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Richie Kotzen – Salting Earth (2017)

Disco ressalta a capacidade do músico de harmonizar suas muitas facetas

Por Gabriel Sacramento

Desde que descobri que o Richie Kotzen tinha sido o guitarrista do Mr. Big em um dos meus discos favoritos dos californianos, passei a acompanhar a carreira dele, desde suas participações, bandas e carreira solo. O que sempre foi muito recompensador, visto que o músico é bastante talentoso, tem uma identidade forte e transmite isso bem em cada música que grava. Além de um guitarrista virtuoso, o cara também é um excelente cantor, com um ótimo timbre vocal (que lembra demais o Chris Cornell) e uma técnica que está sempre em forma.

Seu estilo sempre foi composto por muito de funk, soul e blues misturados com rock. Kotzen sabe como poucos pegar um elemento de um estilo e jogar no outro, mantendo-os reconhecíveis na mistura e enriquecendo a experiência e a audição. Foi assim no Mr. Big, quando sua presença na banda permitiu que eles enveredassem por um som mais funkeado, com muita consistência, e tem sido assim com os projetos de que tem participado.

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Kotzen também é sempre muito prolífico. Recentemente, tem se dedicado ao The Winery Dogs, trio que formou com Billy Sheehan e Mike Portnoy, mas também tem achado tempo para continuar o fluxo frequente de lançamentos de sua carreira solo. Em 2015, ele lançou Cannibals, um disco que representava uma fase menos roqueira e menos intensa do músico. Este ano, lançou Salting Earth. Ele continua gravando e produzindo quase tudo que entra no disco, o que ressalta ainda mais o seu talento e versatilidade. A única exceção aqui é a voz feminina gravada pela sua namorada, a brasileira Julia Lage.

Salting Earth traz mais peso e agressividade que seus dois antecessores – 24 Hours (2011) e Cannibals (2015). Há menor predominância da sonoridade R&B e dançante e pode ser entendido como uma tímida volta aos discos mais roqueiros como Get Up (2004). Temos várias músicas com as guitarras distorcidas dando o tom: “End of Earth”, “Thunder”, “Make it Easy” e “Divine Power”. A primeira possui um vocal distorcido bem diferente do comum do Kotzen, com um pouco mais de agressividade (soando ainda mais como o Cornell). O vocal soa muito bem colocado entre os riffs potentes. Já “Make It Easy” traz um quê oitentista, com um refrão que lembra a ex-banda do guitarrista, o Poison.

Mas também temos baladas: “I’ve Got You”, com letra simples, um baixo forte e uma guitarra que dá um charme sem prejudicar o refrão melodioso e chamativo. O baixo também chama a atenção na também romântica “My Rock”, o que mostra que Kotzen está cada vez melhor no instrumento. Ainda entre as baladas, temos a semiblueseira “This is Life” e a good vibes “Grammy”, com um violão bem ensolarado. Dentre todas, a que mais se destaca e até destoa um pouco é essa última. “Meds” parece ter sobrado de Cannibals, tamanha é a vibe um pouco roqueira mas sem tanta distorção que predominou no anterior.

Em Salting Earth, Kotzen explora diversos timbres, indo do piano elétrico à típica guitarra distorcida, passando pelo baixo, bateria e até violão. Mesmo que a bateria, por exemplo, soe bem simples em alguns momentos, a dinâmica que o músico consegue desenvolver é suficiente para as canções funcionarem bem. A impressão é que ele se dedicou com igual intensidade a todos os instrumentos que se propôs a gravar e não somente aos principais.

O novo disco, assim como o anterior, é muito bom de ouvir, mesmo que não seja excelente. O mais legal do álbum é o equilíbrio que Kotzen consegue destacando todas as suas facetas da mesma forma, sem exagerar demais em nenhuma delas. Se você gosta mais do Kotzen vocalista ou do Kotzen guitarrista do começo da carreira, prepare-se para ouvir essas duas características um pouco mais tímidas aqui, a fim de harmonizar com as outras e oferecer um resultado mais coeso e consistente.

A sua discografia continua irrepreensível. Cada disco parece aumentar a validade da fórmula e de sua capacidade criativa. Salting Earth é superior à Cannibals: além de abarcar os mesmos parâmetros, ainda traz um feel mais old school. Ouça sem medo.

