especial

Jimi Hendrix – Are You Experienced faz 50 anos

50 anos da explosão cósmico-psicodélica que gerou o Jimi Hendrix Experience (e mudou o blues rock)

Por Gabriel Sacramento

Jimi Hendrix era um guitarrista tentando ganhar a vida com r&b nos Estados Unidos na década de 60. Seu talento já era notável, mas ainda não tinha chamado a atenção de ninguém. Isso mudaria quando Linda Keith, namorada do Keith Richard, viu Jimi empunhar sua guitarra em uma apresentação, ficou surpresa e começou a recomendá-lo. O primeiro interessado foi o ex-baixista do The Animals, Chas Chandler, que decidiu montar um grupo para Hendrix na inglaterra e então gravar um disco. Chandler chamou Mitch Michell para a bateria e Noel Redding (que era guitarrista) para tocar baixo. O trio lançou “Hey Joe” e “Purple Haze” como os primeiros singles. “Hey Joe”, inclusive, foi uma das primeiras que Chas ouviu do trio e pesou significativamente na decisão dele de empresariá-los.

O álbum começou a ser gravado em outubro de 66, passando por dezesseis sessões em três estúdios diferentes de Londres: De Lane Lea Studios, CBS e Olympic. O trio passou mais tempo neste último pois, segundo Chandler, era acusticamente melhor e tinha um equipamento melhor. Are You Experienced é caracterizado por muito uso de overdubs, principalmente nos vocais de Jimi, que não era muito confiante quanto às suas habilidades para cantar. O disco também possui diferentes estilos de mixagem das faixas e timbres dos instrumentos. O estilo de mix varia, por exemplo, em algumas faixas: em algumas músicas, o vocal está voltado para um dos lados; em outras, a sensação é de que tudo se encontra centralizado na mesma região, para gerar o som ruidoso característico.

Como na teoria cósmica do Big Bang, que afirma que a energia se uniu em um único lugar e deu origem à algo enorme e complexo como o universo, Are You Experienced também foi uma explosão. Uma explosão psicodélica, roqueira e intensa que deu origem ao blues rock mais pesado com uma ênfase maior na guitarra e ao reconhecimento do trio Hendrix-Mitchell-Redding. O blues rock já existia, é verdade. Muitos atribuem o nascimento do estilo ao álbum Blues Breakers With Eric Clapton do John Mayall, lançado no ano anterior. Mas mesmo assim, a versão mais efervescente do estilo, guitarreira, garageira e cheia de efeitos começaria com Hendrix e com Are You Experienced, influenciando diversos outros guitarristas de diferentes gerações como Jeff Beck, Richie Kotzen, Gary Moore, Robin Trower, o próprio Clapton, entre outros.

Are_You_Experienced_-_3.png

O ÁLBUM

“Foxy Lady” foi gravada em uma sessão, com exceção de alguns overdubs. A canção começa energética, com o vocal do Jimi de um lado só na mix e a porradaria instrumental centralizada. A lisérgica faixa-título se destaca por seus efeitos e técnicas, que até lembram um pouco as que os Beatles usaram em Revolver. Dentre as faixas mais famosas, temos um dos riffs mais icônicos do rock em “Purple Haze”, com uma verdadeira explosão roqueira psicodélica e a voz do Hendrix do lado direito da mix.

Mesmo sendo cantada de uma forma até rústica, as melodias são marcantes, bem como o domínio guitarrístico do músico. Em “Third Stone From The Sun”, eles resolveram brincar com bateria de jazz e frases jazzistícas de guitarra a la Wes Montgomery. É uma das canções que destacam o lado técnico do guitarrista e sua versatilidade. A faixa é bem longa e possui várias variações no meio, onde a lisergia e a psicodelia tomam conta.

“Stone Free” é aquele blues rock empolgante, arrasa-quarteirão, com um refrão inconfundível. Em uma das performances mais legais do álbum, Mitch Michell ganha espaço e brilha em “Fire”, que também se destaca pelo seu refrão bem pra cima, com vocais de fundo e um delicioso walking-bass. A balada “The Wind Cries Mary” foi a primeira balada gravada para o álbum. É bem envolvente e fala sobre uma discussão que Hendrix teve com sua namorada, de nome Mary. O blues “Red House” foi gravado com duas guitarras e uma bateria, com uma das guitarras fazendo base na região mais grave para suprir a falta do baixo. E é quase impossível falar de Jimi Hendrix e de Are You Experienced sem citar “Hey Joe”, canção cover que ficou super famosa, mezzo folk, mezzo soul, sem refrão e com uma letra bem marcante: conta a história do personagem Joe, que atirou na esposa porque estava traindo ele e agora tem de fugir para o México para se safar. A letra traz um diálogo entre Hendrix e Joe.

Are You Experienced parece mais uma coletânea do que um simples álbum. As canções se tornaram clássicos do rock e mostraram ao mundo que o trio tinha um potencial incrível. O álbum brilha mesmo com a sonoridade abafada e os timbres sujos, pois toda a energia e aspecto roqueiro provém das mãos afiadas dos três músicos, que juntos soam mais barulhentos que muita banda completa por aí.

Are_You_Experienced_-_4.jpg

LEGADO
O primeiro álbum do Jimi Hendrix Experience é até hoje cultuado como um dos maiores álbuns do rock. A revista Mojo elegeu o disco como o principal álbum de guitarra de todos os tempos. A Rolling Stone também classificou o álbum como décimo quinto na lista dos 500 maiores de todos os tempos e várias faixas como algumas das maiores canções de todos os tempos. Muitos jornalistas afirmam categoricamente: O álbum é um dos definitivos da era psicodélica.

