eletronica

Calvin Harris – Funk Wav Bounces Vol. 1 (2017)

Um estrangeiro passeando em terras americanas

Por Gabriel Sacramento

Um novo disco do Calvin Harris é quase um megaevento que deixa pessoas de várias partes do mundo em estado de alerta. Afinal, todos querem saber o que o DJ mais bem pago da atualidade tem pra dizer com seu novo conjunto de músicas. E depois dos dois últimos discos, estádios lotados, festivais grandiosos, singles de sucesso estrondoso – como “How Deep Is Your Love” – e recordes quebrados, o artista escocês parece bem acostumado com o sucesso e todo o buzz envolvendo seu trabalho e sua vida artística. Acostumado, mas não acomodado. Pelo menos não mais.

Em seu novo álbum, Funk Wav Bounces Vol. 1, o produtor reuniu um all-star team de artistas que têm se destacado na música americana recentemente e coordenou a equipe para chegar a um álbum com influências de funk, disco e neo-soul. Sim, o cara decidiu resgatar referências de décadas passadas, o que não é de longe algo novo, mas não deixa de ser válido quando feito com honestidade e competência.

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“Slide” surge com vocais de Frank Ocean e raps do trio americano Migos. A sonoridade é bem fortemente pontuada pelo baixão firme, um Ibanez tocado pelo próprio Harris. Temos teclados para fornecer um quê de lounge à faixa também – lounge que remete instantaneamente à dobradinha D’Angelo e Maxwell – e as vozes funcionam bem dentro desse esquema sonoro. “Rollin” foi fruto da cooperação de Harris com o rapper Future e com o jovem Khalid. É uma boa faixa R&B, charmosa e elegantemente simples. “Feels” é totalmente ambientada no fim dos anos 70 e começo dos anos 80, quando as pessoas costumavam frequentar clubes e dançavam sob um globo brilhante. Nesta cantam Pharrel Williams, Katy Perry e o rapper Big Sean. “Cash Out” surge num contexto mais hip-hop clássico, com os raps de SchoolBoyQ, PARTYNEXTDOOR e DRAM. “Faking It” tem os vocais da Kehlani e é uma boa faixa que podia estar no primeiro álbum dela. Assim como “Holiday” podia estar no Bush do Snoop Dogg, que nesta destila seu flow acompanhado das melodias de John Legend. “Hearstroke” é uma das melhores faixas do ano, muito por causa da interação vocal de Ariana Grande com Pharrel Williams em um jogo suave de vozes.

Em seu novo disco, Calvin parece respeitar bastante os limites e ideais criativos de cada artista, deixando que cada convidado trazer um pouco de seu mundo e fazendo deste Vol. 1 um mergulho bem sucedido do europeu no oceano da música americana. Pode ser entendido também como uma viagem de um turista aos Estados Unidos, guiada por vários residentes do país, que em cada faixa situam o estrangeiro no que há de melhor na música negra produzida nos últimos 40 anos. Vale lembrar que Drake fez algo parecido este ano, experimentando com estilos de outros países, e se deu bem. Funk Wav Bounces teve um processo de concepção diferente dos últimos trabalhos, principalmente porque Harris ficou exclusivamente encarregado da produção, o que ajudou a  direcionar melhor o produto final. Ele também tocou uma série de instrumentos, incluindo o clássico Fender Rhodes e uma guitarra Fender Stratocaster 1965 – cruciais para que ele alcançasse esse som especialmente vintage.

Se afastando da artificialidade dos samples e sintetizadores grandiosos, Harris dá um passo um tanto arriscado rumo à expansão criativa, experimentando com música orgânica, ensolarada e com os balanços corporais que este tipo de música pode provocar. Uma ótima pedida para quem admira artistas que transcendem limites geográficos para elevar o nível de sua forma de expressão.

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Lorde – Melodrama (2017)

A perda da inocência: a nossa, a da juventude e a de Lorde

Por Lucas Scaliza

Faz quatro anos que Pure Heroine (2013) foi lançado. Chegou como quem não queria nada e foi galgando seu espaço naturalmente. A então jovem Ella Marija Yelich-O’Connor não era nada (nem famosa em redes sociais), mas tinha um disco com produção esperta, um acordo com a Universal e letras ainda mais espertas sobre a juventude. O sucesso a tirou da periferia do mundo pop e da sua Nova Zelândia natal para colocá-la entre pessoas, lugares e festas badalados em Londres, Nova York e Los Angeles. As ~inimigas~ Taylor Swift e Katy Perry viraram amigas de Lorde, a garota dos então cabelos volumosos.

