folk

Woods – Love is Love (2017)

Um tratado folk sobre o amor

Por Gabriel Sacramento

Uma das minhas leituras do ano passado foi o livro 1965, o ano mais revolucionário da música – que é muito bom e vale a leitura. Dentre outras coisas, o livro contava o panorama musical da década emergente de 60 e o surgimento e explosão de diversos estilos musicais. Um deles era o folk rock, que teria sido iniciado pelos The Byrds, que tocavam músicas do Bob Dylan com instrumentação de rock. Com o sucesso do gênero, surgiram várias bandas que buscavam o mesmo som, unindo Woody Guthrie à Chuck Berry, assim como os próprios Beatles.

Saiamos dos anos 60 e viajemos quarenta anos depois. Sob a bandeira da música independente surge, em 2005, o Woods, banda do Brooklin que fazia uma especie de folk rock, com ruídos e uma produção lo-fi. A impressão que se tem ao ouvir os primeiros registros – principalmente o esquisito Songs of Shame (2009) – é que estamos ouvindo uma banda de indie folk rock, que permanece sempre aberta a novas experimentações, com coragem e vontade de inovar. Dylan foi duramente criticado quando surgiu tocando guitarra em festivais conservadores de folk. Influenciado por isso, o Woods segue na contramão do totalmente acessível e do belo para criar o seu som.

woods_band

Com o tempo, no entanto, a produção da banda foi ficando um pouco mais sofisticada. Não que deixasse de ser independente, pois as gravações continuam sendo no estúdio caseiro do vocalista Jeremy Earl, que também cuida de todas as obrigações de engenharia de som das obras. Mas o som foi ficando mais polido de uma certa maneira, embora mantivesse o aspecto folk rock meio indie de sempre. No lugar do noise frequente de antes, temos mais espaço para as melodias – que ao mesmo tempo em que reforçam um aspecto mais acessível, também servem para reafirmar a esquisitice tão marcante da banda. Afinal, essas melodias não são tão ajeitadas e estruturadinhas como no pop comum.

O novo álbum foi chamado Love is Love e é na verdade um EP de seis faixas. A faixa-título abre com uma ótima linha de baixo e melodias que se tornam, depois de algumas audições, inesquecíveis. O aspecto lo-fi ainda está presente e dialoga bem com o aspecto mais moderno e polido. “Bleeding Blue” também é composta por boas melodias, um violão conduzindo boa parte da faixa e um tema instrumental que mais parece tema de marchinhas, mas que funciona bem dentro do arranjo. O tema é até meio celta e lembra um pouco o Dropkick Murphys. “Lost in a Crowd” é a primeira faixa realmente folk com os violões nas pontas da mix e um espaço aberto para os instrumentos no meio.

Temos uma faixa mais experimental – “Spring Is in The Air” – que traz instrumentos de sopro e um clima arrastado e mais contemplativo. O detalhe é que a faixa possui dez minutos e não varia muito – sempre estamos de volta ao riff principal. “Hit That Drum” é densa e vai ganhando profundidade a medida em que o arranjo cresce. Tem mais foco na ambientação e não na instrumentação normal como as outras. Temos ainda “Love is Love (Sun on Time)”, que é como uma reprise da primeira faixa, só que com mais swing. Mesmo com a cozinha explorando um pouco mais de groove, a voz do Jeremy continua do mesmo jeito e isso dá um toque especial à faixa.

O EP é um tratado folk sobre o amor e a maneira como o tema é abordado é o real diferencial. Não temos aqui clichês baratos e fáceis de compreender. Quando ouvimos Jeremy cantar “Diga que o amor é o amor”, não estamos plenamente certos a que ele se refere, embora tenhamos em mente que trata-se do amor e do seu medo de que o amor como ele conhece seja descaracterizado ou desvirtuado. É folk, principalmente porque, mesmo falando sobre amor, a parte musical da banda continua característica, forte, como sempre, sem inserção de elementos para tornar tudo acessível demais.