Vale lembrar também de todo o reconhecimento da comunidade guitarrística ao redor do mundo, Are You Experienced é um dos álbuns usados como prova em muitas discussões para afirmar que Jimi Hendrix foi o maior guitarrista vivo. O jeito como o músico abordou a guitarra, com toda aquela excentricidade e criatividade, mudou a forma como as pessoas olhariam para o instrumento e deu uma nova função para as seis cordas dentro do rock.

O guitarrista Gary Moore foi um dos grandes influenciados pelo Hendrix, e demonstrou isso quando gravou o álbum Blues For Jimi em 2012. Um álbum ao vivo com as faixas mais famosas do Hendrix sendo executadas com uma timbragem moderna, mas uma abordagem perfeitamente fiel ao original. A homenagem do Moore só mostra o quão importante Jimi Hendrix foi na vida de muitos cidadãos comuns que um dia optaram por fazer da guitarra o instrumento da suas vidas. Assim também foi em 1993, quando um grupo de famosos músicos como Jeff Beck, Nile Rodgers, Eric Clapton, Buddy Guy, Slash e bandas como The Cure e Living Colour gravaram um tributo ao Hendrix, refazendo suas músicas. O nome do álbum é Stone Free: A Tribute to Jimi Hendrix e demonstra o quão amplo foi o campo de influência do guitarrista dentro da música popular, indo além dos aficionados por guitarra.

Mesmo depois de meio século, ouvir Are You Experienced ainda é uma experiência recompensadora. Quem estiver descobrindo o Hendrix agora, ainda pode se maravilhar com a fórmula sonora tresloucada que não se prende à nenhuma fórmula e que se manifesta através de uma viagem de sensações e sentimentos, quase espiritual, guiada por um cara que, em seus dias mais normais, curtia quebrar guitarras e atear fogo nelas. Poucos álbuns reforçam tanto esse aspecto imorredouro do rock como Are You Experienced: ele encontrou renovação em si mesmo ao longo dos anos e continua relevante.

Are_You_Experienced_-_5

Are You Experienced foi só o começo. Depois dele, Hendrix ainda gravaria mais dois de estúdio e um ao vivo com a Band of Gypsys, onde reafirmaria o seu nome e seria de fato consagrado ao posto de um dos mais influentes guitarristas de todos os tempos. Aliás, era de se esperar, depois de uma estreia como esta, o sucesso absoluto era só uma questão de tempo.

Queen – A Night At The Opera (1975) completa 40 anos

queen-a-night-at-the-opera

Um dos discos definidores do Queen é divertido e pretensioso

Por Lucas Scaliza

O que é?

A Night At The Opera, lançado em 21 de novembro de 1975, é o quarto disco da banda inglesa Queen.

Histórias e curiosidades

Em Sheer Heart Attack (1974), o Queen já usava os coros e múltiplas vozes tão características da banda, mas abusou do poder de fogo de seus instrumentistas, fazendo do terceiro trabalho um álbum de hard rock competente. Após um trabalho em que Brian May abusava da distorção e fritava nos solos, ninguém esperava que a banda fizesse seu trabalho mais diversificado logo no ano seguinte. A Night At The Opera conseguiu consolidar a banda no além-mar: ficou no topo das paradas britânicas por quatro semanas e chegou ao número 4 da Billboard 200 nos Estados Unidos, conseguindo o primeiro disco de platina na América. Como se tornou um dos álbuns obrigatórios para qualquer interessado em Queen, as vendas já passaram das 12 milhões de cópias.

Na década de 1970 o rock progressivo era algo que estava em alta. A maior parte das bandas do estilo, seja nos EUA, no Canadá (não podemos nos esquecer do Rush, afinal), na Inglaterra e no resto da Europa queriam expandir seus limites musicais incorporando novas influências e novas forma de se fazer música ao seus trabalhos. O Queen, até então uma banda de rock, fez de A Night At The Opera um disco muito mais próximo do progressivo do que qualquer um poderia supor antes de ouvi-lo. Sua produção esmerada teve um alto custo e se tornou o disco mais caro da história até ali.

queen_1975_2

Como a revista Melody Maker nota que estúdios de 24 canais eram bem comuns na Inglaterra em 1975 e o Queen gravava nos maiores estúdios do país. A banda usou muito bem essa variedade de canais a seu favor para fazer um disco de referência em gravação. “Os arranjos de guitarra em multicamadas que caracterizam o álbum, assim como os vocais em várias camadas, teriam sido muito difíceis de conseguir uns dois anos antes sem uma grave perda de equilíbrio e aumento de ruídos devido às oscilações dos aparelhos de 16 pistas”, disse a Melody Maker reavaliando o álbum quando ganhou versões remixadas em 5.1.

É bom lembrar que nas décadas de 1960 e 1970 as vendas de discos geravam muita renda para artistas e suas gravadoras, e as turnês nem sempre tinham as dimensões globais de hoje. Então era comum as bandas gravarem um disco por ano ou até dois no mesmo ano. A Night At The Opera, dentro desse esquema, foi gravado em dois meses e mixado em apenas 36 horas, fazendo com que o quarteto tivesse só três dias e meio para ensaiar as músicas antes de embarcar na próxima turnê. Não foi também um dos momentos mais confortáveis da banda: haviam trocado a gerência da banda e estavam sob ataque pesado de ameaças de processos e fazendo o possível para atrasar ou impedir o lançamento do disco.

A banda sustenta que A Night At The Opera não foi calculado. O resultado final, com vários truques de produção, com diversidade sonora, experimentações e uso de uma grande variedade de instrumentos – foi obtido naturalmente, conforme as novas músicas se desenvolviam. Freddie Mercury afirmou que chegou a pensar em descartar “Bohemian Rhapsody”, mas depois viu que ela estava ficando maior e decidiu mantê-la. Esta faixa, aliás, é para o álbum do Queen o que “A Day In The Life” foi para o Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band dos Beatles: o final perfeito e ambicioso de um disco que seria lembrado para sempre.

