folk

Lindsey Buckingham & Christine McVie -Lindsey Buckingham Christine McVie (2017)

Gravado pelo Fleetwood Mac, mas não é Fleetwood Mac

Por Gabriel Sacramento

Poucas bandas conseguiram uma proeza tão notável quanto o Fleetwood Mac em seus dias mais gloriosos: explorar a fronteira – se é que realmente existe – entre o pop e o rock, em uma época que a referência de pop era o ABBA e a referência de rock, o Led Zeppelin. O grupo parece ter a fórmula para canções irresistíveis e enxutas no seu esqueleto, sendo merecidamente uma das bandas mais importantes da história.

O disco em pauta neste texto foi gravado por 4/5 do Fleetwood Mac atual, mas saiu como uma parceria do vocalista/guitarrista Lindsey Buckingham e Christine McVie – que lembra muito a ideia da parceria Buckingham Nicks, do guitarrista com a outra voz feminina famosa do grupo antes de ingressarem na banda. Buckingham e McVie eram membros ativos e importantes compositores do Mac, que juntos já eternizaram hits como “Don’t Stop”, do Rumors (1977). Lindsey Buckinham Christine McVie marca a volta da cooperação criativa dos dois, depois de um tempo separados. Também é o primeiro disco de inéditas da galera toda junta, menos a Stevie Nicks, em anos.

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Como o disco foi gravado pela mesmíssima cozinha rítmica/harmônica e parte das vozes do Fleetwood Mac, é quase impossível que não soe realmente como algo que o grupo faria. Aqui a leveza sônica joga a favor do grupo em canções como “On With the Show”, cantada pelo Buckingham. A faixa é bem tranquila e caracterizada pela marcação pontual dos acordes pelo baixo. A contemplativa “Carnaval Begin” é uma canção que mesmo despida de maquiagem e excessos, soa completa e bela. O teclado de Christine chama a atenção pelas melodias que servem completamente à música e ainda conversam bem com parte rítmica. O dedilhado típico e singular de Buckingham rouba a cena em “Love is Here To Stay”, uma canção bem simples também e igualmente bela. “Too Far Gone” tem uma veia mais roqueira, com um jogo sensacional de vozes e a bateria sendo usada como recurso criativo, diferente da função típica de marcação de ritmo, como o Mick Fleetwood já tinha feito em ocasiões como na clássica “Go Your Own Way”, de 1977. Temos três faixas especiais com cara de hit: “Sleeping Around the Corner” – com um refrão chiclete e um instrumental ousado -, a tropical “Feel About You”, com suas influências de doo-wop e “In My World”, com um arranjo sofisticado e refrão inesquecível, que parece alguma coisa criada originalmente para o ABBA.

Quando perguntado sobre suas influências musicais e seu estilo de tocar, Buckingham afirmou que não gosta do estilo de Eddie Van Halen, por exemplo, pois prefere guitarristas que toquem para a música e não somente para se destacarem individualmente. Essa visão com certeza guiou o músico na sua carreira e o levou a desenvolver essa fórmula de criar e produzir hits, em que todas as partes cooperam decisivamente para um todo forte. O resultado são faixas imbatíveis em termos de sensibilidade e apelo pop, mas não soando necessariamente descartável para ouvintes mais exigentes. Outra banda que também dominou esse modus operandi foi o Steely Dan, por exemplo.

Seu novo disco com a McVie segue esse modus. Como sempre, sobra capacidade de entrar e sair pelo rock e pop, com foco na força das faixas, no quanto soam agradáveis e marcantes para o ouvinte médio/fácil, sem se preocupar em se prender a gêneros ou idéias padronizadas. Um álbum que proporciona uma tranquila viagem pelo mundo das ideias sonoras, cheia de conforto e segurança. Esse disco vai te fazer querer ouvir Fleetwood Mac de novo e respeitar ainda mais esse grupo sensacional, que é tão seminal para a música pop.

E fica cada vez mais fácil acreditar que quando esse pessoal se junta não tem como sair algo ruim.

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James Vincent McMorrow – True Care (2017)

Uma viagem sonora pelo soul e R&B interestelares

Por Gabriel Sacramento

Muito tem sido discutido sobre a transição de James Vincent McMorrow de um som mais folk para algo mais soul e R&B alternativo, com fortes interferências eletrônicas. Porém, o que muita gente pode não saber é que o músico nunca quis deliberadamente soar folk. Ele mesmo afirma que apenas fez o que pode com os recursos limitados que tinha e aquilo acabou soando como folk.

