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HAIM – Something To Tell You (2017)

Sound City sem as carreiras de cocaína

Por Eder Albergoni

Imagine o pop de FM verdadeiramente conflitante, indo além de briguinhas de ego e declarações infantis de suas estrelas principais, sobre relações amorosas fracassadas ou amizades falsas e aproveitadoras. A óbvia contradição nos impede o exercício pleno. É preciso recorrer a referências mais antigas, algo que foge das notícias de fofoca em sites de internet. O pop em questão, que se fortalecia em quebrar padrões e subir a barrinha da relevância para marcas maiores que o clichê de fãs ensandecidas que não deixavam jovens ingleses com ridículos cortes de cabelo cantarem direito suas musiquinhas, tinha
roupagem rock, descolada e um representante perfeitamente estabelecido em nossa visão. Rumours, lançado pelo Fleetwood Mac em 1977, é nosso objeto de comparação, desejo e conflitos latentes.

Hoje já não é preciso chocar a sociedade profanando o sagrado com modelitos provocantes, nem conceber discos com letras censuradas por conter palavrões ou insinuações sexuais, e muito menos sofrer de uma doença que muda a cor da sua pele.
Bandas e artistas fizeram, ao longo do tempo, discos repletos de drogas, sexo e postura moralmente questionável, segundo certos preceitos adquiridos em momentos de conservadorismo mais evidentes. Mas isso tudo é chover no molhado. O pop em si era sinônimo de qualquer coisa abaixo da média estabelecida como padrão e geralmente tido como certificado de qualidade. O pop combatia isso. Primeiro contestando em sua vertente punk e aumentando o espectro da atitude rock’n’roll. Depois afirmando movimentos de contracultura e grupos de minorias. O Fleetwood Mac transitava por tudo isso, e mais ainda quando criou Rumours.

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Acontece que o pop se atualizou e existem tantas ramificações sonoras que é impossível classificar bandas, artistas e estilos em nomenclaturas, mesmo que isso as identifique como tais representantes daquilo que servem em seus cardápios musicais. Aquilo: passamos a consumir música. Estamos menos empenhados em sentir o que ouvimos, pra elencar a quantidade do que ouvimos. Só que certos momentos nos puxam de volta à história. A música como era nas entranhas, na pretensão de transcender a física e as leis
divinas, na emergência demorada de experimentar uma obra específica como se fosse o elemento necessário e único pra garantir a sobrevivência humana. Rumours era sobre altos e baixos da vida.

A gente já concluiu de régua passada que nada mais pode ser clássico, ou ter vida longa, nesse modelo de consumo onde discos são lançados de semana em semana como filmes que lotam salas ao redor do mundo tão somente pra bater recordes de bilheteria. Eis que um sopro, um frescor, uma fagulha, uma palma no meio da multidão, um grito na cara de qualquer imbecil nasce. Nós esperávamos, sabíamos de onde viria e… voilà! A expectativa bem-sucedida desses nossos tempos nos brinda com um disco que é muito mais que só outro bom lançamento totalmente substituível na semana que vem.

Something To Tell You tem 100% de Rumours em seu DNA. Recorre intimamente às soluções sonoras e tenta ao máximo reproduzir, não imitar, os feitos técnicos. O disco é a soma dos quatro anos de experiência desde Days Are Gone (2013) com a empreitada da produção dividida, aspecto que parece ter virado o mais usual no que de mais contemporâneo existe nesse ramo. É preciso lembrar o que o disco do Fleetwood Mac significou na história da produção sonora. Gravado em vários estúdios, mas finalizado no lendário Sound City, se tornou um marco e direcionou a arte pra novos rumos, ideias e soluções pra usar tecnologias emergentes.

Mas o componente mais importante nunca deixou de ser o conflito entre a banda e o mundo. Neste segundo álbum, as Haim mostram maturidade, palavra que não pode ser outra pra definir a relação com o presente, e fogem de qualquer coisa que as aproximem de seus pares. Nada em Something To Tell You é banal. Nem imprime  formas polêmicas com o intuito de criar interesse. Argumento nenhum é desperdiçado. Nenhum discurso é inflamado. E mesmo assim o disco desenha o tempo a que pertence, ainda que “Nothing’s Wrong” nos confirme a comparação descarada com Rumours.

