hip hop

Snoop Dogg – Neva Left (2017)

O grande Snoop ressalta que nunca deixou de fazer hip hop

Por Gabriel Sacramento

Em seu terceiro disco em três anos, Snoop Dogg trouxe uma proposta diferente, de novo. Mas calma, não é como o John Mayer, que não sabe o que quer. Dogg sabe bem o que faz e o que põe em sua música, tudo se conecta com precisão. Se no Bush ele experimentou com funk e disco e no Coolaid reafirmou o quão lendária é e sua importância para a indústria, indo fundo no hip hop mais tradicional, em Neva Left Dogg mistura os delírios dos anos 90 com outros momentos da sua carreira. Como ele mesmo afirmou em uma entrevista, o objetivo do novo disco é unir tudo que ele já fez.

Podemos dizer que Bush mostrou que Dogg não permaneceu totalmente indiferente à veia mais diferenciada do hip hop que está bombando por aí (essa que mixa o estilo com funk, disco, jazz e tudo mais). Mas o do ano passado e esse, mostram que o rapper sabe bem de onde veio e curte valorizar isso também. Especialmente em Neva Left, no qual o lance é resgatar mesmo a vibe dos subúrbios americanos dos anos 90. Tudo isso mostra que o hip hop atual pode sim ser multivalorado e se adequar à diversas situações, sempre funcionando como uma boa válvula de escape diante da, eventualmente opressora, vida cotidiana.

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Como não lembrar do icônico Notorious Big ouvindo “Mount Kushmore”? A faixa traz três rappers, o que lembra também os velhos tempos em que os MCs faziam aquelas batalhas nos shows. A faixa-título possui aquela linha melódica quase hipnótica que fica se repetindo ao fundo, lembrando tempos antigos também. O sintetizador de “Moment I Feared” – uma das melhores do álbum – remete ao também forte sintetizador de “Who Am I (What’s My Name)?” do primeiro álbum. Mas não é só essa. Em várias faixas predomina a ideia de misturar uma linha de baixo forte ao fundo e o rap na frente, como nos primórdios, quando os raps nasciam de samples com linhas de baixo expressivas.

Mas como eu disse antes, não é só de nostalgia que vive Snoop Dogg. Então temos também trap (“Trash Bags”), canções que possuem uma abordagem mais orgânica e modernosa (“420 (Blaze Up” e “Love Around The World”), outras com toques de R&B e funk (“Go On”). Temos ainda um remix da faixa “Lavender” do BadBadNotGood, com a voz do Snoop sobreposta. Colocar a música foi uma decisão bem acertada, principalmente porque Dogg queria justamente captar o espírito do hip hop moderno e o BadBadNotGood representa bem isso.

Fugindo da nostalgia mais ingênua, que visa escapar da realidade atual e refugiar-se no passado, Dogg trouxe um produto inteligente articulado e elaborado, que visa e alcança o objetivo de nos fazer pensar toda a sua carreira e as nuances que explorou ao longo dela em 1 hora de audição. Ou seja, ele usa a nostalgia como um meio e não como um fim. Algumas coisas podem soar realmente datadas, mas no conjunto temos a impressão de ouvir algo que transcende a noção temporal.

Percebemos também que as letras de Dogg representam um manifesto. O rapper quis responder aos que o criticam, deixando claro que nunca deixou o rap e que ainda está no jogo. A faixa título, por exemplo, começa com uma frase dizendo “E aí, Snoop, as ruas estão dizendo que você não é mais o mesmo”. Já “Still Here” começa com um diálogo entre um garotinho e Kendrick Lamar, no qual o garoto pergunta se ele conferiu o novo disco do Dogg e diz “Snoop está de volta”. Kendrick, por sua vez, responde: “Aí é que você está errado, pois o grande Snoop nunca saiu”.

Nos aspectos modernosos, Snoop não teve nenhuma pretensão de soar como um Kendrick Lamar ou como um Oddisee. Mas o rapper consegue, como poucos, pegar um pouco do que está rolando e incorporar em seu trabalho old school, reforçando os aspectos do hip hop de antigamente, nos fazendo perceber como o gênero evoluiu. Além de divertido, Neva Left pode ser uma boa aula, afinal.