Claro, como ouvintes que tentam conceber a proposta musical de McMorrow, não podemos desconsiderar seu jeito para fazer folk, bem evidente nos primeiros álbuns. E se ele mesmo não tinha em mente esse resultado, acabou chegando a ele com competência e uma qualidade que fornece uma experiência auditiva bastante satisfatória, até para ouvidos acostumados com o gênero e suas nuances.

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Dito isso, fica mais fácil compreender que à medida em que o músico cresce na carreira, ele se afasta da veia inicial. Seu novo álbum, True Care, soa também diferente de We Move, disco do ano passado que tinha um forte apelo pop e soava bem R&B alternativo. True Care vai por um caminho mais expansivo, abordando elementos espaciais e soando um pouco mais experimental que o anterior, com o músico irlândes abusando dos sintetizadores para criar camadas cheias e densas, que abrigarão seus vocais.

Esse desejo por expansão também fica evidente com o uso de timbres esquisitos e diferentões. Como em “Thank You”, com sintetizadores envolventes e elementos instrumentais interessantes, preenchendo tudo com um nível detalhamento tão interessante quanto o nível de competência em compor todos esses detalhes. Ainda temos a sua guitarra complementando tudo e um quê de R&B. Se tivesse de escolher duas músicas chave para o álbum, seriam “National” e “True Care”. A primeira começa com um piano que acompanha a melodia do vocal, lembrando o Sampha em “(No Ones Knows me) Like the Piano” – uma das melhores faixas do ano. A interpretação de McMorrow é extremamente emocional, conferindo uma sensação de intimidade com o ouvinte. A segunda começa com os vocais aveludados do cantor ressoando por todo o espaço das nossas cabeças e ganha base instrumental densa, fortemente sintetizada e com uma timbragem especialmente esquisita, no melhor sentido da palavra, mas que poderia simplesmente arrancar um sorriso de Frank Ocean.

Se você, depois de algumas faixas, ainda não sacar a veia espacial e onírica do álbum, os interlúdios fazem questão de deixar isso bem claro. “Constellations” é outra faixa que, desde a manipulação dos sintetizadores da base à interação vocal-instrumental, remete totalmente ao Process do Sampha. As coisas continuam densas em “Holding on” e “Bears”, que não escondem a influência de soul no jeito como se desenvolvem. “Bend Your Knees” também deixaria qualquer cantor de R&B alternativo bem empolgado, tamanha é a sua facilidade para simular algo mais suingado, sem necessariamente entrar nos clichês e padrões do estilo.

Com o auxílio de uma produção esmerada e com os seus sintetizadores, James conseguiu criar um álbum viajante, climático e que foge das fronteiras, indo além tanto do folk quanto do R&B ou soul, mas aproveitando boas ideias desses gêneros. As melodias não tem tanto apelo comercial como as disco do anterior, mas são bem trabalhadas em músicas bem acabadas, por isso ganham destaque.  É um disco que nos coloca diante da possibilidade de viagens interestelares cheias de aventuras, perigos e recompensas. Enquanto lutamos contra as naves espaciais inimigas, tentando sobreviver, McMorrow nos guia com sua voz suave e seu disco vai traçando a rota.

Dá para ao menos especular que quando pende para o folk, James soa como algo próximo do que Ray LaMontagne tem feito em sua nova fase. Quando pende para o R&B fora da caixa, ele soa um pouco como um Frank Ocean ou Sampha. O irlândes mistura bem o aspecto sonhador com as manipulações eletrônicas experimentais da versão mais moderna do R&B, chegando a um híbrido interessante e imperdível. Foi assim também com o We Move inclusive, só que agora ele está ainda menos preso à necessidade de permanecer em baixas altitudes.

Se a humanidade acabar realmente tendo que povoar outros planetas, eis uma boa trilha para a dramática viagem. Esteja certo de embarcar com os fones de ouvido.

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Kevin Morby – City Music (2017)

Eis a trilha sonora da solidão

Por Gabriel Sacramento

Começo esse texto com uma afirmação segura e certeira: City Music é o mais maduro trabalho de Kevin Morby, não só pelo desenvolvimento natural do artista há anos no ofício – o que acontece com todo mundo -, mas é o seu trabalho solo mais consistente e mais interessante. Tudo bem, as canções de Still Life (2014) são muito boas e muito marcantes, bem como as de Singing Saw (2016), que você já leu por aqui, mas City Music traz uma abordagem sonora típica de alguém que evoluiu na forma como pensa a sua música.

