indie

HAIM – Something To Tell You (2017)

Sound City sem as carreiras de cocaína

Por Eder Albergoni

Imagine o pop de FM verdadeiramente conflitante, indo além de briguinhas de ego e declarações infantis de suas estrelas principais, sobre relações amorosas fracassadas ou amizades falsas e aproveitadoras. A óbvia contradição nos impede o exercício pleno. É preciso recorrer a referências mais antigas, algo que foge das notícias de fofoca em sites de internet. O pop em questão, que se fortalecia em quebrar padrões e subir a barrinha da relevância para marcas maiores que o clichê de fãs ensandecidas que não deixavam jovens ingleses com ridículos cortes de cabelo cantarem direito suas musiquinhas, tinha
roupagem rock, descolada e um representante perfeitamente estabelecido em nossa visão. Rumours, lançado pelo Fleetwood Mac em 1977, é nosso objeto de comparação, desejo e conflitos latentes.

Hoje já não é preciso chocar a sociedade profanando o sagrado com modelitos provocantes, nem conceber discos com letras censuradas por conter palavrões ou insinuações sexuais, e muito menos sofrer de uma doença que muda a cor da sua pele.
Bandas e artistas fizeram, ao longo do tempo, discos repletos de drogas, sexo e postura moralmente questionável, segundo certos preceitos adquiridos em momentos de conservadorismo mais evidentes. Mas isso tudo é chover no molhado. O pop em si era sinônimo de qualquer coisa abaixo da média estabelecida como padrão e geralmente tido como certificado de qualidade. O pop combatia isso. Primeiro contestando em sua vertente punk e aumentando o espectro da atitude rock’n’roll. Depois afirmando movimentos de contracultura e grupos de minorias. O Fleetwood Mac transitava por tudo isso, e mais ainda quando criou Rumours.

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Acontece que o pop se atualizou e existem tantas ramificações sonoras que é impossível classificar bandas, artistas e estilos em nomenclaturas, mesmo que isso as identifique como tais representantes daquilo que servem em seus cardápios musicais. Aquilo: passamos a consumir música. Estamos menos empenhados em sentir o que ouvimos, pra elencar a quantidade do que ouvimos. Só que certos momentos nos puxam de volta à história. A música como era nas entranhas, na pretensão de transcender a física e as leis
divinas, na emergência demorada de experimentar uma obra específica como se fosse o elemento necessário e único pra garantir a sobrevivência humana. Rumours era sobre altos e baixos da vida.

A gente já concluiu de régua passada que nada mais pode ser clássico, ou ter vida longa, nesse modelo de consumo onde discos são lançados de semana em semana como filmes que lotam salas ao redor do mundo tão somente pra bater recordes de bilheteria. Eis que um sopro, um frescor, uma fagulha, uma palma no meio da multidão, um grito na cara de qualquer imbecil nasce. Nós esperávamos, sabíamos de onde viria e… voilà! A expectativa bem-sucedida desses nossos tempos nos brinda com um disco que é muito mais que só outro bom lançamento totalmente substituível na semana que vem.

Something To Tell You tem 100% de Rumours em seu DNA. Recorre intimamente às soluções sonoras e tenta ao máximo reproduzir, não imitar, os feitos técnicos. O disco é a soma dos quatro anos de experiência desde Days Are Gone (2013) com a empreitada da produção dividida, aspecto que parece ter virado o mais usual no que de mais contemporâneo existe nesse ramo. É preciso lembrar o que o disco do Fleetwood Mac significou na história da produção sonora. Gravado em vários estúdios, mas finalizado no lendário Sound City, se tornou um marco e direcionou a arte pra novos rumos, ideias e soluções pra usar tecnologias emergentes.