Entre as experimentações mais interessantes está a curtinha “Lazing on a Sunday Afternoon”. Freddie fez todos os vocais e tocou piano na faixa, mas a voz principal foi reproduzida em um fone de ouvido dentro de um balde. Colocaram um microfone no balde para captar o som, fazendo com que a voz parecesse emitida de forma clara, mas um pouco abafada. Foi praticamente uma brincadeira, mas que deu certo. O humor é central, de certa forma, em A Night At The Opera. A roqueira “I’m in Love with My Car”, por exemplo, uma composição do baterista Roger Taylor (que também canta a faixa), foi encarada como uma piada por Brian May a princípio. A música é sobre Johnathan Harris, roadie da banda e apaixonado por seu carro. Os sons de motor bem no fim da faixa são gravações de um Alfa Romeo que Taylor possuía na época.

O humor é completo com a feel good “Seaside Rendezvous”, em que as habilidades vocais da banda encontram uma utilidade hilária. Mercury e Taylor começam a imitar o som de instrumentos de sopro de madeira e de metal.

Outro mérito do disco, já que não é tão roqueiro e nervoso assim, é parar as comparações que faziam com o Led Zeppelin. Hoje, com a obra completa do Queen e do Led à disposição, é muito difícil de relacionar as duas bandas hoje, 40 anos depois, mas em meados de 1970 ambas estavam no circuito do rock pesado e virtuoso. “Na verdade, o álbum não seguiria a direção que tomou, mas eram as canções que tínhamos. Enquanto criávamos, pensávamos ‘É, tá ficando um pouco um pouco leve’, mas ao invés de lutar contra isso a gente decidiu fazer bem feito e depois pensar de novo”, disse o guitarrista à Circus Magazine naquele ano.

queen-1975

Músicas e destaques

Death on Two Legs (Dedicated To…): a princípio, foi divulgado que a faixa seria uma carta de Freddie Mercury a Norman Sheffield, o gerente da banda de 1972 a 1975, mas o caso foi desmentido pela biografia do executivo. Mesmo assim, quando ele ouviu a música pela primeira vez, antes do lançamento do disco, processou Freddie e a gravadora por difamação. Seja como for, o cantor geralmente dizia que dedicava essa música “a um filho da puta que conheci”. É uma faixa de rock bem agressiva, com uma presença bem forte da guitarra de May. Originalmente, Mercury tocou todas as partes da guitarra no piano para que May aprendesse a canção.

39: Depois do Pink Floyd e do David Bowie, era a vez de Brian May, um astrônomo, escrever uma canção espacial. Bem, no fim das contas, é mais como um folk de violão mesmo. A letra é sobre astronautas que viajam por um ano pelo espaço e quando retornam à Terra, já se passaram 100 anos, de acordo com a dilatação temporal da teoria da relatividade de Einstein. É o próprio May que canta na faixa, com uma voz muito mais suave do que a de Mercury. Essa faixa merece menção por seu tema e por mostrar um lado mais leve e acústico da banda, que ajuda a mostrar a diversidade do álbum.

The Prophet’s Song: essa é a faixa mais progressiva do álbum, sem dúvida. Uma composição cheia de diferentes partes, pausas e acentuações perigosas, além de durar mais de 8 minutos e ter uma experiência sonora apenas com vocais sendo dobrados por aparelhos de delay. A música foi escrita por May após sonhar com uma grande inundação.

Love Of My Life: uma das baladas mais famosas da discografia da banda, escrita por Mercury para Mary Austin, sua namorada. O piano foi tocado pelo cantor, que fez sozinho todos os vocais. Brian May tocou a harpa, mas não com fluência. Ele gravou um acorde de cada vez e depois uniu todas as partes da forma correta na mesa de edição.

Bohemian Rhapsody: a principal música do disco e a mais ambiciosa de todas. Talvez A Night At The Opera não fosse o clássico que se tornou sem ela. Nas palavras de May, com essa faixa o Queen passou de banda de rock adolescente para a banda “com a música que toda dona de casa sabe de cor”. Não é para menos: uma faixa totalmente inesperada para uma banda de rock, daquelas que são excelentes, mas sempre um risco ao serem escolhidas como single por serem diferentes demais do que a banda vinha apresentando, mais complexa do que geralmente rádio e televisão estão acostumados a promover e mais longa do que a maioria das músicas de trabalho. Mercury escreveu as diferentes partes da música numa agenda telefônica e a banda foi gravando cada parte sem saber exatamente como elas seriam encaixadas no final das contas. A faixa, sozinha, sintetiza de forma brilhante o que é uma opera rock.

O projeto da música era tão excêntrico que chamavam a faixa de “o negócio do Freddie” durante as gravações. Na hora de escolher o single, pensaram em “The Prophet’s Song” (justamente a outra faixa mais viajada do disco, indicando que o Queen estava mesmo confiante em 1975), mas chegaram a conclusão que “Bohemian Rhapsody” era a canção da vez. Queriam inclusive cortá-la para lançar nas rádios, mas Freddie se recusou. “Se vamos lançá-la, tem que que ser inteira. Sabíamos que seria arriscado, mas confiávamos tanto naquela música. Senti que, se desse certo, ela ganharia muito respeito”.

Passa no teste do tempo?

A Night At The Opera foi apenas o quarto disco dos ingleses que ainda mostrariam muita coisa boa e muitos dos seus principais singles, que tornam a banda conhecida até hoje, viriam depois. É o caso de “We Will Rock You” e “We Are The Champions” (ambas de News of the World, de 1977), “Another One Bites The Dust” (de The Game, em 1980), “Under Pressure” (de Hot Space, de 1982, com vocais de David Bowie), e a dupla “Radio Ga Ga” e “I Want to Break Free” (de The Works, de 1986). Mas foi com este disco pretensioso de 1975 que mostraram ao mundo como poderiam ser divertidos e artísticos ao mesmo tempo, colocando no mesmo vinil músicas que aproveitavam de forma criativa as possibilidades de um estúdio.

