hard rock

Strand Of Oaks – Hard Love (2017)

O carisma do indie, o combustível do hard rock clássico e influência de LSD

Por Lucas Scaliza

Um pouco de folk rock nas levadas. Mas soam como hard rock, porque ele usa guitarras com uma boa dose de distorção e fuzz. E mesmo sendo o bom e velho rock’n’roll de sempre, há algo de moderno no som. Não chega a assustar, mas pode incomodar. Hard Love, do Strand Of Oaks, o quinto disco composto pelo músico Timothy Showalter, é definitivamente um registro que não pode passar desapercebido.

“Hard Love”, que introduz o álbum, bebe na fonte de Ryan Adams e não mostra a sonzeira que vem a seguir. “Radio Kids” e “Everything” resumem o que ele é capaz de fazer. Você não vai perceber nada de muito diferente de outras canções de rock que ouviu nos últimos 10 anos, principalmente se deu uma boa rodada entre o que há de indie e psicodélico à disposição, mas vai gostar. E conforme o disco avança, vai perceber que está totalmente tomado ou tomada pela energia de suas batidas e pela barulheira de sua guitarra. O fuzz exagerado em “Salt Brothers” vai soar fora de lugar, mas como uma ótima ideia ainda assim. O psicodelismo de “On The Hill” te pega desprevenido e então você exclama: “Uau, que puta som!”.

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É verdade que “Cry” interrompe o poderio de fogo do Strand Of Oaks e que “Quit It” poderia ser uma faixa melhor, mas cumprem seu papel de tentar equilibrar o álbum pisando um pouco no freio e trazer interferências que não são musicais ao trabalho. Paciência. Todo mundo pisa na bola, até o Pink Floyd e o Iron Maiden. Mas desculpe a bagunça e não desista de Showalter ainda. O importante é que ele percebe o que fez e já manda “Rest Of It” para recuperar nossa fé em Hard Love. Faixa bem colegial e com um solo daqueles que te faz lembrar (caso tenha idade para isso) do Marty McFly em De Volta Para o Futuro (fato recentemente relembrado pelo Gabriel Sacramento neste podcast).

E o melhor fica para o final. Voz mais rouca, ritmo menos alucinado e paisagem sonora lisérgica fazem de “Taking Acid and Talking to My Brother” o grand finale espetacular em que os grandes vencedores são o rock e o som do pedal de fuzz.

Se não ouviu falar de Strand Of Oaks, é uma boa começar com Hard Love, seguir para Heal (2014) e assim conhecer o que Showalter tem a oferecer. Se já viu o nome dele por aí, dê o play. O disco interpola o folk com o rock psicodélico, constrói algumas de suas canções com o carisma do indie e com o combustível do hard rock clássico. É ótimo.

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Crystal Fairy – Crystal Fairy (2017)

Superbanda mostra atitude e diversão com riffs de moer os miolos

Por Lucas Scaliza

Gone Is Gone, Giraffe Tongue Orchestra e, fechando o terceiro vértice do triângulo, Crystal Fairy. Três superbandas, três pegadas diferentes e três álbuns de rock’n’roll alternativo e pespegante. E das três bandas, o Crystal Fairy é a que parece menos pretensiosa e a que regulou o knob dos pedais de distorção para o nível mais alto.

Em Crystal Fairy, o divertidíssimo álbum de estreia do grupo, apenas as faixas “Sweet Self” e “Under Trouble” dão um tempo na porradaria, mas mesmo assim não chegam a ser baladas e nem perdem a característica de rock orgânico que a banda exibiu nos dois primeiros singles, a acelerada “Chiseler” e a melviniana “Drugs On The Bus” (que discutimos no episódio 8 do Escuta Essa podcast). Hardcore de garagem com ecos de anos 70 (“Necklace of Divorce”), riffs pesadões e arrastados (“Moth Tongue”) e riffs pesadões e ágeis (“Crystal Fairy”) também estão no repertório da banda.