Mas o componente mais importante nunca deixou de ser o conflito entre a banda e o mundo. Neste segundo álbum, as Haim mostram maturidade, palavra que não pode ser outra pra definir a relação com o presente, e fogem de qualquer coisa que as aproximem de seus pares. Nada em Something To Tell You é banal. Nem imprime  formas polêmicas com o intuito de criar interesse. Argumento nenhum é desperdiçado. Nenhum discurso é inflamado. E mesmo assim o disco desenha o tempo a que pertence, ainda que “Nothing’s Wrong” nos confirme a comparação descarada com Rumours.

A fórmula usada em Days Are Gone aparece como recurso, nunca como repetição. Há uma evolução muito clara, tanto no aspecto musical (ouça “Kept Me Crying”. Danielle Haim empunhando a guitarra nos faz pensar em coisas pouco ortodoxas e suscitar o profano sobre o sagrado), quanto no aspecto pessoal. Porque tudo parece bem resolvido, ensolarado e aparado, há uma alegria desconcertante em seus shows e apresentações, e nada disso parece pop o suficiente para ser estragado. A principal virtude de Something To Tell You é replicar conflitos atuais, mesmo que pareçam menos importantes, sobre a alma de um disco de 1977 e conseguir ser um disco livre e completamente independente de datas. Um disco de, e para, todos os tempos.

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James Vincent McMorrow – True Care (2017)

Uma viagem sonora pelo soul e R&B interestelares

Por Gabriel Sacramento

Muito tem sido discutido sobre a transição de James Vincent McMorrow de um som mais folk para algo mais soul e R&B alternativo, com fortes interferências eletrônicas. Porém, o que muita gente pode não saber é que o músico nunca quis deliberadamente soar folk. Ele mesmo afirma que apenas fez o que pode com os recursos limitados que tinha e aquilo acabou soando como folk.

Claro, como ouvintes que tentam conceber a proposta musical de McMorrow, não podemos desconsiderar seu jeito para fazer folk, bem evidente nos primeiros álbuns. E se ele mesmo não tinha em mente esse resultado, acabou chegando a ele com competência e uma qualidade que fornece uma experiência auditiva bastante satisfatória, até para ouvidos acostumados com o gênero e suas nuances.

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Dito isso, fica mais fácil compreender que à medida em que o músico cresce na carreira, ele se afasta da veia inicial. Seu novo álbum, True Care, soa também diferente de We Move, disco do ano passado que tinha um forte apelo pop e soava bem R&B alternativo. True Care vai por um caminho mais expansivo, abordando elementos espaciais e soando um pouco mais experimental que o anterior, com o músico irlândes abusando dos sintetizadores para criar camadas cheias e densas, que abrigarão seus vocais.

Esse desejo por expansão também fica evidente com o uso de timbres esquisitos e diferentões. Como em “Thank You”, com sintetizadores envolventes e elementos instrumentais interessantes, preenchendo tudo com um nível detalhamento tão interessante quanto o nível de competência em compor todos esses detalhes. Ainda temos a sua guitarra complementando tudo e um quê de R&B. Se tivesse de escolher duas músicas chave para o álbum, seriam “National” e “True Care”. A primeira começa com um piano que acompanha a melodia do vocal, lembrando o Sampha em “(No Ones Knows me) Like the Piano” – uma das melhores faixas do ano. A interpretação de McMorrow é extremamente emocional, conferindo uma sensação de intimidade com o ouvinte. A segunda começa com os vocais aveludados do cantor ressoando por todo o espaço das nossas cabeças e ganha base instrumental densa, fortemente sintetizada e com uma timbragem especialmente esquisita, no melhor sentido da palavra, mas que poderia simplesmente arrancar um sorriso de Frank Ocean.

Se você, depois de algumas faixas, ainda não sacar a veia espacial e onírica do álbum, os interlúdios fazem questão de deixar isso bem claro. “Constellations” é outra faixa que, desde a manipulação dos sintetizadores da base à interação vocal-instrumental, remete totalmente ao Process do Sampha. As coisas continuam densas em “Holding on” e “Bears”, que não escondem a influência de soul no jeito como se desenvolvem. “Bend Your Knees” também deixaria qualquer cantor de R&B alternativo bem empolgado, tamanha é a sua facilidade para simular algo mais suingado, sem necessariamente entrar nos clichês e padrões do estilo.