Além disso, todos os quatro músicos contribuíram com o álbum. Taylor compôs uma música, cantou, fez backing vocals, imitou uma tuba e teve que aprender como tocar bateria numa passagem complicadinha de 3/4 para 4/4 em “Sweet Lady”. A bela balada “You’re My Best Friend” é do baixista John Deacon, que tocou um piano elétrico na faixa. A partir deste disco, o Queen passou a ser levado mais a sério, ganhou respeito e público nos EUA e no resto do mundo (a faixa “Love of My Life” ficou especialmente famosa na América do Sul).

Quem conheceu o Queen apenas pelos discos ou pelas músicas mais marcadamente oitentistas pode se surpreender com a sua versão setentista e com o rock pesado que propunham nos primeiros discos e que culminam em A Night At The Opera, ocupando um espaço modesto. Ainda não é o registro maduro da banda, mas o disco que sem dúvida definiu qual poderia ser o legado da banda para o futuro e que possibilidades poderiam explorar.

A influência do disco e do Queen pode ser sentida desde Bruce Dickinson (o vocalista do Iron Maiden inclusive regravou “Bohemian Rhapsody” com a cantora lírica Montserrat Cabalet) até Muse, passando por Brandon Flowers, do The Killers, e até o The Darkness. E vai influenciar muito mais gente ainda.

spotify:album:1TSZDcvlPtAnekTaItI3qO

Queen-in-Japan-1975

Marilyn Manson – Portrait Of An American Family (1994)

marilyn-manson-portrait-of-an-american-family

20 anos depois, a história desse álbum tem serial killers, casa assombrada, crítica aos Estados Unidos e uma mãozinha de Trent Reznor

Por Lucas Scaliza

O que é?

Portrait of an American Family é o primeiro disco de Marilyn Manson, lançado em 1994.

História e curiosidades

1994 foi um bom e interessante ano para a música. E foi bem diversificado, com muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Nos Estados Unidos, estávamos em um momento grunge de pesar (a morte de Kurt Cobain) e de inovação com o ambicioso Superunknown, do Soundgarden, vindo para a luz do dia. Além disso, o Pearl Jam continuava em sua jornada alternativa com o Vitalogy. Foi o ano também que o punk voltou à pauta dos EUA impulsionado pelo hit “Basket Case” de Dookie, do Green Day. Do outro lado do Atlântico, o Pink Floyd lançava seu (até então) último disco de estúdio, The Division Bell, sem a participação de Roger Waters e embarca numa grande turnê, que deixava saudade antes mesmo de acontecer por ser a última. Ao mesmo tempo o Oasis fazia sua estreia com o animado Definitely Maybe, dando uma arrancada no britpop e afastando aquela tristeza grunge que havia no rock. Também foi o ano em que o Dream Theater lançou Awake e deixou claro que seguiria firme com o metal progressivo, um estilo que a partir dali iria se expandir e aos poucos retomar o interesse de parte do público por esse tipo de música.

Foi o ano também que vimos surgir Marilyn Manson. Antes um jornalista chamado Brian Warner, ele se revoltou contra o sistema e chegou despejando raiva e crítica ao famigerado way of life com Portrait of an American Family. Musicalmente, era algo entre o grunge e o metal, mas já continha elementos eletrônicos, berros e riffs pesados que definiriam o som da banda nos anos seguintes. Costumeiramente visto como figura polêmica, sobretudo após o segundo disco, Antichrist Superstar, Marilyn Manson cultivava uma figura sombria e corrosiva. Se nos anos 70 as mamães americanas achavam que uma banda divertida como Kiss eram “cavaleiros a serviço de satã” (Knights In Satan’s Service), o que pensariam de Manson que, este sim, chegava com letras ácidas, palavrões e fúria contra a sociedade?

(Bom, existe todo o episódio de Columbine para discutirmos o que pensaram de Manson, mas isso fica para outra hora.)

marilyn-manson-prelude-39

Manson já fazia demo tapes de rock sinistro e subversivo antes de entrar em estúdio para o seu primeiro álbum. Foram essas demos que chamaram a atenção de ninguém menos do que Trent Reznor, o líder do Nine Inch Nails, e músico-produtor que viabilizou a estreia de Manson na música. Para esta oportunidade, o jornalista chamou amigos e músicos locais para fazer parte de sua banda – inclusive um baterista de verdade, substituindo a bateria programada que utilizava até então. A princípio, gravaram com o produtor Roli Mossimann do Celtic Frost, que fez o que Manson não queria: ao invés de preservar o som subversivo e sinistro do grupo, ele polia o material e deixava tudo mais palatável, com menos arestas. Trent Reznor sentiu que Manson estava certo e se voluntariou para mexer no material e fazer as coisas voltarem ao anormal. E é essa versão mixada por Reznor que foi lançada (embora a versão de Roli possa ser encontrada online também).

Como vocês já devem saber, Brian Warner escolheu seu nome artístico misturando Marilyn Monroe, o ícone do cinema, do glamour e da sensualidade dos anos 60 nos EUA, com Charles Manson, o serial killer que mostrou o lado negro do sonho hippie e também virou um ícone dos EUA, símbolo da monstruosidade humana.

