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Eric Church – Mr. Misunderstood (2015)

Church aposta em uma simplicidade bucólica e entrega um disco muito bom

Por Gabriel Sacramento

Seu último disco – The Outsiders (2014) – foi um estouro: primeiro lugar no na Billboard nos Estados Unidos e no Canadá; quarto lugar no ranking anual de discos country da revista; e foi um dos discos mais vendidos daquele ano.

O sucesso foi bastante impulsionado pela declaração de Church sobre o estilo musical que fazia: “Eu acho que os estilos musicais estão mortos. É um conceito ultrapassado. Existe somente música boa e música ruim.” Sua declaração deixou a imprensa e a mídia ansiosas para o que ele apresentaria a seguir.

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Foto: Josie Lepe/Bay Area News Group

Criar um sucessor para The Outsiders com certeza não foi uma tarefa fácil para Church. Então, sem o mesmo barulho do anterior, em novembro de 2015, ele libera de surpresa Mr. Misunderstood para os fãs por e-mail. A ideia é parecida com o que a Beyoncé fez em 2013 com seu disco autointitulado, só que Church foi ainda mais não convencional, utilizando somente o correio eletrônico (pelo menos nos primeiros dias, logo depois o álbum apareceu nas mais diversas plataformas digitais).

O disco foi gravado em cerca de vinte dias, na terra do country – Nashville. A produção continuou a cargo de Jay Joyce, uma longa parceria que data desde o début Sinners Like Me (2006).

Quanto à sonoridade do disco, Church foi muito influenciado pelos ares de Nashville e continuou a fazer o seu country pop bem competente. Durante toda sua carreira, vemos evidências de southern rock, gospel e de um country old school. Mas sua musicalidade é centrada no country.

A simplicidade com que ele trata as canções impressiona. Os arranjos são bem simples e conquistam o ouvinte pela singeleza. Simples e ao mesmo tempo afetivos e marcantes. Os violões passeiam pelas canções marcando os acordes e servem de base para a boa voz de Eric – que está recheada de reverbs interessantíssimos em vários momentos. Seu timbre é perfeitamente adequado para o estilo e sua performance é muito boa.

Só para citar alguns destaques: “Chattanooga Lucy” tem uma ênfase maior no ritmo, com alguns elementos bem sacados, como os falsetes que o cantor utiliza no meio da música. A faixa-título, com citações a nomes famosos como Jeff Tweedy e Ray Wylie Hubbard – cantores que foram referências para Eric. A metalinguagem inteligente em “Mistress Named Music”, que descreve a sua relação com a música, com um refrão muito bom – algo que deixaria Johnny Cash muito feliz. “Kill A Word”, com seu bonito arranjo de violão, traz uma letra bem otimista, na qual Church cita palavras negativas (como mentiras, medo, ódio e solidão) que ele gostaria de eliminar de sua vida. A calmaria e tranquilidade de “Round Here Buzz” é estonteante. Com um refrão simples, a música acrescenta uma beleza incrível para o disco como um todo.

Suceder o grande fenômeno The Outsiders não é fácil. Para muitos, a saída para fazer um bom disco subsequente a um grande sucesso é repetir a fórmula. Definitivamente, não é o que Church fez. A energia roqueira presente em The Outsiders, por exemplo, não se encontra em Mr. Misunderstood. No novo, o cantor aposta em algo sem barulho e sem holofotes, acessível e facilmente compreensível.

Não é preciso ser especialista no estilo para saber que Eric sabe fazer um bom country e aproximar o estilo do mainstream. Seu jeito de fazer música com melodias envolventes e bonitas, que não chegam nem perto de soarem melosas, é seu ponto forte e responsável por atrair muitos fãs.

Mr. Misunderstood é direto. Church aposta em uma simplicidade bucólica e nos entrega um disco muito bom. Talvez alguns fãs sintam falta dos resquícios roqueiros que se encontravam espalhados em sua música nos discos anteriores, mas terão de entender que aqui o foco é outro: fazer um som mais leve, diferente dos anteriores, mas com a mesma qualidade.

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The Outsiders World Tour - New York, New York

Foto: Mike Coppola/Getty Images for EB Media PR

Bloc Party – Hymns (2016)

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Ingleses trocam o indie rock pelo trip hop de sintetizadores e faz o álbum mais intimista da carreira

Por Lucas Scaliza

Já ouviu Hymns? A própria banda liberou as faixas essa semana no YouTube. Era o que você esperava? Garanto que após quatro anos desde FOUR (2012) estava ávido por uma banda cheia de energia, com timbres modernos e som encorpado, talvez demonstrando com mais afinco a sua vertente roqueira. Hymns, como se vê e se ouve, é diferente disso. É bem diferente dos outros quatro discos da banda. As doses de trip hop e new wave que dominam a sonoridade causa até espanto inicialmente, mas proporciona deleite sonoro também.

