indie

Fastball – Step Into Light (2017)

Disco resgata os anos 90 como se fosse um seriado daquela década

Por Eder Albergoni

Você pensava que os anos 90 estavam enterrados e que algumas de suas bandas também? Pois bem, não é bem assim. Depois de oito anos, o Fastball lança um novo disco e, com ele, traz um bocado do gostinho noventista. Muito embora soe apenas como mais uma banda limitada, encrustada na reviravolta indie nos anos 2000, Step Into Light revive uma década rica em descobrimentos e potenciais épicos que nunca se comprovaram e menos ainda se adaptaram aos novos dias.

O disco começa com “We’re On Our Way” instigando com um riff mais stoner, logo desmentido pelo tom noventista já citado. O pop de guitarras comanda, ouvimos palminhas nos solos, o refrão é chicletinho e um sintetizador anuncia a festa em que o disco se meteu.

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“Best Friend” é o ponche batizado enquanto na piscina a paquerinha dá seus mergulhos provocantes, o sol ilumina o cenário como uma série adolescente, a trilha sonora nos arranca da perspectiva e servimos de argumento pro roteiro. Se você esteve lá nos 90’s de alguma forma, vai perceber. Se não, resta imaginar.

“Behind the Sun” parece deslocada, fora da ordem natural que a banda já estabeleceu. Mas apesar disso, é só angústia, como seria tristeza se fosse a Legião Urbana. A baladinha no violão, emulando momentos mais tensos e até experimentais de bandas contemporâneas, simplesmente baixa a pulsação do disco, que depois segue o caminho original com “I Will Never Let You Down” e “Love Comes in Waves”.

“Step Into Light” é mais séria e mais folk. A harmonia das vozes é um destaque bastante positivo. “Just Another Dream” é o sonho pop do sucesso e do single que explode na rádio. É a que mais se aproxima da grande música feita pela banda. É possível visualizá-la como parte da coletânea As Mais Mais da Pan lançada junto com a revista mensal da rádio. “Tanzania” é instrumental e ressuscita a vertente surfer dos anos 90, muito característica de Tom Scalzo, nascido em Honolulu no Havaí.

A parte final de Step Into Light fica enfraquecida igual uma festa que acaba cedo. Ainda que caiba destaque pra “Lilian Gish” e “Frenchy and the Punk”, que encerram o episódio da tal série adolescente com um cliffhanger sobre um futuro não muito distante, onde as coisas mais legais daquela época vão ficando ultrapassadas e bregas.

É possível reconhecer a influência de outras bandas conforme o disco toca, quase como um pedaço arrancado de lá e refeito aqui pra ganhar uma cara mais atual. No fim, esse é o tchan do Fastball. Os anos 90 é um traço marcante demais pra ser deixado pra trás e, na falta de coragem de outros, o Fastball mantém o espírito vivo.

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Strand Of Oaks – Hard Love (2017)

O carisma do indie, o combustível do hard rock clássico e influência de LSD

Por Lucas Scaliza

Um pouco de folk rock nas levadas. Mas soam como hard rock, porque ele usa guitarras com uma boa dose de distorção e fuzz. E mesmo sendo o bom e velho rock’n’roll de sempre, há algo de moderno no som. Não chega a assustar, mas pode incomodar. Hard Love, do Strand Of Oaks, o quinto disco composto pelo músico Timothy Showalter, é definitivamente um registro que não pode passar desapercebido.

“Hard Love”, que introduz o álbum, bebe na fonte de Ryan Adams e não mostra a sonzeira que vem a seguir. “Radio Kids” e “Everything” resumem o que ele é capaz de fazer. Você não vai perceber nada de muito diferente de outras canções de rock que ouviu nos últimos 10 anos, principalmente se deu uma boa rodada entre o que há de indie e psicodélico à disposição, mas vai gostar. E conforme o disco avança, vai perceber que está totalmente tomado ou tomada pela energia de suas batidas e pela barulheira de sua guitarra. O fuzz exagerado em “Salt Brothers” vai soar fora de lugar, mas como uma ótima ideia ainda assim. O psicodelismo de “On The Hill” te pega desprevenido e então você exclama: “Uau, que puta som!”.