A fórmula usada em Days Are Gone aparece como recurso, nunca como repetição. Há uma evolução muito clara, tanto no aspecto musical (ouça “Kept Me Crying”. Danielle Haim empunhando a guitarra nos faz pensar em coisas pouco ortodoxas e suscitar o profano sobre o sagrado), quanto no aspecto pessoal. Porque tudo parece bem resolvido, ensolarado e aparado, há uma alegria desconcertante em seus shows e apresentações, e nada disso parece pop o suficiente para ser estragado. A principal virtude de Something To Tell You é replicar conflitos atuais, mesmo que pareçam menos importantes, sobre a alma de um disco de 1977 e conseguir ser um disco livre e completamente independente de datas. Um disco de, e para, todos os tempos.

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Escuta Essa 29 – Criolo: Favela, samba e comentário social na Espiral de Ilusão

Neste episódio, o trio do Escuta Essa Review passa a limpo Espiral de Ilusão, novo disco em que o rapper paulistano Criolo se entrega de corpo e alma ao samba, misturando crônicas do cotidiano da favela com personagens da comunidade e comentários sociais bem encaixados.
Há uma homenagem à Belchior, falecido em 29 de abril, e resenhas dos novos discos de John Mayer e da banda dinamarquesa Mew, além de comentários sobre o novo single das californianas HAIM. Você já sabe como funciona: coloque os fones e divirta-se!

Download do episódio neste link!

00’00”: Abertura e explicações
09’40”: Indicações
16’12”: Homenagem à Belchior
25’28”: Criolo – “Espiral de Ilusão”
53’28”: John Mayer – “The Search For Everything”
1h10″: HAIM
1h26″: Mew – “Visuals”
1h45″: Dan Auerbach

Site: www.escutaessareview.com
Facebook: www.facebook.com/EscutaEssaReview
Contato: escutaessareview@gmail.com

Jogos Vorazes: A Esperança pt. 1 – trilha sonora (2014)

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Lorde convoca gente jovem e em ascensão no mundo indie para criar as músicas que acompanham Katniss Everdeen em novo filme da franquia

Lucas Scaliza

O sucesso da série Jogos Vorazes (The Hunger Games) no cinema foi conquistado ao aliar narrativa poderosa e grandiosa no estilo blockbuster, crítica social, distopia futurística e uma protagonista autêntica. Com um material de roupagem pop e com um conteúdo contundente para o público jovem-adulto, os produtores do filme pensam cada detalhe. E assim a trilha sonora assume uma grande importância nesse cenário.

Para Jogos Vorazes: A Esperança (2014), novo filme da franquia, ninguém menos do que a neozelandesa Lorde foi escalada para cuidar da trilha sonora. Se perguntassem por ela antes do lançamento de Pure Heroine no ano passado, ninguém saberia que ela existia. Hoje ela está quase no topo da cadeia alimentar da música indie e mostra muita segurança ao fazer a curadoria dessa trilha.

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Ao longo das 14 faixas, notamos que a trilha tem a cara de Lorde em todas as suas nuances. Música eletrônica, dream pop, hip hop, black music, e até um remix de uma música sua feita pelo rapper e produtor Kanye West, de quem Lorde nunca escondeu ser muito fã. Mas não é em figurões da música pop que a jovem apostou. Acertadamente, ele recrutou nomes emergentes como o trio escocês Chvrches, a americana Ariana Grande, a inglesa Bat For Lashes, Tove Lo, Raury e Charli XCX, entre outros. No geral, todos mostram um trabalho muito bom e que dá um tom mais atmosférico, moderno e soturno ao filme na maioria das vezes.

É preciso assinalar que o filme em si não possui trilha sonora com música pop. A exceção é “Yellow flicker beat”, da Lorde, música tema, que toca durante os créditos de encerramento. No restante, há apenas trilha incidental e muitas, muitas cenas de silêncio. O filme tem menos uma veia de aventura e mais contemplação, jogos políticos e muito sofrimento. O álbum de sua trilha sonora serve, então, como um produto à parte, um complemento ao filme e não parte integrante dele. Diferente de Boyhood, que possui mais de 50 canções pop executadas ou sugeridas dentro do filme, ou de Pulp Fiction e Guardiões da Galáxia, em que as músicas pop tem relação direta com os personagens. Jogos Vorazes: A Esperança Pt. 1 é bastante austero nesse sentido. Não há faixas para acompanhar a dor ou para completar o sentido de alguma ação.

