live

Kate Bush – Before The Dawn (2016)

A inglesa voltou aos palcos com um espetáculo a altura da ambição de sua obra

Por Lucas Scaliza

Levou 35 anos para que Kate Bush se apresentasse novamente. Entre seu afastamento dos palcos e seu retorno houveram novos álbuns lançados pela cantora e compositora inglesa, como Aerial (2005) e 50 Words For Snow (2011), mas nada de turnês ou contato com o público. Em 2014 o hiato foi quebrado com uma série de 22 shows no Hammersmith Apollo, em Londres. O espetáculo foi chamado de Before The Dawn e não se tratou de um catadão dos hits ou uma espécie de “the best of” da carreira de Bush (não adianta procurar por “Wuthering Heights”, por exemplo). Foi uma oportunidade para ela e sua equipe criarem um espetáculo artístico que vai além da música e mostra a completude da artista. Before The Dawn pode facilmente ser comparado ao recente The Wall que Roger Waters levou ao redor do globo.

O álbum é triplo, assim como o show também é dividido em três atos (já deixando claro também os contornos teatrais do espetáculo). A primeira parte é um senhor abre-alas em que a banda de Kate Bush deixa claro a forma mais roqueira que músicas mais pop e eletrônicas tomariam ao vivo. “Lily” (versão de Director’s Cut, 2011) coloca uma guitarra para fazer um riff, bateria e baixo proeminentes e os teclados do refrão dão a carga dramática que afastam a faixa do pop sintetizado original (do disco The Red Shoes, 1993) e a levam ao rock. Sem falar que a interpretação de Bush para ela está melhor do que nas duas gravações de estúdio. O clássico pop “Hounds of Love”, que dá nome ao seu mais famoso álbum, também já aparece logo no início, não muito diferente do que já estamos acostumados ao ouvir.

kate_bush_3

Já a climática “Joanni” rouba a cena nesse primeiro ato com toda a sua sensibilidade e sem o excesso de teclados e sintetizadores da gravação original. “Top Of The City” mostra mais uma vez o poder dinâmico da performance de Bush e não deixa nada a dever para a versão de estúdio de Director’s Cut. A balada “Never Be Mine” – lá do The Sensual World (1989), mas recriada em 2011 – faz o dream pop inglês dar as caras no show. A música que vem em seguida dispensa apresentações: “Running Up That Hill”, a primeira faixa de Hounds Of Love. Por fim , “King Of The Mountain”, com o dobro do tempo original e um clímax

O primeiro ato é um grande apanhado da cantora, uma grande apresentação de sua boa forma vocal e de como conseguiu formatar as canções para os palcos ao lado de uma boa banda. A partir do segundo ato o álbum pode se tornar um pouco hermético para quem é novato em Kate Bush, mas mesmo assim vale a pena ouvir, pois é quando ela põe em prática o espetáculo que além de musical é também visual (e ficamos na espera do lançamento do DVD e blu-ray com o show completo).

As 10 faixas do segundo disco, com mais de 70 minutos de música, reproduz o The Ninth Wave, o álbum conceitual e lado B de Hounds Of Love (leia nossa resenha especial do álbum para entender melhor). Com alguns interlúdios para criar uma unidade teatral, Bush entrega ótimas interpretações para as sete faixas dessa suíte sobre o ciclo de vida e morte de uma mulher perdida no mar durante a noite. “And Dream Of Sheep”, “Under The Ice”, “Waking The Witch” (que ainda conserva os efeitos eletrônicos e vozes da gravação original), “Watching You Without Me”, a celta “Jig Of Life”, uma versão poderosa de “Hello Earth” (incluindo o final mais soturno) e, por fim, a iluminada “The Morning Fog”.

O terceiro disco é composto quase totalmente pela suíte A Sky Of Honey, que ocupa o segundo disco de Aerial. É quando o rock’n’roll dá um tempo e deixa o lado mais suave e climático da inglesa se expressar. Embora seja um bom disco de Kate Bush, ele não é tão popular quanto os lançados na década de 80 ou anteriores. Ao fim de “Aerial”, longa e forte canção que encerra a suíte, temos “Among Angels”, representante de 50 Words For Snow. Fechando o disco, temos a excelente “Cloudbursting”, que toca como se 1985 tivesse sido ontem e mesmo após três atos musicais, a voz de Bush soa bem e não parece nada cansada. Além disso, quando a música termina, apoteótica, ouvimos Bush agradecer a plateia e parece bastante sincera e emocionada.