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Formada por Buzz Osborne e Dale Crover (dos Melvins), Omar Rodríguez-Lópes (At The Drive-In e The Mars Volta) e Teri Gender Bender (Les Butcherettes), o quarteto é potentíssimo como suas bandas originais, partindo do rock e chegando muito perto do metal em diversos momentos. As influências de cada um são facilmente percebidas, seja na composição de riffs de moer miolos (como os da intensa “Bent Teeth”), ou na produção das faixas, que vai do vintage (como “Vampire X-Mas”, emulando uma qualidade pré-digital de três décadas atrás) até o som garajeiro encorpado e sem frescura. E Rodríguez-López, no comando do baixo, está sempre com uma distorção ligada para garantir uma dose extra de saturação.

Enquanto banda de rock, formada por músicos de bandas de rock notáveis, o Crystal Fairy se mostra muito bem calçado. Mas é a vocalista dos Butcherettes quem mais brilha neste primeiro disco. Teri Gender Bender fica entre a potência de Emily Armstrong (Dead Sara) e a interpretação de Alissa Mosshart (The Kills e The Dead Weather), chegando a lembrar até mesmo PJ Harvey em alguns momentos, mas principalmente em “Secret Agent Rat”.

Crystal Fairy, como um todo, cumpre bem o que os singles lançados em 2016 nos deixavam antever do supergrupo. Não falta energia e nem qualidade, com um rock orgânico que não é estranhão, mas também dá suas guinadas para não ser mainstream.

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Giraffe Tongue Orchestra – Broken Lines (2016)

Supergrupo se equilibra entre diversão e qualidade técnica de sobra

Por Lucas Scaliza

Formado por integrantes de diferentes bandas de rock e metal, o supergrupo Giraffe Tongue Orchestra seguiu um caminho bastante diferente de outro supergrupo formado em 2016, o Gone Is Gone. Enquanto o Gone Is Gone deixou seu som sisudo e arrastado, forte mas lento e atmosférico, o GTO se apresenta animado e ágil, menos experimental e mais dedicado a uma veia roqueira direta.

Encabeçada pelos guitarristas Ben Weiman (The Dillinger Escape Plan) e Brent Hinds (Mastodon), o GTO é divertida e descomplicada desde o título que escolheram para o projeto. Completam o time o vocalista William Duvall (Alice In Chains), o baixista Pete Griffin (Dethklok) e o baterista Thomas Pridgen (The Mars Volta). E claro que com um time desse você pode esperar não apenas música rock’n’roll da boa, mas também um rock bem feito, como fica claro bem rápido em Broken Lines.

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A faixa de abertura, “Adapt Or Die”, é o abre-alas com cara de single. Já a segunda, “Crucifixion”, mostra a habilidade de todos os instrumentistas em fraseados tão diretos quanto complicados, além das qualidades vocais de Duvall, que vão desde cantar com voz limpa, drive ou com uma agressividade típica das bandas do hair metal dos anos 80.

Broken Lines é um compilado consistente de rock feroz, divertido e com alto nível técnico, misturando hard rock, metal alternativo e alguns laivos de progressivo (tudo isso pode ser ouvido em “No-One Is Innocent” e “Thieves And Whores”). “Blood Moon” poderia ser dançante, mas é quase uma balada com guitarras distorcidas. “All We Have Is Now”, com seu belo dedilhado e banda bem mais comedida, fica com o posto de balada do álbum. E “Everybody Gets Everything They Really Want” fica com o posto de faixa dançante, fazendo um belo casamento entre ritmo disco, groove e guitarras de rock.

“Fragments & Ashes” e “Back To The Light Of The Day” são uma dobradinha interessante, mostrando as guitarras de Hinds e Weiman às vezes colidir e às vezes se somar, sem falar em linhas de baixo bem marcantes de Griffin e a bateria nervosa e cheia de viradas seguras por parte de Pridgen. Apesar da liderança do grupo estar concentrada nas seis cordas, todos os instrumentistas são ressaltadas a todo momento. “Broken Lines”, por exemplo, é uma dessas faixas que apresenta em 5 minutos uma quantidade de ideias que 90% das outras bandas do planeta não apresentariam em 10.

O grupo quase não aconteceu, mas Weiman e Hinds persistiram e fizeram o quarteto instrumental se encontrar em um som totalmente novo. Duvall foi escalado somente depois que as músicas já estavam prontas, mas ele se enfia nas composições com tanta presença que não há como pensar em outro vocalista para o posto.