No texto do ano passado sobre o seu álbum anterior, você leu alguns elogios à carreira solo de Morby e como ele tem se dado bem. Misturando os elementos roqueiros e intensos que remetem à sua antiga banda, o Woods, com a solitude típica do folk desértico – que junto com a produção alternativa fica ainda mais atmosférico e distante. O músico conseguiu estabelecer seu nome dentro do circuito folk independente dos Estados Unidos e tem sido uma voz interessante a ecoar e nome de referência a constar nas listas de recomendações.

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City Music apresenta um Kevin muito apegado à suas criações, com boas histórias pra contar acerca de cada uma das faixas. A que abre o disco, “Come To Me Now”, impressiona pela atmosfera esvoaçante que ganha ainda mais densidade do meio para o final, mas que é impulsionada por um órgão antigo que Morby encontrou no estúdio enquanto gravava e decidiu, na hora, incluí-lo. A letra é escrita da perspectiva de uma mulher que passa boa parte do seu tempo sozinha e não gosta do sol, esperando assim pelo surgir da lua. Essa mesma mulher, chamada de Mabel, é personagem de “Tin Can” – canção que possui crescendos fabulosos, dando sempre a sensação de que vai ficar maior e mais pesada – e do longo folk “Night Time”.

Já “1234”, é uma espécie de tributo aos Ramones, com o título fazendo referência à contagem do tempo que os nova-iorquinos costumavam fazer antes de cada faixa. A sonoridade é garageira e suja no estilão bem rock’n’roll como poucas coisas na discografia solo de Morby. Quando transitamos desta para a próxima faixa, “Aboard My Train”, a impressão é que estamos ouvindo outro disco, tamanha é a diferença em termos de timbres e musicalidade. Se o vocal na primeira é sujo e está envolvido na explosão instrumental, o vocal na segunda é limpo, destacado e a base é pequena, com marcações tímidas de baixo/bateria e um piano que dá as caras aos poucos. A canção vai ficando roqueira com o tempo, sempre com marcações fortes de acordes. “Dry Your Eyes” possui uma candura quase soulful, com uma guitarra praieira, uma sensibilidade instrumental incrível, um solo bem bonito e um vocal todo em um lado da mix para dar a impressão de que está sendo cantado bem próximo do ouvido do ouvinte, criando um aspecto intimista. A guitarra e a bateria foram gravados primeiro, e então o vocal e o baixo foram acrescentados. A faixa-título é marcada pelas lindas guitarras harmonizadas, mudanças fantásticas de andamento e pelo vocal insistente de Morby repetindo as mesmas frases. É uma das melhores canções do cantor, com um trabalho de dinâmica especialmente impressionante.

Agora com 29 anos, Kevin Morby está cada vez melhor em seu folk rock. City Music tem conceito, abordando a solidão e como as pessoas se relacionam com as cidades onde residem e com as pessoas ao redor. Como se sentem ao viver sozinhas em um mundo diferente do mundo que existe em seu interior. Para Morby, a música tem muito a ver com isso e ele torna a relação poética entre a solidão e os sons perfeitamente clara para nós.

A introversão de sua música conversa conosco. Afinal, todos nós já passamos por momentos tristes, em que nós preferimos a gritaria das nossas mentes às vozes que saem pelas nossas bocas, e permanecemos inquietos e angustiados. O cantor oferece a trilha sonora perfeita para isso, conectando a atmosfera da sua música com esta sensação perturbadora, apresentando um certo conforto, sensível, sonoro e poético. Um trabalho a ser admirado.

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Sóley – Endless Summer (2017)

Islandesa volta ao piano e faz músicas de esperança e luz

Por Lucas Scaliza

Se a islandesa Sóley chegou ao seu verão e espera que ele seja infinito, é porque passou o inverno que marcou seu álbum passado, Ask The Deep (2015), muito mais abismal, eletronicamente processado e escuro em tons e cores. Não só de calor e ternura é marcada a mudança de lá para Endless Summer. A cantora também troca o difícil idioma nativo pelo mais abrangente e acessível inglês.

De certa forma, você já meio que antevê onde tudo isso vai levar. “Agora ela quer um público maior, ficou mais fácil, tá mais pop”, dirão. E isso realmente existe, mas nem sempre é tão simples assim. E Sóley não é, por enquanto, o Maroon 5. O disco realmente não é sombrio e difícil como o anterior, mas ainda é um tipo de música alternativa e que não aposta nos clichês mais comuns, como repetições de impacto ou refrãos chicletes. E há histórico: o disco mais folk rock We Sink (2011), que tem guitarras e violões na mão da artista, também é inteiro em inglês.