Seu retorno com Before The Dawn mostra que Kate Bush honrou a importância de Hounds Of Love, que foi de fato um divisor de águas em sua carreira, e nos lembrou como também é importante para ela os discos mais recentes e como parece ter “virado a página” de sua visão musical ao não incluir nada de seus discos pop de 1982 e da década de 1970.

O disco triplo Before The Dawn é bastante visual graças ao storytelling e à performance teatral evidente que une atos e faixas. Por isso, essa experiência só poderá ser completa com o registro em vídeo do show. Ainda assim, a versão apenas em áudio atesta como Kate Bush continua amadurecendo e propondo desafios a si e ao público.

kate_bush_4

Placebo – MTV Unplugged (2015)

placebo_MTV_Unplugged_2015

A banda resgata o MTV Unplugged e show reafirma a originalidade do Placebo

Por Lucas Scaliza

Após o lançamento do ótimo Loud Like Love (2013), o Placebo reconquistou interesse do público, da imprensa, da crítica, dos fãs. Um bom disco de uma banda que ainda tem o que dizer. Se o som já não parece tão afetado e diferente como era lá em 1996 e 1998, quando do lançamento dos ótimos Placebo e Without You I’m Nothing, pelo menos amadureceu e voltou a soar tão interessante quanto em seus melhores momentos.

No dia 19 de agosto de 2015, o grupo, agora formado apenas pelo inglês Brian Molko (voz e guitarra), pelo sueco Stefan Olsdal (guitarra, baixo, teclado) e pelo novo baterista Matt Lunn, reuniu músicos extras, incluindo um pianista e um naipe de cordas, para fazer um show acústico em Londres para alguns poucos fãs, com repertório que dá uma geral na carreira da banda e com produção de palco impecável. Entre os convidados estão o tecladista Billy Lloyd, o guitarrista Nick Gravilovic e a violoncelista Fiona Brice.

placebo_MTV_Unplugged_3

O MTV Unplugged resultante deste show especial mostra uma banda superconfiante e novamente em ótima fase, mais madura e longe de qualquer hype, honesta consigo mesma e que sobrevive graças a qualidade musical não só dos anos 90 e início de 2000, mas de toda a trajetória e influência que exerceu. O Placebo nos deu uma das vozes mais interessantes do rock alternativo e também uma banda com imagem andrógina. Se antes isso parecia desconcertante dentro do rock, hoje vai além da (des)afirmação de personalidade e gênero, ganhando contornos mais bem definidos como afirmação política e social. Não é por acaso que Molko canta “Meu computador acha que sou gay/ Mas qual é mesmo a diferença?” no início de “Too Many Friends”, single do último disco.

Algumas canções escolhidas pelo grupo para este especial “desplugado” (hoje em dia é muito difícil um show realmente desplugado, mas entendemos a conotação do termo, geralmente significando “trocamos as guitarras por violões”) são bem fiéis às originais. “36 Degrees”, “The Bitter End”, “Too Many Friends”, “Protect Me From What I Want”, Song To Say Goodbye” ainda são tão interessantes e boas quanto antes. Os arranjos para violão estão ótimos e violinos, cellos e violas adornam o arranjo com muita graça, sem transformar as composições em obras que elas não são.

Outras ganharam novos arranjos que as tornam especiais e até mesmo, de certa maneira, surpreendentes. A clássica “Every You Every Me” ficou lenta, trocou a força punk original por melancolia. Molko, que a cantava de forma direta, agora floreia com a melodia. O vocal de Majke Voss Romme (conhecida como Broken Twin) apenas agrega mais peso e drama à música. Uma releitura interessante para uma das faixas mais divertidas da carreira do Placebo. Algo muito parecido ocorre com “Meds”, a turbulenta faixa de abertura do álbum homônimo de 2006. No local das batidas aceleradas, um piano acompanhando a voz. A gravação original, conforme se aproximava do final, soltava as coleiras das guitarras para criar um épico pós-punk barulhento. Neste acústico, a pequena orquestra em cima do palco desempenha esse papel espetacularmente. O poderia roqueiro de “Loud Like Love” e o clima quase britpop de “Hold On To Me” também foram convertidos baladas tristes de piano.

“Without You I’m Nothing” permanece, enquanto música, muito próxima da original, mas o trabalho de cordas, substituindo as melodias de guitarra originais, fica muito bom. Se a música perde em distorção, violino e viola preservam o senso de desequilíbrio que dá vida à música. Instrumentos árabes e indianos também poderão ser ouvidos ao longo do disco e vistos em ação no blu-ray do show em algumas faixas. São acréscimos completamente novos ao repertório de experimentação musical da banda.