Seria muita inocência de nossa parte achar que quatro anos depois Lorde seria a mesma pessoa e faria a mesma música. Seríamos como os adolescentes em “Perfect Places”, que tomam drogas (lícitas e ilícitas) e fazem sexo para esconder algo que falta a eles. O sucesso alcançado por ela foi estrondoso e uma estrutura de mídia e marketing foi criada em torno de Lorde para atendê-la. Melodrama é mais pop e menos dream pop, de fato. Isso se revela fácil para quem ouvir “Green Light” e tiver ouvidos e coragem para reconhecer que diversas outras partes de outras músicas são bem comuns do pop que se faz atualmente. No entanto, há uma boa quantia de indie e eletrônica que ainda resguardam não o Pure Heroine em si, mas o jeito como Lorde se expressa, chegando a soar alternativa.

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Lorde também não é inocente: teve que dar algo ao mercado, à gravadora e aos fãs que fosse capaz de “moldá-la” a um padrão. Perdeu-se um pouco da originalidade, mas no miolo do álbum existem boas ideias e um fio condutor que fazem Melodrama valer a pena. “Sober”, sobre uma relação que está se desfazendo e como isso fica claro quando o casal não está sob efeito da bebida, é o primeiro vislumbre da Lorde que aposta no diferente e no fora do comum. No mundo ideal – da gravadora -, “Sober” nunca seria um single. “Homade Dynamite” tem uma pega derivada do R&B que a cantora tanto gosta, mas é bem esquisitinha no final das contas, virando umas esquinas inesperadamente.

“The Louvre” é um belo trabalho de produção, procurando, em certo ponto, como emular as reverberações de uma festa real. “Hard Feelings/Loveless”, a música que marca o rompimento que vem se desenhando, é quando o melhor dream pop de Lorde emerge e nos faz reverenciar sua habilidade de fazer uma boa canção que não se rende ao pop fácil. “Write In The Dark” coloca o vocal de Lorde em primeiríssimo plano. No refrão, ela sobe e desce a escala e lembra que sim, é uma cantora e tanto, e que isso também foi um dos fatores que a ajudou a ser uma estrela. Por fim, “Supercut”é a evolução mais natural do estilo oferecido em seu primeiro álbum e lapidado agora para uma segunda obra mais madura.

A história do disco se passa durante uma dessas festas de jovens em uma casa, quando os adultos não estão por perto e os convidados se pegam, brigam, se amam, vão pra cama, bebem e tomam drogas. No meio disso tudo, Lorde rompe com o namorado (ela realmente passou por um grande término nos últimos dois anos), pensa a respeito, vai e volta da festa, e reflete sobre como é estar só. Quem julgar apenas pelas faixas mais baladeiras vai perder toda a parte mais interessante de Melodrama.

Se para construir sua imagem grandes equipes foram contratadas, quase todo o som do álbum foi criado de forma íntima, com Lorde e o produtor Jack Antonoff sendo responsáveis por quase tudo, desde as letras e os acordes até as intervenções eletrônicas. Isso garante que mesmo que nós, a Lorde e a juventude das festas já não sejamos mais tão inocentes assim com a vida, com o amor e com o que a neozelandesa se tornou, sua música ainda reflete sua sinceridade. Talvez de forma não tão criativa e cortante quanto antes, mas ainda assim bastante íntegra.

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Dua Lipa – Dua Lipa (2017)

Mais do mesmo deluxe edition

Por Gabriel Sacramento

Lembro-me de ver em algum lugar uma crítica a respeito da necessidade de lançamentos de edições deluxe de álbuns hoje em dia, já que boa parte do consumo se dá por meios digitais – downloads ou streaming. A crítica é válida. Afinal, não seria melhor para os artistas tornar os trabalhos mais enxutos? As audições por meios digitais cresceram e as audições de álbuns inteiros diminuíram, afinal as pessoas estão mais acostumadas a conferirem os singles e seus clipes no YouTube do que parar o que estiverem fazendo para encarar 50 minutos de música ininterrupta. Claro, cabe um parêntesis, versões deluxe são até interessantes quando se tratam de álbuns de bandas clássicas – como o Led Zeppelin que lançou em 2014 uma séries de edições de luxo dos seus discos antigos -, mas seria isso viável para discos de estreia ou discos de artistas novos?