Segundo uma entrevista recente, Dogg afirma que teve total liberdade criativa e trabalhou sem pressão para lançar Neva Left. Foi um trabalho direto do seu coração. Um grande presente para os seus fãs e admiradores que o acompanham, para provar que acima de tudo, ele continua prolífico e mantendo a qualidade em seus lançamentos. Pegue a sua jaqueta, ponha uma corrente e um boné e se divirta.

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Escuta Essa 27 – DAMN. A Nova Profecia de Kendrick Lamar

DAMN. Kendrick Lamar lançou mais um grande álbum e reunimos uma gangue para discutir as faixas, as teorias por trás do disco e a importância desse rapper americano para o hip hop atualmente. Lucas Scaliza, Brunochair e Gabriel Sacramento recebem o reforço de Eduardo Santana (Howlin’ Records, Levante Negro), Thais Ribeiro (Zona Suburbana) e Igor França (Genius Brasil) em um episódio inteirinho dedicado à Kendrick Lamar.
É diversão e informação na certa. Coloque seus fones e cante com a gente: “I got, I got, I got, I got…”

Vídeo: College kids react to “Humble”:

http://www.youtube.com/watch?v=B3X-0vC2TZ8

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Oddisee – The Iceberg (2017)

Mais um grande disco de hip-hop fora dos estereótipos do estilo

Por Gabriel Sacramento

Na resenha de RTJ 3, do duo Run The Jewels, você leu que o hip hop tem sido palco de muitas manifestações de pensamento de forma incisiva e contundente. Mais até do que o rock e, acrescento agora também o R&B, que também tem revelado artistas que não tem medo de falar e de tocar na ferida da sociedade. Mesmo que ainda tenhamos muitos músicos acomodados em suas fórmulas para fazer sucesso, muitos outros têm mostrado indignação com questões sociais e políticas.

Esse é um dos fatores mais interessantes acerca do rapper Amir Mohamed el Khalifa, conhecido como Oddisee. Muçulmano, morando nos Estados Unidos, mas de família sudanesa, o jovem tem muito a dizer e não se esconde: com seu flow ágil, encaixa rimas com significado, levando os ouvintes à reflexão acerca do cenário social do seu país. E o melhor: tudo isso do seu ponto de vista. O outro fator que chama a atenção é o fato de ele prezar por uma forma de hip hop analógica, unindo jazz, R&B, soul e outros estilos. Dá para perceber a dinâmica causada pela mão dos músicos tocando seus instrumentos.

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“Digging Deep” abre com um groove certeiro, uma performance enérgica de bateria, teclado ao fundo e o rap típico do Oddisee. “Things” segue na mesma linha, com um refrão bem interessante também e bem R&B. A faixa traz uma ótima reflexão acerca da nossa capacidade de individualizar nossas experiências como se fôssemos os únicos a enfrentar situações difíceis. Nas palavras do próprio rapper: “é sobre como nós nos colocamos no centro do universo e damos importância somente ao que nos interessa”. Em “Hold it Back”, o rapper toca na questão da diferença de salários entre homens e mulheres e ironiza a constante luta em “NNGE”, dizendo: “O que temer, eu sou da América negra, é só mais um ano”.

Já em “Like Really”, ele questiona: “Porque um irmão pega três anos por drogas, enquanto seu irmão sai impune por estuprar?”. O objetivo do rapper não é fazer apologia às drogas, mas sim questionar duramente a ineficiência jurídica. Mas ele também cutuca Trump: “Como você vai nos fazer grandes de novo se nunca fomos tão bons?”. “Want To Be” é dançante e com um refrão direto: “Eu só quero ser feliz, só quero ser livre, só quero ficar em paz”. Em “Rain Dance”, ele fala sobre ser um artista, um homem casado e até demonstra alguma positividade, falando sobre nuvens escuras que apenas anunciam a chuva e trazem crescimento às sementes – o que é algo bom, no final das contas.

Quando perguntado sobre suas influências, percebemos que Oddisee realmente é um artista diferenciado. Ele respondeu que curte grupos como De La Soul e A Tribe Called Quest, que não falam sobre drogas e assassinatos e por isso ele se relaciona melhor com suas letras. Mas vemos que a influência não é somente quanto às letras, mas quanto à musicalidade também, com a união do hip hop com outros estilos como o jazz. A banda que acompanha o Oddisee faz o rap ser tão bem ambientado sobre as bases jazzísticas quanto o BadBadNotGood emula um bom hip hop old school.

