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Miles Mosley – Uprising (2017)

Um dos melhores do ano! Uma coleção de boas pedidas soul, jazz e funk

Por Gabriel Sacramento

Se você acompanha o Escuta Essa Review, sabe o impacto que The Epic do Kamasi Washington causou quando lançado em 2015. O disco trouxe uma abordagem tipicamente moderna do jazz e que os jazzistas deste século podem chamar para si com orgulho, de uma força e espontaneidade quase sobrenaturais. Mas Kamasi não estava sozinho quando criou o álbum. Junto com ele, trabalharam juntos outros músicos que estão igualmente comprometidos em fazer o jazz soar rico, poderoso e sair do cubículo de nicho, alcançando mais pessoas. São eles os integrantes do West Coast Get Down, grupo de Los Angeles composto por Ryan Porter, Tony Austin, Miles Mosley, Cameron Graves, Ronald Bruner Jr. (irmão do Thundercat) e Brandon Coleman.

O grupo fez várias jams e gerou vários álbuns que saíram como álbuns solo dos integrantes e não como álbuns do grupo. São eles o do Cameron Graves, Ronald Bruner, Thundercat e o do Miles Mosley, objeto desta resenha. Fora, é claro, o épico do Kamasi. Destes todos, Uprising, do Mosley, é o mais acessível para os não conectados na jazzaria de LA, agregando amigavelmente outros elementos de soul, funk e tornando a música um caldeirão de referências que não soa como um conjunto de colagens, mas algo mais coeso que isso.

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Miles Mosley é baixista, vocalista e já tocou em álbuns de gente famosa e respeitada como Chris Cornell, Joni Mitchell, Jeff Beck, Cristina Aguilera e Kendrick Lamar. Toca baixo acústico, em contextos que pedem uma abordagem elétrica, mas se sai bem. Além dessas cooperações e do WCGD, Mosley tem seu trabalho solo, um projeto chamado BFI com o baterista Tony Austin e é membro da banda solo do Jonathan Davis, do Korn. (Não está fácil ser músico nem aqui, nem em LA, daí a necessidade de centenas de projetos).

Agora vamos para o tradicional detalhamento das faixas. Começamos falando das melhores do álbum: “Abraham” e “Heartbreaking Efforts of Others”. A primeira com um delicioso riff de piano que dá o ritmo, enquanto baixo e bateria pontuam notas. No entanto, a bateria de Austin se desenvolve de uma maneira espetacular no desenrolar da faixa, com seu estilo criativo e inquieto de complementar as levadas. Já a segunda começa calminha e cai no maravilhoso refrão quando menos esperamos. Os versos possuem uma interpretação soulful de Mosley, que dita o suingue sem precisar de outros instrumentos de reforço. Temos um ótimo solo de baixo ainda, com harmônicos e wah-wah, técnicas vanguardistas até demais se você considerar que ele toca um baixo acústico. Só por essas duas, você já teria motivos suficiente para adorar este álbum, mas se quiser mais motivos, temos: o soul/funk de “LA Won’t Bring You Down” – com direito à participação ativa dos metais e do órgão -, o soul alegre de “Shadow of Doubt”, os solos e a timbragem diferentona do baixo em “Tuning Out” e as influências latinas de “Young Lion” e “Fire”.

Uprising é um álbum que merece a compra da cópia física. Tenha-o em suas mãos, guarde em sua prateleira, depois tire para olhar a ficha técnica fantástica e acompanhar o álbum com as letras. Completo talvez seja uma boa palavra para descrever este trabalho, que apresenta nuances diversas e passeia pelo riquíssimo universo de referências do jazz e da música negra americana. Um discão para proporcionar uma experiência viciante.

Isso ocorre em grande parte porque Mosley é um baixista virtuoso, mas é também um vocalista ágil. Sua voz aqui preenche todas as lacunas e trabalha bem para cumprir o objetivo proposto. Seus solos malucos de baixo, nos quais ele alterna o arco com os dedos, junto com as performances sempre acima da média de Tony Austin, fazem a cozinha ser sim a parte mais especial da casa, bela e a mais funcional. Mas é impossível resenhar um disco dessa galera sem falar bem de todos os integrantes. É perfeita a sinergia deles e como se esforçam para favorecer as canções, independente da proposta. Se em propostas mais malucas, como as do The Epic e as do Cameron Graves, eles se dão bem, aqui, em uma que favorece a acessibilidade, os músicos se adequam muito bem também.

