indie rock

Paramore – After Laughter (2017)

Hayley Williams & Co. se reinventam e fazem álbum seguro de indie colorido

Por Lucas Scaliza

Agora que o álbum está entre nós, não resta dúvidas de que o Paramore resolveu investir no lado mais pop da banda e o temperou com elementos indie e tropicais. É o quinto disco da banda de Nashville, que desta vez resolveu gravar pela primeira vez em sua cidade natal, o que parece ter servido para unir melhor os seus quatro membros e dar a eles mais conforto (afinal, a banda passou por maus bocados, mesmo tendo chegado ao ápice de sua popularidade com o último disco, Paramore, de 2013), já que o som não parece ter sofrido nenhum impacto ou influência da cena country ou roqueira de Nashville. A banda é pop agora – e eles deixaram claro que dariam essa guinada musical.

Como banda de rock, o Paramore sempre foi bem básico. Não é como se o Metallica deixasse de compor hinos metaleiros épicos para se dedicar agora ao punk rock de três acordes, entende? Por isso achei, lá em 2013, que a faixa “Ain’t It Fun?” de fato foi uma das melhores composições que a banda já tinha feito. Não era a mais rock’n’roll e nem a mais pesada, mas misturava com maestria diversos elementos diferentes que ressaltavam as qualidades musicais totais do grupo.

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After Laughter é bem divertido, por um tempo. A trinca que abre o disco, com os singles “Hard Times”, “Told You So” e “Rose-Colored Boy” é excelente e mostra que o grupo está muito bem situado nessa nova roupagem. O guitarrista Taylor York nem parece ter feito esforço para encontrar um novo jeito de encarar riffs e fills mais solares (um bom exemplo está em “Forgiveness”). Zac Faro, que voltou à banda, comanda a bateria com a retidão de quem sabe que essas novas faixas precisam de ritmo e precisão, não de viradas sensacionais (mas ele encontra alguns espaços para sair do feijão com arroz).

Aliás, não há nada de sensacional no álbum. As melodias são cativantes, mas nenhuma é excepcional. As harmonias e timbres estão muito bem colocadas na proposta, porém sem grandes sacadas. Em suma, não traz inovação alguma para o indie colorido, mas entrega tudo muito bem feito e de fato cumpre o papel de propor outra sonoridade para a banda. “26” não só mostra a cantora Hayley Williams se dando bem com registros mais baixos, mas também traz arranjos orquestrais para complementar o violão doce e de harmonia muito bem escolhida de York no violão. E há diversos sons que vão surgindo e ampliando o espectro do grupo, como os teclados em “Pool” e “Grudges”. E com uma ótima narração de fundo, “No Friend” se constrói como uma faixa instrumental do tipo que não se espera do Paramore (sempre tão calcado em sua vocalista) e nem de um disco como After Laughter, que preza pela segurança.

O veredito, assim, é que After Laughter não é o melhor trabalho da banda, mas está entre os melhores. É uma mudança sonora que deu certo, embora fique a sensação de que poderiam ter sido mais ousados. Hayley Williams continua sendo a cara da banda e sua principal força magnética, mostrando mais uma vez que é uma ótima cantora e bastante consciente do que pode cantar e como. Diferente de quem canta como se precisasse impressionar jurados a cada refrão (alô, Sia!), ela não vê problema em cantar sem forçar a voz, sem elevar demais a tonalidade das músicas e sem saltos de oitavas. Ah, e mesmo que não seja mais rock, punk ou emo, você sabe que Hayley Williams cantando, tal é a personalidade de sua voz preservada mesmo quando embalada em um produto diferente.

Thurston Moore – Rock N Roll Counciousness (2017)

Moore contrasta jams repletas de fuzz e euforia garageira com letras hippongas

Por Lucas Scaliza

Leva precisamente 7 minutos e 47 segundos para ouvirmos a voz de Thurston Moore em seu novo álbum solo. Mas antes das palavras saírem de sua boca, o som de sua guitarra – que vamos considerar sua segunda língua – é a primeira coisa que ouvimos ao dar o play em Rock N Roll Consciousness. “Exalted” tem o Thurston Moore dos dedilhados, dos riffs que se criam a partir das levadas da base e o guitarrista solo que adora um fuzz. Tem também o Thurston metaleiro, uma faceta que custou a aparecer em sua carreira solo. Mas cá está ele, arrebentando o instrumento com peso e os ruídos que sobram do fuzz, deixando a bateria de Steve Shelley (também ex-Sonic Youth) contribuir também, claro, mas bem abafada, diferente do que geralmente uma banda faria num momento como esse. É Thurston em primeiro e em segundo plano.