Fazer hip hop inteligente, tanto musical quanto liricamente, é o objetivo deste talentoso músico. Suas raízes e lutas pela vida no país onde vive o inspiram e o fazem querer ir além e fazer algo que realmente impressione. Suas letras são duras, críticas diretas, mostrando que ele realmente está comprometido com o desejo de mudança, não se conformando com as coisas do jeito que estão. Em The Iceberg, ele acerta a mão mais uma vez, continuando o bom trabalho que vem desenvolvendo em sua carreira há anos.

Se rappers como Rick Ross continuam com a temática gangsta durante tanto tempo, Oddisee mostra que é possível pensar em ramificações. O rapper e os outros grupos já citados são fundamentais para nos fazer entender que o gênero vai muito além de beats, samples e papo sobre drogas e sexo. Pode ser aberto à experimentações musicais, ferramenta de crítica social, expressão de pensamento e até voz de uma iminente revolução.

The Iceberg é isso. O disco é excelente, mas ainda assim só a ponta do iceberg que é a discografia de Oddisee. Recomendo que conheça seus outros trabalhos também. Ouça, leia as letras e reflita.

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Drake – More Life (2017)

Drake nos prova que pode ir além do comum em More Life

Por Gabriel Sacramento

Depois de lançar seu VIEWS em 2016, Drake está de volta com mais um projeto. Dessa vez, o rapper que costuma intercalar álbuns e mixtapes, lançou uma seleção de 22 faixas que ele chamou de playlist. A compilação é apenas três músicas mais longa que o álbum de 2016, mas traz uma atitude bem mais ousada que poderá ser definitivo para que este seja considerado um de seus melhores trabalhos.

Se VIEWS pecou na quantidade de faixas e na monotonia, essa nova playlist mostra que o músico aprendeu com seus erros e resolveu fazer algo que fizesse mais sentido. More Life é extenso, mas possui uma série de referências que fizeram o rapper ir além da sua zona de conforto e expandir seu escopo. Dentre todas as influências, podemos citar dancehall, afrobeat e um pouco do hip hop britânico, conhecido como grime.

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Como é de costume, temos um número infindável de cooperações, mas vamos citar alguns: Young Thug, Kanye West, PartyNext Door e Travis Scott. Como é uma playlist, o número de participações faz bastante sentido e Drake abre espaço para que seus convidados deixem suas marcas, tornando o resultado bem mais amplo e musicalmente rico. Por exemplo, a participação do rapper britânico Giggs em duas faixas foi definitiva para trazer um pouco mais do UK Garage. Já o talentoso Sampha ganhou uma faixa só pra ele: “4422”, na qual ele canta muito bem, do seu jeito sensível e emocional, fazendo desta uma das faixas mais especiais do projeto. Kanye West também trouxe um pouco de si em “Glow”, dividindo os vocais com Drake. “Get It Together” ganhou contornos dançantes e uma influência de música africana por conta da participação do DJ sul africano Black Coffee. Além das participações, temos também um Drake muito esforçado, cantando, fazendo rap, dando o seu melhor, mantendo sua identidade e lidando com as diversas influências trazidas pelos convidados.

E além das influências multiculturais, temos também faixas marcantes pelo próprio estilo de Drake. “Blem”, “Sacrifices” e “Can’t Have Everything” são exemplos de canções que possuem a assinatura dele e funcionam bem, com versos grudentos, mas não descartáveis. Diferentemente de VIEWS, o rapper investiu em melodias de melhor qualidade e, junto com seu time de produtores, fugiu da mesmice em More Life.

Drake acerta justamente por abraçar a ideia de diversificar, acrescentando poder de fogo à discografia do canadense e deixando claro quão grande é seu potencial. Aliás, nos primeiros trabalhos isso era notável – quando surgiu sendo apontado como um dos destaques do novo R&B -, mas foi mudando com o tempo. More Life faz questão de noas jogar isso na cara novamente.

Talvez essa playlist não seja tão boa para apresentar o Drake a novos ouvintes, e essa não foi sua intenção. Para quem já o conhecia, fica mais fácil de entender o que ele quis fazer e qual a necessidade de um álbum como esse em sua discografia. Em suma, você pode entender More Life como uma boa playlist, mas não uma qualquer. É algo que anuncia que ele pode ir além do que já virou comum.