Se a ideia de Kamasi no seu disco foi fazer algo mais espiritual, Mosley fica com a parte secular/mundana, abordando as efemeridades e engrandecendo os aspectos cotidianos da vida. É assim quando ele fala de vencer em meio à dificuldades em “Abraham” ou de simplesmente encontrar a força pra levantar pela manhã em “Shadow of Doubt”. Aliás, outro desses aspectos cotidianos é a necessidade de um som que fale diretamente, sem rodeios e/ou muitos floreios instrumentais e líricos. Mosley entrega isso, com um som ideal para unir públicos, encantá-los e fazê-los se mexer. Uma das melhores produções musicais do ano, com certeza.

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Oddisee – The Iceberg (2017)

Mais um grande disco de hip-hop fora dos estereótipos do estilo

Por Gabriel Sacramento

Na resenha de RTJ 3, do duo Run The Jewels, você leu que o hip hop tem sido palco de muitas manifestações de pensamento de forma incisiva e contundente. Mais até do que o rock e, acrescento agora também o R&B, que também tem revelado artistas que não tem medo de falar e de tocar na ferida da sociedade. Mesmo que ainda tenhamos muitos músicos acomodados em suas fórmulas para fazer sucesso, muitos outros têm mostrado indignação com questões sociais e políticas.

Esse é um dos fatores mais interessantes acerca do rapper Amir Mohamed el Khalifa, conhecido como Oddisee. Muçulmano, morando nos Estados Unidos, mas de família sudanesa, o jovem tem muito a dizer e não se esconde: com seu flow ágil, encaixa rimas com significado, levando os ouvintes à reflexão acerca do cenário social do seu país. E o melhor: tudo isso do seu ponto de vista. O outro fator que chama a atenção é o fato de ele prezar por uma forma de hip hop analógica, unindo jazz, R&B, soul e outros estilos. Dá para perceber a dinâmica causada pela mão dos músicos tocando seus instrumentos.

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“Digging Deep” abre com um groove certeiro, uma performance enérgica de bateria, teclado ao fundo e o rap típico do Oddisee. “Things” segue na mesma linha, com um refrão bem interessante também e bem R&B. A faixa traz uma ótima reflexão acerca da nossa capacidade de individualizar nossas experiências como se fôssemos os únicos a enfrentar situações difíceis. Nas palavras do próprio rapper: “é sobre como nós nos colocamos no centro do universo e damos importância somente ao que nos interessa”. Em “Hold it Back”, o rapper toca na questão da diferença de salários entre homens e mulheres e ironiza a constante luta em “NNGE”, dizendo: “O que temer, eu sou da América negra, é só mais um ano”.

Já em “Like Really”, ele questiona: “Porque um irmão pega três anos por drogas, enquanto seu irmão sai impune por estuprar?”. O objetivo do rapper não é fazer apologia às drogas, mas sim questionar duramente a ineficiência jurídica. Mas ele também cutuca Trump: “Como você vai nos fazer grandes de novo se nunca fomos tão bons?”. “Want To Be” é dançante e com um refrão direto: “Eu só quero ser feliz, só quero ser livre, só quero ficar em paz”. Em “Rain Dance”, ele fala sobre ser um artista, um homem casado e até demonstra alguma positividade, falando sobre nuvens escuras que apenas anunciam a chuva e trazem crescimento às sementes – o que é algo bom, no final das contas.

Quando perguntado sobre suas influências, percebemos que Oddisee realmente é um artista diferenciado. Ele respondeu que curte grupos como De La Soul e A Tribe Called Quest, que não falam sobre drogas e assassinatos e por isso ele se relaciona melhor com suas letras. Mas vemos que a influência não é somente quanto às letras, mas quanto à musicalidade também, com a união do hip hop com outros estilos como o jazz. A banda que acompanha o Oddisee faz o rap ser tão bem ambientado sobre as bases jazzísticas quanto o BadBadNotGood emula um bom hip hop old school.