Feitas as devidas considerações acerca deste assunto, vamos adentrar no objetivo principal este texto: o primeiro disco da cantora inglesa de origem albanesa, encarada como revelação pop, Dua Lipa. Começou a carreira postando na internet covers de Cristina Aguilera e Nelly Furtado e entre 2015 e 2016 já fazia bastante sucesso sem nem ter lançado o primeiro álbum ainda. Seu som vai na direção mais pop padrão e mesmo que ela tenha descrito sua própria música como dark pop, sua veia é bem alto-astral e colorida, salvo pouquíssimos momentos mais sombrios.

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“Genesis” já mostra o tom do álbum. Batidas simples, economia de elementos no arranjo e foco na voz da cantora. Mas a interpretação parece deixar algo faltando e não encanta. “Lost in Your Light” tem uma base até interessante, meio distante. A faixa marca a presença do cantor Miguel, com seu ótimo timbre vocal contrastando com a voz feminina. No refrão, as coisas melhoram um pouco e não é tão sem sal quanto a primeira. “Blow Your Mind (Mwah)” e seus vocais dobrados também não surpreendem, não sendo nada diferente de qualquer coisa que já ouvimos no pop moderno. Principalmente porque parece algo que poderia ter entrado no último disco da Meghan Trainor.

“Garden” é o tipo de música que requer uma entrega mais emocional do vocal, necessidade que Dua Lipa acaba não satisfazendo. “Thinking ‘Bout You” troca a instrumentação mais eletrônica por um violão. A canção parece que vai engatar, mas esbarramos, mais uma vez, na falta de uma expressão vocal mais emocionante. “Begging” também é fraca, só não esquecível por causa da base que tem um quê de dream pop, um pouco obscuro até. Por fim, “Homesick” acaba sendo a melhor faixa, com a cantora indo além com seu vocal em termos de interpretação, enquanto um piano sustenta a base. A faixa ainda ganha um vocal masculino ao fundo, novamente oferecendo um contraste interessante.

Dua Lipa foi lançado em versão deluxe no Spotify. Cinco faixas extra, sendo que delas, só uma tem algo realmente interessante a ser destacado neste texto: “Room For 2”, com vocais monocromáticos, ambientados de uma forma diferente, muito na frente na mix, mas com efeitos que mascaram e não deixam tão limpinhos quanto os vocais principais. Além dessa boa sacada, a canção também possui uma batida simples, lenta e marcante, em staccato e com um groove sutil. O resto das faixas da edição de luxo é tão líquido e esquecível quanto boa parte das faixas principais.

E isso nos leva de volta à discussão: é mesmo necessário lançar uma versão deluxe com mais músicas de um disco com um número já satisfatório de faixas (12)? Existem tantos fãs hardcore assim que fazem compensar a produção dos deluxes? No caso da Dua Lipa, a versão traz mais do mesmo do que ouvimos no disco, o que torna a experiência ainda mais penosa e difícil de agradar, pois dá a impressão que ela fica o tempo todo repetindo sua fórmula, que já não é tão rica e diversificada assim.

No mais, além das muitas faixas, Dua Lipa acaba seguindo a onda do pop padrão com bases felizes e dançantes, sem uma renovação de ideias que poderia ser decisiva para animar o ouvinte um pouco mais ou surpreendê-lo. Tudo é muito polido e bem produzido, com um som tão limpo quanto o rosto da cantora na foto da capa, mas o disco parece não querer ser nada além do que simplesmente isso: um disco pop bem feitinho. A “cosmética” acaba superando a capacidade de expressão, afinal.

Sendo seu primeiro trabalho, não sabemos o que será dela no futuro, mas seu sucesso e bom reconhecimento na imprensa – em grande parte por causa dos singles – nos permite supor que ela continuará investindo no pop fácil. No final, o primeiro disco da inglesa acaba sendo um álbum que pode até te fazer dançar ou curtir um pouco em uma audição descompromissada, mas não será lembrado como um álbum de grandes canções.

