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Warrant – Louder Harder Faster (2017)

Festança rock’n’roll oitentista, divertida e irreverente

Por Gabriel Sacramento

Ouvindo este disco pode não parecer, mas o Warrant não é uma banda nova. O grupo nasceu na cena do glam rock de Los Angeles dos anos 80, onde surgiram grupos megafamosos como o Poison, Motley Crue e o Guns N’ Roses. Mas depois de tantos anos de atividade, a banda soa totalmente rejuvenescida, cheia de fôlego e energia roqueira de uma forma impressionante. Se comparada com bandas novas que gostam de resgatar essa vibe anos 80 como Danko Jones e Airboune, o Warrant não soa muito diferente, pois não dá sinais de rugas e nem de fraqueza no esqueleto.

Mas são mais de 30 anos de carreira e ao mesmo tempo em que soa como uma banda nova, soa também como um grupo maduro que sabe bem o que faz e como chegar precisamente ao resultado desejado. A direção é bem definida e o objetivo alcançado com louvor. Foi assim com o ótimo Rockaholic (2011) – primeiro álbum com os vocais de Robert Mason, que fez um bom trabalho como vocalista do Lynch Mob – e está sendo com Louder Harder Faster, novo trabalho do quinteto de LA.

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O disco possui a identidade do glam dos Estados Unidos oitentista. Riffs pesados, vocais agressivos, baladas que surgem para aliviar o tracklist. Em LHD, temos ainda mais músicas mais orientadas aos vocais do que às guitarras, com grandes melodias e ganchos que ficarão na sua cabeça por muito tempo. “Devil Dancer” chama a atenção pelo seu riff principal e sua cadência, mas o principal é o refrão, bem marcante. “New Rebellion” é o tipo de faixa que resgata o hard rock oitentista, mas também traz um quê do heavy metal que bandas como o Accept têm feito atualmente. “Only Broken Heart” é marcada por uma guitarra melódica no início e melodias vocais proeminentes no desenrolar da faixa. É bem estruturada, bem dividida e o refrão ganha ênfase. “U in My Life” cumpre a função da balada obrigatória com violão. A banda consegue manter o equilíbrio e não cai no excesso de açúcar que às vezes acomete este tipo de composição.

LHD foi produzido pelo ex-DIO Jeff Pilson, que soube bem explorar as facetas mais interessantes e obter um resultado consistente. Dá ênfase maior aos vocais, deixando muitas vezes as guitarras em segundo plano, sendo difícil acreditar que realmente existam duas guitarras em vários momentos. O timbre das distorções, mais polido e abafado, também é um pouco diferente do usado em Rockaholic. Joey Allen e Erik Turner estão bem entrosados e ambos trabalham juntos para que as guitarras soem coesas e harmonizadas. Já Jerry Dixon se destaca no baixo, colocando boas notas no meio da porradaria e chefiando bem a cozinha. O vocalista Robert Mason se destaca também, cantando mais melodias e gritando nos momentos certos, acrescentando o que as faixas precisam.

Além de soar jovens e experientes ao mesmo tempo, o Warrant consegue manter a empolgação do ouvinte todo o tempo. A banda nos convida para a festa de celebração dos anos 80, da irreverência, diversão e rock’n’roll e não nos deixa na mão em nenhum momento. LHD são 42 minutos de pura adrenalina e disposição e até os momentos de alívio são usados estrategicamente para dinamizar e ganhar nossa atenção para o que vem a seguir. Mesmo nos levando a uma Los Angeles perigosa de 30 anos atrás, o quinteto não soa totalmente datado, pois há um frescor de novidade, algo do século XXI enrustido no som. Som esse que inclusive pode sair de LA e visitar outras quebradas, sem problemas.

Prepare-se para ouvir um som pesado do bom, puro e feito com honestidade por caras que conhecem bem e dominam essa linguagem musical. Prepare-se também para se perder cantando os refrões e as melodias. Arraste os móveis da sala e balance ao som mais alto, mais pesado e mais rápido rock’n’roll do Warrant.