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A porção eletrônica de sua produção adorna as faixas, entrando aqui e ali para reforçar uma harmonia ou se misturar a voz (como em “Traveller”) ou criar batidas (“Grow”). Outros instrumentos, como cordas de orquestra, guitarra ,baixo e percussão, aparecem aqui e ali, nunca são constantes. A base musical de é mesmo o piano. Ágil, emocional, doce, melancólico, primaveril. São todas essas as matizes que o instrumento apresenta ao longo de oito faixas, bem diferente também do clima mais casa-antiga-e-mal-assombrada que marca o curtinho Krómantík (2014). Isso contribui para que a voz de Sóley tenha maior protagonismo, mostrando, mais uma vez, que ela se dá bem tanto como cantora quanto como vocalista (as vocalizações e vocais dobrados são espetáculos a parte).

Se parece que a música dela tem algo de sonho bom, é porque toda a ideia partiu de uma noite em que ela acordou e observou que deveria escrever sobre esperança e primavera. Então pintou seu estúdio de amarelo e roxo e começou a compor novas canções dentro dessa ideia e ambientes renovados.

Endless Summer é mais despido, mas mais focado e melhor resolvido que Ask The Deep e mostra uma maturidade artística que vai muito além do folk do EP Theater Island (2010), que também tinha certo protagonismo da Sóley pianista. Faixas como “Sing Wood To Silence”, “Endless Summer” e “Úa” (feita para sua filha – e também a primeira música composta por ela com acordes maiores) podem figurar entre as melhores que ela já criou, rendendo, quem sabe, até alguma comparação com a harpista Joanna Newsom.

Por fim, se os últimos lançamentos da islandesa ficaram fora de seu radar, deixe que Endless Summer seja a porta de entrada. Tal como uma Norah Jones, Sóley nos faz ouvir variados sons e formas de se expressar a cada álbum e EP, enquanto observamos ela ficar cada vez melhor.

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Benjamin Booker – Witness (2017)

Blues + punk. Você precisa conhecer Benjamin Booker

Por Gabriel Sacramento

Benjamin Booker é um sujeito complexo. Um cara que se diz influenciado por Blind Willie Johnson e The Gun Club respectivamente, um bluesman da década de 1920 e uma banda punk que surgiu no final dos anos 70. Mas não é a disparidade das suas influências que o torna enigmático, mas sim sua disposição para fazer músicas que unem os dois universos, indo do blues encharcado de elementos do soul ao punk rock garageiro. Sua produção artística reflete diretamente a complexidade dos seus gostos.

Foi assim no primeiro disco, que levou o seu nome e foi lançado em 2014. Era incrível ouvi-lo e a cada faixa imaginar o que ele tentaria a seguir: se blues ou punk. No seu segundo trabalho, Witness, Booker mantém essa ideia de misturar os extremos, só que predomina a calmaria que foi menos frequente no anterior. Ou seja, o segundo álbum é quase um complemento do primeiro, o que torna sua pequena obra discográfica ainda mais interessante, um poço profundo de boas referências e preciosidades.

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O timbre vocal de Booker é fantástico e ele o usa estrategicamente. Em muitos momentos, o guitarrista da Virginia soa como um Gary Clark Jr., só que com suas particularidades e sem os solos expressivos.

A faixa-título foi lançada como single e foi uma música escrita para o movimento Black Lives Matter, falando portanto sobre racismo. A sonoridade beira o folk, com o coro marcante e a voz rouca do Booker prendendo a atenção. “The Slow Drag Under” é marcada pela estrutura harmônica típica do blues, com direito à um solo e vocais mais suavizados. “Truth is Heavy” possui uma linha melódica inquieta em contraponto com a melodia vocal cantada por Benjamin, com uma voz especialmente suave e arenosa, com uma técnica de drive que lembra a de James Morrison.

“Believe” é total soul anos 60, lembrando a era espectoriana mesmo, com uma ótima linha de baixo melódica que caminha pelo arranjo. Na letra, Booker diz: “Eu só quero acreditar em algo, não me importo se é certo ou errado”. Outra soulful deliciosa é “Carry”, com destaque para a interpretação do vocalista. Também temos momentos mais nervosos em Witness: “Right on You” abre o álbum com alto-astral e a veia roqueira típica do cantor. Temos também “Off The Ground” que começa com um violão dialogando com um piano, até que lá pra depois do primeiro minuto assusta o ouvinte com a urgência punk garageira. Booker consegue acertar a mão nas faixas mais agitadas tanto quanto nas mais calmas.