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Acredito que grande parte dos interessados em Thurston Moore, e neste álbum, são fãs do Sonic Youth ou pessoas que já conhecem o guitarrista de outros tempos e outros projetos. Portanto, acredito que, em sua maioria, sejam leitores e ouvintes acostumados com a excentricidade, com a rispidez com que frequentemente trata as seis cordas em uma canção ou pessoas versadas em rock alternativo. Mais do que qualquer outro álbum solo, Rock N Roll Consciousness é o que mais exige do ouvinte.

Diferente de seu ex-parceiro, Lee Ranaldo (que sabe ser diferentão na forma e aprazível no que produz), Moore é abrasivo como nunca no som, se aproveitando da presença de James Sedwards na segunda guitarra para propor jams roqueiras e até mesmo eufóricas. Já as letras – uma contribuição do poeta inglês Radio Radieux – são as mais ternas dentre seus cinco discos de estúdios e evocam um período de sonhos da Califórnia hipponga.

As repetições, como em “Cusp”, causam uma sensação inquietante. Mesmo “Turn On”, que começa muito mais melódica, e “Aphrodite” acabam caindo nos mesmos maneirismos guitarrísticos apresentado em faixas anteriores – mão direita insana, flertes metaleiros, passagens harmônicas com complemento do baixo de Debbie Googe (My Bloody Valentine) e solo com cara de espontâneo. E se o ex-Sonic Youth parece-se muito com ele mesmo, “Smoke of Dreams” soa como uma faixa de Demolished Thoughts retrabalhada para a estética mais rock’n’roll de garagem do novo disco.

A produção é sempre bem crua, deixando claro que se trata de uma banda bem compacta e bem resolvida no comando de tudo. Sob o comando de Paul Epworth (que já trabalhou com Adele e Paul McCartney), nada de teclados, orquestrações ou truques de produção para preencher os vazios.

Embora possa ser um pouco desconcertante, é o tipo certo de desconcertamento. Moore chega à “consciência rock’n’roll” que almeja e é capaz de colocar o ouvinte mais entregue em êxtase também. Mas é menos prazer ou satisfação e mais um estado de nervosismo. Isso é o que o rock também causa na gente.

Bon Jovi – This House Is Not For Sale (2016)

Sem Richie Sambora pela primeira vez, Bon Jovi segue em frente e cai no indie rock

Por Lucas Scaliza

O hair metal ou hard rock que o Bom Jovi representou nos anos 80 e 90 se foi há bastante tempo. Com a virada do milênio e a volta com o disco Crush (2000) após uma pausa, a banda vem tentando atualizar seu som. Sempre que Jon Bon Jovi, o vocalista e líder do grupo, diz que seu próximo disco vai ser “muito rock’n’roll”, isso sempre quis dizer que seria um pop/rock mais afeito às novas gerações, mais brando e menos… hard rock. Além de o rock dos últimos 13 anos nunca ter chegado ao nível daquele do passado, sempre parecia que a banda estava apostando em algo muito genérico e poucas faixas de cada álbum revelava o real potencial de Bon Jovi, Tico Torres e Richie Sambora.

Se os últimos sete discos da banda trouxeram pouca novidade (incluindo aí o fraco Burning Bridges, lançado em 2015 com sobras de estúdio e apenas para cumprir contrato com gravadora), This House Is Not For Sale surge como um esforço intrigante. O primeiro single e música de abertura, “This House Is Not For Sale”, é o único lembrete de que o Bon Jovi tenta emular o hard rock de outrora. Todas as demais faixas levam o álbum na direção do indie rock. Não é o Bon Jovi que você espera, mas causa mais surpresa do que decepção.