Para retrabalhar o material com o novo produtor, o cantor alugou a casa de Sharon Tate para as novas mixagens. Tate foi uma das vítimas de Charles Manson e diziam que a casa era assombrada. Manson conta que durante as mixagens de “Wrapped in Plastic” o sample com a voz de Charles Manson que aparece logo no início de “My Monkey”, começou a surgir no meio da música, sem motivo ou explicação lógica e tecnológica aparente. Era o trecho em que o serial killer diz “Por quê uma criança iria matar sua mãe e seu pai?”. “A gente ficou totalmente assustado e pensamos que era melhor parar por ali”, Manson lembra. “Voltamos no dia seguinte e não havia problema nenhum. Os samples de Charles Manson não estavam mais na fita. Foi um verdadeiro momento sobrenatural que me matou de medo!”

Antes de Marilyn Manson se tornar o codinome de Brian Warner, era o nome da banda dele: Marilyn Manson & The Spooky Kids. O guitarrista e cofundador da banda, que permaneceu com Manson até 1996, é Scott Putesky, mas o nome de palco era Daisy Berkowitz – nome que combinava a Daisy do seriado Os Gatões (também símbolo de sensualidade) com David Berkowitz, conhecido também como o serial killer Son of Sam. Atualmente o músico – que já não se parece em nada com a figura apocalíptica da época da banda – luta contra o câncer em estágio 4 desde setembro de 2013. Putesky conta que no início o som e as letras do grupo eram para soar estranhas, como viagens psicodélicas. Com o tempo é que tudo foi ganhando contornos sociais que explodiram em Portrait of an American Family. Críticas às religiões, a mídia dos EUA, ao jeitinho americano e canções inspiradas por assassinatos (como “Get your Gunn”, baseada no assassinato do médico David Gunn na Florida. Veja abaixo mais informações).

Logo que o disco saiu a banda enfrentou protestos. Putesky lembra de um show em que iriam abrir para o Nine Inch Nails em 1994, em Utah. Era uma apresentação em um estádio, mas os donos do local proibiram o Marilyn Manson de subir no palco. “Foi fofo, porque o NiN podia tocar, mas nós não. Isso prova que eles não fizeram a lição de casa”, o ex-guitarrista ironiza, já que o NiN tinha altas doses de críticas, estranhezas e letras contundentes em seu repertório também. Putesky também diz que logo os pais dos adolescentes da época começaram a ouvir falar da banda e das supostas mensagens anticristãs que propagavam. Então os pais proibiam os filhos de ouvir a banda Marilyn Manson. Mas foi exatamente essa fama seguida de proibição que atraiu a juventude para o som (e mensagens) do grupo.

“Eu queria dizer [no álbum] um monte de coisas que disse em entrevistas. Mas queria abordar a hipocrisia dos talk shows na América, como a moral é usada como um crachá para te fazer parecer bom e como é muito mais fácil falar sobre suas crenças do que viver a partir delas”, diz Manson em uma entrevista. “Eu estava muito preso ao conceito de que enquanto crianças crescendo, um monte de coisas que nos são apresentadas tem um significado mais profundo do que nossos pais gostariam que enxergássemos, como o Willy Wonka e os Irmãos Grim. Então o que eu tentava dizer é que quando nossos pais escondem a verdade isso é muito mais prejudicial do que se nos expusessem a coisas como o Marilyn Manson pra começar”.

Não é por acaso que o disco abre com uma citação do filme A Fantástica Fábrica de Chocolates. A recriação torna o trecho do filme infantil assustadora e sombria, subterraneamente maléfica mesmo. E na sequência vem a música “Cake & Sodomy” (bolo e sodomia), cuja inspiração foi a programação da TV americana da madrugada, vendo o pastor Pat Robertson se esforçando para conseguir o número do cartão de crédito dos telespectadores. “I am the god of fuck”, ele canta. (Este ano o mesmo tema foi ironizado no clipe de “Fever”, do duo The Black Keys).

Além do cantor, que permanece ativo até hoje, todos os músicos que participaram da gravação de Portrait of an American Family deixaram a banda. Além de Scott Putesky, o baixista Gidget Gein foi demitido por consumir heroína demais. Algum tempo depois ele morreria em decorrência de uma overdose. O baterista Sara Lee Lucas também foi tirado por falta de compromisso e entusiasmo com o grupo.

Marilyn_Manson_at_1994_Slammie_Awards

Músicas e destaques

“Lunchbox”: uma das faixas mais conhecidas do disco, traz uma ótima bateria e riffs de guitarra que já mostram a característica da banda. A música se baseia em uma leia de 1972 que proibia lancheiras de metal nas escolas da Flórida. É uma música sobre ser alvo de bullying mas querer ser uma estrela do rock.

“Get Your Gunn”: música com uma pegada mais industrial. Baseia-se no assassinato do ginecologista David Gunn, que provia serviços de métodos contraceptivos e abortos para mulheres no interior dos EUA. Morreu na Flórida, vítima de um homem antiaborto e fundamentalista cristão. Anos depois, Marilyn Manson diria que a morte de Gunn pelas mãos de um membro de uma organização pró-vida era a hipocrisia definitiva que havia visto no mundo pouco antes de chegar a idade adulta.

“Wrapped in Plastic”: música baseada no série Twin Peaks, criada e dirigida pelo diretor surrealista David Lynch. A série aos poucos vai mostrando as segundas vidas de todos os habitantes de uma pequena cidade americana e como todos têm sujeira a esconder debaixo de seus tapetes e como a realidade é muito mais dúbia, ambígua e sombria. É esse tipo de situação que essa música expõe.

“Dogma”: é o principal ataque do disco às religiões organizadas. Mas ao invés de simplesmente proferir o ódio contra elas, a canção inverte o jogo e diz que são as religiões que estão cheias de ódio e tentam sublimar tudo isso que as incomoda.

Passa no teste do tempo?

