experimental

Arca – Arca (2017)

Alejandro Ghersi faz seu disco mais musical e mais pessoal

Por Lucas Scaliza

O novo trabalho de Arca marca uma mudança importante na carreira do produtor venezuelano Alejandro Ghersi. Após a monstruosidade cinematográfica de Entrañas (2016) e da tortuosa música de Mutant (2015), Arca é seu disco mais musical, que mais confia no poder do uso de harmonia, melodia e ritmo de forma mais convencional. Enquanto nos anteriores tínhamos a impressão de que um monstro era criado e estava à solta, dessa vez parece que Arca resolveu exibir a alma melancólica de Ghersi.

Arca é também seu disco mais pessoal até agora. Pela primeira vez, é o próprio Ghersi que canta ao longo de todo o álbum. E graças a uma intervenção da amiga Björk, que o encorajou a cantar, todas as letras são em espanhol, sua língua materna. “Piel”, na superfície, pode ser estranha, mas ouvidos atentos perceberam que trata-se quase de uma canção de ninar. E no resto do álbum adentramos no estado onírico de Arca, que embora mais musical, ainda tem todos aqueles efeitos elétricos e eletrônicos e de música concreta que fazem nossa imaginação voar dentro de seus ambientes escuros e perigosos (“Saunter” e a ótima “Reverie”).

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Entrar nos sonhos de Arca é parte dessa mudança importante. Por mais ameaçador que pareça, não chega a ser o pesadelo que eram os trabalhos anteriores. Aliás, entre tudo o que o produtor já fez, Arca é sua coleção de faixas mais acessível – embora ainda não seja o exemplo mais fácil ou comercial de música eletrônica que temos. Ainda é preciso estômago para encará-lo do início ao fim.

Com exceção da masterização e da arte de capa e encarte, tudo o que ouvimos em Arca foi feito pelas mãos de Alejandro Ghersi: voz, instrumentação, composição, programações eletrônicas, batidas, produção e mixagem. O resultado é o esperado: faixas com uma personalidade forte, um tanto esquisito às vezes, e que recusam a felicidade. A presença de Ghersi é tão forte que mais do que nunca você nota quais são os sons que ele usa em Arca que também utilizou em Vulnicura, álbum que coproduziu com Björk.

Embora seu canto também não seja convencional – e nem cristalino, seja pelo timbre ou pela forma mais abafada de captação da voz –, tem uma beleza quase barroca. Em “Sin Rumbo”, Ghersi chega a cantar liricamente. “Anoche” é um poço de drama e melancolia. Em “Desafio” em murmura menos e entrega um canto e uma música que é o que mais se aproxima de uma produção comercial sob a assinatura de Arca (e aí nos surpreendemos novamente). Já em faixas como “Fugaces”, “Miel” e “Reverie” ele deixa claro que aposta suas fichas em sua faceta como vocalista, e não tanto como cantor. Outra coisa que fica evidente é a raiz venezuelana de seu canto. Um discreto sabor hispânico na forma de empregar as palavras na sequência melódica se aloja no som e faz dele algo ainda mais especial.

Apesar de qualquer surpresa que possamos ter com Arca, todas são mais advindas de uma nova postura que o artista toma do que exatamente uma mudança sonora. Ainda que suas faixas agora sejam mais musicais e não puramente ruidosas e experimentais, as trevas e a angústia que sempre rondou suas músicas continua presente. Agora com uma voz e uma sensibilidade muito mais humanas, fazendo de Arca algo mais pessoal para ele e para nós.

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Jesca Hoop – Memories Are Now (2017)

Um folk esquisito que pode ser apreciado em diversos lugares do mundo

Por Gabriel Sacramento

Recentemente, falei sobre o novo álbum da Julie Byrne, que apresentou um folk contemplativo, intimista e tímido, que agrada e cativa por essas características idiossincráticas marcantes. Dessa vez, trago um folk universalizado, eclético, diversificado e esquisito. Jesca Hoop faz esse tipo de som, avançando com criatividade por caminhos desconhecidos em viagens que revelam grandes surpresas.

Hoop voltou a trabalhar com Blake Mills (o último trabalho com ele foi em 2012), produtor que tem assinado vários bons trabalhos recentemente. Mills produziu o Alabama Shakes – que rendeu uma indicação ao Grammy – e o mais recente (e ótimo) álbum de John Legend. Também produziu o preciso We’re All Gonna Die do Dawes, um grupo que faz folk, só que mais pop e acessível, com flertes explícitos com o rock. Mills sabe bem trabalhar as esquisitices em cada álbum, explorando texturas e timbres diferentes que ao mesmo tempo em que reforçam a identidade do artista, tornam a musicalidade deles fora da caixa e, mesmo assim, marcante.