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This House Is Not For Sale é o primeiro disco da banda com o guitarrista Richie Sambora completamente fora da banda (ele saiu em 2013, no meio da turnê Because We Can) e substituído por Phil X, músico que já contribuiu com Orianthi, Avril Lavigne, Halestorm, Apocalyptica, Chris Cornell, Kelly Clarkson, Alice Cooper, Rob Zombie e vários outros. Apesar de ser um grande guitarrista, à altura da tarefa de substituir Sambora ao vivo e fazer todas as partes de guitarra imortalizadas por ele entre 1984 e 1994, Phil X tem poucas chances de mostrar o seu poder de fogo no álbum. Como a direção é mais indie, solos de guitarra são pouco valorizados. Então ele mostra o que sabe criando bases versáteis e interessantes – algo que faltava ao Bon Jovi nos últimos anos – em faixas como “Living With The Ghost”, “Born Again”, “Roller Coaster” e “New Year’s Day”.

É fácil perceber que a direção musical mudou. Você se pega ouvindo a voz de Jon Bon Jovi – uma das mais conhecidas e distintas da história do rock nos últimos 30 anos – em canções que poderiam ser do U2, do Kaiser Chiefs (antes de virarem pop), do The Killers, do Kings Of Leon e até do Mumford & Sons. Fica até parecendo que o álbum foi produzido pelo Markus Dravs. Mas não, o trabalho foi produzido pelo próprio vocalista e por John Shanks, que está com a banda desde Have A Nice Day (2005) e é o guitarrista base ao vivo do Bon Jovi desde então.

Jon não entrega mais os mesmos vocais que antigamente. É natural que, após 30 anos, sua voz não consiga subir tanto quanto antes. Mas isso não faz falta em This House Is Not For Sale, pois o cantor parece estar se divertindo bastante com suas novas músicas e entrega performances excelentes. Porém, tenha em mente que a atualização de som dele aqui é voltada para o indie rock. A interpretação em “The Devil’s In The Temple”, o refrão melodioso de “Roller Coaster”, e a forma como manipula a intensidade em “Labor Of Love” faz desta uma das melhores faixas do álbum.

A versão deluxe tem 17 faixas, o que é um tanto excessivo. Bon Jovi há vários anos não é capaz de fazer um disco em que cada música seja uma entidade por si só e tenha características únicas dentro de um álbum – algo que Lady Gaga recentemente fez muito bem em Joanne – e alonga muito o trabalho só aumenta a impressão de estar reutilizando ideias genéricas. A balada de piano “Real Love” seria o encerramento perfeito. Até ela, a banda conseguiu mandar bem seu recado sem precisar se repetir tanto. As quatro faixas restantes apenas aprofundam a experiência de Bon Jovi em um som diferente, com direito a uma faixa mais oitentista (“I Will Drive You Home”) e outro totalmente U2 (“Goodnight New York”).

A capa de This House Is Not For Sale é uma fotografia de Jerry Uelsmann mostrando uma casa antiga totalmente tomada por grandes e gordas raízes que a sustentam. Jon Bon Jovi disse que ficou inspirado pela fotografia vários anos antes da gravação do novo álbum, chegando a dizer que a foto “contou a nossa história”. Qualquer um que conheça um pouco da discografia da banda sabe que há muito tempo as raízes foram sendo cortadas. O mais recente disco mantém-se no terreno do rock, mas um rock muito diferente daquele que qualquer um reconhece como a grande contribuição da banda para o estilo. Contudo, ao vivo, Bon Jovi sempre confia em um caminhão de sucessos que fazem mais parte dos primeiros 10 anos do grupo do que dos 20 seguintes.

Mais do que em qualquer outro álbum, Jon Bon Jovi seguiu em frente de verdade dessa vez. Não espere a explosão ou a intensidade dramática de “Bed Of Roses”, “Always”, “Wanted Dead Or Alive” ou de qualquer outro clássico que você se lembre. É um trabalho divertido e com composições que funcionam. Mas esqueça as raízes.