O disco está cheio de significados e conteúdos importantes em suas letras. Numa época em que o punk retomado pelo Green Day – só para citar um exemplo – não questionava mais nada, foi a música underground de Marilyn Manson que terminou fazendo a crítica aos EUA e ao mundo. Nesse sentido, o disco permanece atual, sem dúvida. Com o passar dos anos, a música da banda passaria por algumas transformações, mas as bases da estética do grupo está contida já neste primeiro disco.

Portrait of an American Family é um bom disco, mas não é o melhor de Manson. Mas, se comparado com seus últimos três álbuns pelo menos, possui muito mais energia e ódio criativo (se é que isso existe de fato). É claro que na época muita gente achou que tudo o que Manson fazia era só pose. E em alguma medida deveria ser mesmo. Mas parte daquele teatro todo era verdade.

marilyn-manson-band--large-msg-118133503383

Nick Cave & The Bad Seeds – Let Love In (1994)

cover

O disco que marca a transição de Nick Cave para a maturidade completa 20 anos

Por Lucas Scaliza

O que é?

Let Love In é o oitavo disco da carreira solo de Nick Cave, lançado em abril de 1994.

História e curiosidades

Se From Her to Eternity (1984) foi a estreia de Nick Cave e sua banda, The Bad Seeds, com um projeto agressivo de música estranha, tensa e cavernosa, com mais narração do que melodia, uma década depois chega Let Love In, um de seus discos mais elogiados e que está completando 20 anos. É o disco que marca com perfeição a transição de um Nick Cave mais histriônico e agressivo para aquilo que será o Cave pós-The Boatman’s Call, mais melodioso, harmonioso, equilibrado e dotado de um raro dom de criar belíssimas canções a partir de 3 ou 4 acordes simples.

Cave permaneceu viciado em cocaína por oito anos. Antes de Let Love In ele tinha gravado o bom Henry’s Dream, que era seu álbum mais comercial até o momento, mas não gostou da produção final das músicas. Sentia que o disco poderia ser uma obra prima, mas não da forma como as músicas acabaram gravadas e lançadas. Mas quando chegou a hora de grava e lançar Let Love In, ele parecia um pouco mais em paz consigo mesmo. Estava casado e feliz com isso; tinha um filho, Henry, que havia homenageado no disco anterior; e tinha finalmente superado o vício em cocaína.

nickcave1994

Na época do lançamento do álbum, a revista American Musical Express perguntou se seu afastamento das drogas tinha algo a ver com o tom positivo que o disco trazia. “Bom, não sei dizer”, ele respondeu. “Quando eu usava um monte de drogas eu não revisava o que fazia, eu só botava pressão, usava drogas e escrevia. Não sei, não me lembro! Bem, as drogas fazem isso com a gente”.

Na época, Cave já tinha contribuído com o roteiro do filme Ghost of the Civil Dead e havia até atuado na produção, interpretando um prisioneiro. Também havia lançado seu primeiro livro, E o Asno viu o Anjo (mais tarde, ele contribuiria com mais roteiros cinematográficos, mais atuações e mais trilhas sonoras ao lado do parceiro australiano Warren Ellis – agora membro da The Bad Seeds também. Sem falar que lançaria um romance). Mas nessa época a música era sua principal forma de expressão artística. “Eu amo fazer discos. Amo escrever músicas e adoro o fato de estar ficando melhor nisso. Posso ver que isso vai me levar para algum lugar, mas não quero parar até saber onde”, disse Cave em 1994. Nesse momento, Cave já havia vivido em Melbourne, em Londres, em Berlim e em São Paulo. Let Love In era seu 8º disco de estúdio, tinha lançado há pouco tempo o Live Seeds e o documentário The Road To God Knows Where, que mostrava o grupo na estrada – e o quanto isso era difícil para uma banda. Tudo isso em apenas 10 anos de carreira solo, desde o lançamento de From Her to Eternity.

Com o lançamento de Let Love In, Nick Cave & The Bad Seeds fizeram parte do casting do Lollapalooza daquele ano nos EUA. Era o momento para que ele, uma força criativa e visceral da música australiana, recebesse em fim o reconhecimento do público americano. Até então, as principais turnês de Cave haviam se restringido ao seu país natal e à Europa. Era, de fato, um álbum e um momento de transição para o compositor: seu estilo sendo cada vez melhor lapidado, sua banda cada vez mais afiada, suas letras e histórias cada vez mais maduras, seu reconhecimento internacional crescendo, sua raiva da juventude dando espaço para reflexões e versos mais adultos – mas ainda com potência.

Como anota Stuart Berman, Let love In prova que as canções de amor de Nick Cave poderiam facilmente ser convertidas em canções de morte (algo que culminaria no excelente disco seguinte, Murder Ballads, de 1996).

nickcave1994-3

Músicas e destaques

“Do you love me” (partes 1 & 2): Um baixo hipnótico, um riff de piano e uma guitarra que marca os acordes da harmonia criam o ambiente para a narração de Cave e um refrão marcante. A parte 1 da música abre Let Love In já mostrando que banda e cantor estão mais musicais do que nunca. A parte 2 da canção, que fecha o álbum, mantém a mesma linha vocal, mas é mais lenta, arrastada e assombrada. Um arranjo de cordas feita pelo músico Mick Harvey, da The Bad Seeds, transforma a faixa em algo fantasmagórico.

“Loverman”: mais uma história dark de Cave com uma levada bem característica da banda, com ruídos de guitarra e sinos tocando, para desembocar em um refrão rascante e cheio de distorção. A canção foi regravada pelo Metallica no disco Garage, Inc.

“Red Right Hand”: outra historinha de terror que se tornou tema do filme Pânico e uma das músicas mais conhecidas de Nick Cave. Apesar de falar sobre algum tipo de diabo ou assassino, mantém um tom de suspense debochado.