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Comparando com o Dawes, Jesca Hoop soa ainda mais estranha, menos psicodélica, mas com uma ênfase em um quê universalista: pensamos em gêneros regionais de diferentes partes do globo ao ouvir Memories Are Now. Esse universalismo não é tão evidente quanto na obra do Thievery Corporation, mas se faz presente implicitamente, permitindo ao ouvinte que o perceba quase que como uma elevação espiritual no momento da audição.

Blake Mills também sabe bem trabalhar com detalhes esparsos nos arranjos, mas que conduzem as faixas a um estado de quietude hipnótica que reforça o que há de esquisito no som de Jesca, fazendo o álbum soar tão bom quanto único. A faixa-título possui esses elementos econômicos na base e compensa a falta de instrumentação com vozes e coros muito bem colocados. É quase impossível não associar com sertanejo brasileiro as vozes harmonizadas de “Simon Says”, o que reforça o fator universal. Ou seja, a música de Jesca talvez não soe estranha se ouvida em outros lugares, fora dos Estados Unidos. “Animal Kingdom Chaotic” parece evocar algum tipo de estrangeirismo, mesmo não sendo tão fácil identificar a referência. “Pegasi” traz ênfase no timbre juvenil de Jesca e no violão impecavelmente dedilhado executando uma harmonia sofisticada e charmosa.

Com uma produção bem cuidadosa, Memories Are Now mostra-se um álbum que impressiona e guia o ouvinte por caminhos diferentes e interessantes a cada audição. Jesca Hoop sabe fazer um folk mais óbvio quando quer também, mas vai do folk intimista e solitário ao folk esquisito (freak folk, se preferir), deixando vários toques de música estrangeira espalhados por todo o álbum – como uma deliciosa cereja em um bolo. Mas você não perceberá todas em nuances perfeitamente em uma audição corrida. Esse tipo de som é exigente, requer muito mais do que simplesmente uma atenção dividida com outras tarefas, bem como requer mais que uma audição para pegar todos os detalhes.

Esses elementos estrangeiros não soam tão intencionais como soariam em álbum de world music, mas parecem fazer parte de alguma faceta dentro do conjunto que forma a personalidade da cantora e que ela, meio sem querer, os transmite para nós. Seu caldeirão de referências é bem dosado e trabalhado na produção, de forma a não soar confuso, embora não tão facilmente diferençável.

Hoop não só é um nome interessante a ser observado na cena folk, como é um dos destaques da música não acessível, mas que compensa por seu grande valor artístico. Memories Are Now também é mais um trabalho excelente de Blake Mills,  outro nome que vale acompanhar.

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Nicolas Jaar – Sirens (2016)

Ligando o passado ao presente, Pinochet a Trump, música clássica e eletrônica, Nicolas Jaar faz um disco engajado que soa como um alarme de nossos tempos

Por Lucas Scaliza

O DJ e compositor americano Nicolas Jaar, que possui raízes no Chile, nos presenteia com mais um disco em que prova sua habilidade de fazer música para nossos sentidos, misturando com maestria ruídos do dia a dia, ambiência sonora e batidas da dance music. E como se não fosse o bastante, há uma dose de melancolia e em suas harmonias e algo de esquisito em como executa os temas de suas canções.

“Killing Time” abre o disco quebrando vidros de aquário, representando o estilhaço do objeto com um ágil deslizar de mãos pelas teclas do piano, flertando com a música clássica contemporânea. A segunda parte da música tinha tudo para ser algo comum, caso Jaar não substituísse a batida regular da bateria eletrônica e dance –como ele usou em Nymphs (2015) – pelo som retumbante que atinge seus tímpanos como uma estaca de construção civil atinge o solo. O terceiro ato é uma volta à música ambiente típica de Jaar, em que ondas sonoras de sintetizador se misturam a ruídos e gravações de objetos.

“Killing Time” contém a história de um jovem adolescente de 14 anos chamado Ahmed Mohamed que levou para a escola o estojo em que estava construindo um relógio, mas seu professor achou que parecia uma bomba e chamou a polícia. Depois cita Angela (sim, a Merkel) e sua política de abrir as portas para os imigrantes (ou seria para uma força de trabalho com custos baixíssimos?).