Fazer hip hop inteligente, tanto musical quanto liricamente, é o objetivo deste talentoso músico. Suas raízes e lutas pela vida no país onde vive o inspiram e o fazem querer ir além e fazer algo que realmente impressione. Suas letras são duras, críticas diretas, mostrando que ele realmente está comprometido com o desejo de mudança, não se conformando com as coisas do jeito que estão. Em The Iceberg, ele acerta a mão mais uma vez, continuando o bom trabalho que vem desenvolvendo em sua carreira há anos.

Se rappers como Rick Ross continuam com a temática gangsta durante tanto tempo, Oddisee mostra que é possível pensar em ramificações. O rapper e os outros grupos já citados são fundamentais para nos fazer entender que o gênero vai muito além de beats, samples e papo sobre drogas e sexo. Pode ser aberto à experimentações musicais, ferramenta de crítica social, expressão de pensamento e até voz de uma iminente revolução.

The Iceberg é isso. O disco é excelente, mas ainda assim só a ponta do iceberg que é a discografia de Oddisee. Recomendo que conheça seus outros trabalhos também. Ouça, leia as letras e reflita.

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Kneebody – Anti-Hero (2017)

Quinteto aprofunda a relação entre o jazz e o rock progressivo

Por Gabriel Sacramento

Sabe o rock progressivo? Diante de todas as características do estilo, vamos nos ater à ideia da palavra “progressivo”. Para mim, amparado inclusive pelo seu significado no dicionário, o “progressivo” do rock progressivo refere-se, entre outras coisas, a uma forma de música dividida em seções, em que cada seção subsequente acrescenta sentido à anterior, enriquecendo ainda mais a experiência auditiva e conferindo assim a ideia de “progressão”. Os californianos do Kneebody reforçam esse conceito e trazem um grande tratado musical sobre isso.

Se você já leu sobre isso, sabe que o rock progressivo surgiu agregando influências de música clássica e jazz fusion. Essa forma de jazz, assim como a música progressiva, apresenta diferentes climas, arranjos bem elaborados e uma forte ênfase nas “seções” de cada faixa. O quinteto Kneebody é formado por Adam Benjamin (teclados), Shane Endsley (trompete), Ben Wendel (sax tenor), Kaveh Rastegar (baixo) e Nate Wood (bateria). Eles aprofundam essa relação entre o progressivo e o jazz, expandindo os limites da própria musicalidade, principalmente neste novo álbum, Anti-Hero.

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Os temas instrumentais são fortemente conectados, trazem um alto grau de complexidade, mas também uma preocupação com o lado mais atraente do som. Talvez não seja para todos os ouvidos, mas recompensa grandemente os ouvintes que estiverem dispostos a passarem pela experiência.

“Uprising” apresenta outra das características marcantes da banda: a utilização de distorção. Eles a utilizam para engordar os riffs, deixando tudo com uma veia roqueira notável, mesmo que não seja rock necessariamente. “Drum Battle” é uma jam de dez minutos, viajante, alternativa e progressiva. Vai de passagens mais “ambientes” à seções super intrincadas, com tempos complexos e ênfase na bateria. O ótimo riff de “The Ballonist” vai ficar na sua cabeça e as notas rápidas de sax em “Yes You” vão te deixar louco. No entanto, tanto a insanidade tresloucada cheia de notas quanto à riffaria pesada se unem harmonicamente para formar a identidade destes cinco músicos.

Neste conjunto de sensações, o quinteto faz a audição valer a pena. Piano, bateria, sax tenor, trompete e baixo se unem para executar as ótimas canções com timbragens precisas para a proposta e com cada instrumentista apresentando a flexibilidade necessária para os diversos solos e arranjos. Eles estabelecem uma saudável comunicação entre algo do rock progressivo e o fusion, sem fugir da ideia de ser essencialmente jazzístico e de ser, vez ou outra, climático. Também são bem dinâmicos, rejeitando a mesmice, explorando nuances diferentes e trabalhando bem a coesão entre elas.

Por essas e outras, o Kneebody, assim como diversos outros nomes, como o Donny McCaslin, Kamasi Washington e Snarky Puppy, anunciam o melhor do jazz instrumental no século XXI. Os conceitos do estilo se mantêm fortes, incisivos, mostrando que com o tempo, o gênero amadureceu, evoluiu e os artistas estão sabendo como aplicá-los à atualidade. Discos e carreiras tão interessantes nos deixam esperançosos para o futuro do estilo e nos fazem crer que trabalhos ainda mais frutíferos estão por vir.