Demônio de Neon (The Neon Demon) – a trilha sonora (2016)

Moda e mistério em Los Angeles: Cliff Martinez usa sintetizadores para dar clima sombrio e de sonho ao filme de Nicolas Winding Refn

Por Lucas Scaliza

De muitas maneiras, Demônio de Neon (The Neon Demon), filme do dinamarquês Nicolas Winding Refn, lembra o clássico cult Cidade dos Sonhos (Muholland Drive, 1998), do mestre David Lynch. Ambos se passam em Los Angeles, cidade de sonhos pré-fabricados, de ganância, de impetuosidade, de egocentrismos, onde a inocência e as segundas intenções andam juntas. Os dois lidam com as expectativas de fama e glória de mulheres egressas de cidades menores. No filme de Lynch, é Betty que chega a L.A. para tentar uma carreira como atriz; no de Refn, é Jesse (interpretada por Elle Fanning) que encontra os prazeres e temores da cidade ao tentar emplacar uma carreira como modelo fotográfica e das passarelas. E ambos tentam revelar os cantos escuros das indústrias que enfocam: a cinematográfica e a da moda.

Por baixo de todo glamour, há sempre muita sujeira, pode parecer a princípio. Assim como Cidade dos Sonhos, Demônio de Neon preenche a relação entre os personagens com mistério e suspense. O que realmente aconteceu a Jesse quando o famoso fotógrafo de moda pediu que a equipe saísse do estúdio? Qual é a das modelos amigas da maquiadora Ruby (Jena Malone)? O que aconteceu à garota do outro lado da parede?

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Unindo o mistério das intenções de cada um às promessas evocada por essa cidade de ídolos, é claro que Refn, como Lynch, também daria a sua história a atmosfera de sonho, perfeita para emular um jogo de ilusões, pulsões sexuais e morte.

O diretor apresenta imagens interessantíssimas e fotograficamente supercalculadas para criar seu filme, que realmente está muito mais preocupado com a estética visual do que com o roteiro. Mas apesar de toda a técnica visual, é no som que está a chave para as paisagens oníricas de Demônio de Neon. A trilha sonora, composta por Cliff Martinez (que também fez a trilha de Drive e Only God Forgives, também dirigidos por Refn) foi feita inteiramente com sintetizadores, esse instrumento de várias facetas e capaz de se metamorfosear de inúmeras maneiras diferentes, nos dando a um só tempo a vibe eletrônica do mundo moderno, timbres dos anos 70 e 80, e grandes atmosferas etéreas e flutuantes. Martinez entrega muito mais melodia dessa vez do que nos filmes anteriores de Refn, mas não deixa de criar faixas com batidas bem regulares e que ajudam a identificar a nossa época atual e a clara influência de John Carpenter – mas ele próprio lembra da banda de rock progressivo Goblin, que já trabalhou com o cineasta italiano Dario Argento.

Martinez faz desde música excitante para momentos gore (“The Neon Demon”, já no início do filme), excitação que se transforma em mistério (na cena da apresentação artística na boate, quando a faixa “The Demon Dance” se transforma em algo mais nefasto), faixas fantasmagóricas (“Ruby At The Morgue”, “Ruby’s Close Up” e “Get Her Out Of Me”), e músicas que atestam o feeling de sonho em tudo o que Jesse está vivendo. Uma delas é “What Are You”, que sutilmente sublinha o momento em que Jesse descobre que será “excelente” como modelo logo em sua primeira entrevista. Igualmente doce, só que mais onírica, é “Don’t Forget Me When You’re Famous”. Com um vestido comprido e esvoaçante no alto de um morro, Jesse observa a lua e as luzes de Los Angeles, indo de cá para lá como se flutuasse sobre a cidade. Uma variação de “What Are You” acompanha a jovem modelo durante sua passagem pela primeira vez a um enorme estúdio fotográfico, ressaltando seu deslumbramento. Em seguida, durante o ensaio, “Gold Paint Shoot” nos leva de novo a um tipo de sonho, combinando a trilha sintetizada de Martinez com a escolha pela fotografia precisa e câmera lenta de Refn. Já “Thank God You’re Awake” é puro suspense.