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Se no disco anterior as vozes eram mais um elemento do ambiente e de colagem, em Sirens ele volta a apostar em melodias vocais. Mas ele não facilita. “The Governor” é regular por alguns compassos e difusa por tantos outros, mesmo quando a batida raver começa. Jaar experimenta com instrumentos e dinâmica, passando longe de fazer uma canção previsível. E próximo ao final, tudo se encontra em um dos melhores momentos de Sirens.

“Leaves” é quase toda ambiente, com a intrusão de alguns acordes do teclado, de um sintetizador espacial e de uma introdução oriental, por meio da escala pentatônica. A música emoldura a gravação em espanhol de Jaar ainda criança, pouco antes de se mudar para os Estados Unidos, conversando com seu pai, Alfredo, sobre o uma estátua que estava sendo mordida por leões, mas os leões nada faziam a ela, pois era muito pesada. O gosto de Nicolas pelo clássico aparece na forma de referências ao francês Claude Debussy (que também foi um mestre na utilização da pentatônica na música europeia) e ao impressionista Erik Satie.

Em época de Donald Trump, cada vez que o espanhol chileno aparece nas gravações soa como um ato político. E Sirens não deixa de ser abertamente um disco político. A forma como ele cola sons que pouquíssimos outros artistas combinariam é um traço tanto de seu DNA musical quanto de sua habilidade como editor de música. Nem sempre é fácil entender o que ele quer dizer com todas as suas experiências ou com as gravações do jovem Jaar de 1993 que aparecem ao longo do disco, mas dá para sentir que há mais do que nostalgia envolvida.

A longa “Three Sides of Nazareth” é a faixa que poderia consagrar Jaar tanto em pistas underground como no mundo da música eletrônica com sérias preocupações artísticas. Suas batidas pungentes e regulares dão espaço para momentos transcendentais mais estilizados dentro da bolha de distorção sintética que cria. A letra fala de um muro e de andar de um certo lado da estrada, claramente mostrando há “um lado” perigoso e ameaçador nessa estrada. É tanto o fantasma de Pinochet dando as caras na canção – como acontece também nos contos e romances do chileno Alejandro Zambra – quanto uma metáfora para um possível futuro com Trump na sala oval da Casa Branca.

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E “History Lesson”, que fecha o álbum, é ainda mais surpreendente. Doce e em grande parte em 6/4 – um compasso que 90% dos artistas eletrônicos comuns parecem desconhecer –, ele destila um pouco de sua ironia sobre a América em que vive: “Nós fodemos tudo/ Nós fodemos de novo, de novo, e de novo/ Não pedimos desculpas/ E não tomamos conhecimento/ Nós mentimos/ Terminamos”.

“No” é outra música mutante que combina seu eletrônico experimental com a música chilena, um reggae de sintetizadores e batidas latinizadas filtradas por uma melancólica globalização. Música feita durante uma recente viagem ao Chile, evoca tanto o passado ditatorial do país, cujo governo foi apoiado pelos EUA, quanto o perigo de se colocar um novo ditador, por vias democráticas, no comando dos EUA.

As sirenes (“sirens”) de que fala o álbum de Nicolas Jaar são essas que estão soando por todo o lado, mas parece que não conseguimos ouvir. Ou se ouvimos, não podemos fazer muita coisa para mudar. Sirens é apenas seu segundo álbum completo – ou terceiro, se considerarmos sua trilha alternativa Pomegranates (2015) –, mas já demonstra um nível de criação muito maior agora do que em sua estreia com Space Is Only Noise (2011) ou com o duo Darkside. Aproveitou o momento com inteligência, fazendo uma música experimental, sensorial e engajada politicamente, usando a nostalgia não como uma volta à segurança da infância ou a um tempo bom que já passou. A nostalgia é justamente a ligação de uma situação de perigo com mais de 20 anos a outra que está se repetindo agora. Esse é o aviso e a verdadeira sirene que Sirens quer que nós escutemos.

 

Orbs – Past Life Regression (2016)

Superbanda manda ver no rock visceral e progressivo para contar histórias estranhas de vidas passadas

Por Lucas Scaliza

Não chore mais o fim do The Mars Volta. A banda Orbs é uma prima mais jovem, mais ansiosa e igualmente maluquinha em seu rock’n’roll criativo e nervoso. Do começo ao fim, Past Life Regression é uma rajada de músicas interpretadas com urgência pelo vocalista e guitarrista Adam Fisher, lembrando diversas vezes a banda punk Titus Andronicus. Existe certa ênfase na técnica, o que dá uma cara progressiva ao rock do quinteto e uma dinâmica de banda que alterna entre o rock de riffs poderosos do Muse e o psicodelismo do Of Montreal e do MGMT.