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Rick Ross – Rather You Than Me (2017)

Esse álbum não fará de Rick  Motherf***ing Ross uma lenda

Por Gabriel Sacramento

Da capa do álbum, onde ele aparece com uma coroa a lá Notorious Big, às letras e atitude de “Big Boss”, Rick Ross não esconde a grandiosa pretensão que tem e o desejo de se tornar uma lenda bilionária dentro do cenário do hip hop americano. Status alcançado por gente que já está na estrada faz um tempo, como o Snoop Dogg, e que parece ser o ideal para essa nova geração de rappers novos. Dinheiro para ele não é problema, resta alcançar o outro título, o de lenda. E ainda falta muito chão.

Anos depois do surgimento, o cara conseguiu um status de chefão do hip hop, com quatro indicações para Grammys, milhões de audições nos serviços de streaming e uma base forte e fiel de fãs. Fãs que aguardaram ansiosamente desde Black Market (2015), o último lançamento do cara. Basicamente, o disco anterior possui uma regularidade incrível em se tratando de hip hop, seguindo as regras do gênero e com uma infinidade de participações que não cooperaram para tirar o artista da bolha criativa que o restringiu e o limitou ao padrão.

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Ouvindo este Rather You Than Me, não percebemos nenhuma vontade de mudar. Ele se esforça para trazer as mesmíssimas batidas, seu típico flow e muitíssimas participações como sempre. A diferença é que em Rather You Than Me, essas participações exercem um peso maior do que em Black Market. Seja Raphael Saadiq cantando boa parte de “Apple of My Eye”, com seu ótimo e aveludado timbre, dando um toque R&B preciso à faixa, ou Chris Rock no início de “Powers That Be”, usando seu sotaque de negro inglês pra dizer: “O senhor é minha testemunha, não há um MC como Rick Motherf***ing Ross… Quando um mano diz ‘o senhor é minha testemunha’, ele diz a verdade!”. Assim, vemos que o time de apoio dessa vez cooperou um pouco mais para tornar este álbum mais memorável que o anterior. Aliás, no caso de Chris Rock, ele só precisa de alguns segundos para nos arrancar boas risadas, seja pelo seu sotaque ou pelo seu jeito de falar.

O rapper Nas, que colaborou na melhor faixa de Black Market, aparece de novo na já citada “Powers That Be”, contrapondo-se bem ao timbre de voz e ao flow de Ross. “Trap Trap Trap” é uma das mais legais, com Rick praticamente cuspindo as palavras e versos marcantes. Traz Young Thug e Wale como participações. “Dead Presidents”, outra das mais interessantes, possui participação dos rappers Future, Jeezy e Yo Gotti. É quase uma jam de hip hop, em que vários músicos sobem ao palco para contribuir com uma parte. “Game Based on Sympathy” traz um frescor de música analógica ao álbum, com alguns instrumentos que parecem ter sido tocados na mão mesmo.

Quando se referia ao álbum, Ross diz que não seria mais um projeto, mas sim “um produto de perseverança e determinação”. Porém, minha conclusão é que se trata sim de mais um projeto, mais um disco para prateleira, cheio de pretensão, mas que esbarra na limitante falta de ousadia. O rapper, que já está na música há mais de dez anos, continua seguindo bem as regras, mesmo que transmita uma imagem de transgressor. A válvula de escape da mesmice acaba sendo as participações especiais, que são interessantes e bem colocadas.

Álbuns como Rather You Than Me não são suficientes para tornar Ross uma estrela absoluta do hip hop americano. Principalmente porque tem muita gente concorrendo. Uma coisa é certa: o rapper pode não ser uma lenda, mas tem feito o seu nome com seus lançamentos. Só que, carecendo de ousadia e imaginação, apenas mantêm o seu nome exatamente onde está.

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Run The Jewels – RTJ 3 (2017)

Dupla faz manifesto em forma de rap e trilha incendiária da revolta dentro de nós

Por Lucas Scaliza

Quando penso que o rock perdeu muito de sua relevância e impacto social, penso logo em Run The Jewels. Embora o rock tenha perdido seu posto contestador e espaço radiofônico e midiático para o rap e o hip hop muito anos antes do surgimento de RTJ 1, foram Killer Mike e El-P que conseguiram elevar o rap, como o Public Enemy havia feito anteriormente, e mostrar que a black music pode e deve sim ser música de protesto, não apenas para dançar, para curtir ou usar palavrões como entretenimento vão. Com três discos, todos dedicados ao melhor do rap, o Run The Jewels mostra que letras autobiográficas, palavrões e versos cuspidos sobre bases eletrônicas têm um papel de resistência social, artística e política.