Entre cada um desses momentos, há cenas com silêncios absolutos que fazem o filme voltar a uma realidade fria de Los Angeles ao mesmo tempo que ressalta o suspense da história. Enquanto a música toca, as cenas parecem mais seguras. Quando não estão mais presentes, fica difícil intuir o que virá em seguida. Diversas músicas que estão completas no disco da trilha sonora às vezes figuram com espaço de tempo reduzido ou volume baixo no filme, como se fossem sound designs e não exatamente “faixas” da trilha. É uma escolha artística que demonstra uma utilização da música em favor do filme e de sua narrativa. Além disso, entre a excitação, a melancolia e a doçura, Martinez consegue fazer um acompanhamento perfeito para as imagens escolhidas por Refn na montagem de Demônio de Neon.

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Cliff Martinez teve bastante tempo para trabalhar na música do filme. Sua amizade com Nicolas Winding Refn faz com que, antes mesmo de ter um roteiro pronto, o diretor já lhe conte o que será e como será o filme. Mesmo assim, embora possa ir planejando o que pretende fazer a partir da ideia inicial e do roteiro, Martinez prefere ter algum material visual para ter certeza de onde quer levar sua música. E o diretor faz sua parte, fazendo de algumas faixas de Martinez apenas um acompanhamento sutil, enquanto outras já saltam para o primeiro plano para serem notadas.

Embora se revele em toda sua extensão apenas no disco, essa trilha só pode ser realmente compreendida, como qualquer outra, dentro do filme. Mas este caso pode ser um pouquinho mais especial, já que a ênfase visual foi pensada desde o início do projeto para combinar com as músicas que Martinez criaria – e o compositor, por sua vez, sabia que teria que compor algo que tivesse pulsão, uma sensualidade lânguida, algo de doce, algo de amargo, algo de estranho, distorção, brilho e ameaça. Isso tudo ele cumpriu muito bem, modelando sons com seus instrumentos digitais e às vezes ficando próximo de um resultado obtido por Disasterpeace em Corrente do Mal.

Demônio de Neon teve uma recepção fria e marcada pela reação exagerada de parte dos convidados e críticos que vão a Cannes. Assistindo ao filme, longe da bolha que é o festival francês, fica claro que grande parte das críticas à produção não se deve ao filme em si, mas sim a implicância com o diretor Nicolas Winding Refn. Como se não bastasse a assinatura visual e narrativa que deixa na obra – como vários outros cineastas/autores –, ele realmente assinou a película com suas iniciais. No mundo egocêntrico e cheio de ilusões do mundo do cinema e seus festivais, isso deve ter incomodado muito mais do que qualquer cena de necrofilia e necrofagia.

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Anenon – Petrol (2016)

Pitadas de jazz e música ambiente em um bom trabalho eletrônico sobre Los Angeles

Por Lucas Scaliza

Petrol, segundo disco completo do músico Brian Allen Simon (Anenon), é um retrato bastante interessante de sua cidade natal, Los Angeles. Uma tentativa bastante criativa e nada enfadonha de pintar um quadro da cidade com sons, mas sem que o artista precise recorrer a todos os tipos de som que possam fazer parte de uma cidade gigante como L.A. Não há hip hop, rap, rock e nem música latina em Petrol, por exemplo. Mas não importa. Não se trata de um documentário e sim de uma impressão pessoal de Brian Allen Simon sobre o lugar onde vive. Por isso, ele usa o que lhe é mais caro: música ambiente, ruídos de tráfego e pitadas de jazz, seguindo uma linha muito próxima ao trabalho já apresentado em Inner Hue (2012) e Sagrada (2014).

Como o próprio Simon explica, a Los Angeles de Petrol é aquela construída pelo frenesi da energia cinética de suas estradas (quem assistiu a segunda temporada de True Detective tem uma imagem bem vívida dessa característica da cidade) e os momentos de reflexão nas solitárias manhãs. Para o artista, o angeleno “entende a beleza da distância e as consistências da irregularidade”, elementos que ele quis permear em sua música.