Não quero fazer parecer que o Orbs necessita dessas aproximações com essas bandas mais famosas para se definir. No entanto, eu, como um resenhista tentando pôr em palavras o som dessa banda, achei pertinente citar as bandas com elementos e estilos que parecem confluir para formar o som do Orbs. Definir sem referências fica ainda mais difícil no caso deste disco em que as faixas são camaleônicas. “Jaws On Repeat (Life On Hold)”, por exemplo, começa com uma levada psicodélica do teclado e da guitarra (o som do MGMT, a voz do Titus Andronicus) e vai ficando mais intensa, como acontecia no Mars Volta, uma dinâmica de guitarra, baixo e bateria que lembra o Muse ao vivo e um encerramento digno do Of Montreal. Mas e se eu disse que, apesar dessas comparações todas, a Orbs soa autêntica? E que Past Life Regression, em sua explosão roqueira e diversa, tem uma assinatura sonora própria?

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É exatamente isso o que ocorre com esse supergrupo e com este álbum. Mesmo que você curta uma das bandas mencionadas, não é certeza que você vai gostar da mistura sonora, mas vale a pena tentar, porque há qualidade no trabalho e nos músicos envolvidos. Dan Briggs, guitarrista, vem da pesadona e prog Between The Buried And Me; a tecladista Ashley Ellyllon é egressa das bandas de black metal Cradle Of Filth e Abigail Williams; o cantor Adam Fisher era da banda experimental Fear Before The Marcho of Flames.

Completam o time o baixista Chuck Johnson e o baterista Matt Lynch (substituindo Clayton “Goose” Holyoak) que, apesar de não terem feito parte de bandas conhecidas, fazem um trabalho primoroso em Past Life Regression. Afinal, quando há um repertório lotado de canções que mudam de dinâmica constantemente, você PRECISA de uma cozinha que acompanhe com precisão e a força necessária. A nervosa “These People Are Animals” mostra justamente como Lynch moi o kit de bateria e Johnson propõe ótimas linhas de baixo o tempo todo.

Embora soe mais jovial que o The Mars Volta e o At The Drive-In, a Orbs faz parte da mesma estirpe: uma banda que presa pela criatividade e procura meios de perverter as composições, transformando-as em coisas que ouvintes possam exclamar: “Nossa, que louca essa parte!” A recusa de fazer uma música linear e fácil de digerir é o que garante a originalidade da proposta. Nem mesmo os vocais facilitam para o ouvinte, alternando entre o intenso, o raivoso, o infantil, o arrastado e o limpo (como na faixa “Exploded Birds”), interpretando diversos personagens na mesma faixa. Afinal, trata-se de um disco conceitual com “histórias de reencarnação e suas mais estranhas formas”.

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Goste ou não do resultado final, tenha ou não você paciência para chegar à metade do álbum, saiba que não deve desconfiar da qualidade musical dos envolvidos. Nenhum músico mostra preguiça, não há uma levada que não valha a pena prestar atenção e os climas criados por Ashley Ellyllon são certeiros para o som do Orbs ter uma qualidade viajante e etérea que sabe a hora de aparecer e a hora de dar lugar ao rock’n’roll ágil. É uma banda plural que usa a sua pluralidade com muita inteligência – mas não tenta, nem por um minuto, sacrificar essa pluralidade para agradar quem prefere uma música mais linear. Past Life Regression exige do ouvinte a mesma pluralidade.

A descrição da banda para seu som era, há algum um tempo, era uma tentativa de representar o espaço e a natureza. Embora isso ainda possa ser encontrado em faixas como na melancólica “Giving Tree Hanging Me”, parece ser uma declaração mais restrita ao primeiro álbum, Asleep Next To Science (2010). O novo trabalho tem cara de ópera rock, com variações de dinâmica e intensidade coordenados para combinar com o desenvolvimento da narrativa e dos atos do personagem.

Com as bandas At The Drive-In e The Mars Volta fora dos estúdios, o Orbs acaba sendo a banda de rock experimental e progressivo que preenche a falta de um som tresloucado, visceral e bem calculado. E eles entregam o que prometeram e vão além. Não é preciso ter ouvido todas as bandas citadas para entender o que se passa com esse supergrupo, mas só mesmo ouvindo “Death Is Imminent (However, Relative)”, “Dreamland II”, “El Burro” e “Peculiar, Isn’t It?” para ter noção de verdade do que eles propõem e de como são originais.