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É verdade que “Cry” interrompe o poderio de fogo do Strand Of Oaks e que “Quit It” poderia ser uma faixa melhor, mas cumprem seu papel de tentar equilibrar o álbum pisando um pouco no freio e trazer interferências que não são musicais ao trabalho. Paciência. Todo mundo pisa na bola, até o Pink Floyd e o Iron Maiden. Mas desculpe a bagunça e não desista de Showalter ainda. O importante é que ele percebe o que fez e já manda “Rest Of It” para recuperar nossa fé em Hard Love. Faixa bem colegial e com um solo daqueles que te faz lembrar (caso tenha idade para isso) do Marty McFly em De Volta Para o Futuro (fato recentemente relembrado pelo Gabriel Sacramento neste podcast).

E o melhor fica para o final. Voz mais rouca, ritmo menos alucinado e paisagem sonora lisérgica fazem de “Taking Acid and Talking to My Brother” o grand finale espetacular em que os grandes vencedores são o rock e o som do pedal de fuzz.

Se não ouviu falar de Strand Of Oaks, é uma boa começar com Hard Love, seguir para Heal (2014) e assim conhecer o que Showalter tem a oferecer. Se já viu o nome dele por aí, dê o play. O disco interpola o folk com o rock psicodélico, constrói algumas de suas canções com o carisma do indie e com o combustível do hard rock clássico. É ótimo.

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Woods – Love is Love (2017)

Um tratado folk sobre o amor

Por Gabriel Sacramento

Uma das minhas leituras do ano passado foi o livro 1965, o ano mais revolucionário da música – que é muito bom e vale a leitura. Dentre outras coisas, o livro contava o panorama musical da década emergente de 60 e o surgimento e explosão de diversos estilos musicais. Um deles era o folk rock, que teria sido iniciado pelos The Byrds, que tocavam músicas do Bob Dylan com instrumentação de rock. Com o sucesso do gênero, surgiram várias bandas que buscavam o mesmo som, unindo Woody Guthrie à Chuck Berry, assim como os próprios Beatles.

Saiamos dos anos 60 e viajemos quarenta anos depois. Sob a bandeira da música independente surge, em 2005, o Woods, banda do Brooklin que fazia uma especie de folk rock, com ruídos e uma produção lo-fi. A impressão que se tem ao ouvir os primeiros registros – principalmente o esquisito Songs of Shame (2009) – é que estamos ouvindo uma banda de indie folk rock, que permanece sempre aberta a novas experimentações, com coragem e vontade de inovar. Dylan foi duramente criticado quando surgiu tocando guitarra em festivais conservadores de folk. Influenciado por isso, o Woods segue na contramão do totalmente acessível e do belo para criar o seu som.

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Com o tempo, no entanto, a produção da banda foi ficando um pouco mais sofisticada. Não que deixasse de ser independente, pois as gravações continuam sendo no estúdio caseiro do vocalista Jeremy Earl, que também cuida de todas as obrigações de engenharia de som das obras. Mas o som foi ficando mais polido de uma certa maneira, embora mantivesse o aspecto folk rock meio indie de sempre. No lugar do noise frequente de antes, temos mais espaço para as melodias – que ao mesmo tempo em que reforçam um aspecto mais acessível, também servem para reafirmar a esquisitice tão marcante da banda. Afinal, essas melodias não são tão ajeitadas e estruturadinhas como no pop comum.