Contudo, não é preciso viver ou ter andado pelas avenidas e boulevards de L.A. para compreender o álbum, desde que o ouvinte tenha um mínimo de informação, memória imagética e poder de abstração. A própria música de Anenon cria espaço para sua mente divagar e entrar em contato com o que quer que seja. Sabendo que cada uma das músicas é uma tentativa de nos colocar em contato com uma das almas de Los Angeles, essa imersão fica ainda mais facilitada.

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Se ouvir muito apressadamente, os sons iniciais de “Body” podem até te lembrar do barulho das ondas de Venice ou Malibu, mas são carros passando pela freeway. Além dos acordes gentis e do saxofone que representam a sonoridade de Simon, temos a inclusão de um violino também, que vibra competindo com motores e sintetizadores. A pressa e a confusão da grande cidade não tarda a ser representada. Cabe a “Lumina” esse papel. “Once” tem uma percussão acelerada, meio jazz e meio drum ‘n’ bass, cheia de nuances, encontrando uma continuação perfeita na experienciosa “CXP”. Se “Hinoki” evoca um lado mais enevoado e etéreo da cidade, “Machines” tenta aliar a presença dos equipamentos de construção com a beleza de suas paisagens urbanas. Fraseados de violino, camadas de teclado e sintetizadores se encavalam para construir o gigantismo confuso da cidade.

Petrol foi feito a partir de uma série de improvisos de Brian Simon com o amigo baterista Jon-Kyle Mohr, com a violinista Yvette Holzwarth e com o baixo clarinetista Max Kaplan. Isso quer dizer que as músicas do disco não seguem uma pauta musical escrita antes que os músicos tocassem em seus instrumentos. Após terem uma série de sons prontos, Anenon e Mohr sentaram-se para organizar a miríade de opções de frases e harmonias dentro de um produto coerente. Por isso Petrol, embora parta da improvisação, não soa improvisado em momento algum. Não soa friamente calculado também, graças às cadências jazzísticas. “Petrol”, a música que fecha o trabalho, vai ganhando corpo aos poucos, com múltiplas camadas e maior velocidade.

Os três trabalhos e os EPs de Anenon sempre têm algo para nos mostrar, mas Petrol é o álbum que parece mais bem acabado e redondo. Los Angeles é um pano de fundo apenas, deixando para o ouvinte a tarefa de sentir a metrópole em seus ritmos e acordes. Mas se não sentir onde aquele saxofone de Simon entra, ou o violino de Holzwarth, ou aquelas passagens delicadas que lembram as trilhas de Phillip Glass, não faz mal. O disco ainda assim é um bom exemplo de música eletrônica alternativa bem montada.

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Dead Sara – Pleasure To Meet You (2015)

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Sem muita pretensão, Dead Sara faz blues rock com força, vigor e voz de sobra

Por Lucas Scaliza

Leva pouco tempo para sacar o som, o contexto e o que quer uma banda como Dead Sara. Vindos de Los Angeles, o grupo é pura força, vigor, distorção e, principalmente, se escora na potente voz rouca de sua vocalista e guitarrista, Emily Armstrong. É tanta paulada e tanta visceralidade na performance (de palco e vocal) de Armstrong que poderíamos dizer que ela é uma espécie de Janis Joplin do blues hardcore. Aliás, o blues e o hard rock musculoso, cheio de guitarras graves e pesadas, são as misturas propostas pela banda desde sua estreia em 2012 com o autointitulado Dead Sara.

A voz de Armstrong é o grande tcham da banda para grande parte do público que entrou em contato com alguma de suas músicas. É marcante, é agressiva. Ela canta bonita, ela grita, ela berra. Ela sobe oitavas e os impressionáveis sempre adoram isso, como em programas de tevê de calouros e competição de banda. Mas como o Dead Sara preserva uma imagem de grupo mais ligado ao underground, esse recurso não chega a incomodar tanto e cai bem à energia da banda.