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Jamiroquai – Automaton (2017)

Funk, disco, viagens espaciais e inteligência artificial

Por Gabriel Sacramento

Dono de um lugar no pódio do acid jazz, junto com o Incognito e o Brand New Heavies, o Jamiroquai é a banda que mais tem se permitido evoluir. As outras duas bandas continuaram na mesma lógica de musicalidade e ainda que sejam incríveis, são mais do mesmo. O Jamiroquai buscou influências e referências externas que acrescentaram novos sabores ao seu som, tornando-o diversificado e extremamente criativo.

Pegue, por exemplo, os últimos álbuns do Brand New Heavies e Incognito, adicione todas as músicas em uma playlist chamada “Acid Jazz” e perceba como tudo vai funcionar muito bem. Depois adicione as músicas de Rock Dust Light Star (2010) e perceba como algumas faixas vão soar diferentes e contrastantes. Justamente por causa da mistura de eletrônico com jazz funk e rock que o grupo liderado por Jay Kay propõe. Fica claro que o Jamiroquai é tão inquieto na busca por sonoridades diferentes quanto Jay é na busca por um novo chapéu.

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O novo disco, Automaton, é um dos melhores já gravados pela turma de J. Kay. “Shake it On” já abre com uma pegada futurística, texturizada, mas também dançante e funk. O refrão é irresistível, tanto pelo apelo pop na medida certa, quanto pelo suingue envolvido. A longa “Dr. Buzz” traz variações de nuances e climas, mas com a sonoridade disco típica que marca todo o álbum. “Hot Property” é iniciada com um baixo potente, groovado, com um riff cheio de stacattos. A forma como misturam efeitos, texturas e os elementos suingados no disco é incrível. “Summer Girl” é embalada com percussões no início e slaps de baixo. Nesta predomina o feel acid jazz, que lembra os velhos tempos da banda. O ponto mais alto é “Something About You”, com melodias pop precisas, harmonias acertadas, uma linha de baixo groovada e forte, além de uma estrutura que valoriza bem o ótimo refrão.

Mesmo depois de tantos anos, o Jamiroquai voltou com um ótimo trabalho, que vai do dançante ao futurístico e robótico com muita facilidade. O tema que o inspirou foi inteligência artificial e a forma como a tecnologia influencia nossos relacionamentos atualmente. Nas letras, as referências à viagens espaciais e virtualização dos relacionamentos são onipresentes, fazendo jus também ao passado da banda e ao fascínio do Jay Kay com o tema.

A produção é de Matt Johnson, que também cuidou dos teclados e de toda a programação do álbum. Johnson soube com muita competência unir as diferentes referências da banda e conduzir o grupo por um caminho bem definido. Já a mixagem de Mick Guzauski – que trabalhou no maravilhoso Random Access Memories (2013) do Daft Punk -, foi fundamental para dar o espaço necessário para o baixo brilhar na maioria das faixas, fortalecendo o aspecto disco/funk. O baixo no disco está muito bem timbrado e bem colocado, se relacionando muito bem também com os outros instrumentos, mas assumindo o papel principal nas faixas. E a mixagem de Mick também influenciou no som trazendo muito da vibe retrô do Daft Punk em RAM.

Sem dúvida alguma, estamos diante de um dos melhores discos do ano, com uma sonoridade e identidade difícil de ser batida e/ou superada. Unindo funk, disco, jazz e eletrônica, o Jamiroquai dá um passo além na carreira e nos enlouquece com a capacidade de trabalhar e transitar entre essas linguagens de uma forma tão cirúrgica. É um disco de muitas sensações, que pode te levar de uma viagem no espaço à percepção de um mundo totalmente tecnológico, mas também à pista de dança.

Automaton não soa como um disco bom de uma banda famosa que já é reconhecida por trabalhos bons anteriores. Soa como um ótimo trabalho de uma banda que sabe do seu passado, mas não vive presa à ele e avança sem medo para o futuro.

Se você gostou do RAM do Daft Punk e também achou uma mistura maluca e fantástica de música eletrônica com funk/disco, não vai querer parar de ouvir Automaton. Se é fã de “Virtual Insanity” e “Space Cowboy”, talvez não encontre singles tão poderosos, mas vai encontrar um disco super pretensioso, que vai além de quaisquer fronteiras sonoras, atingindo um ápice criativo que impressiona. Mesmo depois do longo hiato, Jay Kay mostrou para todos nós que permaneceu criativo e conseguiu entregar um produto diferente de tudo o que já fez.