O rock indie, o rock eletrônico, o eletrônico de balada e o trip hop sempre estiveram na sonoridade do Bloc Party convivendo harmonicamente. Intimacy (2008) destaca-se como um disco que equilibrou-se muito bem entre todas essas vertentes, propondo uma miríade sonora bastante rica. Hymns soa como um passo à frente: como abusa muito mais do trip hop, o novo trabalho soa muito mais íntimo do que Intimacy. As batidas profundas, a atmosfera ao redor dos arranjos criando a impressão de escuridão (a capa do álbum representa muito bem a música que embala) e interpretação vocal de Kele Okereke, frágil como nunca, é um convite à entrega.

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Sintetizadores e teclados, baixo e bateria bem regulares, dão a tônica de “The Love Within”, que não chega a assustar na abertura do álbum. Já vimos o quarteto fazer uma baladinha antes. Porém, tudo o que vem em seguida deixa claro que não se trata da mesma banda – mas não de um modo ruim. É como ter ouvido Amnesiac (2002) e depois Hail To The Thief (2005): não é o mesmo Radiohead. “Only He Can Heal Me” revela as verdadeiras cores e formas de Hymns: voz em primeiro plano e uma cama sonora discreta, arranjos econômicos, batidas que nunca se exacerbam. Já uma composição delicada como “Fortress” teria ganhado aqueles dedilhados característicos de baladas do grupo caso estivesse em outro álbum, outra fase. Mas em Hymns soa eletrônica, quase como James Blake. Onde o bumbo soaria numa banda de rock há apenas uma pulsação grave; saem os crescendo cheios de guitarras de Intimacy e deixa-se o teclado cumprir essa função.

Tem pouca guitarra no disco. O instrumento geralmente surge em momentos chaves, como em um riff no pós-refrão da acessível “So Real” ou como a base para a colorida “Into The Earth”, cuja roupagem mais feliz e relaxada destoa da melancolia e escuridão do restante do álbum. A guitarra também surge como um instrumento de pura textura post punk, cheio de reverb e colocado bem ao fundo da mixagem em “Different Drugs”, uma das melhores faixas do trabalho. Essa faixa é rica em sensações: além de uma das melhores linhas vocais já criadas por Okereke, a harmonia descreve curvas sonoras muito agradáveis que preencherão os sentidos dos sinestésicos. “My True Name” é outra das boas canções do disco que só melhora conforme progride.

Hymns dividirá opiniões. Qualquer ecletismo que o Bloc Party tenha demonstrado em discos anteriores não chega aos pés do mergulho no pop, dream pop e trip hop de suas novas faixas. Quando querem ser eletrônicos, não é como uma vez o foram em “Flux”, do A Weekend In The City (2007); quando usam a guitarra, não é como em “Where Is Home”; quando aumentam os BPMs, não é como “Halo” e “Trojan Horse”, do Intimacy; a bateria não soa como em “Sunday”; o baixo é mais discreto, nada com o mesmo peso de “Ares”. FOUR foi o trabalhado com sonoridade mais direta da banda, muito baseado no que guitarra, baixo e bateria poderiam fazer em conjunto. Foi tudo o que Hymns não pretende ser.

A banda teve algumas mudanças na formação. Nada que tenha influenciado a sonoridade do novo álbum, mas é importante registrar mesmo assim. Matt Long pulou foram em 2013, sendo substituído pela baterista Louise Bartle só depois que o disco já estava gravado. Em 2015 o baixista Gordon Moakes deixou a banda, sendo substituído logo depois por Justin Harris, a tempo de entrar em estúdio. Enquanto Okereke canta, toca guitarra e piano elétrico, Russel Lissack continua respondendo pela guitarra e pelos sintetizadores. Além do baixo, Justin também assumiu o teclado e o glockenspiel.

Há um lado espiritual nas letras escritas por Kele Okereke que influenciam a sonoridade. Se pelo menos metade das músicas soam como uma chama bruxuleando no escuro, é porque às vezes é preciso voltar-se para si mesmo, para seu interior, caso queira encontrar algum sentido ou reposta. Mas não é um álbum religioso, de forma alguma, e a temática não é uma evangelização cristã ou de qualquer vertente da fé. O espiritual está no disco, porém não é sua força motriz.

Não acredito que Hymns seja o melhor trabalho do Bloc Party, mas isso não quer dizer que eu esteja achando ruim a mudança na sonoridade. Pelo contrário: construíram muito bem a sonoridade que queriam. A mudança pode ser um pouco brusca, porém marca um passo artístico importante para a banda inglesa, tirando eles próprios da zona de conforto e fazendo com que os fãs apreciem um outro lado de suas perspectivas musicais. Se você gosta de Radiohead, The Maccabees ou de qualquer outra banda que saiba diversificar seu som ao longo do tempo, já deve estar ciente de como isso traz resultados positivos a longo prazo. Por isso acredito que o melhor disco do Bloc Party ainda está por vir.