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Thundercat – Drunk (2017)

Com jazz canibal e nível de detalhe absurdo, Thundercat propõe viagem bêbada guiada por Jesus

Por Lucas Scaliza

Drunk, sensacional desde a capa (que mais parece um meme), deixa de lado a vanguarda mais sisuda de Thundercat exercitada no EP The Beyond/Where The Giants Roam (2015) e no segundo disco, Apocalypse (2013), para voltar a uma música mais parecida com a apresentada em sua estreia solo, The Golden Age Of Apocalypse (2011). Trabalhando ao lado do competente produtor Flying Lotus, que entende tanto de jazz, hip hop, música eletrônica quanto de Thundercat, conseguiu criar uma jornada por 23 faixas em que até mesmo o que na mão de quaisquer outros artistas seria uma vinheta, para eles têm um nível de detalhamento absurdo.

Fica claro à primeira audição que o feeling do álbum é mais divertido, brincalhão e até mais leve uma porção de vezes. Passagens como a saída do baixista Stephen Bruner (o próprio Thundercat) bêbado da boate e confiado em Jesus para guia-lo de carro de volta para casa (em “Captain Stupido”), sua jornada turística por Tóquio (“Tokyo”) ou a música dedicada a seu gato Tron rendem boas risadas. Mesmo uma música mais crítica como “Bus In These Streets” (sobre nossa obsessão por telas e conexão o tempo todo) é contada com um R&B mais tranquilo. O mesmo vale para “Show You The Way”, uma incursão mais pop do músico pelo buraco do coelho de sua jornada chapada, e “Drink Dat”, talvez a faixa mais acessível do trabalho.

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Embora o seu lado jazzista não esteja muito explícito no gênero que norteia as faixas de Drunk, está nos detalhes de quase todas as faixas. Uma audição desatenta dessa coleção de faixas curtinhas do álbum pode levar a pensar que a música de Bruner está menos ousada, mas o caso é que o endiabrado virtuoso americano propõe um estilo de composição em que usa faixas menores para mostrar uma quantidade maior de ideias diferentes. E como baixista de mão cheia – que sempre aparece portando seu enorme baixo de seis cordas – ele espalha por todo o disco momentos progressivos que lembram muito a estilo de músicos como o também baixista Evan Brewer (“A Fan’s Mail”, “Where I’m Going” e a virtuosa “Uh Uh”) e uns compassos complicados que fariam Frank Zappa admirá-lo (“Blackkk”).

A qualidade sonora do álbum como um todo será bastante familiar para quem o acompanha. Os grooves, os solos com notas estraladas, os incríveis arpejos (como em “Lava Lamp”, “Jethro”, “Inferno”, “3 AM”, “I Am Crazy”), as batidas abafadas, a voz suave, os falsetes e aquela textura de música levemente viajante com timbres vintage permanecem.

Thundercat, que por muito tempo foi um músico de estúdio e ao vivo para diversos grupos diferentes (de Erykah Badu a Suicidal Tendencies, passando por Kendrick Lamar e o próprio FlyLo), adquiriu a habilidade de fazer músicas que possuem elementos de vários estilos (funk, soul, hip hop, pop, rock e jazz) sem necessariamente ficar preso a um deles. Uma música como “Them Changes”, por exemplo,poderá passar como um R&B pop para quem tiver ouvidos apenas para sua melodia de voz. Mas e aquelas duas camadas de sons lânguidos pulsando em sua base junto com mais dois tipos de batidas? “Friend Zone”, extremamente bem produzida por Mono/Poly, é mais acessível, mas conserva ainda um tanto de elementos estranhos na mixagem. “The Turn Down”, com Pharrell Williams, tem batidas regulares e harmonia marcada pelo baixo, mas há uma massa musical cinzenta abstrata rolando entre as vozes e as batidas, resultado de uma pesada manipulação de sons que antes eram “normais”.