Broken Lines não quebra nenhuma convenção da música e nem reinventa a roda, mas se esforça para não ser repetição de nada que seus gabaritados membros tenham feito em suas bandas principais. Junto de Gone Is Gone, Crystal Fairy e Liv, fica a certeza de que Giraffe Tongue Orchestra é mais um motivo para 2016 ter sido um ótimo ano para as superbandas.

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Glenn Hughes – Resonate (2016)

Com mais um ótimo disco solo, ex-Deep Purple volta ao hard rock

Por Gabriel Sacramento

Quando se fala em Deep Purple e sobre a melhor fase da banda, a resposta é quase sempre unânime. A melhor fase é a que envolve Richie Blackmore, Ian Gillan e Roger Glover, ou seja, a que gravou, entre outros álbuns, o Machine Head (1972). Pouquíssimos vão dizer – como este que vos digita – que a melhor fase da banda foi a fase MKIII, que tinha nomes como David Coverdale e Glenn Hughes. Com esse line-up, a banda gravou Burn (1974), que foi um disco importantíssimo para o rock britânico setentista.

Dessa fase MKIII, um dos egressos foi o baixista/vocalista Glenn Hughes. Hughes já demonstrava um talento impressionante ao dividir os vocais com Coverdale enquanto tocava baixo, com uma voz potente, aguda e cheia de vigor. Depois de superar alguns problemas com drogas, ele conseguiu estabelecer uma ótima carreira solo para desenvolver e expor esse talento. A carreira rendeu excelentes discos na década passada como Songs in The Key of Rock (2003) – sim, uma referência ao álbum do Stevie Wonder, que é influência para o Glenn – e Music for The Divine (2006).

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Seu novo disco trazia a promessa de ser o mais pesado em anos, visto que nesses discos que acabei de mencionar, Glenn abria mão do peso para flertar com funk, soul e outros estilos. Resonate realmente é mais bruto, agressivo, mas é perfeitamente formulado e mostra um artista supermaduro no auge da sua carreira. Sim, no auge. Depois de fazer sucesso no Deep Purple, Hughes conseguiu desenvolver um trabalho solo consistente, como poucos, e Resonate representa o ápice dos seus esforços.

Glenn trouxe onze músicas pesadas, que não dão tempo para os ouvintes respirarem. Perdemo-nos em meio a tantos riffs densos de guitarra, seus típicos e marcantes vocais, refrãos expressivos, embora não acessíveis, estruturas muito bem definidas, sem soar confuso. Hughes sabe situar os ouvintes em cada seção de cada música e entrega um conjunto coeso, consistente e bem preciso de ótimas canções como “Heavy”, “My Town” e “Flow”. Vale destacar que essas faixas citadas seguem uma linha mais pesada, mas que não é a única na qual o disco segue.

“When I Fall” é o mais próximo de balada que temos aqui. Com destaque para os violões macios tocados pelo próprio Hughes (que também toca baixo) e o onipresente órgão tocado pelo Lachy Doley. A faixa também apresenta vocais mais aveludados e um preenchimento maior de harmonias. “Long Time Gone” – com bateria do Chad Smith (do Red Hot Chili Peppers) – também parece ser uma balada no início, mas depois desbanca no velho hard rock. “Landmines” vem com uma guitarra que lembra o estilo funkeado de tocar de Richie Kotzen e uma pegada que remete aos trabalhos anteriores de Hughes. No entanto, esse não foi o foco do ex-Purple no resto do álbum. Na maioria das faixas, ele soa mais voltado para o hard rock cadenciado, moderno, cheio de energia e peso. Portanto, baladas e canções mais suingadas são exceções em Resonate.

Esse fator é mais um bom argumento para atestar a qualidade do álbum. Tudo soa bem articulado, unido, apontando para uma direção específica, com competência de sobra.

A banda que acompanha Hughes é excelente: Søren Andersen é o cara das guitarras pesadas que sustentam as canções com os riffs afiados, mas também foi o cara que mixou e deixou tudo precisamente seco – o que favorece o peso. O órgão e teclados são tocados por Lachy Doley e são absurdamente bem colocados no meio das canções, chegando a lembrar o trabalho do mestre Jon Lord no Deep Purple. Repare como o instrumento rouba a cena, mesmo não necessariamente estando na linha de frente das faixas, com arranjos lindos que acrescentam muito ao conjunto. Chad Smith toca bateria na faixa de abertura e na última. Sua performance é boa, não é sensacional, mas não fica devendo em nada comparado com a performance de Pontus Enborg, que assume o kit no resto do álbum.