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O Regresso (The Revenant) – a trilha sonora (2015)

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Música minimalista mistura o erudito e o eletrônico para acompanhar o drama de sobrevivência de DiCaprio na tela e de Ryuichi Sakamoto na vida real

Por Lucas Scaliza

Se for mesmo verdade que temos um ótimo filme diante de nós se ele for projetado mudo e ainda assim ele não perde a sua força, então O Regresso (The Revenant, 2015) é um dos melhores filmes que veremos nos últimos anos. Não é o mais arrebatador, o mais criativo ou revolucionário, nem mesmo o mais emocionante, mas com certeza poderia ser exibido sem sons que entenderíamos perfeitamente as motivações de seus personagens e o grau de dramaticidade de sua história.

Pode parecer um contrassenso dizer que o filme poderia não ter sons justamente em um texto que busca analisar sua trilha sonora, mas é verdade. Os diálogos de O Regresso servem para dar contexto sobre a geografia do oeste dos Estados Unidos durante o inverno, sobre quem é quem, quem é filho de quem e quem desconfia de quem, mas não é como em Os Oito Odiados (2015), em que cada fala, até mesmos as aparentemente mais prosaicas, revelam a força do filme e o fazem seguir adiante. Até mesmo a trilha sonora é tímida em 80% das vezes. Você quase não há percebe em meio às florestas ou campos tomados pelo gelo.

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O que abunda com ímpeto, elegância, sensibilidade artística e destreza técnica é de fato a fotografia do mexicano Emmanuel Luzbeki. As imagens que ele capta, o seu olhar para enquadramentos e para a luz é de tirar o fôlego. O diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, encontrou em Luzbeki um parceiro ciente das imagens que homens e natureza podem proporcionar e competente o suficiente para dar conta de filmar em lugares difíceis, sob condições difíceis, e realizando todos os planos-sequência que são a marca de Iñárritu. Cabe lembrar que Luzbeki também é responsável pela fotografia de filmes de Terrence Malick, sempre referências nesse campo. (Luzbeki ganhou o Oscar pela fotografia de Gravidade, de Alfonso Cuarón, e de Birdman, o filme anterior de Iñárritu).

Ainda que seja discreta a maior parte do tempo, a trilha é importante na produção. Assim como Os Oito Odiados, O Regresso é um western cuja música não é típica do gênero. Quem foi contratado para a tarefa foi o experiente compositor japonês Ryuichi Sakamoto, que congrega tanto o espírito clássico como o de vanguarda, com laivos de minimalismo também. Sakamoto venceu o Oscar de melhor trilha por O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci, e não trabalhava para uma produção de cinema americano desde 1992. Além disso, quando aceitou o convite do diretor, já estava travando uma batalha contra um câncer na garganta, da qual saiu vitorioso, mas teve dúvidas se conseguiria levar o trabalho até o fim. Por isso convocou o alemão Alva Noto (Carsten Nicolai) para lhe ajudar. A pedido de Iñárritu, o músico Bryce Dessner (guitarrista do The National, mas com formação clássica) também contribui.

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Em abril de 2015, Ryuichi Sakamoto voou até Los Angeles para se encontrar com o diretor. Naquela etapa da produção o filme já estava pronto e usava temp tracks feitas por Dessner, nome dado às músicas que servem de guia para o diretor durante a edição do filme, pontuando o clima e o humor de cada cena e depois substituídas pela trilha original. Alejandro G. Iñárritu não queria uma trilha orquestral comum e, caso fosse esse o objetivo, nem teria sentido contratar Sakamoto. O mexicano queria uma trilha que tivesse tanto o som acústico dos instrumentos quanto uma vibe mais sintetizada e esse intercâmbio sonoro é justamente o que Sakamoto e Alva Noto produzem conjuntamente desde 2002.

Sakamoto não tem um processo de composição para trilhas bem definido. Ele é muito intuitivo com sua música e diz que geralmente as primeiras impressões de como a música deverá se encaixar no filme são as certas. Assim, o tema principal do filme foi escrito logo no início do processo.

Praticamente não há bateria ou percussão para acompanhar as cenas da primeira metade do filme. Os personagens, em especial o vivido por Leonardo DiCaprio, precisam chegar do ponto A ao B antes que morram (os perigos são vários: ursos, indígenas, franceses, o frio, a fome, o medo). Embora seja um filme sobre mover-se pelo terreno, essa “marcha” não ganha acompanhamento de bateria ou percussão ritmados. E há muita tensão e pesar na música. Não é como a tensão ameaçadora de Os Oito Odiados, em que a ênfase nos acordes e nos intervalos de meio tom deixa clara a medida da maldade. É um tipo mais sutil de ameaça que temos aqui.

O volume é bem baixo em diversas faixas, fazendo com que a trilha realmente se integre ao cenário do filme como mais uma força da natureza. Sério, você quase não percebe a trilha agindo em diversos momentos. O sintetizador de Noto entra de forma tão minimalista que não se percebe facilmente a intervenção eletrônica na música de Sakamoto, como em “Discovering Bufallo” e “Church Dream”. Já em “Carrying Glass” as ondas sintetizadas ganham todo o protagonismo. Na bela e atmosférica “Hawk Punished”, composição de Noto e Dessner, o ruído ganha espaço em meio a sintetizadores, criando um dos únicos momentos de em que o som torna-se estridente. “Imagining Bufallo” é apenas de Dessner. Você só percebe que há um sintetizador fazendo boa parte da faixa conforme suas camadas ganham volume.