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Swans – The Glowing Man (2016)

A escuridão do homem brilhante

Por Lucas Scaliza (com participação incidental de Brunochair)

Ouvir o álbum novo do Swans não é pra qualquer um. Não se trata, aqui, de uma discussão sobre The Glowing Man não poder ser consumido por um público ou outro, e sim pela própria vontade do receptor. O Swans não é ópera, não procura operar mudanças no status social de ninguém. Não quer fazer música para plebeus, para nobres. Eles apenas fazem a arte que lhes cabe, a arte que consideram ser a possível. A arte da entrega, do suor. Portanto, exige-se entrega para ouvir as duas horas de música a que o Swans nos oferecem, com The Glowing Man.

A inquietação é o tema marcante do álbum. Na primeira audição, há o espanto: não se sabe se haverá silêncio, barulhos, se entra guitarra, se haverá letras ou não, se os barulhos enigmáticos continuarão por toda a música, enfim… a música não dá um rumo pré-estabelecido, há o temor para onde ela levará. O ouvinte, cego, penetrando as entranhas obscuras de algo que não conhece. Terreno incerto.

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O pseudocaos se dá por conta de uma confusão grandiloquente de instrumentos, sensações, possibilidades. Se experimentado sem atenção, os arranjos podem comportar-se como um serrote lançado ao acaso no meio de um tornado. Ou seja, tudo cuidado é pouco. Porém, ouvindo pela segunda ou terceira vez, observa-se uma construção cartesiana nas composições, mesmo nas que apresentam mais variâncias. Há uma lógica, uma cronologia, é preciso estar receptivo a tudo isso – mesmo em um pseudocaos, há algum tipo de ordenação.

Melhor parar por aqui a brincadeira. Não percebeu a brincadeira? Os três parágrafos anteriores são uma cópia direta e quase sem edição nenhuma da crítica escrita por Brunochair para To Be Kind, o disco anterior do Swans. The Glowing Man é, ele todo, um álbum que suscita o mesmo tipo de musicalidade e de emoções que seu antecessor. Enquanto experiência musical, é uma continuação até bastante linear do que a banda já vem fazendo há algum tempo. Ainda é algo bastante pesado e difícil para qualquer tipo de ouvinte, dando continuidade à experimentação, à quebra de padrões do rock e dando um passo à frente no quesito abstração sonora.

Se To Be Kind era um bom disco, assim o é The Glowing Man também. Mudam os personagens e a ambientação, mas mantém-se o tom, a estrutura e a linguagem. No entanto, é o último disco que será lançado pelo Swans com a atual formação. Michael Gira, capitão desse grupo americano desde a estreia em 1982, pode pensar em projetos futuros com a banda e com o selo Young God sabendo que sua missão com a retomada da banda (o Swans foi ativo de 1982 a 1997, e de 2010 até agora) foi cumprida. O nível de experimentação e de ambição musical conseguido por ele pode ser comparado ao de Robert Fripp no King Crimson, ao do saxofonista John Zorn e às recentes experimentações psicodélicas do The Flaming Lips. Os próximos passos da banda não terão foco em turnês e Gira pensa em trabalhar mais com colaboradores do que com músicos integrantes do grupo.

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O multi-instrumentista Bill Rieflin, aliás, já foi baterista do King Crimson e do Nine Inch Nails e responde não só pelas baquetas no álbum, mas também pelo mellotron, baixo, guitarra, vocais e o piano esquisito de “Cloud of Forgetting”. Temos ainda um solo de cello em “Cloud of Unknowing” feito pelo sul-coreano Okkyung Lee e a presença de Thor Harris e Phil Puleo que contribuem com a percussão e na criação de diversos sons periféricos para a criação da vibe hora espacial, hora mística, hora ambiente e hora apocalíptica do álbum.

O “homem brilhante” que está no título do álbum é um indivíduo que lida com dilemas tanto políticos e sociais quanto mergulha em questões de amor e desejo, sexo e religião, as pressões mentais e físicas que fazem um/uma homem/mulher encontrar seu lugar no mundo ou perdê-lo de vez. Esse homem pode até transcender e se tornar um homem brilhante, mas este álbum nos faz ter certeza de que há muita escuridão dentro dele.

Se musicalmente o Swans é aclamado, a imagem do compositor Michael Gira está em xeque antes mesmo de o disco ser lançado. Larkin Grimm, cantora que já colaborou com Gira e que estava no elenco do selo Young God (chefiado por Gira), o acusa de estupro. Tanto o líder do Swans quanto sua esposa, Jennifer, têm negado que o estupro ocorreu. Talvez motivado por essa situação, a faixa “When Will I Return” é cantada por Jennifer e descreve um ato de violência contra a mulher e a recusa dela em se submeter ao homem.