Com o auxílio de uma produção esmerada e com os seus sintetizadores, James conseguiu criar um álbum viajante, climático e que foge das fronteiras, indo além tanto do folk quanto do R&B ou soul, mas aproveitando boas ideias desses gêneros. As melodias não tem tanto apelo comercial como as disco do anterior, mas são bem trabalhadas em músicas bem acabadas, por isso ganham destaque.  É um disco que nos coloca diante da possibilidade de viagens interestelares cheias de aventuras, perigos e recompensas. Enquanto lutamos contra as naves espaciais inimigas, tentando sobreviver, McMorrow nos guia com sua voz suave e seu disco vai traçando a rota.

Dá para ao menos especular que quando pende para o folk, James soa como algo próximo do que Ray LaMontagne tem feito em sua nova fase. Quando pende para o R&B fora da caixa, ele soa um pouco como um Frank Ocean ou Sampha. O irlândes mistura bem o aspecto sonhador com as manipulações eletrônicas experimentais da versão mais moderna do R&B, chegando a um híbrido interessante e imperdível. Foi assim também com o We Move inclusive, só que agora ele está ainda menos preso à necessidade de permanecer em baixas altitudes.

Se a humanidade acabar realmente tendo que povoar outros planetas, eis uma boa trilha para a dramática viagem. Esteja certo de embarcar com os fones de ouvido.

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Kevin Morby – City Music (2017)

Eis a trilha sonora da solidão

Por Gabriel Sacramento

Começo esse texto com uma afirmação segura e certeira: City Music é o mais maduro trabalho de Kevin Morby, não só pelo desenvolvimento natural do artista há anos no ofício – o que acontece com todo mundo -, mas é o seu trabalho solo mais consistente e mais interessante. Tudo bem, as canções de Still Life (2014) são muito boas e muito marcantes, bem como as de Singing Saw (2016), que você já leu por aqui, mas City Music traz uma abordagem sonora típica de alguém que evoluiu na forma como pensa a sua música.

No texto do ano passado sobre o seu álbum anterior, você leu alguns elogios à carreira solo de Morby e como ele tem se dado bem. Misturando os elementos roqueiros e intensos que remetem à sua antiga banda, o Woods, com a solitude típica do folk desértico – que junto com a produção alternativa fica ainda mais atmosférico e distante. O músico conseguiu estabelecer seu nome dentro do circuito folk independente dos Estados Unidos e tem sido uma voz interessante a ecoar e nome de referência a constar nas listas de recomendações.

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City Music apresenta um Kevin muito apegado à suas criações, com boas histórias pra contar acerca de cada uma das faixas. A que abre o disco, “Come To Me Now”, impressiona pela atmosfera esvoaçante que ganha ainda mais densidade do meio para o final, mas que é impulsionada por um órgão antigo que Morby encontrou no estúdio enquanto gravava e decidiu, na hora, incluí-lo. A letra é escrita da perspectiva de uma mulher que passa boa parte do seu tempo sozinha e não gosta do sol, esperando assim pelo surgir da lua. Essa mesma mulher, chamada de Mabel, é personagem de “Tin Can” – canção que possui crescendos fabulosos, dando sempre a sensação de que vai ficar maior e mais pesada – e do longo folk “Night Time”.