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Warpaint – Heads Up (2016)

O segredo dessas quatro californianas está no jeito de tocar

Por Lucas Scaliza

Após o bem sucedido segundo álbum, o quarteto feminino Warpaint lança o terceiro trabalho com os mesmos elementos que o antecessor, mas esbanja mais confiança. E mais confiança, no caso delas, parece refletir segurança em fazer uma música que não seja milimetricamente planejada e dê muito espaço para percebermos que há muita espontaneidade.

Tanto quanto o tipo de som que a banda faz, que já está bem exemplificado em seus dois primeiros álbuns e EP de estreia, uma das marcas do Warpaint é a forma extremamente orgânica como soam as gravações de todos os instrumentos. Ao mesmo tempo em que tudo está em seu devido lugar, é possível perceber um certo “desleixo” por parte das instrumentistas. Mas não entenda desleixo como erro, e sim como uma forma de tocar bem própria delas que faz a gravação do álbum soar quase que como um ao vivo. E esse “desleixo” não é um prejuízo, e sim algo a mais para se ver na banda e aprender a gostar. Como se fosse um meio termo entre as Hinds e as Savages, as californianas do Warpaint são uma banda de rock que vão na contramão das superproduções.

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O processo de gravação e a ideia que norteou o projeto de Heads Up contribui para este resultado tão interessante. O produtor Jake Bercovici, que trabalhou com o quarteto em Exquisite Corpse (2008), coordenou o trabalho da banda no estúdio House on the Hill, no centro de Los Angeles, mas cada uma das integrantes pôde contribuir gravando algumas partes de músicas de suas próprias casas, com liberdade criativa. No final das contas, conseguiram não só manter o estilo que a banda já vinha desenvolvendo como também mostrar novas influências (algumas bastante literais). Assim, Heads Up soa um pouco mais consistente do que Warpaint (2014).

Embora tenha duas guitarristas na banda, Emily Kokal e Theresa Wayman, a guitarra manda muito menos nas faixas, sendo mais utilizadas para complementar os arranjos e algumas esquisitices do grupo. Difícil ouvir faixas como as ótimas “By Your Side”, “The Stall” e “Dre” e não lembrar do rock alternativo dos anos 90, quando a ambientação mais soturna das faixas era tão ou mais importante que a técnica musical da banda. “Witheout” lembra muito o Radiohead da fase Hail To The Thief (2003) e outras como “So Good” e principalmente “Don’t Let Go” são um perfeito exemplo de como a banda combina elementos mais acessíveis (como o refrão) a outros bem alternativos (como todo o resto da instrumentação).

“New Song” é o primeiro single do álbum e não é à toa. É a banda fazendo uma música mais acessível e regular com um refrão capaz de grudar no ouvido. “Above Control” é como uma versão Warpaint de uma música dos primeiros álbuns do New Order.

Se as guitarras têm menos presença na condução das músicas, sobra para a baixista Jenny Lee Lindberg e a baterista Stella Mozgawa mostrarem que são as instrumentistas definitivas de Heads Up. Embora Mozgawa tenha seus momentos, como em “Above Control” e “Don’t Let Go” e “By Your Side”, é Lindberg quem faz um trabalho ainda mais notável do que já tinha feito no registro anterior. Além de seu baixo segurar toda a base harmônica das canções do álbum para que as guitarras e os eventuais sintetizadores possam fazer suas mágicas, ele não se contenta em fazer apenas bases simples e dá um show de interpretação. Tire as frequências graves produzidas por Lindberg e Warpaint não será mais a mesma banda.

As meninas do Warpaint não perderam a veia indie original, mas fazem músicas que agora trazem algo mais divertido ao seu cenário noturno. Dá até para dançar uma ou outra faixa. Heads Up mostra que a banda está cada vez mais consciente do que pode fazer e ciente de que o jeito de tocar de cada uma é um dos maiores trunfos da banda, já influenciando diversos outros grupos desde 2014. E assim vão escrevendo seu nome no indie rock contemporâneo.