O novo álbum foi chamado Love is Love e é na verdade um EP de seis faixas. A faixa-título abre com uma ótima linha de baixo e melodias que se tornam, depois de algumas audições, inesquecíveis. O aspecto lo-fi ainda está presente e dialoga bem com o aspecto mais moderno e polido. “Bleeding Blue” também é composta por boas melodias, um violão conduzindo boa parte da faixa e um tema instrumental que mais parece tema de marchinhas, mas que funciona bem dentro do arranjo. O tema é até meio celta e lembra um pouco o Dropkick Murphys. “Lost in a Crowd” é a primeira faixa realmente folk com os violões nas pontas da mix e um espaço aberto para os instrumentos no meio.

Temos uma faixa mais experimental – “Spring Is in The Air” – que traz instrumentos de sopro e um clima arrastado e mais contemplativo. O detalhe é que a faixa possui dez minutos e não varia muito – sempre estamos de volta ao riff principal. “Hit That Drum” é densa e vai ganhando profundidade a medida em que o arranjo cresce. Tem mais foco na ambientação e não na instrumentação normal como as outras. Temos ainda “Love is Love (Sun on Time)”, que é como uma reprise da primeira faixa, só que com mais swing. Mesmo com a cozinha explorando um pouco mais de groove, a voz do Jeremy continua do mesmo jeito e isso dá um toque especial à faixa.

O EP é um tratado folk sobre o amor e a maneira como o tema é abordado é o real diferencial. Não temos aqui clichês baratos e fáceis de compreender. Quando ouvimos Jeremy cantar “Diga que o amor é o amor”, não estamos plenamente certos a que ele se refere, embora tenhamos em mente que trata-se do amor e do seu medo de que o amor como ele conhece seja descaracterizado ou desvirtuado. É folk, principalmente porque, mesmo falando sobre amor, a parte musical da banda continua característica, forte, como sempre, sem inserção de elementos para tornar tudo acessível demais.

As melodias típicas da banda continuam vivas em Love Is Love. Junto com as linhas de baixo sempre ditando o ritmo das faixas e elementos intermitentes que surgem para dar um acabamento aos arranjos, tudo coopera para tornar a audição interessante e gratificante. O folk rock do Woods permanece se renovando dentro de si mesmo. Eles descobrem saídas para não soarem monótonos ou simplesmente repetirem a si mesmos, sem precisar mudar de gênero. Sem também abrir mão da esquisitice, da falta de jeito, da inocência e do aspecto alternativo. Um EP tão bom quanto um álbum seria. Um verdadeiro must-listen, afinal.

Vanguart – Beijo Estranho (2017)

Do ponto mais alto da cidade vazia, o Vanguart espalha sua música com Beijo Estranho

Por Eder Albergoni

Música é, na maior parte do tempo, uma coleção de sons sensitivos e de passatempo corriqueiro. Longe de seus tecnicismos e virtuosismos frequentes, ela nos serve como fator integrante do ambiente, ou seja, de tudo que nos cerca. Fora padrões reconhecidos como culturais, ela geralmente se urbaniza como no nosso dia a dia, no sentido mais próximo possível da interação social. Mas às vezes ela necessita que você se feche nela.

Beijo Estranho, o novo disco do Vanguart, guarda em suas faixas a sensibilidade de imaginar mundos estritamente escondidos ao nosso redor. É como entrar em um casarão colonial, com seus móveis imponentes e brilhantes, bem no centro da cidade mais urbana do planeta, mas completamente vazias. A casa e a cidade. Uma espiral que te leva mais pra dentro e cada nota cantada, tão peculiarmente como sempre faz Hélio Flanders, soa como um piano de cauda reverberando na cidade vazia, a cidade dentro de você.

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E aos poucos a cidade vazia vai ganhando contornos e cores e vão fazendo mais sentido conforme o mundo de Hélio e companhia avança dentro da sua cidade. A música que dá nome ao álbum não empolga tanto de início, apesar de dar o tom que todo o trabalho adquire. Cabe a “Todas as Cores” mostrar aquilo que, diferente dos discos anteriores, tem notoriamente um frescor otimista.