“Bosco”, uma das melhores músicas de Loud Like Love, nunca fora tocada ao vivo até este MTV Unplugged. Ela ficou excelente em formato acústico e a melancolia de sua letra casa perfeitamente com o piano e o naipe de cordas que levaram para o palco. E até mesmo o disco de covers da banda foi lembrado com uma versão da clássica alternativa “Where Is My Mind”, dos Pixies.

Este MTV Unplugged acabou sendo uma via de mão dupla. Deu a oportunidade de o Placebo experimentar sonoridades diferentes, rearranjar suas músicas e preparar um show especial como há muito tempo não faziam (apesar dos 18 meses que passaram em turnê com o último lançamento). E o próprio selo MTV Unplugged teve uma chance de voltar a ser relevante, colocando bandas de rock para apresentar suas músicas de uma forma inesperada, algo que já rendeu uma série de bons momentos com REM, Nirvana, Alice In Chains e até Capital Inicial, entre tantos outros exemplos.

A versão em vídeo do show não deve ser descartada. A banda preparou um espetáculo visual caprichado. O palco passa todo o show envolto por uma cortina transparente onde são projetadas animações abstratas de linhas e pontos luminosos que criam imagens, ondas e diversos efeitos diferentes para cada canção. Embora alguns artistas já estejam usando algo parecido em suas apresentações, como é o caso de Steven Wilson, é mais uma novidade para o repertório visual do Placebo.

spotify:album:1oxySAMIExqumOmAILbFq6

placebo_MTV_Unplugged_1

Gov’t Mule – Stoned Side Of The Mule Vol. 1 & 2 (2015)

GovtMule-StonedSideOfTheMule

Tão bom quanto – ou melhor – que os Rolling Stones

Por Lucas Scaliza

O que acontece quando uma banda virtuosa, experiente, musical pra caramba e devotada ao rock clássico resolve gravar músicas da sua banda? Se a banda em questão for o Gov’t Mule, é bem possível que o resultado seja tão bom – ou melhor – do que faz a banda original. E é uma qualidade técnica e de interpretação acima da média que vemos nos dois volumes de Stoned Side Of The Mule, em que os americanos tocam ao vivo 13 músicas dos Rolling Stones, sendo quatro do clássico Sticky Fingers (1971).

Além de um trabalho extremamente consistente com suas próprias músicas, o Gov’t Mule tem lançado nos últimos anos trabalhos ao vivo que são excelentes mostras de sua vasta musicalidade. O triplo Dark Side Of The Mule, por exemplo, resgata um show em que a banda fez um tributo incrível ao Pink Floyd. E em Sco-Mule temos canções do grupo transformadas em jazz em um show com a participação do guitarrista John Scofield. Ambos shows cheios de energia, pegada e muita ênfase na instrumentação.

Considerando a natureza mais direta da música dos Rolling Stones, em Stoned Side Of The Mule há menos oportunidades de Warren Haynes e banda mostrarem toda a desenvoltura técnica que caracteriza o Gov’t Mule, mas em compensação está ali um entendimento do que pede a música de Mick Jagger, Brian Jones e Cia. “Angie”, “Wild Horses” e “Play With Fire”, por exemplo, nunca perdem a doçura original com o violão sempre presente. Embora Haynes seja também um ótimo vocalista, seu timbre de voz é bem diferente do de Mick Jagger e essa é a única grande diferença entre o Mule e os Stones originais. A voz de Jagger, afinal, é tão assinatura da banda quanto os riffs bluseiros e a afinação em Sol de Keith Richards.

Mas quando há oportunidade de criar e improvisar, o Gov’t Mule pisa em terreno seguro, mostra que vai mais longe que os Stones e conquista qualquer apaixonado pela música dos ingleses e apreciadores de um bom som ao vivo. Confira os solos de guitarra inspirados em “Monkey Man”, os refrãos insanos em “Doo Doo Doo Doo Doo (Heartbreaker)” e toda a improvisação que fazem em “Can’t You Hear Me Knocking”. O show começa e termina animado para ninguém colocar defeito, com “Under My Thumbs” abrindo o trabalho e “Brown Sugar” finalizando. E temos ainda “Paint It Black”, “Ventilator Blues”, “Shattered”, “Bitch” e “Slave” no repertório. Como se vê, um tributo para o fã dos Stones que está além dos hits “Satisfaction” e “Star Me Up”, que não fazem falta. (Mas confesso que gostaria de ouvi-los executando “Sympathy For The Devil” e “Jumpin Jack Flash”).