Nada a se estranhar nessa mistura de erudito e eletrônico: Sakamoto é um compositor que estudou piano clássico, harmonia e contraponto, mas já na década de 1970 entrou para um grupo de vanguarda chamado Yellow Magic Orchestra, fazendo música eletrônica. Na virada do milênio, se uniu diversas vezes a Alva Noto para produzir música minimalista: o japonês toca piano clássico enquanto o alemão contribui com ondas sonoras, e há economia de notas em todos os discos lançados pela dupla. Então é natural que ele(s) saiba(m) mesclar muito bem suas partes e balanceá-las.

Ryuichi e Alva Noto não compuseram juntos. Diversos trechos foram trabalhados independentes um do outro e depois reunidos em uma mesma música. Outras faixas dependeram da troca de arquivos entre eles para cada um saber para onde o outro estava levando a composição. Dessner sabia o que Sakamoto estava fazendo, mas compôs suas partes de forma independente também. Quando a música fica mais alta e mais forte, com contornos mais materiais e menos abstratos ou etéreos, desconfie que sejam músicas de Dessner. Sua orquestração em “Looking For Glass” e “Final Fight” dão uma cara mais convencional à trilha. Já “Cat & Mouse” é tão vasta que congrega as seis mãos de uma só vez: o abstrato do japonês, os sintetizadores e ruídos do alemão e as orquestrações do americano, que encaixa até uma percussão.

Há melodia também. “The Revenant Theme 2” surge como uma das faixas com melodia mais destacável do álbum, com cellos pesarosos e um piano marcando o tempo e a harmonia. Em “Goodbye to Hawk” temos a escolha de uma flauta para descrever um tema lamurioso para um personagem meio-índio. “Out of Horse” também mostra a mão de Sakamoto para o trágico, faixa em que provavelmente toda a melodia foi criada com um antigo sintetizado do compositor e que o próprio Iñárritu pediu que ele usasse novamente. Em “Revenant Main Theme Atmospheric” percebe-se os traços estilísticos de Sakamoto e seu piano, bem como a melodia mais “japonesa” da trilha. E “Final Fight” é a maior contribuição de Bryce Dessner ao projeto. Sakamoto não gosta de compor coisas explosivas e não é bom com cenas de ação. Mas Dessner é. O músico até coloca uma bateria trovejante para acompanhar a tensão do embate entre o personagem de DiCaprio e o de Tom Hardy.

THE REVENANT, Leonardo DiCaprio, 2015. TM and Copyright ©20th Century Fox Film Corp. All rights

O Regresso, de várias maneiras, é um filme com formato mais clássico do que a produção anterior do diretor, o oscarizado Birdman (2014). Birdman dificilmente poderia ser convertido em filme mudo e preservado todo o seu potencial. Feito para parecer um longo plano sequência, com apenas um corte, era um filme que dependia muito dos atores, do diretor e da câmera de Luzbeki para funcionar. A trilha sonora era nada convencional também, consistindo apenas de trilhas de bateria gravadas pelo jazzista Antonio Sánchez, pontuando o desassossego mental do protagonista. O novo filme também tem pretensões de grandeza, mas diferentes.

O que move Hugh Glass (DiCaprio) é a vingança, mas antes ele precisa sobreviver. Há muito sangue, mas nem sempre resultado de um confronto direto. Aliás, a maior batalha acontece logo nos primeiros minutos. É um filme de contemplação e meditação. Por isso a trilha lhe cai muito bem.

Aos 63 anos e lutando contra o câncer, Ryuichi Sakamoto foi pessoalmente reger a Northwest Sinfonia, em Seattle, que deu vida às suas partituras. o combate ao câncer foi o momento em que Ryuichi Sakamoto mais se sentiu perto da morte, e essa sensação influenciou sua produção musical. “O passo dessa música, o tema, é baseado na minha respiração: pesada e longa, talvez um pouco triste também”, diz o compositor, que venceu o câncer. “Esse é o sentido de O Regresso: uma volta dos mortos”.

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James Morrison – Higher Than Here (2015)

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Britânico canta melodias grudentas e arrebatadoras em disco que representa uma continuação de sua sonoridade

Por Gabriel Sacramento

Dono de um nome bastante comum na música (esse é o nome de pelo menos dois famosos cantores – um deles foi o lendário vocalista do The Doors), o britânico James Morrison surgiu em 2006, surpreendendo o mundo – e especialmente este que vos escreve – com seu lançamento Undiscovered, que na primeira semana alcançou o topo das paradas no Reino Unido. Morrison faz um pop simples e elegante, abusando das melodias cativantes e de uma sonoridade bastante acessível.

Morrison continuou com seu trabalho lançando ainda Songs for You, Truths for Me (2008) e The Awakening (2011). Até que em outubro de 2015, liberou seu quarto disco, intitulado Higher Than Here. O novo álbum é praticamente uma continuação natural do som dos primeiros discos: pop gostoso de ouvir, com influências implícitas de R&B e soul.