Witness é tranquilo, mas acelera nos momentos certos. É um disco que envolve o ouvinte em uma tranquilidade incrível, mas fornece a energia necessária para que o conjunto não seja sonolento. Misturando estilos distintos, de uma forma inventiva e original, é como o cantor nos cativa com suas boas canções, nos fazendo apreciar o tempo que passamos com ele. Um talento facilmente identificável. Uma das propostas sonoras mais curiosas do ano. Você precisa conhecer Benjamin Booker.

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Woods – Love is Love (2017)

Um tratado folk sobre o amor

Por Gabriel Sacramento

Uma das minhas leituras do ano passado foi o livro 1965, o ano mais revolucionário da música – que é muito bom e vale a leitura. Dentre outras coisas, o livro contava o panorama musical da década emergente de 60 e o surgimento e explosão de diversos estilos musicais. Um deles era o folk rock, que teria sido iniciado pelos The Byrds, que tocavam músicas do Bob Dylan com instrumentação de rock. Com o sucesso do gênero, surgiram várias bandas que buscavam o mesmo som, unindo Woody Guthrie à Chuck Berry, assim como os próprios Beatles.

Saiamos dos anos 60 e viajemos quarenta anos depois. Sob a bandeira da música independente surge, em 2005, o Woods, banda do Brooklin que fazia uma especie de folk rock, com ruídos e uma produção lo-fi. A impressão que se tem ao ouvir os primeiros registros – principalmente o esquisito Songs of Shame (2009) – é que estamos ouvindo uma banda de indie folk rock, que permanece sempre aberta a novas experimentações, com coragem e vontade de inovar. Dylan foi duramente criticado quando surgiu tocando guitarra em festivais conservadores de folk. Influenciado por isso, o Woods segue na contramão do totalmente acessível e do belo para criar o seu som.

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Com o tempo, no entanto, a produção da banda foi ficando um pouco mais sofisticada. Não que deixasse de ser independente, pois as gravações continuam sendo no estúdio caseiro do vocalista Jeremy Earl, que também cuida de todas as obrigações de engenharia de som das obras. Mas o som foi ficando mais polido de uma certa maneira, embora mantivesse o aspecto folk rock meio indie de sempre. No lugar do noise frequente de antes, temos mais espaço para as melodias – que ao mesmo tempo em que reforçam um aspecto mais acessível, também servem para reafirmar a esquisitice tão marcante da banda. Afinal, essas melodias não são tão ajeitadas e estruturadinhas como no pop comum.

O novo álbum foi chamado Love is Love e é na verdade um EP de seis faixas. A faixa-título abre com uma ótima linha de baixo e melodias que se tornam, depois de algumas audições, inesquecíveis. O aspecto lo-fi ainda está presente e dialoga bem com o aspecto mais moderno e polido. “Bleeding Blue” também é composta por boas melodias, um violão conduzindo boa parte da faixa e um tema instrumental que mais parece tema de marchinhas, mas que funciona bem dentro do arranjo. O tema é até meio celta e lembra um pouco o Dropkick Murphys. “Lost in a Crowd” é a primeira faixa realmente folk com os violões nas pontas da mix e um espaço aberto para os instrumentos no meio.

Temos uma faixa mais experimental – “Spring Is in The Air” – que traz instrumentos de sopro e um clima arrastado e mais contemplativo. O detalhe é que a faixa possui dez minutos e não varia muito – sempre estamos de volta ao riff principal. “Hit That Drum” é densa e vai ganhando profundidade a medida em que o arranjo cresce. Tem mais foco na ambientação e não na instrumentação normal como as outras. Temos ainda “Love is Love (Sun on Time)”, que é como uma reprise da primeira faixa, só que com mais swing. Mesmo com a cozinha explorando um pouco mais de groove, a voz do Jeremy continua do mesmo jeito e isso dá um toque especial à faixa.