Além de completar as músicas da banda com um pianista e tecladista que abrilhanta as harmonias e melodias, o Mule colocou no palco o saxofonista Steve Elson, que participa na maioria das faixas, seja reproduzindo riffs clássicos no sopro ou mesmo solando. Elson se encaixa perfeitamente no Mule e nas músicas dos Stones (confira “Bitch” e “Slave”). Jackie Greene (do Black Crowes) também reforça a banda e responde por vários dos solos presentes no disco.

A primeira parte do show foi lançada ano passado, como parte do Record Store Day. Agora lançaram um vinil com o show completo. A apresentação ocorreu no Helloween de 2009, na Filadélfia, no Tower Theater. Não importa se você é devotado ao Mule ou ao Rolling Stones. Este registro é capaz de fazer você abrir os olhos para o que poderia estar perdendo de melhor das duas bandas.

 

Nick Cave – Live At The Royal Albert Hall (2015)

Setlist caprichado e uma ótima performance de Cave e dos Bad Seeds

Por Lucas Scaliza

Embora seja uma lenda do indie, Nick Cave ainda permanece sendo um grande artista que não estourou nos Estados Unidos, embora tenha público por lá também. Com mais de 30 anos de carreira, consolidou sua carreira ao lado dos Bad Seeds e um dos principais expoentes do rock australiano e do post-punk. Após o lançamento do excelente Push The Sky Away (2013), Cave e sua banda embarcou numa extensa turnês pela Europa e América do Norte, culminando com o lançamento do documentário 20,000 Days on Earth (2014), que retrata de maneira bastante artística um dia na vida do compositor e alguns aspectos de sua história pessoal e carreira. Na cola da boa recepção do filme, Nick agendou alguns shows solos pela Europa. Um desses shows, com a participação dos Bad Seeds (apesar de ser “solo”), foi no prestigiado Royal Albert Hall, com ingressos esgotados. (A banda já havia gravado um ao vivo no mesmo lugar em 1997, sendo lançado em 2008).

Com mais de duas horas de duração, foi uma verdadeira celebração da carreira de Nick Cave e da variedade musical de seu catálogo. Diversas músicas preferidas dos fãs entraram no setlist, assim como músicas importantes de sua carreira, alguns lados B e canções dilacerantes e agressivas dos anos 80. Muitas faixas deram ênfase ao piano (tocado pelo próprio cantor), conferindo uma interpretação ligeiramente diferente da original. Mas Warren Ellis (guitarra, violino, mandolin), “Martyn Casey (baixo), Larry Mullins (teclado) e Thomas Wydler (bateria) também tiveram participação importante no show. Assim que o show acabou, quem compareceu pôde sair dali com um disco duplo retratando na íntegra o show que acabaram de assistir. E é esse show que resenhamos agora.

Alguns clássicos da discografia estão bem representados. A soturna e sardônica “Red Right Hand”, talvez a música que corroborou a imagem de Príncipe das Trevas (do indie e do post-punk, não confundir com Ozzy) de Cave, ganhou uma versão bem legal com piano e aquela inconfundível linha de baixo. O solo também tirou a ênfase do teclado e colocou o piano de Cave como protagonista. “Stranger Than Kindness” e a doce “Brompton Oratory” mantiveram-se bastante parecidas com as originais. “From Her to Eternity” e “Tupelo” continuam tão agressivas e tão carregadas de ameaça quanto sempre foram, sendo interpretadas pela banda toda. Já “The Mercy Seat” e “Avalanche” (cover de Leonard Cohen), outras duas pesadas faixas dos anos 80 de Cave, também estão no repertório. A primeira continua sendo forte e cheia de tensão mesmo na interpretação piano e voz de Cave, enquanto a segunda ganhou uma carga mais melancólica sendo executada apenas pelo piano do cantor e o violino de Ellis. E “Jack The Ripper”, mais perto do fim do show, volta com a banda toda, com baterias grandes, baixo pesado e guitarra distorcida, mostrando todo o poder rock’n’roll do post-punk dos Bad Seeds.

As bonitas “The Weeping Song”, “The Ship Song” e a importante “Love Letter” também ficaram ótimas apenas no piano. Já “No More Shall We Part” sempre foi uma canção para piano. Neste show, continuou tão dramática e triste como sempre foi. Nick Cave, acima de tudo, sabe interpretar suas composições e soar autênticos em cada uma delas. E não poderia faltar “Into My Arms”, uma das músicas mais conhecidas e mais exaltadas de sua carreira, sendo recebida com efusão pela plateia inglesa.