“I Let Love In”: música em ¾ que embala qualquer coração, mesmo que os versos cantados pela voz grave de Cave não seja nenhuma versão bonita do amor. Mesmo assim, ele canta que “deixa o amor entrar”. Exemplo do estilo Cave/Bad Seeds de composição bem estruturada, com poucos acordes, mas com arranjos ricos e de bom gosto.

“Thisty dog”: um rock’n’roll com riff de guitarra, agitado e com distorção. O disco mostra musicalidade e menos raiva, mas Cave não deixa de nos dar algo de sua rebeldia barulhenta característica.

Passa no teste do tempo?

Sim. É um disco que permanece bonito, agressivo na medida certa e contém todas as características que seriam ainda desenvolvidas de outras formas por Cave e sua banda. Diferente de From Her to Eternity, que é bem difícil de se ouvir, Let Love In pode tranquilamente ser uma ótima introdução ainda hoje para quem quer conhecer Nick Cave. E quem conhece o australiano na fase pós-Boatman’s Call deve ouvir este álbum para conhecer o ponto de virada estético e até de reconhecimento da obra de Nick Cave & The Bad Seeds.

Nick Cave and Mick Harvey London 5-17-1981

Soundgarden – Superunknown (1994) faz 20 anos

Superunknown-Cover

O melhor álbum do Soundgarden e o mais significativo do grunge chega aos 20 anos passando com louvor no teste do tempo

Por Lucas Scaliza

O que é?

Superunknown é o quarto disco do Soundgarden, banda que foi definitiva para sedimentar o grunge como estilo musical de Seattle e que se expandiu para o resto dos EUA e do mundo.

Histórias e curiosidades

Desde o princípio, o Soundgarden queria que o seu próximo disco fosse algo mais. Não só para a carreira da banda, mas para toda a cena rock’n’roll em que atuavam, em especial o cenário grunge de Seattle. Chris Cornell, guitarrista e vocalista, e Ben Shepherd, baixista, começaram a escrever algumas músicas no verão de 1993. Como assinala esta matéria da época, Cornell era um apaixonado por Beatles e Pink Floyd, enquanto Shepherd gostava de afinações diferentes e de brincar com a dinâmica. Chamaram Michael Beinhorn – que já tinha trabalhado com o Red Hot Chili Peppers – para ajudar na produção do quarto disco da banda.

Foram seis meses de gravação até a finalização. Houve muitas brigas e muito cansaço com as diversas sessões que o produtor exigia. Contudo, o resultado foi Superunknown, marco na carreira do Soundgarden e um disco que levaria o grunge a outros patamares de reconhecimento técnico e estético. Eles sabiam o que estavam criando, queriam ir mais longe.

“A banda foi formada em 1984, então vejo o Superunknown como uma espécie de período tardio, o momento em que estávamos meio que reinventando quem nós éramos e indo mais longe, ampliando nossa abordagem criativa dentro de um disco”, disse Cornell este ano, recordando os 20 anos do disco.

Soundgarden_01

Embora o Soundgarden tenha sido a precursora do grunge, tenha tido sucesso com seus três primeiros discos (foram headliners do Lollapalooza Chicago em 1991) e tenha sido a primeira banda da cena de Seattle a assinar com uma grande gravadora – o que conferiu a eles o título de “heróis” do movimento –, ainda não haviam explodido verdadeiramente para todos os lados. Mas todo mundo que estava envolvido com a banda entre 1993 e 94 sabia que o próximo disco deles deveria colocar a banda no panteão das grandes bandas americanas, como o Ten fez logo de cara com o Pearl Jam e como o Nevermind fez pelo Nirvana, ambos em 1991.

Os membros da banda e a equipe de produção atribuem grande responsabilidade sobre a qualidade das composições de Superunknown a Cornell e Shepherd. Nos álbuns anteriores, quem mais escrevia era o guitarrista Kim Thayil e o antigo baixista, Hiro Yamamoto. Cornell teve muito mais espaço naquele momento e estava no auge de sua capacidade vocal e criatividade, como anota Adam Kasper, assistente de engenharia do álbum. “Quando entrei para a banda, comecei a fazer afinações estranhas. Todo mundo começou a se adaptar a isso e fazer suas próprias músicas com afinações estranhas”, lembra Shepherd.

Quando iam gravar as 16 canções de Superunknown, elas estavam completas. Não era necessário fazer uma jam session para estrutura-las. Chris Cornell tinha gravado algumas músicas de sua autoria só com voz e guitarra, para que o resto da banda avaliasse. “Havia material que nós não respondemos com muito entusiasmo, como ‘Let me down’ e ‘Black hole sun’”, diz Thayil. Por fim, “Let me down” abre o álbum de maneira primorosa e “Black hole sun” é o maior sucesso do Soundgarden até hoje, 20 anos depois.

O músico Álvaro Mesquita, que já deu uma mão aos Escuta Essa! Com a análise do Vitalogy (1994) do Pearl Jam, diz que Superunknown é depressivo como o Soundgarden sempre foi, mas que também é uma “porrada na cara” e abre espaço para experimentação. “O tempo das músicas é completamente louco. O baterista que gravou o álbum é o Matt Cameron, que depois se tornaria batera do Pearl Jam. E o Chris Cornell cantando é mitológico!”, Álvaro enumera.

soundgarden-by-maria-ives

A primeira música a ser gravada foi “Kickstand”. Antes, precisaram de quase uma semana para encontrar o som ideal para a bateria de Matt Cameron. Jeff Ament, o baixista do Pearl Jam, gosta muito dessa faixa porque ela fala sobre a bicicleta de Cornell – e a juventude de Ament está ligada a de Cornell e às bicicletas em que eles andavam por Seattle. E no meio disso tudo está Andy Wood, o vocalista da Love Mother Bone, cuja morte afetou toda a cena roqueira de Seattle e, de certo modo, levou a criação do Pearl Jam e, logo depois, do Temple of the Dog, um tributo a Woody reunindo membros do Pearl Jam e do Soundgarden.