As melodias típicas da banda continuam vivas em Love Is Love. Junto com as linhas de baixo sempre ditando o ritmo das faixas e elementos intermitentes que surgem para dar um acabamento aos arranjos, tudo coopera para tornar a audição interessante e gratificante. O folk rock do Woods permanece se renovando dentro de si mesmo. Eles descobrem saídas para não soarem monótonos ou simplesmente repetirem a si mesmos, sem precisar mudar de gênero. Sem também abrir mão da esquisitice, da falta de jeito, da inocência e do aspecto alternativo. Um EP tão bom quanto um álbum seria. Um verdadeiro must-listen, afinal.

Feist – Pleasure (2017)

Contrastando arranjos áridos com passagens cheias de vida, Leslie Feist faz disco imprevisível e difícil

Por Lucas Scaliza

Não deixe que a estranheza de “Pleasure”, primeira faixa, primeiro single e primeiro clipe do novo álbum de Feist, te afaste, seja da cantora ou de Pleasure. Ou, na verdade, afastar pode ser o que ela quer. Mas “afastar” não é a palavra certa. A música de Leslie Feist, dessa vez mais do que antes, busca, quem sabe, “selecionar” quem vai ouvi-la até o fim e quem desistirá no meio do caminho. A inconstância meio roqueira de “Pleasure”, que pode ser cruelmente desestimulante antes do primeiro refrão, é só a primeira das esquisitices que a cantora e compositora canadense mostrará ao longo do disco.

feist_2017

Portanto, esteja preparado. Seja fazendo rock ou folk, indo do indie ao alternativo e à balada num piscar de olhos, Pleasure tenta ser pouco convencional e pouco previsível (quem é que conseguiria prever cada virada e cada alto e baixo de “Get Not High, Get Not Low”, afinal?). Faixas como “I Wish I Didn’t Miss You”, “Lost Dreams” e a groovada “Century” (com Jarvis Cocker e Brian LeBarton) têm o temperamento de Feist, mas resgatam também algo de cancioneira folk rock que PJ Harvey exibia em seus primeiros trabalhos: uma mulher, uma guitarra e sua voz. Já outra como a valsa “Any Party” tem algo de Karen O na forma de cantar, embora a estrutura toda da canção seja, no final das contas, pensada para funcionar como um storytelling digno de Roger Waters (tem até latidos de cachorros e autorreferência).

Dois elementos chamam a atenção ao longo do álbum. Primeiro, os arranjos. Há os bonitos, há os esquisitos e há aqueles que surgem subitamente, nos levando para um entendimento diverso da faixa, como um pequeno novo universo que se apresenta por alguns minutos, seja no background da faixa – como o fantasmagórico teclado ao fim de “Baby Be Simple”, ou o rock rascante que toma a balada “A Man Is Not His Song” de assalto. Praticamente todas as músicas do trabalho terminam com alguma “surpresa”.

O segundo elemento são as dinâmicas, que reforçam os momentos mais emocionais das canções e também nos levam deles direto para os mais áridos. Absolutamente nenhuma música mantém uma mesma pegada do começo ao fim. Unindo os dois elementos, cada faixa precisa ser ouvida do começo ao fim para ser compreendida, já que Feist recusa fazer o esquema verso-refrão tradicional. Estamos já há milhas de distância de The Reminder (2007), sua estreia, muito mais fácil de ouvir do que qualquer trabalho que ela entregou depois.

O que vão dizer – com certa razão – é que Pleasure não empolga. Suas viradas e passagens áridas contrastam com os coros mais quentes e refrãos de melodias mais agradáveis, fazendo sua audição ir de um estado de prazer a um estado de estranhamento. Contudo, certos momentos e detalhes de cada composição não seriam tão interessantes sem outros mais secos. Uma vez vista como promissora estrela do indie pop, Feist conscientemente escolheu seguir em frente tentando novas formas de fazer indie. Há quem adorou Metals (2011), elevando-a ao patamar de “arte” no estilo. Pleasure, então, é a sequência desse estado de arte de sua música. Outros simplesmente não acompanharão a opinião e a música mais uma vez.