Foto: Andy Paradise

Foto: Andy Paradise

Entre os lados B, ele tocou “West Country Girl”, mais uma com participação decisiva do baixo de Casey e as habilidades de Ellis no violino; uma versão bem tristonha de “Black Hair”; uma versão animada e iluminada de “Breathless” (uma das músicas mais acessíveis do show); e a interessante “Up Jumped The Devil”, com direito a Nick explicando que é uma música sobre fazer um contato com o diabo e ser levado ao inferno, algo que ele “não acredita mais”. Embora seja um lado B, é uma canção que fica ótima ao vivo e tem a mesma pegada de “The Red Right Hand”.

Canções mais recentes de Push The Sky Away também estiveram no setlist, começando por “The Water’s Edge”, que abre o show com seu jeitão new wave e abstrato, evocando o melhor da interpretação do australiano. É o tipo de faixa que depende da interpretação de toda a banda, mas a bateria de Thomas Wydler realmente contribui com o caos sonoro. E “Mermaids”, que ganha um belo solo de improviso feito por Ellis, cheio de overdrive fuzz, levando a canção para outro patamar. “Higgis Boson Blues”, mais um longo clássico de Cave, não decepciona nunca, uma das melhores faixas do show e da carreira dele, arrancando gritos e aplausos da plateia enquanto ela segue. “Jubilee Street”, o single do álbum mais recente, começa com o andamento mais lento que o original, mas logo ganha velocidade. A música é simples, um loop de uma determinada sequência de acordes, mas sua dinâmica sobe até atingir altos níveis de distorção enquanto Cave canta “I am vibrating, I am flying, look at me now!” Por fim, as vibrações de outra dimensão de “Push The Sky Away” fecham o show.

Essa nova fase de Nick Cave & The Bad Seeds foi bem documentada. Além do novo disco de inéditas e do documentário, lançaram oficialmente o Live From KCRW, que capta uma pequena apresentação ao vivo do grupo, meio elétrica e meio acústica, em um pequeno auditório. Extraoficialmente, saiu o duplo “Live at the Admiralspalast”, gravado em Berlim. Nesse registro, a banda toca Push The Sky Away na íntegra e na ordem, completando a apresentação com vários hits do grupo. Mas este novo Live At The Royal Albert Hall captura não só um repertório mais do que caprichado como também uma mostra do melhor que a performance de Cave, Warren Ellis, Martyn Casey, Thomas Wydler e Larry Mullins têm para oferecer. São veteranos da música que ainda tem muito gás e estão fazendo música boa, cada vez mais madura e com um pique de deixar muito garoto novinho no chinelo. É um ao vivo tanto para o fã de Cave & The Bad Seeds (obrigatório, diria) como uma ótima introdução ao universo do compositor.

The White Stripes – Under Amazonian Lights (2015)

Under Amazonian Lights Box

Jack e Meg ao vivo. No Brasil. Em Manaus. Numa casa de ópera. Em 2005.

Por Lucas Scaliza

Mais material de gaveta de Jack White, Meg White e da Third Mand Records, gravadora baseada em Nashville do Jack White. Isso porque já lançaram este ano o Live Under The Lights of the Rising Sun, com o registro da primeira vez que Jack e Meg tocaram no Japão. Um disco legal e para colecionadores. Mas Under Amazonian Lights é diferente: mostra uma dupla mais madura, com repertório mais vasto, mais conhecido e no Brasil. Na Amazônia. Numa casa de ópera de Manaus. Em 2005.

Era a turnê de Get Behind Me Satan (2005). Jack ainda morava em Detroit e conforme ele toca e conversa com o público você percebe que era mais jovem. Então é um ótimo registro histórico da dupla. No repertório, versões bem legais de “Blue Orchid”, “Black Math”, “Dead Leaves on the Dirty Ground”, “My Doorbell” e “Hotel Yorba”, sem falar em 48 segundos de Meg cantando “Passive Manipulation” e de duas versões de “The Same Boy You’ve Always Known”, uma elétrica e outra acústica.

Meg White e Jack White em 2005.

Meg White e Jack White em 2005.

O pacote que a Third Man Records (TMR) está vendendo traz o show de 66 minutos e 22 faixas dividido em dois LPs vermelhos, junto a um DVD com a apresentação e um single de 7 polegadas com a faixa “I Let You Down”, gravada por Jack lá em 2000, e a instrumental “Ain’t No Sweeter Than Rita Blues”, que acabou de fora de Get Behind Me Satan e só agora vê a luz do dia. Ou seja, um box para colecionadores, para apreciadores de Jack, Meg, White Stripes e esses itens de butique da TMR.

