Kendrick Lamar

Escuta Essa 27 – DAMN. A Nova Profecia de Kendrick Lamar

DAMN. Kendrick Lamar lançou mais um grande álbum e reunimos uma gangue para discutir as faixas, as teorias por trás do disco e a importância desse rapper americano para o hip hop atualmente. Lucas Scaliza, Brunochair e Gabriel Sacramento recebem o reforço de Eduardo Santana (Howlin’ Records, Levante Negro), Thais Ribeiro (Zona Suburbana) e Igor França (Genius Brasil) em um episódio inteirinho dedicado à Kendrick Lamar.
É diversão e informação na certa. Coloque seus fones e cante com a gente: “I got, I got, I got, I got…”

Download do episódio neste link!

Vídeo: College kids react to “Humble”:

http://www.youtube.com/watch?v=B3X-0vC2TZ8

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The Weeknd – Starboy (2016)

Starboy é The Weeknd indo mais fundo no eletrônico e mais dançante

Por Gabriel Sacramento

Neste ano de vários lançamentos R&B que fizeram barulho no cenário musical, como Beyoncé e seu Lemonade, Solange e A Seat At The Table, Frank Ocean com Blonde, Alicia Keys com Here e Blood Orange com Freetown Sound, um dos mais aguardados do gênero finalmente está entre nós: Starboy, do The Weeknd. Depois do bem sucedido Beauty Behind The Madness, que foi o décimo álbum mais vendido de 2015, o cantor volta com uma tentativa válida de se manter no mainstream sem necessariamente tentar imitar o álbum anterior.

Isso é um mérito. É comum que um artista tente aplicar a mesma fórmula do álbum mais premiado nos seguintes, o que às vezes acaba prejudicando o resultado final. Isso não acontece com The Weeknd: o canadense sabe do seu sucesso, tenta manter sua identidade, mas investe em um som diferente no novo álbum.

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Starboy, o título do álbum, vem de uma gíria do inglês que significa “popular”. E o cantor fala abertamente do seu sucesso e do prestígio que conquistou com as vendas do disco anterior. Um pouco parecido com o que James Arthur fez em seu novo álbum, só que menos sincero e profundo. Ele também fala de seus relacionamentos amorosos, seus casos com mulheres, deixando claro sua preferências por um relacionamento dessa vez.

Se em Kiss Land (2013) – seu primeiro álbum de estúdio – havia bases densas e seus comuns vocais cheios de sensualidade e suíngue, em Beauty Behind The Madness The Weeknd aprofundou as características climáticas e minimalistas do seu estilo, trazendo um pouco mais de instrumentação orgânica e hits certeiros. Já Starboy é o mais eletrônico dos três, explorando batidas e samples mais robustos que sugerem uma produção mais esmerada na parte eletrônica. É também o mais dançante, uma faceta não muito comum nos outros álbuns dele. É menos eficiente no que diz respeito aos hits que o anterior, embora emplaque algumas canções que certamente terão seu espaço.

Alguns pontos positivos do álbum são a faixa-título, “Party Monster”, “Rocking”, “Love To Lay”, “I Feel It Coming” e “A Lonely Night”. Todas com vocais irresistíveis trazendo a pegada típica R&B combinados com bases eletrônicas simples. “I Feel it Coming” é dançante e traz a produção do Daft Punk. Assim como comentamos no episódio 14 de nosso podcast, a participação do duo francês é tímida, mas a faixa continua sendo uma ótima canção de The Weeknd no final das contas. Ou seja, a participação dos franceses não foi tão boa no sentido de imprimir as características da dupla, mas acabou pesando positivamente para a qualidade da canção. A faixa-título também traz o Daft Punk quase imperceptível, mas é uma ótima canção do disco, com uma base grave e profunda e os ótimos vocais em primeiro plano. “Secrets” traz um sample de “Pale Shelter” do Tears For Fears e é uma semibaladinha que se mantém fiel ao estilo das outras faixas.

A voz de The Weeknd parece estar mais próxima do timbre de Michael Jackson neste álbum. Em muitos momentos, ele deixa claro essa influência, trazendo alguns trejeitos do estilo vocal do Rei do Pop. Percebemos isso facilmente em “A Lonely Night”, que ainda possui umas harmonias vocais muito bem colocadas.