Eu fico com o primeiro time, mas entendo perfeitamente o segundo. E você?

feist_2017_2

Jesuton – Home (2017)

Cantora inglesa estabelece bem sua identidade em terceiro disco

Por Gabriel Sacramento

Lembro-me de, em 2014, assistir vídeos dessa talentosa cantora chamada Jesuton no YouTube. Eram amostras de seu show Show Me Your Soul, em que ela apresentava covers de artistas que foram importantes em sua (e na minha) formação. Lembro-me de ficar surpreso principalmente ao ouvir “People Get Ready” e “What’s Going On” do Marvin Gaye. Era seu segundo álbum e uma reafirmação do seu talento e da sua incrível capacidade musical.

A cantora inglesa veio ao Brasil em busca de sucesso na carreira musical em 2012. Começou cantando nas ruas do Rio de Janeiro e foi parar em programas famosos da Rede Globo, conseguindo um contrato com a Som Livre. Seu novo disco – e primeiro composto somente por faixas inéditas – Home, possui um estilo diferente do que o que ela vinha apresentando.

Jesuton_3

A singeleza semifolk que ela imprime em canções como “If I Could” é impressionante. A voz da cantora ressoa em nossas cabeças como quem está muito próximo, com uma interpretação precisa, fazendo com que a faixa seja inesquecível. Destaco o final, com a sonoridade cheia e densa, em um estilo spectoriano de produção que remete aos anos 60. Esse tipo de produção foi elemento marcante em muitos discos de soul que com certeza fizeram parte da educação musical da Jesuton. Apesar do título em português, “Cuidar de Mim” tem só uma frase no idioma. A sonoridade é totalmente soul retrô e a voz lembra muito a de Amy Winehouse, principalmente nas primeiras frases.

A faixa-título abre com uma guitarra muito bem timbrada, que ganha contornos largos dentro do espaço da mix e dá um aspecto folk novamente ao álbum. O refrão reforça esse aspecto, soando como algo indie/folk. “Radio” evoca Amy Winehouse mais uma vez, de forma explícita. Mesmo sendo bem parecida, Jesuton ainda consegue colocar um pouco da sua personalidade na faixa e o resultado agrada facilmente. A solidão que ganha densidade ao final reaparece em “Man of My Life” e “Don’t Think So”, esta última trazendo um belíssimo dueto entre a britânica e Seu Jorge, com um aproveitamento fabuloso das distinções de timbres das duas vozes, que passeiam sobre uma base viajante e inconsistente no espaço sonoro.

Talvez o único ponto negativo de Home seja “Vultures”. A canção possui a participação do guitarrista italiano Salvatore Cafiero, que empresta um timbre característico e pegada marcante. A canção em si é interessante, aborda elementos de rock e funk, fechando o álbum com um clima solto e pra cima. O problema é que destoa totalmente da proposta intimista, reflexiva e densa que as outras faixas construíram ao longo do disco. Ou seja, “Vultures” acaba soando como a sobra que entrou para o disco “por acidente”.

No geral, ouvir Home é bem recompensador. Jesuton mostra uma faceta mais original, com músicas de sua autoria e nos surpreendendo por dar ao álbum um direcionamento diferente dos seus dois primeiros trabalhos. A produção que deixa tudo muito fechado, cheio, ambientalmente pesado e cheio de reverb cooperou para que o disco soasse único e de certa forma original, sem pretensão de imitar ninguém, mesmo que reflita as influências da cantora.

Para quem começou com covers e até então tem sua imagem associada a eles, Jesuton dá um passo importante na carreira, estabelecendo o seu jeito de fazer música. O disco pode desagradar quem esperava algo anacrônico e que bebesse diretamente da soul music, mas com toda certeza irá agradar aos ouvintes que estiverem abertos a uma nova experiência. Em Home, a cantora também nos mostra que tem um pé no folk solitário e intimista e, junto de sua produção, trabalha esse lado de forma clara e inteligente. Entenda como alguém que tem o soul na veia e não pode fugir disso, mas se arrisca com sucesso por um outro tipo de som.