O show, recheado de guitarra distorcida e com um onipresente fuzz, contou com alguns covers bem legais. “I Asked For Water” do Howlin’ Wolf, “Death Letter” do Son House, a folclórica “St. James Infirmary” e “(I’ll be with you) In Apple Blossom Time”, de Barry Manillow, espremida no meio de “I Just Don’t Know What to Do with Myself”. A divertida “Little Ghost”, a poderosa “Screwdriver”, “Fell In Love with a Girl” e a marimba de “The Nurse” também marcam presença. Note que muitas músicas do repertório continuam a fazer parte dos shows da carreira solo de Jack White, como mostrou seu disco ao vivo no festival Bonnaroo de 2014. Ah, e sim, “Seven Nation Army” fechou o show em Manaus com direito a coro da plateia e tudo mais.

Vault 23 - Under Amazonian Lights - Live At The Teatro Amazonas Opera House In Manaus, Brazil, 2005_F

Interessante ressaltar que nessa época o White Stripes estava tocando em diversos lugares diferentes, diversos locais que não costumam receber shows. O Teatro Amazonas, a grande casa de ópera que recebeu o show, nunca antes tinha abrigado uma apresentação de rock. Dizem que o próprio Jack White reparou que pó caía do teto em momentos mais pesados do show. Havia de fato o medo de que pedaços do teatro caíssem devido à pressão da amplificação dos instrumentos.

Quatro particularidades: 1) Como é um espaço para óperas, o Teatro Amazonas tem poltronas, não espaço aberto. Jack pediu para que todos se levantassem e curtissem o show em pé, mais próximos do palco e como um concerto de rock e blues enérgico deve mesmo ser curtido. 2) Em um determinado ponto do show – e isso infelizmente não está nos LPs, mas está no DVD –, Jack e Meg foram para fora do teatro e tocaram a clássica “We’re Going to be Friends” para os amazonenses que não conseguiram comprar ingressos e ficaram de fora do espetáculo. 3) Naquele mesmo dia, 1º de junho, Jack White se casou com a modelo inglesa Karen Elson, ambos em cima de um barco no encontro das águas do Rio Negro com o Solimões. Um pajé abençoou a união. 4) Quando Jack tocou “(I’ll be with you) In Apple Blossom Time”, já no final do show, era para comemorar a data e homenagear sua mulher, pois a música fala de casamento. Karen assistiu tudo de camarote.

Under Amazonian Lights é mais um desses momentos White Stripes. Contém toda a força, o caos e os improvisos que caracterizam os shows da dupla e que Jack levou para sua carreira solo.

Quanto material a TMR ainda tem da banda e de Jack White para liberar futuramente? Provavelmente, muita coisa.

Vault 23 - Under Amazonian Lights - Live At The Teatro Amazonas Opera House In Manaus, Brazil, 2005 B

Van Der Graaf Generator – Merlin Atmos (2015)

cover

Viagem lisérgica com dois longos momentos épicos, incluindo “A Plague of Lighthouse-Keepers” na íntegra

Por Lucas Scaliza

Recentemente, o King Crimson, uma das bandas pioneiras no rock progressivo inglês, lançou o Live Ath The Orpheum, um recorte de uma parte de duas apresentações que a banda fez em 2014 no Orpheum Theater de Los Angeles. A banda é pioneira na mistura de rock com jazz, incursões ácidas pela psicodelia, muitas passagens instrumentais e muitas músicas estranhas. Ou seja, é esperado que a música resultante disso tudo seja um pouco estranha para ouvidos desacostumados.

Agora temos Merlin Atmos, um registro de mais de duas horas de uma apresentação completa dos também ingleses Van der Graaf Generator gravado durante a turnê europeia do trio em junho de 2013. O grupo segue a linha do King Crimson, como todas aquelas loucuras da turma de Robert Fripp entre outras excentricidades próprias. Dado a densidade de suas músicas e tamanho do registro, diria que Merlin Atmos é um disco ainda mais exigente que o recente lançamento do Crimson.

Isso não é ruim. Principalmente porque um dos chamarizes para este ao vivo é a presença da faixa “A Plague of Lighthouse-Keepers” tocada pela primeira vez na íntegra para um público com seus 24 minutos de viagens ácidas, psicodelia e mudanças rítmicas e atmosféricas. É uma dessas faixas clássicas e pretensiosas que todo mundo gostaria de testemunhar a execução, como é o caso de “Echoes” ou das duas partes de “Shine On Your Crazy Diamond” do Pink Floyd. Que fã de Van der Graaf perderia a oportunidade de saber como a faixa do disco Pawn Hearts (1971) fica ao vivo? Até entrar em Merlin Atmos, “A Plague of Lighthouse-Keepers” fora executada pela banda uma única vez em 1972 para a televisão belga. A espera não é sem motivo: a complexidade da música e toda a variedade de sons que ele propunha em estúdio era algo muito difícil de ser reproduzido ao vivo de forma que se aproximasse da versão do disco original.