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O som de James lembra bastante o som de John Mayer em discos como Continuum (2006). Seu novo disco continua fiel à sua sonoridade típica. “Demons” possui uma base quase densa e vocais relaxados, envolventes sem soarem ultramelosos. A letra versa sobre demônios internos, em uma visão bem otimista e positiva. “Stay Like This” tem um ar de R&B, com harmonias vocais espertíssimas. “Right Here” possui alguns efeitos eletrônicos e harmonias vocais interessantes que surgem nos momentos certos. Os vocais de Morrison são destaque em canções como “Something Right”, “Heaven To a Fool” e “Reach Out”.

O cantor exala positividade em “We Can”, na qual canta: “Nós podemos fazer as coisas que disseram que nunca poderíamos … nós podemos amar”. A soulful “Too Late for Lullabies” torna explícita a admiração que James tem por cantores como Stevie Wonder, mas dentro de um contexto bem pop. Com um timbre de bateria bem retrô, que remete aos anos 80, “I Need You Tonight” traz até uma guitarra clean com frases legais, mas que poderia soa melhor. A acústica “Just Like a Child” é climática e relaxante. Mas James guarda o melhor mesmo para o final: a melhor interpretação dele está na faixa-título, que fecha o disco. Traz também um acompanhamento rítmico feito por palmas e harmonias vocais que complementam a beleza de sua voz.

James Morrison continua perito em fazer uma boa música, relaxante, acessível e cool. Foge totalmente da possibilidade de soar descartável e/ou fácil demais. Ele é preciso. Disse acima que sua sonoridade lembra o John Mayer, só que o britânico é mais constante em sua carreira do que o americano, que sofre com problemas de identidade.

A voz levemente rouca de um britânico com sotaque americanizado, bem colocada em uma base pop, bem moderna e descomplicada, que prioriza bastante o desenvolvimento dos vocais nas faixas. Interpretações bem interessantes que fazem a audição valer a pena. Melodias agradáveis, grudentas e arrebatadoras. Tudo isso condensado em 12 canções. Este é o Higher Than Here.

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Diiv – Is The Is Are (2016)

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O shoegaze bonito e retrô do Diiv está de volta mais sombrio e a meio caminho da maturidade

Por Lucas Scaliza

É como se 2012 não tivesse terminado para a banda nova-iorquina Diiv e seu líder, Zachary Cole Smith. Is The Is Are, o segundo disco do quinteto de Brooklyn, é praticamente um reforço e uma expansão do que apresentaram no elogiado Oshin (2012), que colocou a banda no mapa do indie rock e do shoegaze. Seja em termos de técnica ou de expressão artística, o novo trabalho é uma continuação que pode até estar sendo lançado três anos e meio após o début, mas soa como se fosse a segunda parte do disco.

Os elementos são todos os mesmos: shoegaze vivaz, cheio de dedilhados e arranjos bonitinhos (o Diiv não é da vertente My Bloody Valentine do estilo, cheia de ruído e com moderadas dissonâncias), clima retrô que lembra muito o baixo de Peter Hook para o New Order (como em “Yr Not Far”, “Out of Mind” e “Take Your Time) e uma pegada instrumental bastante empolgante que parece uma abordagem indie para o surf rock sessentista (“Under The Sun” é um bom exemplo disso). Inclusive a forma de cantar e até de escrever o nome das músicas – usando os “( )”, sabe? – mantém-se inalterada.

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Mas não há o que temer. Se o Diiv não deu um passo para frente, não surpreendendo, também não dá um passo para trás e faz de Is The Is Are uma aposta segura, mas muito divertida e bonita, sem faixas ruins. Enquanto o baixo é um dos principais elementos da música, sendo extremamente perceptível em todas as composições ao fazer bases consistentes, as guitarras fazem todos os arranjos, sejam dedilhados, ritmos, solos ou mesmo ruídos que surgem como texturas na mixagem. “Bent (Roi’s Song)” não só é uma das músicas mais vistosas do álbum como ilustra muito bem o papel de cada um na banda.

O dream pop também se evidencia em diversos momentos, graças ao reverb nos vocais, nos instrumentos e em todas as atmosferas criadas pelo teclado, como mostra “Valentine”. Há faixas fortes e pulsantes também, como “Is The Is Are”, a roqueira “Incarnate Devil” e “Mire (Grant’s Song)”, esta cheia de ruídos criando texturas típicas do shoegaze e aprofundando o ar de inadequação da canção. Mas também há “Dopamine”, uma das faixas mais palatáveis do disco, e a balada “Healthy Moon”, que tira o pé do overdrive e aposta em um onipresente dedilhado.

Zachary começou a trabalhar em Is The Is Are ainda em 2013. No meio do caminho, o vício em heroína foi algo que atrapalhou consideravelmente não apenas o desenvolvimento do disco, mas sua relação com as pessoas e virou sua vida, sua saúde e o trabalho com a banda de cabeça para baixo. Precisou cancelar uma turnê europeia, foi pego dirigindo um carro sem licença enquanto ia para um show do Diiv e, para completar, ele e a namorada Sky Ferreira estavam portando drogas. O resto da banda também passou muito tempo chapada, culminando com o Ruben Perez sendo misógino, racista e homofóbico no 4chan, o que quase causou sua demissão.