A cantora, que já se sente confortável morando no Brasil há cinco anos, mostra conforto também com seu som, sua musicalidade e entrega um trabalho bem consistente. Home, no final das contas, é um disco seguro de alguém que está em casa, mesmo em terras longínquas.

jesuton_2

JFDR – Brazil (2017)

Islandesa faz belo disco íntimo preferindo a tessitura e o feeling ao invés da extensão

Por Lucas Scaliza

“White Sun”, que abre Brazil, deixa entrever que tipo de artista é a islandesa JFDR. O compasso é 2/4 e ao invés de usar os ciclos de quatro compassos para formar uma frase, ela usa um padrão de cinco (caso curta Radiohead, você ouviu esse padrão de cinco nos versos de “Reckoner”), cada acorde bem marcado pela nota cabeça do teclado. O ritmo é marcada por microbatidas. Há um dedilhado de guitarra tímido, que só toma o holofote nos últimos segundos da canção. A melodia parte de notas altas e vai ficando cada vez mais grave conforme se aproxima do fim de cada ciclo. É um mantra, mas um mantra difícil de repetir. A voz da cantora é frágil, um sussurro. O que se percebe é que há uma personalidade ali que pode sim refutar alguns padrões, que se preocupa em criar a atmosfera correta para o trabalho e não tem ansiedade em disparar hits ou faixas comercialmente mais adequadas para o ouvinte. E a produção é excelente, mesclando dream pop com música abstrata e eletrônica sem parecer atropelada. Há algo de estranho? Há, mas não perde o toque de veludo.

jfdr_2017

JFDR é uma simplificação de seu nome, Jófríður Ákadóttir. Aos 14 anos, ela fundou a banda Pascal Pinon junto da irmã gêmea e o grupo já tem quatro discos lançados. Ela também é a voz do grupo eletrônico islandês Samaris e já colaborou com as bandas Gangly e Low Roar. Além da voz, pode contar com algumas habilidades no clarinete, teclado, violão e guitarra. Desde 2015 se dedica à carreira solo e já chamou a atenção de Björk, nada mais, nada menos que a principal embaixadora da música da Islândia. Tudo isso com apenas 22 anos de idade. Brazil fez dela um talento a se observar em 2017.

Em seu primeiro voo solo, JFDR parece evocar algum tempo de elo entre passado e presente de Björk, entre a fase mais eletrônica e em que utilizou microbatidas e a fase em que passou a compor mais arranjos para instrumentos de orquestra. É impossível não sentir a influência dela. Também é fácil perceber como ela difere da conterrânea: Björk mostra um registro vocal mais alto, mais agressivo e expansivo. Já JFDR constrói seu disco apostando principalmente na intimidade de seus sussurros. “Instant Patience” é uma das melhores músicas do disco e também uma das que mais lembram Björk em suas músicas mais contemplativas. O estilo tímido chega ao limite em “Wires”, quando a voz é quase um sopro e tem-se a impressão de que a vida vai deixar o corpo a qualquer momento, e em “Anything Goes”, quando o fiapo de voz quase chega a falhar.

Faixa após faixa, ela nos mostra que sua música vem das vísceras de sua alma. Não é um estouro de som e pode mesmo parecer meditativo em muitos momentos, mas guarda certa tensão no que canta e nos sons que emprega para emoldurar sua performance, como as saturações elétricas de “Higher State”, as batidas assimétricas de “Airborne” e os ruídos que perpassam toda a harmonia de “Destiny’s Upon Us” como fios elétricos numa paisagem urbana.