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Okkervil River – Away (2016)

Will Sheff deixa de lado a nostalgia e se dá bem com o folk

Por Lucas Scaliza

Assim como muda de formação, a banda americana Okkervil River pode mudar sua sonoridade. Mas nunca tinha se mostrado tão longe do rock de guitarras quanto em Away, oitavo disco da carreira e o mais folk de todos. A animação e progressão de acordes que davam um ar positivo à The Silver Gymnasium (2013) e I Am Very Far (2011) foi substituída por tons menores, passo mais lento e maior ênfase nas orquestrações e em arranjos bem produzidos.

Away é um reflexo direto das mudanças que a vida proporcionou a Will Sheff, o líder da banda, nos últimos anos. Entre os principais acontecimentos está a troca de membros da banda e a morte de seu avô. Ao escrever as músicas e passar por essas experiências, Sheff se viu trilhando um caminho em que era obrigado a deixar certas coisas para trás e dar espaço para um novo tipo de vida. No final das contas, letras e músicas do disco tentam dar forma a essa condição. Para ajuda-lo nessa empreitada, contou com a participação da cantora Marissa Nadler, da orquestra yMusic, do cantor Jonathan Meiburg (do Shearwater), e do produtor Jonathan Wilson (que produziu os dois discos de Father John Misty).

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Com músicas mais longas que o normal, Sheff e sua banda explora melhor o espaço para versos e para fraseados que vão surgindo ao longo das canções, sem pressa, criando uma música rica de arranjos e com variações de clima, mesmo nunca se distanciando da melancolia que busca explorar. Assim temos músicas tão gostosas como “Mary On a Wave”, tristes como “She Would Look For Me” e imaginativas como “Judey On a Street”, que talvez seja uma das melhores composições da banda, no melhor estilo Joanna Newsom. A intensa “Frontman In Heaven” e a acessível “The Industry” são menos melancólicas, mas não menos emotivas. Em “Frontman in Heaven” temos uma interpretação daquelas da parte de Will Sheff. Na frente do microfone ele não apenas canta, mas conta uma história como um Mark Kozelek (Sun Kil Moon) ou Nick Cave.

“Okkervil River R.I.P.” é uma linda e tranquila ode à banda de outrora, com outros companheiros, gente por quem Sheff ainda tem muita estima. Mas teve que se desfazer desse apego para poder continuar e se transformar em algo diferente. Já a simpática “Comes Indiana Through The Smoke”, uma música perfeita para ouvir durante uma viagem, é totalmente sobre seu avô, T. Holmes Bud Moore. Muito próximo a ele, escreveu grande parte do conceitual The Silver Gymnasium sentado no telhado da garagem dos avós. A faixa tem um trompete, instrumento que Moore tocava, e imagina sua morte como uma volta ao navio em que serviu durante a Segunda Guerra.

Assim como o conteúdo musical e lírico, a arte que apresenta Away é uma das capas de disco mais bonitas que vi este ano. É uma pintura de um artista de 77 anos chamado Tom Uttech e a primeira vez que não usam uma imagem criada por William Schaff (desta vez, Schaff fez apenas a tipografia na imagem). Uma capa com uma variedade de animais em uma típica paisagem americana que, embora não tenha a figura humana, deixa subentendida a ação do homem nos tocos de árvores. É o mesmo tipo de beleza que há em uma música como “Days Spent Floating (In The Halfebetween)”: bucólica e melancólica. Aliás, esta é a última faixa do disco e mais uma que cresce em nós conforme cresce sua instrumentação.

Se a história de sua própria infância era o mote do disco anterior, e toda a carga nostálgica que evocava em sons e versos, Away parece ser o contrário disso, buscando sensibilizar o ouvinte para o seu momento atual, para a empatia que pode ter hoje, com o presente, sem precisar ficar buscando conforto a todo momento nas referências do passado, do que já é conhecido e testado. Isso vale para toda a cultura que nos cerca e também para a arte de que usufruímos. Away pode até falar do passado, mas é ao hoje que responde e espera despertar a empatia em cada ouvinte com o tempo presente.

O próprio Will Sheff aprendeu a lidar com isso antes de propor o mesmo. “Cheguei ao ponto em que a nostalgia não me torturava mais ou me deixava obcecado. Era só diversão, uma animalzinho empalhado no canto, ao invés de um monstro gigante que me ameaçava arrancar meus membros. E aí eu fiquei, tipo, ‘O que vem depois e o que temos agora?’”, ele diz.