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Thundercat – Drunk (2017)

Com jazz canibal e nível de detalhe absurdo, Thundercat propõe viagem bêbada guiada por Jesus

Por Lucas Scaliza

Drunk, sensacional desde a capa (que mais parece um meme), deixa de lado a vanguarda mais sisuda de Thundercat exercitada no EP The Beyond/Where The Giants Roam (2015) e no segundo disco, Apocalypse (2013), para voltar a uma música mais parecida com a apresentada em sua estreia solo, The Golden Age Of Apocalypse (2011). Trabalhando ao lado do competente produtor Flying Lotus, que entende tanto de jazz, hip hop, música eletrônica quanto de Thundercat, conseguiu criar uma jornada por 23 faixas em que até mesmo o que na mão de quaisquer outros artistas seria uma vinheta, para eles têm um nível de detalhamento absurdo.

Fica claro à primeira audição que o feeling do álbum é mais divertido, brincalhão e até mais leve uma porção de vezes. Passagens como a saída do baixista Stephen Bruner (o próprio Thundercat) bêbado da boate e confiado em Jesus para guia-lo de carro de volta para casa (em “Captain Stupido”), sua jornada turística por Tóquio (“Tokyo”) ou a música dedicada a seu gato Tron rendem boas risadas. Mesmo uma música mais crítica como “Bus In These Streets” (sobre nossa obsessão por telas e conexão o tempo todo) é contada com um R&B mais tranquilo. O mesmo vale para “Show You The Way”, uma incursão mais pop do músico pelo buraco do coelho de sua jornada chapada, e “Drink Dat”, talvez a faixa mais acessível do trabalho.

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Embora o seu lado jazzista não esteja muito explícito no gênero que norteia as faixas de Drunk, está nos detalhes de quase todas as faixas. Uma audição desatenta dessa coleção de faixas curtinhas do álbum pode levar a pensar que a música de Bruner está menos ousada, mas o caso é que o endiabrado virtuoso americano propõe um estilo de composição em que usa faixas menores para mostrar uma quantidade maior de ideias diferentes. E como baixista de mão cheia – que sempre aparece portando seu enorme baixo de seis cordas – ele espalha por todo o disco momentos progressivos que lembram muito a estilo de músicos como o também baixista Evan Brewer (“A Fan’s Mail”, “Where I’m Going” e a virtuosa “Uh Uh”) e uns compassos complicados que fariam Frank Zappa admirá-lo (“Blackkk”).

A qualidade sonora do álbum como um todo será bastante familiar para quem o acompanha. Os grooves, os solos com notas estraladas, os incríveis arpejos (como em “Lava Lamp”, “Jethro”, “Inferno”, “3 AM”, “I Am Crazy”), as batidas abafadas, a voz suave, os falsetes e aquela textura de música levemente viajante com timbres vintage permanecem.

Thundercat, que por muito tempo foi um músico de estúdio e ao vivo para diversos grupos diferentes (de Erykah Badu a Suicidal Tendencies, passando por Kendrick Lamar e o próprio FlyLo), adquiriu a habilidade de fazer músicas que possuem elementos de vários estilos (funk, soul, hip hop, pop, rock e jazz) sem necessariamente ficar preso a um deles. Uma música como “Them Changes”, por exemplo,poderá passar como um R&B pop para quem tiver ouvidos apenas para sua melodia de voz. Mas e aquelas duas camadas de sons lânguidos pulsando em sua base junto com mais dois tipos de batidas? “Friend Zone”, extremamente bem produzida por Mono/Poly, é mais acessível, mas conserva ainda um tanto de elementos estranhos na mixagem. “The Turn Down”, com Pharrell Williams, tem batidas regulares e harmonia marcada pelo baixo, mas há uma massa musical cinzenta abstrata rolando entre as vozes e as batidas, resultado de uma pesada manipulação de sons que antes eram “normais”.

O diabo mora nos detalhes. E é nessas diabruras que Drunk vai revelando suas intenções musicais. Fica também a forte impressão de que em grande parte das faixas, Thundercat priorizou a criação harmônica e as levadas em seu baixo, e só depois pensou em como encaixaria letra ou melodia de voz ali, tal é o apreço pela música, a sofisticação de sua produção e a quantidade de novos fraseados que vão constantemente aparecendo (a escala ascendente e descendente em “Friend Zone” pode muito bem ser a versão gamer de Bruner para o tema de introdução da série Final Fantasy, repararam?).