O diabo mora nos detalhes. E é nessas diabruras que Drunk vai revelando suas intenções musicais. Fica também a forte impressão de que em grande parte das faixas, Thundercat priorizou a criação harmônica e as levadas em seu baixo, e só depois pensou em como encaixaria letra ou melodia de voz ali, tal é o apreço pela música, a sofisticação de sua produção e a quantidade de novos fraseados que vão constantemente aparecendo (a escala ascendente e descendente em “Friend Zone” pode muito bem ser a versão gamer de Bruner para o tema de introdução da série Final Fantasy, repararam?).

Vale dizer também que não é só diversão a vida de uma pessoa bêbada. Apesar dos miados mais melódicos que o soul já viu e das referências nerds ao Goku, ao Capitão Planeta e ao Diablo, Thundercat encontra espaço para refletir sobre a morte e a falta de alguém, fala sobre a violência policial contra negros (“Jameel’s Space Ride”), aquele sentimento acachapante de não saber qual será o próximo passo de sua vida (“Where I’m Going?”) e fala do medo que pessoas têm da diversidade e cita o movimento Black Lives Matter com um par de bons versos: “Se todas as vidas importam, por que engasga quando cita os negros? Atrás de nosso céu azul fica o sol, cercado pelo escuro”.

Drunk diz menos sobre o estado etílico de Thundercat e mais sobre a forma como fermentou suas composições. É, de fato, um desses discos em que citar apenas um estilo musical não dá conta direito de descrever nem uma canção. Mostrando muita substância com faixas curtas – e outras minúsculas –, o baixista mostra que o jazz é sim uma metodologia e, melhor do que o personagem de John Legend em La La Land, mostra o jazz com uma pegada do futuro e textura retrô.

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The Necks – Unfold (2017)

Cacofonia e mistério na terra do jazz e da música abstrata

Por Lucas Scaliza

A sonoridade de Unfold é curiosa. É para quem sente prazer texturas nas ondas do som que se propagam pela materialidade do espaço. Para quem se arrepia com o som de cacos de vidro sendo juntados; para quem curte dormir ao som da chuva; para quem nota o ritmo oculto produzido por um trem em marcha; para quem vê beleza na cacofonia da metrópole ou do hotel; e para quem aprecia os mistérios do jazz.

O jazz é minimalista e vai se revelando aos poucos, bem aos poucos, já que o trio de músicos australianos do The Necks se dão espaço de sobra. Com quatro faixas, a menor música de Unfold tem 15 minutos. A maior, quase 22. “Rise” dá espaço para o piano de Chris Abrahams e para a bateria de Tony Buck, enquanto o baixo de Lloyd Swanton reforce as nuances ambientais da composição. Em “Overhear”, Abrahams troca de teclas, preferindo improvisar no órgão Hammond. “Blue Mountain” aprofunda o mistério, conforme Abrahams volta ao piano e novamente temos notas longas de sintetizador soando ao fundo, como uma presença pinlfloydiana. Sem pressa, carregando um pouco mais nas tintas, a música enfim emerge. Ainda experimental, mas menos contaminada pelos ruídos ambientais. Uma transição linda de se ouvir.

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“Timepiece” é a conclusão dessa jornada sonora. O jazz que era notório nas três primeiras faixas abre espaço para uma construção de paisagem sonora mais hermética e ambientação mais densa. O mistério volta, mas deixa o espaço urbano ou doméstico e nos joga numa selva ou aldeia. Elementos étnicos tomam conta da faixa (graças à percussão interessantíssima de Buck), e a inquietação fica cada vez mais intensa, como se um ritual estivesse em andamento ao seu redor. Seja forte!

Em Unfold temos um gênero musical – o jazz – sendo usado como elemento de ambiência, e a música ambiente dando forma ao jazz. É um experimento que busca testar os limites de ambos. No final das contas, o jazz acaba engolido e absorvido no mundo criado pelo trio australiano para Unfold, a 15ª vez em que o abstrato e o material colidem espetacularmente na discografia da banda.