Então, com a roda montada, Beijo Estranho ergue bandeira e procura o lugar mais alto da sua cidade pra fincá-la. Não é, desde sempre, uma luta pra conquistar um reino, pelo contrário. “Felicidades” é um espelho onde você se vê sangrando numa batalha travada com você mesmo numa versão passada. Talvez também refletindo o que você sentiu enquanto ouvia os discos anteriores.

“E o Meu Peito Mais Aberto que o Mar da Bahia” te puxa da areia movediça e te coloca de novo no centro da sala com o piano de cauda. E o meião do disco te faz perceber que quem toca o piano dessa vez é você. É como se a música fosse se modelando ao nosso pensamento. Seja nas dúvidas e perguntas mais sinceras ou nas confissões que são muito difíceis admitir. Porém a batalha é a mais suave, uma viagem tranquila entre o centro e os subúrbios da sua cidade vazia, que nessa altura já se preenche com as pessoas que trazem com elas alguma forma de crença. “Quente é o Medo” é o ponto sem retorno, aqui a guitarra de David Dafré e o violino de Fernanda Kostchak casam perfeitamente e dançam exatamente onde a bandeira repousa absoluta. Reginaldo Lincoln ainda canta o veredito: “Eu não preciso de mais nada”.

A busca pelo lugar perfeito dentro de você se conclui com Hélio afirmando que o amor é a pancada mais dura que nos guarda o privilégio de permanecer – e nesse caso o amor é tudo que impacta, que causa qualquer estímulo. Ou existir, da forma como nossa cidade puder se aguentar – e nesse caso a cidade é esse lugar que governamos passivamente sempre esperando a próxima pancada. A música é aquilo que ajuda a estancar o sangramento. Na maior parte do tempo ela só precisa começar e a gente encontra um grandioso remédio. Beijo Estranho, mesmo cutucando as feridas, é um ótimo anti-pessimismo.

Feist – Pleasure (2017)

Contrastando arranjos áridos com passagens cheias de vida, Leslie Feist faz disco imprevisível e difícil

Por Lucas Scaliza

Não deixe que a estranheza de “Pleasure”, primeira faixa, primeiro single e primeiro clipe do novo álbum de Feist, te afaste, seja da cantora ou de Pleasure. Ou, na verdade, afastar pode ser o que ela quer. Mas “afastar” não é a palavra certa. A música de Leslie Feist, dessa vez mais do que antes, busca, quem sabe, “selecionar” quem vai ouvi-la até o fim e quem desistirá no meio do caminho. A inconstância meio roqueira de “Pleasure”, que pode ser cruelmente desestimulante antes do primeiro refrão, é só a primeira das esquisitices que a cantora e compositora canadense mostrará ao longo do disco.

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Portanto, esteja preparado. Seja fazendo rock ou folk, indo do indie ao alternativo e à balada num piscar de olhos, Pleasure tenta ser pouco convencional e pouco previsível (quem é que conseguiria prever cada virada e cada alto e baixo de “Get Not High, Get Not Low”, afinal?). Faixas como “I Wish I Didn’t Miss You”, “Lost Dreams” e a groovada “Century” (com Jarvis Cocker e Brian LeBarton) têm o temperamento de Feist, mas resgatam também algo de cancioneira folk rock que PJ Harvey exibia em seus primeiros trabalhos: uma mulher, uma guitarra e sua voz. Já outra como a valsa “Any Party” tem algo de Karen O na forma de cantar, embora a estrutura toda da canção seja, no final das contas, pensada para funcionar como um storytelling digno de Roger Waters (tem até latidos de cachorros e autorreferência).

Dois elementos chamam a atenção ao longo do álbum. Primeiro, os arranjos. Há os bonitos, há os esquisitos e há aqueles que surgem subitamente, nos levando para um entendimento diverso da faixa, como um pequeno novo universo que se apresenta por alguns minutos, seja no background da faixa – como o fantasmagórico teclado ao fim de “Baby Be Simple”, ou o rock rascante que toma a balada “A Man Is Not His Song” de assalto. Praticamente todas as músicas do trabalho terminam com alguma “surpresa”.