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Ulver – The Assassination Of Julius Caesar (2017)

Coletivo norueguês faz primeiro disco pop e eletrônico como ninguém esperava

Por Lucas Scaliza

É, sem dúvida, o disco mais acessível do Ulver em anos. “Nemoralia” e “So Falls The World” poderiam estar tranquilamente em um disco do Depeche Mode. Embora o instrumental seja bastante rico em clima, não é tão experimental como o anterior, ATGCLVLSSCAP (2016) e volta a apostar em melodias de voz. Em “Rolling Stone” rola inclusive uns vocais mais R&B dentro de um contexto bastante eletrônico e cheio de groove. E em “Transverberation” a banda traz um pouco dos anos 80 a uma faixa que parece ser a coisa mais acessível e comercial que já fizeram (e isso não é uma crítica).

The Assassination Of Julius Caesar é o álbum que melhor pode cair no gosto de um novo ouvinte, embora não seja exatamente um bom mostruário do que é e do que já fizeram esses noruegueses. O novo álbum carrega o DNA exploratório da banda, indo na direção do pop e da música eletrônica dessa vez, mas não deixa entrever as influências mais eruditas, religiosas e metaleiras que nortearam álbuns passados.

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A verdade é que o interesse musical do Ulver é tão vasto que fica completamente impossível prever como cada novo álbum soará. Rotular a banda então, é uma tarefa fadada ao fracasso. Nem mesmo adjetivos como “progressivo” e “fusion” parecem se encaixar mais frente um álbum como este, que faz o favor de ampliar ainda mais o espectro sonoro da banda. Se você for um baladeiro hardcore, vai encontrar até seções dançantes dessa vez.

O álbum foi gravado em Oslo e mixado em Londres. Do coletivo Ulver, quatro músicos fizeram as gravações. Outros nove foram recrutados para tocar guitarra, saxofone e as vozes femininas de Rikke Normann e Sisi Sumbundu. Ivar Thormodsæter gravou todas as baterias e Anders Møller foi o responsável pela percussão em todas as faixas.

Apesar do apelo pop do som, as temáticas são bastante cabeçudas, como sempre acontece aos conceitos que norteiam os trabalhos do Ulver. Então desde ligações entre a morte da princesa Diana e o mito da deusa grega Artemis, tentativa de assassinato do papa João Paulo II em 1981, e até a Igreja de Satã de Anton LaVey em São Francisco.

Então é isso: não dá para vislumbrar tudo o que o Ulver é por meio de The Assassination Of Julius Caesar, mas é uma forma de entrar em contato com algumas de suas características. Flertar com o pop e ir um pouco mais fundo no eletrônico não soa como heresia e nem como provocação, mas mais um passo na exploração sonora. Já há bastante tempo, é isso que, no final das contas, o Ulver curte fazer.

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Nelly Furtado – The Ride (2017)

Parceria com John Congleton na produção ajuda a oxigenar repertório da canadense

Se você tem entre 23 e 30 anos, deve se lembrar do sucesso estrondoso que músicas como “I’m Like a Bird” e “Turn Off The Lights” fizeram na década passada. Foram presenças obrigatórias em qualquer programação de rádio e de TV. A canadense Nelly Furtado se infiltrava em nossas mentes com um timbre de voz muito peculiar e um pop leve e gostoso. Embora tenha mantido uma carreira exitosa, colecionando prêmios e lançando até músicas em espanhol (estratégia para chegar a novos mercados), passei mais de uma década sem ouvir um novo trabalho de impacto de Furtado. Seu retorno ao meu radar ocorreu ano passado, quando emprestou sua voz para a linda “Hadron Collider”, do Blood Orange. Foi com essa canção que senti saudade de seu vocal.

Mas The Ride não é Freetown Sound (2016). Não é um álbum engajado ou emocionalmente pesado. O que Nelly Furtado fez em “Hadron Collider” mostrava uma capacidade técnica que acabou escondida do resto de sua discografia. Apesar disso, seu novo disco te convida a embarcar de carona em uma jornada pop bem divertida e bem gostosa, embora pouco ambiciosa.

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Em parceria com John Congleton, um produtor apresentado à canadense por intermédio de St. Vincent, Furtado pôde conceber boas composições que se beneficiam de ótimas melodias (como em “Carnival Games” e no excelente refrão de “Flatline”) e produção que traz algo levemente alternativo. Chama a atenção que não tenham caído do ultrapop até mesmo em canções que parecem pedir uma produção mais encorpada, como é o caso de “Live” e “Palaces”.