Vale dizer também que não é só diversão a vida de uma pessoa bêbada. Apesar dos miados mais melódicos que o soul já viu e das referências nerds ao Goku, ao Capitão Planeta e ao Diablo, Thundercat encontra espaço para refletir sobre a morte e a falta de alguém, fala sobre a violência policial contra negros (“Jameel’s Space Ride”), aquele sentimento acachapante de não saber qual será o próximo passo de sua vida (“Where I’m Going?”) e fala do medo que pessoas têm da diversidade e cita o movimento Black Lives Matter com um par de bons versos: “Se todas as vidas importam, por que engasga quando cita os negros? Atrás de nosso céu azul fica o sol, cercado pelo escuro”.

Drunk diz menos sobre o estado etílico de Thundercat e mais sobre a forma como fermentou suas composições. É, de fato, um desses discos em que citar apenas um estilo musical não dá conta direito de descrever nem uma canção. Mostrando muita substância com faixas curtas – e outras minúsculas –, o baixista mostra que o jazz é sim uma metodologia e, melhor do que o personagem de John Legend em La La Land, mostra o jazz com uma pegada do futuro e textura retrô.

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Bruno Mars – 24K Magic (2016)

Bruno Mars está de volta com disco urbano, noventista e com estilo bem definido

Por Gabriel Sacramento

Finalmente um dos lançamentos mais aguardados do ano saiu. Foram quatro anos de espera e mesmo sem disco de inéditas, Bruno Mars continuou fazendo sucesso e marcando presença nas paradas. Depois do seu último trabalho, Unorthodox Jukebox (2012), Mars reapareceu com Mark Ronson em 2015 com o sucesso “Uptown Funk”, que impressionou a todos pelo seu aspecto dançante, divertido e com sonoridade retrô. A parceria deu tão certo que Mars decidiu trazer Ronson para seu novo disco e, quem sabe, gravar hits tão certeiros quanto “Uptown…”.

Quando liberou “24K Magic” (que discutimos neste podcast), ele nos deixou altamente esperançosos com uma música festeira, groovada, com uma vibe dançante, mesclando elementos de hip-hop old-school e modernos, como auto-tune, de uma forma até então inédita no seu catálogo. A pergunta era: o Bruno investiria nesse tipo de sonoridade nas outras canções também?

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A resposta é sim. Ele investe em groove retrô em outras faixas, mas que não necessariamente soam como “24K Magic”. Assim como fez em Unorthodox Jukebox, Mars ainda tenta explorar diversos gêneros. A diferença é que no álbum anterior ele explorou muitos estilos diferentes, já em 24K Magic temos menos gêneros musicais, mas ainda soa interessante.

“Chunky”, que sucede a faixa de abertura, traz um baixo forte e marcante. Vocais mais R&B noventista, com harmonias espertíssimas. Consegue ser dançante e groovada enquanto dá espaço para Mars desenvolver bem suas melodias. “Perm” segue em sequência ainda mais vibrante, com guitarras funkeadas ao fundo e uma levada de bateria mais pesada. Possui vocais divertidos e descontraídos, assim como a faixa-título. “That’s What I Like” traz uma batida de hip-hop e um vocal principal que se adequa bem ao ritmo. O desenvolvimento da canção é como algo que o Usher comporia nos anos 90. Com vocais mais graves (até incomuns para o seu estilo), ele admite mais claramente essa influência do R&B urbano de Usher em “Calling All My Lovelies”.

Bruno Mars continua impressionando com uma musicalidade marcante pela presença de uma boa banda ao fundo. Assim, o cantor se encontra livre para explorar elementos de funk, R&B dos anos 90 e hip-hop clássico sem precisar de samples o tempo todo ou de encharcar suas faixas com elementos eletrônicos. Se o pop atual precisa se basear nos flertes com a música eletrônica para se fortalecer, Bruno vai contra a corrente e mostra o poder da música pop feita por instrumentos.