Já “1234”, é uma espécie de tributo aos Ramones, com o título fazendo referência à contagem do tempo que os nova-iorquinos costumavam fazer antes de cada faixa. A sonoridade é garageira e suja no estilão bem rock’n’roll como poucas coisas na discografia solo de Morby. Quando transitamos desta para a próxima faixa, “Aboard My Train”, a impressão é que estamos ouvindo outro disco, tamanha é a diferença em termos de timbres e musicalidade. Se o vocal na primeira é sujo e está envolvido na explosão instrumental, o vocal na segunda é limpo, destacado e a base é pequena, com marcações tímidas de baixo/bateria e um piano que dá as caras aos poucos. A canção vai ficando roqueira com o tempo, sempre com marcações fortes de acordes. “Dry Your Eyes” possui uma candura quase soulful, com uma guitarra praieira, uma sensibilidade instrumental incrível, um solo bem bonito e um vocal todo em um lado da mix para dar a impressão de que está sendo cantado bem próximo do ouvido do ouvinte, criando um aspecto intimista. A guitarra e a bateria foram gravados primeiro, e então o vocal e o baixo foram acrescentados. A faixa-título é marcada pelas lindas guitarras harmonizadas, mudanças fantásticas de andamento e pelo vocal insistente de Morby repetindo as mesmas frases. É uma das melhores canções do cantor, com um trabalho de dinâmica especialmente impressionante.

Agora com 29 anos, Kevin Morby está cada vez melhor em seu folk rock. City Music tem conceito, abordando a solidão e como as pessoas se relacionam com as cidades onde residem e com as pessoas ao redor. Como se sentem ao viver sozinhas em um mundo diferente do mundo que existe em seu interior. Para Morby, a música tem muito a ver com isso e ele torna a relação poética entre a solidão e os sons perfeitamente clara para nós.

A introversão de sua música conversa conosco. Afinal, todos nós já passamos por momentos tristes, em que nós preferimos a gritaria das nossas mentes às vozes que saem pelas nossas bocas, e permanecemos inquietos e angustiados. O cantor oferece a trilha sonora perfeita para isso, conectando a atmosfera da sua música com esta sensação perturbadora, apresentando um certo conforto, sensível, sonoro e poético. Um trabalho a ser admirado.

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A Banda Mais Bonita da Cidade – De Cima do Mundo Eu Vi O Tempo (2017)

Banda paranaense volta aos trilhos com 3º disco que faz jus ao que se espera dela

Por Eder Albergoni

É impossível não começar esse texto com uma sincera e feli afirmação: A Banda Mais Bonita da Cidade conseguiu! De Cima do Mundo Eu Vi O Tempo é um trabalho que faz jus ao que se espera daquela banda que lançou “Oração” em maio de 2011. Não que tivéssemos ficado cobrando isso da banda por todo esse tempo. Pelo contrário. Para alguns, a Banda Mais Bonita tinha até acabado. “Oração” levou o grupo a um lugar ao qual eles não pertenciam. E após vagarem pelo espaço/ limbo em O Mais Feliz da Vida (2013), estão finalmente no lugar feito especialmente pra eles.

De Cima do Mundo… é um disco de intérprete, desses que seria mais comum ser concebido por um cantor performático ou por uma cantora em ascensão na carreira. O conforto é tão grande que A Banda Mais Bonita se permite contrariar um movimento que poderia ser entendido como arriscado e desnecessário, e que, frente ao resultado, se torna belo e requintado. A grande maioria das músicas não são inéditas, mas sim versões de músicas mais escondidas do grande público, compostas e lançadas por gente como Ian Ramil, Alexandre França, Tibério Azul, Los Porongas e Maurício Pereira.

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“Inverno”, “Eu e o Dela” e “Suvenir” tecem uma rede que explica a sonoridade e o tema geral do disco. Não há modo de espera, a produção ágil e sem frescuras de Vinícius Nisi deixa os dramas à vista logo de cara. “A Pé” é o primeiro grande momento do álbum, com um duo de Uyara Torrente e Thiago Ramalho absolutamente esmagador de tão bonito. O refrão faz referência ao tempo e o poder que ele tem sobre o esquecimento. É a preparação ideal para a música seguinte.