Congleton não pesa a mão e soube encaixar seu estilo nas faixas de The Ride sem perder de foco o que há de mais característico em Nelly Furtado. “Paris Sun”, “Pipe Dreams” e “Right Road” são mais a cara de Congleton do que da cantora, o que ajuda a dar uma oxigenada no disco. E embora não alcance a mesma qualidade etérea que demonstrou na colaboração com Blood Orange, Furtado chegou muito perto disso em “Phoenix”, a primeira música que compôs para o disco e que serve de despedida em The Ride.

Fica a impressão de que esse “passeio” serve para nos lembrar como ela é flexível dentro do pop, se aproximando e se afastando da música eletrônica de acordo com o que cada faixa pede, elevando e diminuindo a quantidade de elementos mais alternativos de sua música para encontrar um equilíbrio para o álbum. Não é, contudo, um disco em que ela aposta suas fichas em algo totalmente novo. A parceria com Congleton dá uma estilizada em seu som, porém os frutos não caem tão longe assim da árvore que nutriu com seus cinco discos anteriores.

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Silja Sol – Ni Liv (2017)

A língua norueguesa nunca soou tão fluida

Por Lucas Scaliza

Há uma enorme carência de material sobre a cantora Silja Sol em língua inglesa na internet. Em português então periga de esta resenha ser uma das únicas referências a ela que você vai encontrar. A norueguesa de 26 anos é uma ariana que canta na língua de seu país, o que parece limitar seu alcance à terra dos fjordes e países escandinavos, mesmo fazendo um som de bom gosto e bastante abrangente.

Ni Liv é totalmente dedicado ao eletropop direto mesmo quando tende mais ao indie. E apesar de ter várias faixas animadas e com potencial comercial, ela não fica se repetindo à exaustão. Com uma proposta bastante coesa, o álbum se mostra até que bastante exploratório, apostando tanto em produções mais alternativas (“Gymsko” e “Omveien”), baladas indie (“Ni Liv”), camadas mais sonhadoras (“Ta Fyr”, “Dyrene” e “Si Det”) e pop jovial e colorido (“Semmenemme”). Dá para perceber também que há uma mescla da produção esmerada e confiante do eletrônico nórdico – pensou em Robyn? Susanne Sundfør? Ou Röyksopp? Pois é! –, mas também algo da música pop francesa que se anuncia aqui e ali, na leveza com que desenvolve as melodias, na forma como se faz cativante mas evade os refrãos chicletes e as produções exageradas. “Eventyr” talvez seja a música mais linear do disco, mas é a que melhor ilustra essa influência francesa.

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Aliás, o norueguês cantado lembra bastante também o francês cantado. É diferente do sueco, do islandês e do finlandês, outras línguas escandinavas, que soam mais angulosas devido à ênfase nos sons das consoantes.  A boa e gentil voz de Sol também contribui para que seu lirismo seja fluido.

Em termos de gênero musical, Ni Liv abraçou a produção eletrônica e o dream pop. Ao longo de seus 28 minutinhos você sabe que tudo ali são programações eletrônicas, baixos sintéticos e muitos sintetizadores e teclados. E, é bom deixar claro, todos operados buscando timbres interessantes e texturas condizentes com o coração sonhador da obra imaginada por Silja Sol. É um álbum bem diferente de Væremeh (2016), que tem mais elementos orgânicos, embora já tivesse sua dose de eletrônica. Se no álbum de 2016 o lado alternativo era bem pronunciado, agora ela o adaptou para um contexto mais pop e mais bem acabado. É notável que há mais know-how envolvido em Ni Liv do que em seus dois álbuns pregressos.

Silja Sol começou a tocar violão aos 15 anos e aos 16 fez sua primeira letra em inglês. O instrumento serviu como forma de guiar suas composições e de dar um background harmônico à sua voz. O inglês ela abandonou para ficar com o norueguês e, assim, deixar clara sua identidade como artista. Embora música seja sua principal ocupação, ela divide seu tempo com aulas, com uma outra banda chamada Aurora e um trabalho no cinema de sua cidade natal, Bergen. Suas influências vão desde Eva Cassidy até Kendrick Lamar, passando por Amy Winehouse, Alicia Keys e Arcade Fire.