Mas como se trata de um bom disco do Mars, não podiam faltar as baladas. Em seu primeiro álbum, tivemos “Talking To The Moon” e, no segundo, “When I Was Your Man” como baladas principais. No novo, não temos um hit tão bom quanto os citados, mas temos baladas que servem para mostrar que o havaiano está em dia com sua voz e com sua faceta mais emotiva. “Versace On The Floor” é uma delas e surge com uma influência forte das baladas de artistas como Michael Jackson e Babyface – que coescreveu a última faixa e também balada, “Too Good To Say Goodbye”. Os vocais são doces, a melodia é açucarada, o tom é romântico, a timbragem cristalina e harmonias sugerem uma faixa bem anos 80/90.

24K Magic é o disco menos variado e mais focado de Bruno Mars até agora. A fórmula usada nos dois primeiros, com um conjunto eclético de influências, foi reduzida para um alvo mais fácil de acertar. A sonoridade é mais urbana, mais hip-hop, mais R&B, anacrônico como os outros, embora se atenha às mesmas referências temporais na maior parte do tempo. Os anos 90 foram a década vislumbrada por Bruno quando compôs o disco e é exatamente o que acerta em cheio.

Com o passar do tempo, vemos que o jovem cantor está definindo sua sonoridade. Seu talento e capacidade são inquestionáveis e sua atitude com relação à sua música é outro dos fatores positivos. Mars é sincero e honesto com suas influências e as explora sem medo, enquanto molda o próprio estilo.

Embora não seja o melhor, o novo álbum é o mais bem direcionado. Seus hits de discos anteriores ainda são imbatíveis e poucas canções de 24K Magic podem competir com eles. No entanto, é um disco importante para a carreira, marcado uma fase mais madura. O mais importante é: a magia do seu som e do seu estilo permanecem intocados.

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Foto: Kai Z. Feng

Liniker e os Caramelows – Remonta (2016)

Em uma grande micareta cósmica de estilos musicais, Liniker vai de Prince à MPB progressiva

Por Lucas Scaliza

Não diria que há experimentalismo em Remonta. O que parece que Liniker e os Caramelows fazem é procurar uma expressão, uma voz, um jeito de ser e, não sendo nem uma coisa e nem outra, Remonta são várias coisas ao mesmo tempo. É uma confusão, mas assim como o filme 2046 de Wong Kar-Wai, é uma confusão linda de se ouvir.

Aos 21 anos, Liniker – um(a) cantor(a) e compositor(a) de Araraquara, interior de SP – vem embalando uma geração de universitários e de pessoas interessados no lado mais indie e inventivo e desconstruído da música popular brasileira. Batom e saia, brincos e bigode, uma voz que claramente é de homem, mas com uma interpretação que estamos mais acostumados a ouvir de mulheres. São elementos que instigam a curiosidade e realçam o lado andrógino de Liniker.

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Remonta, o primeiro disco dele/dela com os Caramelows, é um grande festival de estilos, fruto de uma ruminação musical de 5 anos. Tim Maia, Móveis Coloniais de Acaju, percussão afro, rock, soul, Amy Winehouse e clima de micareta são algumas das lembranças que vêm à mente ao ouvir o disco, rico em textura, diversão, drama e sensualidade. A faixa-título, “Remonta”, é um aviso sobre como a música de Liniker paga tributo à MPB dos anos 70 e 80 e faz uma espécie de MPB progressiva. O andamento muda, o drama vira balada, que passa por um interlúdio mais nordestino com arranjos de sopro e chega a um clímax levando a canção para outro caminho enquanto brada que não quer mais “saber de desamor”.

O mesmo ocorre com “Caeu” que, embora tenha uma levada mais padronizada (e uma linha de baixo deliciosa), também envereda por passagens mais jazzísticas e atmosféricas antes de seguir um crescendo que segue até o final da canção. Lina X, que começa com um animado axé indie (você realmente consegue ouvir a música e se imaginar num carnaval) – vai se transmutando em coisas diferentes, como uma passagem instrumental meio surf rock, meio western, só para depois cair em uma valsa triste que pouco lembra o início da canção. “Louisie du Brésil” passa um bom tempo como um funk que poderia estar na trilha de The Get Down, mas da metade para lá vira algo denso, lento e dramático. E aí você se pergunta: “Eu tô ouvindo MPB ou a porra duma versão do King Crimson?”