Lançada originalmente por Maurício Pereira (Os Mulheres Negras, junto com André Abujamra) em seu disco Pra Marte de 2007, “Trovoa” é um poema realizando uma crônica urbana, ou “um poema lírico que se mostra a coisa mais lógica”, onde a vida é captada por quadros peculiares em momentos quase banais, ou ainda frames mais contemplativos. Tudo faz sentido quando chega o ápice: “Se você for embora eu vou virar mendigo”. Se “Trovoa” já tinha um lugar garantido no panteão das canções populares brasileiras, essa interpretação da Banda Mais Bonita não só confirma o lugar cativo, como também refaz a relevância da banda no cenário musical do país. “Trovoa” exalta o amor de uma maneira nada óbvia e termina como o relaxamento depois do orgasmo, com um magnífico e cortante solo de guitarra de Felipe Ayres (guitarrista do ruído/mm, que participa do disco inteiro). Se, com Maurício Pereira, a faixa já era um trovão, com a Banda Mais Bonita também é o relâmpago.

 

 

“A Geada” e “Bandarra” continuam arrematando a rede construída de tecidos sonoros, com imagens que ilustram viagens sem relógio, preenchendo um universo alternativo e mais provocativo do que o que era frequente. E cabe a “A Dois” o momento mais singelo do disco. Com quase tudo pronto, esse duo (agora Uyara com Marano, o baixista da banda),  tira a Banda Mais Bonita do buraco do “quase”, onde se meteram lá em O Mais Feliz da Vida. Nada naquele disco vai adiante, parecendo fadado à sensação de que algo fica engasgado e não sai. Aqui, “Tempo” talvez tenha alguma similaridade. Fosse uma música do disco anterior, seria um grito ensurdecedor. Mas sábio como e Tempo é, ele prefere apenas assinar o que se vê no Em Cima do Mundo.

“Oração” foi cruel e suprimiu o poder de outras músicas tão boas ou melhores que existiam no primeiro disco. Por consequência, já que ninguém escapa da síndrome do segundo disco que se resume em valer o pouco que havia sido feito, restou o espaço/ limbo em O Mais Feliz da Vida. Em Cima do Mundo conserta esse defeito e mostra como a Banda Mais Bonita da Cidade poderia hoje ter uma discografia mais concisa e coerente. Se esse não chega a ser o caso, Em Cima do Mundo Eu Vi O Tempo é o disco do agora, o tempo é relativo e o passado não existe.

 

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Lorde – Melodrama (2017)

A perda da inocência: a nossa, a da juventude e a de Lorde

Por Lucas Scaliza

Faz quatro anos que Pure Heroine (2013) foi lançado. Chegou como quem não queria nada e foi galgando seu espaço naturalmente. A então jovem Ella Marija Yelich-O’Connor não era nada (nem famosa em redes sociais), mas tinha um disco com produção esperta, um acordo com a Universal e letras ainda mais espertas sobre a juventude. O sucesso a tirou da periferia do mundo pop e da sua Nova Zelândia natal para colocá-la entre pessoas, lugares e festas badalados em Londres, Nova York e Los Angeles. As ~inimigas~ Taylor Swift e Katy Perry viraram amigas de Lorde, a garota dos então cabelos volumosos.

Seria muita inocência de nossa parte achar que quatro anos depois Lorde seria a mesma pessoa e faria a mesma música. Seríamos como os adolescentes em “Perfect Places”, que tomam drogas (lícitas e ilícitas) e fazem sexo para esconder algo que falta a eles. O sucesso alcançado por ela foi estrondoso e uma estrutura de mídia e marketing foi criada em torno de Lorde para atendê-la. Melodrama é mais pop e menos dream pop, de fato. Isso se revela fácil para quem ouvir “Green Light” e tiver ouvidos e coragem para reconhecer que diversas outras partes de outras músicas são bem comuns do pop que se faz atualmente. No entanto, há uma boa quantia de indie e eletrônica que ainda resguardam não o Pure Heroine em si, mas o jeito como Lorde se expressa, chegando a soar alternativa.