Assim como Kevin Parker fez Currents praticamente sozinho, Cole voltou ao estúdio Strange Weather em 2015 e gravou todas as faixas de Is The Is Are ele mesmo, tocando todos os instrumentos, sendo ajudado apenas pelo engenheiro de som Daniel Schlett, o mesmo de Oshin. O cantor e guitarrista ainda estava trabalhando sob efeito de drogas e ouvia Bad Moon Rising (1985), do Sonic Youth, sem parar. Ele tentou a rehab e algumas outras formas de se manter limpo, mas nenhuma funcionou com ele. Algumas de suas declarações recentes deixam claro que ele está tentando ficar limpo, mas não acredita nos métodos disponíveis. O baterista Colby Hewitt teve que deixar a banda por causa da dependência química, sendo substituído por Ben Newman.

Para completar, Is The Is Are marca a vontade de Cole em traçar um paralelo com Kurt Cobain. Ele diz querer que o álbum seja tão universal e tenha tanto apelo quanto um Nevermind. Para isso, além de ele compor tudo sozinho, tocar guitarra e cantar (como o líder do Nivana), ele também tem Sky, uma namorada roqueira como parceira (como Courtney Love) e abusa das drogas (como Kurt), além de se basear no jeito de Cobain escrever as letras.

Se a banda está comprometida essencialmente com o mesmo tipo de som, pelo menos o novo trabalho soa um pouco mais down e denso que o primeiro, um efeito dos problemas e das pressões que Cole enfrentou – e ainda enfrenta – nos últimos três anos. É quase o mesmo passo em direção à maturidade que notamos em Too, do Fidlar, que passou de um disco celebrando as drogas e a vida festeira e libertina para outro que não está livre disso tudo ainda, mas já sofre os seus efeitos e está mais consciente. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos também na passagem dos anos 60 para a ressaca da década de 1970, quando as experiências com drogas levaram não a libertação ou expansão da consciência como os hippies queriam, mas a um cenário bem mais sombrio e violento. E Is The Is Are tem um clima mais sombrio também em faixas como “Valentine”, “Mire (Grant’s Song)” e “Blue Boredom (Sky’s Song)”, com participação de Sky Ferreira nos vocais. Chega a lembrar o onipresente clima de afogamento de Pe’ahi do The Raveonettes.

No fim das contas, fica claro que Is The Is Are é um disco poderoso e bem trabalhado, mas não superproduzido, fiel às suas raízes. É provável que não alcance o mesmo patamar de influência (e vendas) que Nevermind, mas dá para perceber que suas músicas emergem de um caldeirão de sentimentos reais e sensibilidade artística de quem faz rock com limitações técnicas, mas com vontade de comunicar algo. E isso Zachary Cole Smith conseguiu: Oshin foi uma boa estreia, mas é o conteúdo de Is The Is Are que vai se conectar com as pessoas.

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Steven A. Clark – The Lonely Roller (2015)

Steven A Clark - The Lonely Roller

Steven A. Clark impressiona com pop bem feito, envolvente e experimental

Por Gabriel Sacramento

Uma nova onda de artistas de R&B está surgindo  em todo o mundo. Artistas como The Weeknd, Frank Ocean e Miguel estão se tornando cada vez mais comuns no cenário musical contemporâneo, trazendo uma abordagem mais ousada e experimental do estilo. Basicamente, essa onda é caracterizada por ser um pop influenciado pelo minimalismo, simples e levemente eletrônico, com bases densas e sintetizadas. A herança do R&B clássico se nota nos vocais: românticos, sensuais e submetidos a notáveis harmonias.

Dentre esses artistas, Steven A. Clark merece destaque. The Lonely Roller é o primeiro lançamento do cantor sob o selo Secretly Canadian. Os lançamentos anteriores foram feitos de forma independente, algo que, inclusive, é muito comum nessa nova leva de artistas R&B (por causa disso, esses artistas foram rotulados como indie R&B).

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Antes de tudo: o disco não é tão fácil de ser compreendido. Requer muita atenção e cuidado por causa das escolhas nada óbvias que Clark toma a todo momento. Tudo isso envolve experimentalismos que podem até mesmo soar estranhos. A faixa-título abre o disco com melodias viciantes e uma batida rítmica pesada ao fundo. As melodias são destaque também em “I Can’t Have”, “Bounty” e em “She’s In Love”. “Trouble Baby” e “Not You” impressionam por trazer uma sonoridade densa e espacial. “Floral Print” possui um fundo pesado, quase hipnótico, além de vocais sombrios. Nesta, Steven abre mão de uma batida rítmica, reforçando o poder dos vocais. “Part Two” é a segunda parte de “Floral Print”, e aí temos a volta da batida ritmada. “Young, Wild, Free” traz uma boa performance de Steven, na qual ele alcança graves bem interessantes.