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Outra coisa que chama atenção no Dead Sara é a atitude de Emily Armstrong e sua amiga, Siouxsie Medley, como frontwomen e responsáveis pelas guitarras da banda, som muito importante em uma banda de rock desse tipo. Em Pleasure To Meet You, Siouxsie vai do blues de “Mr. Mr” a levada mais pop de “Greaser”, toca riffs pesados e faz um ótimo trabalho de guitarra na lenta e arrastada “Blue Was The Beautiful You” e na excelente “Mona Lisa”, com uma afinação e uma vibe bem mais grave.

Não é uma banda de músicas complicadas tecnicamente, mas isso não compromete a qualidade e a diversão de músicas como “Radio One Two” e em “Something Good”, a música mais King Of Leons do disco. Também não são faixas tão intensa assim, embora a rouquidão de Emily e a altura de sua voz causem essa sensação. Mas se isolarmos o instrumental, veremos que não chega ao poderio cavalar do Mastodon (afinal, Dead Sara é rock, não metal) e embora usem muita distorção, não soa tão pesado quanto o stoner rock de Lore, do Elder. E a origem do grupo está bem representada em “Lovesick”, um rock bem Hollywood, se é que me entendem. E claro que Los Angeles está no álbum, com a boa “L.A. City Slum”, em que o baterista Sean Friday mostra um pouco do seu controle na condução e a banda encaixa até um solo de sax ali no meio das guitarras nervosinhas.

Mas o que chama a atenção desde Dead Sara e que se mantém em Pleasure To Meet You é a proeminência do baixo de Chris Null. Não que ele roube a cena das guitarras, mas é o elemento fundamental da banda que segura todas as levadas e ainda consegue criar fraseados muito bons, fugindo das “cabeças de nota” que Nightwish e Muse tanto usam, só para citar dois exemplos. Não surpreende que “Suicidal”, primeira faixa do álbum, seja introduzida justamente por uma linha de baixo. E em “Mona Lisa” Null o usa até como instrumento melódico, e não apenas de base. Também vale a pena notar como é bem feita a interação entre o instrumento e as guitarras em “Feel Right at Home”, em que cada uma das guitarras tem seu espaço e o baixo não fica subordinado a nenhuma delas. Null tem espaço de sobra para brilhar para ouvidos atentos.

Embora se mostre até um tanto eclética em seus dois discos lançados até agora, Dead Sara finca os dois pés no rock e acena com a possibilidade de ser mais acessível também. Esteticamente, o blues rock do grupo não é ambicioso, mas é competente. Uma banda mais focada do que Halestorm e que pega mais pesado que The Pretty Reckless, para citar outras duas bandas de hard rock com grandes vocalistas. Mas Halestorm diversificou melhor seu som, flertando bastante com o alternativo em Into The Wild Life.

Seja como for, a banda sabe que seu melhor marketing é a performance de Emily Armstrong e fecha Pleasure To Meet You com “For You I Am”, uma música que é um playground para a vocalista mostrar todo o seu vocal apaixonado que embrulha uma letra sofrida. A dinâmica vai subindo, a guitarra de Siouxsie cria um riff executado em loop que favorece essa subida, enquanto Emily usa o potencial de sua garganta para impressionar e criar uma música que eleva os ânimos de qualquer ouvinte. Vindo da terra do entretenimento, o Dead Sara sabe o que entregar ao público e deixa-lo ávido por mais um pouco.

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Bruce Dickinson – Balls To Picasso (1994)

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Disco com o clássico do rock “Tears of the Dragon” completa 20 anos em muito boa forma

Por Lucas Scaliza

O que é:

Balls To Picasso é o segundo álbum solo de Bruce Dickinson, vocalista do Iron Maiden, lançado em 1994. É o primeiro disco solo de Bruce já fora do Maiden.

Histórias e curiosidades

Foi só em 1996 que Bruce Dickinson iria dar um susto em fãs e mudar bastante seu estilo e abandonar momentaneamente o heavy metal, mas em 1994 ele lançou Balls To Picasso, seu segundo disco solo de hard rock que continuava a dar indícios de como o inglês queria explorar uma musicalidade mais aberta que não era possível adentrar no Iron Maiden, banda que Bruce deixou após o exitoso Fear of The Dark, em 1993.