Away não é o que você esperava que o Okkervil River faria, mas é o álbum que você precisa para pisar no freio, relaxar, pensar em sua própria vida (a partir da vida de Sheff. Empatia, lembra?) e se deixar levar por uma vibe musical muito mais folk do que roqueira. É surpreendentemente bonito e sensível.

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Band Of Horses – Why Are You OK (2016)

Não é uma obra de arte, mas é um ótimo entretenimento

Por Lucas Scaliza

Depois de ouvir algumas vezes Why Your Are OK, novo disco do Band Of Horses, voltei a ouvir o disco de 2012, Mirage Rock. Se na época já pareceu um disco morno, interessante em partes mas não no todo, ficou parecendo ainda mais incompleto e até anêmico. Fica claro que o indie rock que a banda pretendia fazer funciona melhor quando tentam ser indies de verdade. Why Are You OK é um disco com coração, como era também o ótimo Infinite Arms (2010). Portanto, espere um ótimo novo trabalho da banda, com a mesma busca por profundidade emocional, mas com uma dose roqueira e country maior desta vez.

Ouvi o disco pela primeira vez no início de uma madrugada de sábado. Assim que a voz aveludada de Ben Bridwell começou a acompanhar os acordes de “Dull Times/The Moon” me entreguei às vibrações do som, muito parecidas com o David Gilmour de On An Island (2006), aliás, em que o ritmo lento das guitarras lembra as ondas do mar quebrando sobre seu corpo e fazendo-o balançar com a gravidade alterada da água. (E aqui vai um cumprimento para @o_eder que teve a mesma sensação que eu).

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Apesar de ser uma banda formada em Seattle, o sul dos Estados Unidos está presente a todo momento, seja na dicção do cantor e líder da banda ou na forma como o country encontra um meio de emergir ao longo do disco. E um disco que já começa com uma preciosidade como “Dull Times/The Moon” faz o ouvinte querer continuar neste estado de deleite por mais tempo. (E o pedido é atendido, pois a faixa de abertura tem o dobro de tempo de duração do que uma faixa normal gravada pela banda).

As 11 faixas seguintes vão alternando entre doses maiores de indie rock e canções que buscam aquela profundidade sonora feita para tocar o ouvinte. Guitarras mais encorpadas em “Solemn Oath”, o ritmo Belle And Sebastian de “Casual Party” e a divertida e oitentista “In a Drawer” mostram a banda fazendo um som de fácil assimilação, mas sem soar comercial demais.

“Hag”, simples e tão emocionalmente comovente como a faixa de abertura do álbum, não é uma composição perfeita, mas Bridwell acertou em cheio ao apostar em dedilhados esparsos e atmosfera. O tema instrumental é, de longe, um dos momentos mais marcantes de Why Are You OK. Fica claro que a produção de Jason Lytle (do Grandaddy) fez diferença. Ele não mudou o rumo da banda, mas com certeza deu mais perspectiva ao lado criativo do álbum, fazendo-o soar ora simples e bonito, ora simples e ousado, um equilíbrio que faltava em Mirage Rock.

As soundscapes de Lytle permeiam tudo. Desde uma balada lenta e gostosinha como “Lying Under Oak” até uma valsinha inocente e sulista como “Whatever, Wherever”. “Even Stills”, uma faixa composta em grande parte por camadas sonoras criadas por teclados, coroa essa parceria entre produtor e banda. Mesmo as canções country do álbum (“Throw My Mess” e “Country Teen”) apresentam detalhes de produção que atestam a um só tempo que trata-se de uma banda indie e de um produtor mais viajado no comando. Repare como o solo de “Country Girl” tem laivos de psicodelia e nos efeitos de guitarra de “Throw My Mess”, assim como uma peculiar virada de bateria aos 2’03”).

