interessante e orgânico, soam mais autênticas. O restante de Sucker deixa um espaço para ser preenchido futuramente.

Charli XCX declarou que o disco é, no geral, para garotas. Ela quer que as meninas sintam-se poderosas e capazes. É um direcionamento bastante pertinente com os dias de afloramento feminista que vivemos. Até mesmo sua turnê pelos EUA se chama Girl Power Tour. Contudo, as letras de Charli não são como as de Lorde – nem mesmo como as de Cuomo – e carecem de melhor conteúdo e melhor escrita. Seja no pop, no punk ou nas letras, Charli XCX se rende sempre ao mais fácil na grande maioria das vezes. Poderia ter sido melhor, bem melhor, para que ela pudesse provar não que as mulheres são capazes de tudo (nós já sabemos disso), mas para mostrar que ela poderia ser uma voz diferente na vastidão do pop descartável. Sucker não consegue ser nem feminista e nem tão bom assim.

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Warpaint – Warpaint (2014)

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Quatro mulheres em uma banda de post-rock climático e espacial

Por Lucas Scaliza

O que acontece se misturarmos o dream pop quase minimalista da Lorde com o vigor eletrônico do Chvrches, acrescentar o tipo de som feito pelos parceiros Nigel Godrich e Thom Yorke no Atoms For Peace ao modo econômico de tocar das meninas do Savages?

Muito difícil saber o que daria isso tudo – mas também é uma questão retórica, é verdade. Entretanto, é misturando esses quatro nomes da música contemporânea que encontraria um modo de sintetizar como as quatro meninas do Warpaint soam em seu segundo disco, Warpaint, lançado em janeiro.

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Vou explicar melhor. Assim como o Savages, O Warpaint é formado por quatro meninas: Emily Kokal (vocal, guitarra, sintetizadores), Theresa Wayman (guitarra, vocal, teclado), Jenny Lee Lindberg (baixo) e Stella Mozgawa (bateria, guitarra). Elas não demonstram virtuosismo nos instrumentos e nem grandes habilidades técnicas, novamente como a Savages. No entanto, o modo como expressam suas composições, misturando elementos orgânicos e eletrônicos com uma sofisticação que foge do pop acessível lembra o Atoms For Peace. Não é a toa que Nigel Godrich (que é parte da banda Atoms e produz Radiohead e os discos solo de Thom Yorke) assina também a mixagem de duas faixas de Warpaint, a ótima “Love is to die” e “Feeling alright”. O resto do álbum foi produzido por Flood, que já trabalhou com gente classuda como PJ Harvey, U2, Nick Cave & The Bad Seeds, Depech Mode, Nine Inch Nails, New Order e Sigur Rós. Por aí já fica claro como as meninas conseguiram expressar tão bem um clima espacial e minimalista ao longo de todo o disco.

O minimalismo, as ótimas e gentis linhas de baixo e o desapego por vocais chicletes lembram um pouco Pure Heroine da Lorde. Warpaint tem a mesma desafetação e certa austeridade que o disco da neozelandesa. Já o vocal de Emily Kokal não é poderoso como o de Lorde, mas doce e suave como o de Lauren Mayberry, do Chvrches. Aliás, Lauren fez uma resenha para este disco a pedido do site The Talkhouse.

Nada no álbum é estridente. Ouvi-lo é como vagar pela superfície da lua dentro de uma bolha. O vocal de Kokal ajuda a embalar, assim como as batidas contidas de Mozgawa e as notas graves de Lindberg, que são o maior destaque da banda. Não são músicas explosivas ou com refrãos cantaroláveis logo à primeira audição. Ao contrário, há uma certa imprevisibilidade. Os ritmos podem mudar, as melodias de voz também. Não há segurança que tudo se repita até o fim naquela estrutura de música pop previsível (uma estrutura que ajuda o ouvinte a se localizar, a acompanhar a canção e a fazê-la parecer mais digerível). Até mesmo “Love is to die”, o single, tem essas características.

“Biggy”, “Disco/Very”, “Feeling alright” e “CC” são faixas bem climáticas e bastante noturnas. “Drive” é a única que caminha para um momento de real exacerbação sonora e “Son” é a única que adiciona uma carga maior de drama ao post-rock do álbum. Você sente a presença do eletrônico, mas a todo momento é lembrado que há uma banda executando tudo ali (ou pelo menos a maioria dos instrumentos que ouve). Por mais especial e etéreo que soe, as músicas em Warpaint foram todas compostas pelas quatro integrantes reunidas no estúdio e fazendo jam sessions, descobrindo juntas onde aquelas ideias as levariam. Método mais terreno e orgânico que esse não há.

Além dos experientes Flood e Godrich, as meninas foram ajudadas também logo no início da carreira por John Frusciante (ex-guitarrista do Red Hot Chili Peppers que lançou o experimental Enclosure este ano) e Josh Klinghoffer (atual guitarrista do RHCP e parceiro de Frusciante). Frusciante mixou e masterizou o EP Exquisite Corpse (2008), cujas guitarras e baterias foram tocadas por Klinghoffer.

Se não descer na primeira vez, tente de novo alguns dias depois. Assim como o Atoms For Peace, o processo de se acostumar com o diferente é recompensador.

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