Assim como o antecessor, The Glowing Man é mais conceito e música para os sentidos do que para curtir despretensiosamente. Novamente é um disco duplo (em CD) e que se espalha por seis lados de vinis, com três músicas que superam os 20 minutos de duração e duas com mais de 12. A tensão e o desconforto são constantes, os músculos só relaxam na resolução de “Finally, Peace”. Em 80% do resto do álbum, parece que estamos encarando um filme de suspense e terror em formato de música. Não muito diferente da vida, não é?

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Jesu & Sun Kil Moon – Jesu / Sun Kil Moon (2016)

Sobre pais e filhos, família e fãs

Por Lucas Scaliza

Ao ouvir Jesu / Sun Kil Moon é muito fácil notar a presença esmagadora do estilo maduro de Mark Kozelek/Sun Kil Moon, já que o fluxo de consciência de seus últimos álbuns dita o lirismo de todas as faixas e, claro, sua voz é onipresente. Mas é ao avaliar a música em si, a roupagem para o estilo de composição de Kozelek, que se revela o papel fundamental do inglês Justin Broadrick (o Jesu). Se em Universal Themes (2015), Kozelek já tinha mostrado confiança suficiente em seu folk para poder experimentar com o estilo, o novo álbum se beneficia de todas as vertentes que fazem de Jesu um músico experimental, indo do metal à música eletrônica, do folk à música ambiente. E a beleza do trabalho é justamente a crueza dos temas, dos versos, dos sons, de como notícias cotidianas se convertem em temas tocantes, como parentes, fãs e histórias da estrada entram nesse caldeirão nos dando uma visão de fresta da vida de Kolezek e contribuindo para o caráter intimista de sua obra nesses três últimos anos.

“Good Morning My Love” mostra as garras da dupla (inclusive o passado metaleiro de Jesu, que foi guitarrista do Napalm Death nos anos 80) logo na abertura do disco com distorção pesada, arranjo repetitivo e frases narrativas, sem métrica, sem rimas. É como se Mark levasse o speech típico do rap para o folk, mas em vez de violão, temos um guitarra fazendo shoegaze, quase fazendo metal. Mistura cenas e significados do documentário The Road To Las Vegas com momentos de sua vida. No último ato temos uma maior abertura harmônica, mais vocais dobrados e mais melodias, os versos parecem menos narrativos. Um dos motivos de as músicas de Kozelek serem tão longas é sua recusa de editar e condensar suas ideias. A forma “crua” como parecem relatadas é parte do show, afinal.

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“Carondelet” é um protometal com vocal pespegante, intenso e forte. Os riffs da guitarra e a percussão arrastada cairiam bem ao heavy metal, embora todo o resto fique no meio do caminho entre o folk e o rock de garagem. Já na linda “A Song Of Shadows” há um equilíbrio entre melodia e peso, criando uma das faixas em que se percebe na performance do cantor uma autêntica entrega aos sentimentos da música, coisa que não é muito comum, já que durante uma seção de gravação se prioriza a execução técnica perfeita e milimetricamente planejada e não a vazão de sentimentos.

“Last Night I Rocked The Room Like Elvis and Had Them Laughing Like Richard Pryor” dá um tempo na guitarra pesada e no clima opressivo para experimentar com a música eletrônica combinada à interpretação folk. E então, mesmo com a liberdade métrica que ele tão bem delineia e executa, propõe melodia intuitiva que combina e se encaixa às batidas regulares da bateria eletrônica. No final, lê a carta de Victor, um fã de Singapura. “America’s Most Wanted Mark Kozelek and John Dillinger” é uma das músicas mais redondas do disco, um indie rock que se adequa bem ao folk narrativo, cuja letra foca-se em um período da vida recente de Kozelek. Há ainda episódicas intervenções eletrônicas e mais uma leitura de carta (como Mark lê a correspondência de dois fãs no álbum, creditou a eles também a composição das músicas).

Fica claro como neste disco as letras tentam lidar, de alguma forma, com a fama que Kozelek/Sun Kil Moon alcançou após o lançamento de Benji (2014), o trabalho que ampliou absurdamente a exposição do compositor. Na primeira faixa – “Good Morning My Love” – ele diz que acha fantástico que existam pessoas fanáticas por vinil, que sejam “apaixonadas por papelão”, que ouçam música em “plástico multicolorido” e que fiquem perguntando a ele quando é que vai sair a versão em vinil de seu álbum. No entanto, para Mark Kozelek, essas são questões menores. Ele diz que está mais preocupado com o que sente. Em “Last Night I Rocked…”, a carta que lê é de um antigo fã que o acompanha há 20 anos e voou de Singapura a Melbourne só para vê-lo tocar. E o próprio fã reclama dos fãs hipsters que estão atrás dele apenas por causa de Benji. Parece que Kozelek encontra algum tipo de redenção nessa carta, sabendo que sua obra completa tem peso, não apenas o disco que acabou sendo o mais aclamado (até agora).