Como um bom álbum pop, Starboy possui diversas parcerias com artistas tão (ou mais) famosos quanto ele. Temos o rapper Kendrick Lamar com um rap fantástico em “Sidewalks”, daqueles que farão muita gente correr atrás dos seus discos. Lana Del Rey participa em “Party Monster” e no interlúdio “Stargirl Interlude”. O rapper Future contribui com “Six Feet Under” e “All I Know”, além do já citado Daft Punk por trás da produção de “Starboy” e “I Feel it Coming”.

O álbum tem 18 faixas – e isso é um defeito. Por ser muito longo, The Weeknd acaba perdendo tempo com fillers – canções que reciclam ideias já utilizadas e que poderiam ser tiradas do álbum sem prejudicar o resultado final. Alguns exemplos são “Six Feet Under”, “All I Know” e “Attention”. O número extenso de faixas acaba tornando a audição cansativa e atrapalhando o efeito das canções mais marcantes.

Se em “I Can’t Feel My Face”, sucesso do álbum de 2015, o cantor canadense já tinha mostrado essa faceta mais eletrônica, dançante e acessível do seu trabalho, ele a aprofunda em Starboy, trazendo muitas canções que são coesas e trabalham juntas para anunciar esse novo direcionamento do astro pop. O disco possui ótimos hits que deixam claro a pretensão de The Weeknd e como ele almeja chegar ao topo com qualidade. Pensando em sua carreira, sua regularidade e disposição de entregar sempre bons álbuns é indiscutível. Ou seja, Starboy é um bom disco de um cara que até então nos deixa acostumados com bons resultados.

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Escuta Essa 09 – Os Novos Rumos de Lady Gaga, Kaiser Chiefs e Kings Of Leon

Neste episódio resenhamos três álbuns de três grandes artistas que resolveram mudar os rumos de sua música. Lady Gaga com Joanne, Kaiser Chiefs com o pop Stay Together e o Kings Of Leon e seu disco indie WALLS. E ainda apresentamos músicas novas de Maroon 5 (com Kendrick Lamar), Avenged Sevenfold, Junior Lima (sim, o irmão da Sandy) a banda gaúcha Rebel Machine e uma das últimas gravações de David Bowie reveladas esta semana. Coloque seus fones, aumente o volume e divirta-se!

Ouça e faça download do episódio neste link!

0’00”: abertura e notícias
7’50”: Maroon 5 & Kendrick Lamar
18’37”: Kings Of Leons – resenha de WALLS
30’47”: Kaiser Chiefs – resenha de Stay Together
49’16”: Rebel Machine – resenha de Nothing Happens Overnight
1h01′: Lady Gaga – resenha de Joanne
1h17″: Avenged Sevenfold
1h24″: Junior Lima
1h36″: David Bowie

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Resenha Lady Gaga – Joanne goo.gl/HiXHKM
Resenha Kings Of Leon – WALLS t.co/Y4HzGMQCcP
Resenha Kaiser Chiefs – Stay Together goo.gl/s5iES9
Resenha de 50 anos de “Blonde on Blonde”, do Bob Dylan goo.gl/qj1H0t

Escuta Essa 04 – Lady Gaga: não era amor, era Cilada!

Episódio 04 do Escuta Essa Review. Nossas impressões e informações sobre “Perfect Illusion”, a nova música da Lady Gaga. Ainda discutimos a participação de Kendrick Lamar em “The Greatest”, da Sia, e quem se beneficia com isso. Coloque seus fones, aumente o volume e divirta-se!

Ouça e faça download do episódio neste link!

Outros artistas do episódio:

  • Norah Jones
  • Nick Murphy (ex-Chet Faker)
  • Zack De La Rocha
  • Lee Ranaldo
  • Carlos Café
  • Ghost

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Sia (feat. Kendrick Lamar) – “The Greatest” (clipe): www.youtube.com/watch?v=GKSRyLdjsPA
Lee Ranaldo – “Angles” (clipe): www.youtube.com/watch?v=HQigMoQvk1I

Frank Ocean – Blonde (2016)

Um dos revolucionários do R&B atual, com um excelente trabalho, de novo

Por Gabriel Sacramento

Quando se fala em música R&B, o que você pensa? Música popular, dançante? Para muitos, o R&B é sinônimo de música descartável. E há quem ache limitado o universo musical do estilo limitado, preso aos próprios conceitos e regras. Tudo bem, alguns lançamentos do R&B contemporâneo realmente soam acomodados e restritos à vontade de sucesso cada vez maior dos artistas – o que acaba suprimindo a originalidade e a criatividade. Mas há exceções. Por exemplo, o jovem Frank Ocean. Em 2012, quando ganhou o mundo com Channel Orange, ele se mostrou disposto a revolucionar o R&B (e a música) mundial.