“Meltdown”, assinada pelo Stromae (pseudônimo do jovem belga Paul Van haver), é o típico eletro hip-hop com batida forte e diversas participações, entre elas a própria Lorde e as meninas do HAIM e os rappers Pusha T e Q-Tip. Já o Chvrches combina grooves modernos com a fantástica doce voz de sua vocalista, Lauren Mayberry, e entrega “Dead air”, uma faixa que se sustenta sozinha, independente do filme e do resto da trilha sonora. A sueca Tove Lo, também em ascendência no cenário e que lançou seu primeiro disco este ano, participa com “Scream my name” e seu poderoso refrão e uma letra que tem tudo a ver com a situação de Katniss Everdeen na história da terceira parte de Jogos Vorazes. “Quando eu estiver morta, eles vão cantar sobre mim, vão gritar meu nome”, ela canta.

Já a cantora inglesa Charli XCX convocou o cantor Simon Le Bom, do Duran Duran, para uma pequena participação em “Kingdom”. Música que tem pianos doces, bateria eletrônica e violinos. O produtor Major Lazer trouxe a cantora teen Ariana Grande para o balaio e o resultado é uma música mais festiva, “All my love”, que mantém o apelo jovem e fácil. Diferente da climática “Lost souls”, do jovem negro americano Raury, que carrega a faixa com violões e vocalizações, dando um ar quase tribal à composição.

Tinashé, que nasceu no Zimbábue – mas vive nos EUA há muitos anos, onde tem uma carreira na televisão e nas passarelas também –, contribui com “The leap”, eletropop mais econômico e nada estridente. Em “Original beast”, Grace Jones mistura uma percussão tribal e efeitos eletrônicos com uma guitarra reggae. Na linha experimental temos ainda “This is not a game”, do The Chemical Brothers com vocal do pouco conhecido Miguel e com sampler da voz de Lorde.

E então temos as músicas mais climáticas da trilha, como “Animal”, do produtor sueco XOV (também pouco conhecido) e um ótimo cover de “Plan the escape”, que Natasha Khan, do Bat For Lashes, canta com a gravidade que uma narrativa de tensão pede. E A Esperança Pt. 1 se constrói sobre a tensão antes do embate final.

Além da curadoria, direção e participações especiais nas faixas de seus convocados, a própria Lorde contribui com duas faixas. A primeira, “Yellow flicker beat”, é a música tema de Jogos Vorazes: A Esperança. É fácil identificar os elementos de seu dream pop e seu tipo muito particular de linha vocal. É mais uma faixa que ajuda a construir tensão. E a letra tem também tem ligação com a protagonista Katniss. Aliás, não havia como ser mais óbvio do que o refrão: “Já chega! Esse é o começo de como tudo acaba/ Antes eles gritavam meu nome, agora apenas o sussurram/ Estou me aquecendo/ E essa é a batida centelha vermelha, laranja e amarela/ Que acende meu coração”.

A faixa-tema reaparece ainda mais climática e econômica em “Flicker”, remix feito para a trilha por Kanye West. O rapper tirou a roupagem pop da gravação de Lorde e deixou tudo mais profundo e mais desolador. Por fim há a melancólica “Ladder”, que mostra um lado interpretativo da neozelandesa que não estava em Pure Heroine e serve como ponte musical para o próximo filme, que deve encerrar a história dos distritos de Panem contra a Capital opressora. “Ninguém sabe para onde a escada leva/ Você vai perder tudo que mais amou”, canta Lorde, já indicando os sacrifícios pessoais que a trajetória de Katniss lhe trouxe e ainda trará no derradeiro filme, que estreia em 2015.

Foi uma ótima sacada entregar a responsabilidade para Lorde, que é antenada e não se rendeu ao pop de massas e soube se conectar bem com o espírito do filme. E ao invés de dar espaço aos velhos de guerra, preferiu dar uma oportunidade a quem está começando e ascendendo no cenário musical. Gente jovem e que, na maioria das vezes, acertou bem a mão. Se não é excepcional, pelo menos não prejudica nem o filme (que tem mais silêncios eloquentes do que qualquer tipo de trilha) e nem os artistas envolvidos.

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