1280x720

Mas “A Plague…” não é a única atração nem a única faixa mastodôntica do novo álbum duplo. Eles abrem o show com os 21 minutos de “Flight”, uma música épica, mas épica de uma forma estranha e lisérgica. Uma viagem por tempos quebrados, dissonâncias e inúmeras passagens de teclado e piano. Merlin Atmos ainda traz outras 11 faixas (cinco delas com mais de 10 minutos de duração), mas somente essas duas são capazes de levar o fã apaixonado ao delírio e dar uma boa ideia da estética vandergraafiana inovadora para quem está começando a ouvir a banda.

Com tantas músicas cheias de mudanças e progressividade, fica difícil querer descrever cada uma. Basta dizer que este ao vivo é bastante fiel ao clima da banda em estúdio e os timbres são muito similares aos gravados nas década de 1970.  Além disso, nunca deixaram de fazer música progressiva, com balanço e bons refrãos, bons solos, mas cheia de desvios e algumas esquisitices harmônicas e estruturais que são a marca registrada.

O Van der Graaf Generator – que nunca alcançou um status de Pink Floyd ou Yes no mundo do rock progressivo inglês – é uma banda reverenciada no mundo inteiro e que estendeu sua influência para além da década de 70, assim como seus conterrâneos também o fizeram. A banda esteve ativa de 1967 a 1978. Fez uma longa pausa e só voltou à cena em 2005. De lá para cá, lançaram quatro álbuns de estúdio com composições inéditas: Present (2005), Trisector (2007), A Grounding in Numbers (2011) e o instrumental ALT (2012).

E Merlin Atmos, além de dar ao público uma versão completa de um épico clássico como “A Plague…”, soube não ser apenas nostálgico e colocou também músicas da nova fase no show, como “Over the hill”, “Lifetime”, “All that before”, “Interference patterns” e “Bunsho”. Não há canções egressas dos três primeiros discos do grupo, mas tudo bem, ainda há a doçura-agressividade maníaca de “Man-Erg” (também de Pawn Hearts), “Scorched Earth” de Godbluff (1975), “Gog” e a ótima “Childlike Faith in childhood’s end”, ambas de Still Life (1976).

O Van der Graaf Generator recentemente perdeu seu saxofonista e flautista David Jackson. Desde então, o grupo atua como um trio de multi-instrumentistas em estúdio: Peter Hammill assume os teclados, piano, guitarra e vocais. Hugh Banton fica com os baixos, órgãos e backing vocals. E Guy Evans cuida da bateria. São três músicos clássicos da banda que atuam desde os primeiros anos do grupo e se reuniram em 2005. Banton é um destaque a parte: como o órgão/mellotron/sintetizador são instrumentos quase onipresentes no disco, ele precisa usar as mãos para ser o organista que se espera dele e os pés para fazer os baixos das músicas, usando pedais de baixo para isso. Guy Evans dá conta do recado direitinho, contribuindo com seu jeito elegante e preciso de tocar canções com tantas viradas estilísticas. E Peter Hammill está com uma voz um pouco rouca demais e que não manteve a qualidade do timbre e da afinação, mas ele ainda tem poder e aposta na crueza do som de suas cordas vocais. E sua habilidade ao piano é incontestável, como “Flight”, composição de seu disco solo A Black Box (1980), deixa claro logo de cara.

Ao ouvir Merlin Atmos vai parecer duvidável que sejam apenas três ingleses tocando toda aquela variedade de sons. Graças à tecnologia e ao desdobramento de Hammill e Banton entre vários instrumentos, os momentos de maior caos sonoro e elevada dinâmica soam eficientes e mostram que esses sexagenários estão em forma.

Com disposição para turnês, apresentações em festivais e gravando material novo regularmente desde a volta, o Van der Graaf Generator ainda pode surpreender. É a impressão que se tem ao chegar ao fim das mais de duas horas de Merlin Atmos. Com o advento do neoprogressive rock na Europa e nos EUA, o estilo ganhou vida, novos admiradores e muita nostalgia dos grandes álbuns ambiciosos do passado. King Crimson voltou a ativa. O Yes também. Até o Pink Floyd resolveu lançar um disco novo, The Endless River, 20 anos após o The Division Bell (1994). E embora a referência máxima a eles esteja no fim dos anos 60 e ao longo da década de 70, nenhum deles soa datado.

vdgg 1

Damon Albarn – Live At The De De De Der (2014)

Damon_Albarn_-_Live_at_the_De_De_De_Der

Com participações muito especiais de De La Soul, Kano, Graham Coxon e Brian Eno e dá uma geral em sua carreira em duas noites no Royal Albert Hall, em Londres

por Lucas Scaliza

Após lançar um dos melhores discos do ano, Damon Albarn fechou 2014 com dois shows em Londres, no famoso Royal Albert Royal. Ele não levou aos palcos apenas o seu primeiro trabalho totalmente solo – o inventivo, melancólico e ótimo Everyday Robots –, mas toda a sua carreira.