Embora siga na trilha de Björk, misturando os rastros já explorados por ela e incorporando tendências do indie pop atual – sem esquecer de dar aquele toque de design sonora tão típico dos islandeses –, JFDR constrói Brazil de forma bastante consciente de suas limitações, mas muito bem arquitetado. Mesmo os vídeos possuem sacadas e poesias visuais muito interessantes e estranhas também, mas contribuem com a iconografia nascente da carreira solo de Jófríður Ákadóttir.

Ainda há muito mais para se ver de Jófríður, seja como JDFR ou em suas outras bandas. Ela não parece ter ambições megalomaníacas ou que possam colidir com as delicadas estruturas do que constrói em Brazil. A garota aprendeu logo que começou a gravar o álbum que sua música não precisava ser perfeita, mas tinha que ter feeling. E feeling, textura e tessitura é tudo o que ela entrega com um punhado de boas canções.

JFDR_Sebastien_Dehesdin

Slowgold – Drömmar (2017)

Não tema o sueco. Abrace a viagem de Amanda Werner

Por Lucas Scaliza

A banda sueca Slowgold é um caso de displicência. Não da música que produz, que é ótima, mas do público, talvez, e da crítica, que tem medo do sueco. E não digo do homem sueco ou do povo que vive naquelas bandas nortistas da Europa, mas da língua sueca. Roxette explodiu para o mundo décadas atrás por ter um som cativante, mas sobretudo porque cantavam em inglês. E não faltam artistas das terras escandinavas que cantam na língua global – só aqui nos arquivos do Escuta Essa Review e podcast há vários exemplos. Mas ignorar Slowgold só porque cantam na língua materna é covardia.

Drömmar é quarto disco do trio formado pela vocalista Amanda Werne, que também responde pelo violão, guitarra, harmônica e teclados, pelo baixista Johannes Mattsson e pelo baterista Erik Berntsson. O som é levemente viajante, o que garante o rótulo de rock psicodélico, mas este álbum está muito ligado ao folk. Dá para sentir que pendem tanto para o indie quanto para uma volta ao sonho hippie do fim da década de 1960.

slowgold_amanda_2017

Há uma pureza muito gostosa de ouvir em todo o trabalho. Amanda usa sua voz de forma doce e dramática – às vezes alternando entre ambos os modos na mesma faixa – e encaixa belas vocalizações que expandem de vez o perfil mais psicodélico do grupo. Se o Tame Impala confia na manipulação sonora dos instrumentos para levantar voo, é a cantora quem opera a trip, como fica muito claro nas excelentes “Drömmar” (mais folk) e “Stjärna” (mais roqueira). Esse também foi um recurso bastante usado em Glömska (2015).

Slowgold propõe uma dinâmica distinta em cada faixa, mantendo o passeio interessante, mesmo que nem todos os caminhos casem perfeitamente com o gosto do ouvinte. “Karusellen” é indie, “Sammetsmorgon” é mais reflexiva, quase como se a voz e o teclado soassem mergulhados em uma lagoa, “Sommarhaus” é uma valsinha econômica e “Evighet” pende para o campal com seu dedilhado de violão e arranjo de harmônica. E ainda temos faixas mais roqueirinhas pelo meio.

Ainda que os arroubos sonoros não estejam entre as características mais marcantes da banda, eles aparecem para dar uma boa aquecida no coração em “Orden”, “Staden” e “Väntar”, músicas que também mostra a ótima consciência de Amanda Werne na hora de compor riffs e arranjos de guitarra. É tudo bem simples e instintivo até, mas cabem direitinho no som proposto pelo grupo.

Não caia nessa de achar que o som do Slowgood é muito simples ou magro demais e que talvez por isso seja menos merecedor de sua atenção. Há uma arte oculta em fazer músicas simples e belas, em que a produção chama a atenção para o talento de cada músico e não para si mesma. Aliás, não faltam exemplos de canções e álbuns tão superproduzidos que acabam ou perdendo o que havia de melhor na composição ou se tornando homogêneas demais ao lado de tantas outras superproduções colocadas no mundo todas as semanas.

