jeff bhasker

Harry Styles – Harry Styles (2017)

Em carreira solo, Harry Styles mostra versatilidade, entrega e surpreende com folk, rock e country

Por Lucas Scaliza

Este é o ano de Harry Styles. Vai fazer sua estreia no cinema como ator em Dunkirk, drama de Segunda Guerra do diretor Christopher Nolan e já liberou Harry Styles, seu primeiro álbum solo, o primeiro com suas criações fora do famoso grupo que o revelou, One Direction. A princípio, como ocorrera com Zayn Malik (o primeiro integrante da boyband inglesa a deixar a trupe e sair em carreira solo), esperávamos que ele seguisse a moda do mercado fonográfico e fizesse um disco pop raso. Mas quando “Sign Of The Times” aportou em nossos ouvidos, fomos surpreendidos por um cantor que fazia, sim, uma balada rock segura, nada inventiva, mas com muito bom gosto, orgânica e emocionante. Ao aparecer cantando a faixa ao vivo, tive a certeza de que estava diante de um cantor de verdade que estava utilizando a possibilidade da carreira solo para fazer honesto e pessoal, não apenas uma continuação do que vinha fazendo na boyband, vigiado de perto demais pela gravadora, pelo empresário e pelos produtores.

E Harry Styles é um ótimo disco. Não está preocupado em criar sons novos e nem em desconstruir o pop ou a imagem que Styles já tinha no 1D. Ele continua sendo um bom garoto, carismático e bonito. Mas trocou os três companheiros de palco por uma banda que é tão importante no palco quanto ele e se permitiu brincar com diversos tipos de pop, do mais roqueiro ao acústico, passando pelo country e folk e nunca apostando no eletrônico (o que também contrariou várias previsões). E ainda faz uma referência a Johnny Cash a fazer uma música sobre cocaína (“Carolina”, uma das melhores do disco) e manda muito bem em uma faixa sensual (“Woman”).

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O disco já abre com “Meet Me In The Hallway”, uma balada tranquila, com um vocal de versos até meio viajante, uma excelente linha de violão, baixo melódico (tocado por Ryan Nasci) e omnichord discretamente construindo um clima de sonho tocado pelo próprio cantor. Para um astro do pop, não seria a música mais indicada para se iniciar um disco. É por essa e por outras que Harry Styles desponta como uma promessa. Mas tem muito mais para ouvirmos no disco. A emoção de “Sign Of The Times” só aumenta ao sabermos que foi escrita do ponto de vista de uma mãe que acaba de dar a luz e não vai sobreviver.

O segundo single do álbum, a singela “Sweet Creature”, é acústica, sem percussão e com ótimos vocais de fundo que entregam um aspecto mais etéreo a faixa. E tudo bem se o refrão de “Ever Since New York” ficar grudado em sua cabeça por dias. É uma ótima faixa que também deixa emergir o trabalho vocal de Styles como mais um arranjo da canção.

Há uma boa variedade de gêneros musicais presentes em Harry Styles e ele nunca parece ansioso. As músicas têm qualidades de sobra pelo que são e também não estão repletas de arranjos que, na mão de artistas e produtores mais inseguros, serviriam para preencher as lacunas criativas das faixas. Por isso, pelo menos para mim, fica claro que há qualidades em Harry Styles que me levam direto a David Bowie. Os deliciosos rocks “Only Angel” e “Kiwi” coroam esse paralelo com o camaleão inglês, mas ao longo do disco todo Styles se mostra versátil e dotado de um feeling raro. Se o carisma já era conhecido desde o 1D, essa boa mão e ouvido para canções só veio a público agora. Claro que é cedo demais para dizer que Harry Styles é um novo David Bowie ou segue seus passos, mas o álbum certamente deixa pistas disso. A entrega e a consciência de como abordar cada composição é algo que realmente se destaca no disco e que também era uma das marcas de Bowie.