O disco explora esta nova sonoridade R&B com bases minimalistas e harmonias vocais muito bem feitas. O lance de The Lonely Roller não são as batidas para pistas, nem flertes com o hip-hop. O que predomina é uma sonoridade introspectiva e forte, que se revela de forma tímida, mas insurreta.

É também cheio de melodias cativantes que têm o poder de prender a atenção do ouvinte. A instrumentação é sempre muito simples, com acompanhamento harmônico discreto. Há um flerte com o pop feito por artistas como Troye Sivan, que é reflexivo, denso, mas também representa um resgate da sonoridade R&B dos anos 90, remetendo à obra de cantores como Maxwell.

The Lonely Roller é muito bom. Pop bem feito, tocante e envolvente, mas ao mesmo tempo não previsível e nem fácil de ser digerido. As referências ao som de cantores como os já citados The Weeknd e Frank Ocean são claras, pois Clark bebe na mesma fonte que esses artistas e busca ser um personagem importante nesse novo e revolucionário momento que vive a música pop/R&B.

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David Bowie – Blackstar ★ (2016)

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Bowie inclui o jazz em seu ótimo disco experimental, enigmático, soturno e melancólico

Por Lucas Scaliza

Em 2014, o camaleão inglês ainda gozava de um baita prestígio não só pelo conjunto de sua obra vasta, diversa e ainda em desenvolvimento, mas também por ter feito um excelente novo trabalho em The Next Day (2013) que pegou todo mundo de surpresa e fez todos sorrirem de novo para a figura alta, esguia, bem vestida e reclusa de David Bowie. Foi em outubro daquele ano que ele liberou uma nova faixa chamada “Sue (Or In A Season Of Crime)”, trocando o rock pelo jazz, as guitarras pelo sopro, as batidas regulares por ritmos quebrados. Eram quase oito minutos de música exigente e… estranha. Bowie sempre foi prolífico em sua carreira para coisas estranhas e saber, por meio dessa música, que ele ainda podia ser estranho – e em níveis ainda mais altos do que anteriormente – é algo intrigante, para ficarmos em apenas um adjetivo entre tantos possíveis.

Mas essa versão altamente jazzística de “Sue” era apenas uma preparação. Blackstar ★, que será lançado oficialmente dia 8 de janeiro, no aniversário de 69 anos do cantor e compositor, é a obra completa que nos dá mais um lado de Bowie para seus fãs e interessados em geral se debruçarem para ver como ele ainda é capaz de criar músicas diferentes, quase nunca repetindo as mesmas ideias, quase nunca revisitando os mesmos estilos. Para Blackstar, ele se uniu a um grupo de músicos nova-iorquinos que combinam jazz e música eletrônica, culminando em um estilo jazzista de vanguarda também conhecido como jazztronica. Some a isso a influência do produtor Tony Visconti e a informação de que Bowie adorou To Pimp A Butterfly, último álbum de Kendrick Lamar (e que está entre nossos 20 melhores do ano), e disse que o disco de hip-hop teve grande influência sobre ele.

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A faixa-título “Blackstar” – com 10 minutos e que já havia sido liberada na íntegra com um longo clipe soturno e enigmático – abre o álbum. Bowie canta como se entoasse um cântico, impressão ressaltada pelo filtro que distorce sua voz. Mas ao mesmo tempo que lembra algo religioso, como uma seita, há algo de espacial, graças aos teclados e sintetizadores da porção mais eletrônica de sua banda. Bowie usa o jazz, é verdade, mas de uma forma não convencional. Além das batidas quebradas, o baixo está sempre presente criando grooves pesados. Há bastante arranjos de saxofone também, o que ressalta a vertente jazzística. Na metade, “Blackstar” dá uma guinada e transforma-se em uma canção bem melodiosa e nada estranha, com exceção dos fantasmagóricos versos “I’m a blackstar” e seus derivados que surgem totalmente fora do campo harmônico. Além de longa, é uma faixa introdutória que mostra tanto o Bowie experimental e preocupado com a música do amanhã quanto o Bowie de sempre, aquele que aprendemos a gostar por meio de suas músicas mais envolventes e cheias de melodia. Aos poucos, a atmosfera de culto espacial volta a tomar a faixa. Uma mistura de H.P. Lovecraft com a própria forma como Bowie se vê meio alienígena entre os outros e dentro do cenário pop. Originalmente, eram para ser duas faixas diferentes, mas Bowie e Visconti acabaram mesclando as duas composições nesse petardo entre as músicas mais ambiciosas e diferentes de sua discografia.

Embora seja difícil dizer sobre o que é a faixa “Blackstar”, o saxofonista Donny McCaslin disse que é sobre o Estado Islâmico. Bowie não é diretos em suas letras e pode criar mil alegorias ou metáforas para falar de um tema, como bem sabemos. É só lembrarmos que “Valentine’s Day”, uma das faixas mais marcantes de The Next Day, era sobre um massacre em uma escola. Especula-se que exista referências ao ocultista inglês Aleister Crowley e até ao personagem Major Tom (que aparece nas músicas “Space Oddity”, “Ashes To Ashes” e “Hallo Spaceboy”), já que no clipe há a caveira de um astronauta. Façam suas apostas e suas teorias.