Slowgood é um pedacinho da música sueca nativa que raramente chega ao público de fora do país. E Drömmar é ótimo para deixar rolar. A linguagem musical é mais abrangente que a língua vernácula.

slowgold_2_ellika-h

Ellika Henrikson

Aimee Mann – Mental Illness (2017)

As valsas mais tristes e mais acústicas de Aimee Mann

Por Lucas Scaliza

Fica claro que Aimee Mann quis simplificar um pouco as coisas, ficar mais direta, encher menos a mix de elementos. Mental Illness tem grande melancolia, como naquele belo disco que foi aproveitado pelo cineasta Paul Thomas Anderson para o filme Magnólia (1999), mas não tem aquele ar mais pop de @#%$*! Smilers (2008). Contudo, ainda traz a voz imediatamente identificável da norte-americana, sua boa mão para levadas no violão e ótimo senso para melodias que ficam entre o folk e o pop/rock.

Mann continua cantando sobre as ilusões e desilusões da vida, de forma leve, bem leve, e reflexiva, bem reflexiva. Em comparação com os outros oito discos de sua discografia, é fácil perceber que ela tem bem pouco a oferecer em termos de inventividade dentro do estilo ou vontade de fazer algo diferente. Mesmo sendo uma artista independente nos Estados Unidos e referência para muitos indies (entre público, crítica e bandas), Mental Illness soa bastante acomodado dentro da gaveta do estilo e de sua compositora. Ainda assim, o trabalho é um álbum de canções bem feitinhas e, mesmo sem inventividade, ela nunca antes havia feito um disco deste tipo, tão acústico e tão cheio de valsas.

Aimee_Mann_2017

Parece contradição, parece ironia, mas é Aimee Mann sendo ela mesma e o que acha que deveria fazer dessa vez. Pouca ou nenhuma percussão acompanham os acordes batidos de “You Never Loved Me” e “Lies of Summer”, o padrão clássico de valsa em “Stuck In The Past” e “Philly Sinks”, os arranjos delicados de “Goose Snow Cone”, os dedilhados de “Rollercoasters” e o piano tristonho de “Poor Judge”. De 11 faixas, apenas “Simple Fix” tem mais jeitão de banda e não de cantora folk solitária. Embora funcionem no formato voz e violão (ou voz e piano, em alguns casos), todas as gravações ganharam floreios de uma orquestra (arranjada pelo produtor de longa data Paul Bryan) e vocalizações extras provindas do pessoal de sua banda de apoio e do parceiro Ted Leo, com quem a cantora formou o The Both alguns anos atrás.

“Patient Zero” soa como um rock típico de Aimee Mann, mas apresentada agora sob a roupagem acústica, com piano e orquestração completando o arranjo. É fácil perceber porque foi escolhida como principal single do álbum. Acaba sendo uma das canções menos lineares. As seguintes, “Good For Me” e “Knock It Off”, também são dessas faixas que elevam Mann a um patamar mais elevado. Mesmo que Mental Illness não seja tão aprazível para você no geral, nessas faixas você se dobra para reverenciá-la e entender o papel ainda importante que ela ocupa no folk e na música independente.

Acredito que esteja no jeito como Mann trata os problemas emocionais que canta o maior brilho do disco. O Mastodon usou seu heavy metal para criar uma metáfora fantástica para falar do câncer em Emperor Of Sand, e a finlandesa Astrid Swan colocou sua própria experiência com o câncer de mama em formato pop, folk e eletrônico em From The Bed And Beyond. Ambas as obras, lançadas em 2017, tratam com lucidez o tema, não facilitando para o ouvinte e nem para o paciente que tenha a doença e que talvez vá ouvir esses discos. O Mastodon fala da sobrevivência e Swan é sincera, nunca caindo no vitimismo. Aimee Mann também não dá falsas esperanças, nem mesmo quando sua música parece mais fofa ou solar. Isso não quer dizer que ela seja negativa – e nem que olhe o “lado bom” da questão –, mas pode te fazer refletir sobre o que a vida é. E tudo bem ela não ser perfeita.