Aliás, seja sozinho, em dupla ou em grupo, todas as 10 músicas do disco tiveram a mão de Styles na composição. Jeff Bhasker (Kanye West, Rihanna, Ed Sheeran, Mark Ronson, Jay-Z) é o principal produtor e parceiro de composição no trabalho, que inclusive cedeu o estúdio de sua casa na Califórnia para boa parte das gravações.

Pode não ser uma ruptura total com o que fazia no 1D, mas já é um enorme passo a frente da boyband, sem dúvida. Embora a marca One Direction seja enorme, Harry Styles mostra que seu talento solo é, artisticamente falando, mais amplo, exploratório e maduro do que é permitido a uma boyband demonstrar. Assim, Styles se firma não apenas como um grande cantor com futuro, mas também como alguém para se ficar de olho. Desde já, uma das melhores surpresas de 2017.

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Mark Ronson – Uptown Special (2015)

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Com participações muito especiais e canções bem feitas, Mark Ronson é um branco que faz black music de qualidade

Por Lucas Scaliza

Uptown Special é um disco de black music, cheio de soul, funk e R’n’B, mas arquitetato por um branco. Aliás, um branquelo inglês chamado Mark Ronson que é DJ e guitarrista. Ele praticamente fica invisível no álbum e deixa seus convidados mais do que especiais (Kevin Parker, do Tame Impala, Bruno Mars e Stevie Wonder, entre outros) brilhar e dar a cara toda especial de suas músicas – muitas delas feitas em parceria com seus convidados e a maioria das letras vieram da mente do habilidoso escrito estadunidense Michael Chabon (seu último livro é Telegraph Avenue, que está repleto de referências à música negra).

O disco é comercial, não vamos nos enganar, mas é bem feito. Ele é para as pistas, para a dança, para o groove e para quem gosta de ritmo – como foi o Happy do Pharrel Williams e as partes mais acessíveis do excelente Random Access Memories do Daft Punk –, mas também é aquela black music lançada por white people que sabe não perverter um estilo e se mostra totalmente apaixonado e entregue.

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Quarto disco de Ronson, talvez seu melhor trabalho, com muitas faixas boas para estourar. A primeira a ganhar clipe e que é a ótima “Uptown funk”, com Bruno Mars nos vocais. A canção tem “aquilo” que qualquer produtor ou gravadora procuram numa canção para fazer um álbum vender. Ao final da faixa, você está mesmerizado pela guitarra funk de Ronson e cantando junto dos backing vocals de Mars o mantra “Uptown funk you up, Uptown funk you up”. A faixa começou a ser feita no estúdio do cantor: Ronson no baixo, Jeff Bhasker nos sintetizadores e Bruno Mars na bateria. Criaram o groove básico da canção e seis meses depois finalizaram a faixa.

“Uptown’s first finale”, curta faixa que abre o disco, tem sabor especial para Ronson: além de bonita e climática, tem a harmônica de Stevie Wonder. Só no terço final da canção é que Andrew Wyatt entrará cantando sobre a melodia de Wonder. A história é a seguinte: Chabon fez a letra da música, que seria cantada pela faixa toda, mas quando Ronson cantarolava a melodia pensava em Stevie Wonder tocando cada nota com sua gaita, não em um cantor. Então ele mandou uma carta com a canção para o empresário de Wonder. Alguns meses depois, Wonder gravou o trecho instrumental. “Quando ouvi pela primeira vez, foi uma das experiências mais emocionantes que já tive. […] Já ouvi mais cem vezes e ainda mexe comigo”, conta Ronson.