O álbum deixa claro a ideia de Bowie de pegar uma banda de jazz e fazê-la tocar rock também. “‘Tis a Pity She Was a Whore” soa exatamente assim, ilustrando muito bem como seria se uma banda de jazz emulasse o ritmo constante da música pop e ainda conservasse o virtuosismo instrumental. O resultado não é nem jazz e nem rock, mas um meio termo que lembra ambos. A bateria de Mark Guiliana e o baixo de Tim Lefebvre seguram a onda enquanto o sax de McCalins percorre a canção do começo ao fim com uma improvisação. Bowie mesmo, enquanto voz dessa banda, é quase um detalhe. Se no lugar do sax tivéssemos uma guitarra, veríamos um rock com mais clareza. Mas aí é que está a diferença nas opções: Bowie quis embaralhar fronteiras.

“Lazarus” é uma música bastante acessível que nos brinda com a voz limpa do cantor. Música de menos excessos e ainda bastante groove. Diversos discos de Bowie depositavam confiança na seção rítmica, como Earthling (1997) e todo o seu drum n’ bass, e Blackstar é outro trabalho que dá enorme importância para baixo e bateria. E “Lazarus” bem poderia ser a amálgama do encontro entre o space jazz e o Blur, quem sabe.

“Sue (Or In a Season of Crime)” é uma versão retrabalhada e com alguns minutos a menos da “Sue…” que ele havia lançado em 2014. Menos pesada de jazz que a original, conta com uma sujeira roqueira em cada verso. Se não dá pra falar que ele tinha o rock em mente ao dar uma roupa para esta composição, também não dá pra afirmar que fosse o jazz. A combinação é estranha, mas dá para entender. Mesmo menos pesada com a falta dos sopros de metal, a faixa ainda se mantém um tantinho perturbadora.

“Girl Loves Me” mantém uma expectativa em seu ritmo e em suas escolhas harmônicas, como se algo estivesse para acontecer. Os efeitos eletrônicos e as orquestrações, cortesias de Visconti e do tecladista Jason Lindner, dão um aspecto espacial à música. Já “Dollar Days” é mais gentil e bem mais harmônica. Uma música que poderia estar vários dos últimos discos de Bowie, como Outside (1995), Heathen (2002) ou Reality (2003). Como todo o ★, é uma música de tom melancólico e evocativa da morte. O violão que ouvimos é do próprio Bowie, que compôs essa canção no estúdio The Magic Shop, enquanto ele, o produtor Visconti e a banda davam forma a outras músicas.

Por fim, “I Can’t Give Everything Away” é o raio de luz do disco. Com ritmo constante, ela seria dançante se não fossem as camadas de sons mais etéreos manter a música em suspensão. Ainda conserva algo de misterioso e de opressor em seus teclados, o instrumento que volta e meia não deixa o clima de seita se esvair. Mesmo assim, soa como a canção mais aberta de Blackstar e permite até um solo de guitarra de Ben Moder.

Enquanto The Next Day era ótimo sendo diverso, apresentando um Bowie com elementos díspares quase que a cada música, em ★ ele segue uma estética muito específica. Ritmos pulsantes mesmo quando quebrados, um clima de culto, uma forma de não deixar o jazz ser puro, de não deixar o rock tomar o lugar do jazz. Usa sempre quase que os mesmos instrumentos para que cada música tenha os mesmos elementos. Não soa como Bowie, Visconti e uma série de vários músicos. É realmente Bowie, Visconti e uma banda de estilo bem definido – ainda que sejam capazes de ir do jazz ao kautrock – trabalhando juntos do começo ao fim.

No final das contas, não é o disco mais estranho da carreira, como haviam afirmado que seria. Mas longe de ser o mais fácil também. Para quem já fez drum n’ bass, rock, pop, soul, música eletrônica, ambiente, minimalista e diversos experimentalismos, flertar com jazz é mais uma linguagem para ele usar do seu próprio modo, sem ser óbvio. O jazz está dissolvido ao longo de ★, como se ele não tivesse pensado exatamente em jazz para dar forma a sua composição. Mas escolheu a forma depois de saber o que queria de cada faixa exatamente. Aí o jazz se adequa ao que ele compôs. O resultado é excelente, não exclui o ouvinte. Se a faixa inicial “Blackstar” parece estranha demais e comprida demais, tenha paciência porque o camaleão te ensina a ouvir seu novo disco, como um autor de vanguarda faz em seus romances.

O fã que se preparou mesmo para “o disco mais estranho da carreira” não vai ter problema de entender, escutar e gostar de ★. No final o que sobra é um Bowie que não nos dá entrevistas, shows,  ou detalhes claros sobre si mesmo e sua obra, mas ainda faz a música que vamos apreciar. Nunca sabemos o que ele vai nos entregar, mas já é tradição deixar o coração e os ouvidos abertos para o que ele quiser propor.

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