E não há exagero no termo “revolucionar”, até porque ouvindo com atenção o disco, notamos que o conceito de pop e R&B que o jovem apresenta é bem distinto do que é mais comum ouvirmos por aí. Ele rompe violentamente com os padrões do estilo e expande as fronteiras. Dando o play, nos sentimos imersos em um oceano profundo com muitas direções para navegar. As referências e a clareza com que elas são expostas, andando lado a lado com a genialidade e sua preocupação em expor seus sentimentos são alguns dos pontos positivos do álbum.

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Blonde, seu novo e esperado álbum, foi lançado um dia após Endless – seu primeiro álbum visual –, e Ocean mostra-se disposto a se reinventar também. Claro, ele mantém a essência, mas expandiu as ideias. O artista abre a mente para as experimentações criativas e ousadas, tornando a sua música ainda mais inventiva e destacável.

Blonde é bem enxuto. O cantor passou cerca de três anos produzindo o disco, convidou tanta gente famosa – um time formado por produtores e compositores que inclui Pharrel Williams, Beyoncé, Kanye West, Kendrick Lamar e Rick Rubin – e fez algo que marca por uma relativa simplicidade. Cada instrumento tem seu peso nas faixas, preenchendo muito bem os arranjos e cada um acrescentando um sabor especial a cada faixa, sempre acompanhados pelo ingrediente essencial e onipresente do álbum: a voz limpa e maravilhosa de Ocean.

“Nikes” abre Blonde com uma base distante e simples, uma batida e um sintetizador. A voz distorcida ecoa por toda a faixa, até que Ocean surge com um jogo de palavras sensacional. “Ivy” é baseada nos acordes de duas guitarras cheias de efeitos. A voz de Frank Ocean é realçada e percebemos como ele continua colocando muito bem sua voz. “Solo” – com a melodia mais marcante do álbum – também nos deixa claro as suas qualidades como cantor. O rapper está bem com sua voz e aproveita a base instrumental econômica para desenvolvê-la. Perceba como o tratamento dos vocais na mix é simples, sem muitos efeitos, nem muitos overdubs, mas sim a voz quase crua de Ocean sobre os arranjos instrumentais.

Se “Solo” tinha um tratamento simples da voz, “Pink + White” traz vocais dobrados e um tratamento mais típico do R&B. Possui um arranjo calmo e limpo. Podemos até ouvir a voz de Beyoncé ao fundo com alguns arranjos vocais, mas só. “Be Yourself” é um dos interlúdios do álbum, apresentando uma voz feminina dando conselhos que, dentre outras coisas, desencoraja o uso de drogas. A quietude de “White Ferrari”, guiada por harmonias vocais precisas, é impressionante. A canção possui um sample de “Here, There and Everywhere” dos Beatles. Já em “Solo (Reprise)”, Ocean dá espaço para André 3000 (do Outkast) fazer seu rap.

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O que mais impressiona na música de Frank Ocean é a sua facilidade em contar histórias através dos álbuns, fazendo com que a experiência de ouvir Blonde seja também um convite à imaginação para produção de imagens reflexivas. Ele o faz recheando o disco de interlúdios, diálogos e assim vai criando personagens.

Musicalmente, Ocean continua investindo em ideias e detalhes que distinguem seu trabalho de muitos outros artistas R&B. Sua música soa densa, com bases flutuantes, atmosféricas e nos transportando para um universo bem diferente, enquanto seus vocais se destacam. Sua proposta também não abre mão de melodias irresistíveis, que podem funcionar bem comercialmente. No entanto, ao final de Blonde percebemos que não estamos distantes. Estamos bem perto de casa, só aprendemos a olhar para o mundo de uma forma diferente. Ou seja, Ocean nos ensina a olhar para o R&B de uma forma diferente e esperar excelentes criações a partir desse novo modo de encarar o estilo. Dev Hynes, do Blood Orange, é outro que olha de um jeito diferente para o papel da música.