Em uma entrevista na época do lançamento do disco, Dickinson diz que seu primeiro disco solo Tattooed Millionaire (1990), gravado enquanto ele ainda estava no Maiden, foi divertido de fazer mas não era algo assim tão sério. Tattooed era um disco de rock, mas bebia das influências do rock setentista e oitentista. Ele também confessa que sempre foi um fã de Peter Gabriel, mas não de Genesis. Diz que a música estava mudando, a sociedade estava mudando e ele próprio mudava – uma série de mudanças que o levaram a gravar seu primeiro álbum, que é bem agressivo, mas nada perto do que fazia com o Maiden e com uma pegada de homenagem e reverência às suas influências. Tinha até um cover de David Bowie para “All the young dudes”.

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Em Los Angeles, Bruce Dickinson conheceu o guitarrista e compositor Roy Z, da banda Tribe of Gypsies, e foi com essa parceria e com esse time – acostumado às guitarras mais pesadas – que nasceu Balls To Picasso. Não foi tão simples assim, pois Bruce precisou gravar o disco três vezes até chegar ao resultado final. Antes de Roy Z e sua banda entrarem na parada, ele tocou com uma banda britânica chamada Skin. Depois com o músico e produtor Keith Olsen. É por isso que a versão deluxe lançada em 2004 contém um segundo disco com 16 músicas bônus, todos b-sides dessas outras sessões de gravação.

Em 1994, Bruce dizia como estava cansado do Maiden, embora gostasse da banda, dos fãs, dos companheiros de banda. Em sua opinião, ele estava fazendo o mesmo tipo de música há 12 anos e queria algo diferente – e algo diferente é o que o Maiden não faria. Dizia que o esquema para o Maiden era sempre o mesmo: lançar álbum, sair em turnê, lançar álbum, sair em turnê, vender discos para as mesmas pessoas e nunca para um público diferente. As coisas sempre iam bem na Europa, mas a América do Norte sempre foi um mercado complicado para a donzela de ferro.

Comercialmente, Balls To Picasso vendeu em seu primeiro mês a metade do que Tattooed Millionaire vendeu, mas o disco foi se espalhando e continuou vendendo ao logo do tempo. E “Tears of the Dragon”, a faixa mais longa e mais bem feita do disco, se tornou um clássico do hard rock, imediatamente reconhecível por seu dedilhado no violão, seu refrão forte e pelo solo de guitarra caprichado de Roy Z.

Aliás, o Tribe og Gypsies teve uma oportunidade de aparecer na cena rock’n’roll de Los Angeles e dos EUA como um todo após a colaboração com Bruce Dickinson. Segundo Roy, a história foi a seguinte: a Tribe estava gravando em um estúdio chamado Good Night L.A. durante a noite e a madrugada, uma forma de pagar menos pelas horas de estúdio. O lugar era do produtor Keith Olsen. Um dia, o engenheiro de som pediu que Roy chegasse mais cedo porque Bruce ia tirar um dia de folga. Quando o guitarrista chegou, viu Bruce curtindo o som da Tribe of Gypsies. Essa amizade gerou não somente Balls To Picasso, mas também os grandes Accident of Birth (1997), Chemical Wedding (1998) e Tyrany of Souls (2005).

Músicas e destaques

“Cyclops”: com quase 8 minutos de duração, é uma faixa que flerta com o heavy metal e mantém um intenso clima de mistério. Ela abre Balls To Picasso assinalando o quanto o trabalho será diferente do álbum anterior e dando um tom mais sério e grave para a sua música em carreira solo.

“Hell No”: misturar hard rock com passagens flamencas, uma dessas experiências que nunca seriam bem aceitas pelo Maiden e pelo público da banda. Mas Bruce e Roy Z fazem isso sem afetação. Há escala menor harmônica, mas há muita distorção também.

“Change of heart”: mais uma vez vemos em ação a escala menor harmônica para uma balada cheia de sentimento e que se permite trazer elementos de outras culturas para o disco. Isso faz sentido: Bruce é inglês, Roy Z tem ascendência mexicana e tudo foi gravado em Los Angeles, grande cidade cuja maior parte da população é ou tem ascendência latina.