Essa recusa da linearidade musical faz com que a música de Liniker seja uma evasão da nova MPB mais bonitinha e padronizada que ouvimos atualmente. De quebra, Liniker dá uma cara muito mais progressiva ao estilo e, ao que parece, ele/ela não está consciente disso, pois não importa muito qual o rótulo de sua música. Ela simplesmente acontece. Difícil saber até onde cada canção foi milimetricamente planejada e o que surgiu ali no estúdio, de forma mais espontânea. Isso é tanto um charme de Remonta quanto o indicativo de que Liniker e os Caramelows ainda têm bastante espaço para amadurecer a proposta em discos seguintes. O acaso e o vale-tudo caem bem, mas o álbum acaba perdendo em unidade e coesão. Não que isso acabe com a experiência. Longe disso.

Entre as músicas mais lineares do álbum estão a animada “Prendedor de Varal” – com guitarras ágeis no registro agudo e seco, um baixo com um timbre bem orgânico e um ótimo naipe de sopro –, a melancólica “Sem Nome, Mas Com Endereço” (outro exemplo de como a banda é ótima com finais de canções), a curtinha “Funzy”, que é o melhor lado Prince que um artista brasileiro da nova geração já mostrou ter, e “BoxOkê”, que tem o reforço da banda Aeromoças e Tenistas Russas e da cantora Tassia Reis, e é uma das melhores e mais completas músicas do álbum. Um exemplo que Liniker e os Caramelows são capazes de não perder a criatividade e ainda assim manter a faixa com uma direção bem definida e certeira.

Há uma sensualidade latente que atinge seus ouvidos tanto com as palavras cantadas, mas principalmente com a forma como Liniker as diz. “A gente fica mordido/ Dente, lábio, teu jeito de olhar/ Me lembro do beijo em teu pescoço/ Do meu toque grosso/ Com medo de transpassar – e transpassei!”, ele canta na excelente “Zero”. E o que dizer de “Nossa, como a gente encaixa gostoso aqui?”, no final de “Caeu”. E também é a sensualidade que dita “Tua”. E não tem como ser mais direto ao ponto do que em “Você Fez Merda”, faixa em que Liniker modula a voz para interpretar diferentes personagens e cantar um verso como “Você fez merda ao dizer que não me ama/ Depois da Transa que eu dei pra você”. E o final apoteótico, com a potente “Ralador de Pia” – “Me beija, me cheira, me tira do sério”, ele/ela canta –, voltando a mostrar que Remonta é uma micareta progressiva, psicodélica e divertida.

O “problema” de Liniker é o mesmo que O Teatro Mágico enfrentou com o primeiro álbum, Entrada Para Raros (2003), e o Móveis Coloniais de Acaju enfrentou com o segundo, C_MPL_TE (2009). Remonta é tão bom e tão criativo, num estágio tão inicial da carreira, que fica complicado manter o mesmo nível de inovação, diferenciação e surpresa no futuro. Liniker, advindo de uma família de músicos, teve que superar a vergonhar de cantar para poder nos encantar com sua voz, sua performance e sua música. Deverá continuar muito destemido – esperamos – para não ter amarras no futuro.

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Blood Orange – Freetown Sound (2016)

Dev Hynes coloca questões de sexualidade e identidade, negritude e comportamento em obra musical que captura o espírito de nosso tempo

Por Lucas Scaliza

Mais do que qualquer outro estilo musical, a black music ou o R&B (e suas variantes no cenário pop) há décadas é uma das maiores forças comerciais da indústria da música. Trafegam bem pelas músicas românticas, dançantes, de balada, água com açúcar, têm clipes com altas taxas de visualização, vão bem nas rádios e também conseguem fazer músicas de protesto e de teor social e político quando querem. Embora a maior parte da produção tenha caráter comercial, quem se arrisca pelo terreno mais artístico do estilo é recompensado. Pense nos novos discos de Rihanna e Beyoncé, por exemplo; ou então na produção de vanguarda de D’Angelo; isso sem falar no hip hop sofisticado de Kendrick Lamar, no eletrojazz de Flying Lotus ou as viagens de Thundercat.

Blood Orange, o nome artístico do talentoso cantor e multi-instrumentista Devonté Hynes, trilha o caminho do R&B mais artístico e criativo desde que surgiu em 2011 com Coastal Grooves. Desde então só vem lapidando cada vez mais seu estilo e sua sensibilidade, mas Freetown Sound é realmente um disco que supera expectativas e coloca o R&B em outro patamar, até mesmo dentro de sua própria discografia.