Frank Ocean faz a música R&B valer a pena. Levando a bandeira do gênero com genialidade e sofisticação, o músico parece não ter limites. A tendência é que ele mantenha seu estilo único e suas ideias diferenciadas. E uma coisa é fato: Ocean e seus discos serão referências para a música das próximas gerações.

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Beyoncé – Lemonade (2016)

Cercada por homens produtores e compositores, Beyoncé quer falar às mulheres negras do mundo todo

Por Lucas Scaliza

Se podemos nos conectar com álbuns (e histórias, seja lá em que mídia se apresentem) que nos revelam a intimidade de seus compositores e suas relações com o mundo ou com outras pessoas, ao ponto de sentirmos o que essas pessoas sentem (afinal, somos todos seres humanos, somos dotados de empatia), o que dizer de um álbum que além da história pessoal tenta pintar um quadro social um pouco maior, partindo de situações privadas para falar sobre o sofrimento coletivo de milhões de pessoas?

Beyoncé volta aos holofotes com mais um disco surpresa fazendo exatamente isso: tenta ser relevante social e politicamente partindo de sua condição de 1) mulher, 2) casada, mas desconfiada e 3) negra. O resultado é Lemonade, um disco que dá mais um passo na escalada artística da cantora, propondo uma diversidade estética que desafia o pop e o R&B convencional de seus primeiros discos, mas que não deixa de lado a necessidade de ser comercial também. Ela não está indo contra o mainstream. Ela permeia o disco de faixas mais desafiantes e, ao mesmo tempo, também entrega canções mais simples e diretas. Contudo, absolutamente todas as 12 canções do álbum são únicas e contribuem com o storytelling e enriquecem o trabalho.

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A história de Lemonade parte da desconfiança de que o marido de Beyoncé Knowles Carter, Jay Z, a trai. Ou que ele a tem traído ao longo dos anos. De forma bem intimista e com uma introdução sofisticada em ritmo e harmonização, “Pray You Catch Me” estabelece o jogo em que ela desconfia ou sabe de algo enquanto ele age como se a esposa fosse única. Embora as faixas tenham equipes diferentes de compositores e produtores, algo comum no mundo endinheirado do R&B e do pop, Beyoncé é a produtora executiva do disco, o que quer dizer que ela está bancando os custos do projeto e supervisiona as decisões criativas. Ou seja, diferente de várias/os popstars que pululam por aí, tudo o que entrou no álbum teve seu aval. Sendo assim, é interessante notar que ao mesmo tempo em que não há ninguém acima dela impondo um estilo, ela deixa que seus convidados/contratados expressem suas características na música.

Outro ponto venerável em faixas como “Hold Up”, “Don’t Hurt Yourself”, “Sorry”, “6 Inch” e “Freedom” é ver Beyoncé um tanto ameaçadora e mais visceral. No vídeo para “Hold Up”, enquanto reflete sobre a possível infidelidade do marido, a mulher destrói carros com um taco de beisebol. “Don’t Hurt Yourself” é uma composição de Jack White usando samples da música “When The Levee Breaks”, do Led Zeppelin, como base. É poderosíssima e tem todas as características da música de White, desde a linha vocal até a utilização do baixo, do teclado e da bateria. E Beyoncé, principalmente quando canta “We just got to let it be, let it be, let it be, let it be, baby”, coloca a pressão de sua voz acompanhando a dinâmica da música, mostrando que é uma cantora versátil e que não usa os trunfos de sua voz a esmo.

“Sorry” é um eletro R&B que termina em um anticlímax musical, perdendo o balanço da primeira metade e apostando em batidas mais lentas e melancólicas. É quando Beyoncé e suas amigas mostram o dedo do meio, tocam o foda-se e parecem que não irão mais aceitar a situação. É a partir daqui que o discurso de Beyoncé poderá ter diferente aceitação entre quem acompanha sua história. A princípio, tudo leva a crer que ela quer que as mulheres deixem de aceitar o que seus parceiros fazem e que as colocam em situações desconfortáveis, complicadas ou erradas (dependendo do que cada uma acha que é errado, é claro). Na faixa “Love Drought” ela reforça como os dois juntos são fortes e fazem parte da vida um do outro, e como juntos poderiam voltar a ter amor genuíno. “Sandcastles” é a balada e a música mais convencional do álbum, no entanto tem uma performance vocal mais crua de Beyoncé que a faz valer a pena. O conteúdo é uma aceitação da continuidade da relação com Jay Z, sabendo dos erros dele e os aceitando, mas seguindo em frente. Não à toa a música seguinte é a bela “Forward”, parceria com o inglês James Blake. (Sobre essa conclusão da história, falaremos mais à frente).