La La Land – a trilha sonora de Justin Hurwitz (2016)

Musical é todo retrô e usa os clichês do jazz no cinema, mas Hurwitz e Chazelle sabem como fazer funcionar

Por Lucas Scaliza

Do primeiro ao último frame, La La Land – Cantando Estações (2016) é uma homenagem ao cinema e ao musical, assim como mais um reforço do que a cidade de Los Angeles inspira em seus habitantes. O filme tem sua própria trajetória original, mas no caminho paga tributo para produções da Europa e de Hollywood incontáveis vezes, seja em passos de dança, na cenografia, na iluminação, em determinados ângulos de câmera e até em uma surreal e sonhadora valsa por um céu estrelado.

Fred Astaire, Ginger Rogers, Gene Kelly, Sinfonia de Paris (1951), Ritmo Louco (1936), Cantando na Chuva (1952), Duas Garotas Românticas (1967), Grease (1978), Amor, Sublime Amor (1961), Give a Girl a Break (1953), Eu Sou Cuba (1964), Dança Comigo? (1957), A Bela Adormecida (1959) e ainda outros, estão todos representados no filme do jovem Damien Chazelle (diretor de Whiplash). Ao invés de dissecarmos como cada cena remete a esses filmes, o vídeo abaixo vai mostrar para vocês, dando uma boa introduzida no que consiste o filme, tanto uma produção original por si só, quanto uma colcha de retalhos de referências ao passado.

E também da primeira a última cena, La La Land (com 14 indicações ao Oscar, sendo o 3º filme da história da premiação a conseguir tal reconhecimento) é retrô. A história de Mia (Emma Stone) – atendente em uma cafeteria dentro da Warner que quer ser atriz – e Sebastian (Ryan Gosling) – um virtuoso jazzista que pena para conciliar a necessidade de trabalhar com o sonho de trabalhar com o jazz que realmente importa para ele – se passa na Los Angeles atual, mas o filme retrata a cidade quase como um espaço atemporal: carros de 2016 dividem espaço com modelos de 1970 e 1950, celulares convivem com vinis, a obsessiva paleta de cores reproduzem o esquema tecnicolor e os figurinos combinam cores e cortes casuais e luxuosos que reconhecemos de nossos álbuns de família. Mia, aliás, viu muitos filmes antigos junto de uma tia. E Sebastian ainda tem um toca-fitas no carro. Chazelle não faz com que essas referências temporais entrem em choque. Na verdade, tudo está em perfeita sintonia e harmonia.

Faz sentido, pois a Los Angeles de hoje, que fascina as pessoas pelos sonhos que pode conter e que promete a quem chega até ela cheio(a) de esperança, é a mesma desde a década de 1920 nesse sentido, mantendo Hollywood como o centro gravitacional que gera essa atração de artistas e aspirantes a artistas.

A música da trilha sonora do filme joga com essas mesmas cartas. A felicidade e as cores vivazes evocadas em “Another Day Of Sun”, “Someone In The Crowd” e na longa “Epilogue” nos levam de volta aos musicais antigos citados acima. São números feitos para agradar, ao mesmo tempo em que servem à história e dão dinâmica às coreografias. Já “A Lonely Night” e “Audition (The Fools Who Dream)” são calculadíssimas para que a riqueza de melodia substitua o diálogo. Não temos dúvida nenhuma de que estamos diante de um musical ao ver La La Land.

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Já as faixas instrumentais “Herman’s Habit”, “Summer Montage/Madeline” e “Engagement Party” representam o jazz mais puro, com ênfase na instrumentação. Embora não seja o tipo mais tranquilo de jazz (as músicas possuem improvisação, tonalidade modal e turn overs), não destoam da leveza geral que o resto da parte musical dá ao filme e representam o gênero como ele é mais classicamente conhecido no cinema desde a década de 30. Sim, Hurwitz usa os clichês do estilo para isso, enquanto os exemplos mais contemporâneos de jazz – e aí podemos citar desde Badbadnotgood até Donny McCaslin – não estão na Los Angeles de La La Land, ou pelo menos não nos pensamentos de Sebastian.

A única exceção vem com a participação de John Legend no filme e na trilha. Esse excelente cantor, que sabe manter a classe mesmo quando faz uma música bastante acessível, interpreta Keith, um músico que está montando uma banda pop com elementos de jazz e eletrônica. O resultado que vemos no filme e na trilha é “Start a Fire”, a única música que claramente é contemporânea. Mesmo quando usa algum elemento que pode ser considerado retrô, o faz consciente disso, para que seja notado e admirado por isso, e não porque tenha real coragem de se devotar a música “do passado”. Aliás, repare no nome dessa música e o que ocorre durante uma discussão entre o casal de protagonistas para sacar um easter egg sensacional do filme, em que a trilha sonora antecipa o roteiro.