E o próprio Glenn tocou o baixo, violão, participou da produção e da mix também. Sua performance vocal é sempre ótima. Mesmo sua voz estando mais cansada e limitada, ele se mostra ciente dos limites e indo bem até onde pode. Se for fã das qualidades vocais do cara, fique tranquilo: suas características e seus agudos agressivos estão aqui. Hughes também impressiona no baixo, sabendo colocar o instrumento perfeitamente nos arranjos, com frases bonitas, mas sem abrir mão ou negligenciar o peso grave.

Glenn Hughes nos mostra com seu novo trabalho que ele está longe de nos decepcionar. Seja a carreira solo ou os trabalhos em parceria, como o Black Country Communion, Hughes está em ótima forma na carreira e consegue manter um padrão de excelência admirável em seus discos. Sua ousadia e atitude estão presentes e ele mantém a sua identidade. Seu novo disco também expõe que ele é, sim, um dos destaques daquela geração britânica dos anos 60/70 que permanece relevante até hoje – sem ficar só colhendo frutos da banda famosa da qual foi membro –, mesmo depois de passar por tanta coisa na vida e na carreira.

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Bon Jovi – This House Is Not For Sale (2016)

Sem Richie Sambora pela primeira vez, Bon Jovi segue em frente e cai no indie rock

Por Lucas Scaliza

O hair metal ou hard rock que o Bom Jovi representou nos anos 80 e 90 se foi há bastante tempo. Com a virada do milênio e a volta com o disco Crush (2000) após uma pausa, a banda vem tentando atualizar seu som. Sempre que Jon Bon Jovi, o vocalista e líder do grupo, diz que seu próximo disco vai ser “muito rock’n’roll”, isso sempre quis dizer que seria um pop/rock mais afeito às novas gerações, mais brando e menos… hard rock. Além de o rock dos últimos 13 anos nunca ter chegado ao nível daquele do passado, sempre parecia que a banda estava apostando em algo muito genérico e poucas faixas de cada álbum revelava o real potencial de Bon Jovi, Tico Torres e Richie Sambora.

Se os últimos sete discos da banda trouxeram pouca novidade (incluindo aí o fraco Burning Bridges, lançado em 2015 com sobras de estúdio e apenas para cumprir contrato com gravadora), This House Is Not For Sale surge como um esforço intrigante. O primeiro single e música de abertura, “This House Is Not For Sale”, é o único lembrete de que o Bon Jovi tenta emular o hard rock de outrora. Todas as demais faixas levam o álbum na direção do indie rock. Não é o Bon Jovi que você espera, mas causa mais surpresa do que decepção.

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This House Is Not For Sale é o primeiro disco da banda com o guitarrista Richie Sambora completamente fora da banda (ele saiu em 2013, no meio da turnê Because We Can) e substituído por Phil X, músico que já contribuiu com Orianthi, Avril Lavigne, Halestorm, Apocalyptica, Chris Cornell, Kelly Clarkson, Alice Cooper, Rob Zombie e vários outros. Apesar de ser um grande guitarrista, à altura da tarefa de substituir Sambora ao vivo e fazer todas as partes de guitarra imortalizadas por ele entre 1984 e 1994, Phil X tem poucas chances de mostrar o seu poder de fogo no álbum. Como a direção é mais indie, solos de guitarra são pouco valorizados. Então ele mostra o que sabe criando bases versáteis e interessantes – algo que faltava ao Bon Jovi nos últimos anos – em faixas como “Living With The Ghost”, “Born Again”, “Roller Coaster” e “New Year’s Day”.

É fácil perceber que a direção musical mudou. Você se pega ouvindo a voz de Jon Bon Jovi – uma das mais conhecidas e distintas da história do rock nos últimos 30 anos – em canções que poderiam ser do U2, do Kaiser Chiefs (antes de virarem pop), do The Killers, do Kings Of Leon e até do Mumford & Sons. Fica até parecendo que o álbum foi produzido pelo Markus Dravs. Mas não, o trabalho foi produzido pelo próprio vocalista e por John Shanks, que está com a banda desde Have A Nice Day (2005) e é o guitarrista base ao vivo do Bon Jovi desde então.

