jazz brasileiro

Pó de Café Quarteto – Terra (2017)

O diálogo do jazz com a cultura caipira contemporânea

por brunochair

O Pó de Café Quarteto, grupo de jazz do interior paulista (Ribeirão Preto) que comemora dez anos de união em 2017, lançou recentemente o seu terceiro álbum da carreira, Terra. O disco é composto por nove músicas, sendo algumas delas releituras do cancioneiro popular sertanejo, como “Rei do Gado”, “Rio de Lágrimas”, “O Menino da Porteira” e “Tristeza do Jeca”. Os integrantes do grupo (Bruno Barbosa, no contrabaixo; Rubinho Antunes, no trompete; Duda Lazarini na bateria; Murilo Barbosa, no piano; e Marcelo Toledo, no saxofone) partem da ideia principal, do clima destas conhecidas músicas e as reelaboram, utilizando também a temática do jazz, mas não apenas no jazz.

Vale ressaltar que, nos dois discos anteriores, o Pó de Café Quarteto já se destacava por transitar nos diferentes gêneros musicais: samba, salsa, funk e outros ritmos latinos. E faz isso não como obrigação, mas como se estivesse no DNA de todos os músicos do grupo – ouvir e agir através de outros estilos, outros gêneros, novas formas de se fazer. O nível de pesquisa e comprometimento com a música contemporânea é notadamente sentido nos três álbuns. Porém, neste disco novo o tema caipira e sertanejo se faz muito mais presente do que os outros estilos citados.

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Terra apresenta (sim) essa identidade interiorana e caipira, mas já adaptado aos novos tempos. Não temos mais aquela inocência da vida no campo, nem tanto os causos de outrora, mas um ambiente um tanto hostil das grandes cidades. Essa transição campo/cidade é (ou foi) um tanto melancólica para quem esteve inserido nela, e provavelmente o Pó de Café Quarteto quis retratar um pouco desse sentimento em seus temas. A própria “Rei do Gado”, que abre o disco, parece trazer o relato do declínio desta figura mítica dos rincões brasileiros, que hoje não está condicionado mais a um símbolo de bravura ou virilidade: é apenas um homem de negócios, uma peça inserida no modo de produção capitalista. “Tristeza do Jeca” já contém na música original esta melancolia, e reproduzir (no tema) o fragmento mais conhecido da música já faz termos contato com essa perda, esse elo que não mais existe, esse banzo.

A interconexão entre jazz e música caipira é bastante notada, mas fica muito evidente na última canção do disco, “Caipira Coffee”. A presença da viola de Ricardo Matsuda abrilhanta e dá um novo corpo a ela, sendo uma participação mais que especial. Em “Terra”, faixa que dá nome ao álbum, a viola também aparece aqui e ali. E, por conta da viola ser um elemento tão rico e tradutor deste universo caipira, a impressão que temos é que o álbum poderia contar, tranquilamente, com outras músicas em que o instrumento fosse protagonista. O trabalho de percussão de Neto Braz também é relevante e enriquecedor.

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O jazz, oriundo lá dos Estados Unidos, ganhou proporções universais. Em cada canto do mundo, ele é reelaborado a partir da junção com tantos outros estilos musicais. No Brasil, a cultura caipira é um elemento rico em significações. Reunir estes dois estilos musicais e culturais é agradar aos ouvidos e sentimentos dos amantes de música, sem qualquer distinção étnica, de nacionalidade, de gênero ou credo. É dar sentido a arte e seus elementos. E, por conta desses fatores, o trabalho do Pó de Café Quarteto precisa ser elogiado, por representar esse diálogo, tão rico e fundamental no universo da música.

Philippe Baden Powell, Rubinho Antunes, Daniel de Paula, Bruno Barbosa – Ludere (2016)

Do lúdico à ilusão

por brunochair

Gravado em apenas uma tarde em estúdio, Ludere foi pensado por Philippe Baden Powell (piano) e Rubinho Antunes (trompete). A ideia do álbum surgiu quando Philippe passava alguns dias de férias no Brasil, e ele e Rubinho (amigos de longa data) começaram a trocar impressões sobre suas últimas composições. Perceberam que havia ali algo próximo entre elas, que poderia resultar em um disco, um conceito. Ludere. Para dar conta deste sério desafio de transformar música em ludismo, convidaram Daniel de Paula (baterista) e Bruno Barbosa (contrabaixo).

Ludere, no latim clássico, traz duas significações: uma delas (a mais comum) é a do jogo, da brincadeira, portanto do lúdico; a outra possível é a de enganar – mas não a enganação da qual estamos tão acostumados e fartos, mas algo que também remete àquela travessura de criança, como a de provocar a ilusão, esconder-se e pregar um susto em alguém, ou qualquer outra situação que envolva a troça, o riso fácil.

O desafio destes quatro músicos foi desenvolver uma sonoridade que pudesse remeter ao lúdico, ao Ludere. Um desafio que se alcança brincando? Não, não. Fruto de muita seriedade e dotados de experiência em jazz, música experimental e incontáveis estilos, os músicos Philippe Baden Powell, Rubinho Antunes, Daniel de Paula e Bruno Barbosa desfiam e jogam através de ritmos, acordes, harmonias e improvisações.

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Porém, quando se ouve o disco e se tem a possibilidade de assisti-los ao vivo, somos tomados pelo espírito lúdico que está nas sete canções do álbum. A seriedade alcançou o lúdico? Sim. O que se vê são quatro músicos brincando no palco, divertindo-se, fazendo o que gostam e levando o público à mesma comunhão. Aos ouvintes, cada canção do álbum funciona como o desembrulhar de um presente – a expectativa do que seja, a surpresa, o momento de saborear o novo brinquedo pelos instantes que parecem ser o sentido de tudo.

Ao mesmo tempo, Ludere tem seus artifícios de ilusão. Sobretudo ao vivo, o deslumbramento que estes quatro músicos conseguem aplicar na plateia tem algo de mágico. O tema principal, o revezamento no protagonismo dos solos, o desenvolvimento prazeroso, o inesperado do clímax, os fins de música que anunciam estar chegando ao fim e acabam por não continuar (“Garfield”), eis alguns dos artifícios do álbum.

Sete são as músicas que compõem o disco. “Garfield”, já mencionada, foi composta por Philippe Baden Powell para sua filha. Para que ela começasse a se interessar por jazz, afinal. “Elegy For Brad” é uma lindíssima canção, funciona muito bem ao vivo e é de Rubinho Antunes – canção feita por ele em referência ao pianista Brad Mehdal, músico bastante apreciado pelo grupo. “Salseiro” e “Saveiros” possuem uma proximidade com ritmos brasileiros. “Caqui” é composição de Bruno Barbosa, trazida para o álbum por se encaixar no conceito do álbum.

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E Ludere assim se fez, construído na base do lúdico e da mágica, do deslumbramento. É fazer música com qualidade e a seriedade, mas nunca se esquecendo da simplicidade, de divertir-se ao fazer, de provocar aquela alegria mais genuína. Ludere nos faz lembrar que é preciso levar a vida a sério, mas nem tanto.