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Lorde também não é inocente: teve que dar algo ao mercado, à gravadora e aos fãs que fosse capaz de “moldá-la” a um padrão. Perdeu-se um pouco da originalidade, mas no miolo do álbum existem boas ideias e um fio condutor que fazem Melodrama valer a pena. “Sober”, sobre uma relação que está se desfazendo e como isso fica claro quando o casal não está sob efeito da bebida, é o primeiro vislumbre da Lorde que aposta no diferente e no fora do comum. No mundo ideal – da gravadora -, “Sober” nunca seria um single. “Homade Dynamite” tem uma pega derivada do R&B que a cantora tanto gosta, mas é bem esquisitinha no final das contas, virando umas esquinas inesperadamente.

“The Louvre” é um belo trabalho de produção, procurando, em certo ponto, como emular as reverberações de uma festa real. “Hard Feelings/Loveless”, a música que marca o rompimento que vem se desenhando, é quando o melhor dream pop de Lorde emerge e nos faz reverenciar sua habilidade de fazer uma boa canção que não se rende ao pop fácil. “Write In The Dark” coloca o vocal de Lorde em primeiríssimo plano. No refrão, ela sobe e desce a escala e lembra que sim, é uma cantora e tanto, e que isso também foi um dos fatores que a ajudou a ser uma estrela. Por fim, “Supercut”é a evolução mais natural do estilo oferecido em seu primeiro álbum e lapidado agora para uma segunda obra mais madura.

A história do disco se passa durante uma dessas festas de jovens em uma casa, quando os adultos não estão por perto e os convidados se pegam, brigam, se amam, vão pra cama, bebem e tomam drogas. No meio disso tudo, Lorde rompe com o namorado (ela realmente passou por um grande término nos últimos dois anos), pensa a respeito, vai e volta da festa, e reflete sobre como é estar só. Quem julgar apenas pelas faixas mais baladeiras vai perder toda a parte mais interessante de Melodrama.

Se para construir sua imagem grandes equipes foram contratadas, quase todo o som do álbum foi criado de forma íntima, com Lorde e o produtor Jack Antonoff sendo responsáveis por quase tudo, desde as letras e os acordes até as intervenções eletrônicas. Isso garante que mesmo que nós, a Lorde e a juventude das festas já não sejamos mais tão inocentes assim com a vida, com o amor e com o que a neozelandesa se tornou, sua música ainda reflete sua sinceridade. Talvez de forma não tão criativa e cortante quanto antes, mas ainda assim bastante íntegra.

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Royal Blood – How Did We Get So Dark? (2017)

Banda reafirma seu posto como uma das mais interessantes na cena roqueira inglesa

Por Gabriel Sacramento

Os ingleses do Royal Blood impressionaram em 2014 com um álbum excelente que conquistou unanimemente a crítica e os fãs de rock ávidos por novos nomes interessantes. Três anos depois do disco de estreia arrasa-quarteirões, o duo lança a continuação, que pontua o quanto a carreira tem ido bem e deixa claro que a fonte está longe de secar. Com o título How Did We Get So Dark?, cheguei a me perguntar se a banda realmente mudaria o som para algo mais obscuro, mas não foi o que aconteceu.

O novo álbum traz a produção de Joylon Thomas e a finalização do produtor que trabalhou no anterior, Tom Dagelty. Foi gravado em seis semanas, o que é um bom tempo, mesmo se considerarmos que eles não gravam muitos overdubs e o foco está em apenas dois instrumentos. Depois da pré-produção, dez canções foram selecionadas de cerca de 50 que tinham composto e sentimos que foram realmente as melhores canções – as faixas do novo disco não só são boas em termos de qualidade, mas também são interessantes para mostrar que Ben e Mike não optaram por fazer um simples mais do mesmo, um volume 2 insosso.