Jon não entrega mais os mesmos vocais que antigamente. É natural que, após 30 anos, sua voz não consiga subir tanto quanto antes. Mas isso não faz falta em This House Is Not For Sale, pois o cantor parece estar se divertindo bastante com suas novas músicas e entrega performances excelentes. Porém, tenha em mente que a atualização de som dele aqui é voltada para o indie rock. A interpretação em “The Devil’s In The Temple”, o refrão melodioso de “Roller Coaster”, e a forma como manipula a intensidade em “Labor Of Love” faz desta uma das melhores faixas do álbum.

A versão deluxe tem 17 faixas, o que é um tanto excessivo. Bon Jovi há vários anos não é capaz de fazer um disco em que cada música seja uma entidade por si só e tenha características únicas dentro de um álbum – algo que Lady Gaga recentemente fez muito bem em Joanne – e alonga muito o trabalho só aumenta a impressão de estar reutilizando ideias genéricas. A balada de piano “Real Love” seria o encerramento perfeito. Até ela, a banda conseguiu mandar bem seu recado sem precisar se repetir tanto. As quatro faixas restantes apenas aprofundam a experiência de Bon Jovi em um som diferente, com direito a uma faixa mais oitentista (“I Will Drive You Home”) e outro totalmente U2 (“Goodnight New York”).

A capa de This House Is Not For Sale é uma fotografia de Jerry Uelsmann mostrando uma casa antiga totalmente tomada por grandes e gordas raízes que a sustentam. Jon Bon Jovi disse que ficou inspirado pela fotografia vários anos antes da gravação do novo álbum, chegando a dizer que a foto “contou a nossa história”. Qualquer um que conheça um pouco da discografia da banda sabe que há muito tempo as raízes foram sendo cortadas. O mais recente disco mantém-se no terreno do rock, mas um rock muito diferente daquele que qualquer um reconhece como a grande contribuição da banda para o estilo. Contudo, ao vivo, Bon Jovi sempre confia em um caminhão de sucessos que fazem mais parte dos primeiros 10 anos do grupo do que dos 20 seguintes.

Mais do que em qualquer outro álbum, Jon Bon Jovi seguiu em frente de verdade dessa vez. Não espere a explosão ou a intensidade dramática de “Bed Of Roses”, “Always”, “Wanted Dead Or Alive” ou de qualquer outro clássico que você se lembre. É um trabalho divertido e com composições que funcionam. Mas esqueça as raízes.

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The Winery Dogs – Hot Streak (2015)

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Power trio diversifica e faz um álbum eclético sem perder a veia hard rock

Por Lucas Scaliza

Como qualquer cão que se preze, o The Winery Dogs já chega marcando território com um riff progressivo e acelerado em “Oblivion”, faixa de abertura de Hot Streak, segundo álbum desse power trio com cara de superbanda. Richie Kotzen nos vocais e na guitarra, Billy Sheehan (Steve Vai, David Lee Roth, Mr. Big) no baixo e o grande Mike Portnoy (ex-Dream Theater) na bateria.

Embora a faixa de abertura tenha seus momentos mais progressivos, Hot Streak é muito mais eclético e muito menos prog do que o primeiro, The Winery Dogs (2013). O ecletismo, contudo, sempre colocado num contexto de hard rock.

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“Captain Love”, “Devil You Know”, a balada “Think It Over” e a excelente “Empire” são faixas quase oitentistas em todos os seus elementos. Músicas simples, com bom andamento e diretas (com exceção dos solos de “Devil You Know”, momento bastante prog do álbum). “Hot Streak” flerta com o soul, mostrando suingue de todo o grupo aliado à velocidade dos riffs e solos de Kotzen. “How Long” é uma faixa conduzida especialmente pelo baixo de Billy Sheehan.

“Ghost Town” e “Spiral” são duas das melhores surpresas do disco e exemplos de modernidade. Mesmo quando visitam os anos 70 e 80, a banda sabe manter seus timbres bem modernos. “Ghost Town”, com base acelerada e voz e guitarra mais flutuantes, consegue um efeito etéreo muito interessante, lembrando algumas faixas de Joe Satriani. Já “Spiral” é quase um synthpop, a faixa mais diferente que a banda produziu até aqui. “The Bridge” é outra em que a banda se encontra com maestria: é um hard rock, ninguém duvida, mas bastante calcada no soul. A balada “Fire” caberia muito bem no último disco solo de Kotzen, Cannibals, talvez até melhor do que em Hot Streak.