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De um lado, temos o mesmo jeito criativo de propor um R&B cativante, mas sem se render aos padrões radiofônicos. Bem executado como se esperaria de D’Angelo e tão sensível e climático quanto Thundercat faria. De outro lado, temos um artista que tem algo a dizer. Freetown Sound toca em assuntos diversos como feminismo, orientação sexual, homofobia, racismo e política. O timing foi perfeito, já que o disco foi lançado logo depois dos ataques a homossexuais em uma boate de Orlando e em consonância com todos os protestos em diversos pontos dos EUA por práticas racistas de policiais e outras autoridades. É um zeitgeist tão flagrante quanto o do escritor francês Michel Houellebecq e o livro Submissão sendo lançado pouco tempo antes dos ataques do Estado Islâmico ao Charlie Hebdo em 2015. E “Freetown”, que está no nome do disco, é a cidade natal de seu pai, natural de Serra Leoa, e pode apostar que a África e suas figuras estão presentes no disco, como na ótima “Augustine”, que possui uma batida pulsante, mas vocal, piano e sintetizadores fazem com que você sinta que há angústia, na verdade, na canção.

Freetown Sound é tanto um álbum quanto uma mixtape. A lista de convidados especiais é longa, mas são todas composições tão bem feitas que em momento algum parece que Dev Hynes ou a marca Blood Orange precisa das participações para se alavancar. Diferente de D’Angelo, o som dele não é vintage ou exacerbadamente analógico, trafegando entre faixas mais eletrônicas (“Best To You” e “Better Than Me”) por outras com um feeling sonoro totalmente orgânico (“Desirée” e “Juicy 1-4”). Além de diversos discursos que permeiam o álbum, ele é reforçado por excelentes melodias e uma perfeita sintonia entre baixo e as batidas (sejam da bateria acústica ou eletrônica) que garantem que o disco embale o ouvinte.

Entre as preciosidades do álbum, “E.V.P.” (East Village Press), numa pegada soul/funk que teria feito Prince sorrir, é uma das que mais chamam a atenção. Hynes conduz a música com habilidade, mudando a melodia substancialmente dos versos ao pré-refrão, chegando a um refrão inesquecível. Além disso, mantém uma base bem regular para desenvolver vários instrumentos psicodelicamente por cima dela. Até um solo de bateria ele consegue encaixar. Ao que me parece, é uma canção sobre um garoto que descobre não se encaixar nos padrões heteronormativos.

A setentista “Desirée” (para fazer D’Angelo sorrir agora) abre com uma citação do documentário “Paris is Burning”, clássico do cinema LGBT que retrata uma cultura do Harlem em que questões de orientação sexual, identidade de gênero e classe social se combinam e formam um micropanorama social bastante interessante no final da década de 1980. “Hands Up” (“Mãos para cima”) é a música que engana: ela parece animadinha e doce, mas fala sobre a situação dos negros nos EUA, que são constantemente suspeitos de serem criminosos. Hynes tem um ótima saca ao usar a palavra “haitiano” (haiting), para designar uma etnia negra, mas cuja pronúncia se assemelha muito a hating (“ódio”). Outra sacada está em “Chance”, música de batidas esparsas e clima onírico (ecos de FKA Twigs). Em um dueto, Dev Hynes e Kelsey Lu  cantam sobre um negro no meio de uma plateia de brancos que vê uma garota de tranças loiras e a camiseta dela diz “Thug Life” (vida bandida, em tradução livre. Você já viu pessoas privilegiadas usando essa camisa, não viu?), mas ela nem faz ideia do que significa ter de fato uma “thug life”.

Dentre todas as participações especiais, a mais notável é a de Nelly Furtado na delicada “Hadron Collider”. Além de ter mais espaço e tempo que as outras cantoras convidadas, Furtado se beneficia de uma música com versos marcantes em letra e melodia, principalmente quando canta o refrão. Outra participação interessante é a da cantora pop Carly Rae Jepsen que embarca na tensa “Better Than Me”. Uma música introvertida em que ela faz vocais mais contidos e sussurrantes.