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Com participação de The Weeknd, Lemonade conta com a boa “6 Inch”, canção em que Beyoncé defende a profissão de stripper como metáfora para que toda mulher tenha sua profissão, carreira, sua própria renda e orgulho do que faz, independente do qual seja o emprego ou ocupação. A música parece pronta para explodir a qualquer momento, mas nunca deságua em um refrão poderoso, segurando a tensão. “Daddy Lessons” é um acerto de contas com seu pai, que já foi seu empresário. Como passou a infância no Texas, a música é um country, o primeiro de sua discografia. Bastante acessível e com vocais bem R&B, acaba sendo um country apenas de superfície. Divertida e acessível, mas não inovadora. Na letra, a cantora lembra as lições que o pai lhe deu sobre seu forte e o alerta sobre homens que só tirariam proveito dela. Dentro do storytelling do álbum, é a faixa que liga o passado e o presente da protagonista, assim como congrega o problema com os dois homens com passagens mais significativas por sua vida.

“Freedom” é a potente contribuição de Kendrick Lamar. Se em The Life of Pablo ele foi responsável pela música mais orgânica e bombástica do álbum de Kanye West, com Beyoncé ele cria outra pedrada. Uma linha de baixo deliciosa e energia pura. No começo do filme de Lemonade, há um interlúdio em que é dito que ninguém sofre mais do que uma mulher negra. “Freedom” é a música que tenta empoderar e não deixar o orgulho dessa mulher negra desvanecer. O preconceito racial puro, independente do gênero, é outro assunto abordado na canção, principalmente na parte vocal de Lamar.

Como já dito, o disco não nega e nem se desvia do mainstream, preservando seu potencial comercial. Ainda que não possua nenhuma faixa que possa realmente ser uma barreira impenetrável para os padrões do pop e do R&B, o que Beyoncé deixa de lado é a vertente mais dançante de suas composições. Não espere encontrar singles fáceis como “Single Ladies (Put a Ring On It)”, “Run The World” ou “Love On Top”. E mesmo as músicas que são mais acessíveis mantém uma pegada parecida com as do trabalho anterior, Beyoncé (2014), também um álbum visual que marcava um passo além na discografia da cantora, apostando em uma produção mais artística e menos baladeira. Mas Lemonade vai além, tanto no conceito musical quanto no visual.

É muito difícil julgarmos as relações íntimas de uma pessoa que, no caso da música, trata seu álbum como uma confissão compartilhada com os ouvintes. Mas quando a mensagem tenta abarcar um público maior e tem a pretensão de se estender a outras pessoas nos sentimos no direito de participar e julgar se aquilo é válido ou não para nós e para outros. Azealia Banks – mulher negra, rapper, cantora, compositora e feminista também – foi uma das vozes que, em meio a tantos elogios ao Lemonade – fez críticas pertinentes por meio do Twitter.

Azealia disse que a narrativa da mulher negra de coração partido em que a Beyoncé investe é “a antítese do feminismo”. E fez o seguinte comentário: “Faz anos que você canta sobre esse negão [Jay Z] e ele continua te enganando. Isso não é força, é estupidez”. Para ela, “mais dor e mais sofrimento por um homem” não é o que a discussão sobre as negras precisa no momento. Para completar, Azealia diz que a turnê da Beyoncé é cara demais para as negras participarem em peso e que, embora todas as mulheres que apareçam no filme de Lemonade sejam negras, a grande maioria é o que ela chamou de “lightskinned” (o que chamaríamos em português de “mulata”).

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Apesar das críticas – todas válidas, aliás –, não há como diminuir o poder do álbum e do discurso de Beyoncé. Como trata-se em grande parte de uma narrativa pessoal, ela, como mulher e apesar de todo o feminismo, decidiu não se fazer de besta frente ao que seu marido supostamente tem feito, mas manter a relação com ele. No final, é o velho mote do “o amor pode superar tudo”, que é tão poderoso quanto um clichê. Se Beyoncé fez sua escolha, que cada ouvinte possa fazer a sua baseada em sua própria experiência e levando em conta as próprias circunstâncias.