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Mas a principal música do filme – e a que vai ficar em sua memória – é “City Of Stars”. Cuidadosamente apresentada em três momentos diversos do filme, com três roupagens diferentes, a balada em Sol menor é um triunfo de Hurwitz. Melodiosa, cativante e fácil de assimilar (embora não seja óbvia), é a cola que liga Mia e Sebastian um ao outro e ao significado de Los Angeles na produção. E o clima levemente melancólico terá sua resolução refletida no final da própria história de Mia e Sebastian – que é outro dos trunfos da narrativa do filme, curiosamente parecido com Café Society (2016), de Woody Allen.

Hurwitz primeiro compôs os temas do filme e de cada personagem, para depois desenvolvê-los em canções. Tinha apenas a melodia musical de “City Of Stars” quando os compositores Benji Pasek e Justin Paul colocaram a letra, e então souberam qual seria o tema do filme e como ele se comportaria dentro da história. Hurwitz queria que fosse uma música que ficasse na lembrança e conseguiu. Apesar de as outras músicas do filme conquistarem pela energia e pelo ritmo, a melodia é muito complexa e expansiva. Já “City Of Stars” se comporta melhor como canção, com suas repetições e convenções, o que facilita a memorização.

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Hurwitz, um compositor de trilhas que trabalhou nos dois filmes anteriores de Chazelle (ambos ligados os jazz) e na comédia Curb Your Enthusiasm, sabe o que é fazer uma boa música fácil e uma boa música extraindo o melhor de uma atriz em um set e em uma tela. Por isso, para ele, sua melhor composição em La La Land é “Audition”, música que Emma Stone cantou ao vivo no set e em único take, ou seja, sem cortes. A música, além de sofisticada e de um exemplo perfeito do tipo de performance de um musical, marca o segundo plot twist do roteiro, quando uma mudança importantíssima ocorre. Foi a última música composta por Hurwitz e ele acompanhou a atriz ao piano durante a gravação da cena, deixando que ela ditasse o passo da música. O acorde Lá que se espera ao final, para concluir a canção e dar um senso de harmonia, está ausente, deixando a melancolia no ar – e mais uma sacada musical que se conecta com os eventos que sucedem logo depois na história.

Embora o filme tenha caído no gosto do público, ele ainda é um musical clássico. Quem não gosta desse gênero pode encontrar algumas barreiras, mas nada que esteja deslocado ou que invalide o filme como um todo (é uma questão de gosto, afinal, não de competência). A trilha, sem o acompanhamento do filme, é uma mostra de como soa um musical com inspiração nos clássicos do passado. Dá para acusar Hurwitz de compor um jazz muito cheio de clichês para um filme que é sobre amor, sonhos e um pouco jazz, principalmente quando comparado ao pesado jazz de big band de Whiplash. Mas é evidente, desde a primeira cena, que a intenção não é dificultar a audição e o prazer musical de La La Land. Ainda assim, a forma como as cenas musicais foram gravadas (em planos sequências) e a forma como as canções possuem detalhes técnicos que se liguem à narrativa mostram que não é, nem de longe, um musical em que qualquer nota está valendo.

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Bella Wolf – Bella Wolf (2016)

Investindo na flauta, Bella Wolf mistura o tradicional e o moderno em uma superestreia no jazz

Por Lucas Scaliza

Nem sempre é fácil encontrar um disco de jazz que seja tão completo e vasto de influências que possamos indicar para alguém que quer começar a ter algum contato com o estilo e, ao mesmo tempo, que soe interessante também para quem já é do meio e já ouviu dos clássicos às experiências mais contemporâneas do gênero. Geralmente, ou acabam sendo mais tradicionalistas (como o Brad Mehldau Trio), ou se entrincheiram em um nicho dentro do jazz (como os Yellowjackets) ou parte para uma abordagem supermoderna (como Donny McCaslin) ou promovem misturas inusitadas (como Badbadnotgood, Jaga Jazzist e Phony PPL).