Dev Haynes canta, toca guitarra, sintetizador, teclado, bateria e baixo em diversas faixas. O saxofone de Jason Arce permeia o R&B com um pouco de jazz, dando um ar mais sensual ao álbum. Freetown Sound acaba sendo um álbum tão bom e tão importante em 2016 quanto Lemonade da Beyoncé. Embora ambos sejam discos de black music, trabalham com espectros diferentes do R&B. Hynes é mais indie, Beyoncé mais explosiva, mas ambos fizeram discos bons de ouvir e bons para pensarmos sobre eles. Freetown Sound pode ter o nome de uma cidade africana, pode ser feito por um norte-americano, mas é fruto de nosso tempo como poucos conseguem ser. E universal como poucos serão.

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Charles Bradley – Changes (2016)

Charles Bradley nos guia em uma viagem no tempo: direto para o auge da soul music

Por Gabriel Sacramento

A soul music teve seu auge comercial entre 1960 e 1970. Trazendo grandes artistas que marcaram e marcam as gerações até hoje, o estilo é um dos mais importantes da história da música americana. Era caracterizado por ser uma mistura entre o gospel e o R&B, que era um dos estilos típicos da época (principalmente nos anos 50, junto com o rock and roll).

Depois de tantos anos, o gênero renasce com o neo soul na década de 90. Artistas como Maxwell e D’Angelo, que trouxeram um pouco da energia inicial da soul music mesclada com a modernidade do R&B. Atualmente, o soul clássico vem sendo resgatado de forma enfática – e menos moderna – por muitos artistas. Para citar alguns: Joss Stone, The Suffers, Leon Bridges e nosso artista da vez, Charles Bradley.

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O cantor, que tem 68 anos e começou a carreira com 60 anos, depois de uma vida difícil (chegou a morar na rua), é um dos grandes representantes dessa nova onda de soul americano. É impossível ouvir Charles Bradley sem associar sua inconfundível voz às de mestres como Otis Redding e James Brown. Em seus discos, até mesmo a timbragem dos instrumentos é bem parecida com os timbres comuns no soul dos anos 60/70.

Bradley e suas bandas de apoio Menaham Street Band e The Budos Band nos apresentam seu terceiro disco – Changes, produzido por Thomas Brenneck, o mesmo produtor dos outros dois álbuns. Brenneck é um dos responsáveis por guiar o cantor nessa sonoridade retrô.

O disco começa com “God Bless America”, uma canção curta na qual Charles celebra a sua terra natal. Possui uma parte falada com o cantor se apresentando ao ouvinte. “Good to Be Back Home” ressalta o ufanismo lírico, mostrando o quanto a voz de Bradley é semelhante à de James Brown. Traz arranjos bem interessantes, com boa participação de metais. Os metais também se destacam em “Change For The World” – que também possui uma ótima linha de baixo – e em “Nothing But You”. “Crazy For Your Love” é romântica, com mais ênfase na letra e menos swing.

O grande destaque no setlist é a faixa-título, uma nobre regravação de um clássico do Black Sabbath. “Changes” tem uma interpretação bem própria de Charles, que imerge no personagem triste e abalado pelo fim de um relacionamento. Possui sacadas instrumentais bem interessantes: guitarra com delay bem colocado, baixo forte e um andamento arrastado que combina com a melancolia da letra e do vocal.

No geral, Changes vem pra mostrar que acima de tudo, Charles Bradley é especialista em soul music. Além disso, ele sabe, como pouca gente, resgatar uma sonoridade soul clássica com competência, com swing e qualidade sem soar deslocado ou cafona, mas de uma forma que mantém o estilo interessante e relevante nos dias de hoje. Dos cantores atuais que resgatam a sonoridade clássica, Bradley é o mais fiel, como sua voz não nos permite duvidar.

É um disco com vários sentimentos: tristeza, romantismo e patriotismo são os principais. Cheio de metais afiadíssimos, baixos fortes e vocais de fundo excelentes que reiteram a veia soul do século passado. Com swing, vocais expressivos e cheios de feeling. É um disco de soul music para nenhum admirador de Otis Redding, James Brown ou Al Green botar defeito. Um disco produzido em 2016, mas que soa como se tivesse sido produzido em 1960. A experiência sonora é como a de uma viagem no tempo, onde nos sentimos totalmente perplexos diante de um mundo diferente e mais antigo. E, é claro, isso está longe de ser um demérito, na verdade é o maior mérito.

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