Bey virou uma referência para as mulheres (de todas as cores, de todos os partidos políticos e de todos os estilos musicais). Se antes era uma máquina de fazer singles e hits, passou a usar o sucesso para poder sofisticar sua própria música e falar em nome das mulheres. Como dona da carreira e produtora executiva do álbum, ela comandou uma quantidade enorme de homens (também famosos e poderosos, cada uma a seu modo) na confecção do projeto. Por meio de Jack White, colocou o quarteto Led Zeppelin para “trabalhar” para ela. O produtor Mike Dean (famoso por trabalhar com Kanye West) é o responsável pelas batidas e atmosfera em “Love Drought”. Até Father John Misty co-escreve a letra de “Hold Up”. Os baixos marcantes de “Freedom” e “All Night” são do competente Marcus Miller, egresso do jazz e da música instrumental. Sem falar que é apenas com homens que ela divide alguns vocais: Kendrick Lamar, The Weeknd e James Blake.

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Se The Life Of Pablo é um desbunde de samples porque Kanye West é um dos únicos com dinheiro suficiente para bancar os direitos autorais de todas as faixas que reaproveita, Lemonade é um projeto que só é possível para quem também tem muita grana. Apenas o sample do Led Zeppelin custa uma pequena fortuna, mas a participação dos nomes citados (entre tantos outros presentes) também não sai barato, assim como bancar toda uma produção audiovisual.

Política, pigmentação da pele, relacionamento e feminismo e feminilidade são os limões. A música e o filme são a limonada. Uma limonada premium. Artisticamente o valor está provado, inclusive fazendo com que Beyoncé alcançasse o topo das paradas pela sexta vez com o sexto disco. Agora é acompanhar o nível de influência do trabalho para saber se todo o e$petáculo preparado por ela (com boa música, veja bem) encontra a função social que almeja.

Kanye West – The Life Of Pablo (2016)

Disco pretensioso se faz de gospel, gossip e rap sem mensagem, mas samples e participações são ótimos

Por Lucas Scaliza

São vários os Pablos que encontramos em The Life Of Pablo. Pablo Picasso, Pablo Escobar e até mesmo São Paulo, o apóstolo. Um artista, um imperador das drogas e um cristão, três personalidades que mudaram alguma coisa no curso da realidade enquanto viveram. Um nível de pretensão que combina perfeitamente com o perfil ambicioso de cada trabalho de Kanye West, principalmente porque cada letra tenta, de algum modo, ser um pouco autobiográfica. E aí você fica se perguntando o que West tem de Picasso, Escobar e Paulo.

A personalidade de Kanye West sempre rouba a cena se não olharmos bem para a sua obra. É muito fácil não analisar seu sétimo disco e perder várias linhas apenas citando as chatices e excentricidades do rapper. Também é fácil não gostar de The Life Of Pablo e de qualquer outros dos seus últimos discos simplesmente por não gostar de sua personalidade. Contudo, desta vez fica ainda mais difícil – e irresistível – não entrecortar a vida pessoal de West e sua música, dada a natureza e as letras de seu novo álbum.

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Antes de falarmos da música em si, é bom que fique claro que a primeira audição de The Life Of Pablo em Nova York, e divulgada simultaneamente por streaming pelo TIDAL, era um evento de marketing do Yeezy Season 3, que não é nenhuma “instalação artística” e nem mesmo um nome mais amplo para os trabalhos conceituais do rapper. Trata-se de um catálogo de roupas (várias transparências, tênis, etc) em parceria com marcas famosas (Adidas) com várias modelos usando essas peças e também não usando nada. Aliás, as modelos do catálogo estavam na festa de lançamento, mas nem sinal dos catálogos. O que havia de material de Yeezy Season 3 eram enormes painéis exibindo as lindas fotos. Picasso, Escobar e o apóstolo Paulo, assim, contribuíram com um lançamento comercial. West e Kim Kadarshian, sua esposa, compareceram, tiraram fotos, e foram embora. Kanye com um largo sorriso no rosto.

Assim como essa mistura de arte e comércio já não deveria te surpreender, não deveria surpreender também que existe muito a ser mostrado com The Life Of Pablo, mas não muito a ser dito. Digamos, desde já, que em termos sociais, políticos, raciais e econômicos, TLOB não é como To Pimp A Butterfly de Kendrick Lamar. Boa parte do disco faz parecer como se você estivesse lendo uma revista de celebridades, e várias das histórias ali têm a ver com o cantor e produtor. Se existe um lado de gospel music no trabalho (e há citações cristãs o suficiente para isso, mas somente na boa “Ultralight Beam”, em que o paralelo entre ele e São Paulo é explícito para falar de fé), também tem muito de gossip music.