Embora não tenha músicas que sejam especialmente marcantes, não há faixas ruins no disco. De vícios precoces do grupo, vistos tanto no primeiro quanto neste segundo trabalho, estão os solos um pouco ansiosos de Kotzen. Se na carreira solo o cantor sabe diversificar bem seu som e suas técnicas, no The Winery Dogs sobressai sua veia velocista das seis cordas. Em faixas como “Oblivion” a velocidade é um recurso que cai bem, mas em tantas outras poderia ter uma abordagem diferente, como a que escolhe para “Empire”, por exemplo. Contudo, ele acerta a mão na maior parte do tempo.

Portnoy, que poderia tender para o exagero, veste a camisa do hard rock e segura muito bem a onda na maior parte das faixas, deixando para se soltar apenas quando necessário. As linhas de bateria espaçadas, tão comuns em seus trabalhos com Neal Morse, Transatlantic e Flying Colors, dão lugar a uma forma mais convencional de encarar o instrumento (mas isso não quer dizer que ele não saiba encaixar sua assinatura musical, sobretudo nos momentos de maior dinâmica, como nos solos de “The Bridge” e “War Machine”).

O lado mais progressivo da banda volta a dar as caras em “The Lamb”, a faixa final. Após uma introdução bastante soul, caem em versos de polirritmos e, em seguida, em um refrão bastante acessível. Um exemplo de como a banda está mesclando bem suas referências na mesma composição, conseguindo dar uma cara bastante própria ao The Winery Dogs.

Se o primeiro disco apresentou uma banda de rock com três supermúsicos para quem curtia rock, dessa vez a banda leva seu som até quem está interessado em música em um contexto maior. Hot Streak é rock and roll como o Guns N’ Roses no início dos anos 90: músicas com ótimas sacadas, bastante diversificadas e com várias influências, mas sem perder de vista o foco roqueiro da banda. Essa miríade de influências ajuda a mostrar um lado mais aberto de todos os músicos. A variedade de Kotzen já era bem conhecida, mas Sheehan e Portnoy surpreendem, colocando para fora nuances que seus projetos até agora podem ter suprimido. A energia de sempre, mas agora com uma amplitude musical bem maior.

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The Darkness – Last Of Our Kind (2015)

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Diversão glam e menos autoparódia

Por Lucas Scaliza

Faz mais de 10 anos que o The Darkness teve seu momento de superfama. Lembro que entre o estrondo causado por Permission To Land (2003) e One Way Tickett To Hell… And Back (2005). Foi um pequeno momento em que a mídia musical estrangeira, sobretudo a inglesa, só falava do The Darkness. O hard rock farofa ressuscitado pelo grupo conquistou até o ex-Primeiro Ministro britânico Tony Blair, que revelou ouvir e curtir a banda.

Mas tão rápido quanto ascenderam às paradas de sucesso, o The Darkness simplesmente saiu de cena. Levou sete anos até que a banda voltasse a lançar material inédito com Hot Cake (2012), mas o disco pareceu um retrocesso. Antes mesmo de lançarem o primeiro trabalho, o grupo era conhecido pelos ótimos shows. Apesar de toda a exaltação do hard rock brega de Los Angeles e datado dos anos 80, havia qualidade musical. Hot Cake, contudo, parecia uma autoparódia deles mesmos, no mesmo esquema do Massacration aqui no Brasil. Músicas que pareciam covers de lados B de bandas que ficaram com um som estereotipado pela estética do hard rock/glam rock oitentista. Pior ainda foi perceber que talvez a melhor faixa daquele disco era a versão farofa de “Street Spirit”, que era de fato um cover – e do Radiohead ainda por cima.

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Mas os irmãos Hawkins, compositores do grupo, conseguiram dar a volta por cima. O recém-lançado Last Of Our Kind é ótimo. Continuam comprometidos com o farofice de 30 anos atrás, cabeludos e usando roupas bregas à Steel Panther, mas não soam mais como paródias. A brincadeira é séria e o novo disco exibe elevada qualidade musical e consciência dos clichês da época. Se em Hot Cake as canções eram todas retilíneas e previsíveis, muito baseadas em sequências de acordes apenas, dessa vez há um pouco mais de peso, de riffs e variedade, sem perder o principal elemento da banda: a diversão.