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No entanto, desde “Where Are You Now” – que foi divulgada em 2016, como parte da trilha de Vinyl, série da HBO criada por Mick Jagger, Martin Scorsese e Terence Winter -, percebemos que o lance é manter o foco e o conceito sonoro do primeiro álbum, sem muitas mudanças bruscas. A canção é uma das poucas do álbum (e da banda) em que o baixo de Mike soa realmente como um baixo, no começo da canção, embora em outros momentos o instrumento ganhe boost e passe a soar como uma guitarra soterrada de drive. Além do peso, Mike preza por melodias simples, mas fortes. Em “She’s Creeping”, o baixista e vocalista explora leves saídas do tom nos versos, que soam fantásticas, e um sexy falsete no refrão, que tira um pouco do aspecto sisudo da banda e leva pra algo mais solto.

“Look Like You Now” anuncia uma influência indie mais forte, das melodias vocais à estrutura e ao refrão. “Don’t Tell” é quase uma semibalada, só que com doses cavalares de distorção. O refrão é composto pelos recorrentes falsetes de Mike e um andamento mais arrastado. É uma faixa que pode trazer diferentes tipos de ouvintes e atrair mais atenção para a banda. Podia até ter sido single. “I Only Lie When I Love You” tem o jeitão stoner que fez a banda agradar tanta gente no primeiro disco – com direito à palmas e um cowbell que deixam tudo um tanto mais festeiro – e “Hook, Line & Sinker” mantém a pegada pesadona, orientada aos riffs ultradistorcidos.

Embora não possamos dizer que How Did We Get So Dark? tenha tantos singles de sucesso quanto Royal Blood, podemos dizer que esse álbum é uma reafirmação importante da capacidade de dois músicos competentes de fazer música descomplicada, intensa, viva, com ótimos ganchos e riffs que não desgrudam da mente. Os refrãos são impulsionados pela força dos riffs do baixo e por isso são tão marcantes e animados, sendo natural que provoque em nós a vontade de balançar nossas cabeças no ar.

Se no primeiro álbum o duo não aceitava de jeito algum o fato de gravar backing vocals, aqui eles deram uma trégua e preencheram a faixa-título com vocais que soam um tanto assustadores por serem tão repetidos no meio da base pesada – como se as vozes não se abalassem pelo peso absurdo que as envolve. Mesmo com essa mudança e, por exemplo, com a adição de mais falsetes nos vocais de Mike, a banda soa bem fiel ao seu som, sem abrir mão do que faz eles serem interessantes e, de certa forma, únicos. Os falsetes se encaixaram perfeitamente bem na proposta, deixando as melodias ainda mais irresistíveis e adicionando uma certa sensação de fragilidade em meio à toda a porradaria inquebrável. Além disso, é uma forma de diferenciar os vocais e conseguir uma forma distinta de expressão, por isso, muito válida.

A lógica instrumental continua a mesma: as referências sonoras da banda fazem com que eles componham músicas que necessariamente pedem um solo de guitarra em algum momento. Mas para suprir essa falta, eles encharcam o espectro sonoro com o ruído da distorção agressiva do baixo, executando riffs bem elaborados e que são tão importantes que geralmente são os primeiros elementos criados. O destaque interessante é o meio de “Lights Out”, com um fill de bateria, que segundo Mike, foi o que Ben executou no estúdio para atender ao seu pedido de tocar a coisa mais ridícula que ele pudesse pensar. O fato do fill ser longo e composto por apenas duas notas dá uma sensação de que estamos presos ao mesmo trecho (como se tivesse travado), quando na verdade foi mais um acessório criativo usado para deixar as coisas diferentes por aqui.

Considerado por muitos como a versão britânica do White Stripes e do Black Keys, além de ser uma das bandas novas que ganharam mais destaque – e que mais venderam – na cena roqueira da terra do chá, o Royal Blood tem mostrado que sabe bem como lidar com o sucesso e o reconhecimento, buscando, sobretudo, fazer música por diversão e divertindo e entretendo os seus ouvintes. Resta saber se eles continuaram fiéis a isso com o tempo e como a maturidade na carreira irá afetar a forma como pensam música.