Ao longo do álbum há muita fofoca e ela explode nos versos já bastante discutidos em que Kanye diz que transaria com Taylor Swift e que foi ele que tornou “essa vadia” famosa (e nessa declaração, como em várias outras, é difícil separar o que é egocentrismo puro, o que é misoginia e o que é simplesmente um jeito de colocar as palavras para atender à sua composição) na forte “Famous”. Já “30 Hours” é um dos exemplos de gossip music autobiográfica mais bem acabados que veremos em 2016. Nesta faixa, Kanye lembra-se de uma ex-namorada, Sumeke Rainey, que ele deixou em Chicago quando foi a Los Angeles para estrear no epicentro da música americana com The College Dropout (2004). Leva 30 horas em média uma viagem entre as duas cidades. Ao longo da faixa, uma das mais fáceis e diretas do disco, ele fala como sua ex fazia sexo oral em outro cara enquanto ele ia e vinha, além de descrever seu café da manhã, seus exercícios na academia, e etc. Todo o texto da letra parte de um episódio em que ele vê fotos da ex-namorada pela internet, notando como ela já não é a mesma; e termina se vangloriando de tudo que conquistou e ela perdeu. Os versos iniciais de “Answer Me”, de Arthur Russell, ecoando ao longo de toda a canção, dando o clima quase melancólico às memórias que ouvimos. Assim, “30 Hours” é uma das faixas mais legais do disco, com uma das letras mais thrash.

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Estilo e Colagens

Há muito mais R&B desta vez do que nos discos anteriores, o que contribui para que seja um disco com mais balanço, mais sensualidade e mais leveza do que My Dark Twisted Fantasy (2010) e Yeezus (2013). Ele não deixa de usar o rap e o hip hop, seus portos seguros, mas como um artista que preza pela inovação nesses segmentos, acaba incorporando uma série de diferentes estilos musicais, fazendo de The Life Of Pablo um trabalho que aponta para várias direções musicais e, não raro, toma diversos desvios sem prévio aviso.

O grande trunfo de TLOB é ser mais uma peça bem feita de arquitetura, acomodando dentro de si um cara de ego inflado, uma miríade de referências, tenham elas a ver com as histórias que conta ou com as diversas participações especiais (Rihanna, Kendrick Lamar, Frank Ocean, Ty Dolla $ign, The Weeknd, entre outros), produtores (como Hudson Mohawke e Rick Rubin) e compositores. Todas as participações funcionam bem, e algumas inclusive roubam a cena, como Lamar em “No More Parties in LA” e Rihanna em “Famous”. Se tem algo que Kanye sabe fazer bem é isso: montar um mosaico de vozes, sons e temas.

A escolha e a manipulação de samples é outra das melhores habilidades da equipe de Kanye West. O rapper ganhou notoriedade ao ser o produtor de The Blueprint (2001), de Jay-Z, justamente fazendo batidas criativas e recortando, remixando e colando samples com muita competência. Essas são as principais marcas de seus álbuns também, mas com a fama e o dinheiro ele deixou de fazer as próprias batidas e manipular os próprios samples – o que não diminuiu a qualidade do trabalho. Agora, com muito dinheiro para gastar, Kanye pode se dar ao luxo de usar uma quantidade absurda de samples famosos e obscuros, mais do que qualquer outro artista, contribuindo para que a colagem sonora de TLOP seja rica de cores, emoções e referências. Mais uma vez ele usa um ótimo sample de Nina Simone (em “Famous”) e de “Bam Bam” de Sister Nancy, assim como sampleia um “Perfect” retirado do jogo Street Fighter 2, logo no início de “Pt. 2”. A lista de samples é longa, assim como a lista de compositores e produtores de cada faixa, e pode ser encontrada aqui na íntegra.