A bonita “Fragile” mostra as habilidades de Kozelek com o violão, usando dedilhados e uma escolha harmônica esperta para criar ambientação. Sem perder a delicadeza, “Father’s Day” volta ao eletrônico e ao cotidiano como fonte de inspiração e material para as letras. Nem tudo o que ele conta é interessante, mas às vezes o cruzamento das histórias aparentemente banais faz com que os fatos não sejam mais tão banais agora que estão imortalizados na música, chamando nossa atenção para a profundidade que essas “banalidades cotidianas” podem ter. Kozelek diz, por exemplo, que viu na CNN a notícia de nove pessoas mortas e que o assassino parecia um menininho, não um homem. Ou quando relata que ligou para o pai no Dia dos Pais e deu-se conta do quanto sentia falta dele. Mas o que nos toca mesmo é quando revela que ele e a mulher não pensam em ter filhos, mas mesmo assim conseguem ouvir a voz de um suposto rebento no playground próximo à residência do casal. E então ele canta:

“Será que vou ouvir as pessoas dizerem Feliz Dia dos Pais? / Tenho o dinheiro, tenho o espaço/ Tenho a garota certa, tá tudo no lugar/ Será que teremos um filho lá fora no playground, rindo e brincando/ Durante metade da minha vida/ Aquele playground tem sido meu som favorito”.

“Exodus” mantém Jesu e SKM no tema da paternidade. É a canção mais intimista de Jesu / Sun Kil Moon, com aquela simplicidade elegante e profunda do Nick Cave dos anos 90. A referência não é apenas comparativa, é direta mesmo, pois a música é uma longa reflexão sobre pais que perderam seus filhos. É extremamente comovente e revela a habilidade de Kozelek em partir de ocorrências cotidianas para falar de assuntos espinhosos e pesados com graça, respeito e sem hipocrisia. Ele parte da morte do filho de Nick Cave, passa pela morte da filha de Mike Tyson, do filho de Danielle Steele e chega até sua prima Carissa (sim, aquela imortalizada em Benji, mas já morta no plano existencial).

“Beautiful You” fecha o álbum com 14 minutos de base enevoada, arranjos etéreos e jeitão de música ambiente que pode embalar você na tristeza ou no sono. Grande parte dos vocais não são cantados, parecendo mais como um relato ou uma leitura, dando à faixa uma característica ainda mais acentuada de trilha de filme de Jim Jarmusch ou de trilha de sonho mesmo.

Melhor do que Universal Themes, provavelmente, mas não supera Benji. Suas letras ainda são uma atração à parte. Kozelek narra trechos de sua vida e de seu cotidiano, de repente BLAM!, o ouvinte acaba enredado em versos sentimentais no meio do fluxo de consciência do compositor, fazendo-o sentir o mesmo que o cantor sente. Embora a distorção de “Carondelet”, “Good Morning My Love” e a violência de “Sally” falem alto, a compaixão pelos pais enlutados em “Exodus” e seu desejo reprimido de ser pai em “Father’s Day” são sentimentos tão que se comunicam diretamente com o coração do ouvinte.

De certa forma, Jesu / Sun Kil Moon é tão vasto estilisticamente para um artista folk e um artista experimental quanto I Love You Honeybear (2015) foi para Father John Misty. No entanto, enquanto Father John usa folk, eletrônico, rock e balada de uma forma aberta e cristalina, Mark e Justin Broadrick adotam uma sonoridade mais introspectiva e mais difícil de atravessar, mais abafada e mais alternativa. No final das contas temos um belo álbum colaborativo que mostra dois artistas diferentes encontrando uma forma de não abrir mão de suas respectivas estéticas e, ainda por cima, criar um trabalho legítimo para a discografia e carreira de ambos. Difícil imaginar uma colaboração mais proveitosa e madura do que essa.

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Matt Elliott – The Calm Before (2016)

Folk experimental inglês mantém a pegada soturna, mas continua mostrando abertura para passagens mais iluminadas

Por Lucas Scaliza

O folk contemporâneo ainda conserva aquela velha imagem do homem, ou da mulher, com seu violão no colo. Mas é um erro manter essa imagem rígida em mente toda vez que se fala em folk. Além do violão, que pode permanecer em primeiro plano sem problema nenhum, é importante destacar o papel de drones, sintetizadores, pedais de expressão, orquestrações e percussão na música de uma boa quantidade de compositores do gênero nesta virada de século. O experimentalismo está presente na música do irlandês Damien Rice, dos americanos Sun Kil Moon e Sufjan Stevens, só para citar alguns.