No final, percebemos que How Did We Get So Dark? não é obscuro no seu núcleo, embora seja em alguns pequenos momentos estratégicos. Pode ser rotulado como mais do mesmo, mas feito com muita qualidade e competência, que não desaponta o ouvinte em nenhum instante e ainda funciona como uma ótima seleção de faixas que cumprem o objetivo de um bom disco de rock garageiro: soar incrivelmente sujo e agressivo.

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London Grammar – Truth Is a Beautiful Thing (2017)

Menos hipster e mais maduro, 2º álbum do London Grammar é a realização completa da banda

Por Lucas Scaliza

Quando escrevi sobre If You Wait (2013), o primeiro disco do trio London Grammar, concluí que a banda tinha potencial e deixava claro que poderia ser ainda melhor no futuro. A estreia foi boa, mas um segundo disco, mais maduro e consciente de seu papel, seria melhor.

O futuro chegou, o segundo disco também. A capa repete os mesmos três integrantes, nas mesmas posições em que estavam na capa de If You Wait. Mas é notável como mudaram fisicamente quatro anos depois. A imagem ainda é indie, algo evocativo dos anos 80, mas menos hipsters, mais maduros. E sobre maturidade, “Rooting For You”, que abre Truth Is a Beautiful Thing, é tudo o que você precisa ouvir para sentir a confiança da banda. Hannah Reid canta com emoção e com cálculo, sabendo exatamente como colocar a técnica a serviço do sentimento e vice-versa.

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O dream pop dos britânicos ainda é bastante melancólico, com piano e naipe de cordas fazendo o grosso do trabalho de harmonia. Aproveitam-se bastante de batidas eletrônicas sempre que possível, fazendo um trabalho especialmente bonito em “Wild Eyed”, com suas batidas mais profundas e mixadas de forma a criar diversas camadas de estímulos para os ouvidos. “Big Picture” e a ótima “Oh Woman Oh Man”, que traz um pouco de soul ao disco, permitem-se serem mais animadas, mas calma lá, nada de fazer você perder o fôlego na coreografia.

Não dá para desconsiderar o trabalho do tecladista e percussionista Dominic “Dot” Major e nem do guitarrista Dan Rothman. Ambos entregam um espetáculo musical que sempre acha uma boa maneira de se resolver. “Hell To The Liars”, um tanto monótona a princípio, é salva pela dupla de instrumentistas com uma das passagens instrumentais mais memoráveis do álbum. Embora o estilo acabe sendo parecido com o dos conterrâneos do The XX, o London Grammar toma o cuidado de apostar em desenvolver melhor as características que já marcavam If You Wait. E uma das principais é a voz de Reid, uma voz distinta e perfeitamente bem encaixada na produção de Major e Rothman, vez ou outra chegando a ser etérea (como em “Everyone Else”) e demonstrando ser versátil mesmo com todo o apego à técnica, lembrando bastante a Florence Welch, principalmente na linda e onírica faixa-título.

Existe uma atmosfera muito particular criada em Truth Is a Beautiful Thing que nos coloca diretamente nos arredores de Londres, fria e chuvosa, moderna e repleta de pessoas ainda usando os velhos casacos de couro preto dos anos 90 e descendo aos undergrounds da cidade para pegar o metrô. Se o rock inglês transformava isso em algo cheio de ação durante os movimentos punk e britpop, temos uma reinterpretação disso de forma mais reflexiva e meditativa com o London Grammar. Por mais que o crescendo de “Bones of Ribbon” e “Leave The War With Me” nos motive a atravessar a multidão e o grande espaço urbano, “Who Am I” está ali para nos fazer meditar enquanto o trem nos leva, solitários, para casa.

Truth Is a Beautiful Thing ainda se escora bastante na voz e na performance de Hannah Reid, mas está em equilíbrio muito maior com a sofisticada instrumentação de Major e Rothman. É notável que não corrigiram erros do primeiro disco simplesmente, mas amadureceram como um todo, como um trio, como uma banda. Seguindo a mesma linha da estreia, agora mostram do que são capazes de verdade. Se em popularidade não ultrapassam o The XX, em qualidade dão um passo à frente.

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