Vale a pena conhecer Ni Liv e se deixar levar por suas batidas e camadas sonoras. A princípio pode parecer que seu pop é um tantinho torto, mas não demora a percebermos que são esses passos fora da regra que definem que tipo de artista ela parece querer ser: aquela que é pop o suficiente, mas não se deixa engolir pelas convenções do gênero. Ah, e o norueguês nunca soou tão fluido.

JFDR – Brazil (2017)

Islandesa faz belo disco íntimo preferindo a tessitura e o feeling ao invés da extensão

Por Lucas Scaliza

“White Sun”, que abre Brazil, deixa entrever que tipo de artista é a islandesa JFDR. O compasso é 2/4 e ao invés de usar os ciclos de quatro compassos para formar uma frase, ela usa um padrão de cinco (caso curta Radiohead, você ouviu esse padrão de cinco nos versos de “Reckoner”), cada acorde bem marcado pela nota cabeça do teclado. O ritmo é marcada por microbatidas. Há um dedilhado de guitarra tímido, que só toma o holofote nos últimos segundos da canção. A melodia parte de notas altas e vai ficando cada vez mais grave conforme se aproxima do fim de cada ciclo. É um mantra, mas um mantra difícil de repetir. A voz da cantora é frágil, um sussurro. O que se percebe é que há uma personalidade ali que pode sim refutar alguns padrões, que se preocupa em criar a atmosfera correta para o trabalho e não tem ansiedade em disparar hits ou faixas comercialmente mais adequadas para o ouvinte. E a produção é excelente, mesclando dream pop com música abstrata e eletrônica sem parecer atropelada. Há algo de estranho? Há, mas não perde o toque de veludo.

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JFDR é uma simplificação de seu nome, Jófríður Ákadóttir. Aos 14 anos, ela fundou a banda Pascal Pinon junto da irmã gêmea e o grupo já tem quatro discos lançados. Ela também é a voz do grupo eletrônico islandês Samaris e já colaborou com as bandas Gangly e Low Roar. Além da voz, pode contar com algumas habilidades no clarinete, teclado, violão e guitarra. Desde 2015 se dedica à carreira solo e já chamou a atenção de Björk, nada mais, nada menos que a principal embaixadora da música da Islândia. Tudo isso com apenas 22 anos de idade. Brazil fez dela um talento a se observar em 2017.

Em seu primeiro voo solo, JFDR parece evocar algum tempo de elo entre passado e presente de Björk, entre a fase mais eletrônica e em que utilizou microbatidas e a fase em que passou a compor mais arranjos para instrumentos de orquestra. É impossível não sentir a influência dela. Também é fácil perceber como ela difere da conterrânea: Björk mostra um registro vocal mais alto, mais agressivo e expansivo. Já JFDR constrói seu disco apostando principalmente na intimidade de seus sussurros. “Instant Patience” é uma das melhores músicas do disco e também uma das que mais lembram Björk em suas músicas mais contemplativas. O estilo tímido chega ao limite em “Wires”, quando a voz é quase um sopro e tem-se a impressão de que a vida vai deixar o corpo a qualquer momento, e em “Anything Goes”, quando o fiapo de voz quase chega a falhar.

Faixa após faixa, ela nos mostra que sua música vem das vísceras de sua alma. Não é um estouro de som e pode mesmo parecer meditativo em muitos momentos, mas guarda certa tensão no que canta e nos sons que emprega para emoldurar sua performance, como as saturações elétricas de “Higher State”, as batidas assimétricas de “Airborne” e os ruídos que perpassam toda a harmonia de “Destiny’s Upon Us” como fios elétricos numa paisagem urbana.

Embora siga na trilha de Björk, misturando os rastros já explorados por ela e incorporando tendências do indie pop atual – sem esquecer de dar aquele toque de design sonora tão típico dos islandeses –, JFDR constrói Brazil de forma bastante consciente de suas limitações, mas muito bem arquitetado. Mesmo os vídeos possuem sacadas e poesias visuais muito interessantes e estranhas também, mas contribuem com a iconografia nascente da carreira solo de Jófríður Ákadóttir.

Ainda há muito mais para se ver de Jófríður, seja como JDFR ou em suas outras bandas. Ela não parece ter ambições megalomaníacas ou que possam colidir com as delicadas estruturas do que constrói em Brazil. A garota aprendeu logo que começou a gravar o álbum que sua música não precisava ser perfeita, mas tinha que ter feeling. E feeling, textura e tessitura é tudo o que ela entrega com um punhado de boas canções.

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