aimee_mann_2

Me And That Man – Songs of Love And Death (2017)

Blues, country e folk sombrio que coloca vampiros para dançar e demônios para dormir

Por Lucas Scaliza

Às vezes os pesos pesados dão uma pausa e aproveitam a vida para pegar leve. Assim, apreciam um outro lado de suas próprias naturezas. Pense em Ozzy Osbourne que deixou de ser conhecido pela sua música por um tempo para virar estrela de reality show. Ou pense em O. J. Simpson que… bem, acho que esse deixou de pegar pesado nos campos de futebol para pegar ainda mais pesado no que deveria ser sua vida “cotidiana”.

Algo assim – dar uma pausa, não cometer crimes e nem virar estrela da TV – aconteceu com Adam “Nergal” Darski, o vocalista da grande banda polonesa de black metal Behemoth, após ouvir o excelente Blues Funeral (2012) de Mark Lanegan. A mistura de blues, southern rock, folk e eletrônica, combinado à voz grave do ex-vocalista do Screaming Trees, inspirou Nergal a apostar em um tipo de música parecido. E Nergal, que fez uma turnê vitoriosa com o Behemoth tocando The Satanist [2014] na íntegra, sentiu prazer em trocar as flying Vs com afinação baixa por semiacústicas em que cada acorde Ré resplandece sem precisar de toneladas de distorção.

Me_And_That_Man_2017

Para dar corpo ao projeto paralelo Me And That Man, Nergal invocou o poeta parte britânico, parte polonês John Porter, que divide com ele as funções de cantor e guitarrista. Todas as canções de Songs Of Love And Death baseiam-se em acordes simples e levadas bem manjadas, porém muito funcionais dentro da proposta bluseira, country e folk da dupla. E não espere encontrar uma cópia de Mark Lanegan, mas sim uma mistura de Johnny Cash com Nick Cave, Leonard Cohen e Wovenhand.

O que há de mais singular no disco é que, apesar do formato mais leve em som do que o black metal gutural da banda principal de Nergal, a visão de mundo que ele e Porter expressam nas letras de Songs Of Love And Death são sombrias e pesadas o suficiente para arrepiar os cristãos, judeus, islâmicos e nova-eras mais cabeças fechadas. O disco já abre com uma das melhores do álbum, “My Church Is Black”, em que além de dizer que “minha igreja é preta”, que “nenhum reino [de Deus] está vindo”,  diz também que “o inferno é minha casa” com a maior naturalidade possível debaixo de um ressoante strum em Mi maior. Na lenta e western “Cross My Heart and Hope To Die” ele encarna um personagem (será?) que deixa claro que é um grande caso de bad news. Para o final, deixa que um coral de crianças cantem versos fofos: “Não viemos pelo perdão/ Não oramos pelos nossos pecados/ Traímos nossos querido Jesus/ Escolhemos o inferno na terra”.

Nergal e Porter continuam trazendo sua visão de mundo dark no restante do álbum, como na roqueira “Better The Devil I Know” e na agitada “Love & Death”. Enquanto o líder do Behemoth toma para si o protagonismo nas faixas mais pesadas, que muito lembram diversas fases do Nick Cave, Porter encarna o Johnny Cash em “Nightride”, “On The Road” e “One Day” e outras. As faixas em que Porter toma mais o vocal são mais luminosas e mais cativantes que as de Nergal, que são muito mais escuras, mas não se deixe enganar: se Nergal é o príncipe das trevas, Porter é guardião do livro das trevas.

Tentando preservar as características do blues rock e deixá-las o mais western possível, a dupla opta por um estilo limpo e acessível, bebendo também na fonte do storytelling das murder balads. Um bom disco para assustar os mais conservadores, capaz de colocar vampiros para dançar e embalar o sono de jovens demônios.

meandthatman_2017