Muito menos deslumbrado com o mundo dos festivais do que o álbum anterior, Why Are You OK é um disco que deverá durar na discografia da banda tanto quanto Infinite Arms. Faixas como “Dull Times” e “Hag” conseguem realmente fisgar o ouvinte e deixá-lo dentro de uma bolha de sentimentos, mas não é esse o intuito do álbum quando pensado no total de suas 12 músicas. Ainda é um entretenimento, o indie rock em sua forma menos engajada, e só em alguns momentos consegue emergir com um sentimento mais palpável traduzido em música. É por isso que, embora um bom álbum, ainda não é uma obra de arte completa.

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Band Of Skulls – By Default (2016)

Direto e bastante cativante, trio inglês começa a flertar com novos estilos

Por Lucas Scaliza

By Default é um disco de rock feito por uma banda de rock. Mas não tem só rock e a banda se dá bem incorporando outros estilos que não são só o rock. Além disso, é um álbum que amalgama as qualidades demonstradas nos últimos dois discos do trio inglês de Southampton. Por um lado temos as guitarras cortantes e riffs poderosos que eles mostraram que sabiam fazer em Sweet Sour (2012), como fica claro logo de cara na ótima “Black Magic” e o single “Killer”; de outro temos aquele rock’n’roll bem animado, direto e bem feito que deu o tom de Himalayan (2014), como fica claro cedo também, com a faixa “Back of Beyond”  e “Bodies”. Tudo isso já nos primeiros 12 minutos de play.

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Em termos de power trio, eles mostram um poder de fogo comparável ao do Muse (mas sem todo aquela vibe cinematográfica e futurista) e principalmente ao do The Joy Formidable. A guitarra de Russel Marsden rasga as faixas e soa encorpada, mas sem perder o timbre característico das guitarras Fender. O baixo de Emma Richardson vá dos riffs stoner rock à bases consistentes, dando suporte à guitarra de Marsden mas também se desvencilhando dela sempre que possível e sempre mantendo seu som bastante aparente na mixagem. A bateria de Matt Hayward é o primeiro instrumento que ouvimos em By Default e também um dos mais marcantes. Ele não é um baterista de progressivo, mas sabe fazer levadas inspiradas para o som da banda e mostra pegada de sobra até quando não precisa de força ou velocidade. Acaba sendo um excelente parceiro de cozinha para Richardson.

Um dos trunfos do álbum é parecer confiante o suficiente para propor faixas diferentes, mesmo que calcadas no rock. Ainda temos a saturada “This Is My Fix”, o refrão intenso de “Embers” e o rock de “Little Mamma”, mais na praia do The Black Keys. Assim, a porção mais roqueira do álbum se completa sabendo variar o humor de suas faixas, como outras bandas mais maduras fazem, conseguindo fugir das composições que estariam ali só para preencher espaço.

Mas o que há de novo em By Default é a aposta em outras sonoridades e como ela soa corajosa e adequada à proposta. “Tropica Disease” é o Band of Skulls tocando bossa nova com vibe roqueira e direito a um solo de teclado e condução segura de Hayward nas baquetas. Após fazer tantos bons backing vocals, Emma Richardson assume a liderança vocal em “So Good”, um dance setentista bastante orgânico que soa como o pop/rock da La Roux. “In Love By Default” se permite criar uma atmosfera diferente do resto do álbum, trocando o overdrive da guitarra de Marsden por um efeito mais etéreo que preenche a harmonia da música como um véu. Marsden até se permite cantar a faixa de um jeito mais rapeado, trazendo mais um estilo para dentro da banda e sem parecer forçado. “Erounds” aposta nas harmonias vocais e no clima das bandas new wave dos anos 1980. Fica claro nessa faixa que é a parceria vocal entre Marsden e Emma o que torna o som do Band Of Skull diferente de outras bandas que também apostam no rock retrô dos últimos anos.

By Default evita ser idêntico aos álbuns passados e varia de forma inteligente a sonoridade, fugindo do paralelismo entre rock fuzz e baladas meigas que povoavam Sweet Sour. Percebendo que o rock retrô pode estar com os dias contados – ou pelo menos já não é tão novo assim –, a banda fez um disco mais diverso que pode prepara-los para um passo mais fundo na mudança sonora. Não parece que vão abandonar o rock, apenas tentar uma abordagem nova. Até essa suposta mudança, By Default é básico, direto e, ainda assim, bastante cativante.

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