Os dois dias de shows foram registrados nos dois ao vivo Live At The De De De Der, um do dia 15 de novembro e outro do dia 16. O repertório de ambos é idêntico e têm músicas solos, do Gorillaz, do The Good, The Bad & The Queen e, claro, do Blur.

2014DamonAlbarn_Getty487513975_010514

Um dos destaques é ver como Albarn adaptou canções de Everyday Robots para funcionarem ao vivo. Baixo, bateria e piano fazem um excelente trabalho nesse sentido, entregando o mesmo clima encontrado no álbum de estúdio, mas com aquele gosto de espontaneidade, de recriação ao vivo, já que alguns efeitos eletrônicos ficaram de fora (mas há o teclado de Mike Smith e um quarteto de cordas para completar “Lonely press play”, por exemplo, e os efeitos concretistas característicos de “Everyday robots” estão lá também).

Toda a melancolia de “Hostiles” também fez parte do show no Royal Albert Royal. “Photographs” ganhou um final climático cm direito a improviso no piano e uma dinâmica crescente e arrebatadora que faz a ponte para animada “Kingdom of Doom”, do TGTB&TQ. “You and me” e Hollow ponds” fecham o primeiro disco. A interpretação de Albarn em “You and me” é uma das melhores partes deste ao vivo, principalmente quando canta apaixonada e sofridamente os últimos refrãos (“Blame, blame, blame me when the twilight comes”).

Damon Albarn alternou suas músicas novas com velhas conhecidas do público, nunca deixando que a melancolia tomasse conta por completo do clima do show. Assim, mandou uma ótima versão de “Tomorrow comes today”, “Slow country”, “Kids with guns”, “El mañana” e “Don’t get lost in the heaven”, todas do Gorillaz ao longo do show. Como é um músico interessado em diversas formas de música (opera, rock, pop, funk, hip hop, eletrônica, etc), mandou dois covers de música do Mali: a instrumental “Bamako city” e a bela “Sunset coming on”, ambas com a participação dos músicos Afel Bocoum e Madou Sidiki Diabete.

Albarn aqueceu os motores do Blur mandando com sua banda solo “Out of time” e “All your life” e saiu do palco. Ao voltar para o primeiro bis, chamou ao palco Graham Coxon, guitarrista do Blur. Ao lado dele, Damon mandou a tríade “End of a century”, “The man who left himself” e uma versão de 9 minutos de “Tender”, para não deixar nenhum fã do grupo inglês triste.

O segundo bis começou com “Mr. Tembo”, uma das únicas músicas animadas de Everyday Robots (embora seja sobre um elefante que morreu) com a participação do coral gospel The Leytonstone Mission Choir. O trio de rappers americanos De La Soul subiu ao palco logo depois e entoaram um riso característica para dar início a “Feel good Inc.”, sucesso de Demon Days (2005), do Gorillaz. Eles incendiaram o show. Kano, um rapper inglês, tomou seu lugar para um dos maiores sucessos de Albarn e sua banda animada, entregando uma versão longa e cheia de groove de “Clint Eastwood”. Esperto, Kano não seguiu a letra original da música e deu ao público uma nova versão, cheia de improvisos, vigorosa e violenta.

Por fim, o produtor Brian Eno, uma figura de vanguarda na música europeia, se juntou a Albarn e sua banda para encerrarem o show com a ótima “Heavy seas of love”, música que também fecha Everyday Robots.

Acompanhado de um quarteto de cordas, um coral formado por seis cantores, várias participações especiais e Mike Smith no teclado, Jeff Woothon na guitarra Seye Adelekan se dividindo entre baixo e ukelelê e Pauli Stanley-McKenzie na bateria, Damon Albarn coroa com Live At The De De De Der um ano em que sua musicalidade deu sinais de vida pulsante e criatividade que não cessa. Um jovem que iniciou sua carreira no britpop agora atinge patamares bem mais elevados e como bem disse o Bruno Chair, o outro editor do Escuta Essa!, Damon não precisa provar mais nada para ninguém. Um artista em um de seus melhores momentos, desfrutando de amizades importantes e entregando dois shows perfeitos no Royal Albert Hall.