Com um efeito quase hipnótico, RTJ 3 é um tour de force que interliga uma faixa na outra e mantém você ligado e instigado do começo ao fim. Se o Rage Against The Machine conseguia fazer isso aliando o hip hop ao som roqueiro da banda, o Run The Jewels o faz simplesmente com um rap ritmado, moderno, sem frescuras, e que é forte o suficiente para mostrar seu lado roqueiro. Não estamos diante de um álbum para dançar, afinal. É agressivo sem perder o balanço e sem faltar rima.

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Diferente do rap mais popular que entope as paradas musicais por aí, onde o rap é mais um artifício do que o protagonista de uma faixa, Killer Mike e El-P rapeiam por todo o RTJ 3, com verve, angústia e fúria. As raras aparições de vocais melódicos – como na excelente dobradinha “Thieves! (Screamed The Ghost)” e “2100” – ajudam a dar ritmo e cadência à canção, não roubando o espaço do rap. Também não deixaram de incluir o peso pesado dos saxofones Kamasi Washington, que faz a diferença na incrível “Thursday In The Danger Room”, uma das faixas mais interessantes que a dupla já gravou, chegando até ao apoteótico final com a pesada e incrivelmente bem produzida “A Report To The Shareholders: Kill Your Masters”, em que dão uma da Khaleesi do gueto americano e mandam a mensagem sem rodeios, primeiro se preocupando com a harmonia e depois, na metade final, investindo tudo em ritmo e textura.

Era para RTJ 3 ser lançado apenas em 13 de janeiro, mas acabou sendo colocado para download gratuito no final de 2016, um dia antes do Natal. Killer Mike e El-P se posicionaram totalmente contrários à candidatura de Donald Trump e inclusive lançaram o primeiro single do disco, a raivosa “Talk To Me”, nas últimas semanas da corrida presencial americana, na esperança de uma reação do eleitorado. Um dia após a vitória do milionário dos hotéis, Killer Mike estava em um programa matinal dos EUA tentando explicar em parte porque Trump foi eleito. RTJ 3 não é um disco anti-Trump por si só. Não poderia ser. Mas Trump – ou o populismo de Trump e a onda conservadora que ele representa – faz parte do ideário que norteia os versos.

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Como nos registros anteriores da dupla, este álbum não usa metáforas engraçadinhas ou palavrões para adolescentes repetirem ao léu em redes sociais. Seja como Kendrick Lamar em To Pimp a Butterfly, Beyoncé em Lemonade ou PJ Harvey em The Hope Six Demolition Project, as palavras têm peso e, enquanto produto de entretenimento, o álbum parte de canções que pretendem causar alguma mudança em quem as ouve tanto quanto divertir esse mesmo público. Durante todos os 51 minutos de música de Run The Jewels 3, um grande chamado às armas, ao não-conformismo, ar de denúncia, de raiva, e a intenção de inflamar as massas contra o que está aí, e isso explica o ritmo constante e empolgante com que cada faixa é conduzida.

O disco mais poderoso de Killer Mike e El-P continua a ser RTJ 2. Chegou na hora certa, conseguiu a atenção que merecia e foi um tiro de bazuca certeiro na cara da sociedade e do rap e hip hop mais brando em geral. Engraçado pensar que após Yeezus e seu “Black Skinhead”, e depois da carga dramática que Lamar e Run The Jewels apresentaram, Kanye West tenha se restringido ao seu gossip rap de The Life Of Pablo. RTJ 3 não consegue ser mais bombástico que o anterior, embora seja tão poderoso quanto, mas supera o segundo ato em produção.

A trilogia se encerra, mas a quantidade de previsões, análises e denúncias de RTJ 3 deixa claro que a dupla terá muito combustível para queimar enquanto olharem para a sociedade e, com empatia, conseguirem transformar em versos a opressão, a humilhação e a injustiça de seu país e do mundo. Desde a era George Bush filho, Killer Mike e El-P se indignam com os rumos dos EUA. E não pararam de se indignar durante os anos Obama. Com Trump na Casa Branca, Run The Jewels será a trilha sonora não (só) da oposição, mas da revolta que há ou poderá haver dentro de cada um de nós.