O EP é um tratado folk sobre o amor e a maneira como o tema é abordado é o real diferencial. Não temos aqui clichês baratos e fáceis de compreender. Quando ouvimos Jeremy cantar “Diga que o amor é o amor”, não estamos plenamente certos a que ele se refere, embora tenhamos em mente que trata-se do amor e do seu medo de que o amor como ele conhece seja descaracterizado ou desvirtuado. É folk, principalmente porque, mesmo falando sobre amor, a parte musical da banda continua característica, forte, como sempre, sem inserção de elementos para tornar tudo acessível demais.

As melodias típicas da banda continuam vivas em Love Is Love. Junto com as linhas de baixo sempre ditando o ritmo das faixas e elementos intermitentes que surgem para dar um acabamento aos arranjos, tudo coopera para tornar a audição interessante e gratificante. O folk rock do Woods permanece se renovando dentro de si mesmo. Eles descobrem saídas para não soarem monótonos ou simplesmente repetirem a si mesmos, sem precisar mudar de gênero. Sem também abrir mão da esquisitice, da falta de jeito, da inocência e do aspecto alternativo. Um EP tão bom quanto um álbum seria. Um verdadeiro must-listen, afinal.

Feist – Pleasure (2017)

Contrastando arranjos áridos com passagens cheias de vida, Leslie Feist faz disco imprevisível e difícil

Por Lucas Scaliza

Não deixe que a estranheza de “Pleasure”, primeira faixa, primeiro single e primeiro clipe do novo álbum de Feist, te afaste, seja da cantora ou de Pleasure. Ou, na verdade, afastar pode ser o que ela quer. Mas “afastar” não é a palavra certa. A música de Leslie Feist, dessa vez mais do que antes, busca, quem sabe, “selecionar” quem vai ouvi-la até o fim e quem desistirá no meio do caminho. A inconstância meio roqueira de “Pleasure”, que pode ser cruelmente desestimulante antes do primeiro refrão, é só a primeira das esquisitices que a cantora e compositora canadense mostrará ao longo do disco.

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Portanto, esteja preparado. Seja fazendo rock ou folk, indo do indie ao alternativo e à balada num piscar de olhos, Pleasure tenta ser pouco convencional e pouco previsível (quem é que conseguiria prever cada virada e cada alto e baixo de “Get Not High, Get Not Low”, afinal?). Faixas como “I Wish I Didn’t Miss You”, “Lost Dreams” e a groovada “Century” (com Jarvis Cocker e Brian LeBarton) têm o temperamento de Feist, mas resgatam também algo de cancioneira folk rock que PJ Harvey exibia em seus primeiros trabalhos: uma mulher, uma guitarra e sua voz. Já outra como a valsa “Any Party” tem algo de Karen O na forma de cantar, embora a estrutura toda da canção seja, no final das contas, pensada para funcionar como um storytelling digno de Roger Waters (tem até latidos de cachorros e autorreferência).

Dois elementos chamam a atenção ao longo do álbum. Primeiro, os arranjos. Há os bonitos, há os esquisitos e há aqueles que surgem subitamente, nos levando para um entendimento diverso da faixa, como um pequeno novo universo que se apresenta por alguns minutos, seja no background da faixa – como o fantasmagórico teclado ao fim de “Baby Be Simple”, ou o rock rascante que toma a balada “A Man Is Not His Song” de assalto. Praticamente todas as músicas do trabalho terminam com alguma “surpresa”.

O segundo elemento são as dinâmicas, que reforçam os momentos mais emocionais das canções e também nos levam deles direto para os mais áridos. Absolutamente nenhuma música mantém uma mesma pegada do começo ao fim. Unindo os dois elementos, cada faixa precisa ser ouvida do começo ao fim para ser compreendida, já que Feist recusa fazer o esquema verso-refrão tradicional. Estamos já há milhas de distância de The Reminder (2007), sua estreia, muito mais fácil de ouvir do que qualquer trabalho que ela entregou depois.

O que vão dizer – com certa razão – é que Pleasure não empolga. Suas viradas e passagens áridas contrastam com os coros mais quentes e refrãos de melodias mais agradáveis, fazendo sua audição ir de um estado de prazer a um estado de estranhamento. Contudo, certos momentos e detalhes de cada composição não seriam tão interessantes sem outros mais secos. Uma vez vista como promissora estrela do indie pop, Feist conscientemente escolheu seguir em frente tentando novas formas de fazer indie. Há quem adorou Metals (2011), elevando-a ao patamar de “arte” no estilo. Pleasure, então, é a sequência desse estado de arte de sua música. Outros simplesmente não acompanharão a opinião e a música mais uma vez.

Eu fico com o primeiro time, mas entendo perfeitamente o segundo. E você?

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