O inglês Matt Elliott não está nem perto de ser o mais conhecido deles, mas é dono de uma discografia esmerada. Um artista que possui pathos e ethos fortíssimos, identificáveis em cada uma de suas músicas. Cada um de seus sete discos trazem um folk levemente diferente do que já ouvimos anteriormente e mesmo assim nunca perde de vista a profundidade sonora, a melancolia, o virtuosismo, o sarcasmo, a blasfêmia, e a paciência para deixar cada música respirar à vontade, tomando o tempo que for necessário para que evolua e se resolva. Não é por acaso que já se referiram à música de Elliott como “dark folk”.

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The Calm Before, seu sétimo e novo álbum, é mais uma peça única em sua discografia. Maturidade musical ele exibe desde a estreia, então o que sobra para perscrutarmos a cada novo trabalho é a utilização de novos e velhos instrumentos, as letras, as nuances do registro vocal e que novas influências ele emprega para contar suas histórias.

Não importa para onde vá sua música, quais caminhos ele escolha e que detours tenha que fazer, suas músicas continuam partindo do violão e voltando a ele. “Wings & Crown” é uma faixa bastante diferente de tudo que ele já produziu, apostando na música mediterrânea com percussão bem marcada, quase como uma marcha, e um clima bastante épico. Encontra espaço para uma guitarra lacerante e até um solo de baixo acústico, sempre deixando o violão temperado soar.

Assim como no excelente Only Myocardial Infarction Can Break Your Heart (2013), ele mantém uma boa dose de climas soturnos e sombrios, mas deixa entrar raios bastante luminosos também, dando uma abertura sonora maior à sua música em alguns momentos. “The Allegory of the Cave” exemplifica isso de maneira muito clara, mantendo uma melodia de voz terna e fraseados bastante cristalinos no lado mais luminoso da canção, enquanto o tímido zumbido eletrônico e uma percussão bem funda vão e voltam, acompanhando a evolução da faixa e criando a moldura mais sombria, marca de Elliott.

“The Calm Before” e seus 14 minutos de duração é uma amostra do poder lírico de Elliott. O dedilhado sóbrio do violão em suas mãos abre espaço para o brilho da gentileza de sua voz. O piano o acompanha com as teclas mais agudas, apenas marcando mudanças harmônicas chaves com as teclas mais graves. Ao fundo, rugindo constante mas timidamente, ouvimos um drone. Embora não seja uma faixa tão expansiva como “The Right To Cry”, do disco anterior, é uma das típicas composições do inglês que exigem paciência e entrega do ouvinte para revelar seu carisma. É pouco depois da marca de 10 minutos que cello, sopros e até coral se juntam ao corpo da música, criando um arranjo encorpado e iluminado.

Curtinha e poderosa é “The Feast Of St. Stephen”, com um registro vocal extremamente grave de Elliott, violão misturando as escalas menores temperadas e as técnicas de violão clássico europeu. “I Only Wanted To Give You Everything” rivaliza com a faixa-título o posto de melhor canção de The Calm Before. Sempre houve uma ênfase na repetição de frases, temas e ciclos de acordes caracterizando a estrutura das canções de Matt Elliott. Nesta faixa, ele leva a repetição para os versos “But you don’t love me”, que a cada turno ganham mais força, mais instrumentação, mais ansiedade e mais caos, mostrando um dos momentos mais barulhentos de sua discografia. Daí você entende o alerta sobre o folk contemporâneo que não se resume mais só a um homem/mulher e seu violão, mas abre-se para uma experimentação bem maior.

A música de Matt Elliott nunca foi inofensiva, nem pouco criativa, e sempre foi adulta mesmo com todos os trocadilhos e referências sarcásticas que sempre empregou. The Calm Before não dá grandes passos além do que ele já mostrou anteriormente, mas não é nenhum passo para trás também. O álbum tem qualidades técnicas de sobra e uma expressão artística que não decepcionará nenhum ouvinte do músico. Aliás, dentre todos os seus discos, The Calm Before pode ser seguramente a porta de entrada para novos admiradores. Só lembre-se de que cada trabalho tem seu próprio jeito de ser e é por isso que vale a pena mergulhar nas águas turvas e profundas da música de Matt Elliott.

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