 

John Legend – Darkness And Light (2016)

Novo disco evidencia a evolução do cantor

Por Gabriel Sacramento

Depois do mega sucesso de “All of Me”, que desbancou até o hit “Happy” do Pharrel Williams nas paradas em 2013, John Legend parece ter gostado da fórmula que experimentou no álbum e na faixa, resolvendo entregar mais um trabalho que segue as mesmas ideias. Três anos depois de Love in The Future, ele lança Darkness And Light, que também é mais coeso e tem menos faixas.

O R&B de Legend sempre foi marcado por um resgate interessante da soul music do passado, misturado a elementos de hip-hop também. O cantor sempre variou entre o R&B mais tradicional e o neo soul. Mas em Love In The Future ele buscou aprofundar seu som, trazendo mais dinâmica e um pouco mais de gospel – uma influência bem notável que faz ele soar como Kirk Franklin e Fred Hammond algumas vezes.

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Além desse quê gospel, Legend também trazia um minimalismo caracterizado pela predominância do piano nas canções e poucos elementos eletrônicos. Ele se diferencia dos cantores R&B justamente por trazer menos harmonias vocais, como a galera dos anos 90, e não se valer de excessos eletrônicos, como os artistas R&B atuais. Estes foram alguns dos principais fatores de destaque no disco anterior que ele conseguiu preservar muito bem em Darkness And Light.

Legend chegou a dizer que este seria o seu melhor trabalho até agora. Acerca do título, o produtor Blake Mills disse: “É um manifesto que vai contra o comum, nos lembrando que embora a escuridão seja prevalente, é a luz que nos levará adiante”. Para este novo trabalho, ele contou com vários produtores, mas principalmente com o já citado Blake Mills – o mesmo que produziu o Alabama Shakes no seu magnum opus Sound & Color (2015).

A faixa-título apresenta, inclusive, uma parceria com a fantástica Brittany Howard, do AS, e possui uma sonoridade meio retrô cheia de pausas que explode em um refrão gritado que lembra muito Sound & Color. A voz de Legend vai dos falsetes aveludados aos gritos fortes que combinam com a faixa. As duas vozes se encaixam bem e a canção não soa tão extravagante como soaria no álbum do Alabam Shakes, mas soa como uma boa releitura do estilo. Outra das participações é a de Chance The Rapper em “Penthouse Floor”, que traz backing-vocals típicos do gospel, uma interpretação bem sensível da parte do vocalista e uma ótima parte de rap feita pelo convidado. Aliás, mesclar gospel, soul e hip-hop é algo que o Legend sabe fazer como poucos.

O cantor recentemente se tornou pai e também se mostra apaixonado por sua filha, Luna, dedicando duas canções a ela: “Right By You (For Luna)” e “Love me Now”. A primeira traz desdobramentos harmônicos e melódicos tão sofisticados – e incomuns no pop mais acessível – que faz o ouvinte se perder entre a melodia belíssima e a qualidade do instrumental. É a melhor faixa do álbum. A segunda, por sua vez, é mais ritmada e possui elementos que me lembram essa nova – e terrível – fase do Maroon 5. Não chega a ser ruim, mas é uma canção mais fácil, feita para ser single.

John Legend continua bem orgânico e não se rende aos modernismos eletrônicos o tempo todo. A única faixa que vai fundo no eletrônico, ainda que com muito cuidado, é “What You Do To Me”. No geral, sua preocupação está em fazer um pop/R&B bem elaborado, mas que soe acessível, extremamente melódico e tranquilo de ouvir. Em alguns momentos, podemos dizer que as melodias e os caminhos que Legend trilha são um tanto previsíveis, como em “How Can I Blame You”, mas isso é feito com classe, o que torna as canções especiais e lindas mesmo assim.

A produção do Mills acertou muito no sentido de tirar o melhor do artista. Legend soa sincero e continua cantando muito bem, com instrumentais que servem à sua voz perfeitamente. Por ser mais maduro, mais conciso e aprofundar ainda mais seu estilo, muito influenciado pelo gospel, pode ser considerado de fato o seu melhor trabalho e mais uma prova de que John Legend está em uma evolução constante e muito interessante.

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