“Passei a conhecer o Chris melhor depois que o Andy morreu. A gente saía junto umas duas vezes por semana. Íamos de bicicleta, geralmente de noite, para um dos grandes parques de Seattle. Acabávamos em uma fogueira na praia e com uma garrafa de bebida. Acho que a gente tentava entender por que o Andy estava morto”, revela Jeff Ament.

Spoonman” é o nome de um músico amigo da banda, conhecido como Artis the Spoonman. Ele inclusive toca nessa faixa. Quando o Soundgarden ganhou o Grammy 1995 de melhor performance de metal por esta faixa, Artis não recebeu um troféu e os membros do grupo se esqueceram de agradecê-lo no palco.

Chris Cornell fez a letra de “Black hole sun”, maior sucesso comercial do grupo, enquanto dirigia de madrugada. Durante o trajeto, ele formou toda a letra em sua cabeça. Quando ouviu uma demo da música pela primeira vez, o baixista Ben Shepherd pensou: “Isso é o tipo de coisa que alguém como eu espera anos e anos para ver caindo no colo”. Cornell diz que quando canta “Black hole sun” vê elementos de Beatles, Led Zeppelin e de Syd Barrett (dos primeiros anos de Pink Floyd) na canção. Kim Thayil admite que teve dificuldade para tirar o arpejo inicial da música. “Não era o meu estilo”, ele diz. Para Thayil, aquilo era como uma sequência de notas para um piano, mas que ele deveria fazer na guitarra.

Com 16 faixas e 73 minutos de música, Superunknown é bem longo para os padrões da época (e muito mais para os de hoje). Cornell explica que isso se deve ao fato de o Soundgarden não ter se aborrecido em 1994 com o que iriam cortar ou manter no disco, afinal os membros da banda tinham opiniões diferentes. Então colocaram tudo o que tinham até o limite máximo do CD. Só depois foram pensar em quais faixas poderiam render singles.

Durantes as gravações, a banda recebeu alguns amigos. A galera do Pearl Jam estava sempre por lá. Billy Corgan, líder dos Smashing Pumpikins, também. Johnny Cash apareceu, os caras do Nirvana também. Josh Homme, do Queens of the Stone Age, passou por lá e quis jogar ping-pong com Adam Kasper e Thayil logo depois de ambos terem se empanturrado de comida indiana. Havia um PlayStation no estúdio e Cornell gostava de jogar Doom.

Músicas e destaques

“Superunknown”: uma faixa incrível: refrão que te pega pelo estômago, riff matador e um solo com efeitos wah-wah que o fazem parecer uma parece de vidro sendo distorcida.

“Black hole sun”: é a canção que mostra, de uma vez por todas, como o Soundgarden e o Superunknown conseguiram romper a barreira do grunge e expandir as fronteiras musicais tecnicamente e estilisticamente. Há pelo menos 3 variações de compasso nesta faixa.

“Limo wreck”: uma das interpretações vocais mais impressionantes de Chris Cornell. E a música é carregada de sentimentos pesados e arrastados.

“The day I tried to live”: uma das faixas que permanece na cabeça por muito tempo. Bons riffs, boas mudanças rítmicas e de dinâmica, baixo marcante e um vocal agressivo que envolve o ouvinte.

“4th of July”: tão arrastada quanto “Mailman”. Ben Shepherd diz que aprendeu a tocar essa música chapado. Tinha fumado maconha naquele dia após um bom tempo longe da droga. “Foi estranho”, ele conta. “Voltei ao estúdio para gravar o baixo no dia seguinte e foi, tipo, ‘Meu Deus! Como foi que afinei isso aqui? O que está acontecendo?’”

“Like suicide”: uma das faixas mais épicas de Superunknown e que também expandem as fronteiras estilísticas da banda. Kim Thayil faz um trabalho primoroso aqui de melodia e solo.

“She likes surprises”: o Soundgarden tentando entrar numa onda estranha, mas mais psicodélica.

Passa no teste do tempo?

Com louvor. O compositor, guitarrista e professor de música Álvaro Mesquita diz que já indicou Superunknown para um número enorme de pessoas e todas voltaram perguntando onde é que o disco tinha se escondido que não o conheciam ainda. Talvez isso tenha a ver com a longa pausa do Soundgarden entre 1997 e o lançamento do disco Animal Kingdom, em 2012.

Para Álvaro, Superunknown é um passo à frente tecnicamente e estilisticamente para toda a banda, trazendo novos elementos ao grunge. “Todos na banda, em termos de composição, execução e criatividade, estavam tinindo”, diz ele. “Para mim, é um álbum extremamente atual e importante para quem gosta de rock e de música em geral. É o melhor disco do Soundgarden e, se for ver, musicalmente é o melhor do grunge de 1990 a 1996.”

Álvaro rejeita a interpretação generalista de que o grunge não era um estilo de rock’n’roll que não levava em conta a técnica. Para o músico, essa interpretação só valeria para o caso do Nirvana, e mesmo assim ele lembra que Dave Grohl (líder do Foo Fighters) era um excelente baterista. “No restante das bandas grunge, a técnica sempre importou, basta observar o nível das composições do primeiro disco do Pearl Jam. O Alice in Chains tem um dos guitarristas de rock mais respeitados até hoje. E o Soundgarden sempre teve excelentes músicos, do contrário Superunknown e suas quebradeiras rítmicas nem existiriam”, conta Álvaro. “Hoje se faz muita música que é muito mais simples do que naqueles dias de Superunknown”.

Soundgarden-PressPhoto11