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“Cracked in the pearl” traz a voz de Andrew Wyatt reforçada por backing vocals cheios de alma e uma melodia muito bem construída. Toda a roupagem é modernosa, cheia de teclados, sintetizadores e bateria eletrônica, criando efeitos sonoros viajantes. Quem disse que soul pop não poderia ser temperado com psicodelia? A última faixa, “Crack in the pearl, Pt. II”, é uma versão mais rápida da introdutória, dessa vez com Bhasker nos vocais, mas ainda com a presença da gaita de Wonder. “Eu tinha que trazê-lo mais uma vez”, diz Ronson. A faixa final acaba sendo um mashup de “Crack in the pearl” com “Uptown’s first finale” com BPM mais alto.

“Heavy and Rolling”, também com Wyatt nos vocais, se desenvolveu a partir da letra enviada por Chabon. A expressão que dá título à canção é usada pelos motoristas de Nova York para dizer às suas centrais que estão com passageiros e no cumprimento do dever. A linha de baixo foi feita pelo próprio Wyatt a partir de uma demo que ele nunca terminou. A melodia também veio fácil, daí foi só trocar uns acordes, conta Ronson. É uma faixa bem tranquila e boa de ouvir, coma guitarra carregada de efeito aveludado e um solo de teclado no final.

Quem também rouba a cena é Kevin Parker, o guitarrista, letristas e cantor do Tame Impala, que empresta sua voz a três faixas – e se dá bem em todas. Se você ouviu a versão que o Tame Impala fez de Michael Jackson e do Outkast – e prestou atenção tanto nas escolhas das faixas quanto na forma de reinterpretá-las – deve ter sacado que Parker é um cara realmente diferente e que se daria bem com soul (fez até um cover de “Thriller” ao vivo). Ronson entendeu isso e usou o timbre gentil do australiano para se adequar à black music e colocou algumas pequenas psicodelias, como a guitarra com timbre zumbido na quase bossa “Summer breaking”, que é a música mais sofisticada do disco. O próprio compositor diz que não sabe o nome de alguns acordes que usou nela.

Já “Daffodils” parece uma mistura de Michael Jackson com o último disco de St. Vincent, o que evidencia um belo trabalho de produção. E “Leaving Los Feliz”, terceira faixa com Kevin Parker nos vocais, é mais pop, mas não deixa de usar os sintetizadores para dar aquela cara mais psicodélica. Afinal, segundo Ronson, Los Feliz é uma área meio artística e hipster de Los Angeles, e a música tem que ser meio hipster também.

“In case of fire” vai te lembrar um bem-vindo Michael Jackson. Não só o vocal de Jeff Bhasker pode causar isso, principalmente quando usa falsetes, mas todo o jogo de riff, baixo e bateria sincopada é muito parecido com o que o Rei do Pop usava em seus discos até virar uma característica de suas marcações rítmicas.

O rapper Mystikal dá as caras em “Feel right” e ajudou Ronson a fazer talvez a melhor canção de Uptown Special. Seu vocal forte e rasgado, o ritmo envolvente e as pausas marcadas pelos instrumentos de sopros fazem dela uma música dançante e de ordem ao mesmo tempo. Animada, é a única que disputa com “Uptown funk” o posto de mais contagiante do disco.

Mark Ronson reuniu alguns brancos ao seu redor e deu espaço para muitos negros contribuírem e fazerem seu disco de soul/funk com pitadas de psicodelia pop soar bem. E tudo isso sem perder de vista o valor comercial. Uptown Special é divertido e é bem feito, cada faixa tem seu próprio valor e todas as participações funcionam. É bom que fique claro que Ronson e seus amigos não queriam ser virtuosos como o Funkadelic e nem partir para a vanguarda de D’Angelo. E para um disco mainstream e que quer emplacar nas rádios, Mark Ronson consegue colocar muitas boas referências em um disco de apenas 38 minutos e que é pop, mas de qualidade.

PS. Ronson dedica o disco a Amy Winehouse, cantora britânica com quem colaborou e que faleceu em 2011. Teenie Hodges e DJ Mehdi são outros que dividem com ela as honras de Uptown Special. As dedicatórias ficaram de fora da impressão do encarte do disco.

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