O segundo elemento são as dinâmicas, que reforçam os momentos mais emocionais das canções e também nos levam deles direto para os mais áridos. Absolutamente nenhuma música mantém uma mesma pegada do começo ao fim. Unindo os dois elementos, cada faixa precisa ser ouvida do começo ao fim para ser compreendida, já que Feist recusa fazer o esquema verso-refrão tradicional. Estamos já há milhas de distância de The Reminder (2007), sua estreia, muito mais fácil de ouvir do que qualquer trabalho que ela entregou depois.

O que vão dizer – com certa razão – é que Pleasure não empolga. Suas viradas e passagens áridas contrastam com os coros mais quentes e refrãos de melodias mais agradáveis, fazendo sua audição ir de um estado de prazer a um estado de estranhamento. Contudo, certos momentos e detalhes de cada composição não seriam tão interessantes sem outros mais secos. Uma vez vista como promissora estrela do indie pop, Feist conscientemente escolheu seguir em frente tentando novas formas de fazer indie. Há quem adorou Metals (2011), elevando-a ao patamar de “arte” no estilo. Pleasure, então, é a sequência desse estado de arte de sua música. Outros simplesmente não acompanharão a opinião e a música mais uma vez.

Eu fico com o primeiro time, mas entendo perfeitamente o segundo. E você?

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Slowgold – Drömmar (2017)

Não tema o sueco. Abrace a viagem de Amanda Werner

Por Lucas Scaliza

A banda sueca Slowgold é um caso de displicência. Não da música que produz, que é ótima, mas do público, talvez, e da crítica, que tem medo do sueco. E não digo do homem sueco ou do povo que vive naquelas bandas nortistas da Europa, mas da língua sueca. Roxette explodiu para o mundo décadas atrás por ter um som cativante, mas sobretudo porque cantavam em inglês. E não faltam artistas das terras escandinavas que cantam na língua global – só aqui nos arquivos do Escuta Essa Review e podcast há vários exemplos. Mas ignorar Slowgold só porque cantam na língua materna é covardia.

Drömmar é quarto disco do trio formado pela vocalista Amanda Werne, que também responde pelo violão, guitarra, harmônica e teclados, pelo baixista Johannes Mattsson e pelo baterista Erik Berntsson. O som é levemente viajante, o que garante o rótulo de rock psicodélico, mas este álbum está muito ligado ao folk. Dá para sentir que pendem tanto para o indie quanto para uma volta ao sonho hippie do fim da década de 1960.

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Há uma pureza muito gostosa de ouvir em todo o trabalho. Amanda usa sua voz de forma doce e dramática – às vezes alternando entre ambos os modos na mesma faixa – e encaixa belas vocalizações que expandem de vez o perfil mais psicodélico do grupo. Se o Tame Impala confia na manipulação sonora dos instrumentos para levantar voo, é a cantora quem opera a trip, como fica muito claro nas excelentes “Drömmar” (mais folk) e “Stjärna” (mais roqueira). Esse também foi um recurso bastante usado em Glömska (2015).

Slowgold propõe uma dinâmica distinta em cada faixa, mantendo o passeio interessante, mesmo que nem todos os caminhos casem perfeitamente com o gosto do ouvinte. “Karusellen” é indie, “Sammetsmorgon” é mais reflexiva, quase como se a voz e o teclado soassem mergulhados em uma lagoa, “Sommarhaus” é uma valsinha econômica e “Evighet” pende para o campal com seu dedilhado de violão e arranjo de harmônica. E ainda temos faixas mais roqueirinhas pelo meio.

Ainda que os arroubos sonoros não estejam entre as características mais marcantes da banda, eles aparecem para dar uma boa aquecida no coração em “Orden”, “Staden” e “Väntar”, músicas que também mostra a ótima consciência de Amanda Werne na hora de compor riffs e arranjos de guitarra. É tudo bem simples e instintivo até, mas cabem direitinho no som proposto pelo grupo.