Mas 2016 nos presenteou com Bella Wolf, o excelente primeiro álbum da banda de mesmo nome lá de Melbourne, Austrália, que é exatamente um tour de force jazzístico entre o formato tradicional do estilo (confiando no poder dos instrumentos acústicos, sem sintetizador e nem programações eletrônicas) e ao mesmo tempo propondo uma estrutura musical mais livre e cheia de partes diferentes. E apesar de todas as influências que sofre da música latina e rock experimental, não há dúvida de que se trata de uma autêntica banda de jazz.

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Embora instrumentos de sopro sejam bastante comuns do jazz, tendo o saxofone como o solista por excelência na maioria dos casos, o Bella Wolf surpreende logo de cara colocando a flauta como protagonista. Somente isso já garante uma vibração levemente diferente ao som deles e, se você é brasileiro ou sul-americano, sentirá um gostinho muito mais adocicado de familiaridade. E a flauta é conduzida com uma competência técnica de cair o queixo por Erica Tucceri. Ela mostra feeling logo na abertura com “The Devil You Know” e, se sobrou algum cético ainda, detona tudo com um virtuosismo impressionante em “Look Up”.

Erica Tucceri não é apenas a instrumentista central da banda. Ela é fundadora do Bella Wolf ao lado do baterista Tommy Harrison e também conduziu sozinha todo o trabalho de produção do álbum. Contam ainda com Selene Messinis no piano, Matt Hayes no baixo e Fabian Acuna no trompete. A faixa “Wouldn’t You Rather”, uma das mais latinas do álbum, conta ainda com o reforço de James Vincent no sax tenor e James Pownall na guitarra.

Como toda banda de jazz instrumental, há espaço para que os outros músicos também contribuam. Ao longo do disco temos pequenos solos de baixo, partes de piano que saem do plano da harmonia e tomam o centro da mixagem e passagens inquietas de uma bateria que conduz com perfeição ritmos bastante quebrados (como mostra “Thanks, But I Think I’ll Stay In”). “Jonglei”, um dos momentos mais calmos e misteriosos do álbum, deixa Erica cantar com seu instrumento de madeira enquanto o baixo de Hayes mostra como se faz uma base e, ao mesmo tempo, uma segunda voz para a música. Já “Interlude” foi composta para o baixo brilhar.

Já o trompete é o segundo instrumento solo da banda. Em “Saqsaywaman” temos uma das interações mais singulares entre Erica e Acuna. Enquanto o trompete de Acuna executa o tema principal da canção, a flauta de Erica surge apenas adornando a linha melódica. Aos poucos, temos uma inversão. O solo de Erica volta ao centro da banda e a melodia de Acuna vira adorno temático. Mas não pense que Acuna fica sempre em segundo plano. Ele solta seu trompete na segunda metade de “Turn Up” e se entrega à latinidade em “La Muela Del Diablo”. “Ponteio” é um dos momentos mais bonitos do disco e se passaria por música brasileira facilmente. Tem um ritmo mais constante marcado pelo baixo e um tema mais fácil de digerir que se assemelha muito à melodia de voz.

Além desse casamento entre o tradicional e o moderno, a Bella Wolf diz que a intenção era realmente fazer um casamento entre o jazz californiano e a música latina dos anos 70. Dessa forma, a banda acaba soando pura e, mesmo assim, conseguindo se encaixar nos quatro tipos de experiências jazzísticas que citei no primeiro parágrafo. Coisa rara. Entretanto, mais raro ainda é encontrar uma banda instrumental do gênero em que uma mulher é tanto a instrumentista principal, quanto produtora e cujo nome figura nos créditos da maioria das composições.

Se você é um apreciador de jazz – ou um apreciador de música de cabeça aberta que não tem medo de ser desafiado – não deixe de conferir Bella Wolf. Eles quebram o gelo do formatão mais americano do gênero diversas vezes. Mesmo nos momentos em que a musicalidade é mais técnica e virtuosa, o clima latino e leve ajuda a manter o ouvinte sempre de bem com a música. O desafio está lá, mas ele vem bem embalado em um vibe alegre e colorida.

Uma banda para não perder mais de vista. Uma das melhores estreias do ano. Um exemplo de jazz, de fusion e de música boa.

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