A sonoridade percorre desde o estilo do Mötley Crüe dos anos 80 até o Bom Jovi até 1994, passando por Journey e Skid Row. Há riffs musculosos em “Barbarian” e o poder de fogo de “Roaring Waters”, em que o guitarrista Dan Hawkins finalmente mostra a que veio, fazendo ótimos riffs e conduzindo a faixa por diferentes partes. Mais do que reinterpretar o hard rock, Dan praticamente mostra em “Roaring Waters” como havia boas ideias no estilo. Sua execução, mesmo nos solos mais afetados, é sempre límpida e ouvimos todas as notas, sem embromação, como fica claro nos arranjos da animada “Open Fire”, que é praticamente uma celebração do estilo (e não por acaso, primeiro single para as rádios).

“Mighty Wings” começa com uma daquelas orquestrações feita por teclados, como se a nave da Xuxa fosse pousar em sua cozinha numa tarde de domingo. Brega? Espere e veja o que se segue: mais riffs grandiosos e ataque poderosos do baixista Frank Poullain. Mais uma faixa que souberam lapidar para que ficasse totalmente dentro da proposta do The Darkness e ainda tivesse algo mais para mostrar ao público de hoje. Já “Hammer & Tongs” é uma praia mais blues e “Last Of Our Kind” parece um daqueles hinos prontos para virar trilha sonora. Ambas utilizam os clichês do gênero. “Wheels of The Machine” é a música menos histriônica do disco e consegue embalar com seus acordes leves. “Conquerors” segue o mesmo modelo, colocando o violão como instrumento fundamental da balada, mas faz um refrão maior para fechar o trabalho em grande estilo.

Um dos diferencias de Last Of Our Kind é a diminuição de falsetes do vocalista Justin Hawkins. Ele é muito bom nessa técnica, mas dentro do rock não há como não remeter a algo extremamente farofa e brega. Ainda há bastante voz aguda no disco (caso você goste), mas está sendo usada com um maior senso de equilíbrio, diferente do que aconteceu com Hot Cake. “Mudslide” é a composição em que Justin mais utiliza o recurso vocal e, embora possa ser irritante para quem já não tem mais estômago para isso, a faixa ganha com a extrema diversão que proporciona. E o que dizer de “Sarah O’Sarah”, uma faixa mais leve, em que os anos 80 estão presentes desde o riff inicial até os timbres de guitarra usados.

No anos 80 havia uma tendência que levava todas as bandas de rock e hard rock a compor um número significativo de músicas românticas, dado a quantidade de mulheres que se tornavam parte do público dessas bandas, ao acréscimo de sex appeal que aqueles marmanjos conseguiam tocando essas baladas e a própria aceitação desse tipo de composição na MTV, fazendo com que Bon Jovi, Whitesnake, Journey e uma série de outras bandas ficassem conhecidas por um público mais amplo. Mais comprometidos com a diversão do que com essas pressões de mercado, Last Of Our Kind consegue ser mais direto e rock’n’roll mesmo em suas baladas e escapam de um melodrama do tipo de “Carrie” do Europe ou “Is This Love” do Whitsnake. Não acho isso que tenha a ver com maturidade, mas sim com foco em boas composições.

O álbum foi escrito na Irlanda e depois levado para gravação e finalização no estúdio Leeders Farm, na Inglaterra, propriedade do guitarrista Dan Hawkins. As baterias foram gravadas por Emily Dolan Davies, já que Ed Graham deixou o grupo após a turnê de Hot Cake. Contudo, a inglesa já deixou o The Darkness também e a banda deverá entrar em turnê com Darby Todd, que já substituiu Graham ao vivo em 2012.

Após uma volta fraca e calcada no clichê puro, o The Darkness mostra que os anos 80 ainda podem render boas festas, boas bebedeiras, bons romances e bom saudosismo, principalmente quando a banda leva a sério a arte de criar música, mesmo que tenha um quê de zoeira e de gracinha.

The Darkness - Press session 2015

The Darkness – Press session 2015