Não caia nessa de achar que o som do Slowgood é muito simples ou magro demais e que talvez por isso seja menos merecedor de sua atenção. Há uma arte oculta em fazer músicas simples e belas, em que a produção chama a atenção para o talento de cada músico e não para si mesma. Aliás, não faltam exemplos de canções e álbuns tão superproduzidos que acabam ou perdendo o que havia de melhor na composição ou se tornando homogêneas demais ao lado de tantas outras superproduções colocadas no mundo todas as semanas.

Slowgood é um pedacinho da música sueca nativa que raramente chega ao público de fora do país. E Drömmar é ótimo para deixar rolar. A linguagem musical é mais abrangente que a língua vernácula.

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Ellika Henrikson

The XX – I See You (2017)

Novo disco mostra a banda dialogando com o passado enquanto olha para frente

Por Gabriel Sacramento

Depois que Jamie Smith, um dos membros do The XX, decidiu lançar um álbum solo – In Colour (2015) – no qual se permitiu experimentar com a música eletrônica e fugir um pouco do dream pop indie melancólico e etéreo da sua banda, o som do trio parece ter mudado de rumo. Esse novo direcionamento está em I See You.

E quando lançaram “On Hold”, percebemos a pegada mais pop dançante. O sample da faixa é da sacolejante “I Can’t Go for That (No Can Do)” da dupla Daryl Hall e John Oates, pop famoso lá dos anos 80. Mesmo com as batidas mais fortes, a canção trabalha bem a dinâmica com momentos calmos e econômicos que nos remetem à fase inicial da banda. A ideia de utilizar batidas diferentes para gerar climas diferentes, que esteve presente no disco de Jamie, está em I See You também. “Say Something Loving” foi lançada mais tarde. A faixa traz aqueles típicos duetos entre a guitarrista Romy Madley Croft e o baixista Oliver Sim e uma melodia belíssima sobre uma base onírica.

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“Dangerous” anuncia uma base mais focada no ritmo, diferente das músicas antigas, que eram densas e climáticas. “Lips” apresenta um mix bem definido entre uma sonoridade mais atmosférica e algo mais dançante. A balada “Performance” traz a melodia mais inspirada do álbum, com um quê melancólico impressionante e tocante. A vocalista Romy – que canta esta sozinha – interpreta com uma maestria e sinceridade tão grandes que é como se estivesse prestes a chorar enquanto canta. Podemos ouvir claramente as bases e toda a estrutura de “Replica” serem trabalhadas para explorar esse conceito mais pop e radiofônico. As batidas mais rítmicas voltam pulsantes em “I Dare You” e “Test Me” fecha o álbum com um ótimo interlúdio de música ambiente.

Como podemos perceber, o trio inglês conseguiu chegar a um estágio superior com sua música, sem negar suas influências básicas. Sem abrir mão da identidade que marca a banda desde o seu início e que chama a atenção para sua sonoridade, eles chegaram a um bom resultado.

Como disse antes, a influência de In Colour de Jamie Smith é inegável, afinal, ele idealiza as bases do The XX. Sua ideia de musicalidade expansiva e experimental além dos limites se aplica ao trio, mas respeitando as ideias e vontades dos outros dois membros também. Com isso, temos o melhor álbum do grupo, que transmite a liberdade criativa em paralelo com a vontade de soar mais amigável.

Este ano, a banda irá tocar no Lollapalooza Brasil. Uma ótima oportunidade para mostrar o som do grupo para os brasileiros que ainda não tiveram contato com os ingleses. Com canções de I See You no setlist, essa experiência de audição se torna mais fácil. A boa dose do disco pode não ser repetida em outros, a banda pode seguir por um caminho mais pop ou pelo resgate do som anterior, mas I See You deve ser lembrado por esse mix interessante e feito com muita competência.

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