Com 18 faixas, é verdade também que várias músicas parecem mais enchimento do que exatamente peças necessárias ao álbum. “Low Lights”, “Feedback” e “Freestyle 4” estão nesse time. Em defesa dele, pode-se argumentar que embora não seja grandes faixas, mantém o exercício de estilo do rapper, que nunca foi mesmo um músico dado a limitar seus álbuns apenas ao estritamente necessário. A vinheta vocal “I Love Kanye” também poderia entrar no grupo das dispensáveis, mas os versos mostram que ele está a par de todas as críticas que todos nós temos para com ele, seja por sua música ou sua personalidade, e a ideia de como ele ama a si mesmo e faz tudo girar em torno de si. Não deixa de ser mais uma faixa sobre ele mesmo, mas são 44 segundos de humor que não vemos com frequência nem em TLOP e nem em sua discografia. Uma pequena janela em que o produtor se permite rir de si mesmo.

O Melhor de TLOB

Mas Kanye acerta em vários momentos, entregando faixas realmente boas para sua discografia e para o hip hop de maneira geral.  “Ultralight Beam”, a música cristã, com direito a coral gospel e teclados intermitentes emoldurando a canção, usando desde o speech do rap até refrãos R&B e Kelly Price cantando soul bem alto. “Famous” não tem a mesma força de “Power” em My Dark Twisted Fantasy, mas ocupa o mesmo posto estratégico de canção poderosa. Ainda que tenha toda a autorreferência, o verso infeliz sobre Taylor Swift e sua letra não convença ninguém de que West ainda seja o mesmo cara lá do sul de Chicago apesar de toda a fama, “Famous” é um mosaico muito bem planejado, principalmente quando abre espaço para Rihanna, para o sample de Sister Nancy e, lá no final, para versos finais de Nina Simone. A roupagem sintética de “Waves” e os refrãos de Chris Brown fazem a faixa valer a pena, um exemplo de R&B e rap combinado com a música eletrônica contemporânea.

A mesma experiência e mistura de referências continuam nas boas “FML” (com refrão de The Weeknd), em que Kanye fala sobre ser fiel a sua esposa, embora seja fácil esquecer desse compromisso, e em “Real Friends”, sobre como ele tem um relação difícil com os amigos, com a família e questiona quem seria seus amigos de verdade, já que teve até que pagar 250 dólares a um primo que roubou o computador que guardava imagens do rapper com mulheres. “Wolves” é bastante intensa com sua instrumentação dramática e tensa aliada a uma letra que traz a história de José e Maria para os dias de hoje.

Por fim, duas das melhores músicas do disco. “No More Parties In L.A.” é uma das faixas mais interessantes e completas do álbum, investindo em batidas e em peso. É a faixa que poderia estar em To Pimp A Butterfly e não por acaso tem a participação de Kendrick Lamar nos vocais e uma letra crítica sobre o estilo de vida das celebridades dos Estados Unidos. Além de samples de músicas antigas, a bateria, o baixo e o teclado soam mais vintage e mais orgânicos do que no resto do disco, contribuindo para ser um hip hop com força de uma banda e não apenas programações eletrônicas. TLOP pode até não ser um álbum do ano, mas “No More Parties In L.A.” com certeza poderia ser uma de suas melhores músicas. “Fade” fecha o disco com uma linha de baixo sampleada que dá um clima mais dançante e mais retrô. Nem parece uma faixa de álbum do Kanye West, mas sim de qualquer duo eletrônico dos anos 90 que manipule e tenha bom gosto para samples.

O grande público de Kanye West é bastante volátil e não se importa muito com as minúcias de seu trabalho. Embora suas habilidades como produtor tenham feito sua música valer a pena, sua fama se baseia em declarações bombásticas e quase sempre autorreferenciais, para não dizer que é uma das celebridades com o mesmo estilo de vida que critica em “No More Parties In L.A.” e que sua vida está estampada nos site e revistas de fofoca e celebridades. Portanto, ao ouvir The Life Of Pablo é importante levar em consideração que nem sempre o homem deve se confundir com a obra, mesmo quando a obra está totalmente baseada em sua vida. É um dos casos em que o papel, ou o gravador, aceitam tudo. O Kanye religioso e “ainda o mesmo garoto do sul de Chicago” que aparecem nas letras podem não corresponder à realidade. Ainda assim, o disco tem seus méritos. O que ele não parece ter, no entanto, é mensagem. E se você encara o rap e o hip hop como uma música que deve ser mais do que entretenimento, é uma falta e tanto para um projeto vasto e caro.

The Life Of Pablo é a cara de seu criador, afinal.

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