“Shoot all the clowns”: menos tensa e menos sombria, mas ainda com guitarras nervosas e um vocal rasgado de Bruce Dickinson e uma passagem em rap.

“Sacred cowboys”: além da boa letra, apontando o dedo na cara da sociedade, é uma música que combina riffs acelerados com versos em speech de rap também e um grande refrão.

“Tears of the Dragon”: melhor música do disco e a mais famosa da carreira solo de Bruce Dickinson. Feeling e técnica extraordinários. A música fala, alegoricamente, da saída do vocalista do Iron Maiden. Roy Z conta que se inspirou em “Hotel California”, dos Eagles, e em “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin, para gravar o solo dessa música. Ele queria algo que conseguisse transcender o tempo. Ele conseguiu!

Passa no teste do tempo?

A carreira solo de Bruce Dickinson iria se consolidar alguns anos mais tarde, quando o inglês se voltou para o heavy metal em Accident of Birth e The Chemical Wedding, mas entre 1993 e 1994 ele queria se distanciar do metal e dos clichês do gênero. Balls To Picasso é um disco bem legal de hard rock com elementos do metal e outros elementos étnicos que realmente se distancia do Maiden. “Tears of the Dragon” é um destaque, uma música maior do que o álbum, mas o disco em si vale a pena até hoje. Acredito que chega aos 20 anos em boa forma. Acredito que as experiências em Balls To Picasso levaram não só a uma maior ruptura com Skunkworks, mas a maturidade musical dos três últimos discos da carreira solo.

Moby – Almost Home: Live at the Fonda (2014)

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Com banda afiada e assumindo as guitarras, Moby toca Innocents na íntegra e faz um apanhado de sucessos de toda a sua carreira em álbum duplo ao vivo

Por Lucas Scaliza

Quando Moby lançou Innocents em 2013, logo anunciou que não excursionaria com sua banda nem pelos Estados Unidos e nem por qualquer outra região do globo. Faria apenas três shows, nada mais que isso, todos no Fonda Theater, em Los Angeles, um local onde ele próprio conseguiria chegar e partir andando a partir de sua casa. Um desses shows foi gravado e ao mesmo tempo exibido via streaming para qualquer internauta que tivesse se cadastrado previamente. O resultado este Almost Home: Live at the Fonda, um incrível registro duplo ao vivo de Moby.

O primeiro disco, com a primeira parte do show, contém o disco Innocents na íntegra, mas com faixas em ordem diversa do álbum original. Moby nem sempre canta em suas composições, mas assumiu com a competência de sempre o papel de guitarrista, usando e abusando do pedal de wah-wah (o que vira até uma brincadeira feita por ele no show) e fazendo solos inspirados.
Algumas das participações especiais de Innocents embarcaram nessa com Moby, como é o caso da canadense Cold Specks, que cantou “A Case For Shame” e “Tell Me”. Skylar Grey dá o ar da graça na emocionante “The Last Day”; Damien Jurado é chamado para cantar “Almost Home”, uma canção simples, mas com incrível potencial.

Inyang Bassey canta em “Don’t Love Me” e dá uma força em “A Long Time”, que não ela não tinha gravado originalmente. Como Mark Lanegan não pôde comparecer a gravação do álbum, o vocalista de voz cavernosa foi substituído em “The Lonely Night” por Greg Dulli, vocalista do Afghan Whigs. Dulli cantou sem afetações, reproduzindo com perfeição as notas baixas de Lanegan.

O próprio Moby assume os vocais, enfim, para “The Dogs”, uma composição de letra engajada em questões sociais. Conforme segue em seus mais de 8 minutos, “The Dogs” ganha mais instrumentos e mais volume, com direito a Moby cantar seus versos finais com certa urgência. Mas o clímax vem mesmo com um inspirado e longo improviso de Moby na guitarra.

Fechando o primeiro disco, Moby ensina a plateia a cantar o refrão do hit “The Perfect Life” e executa uma versão de 8 minutos da canção. Infelizmente Wayne Coyne, vocalista do Flaming Lips que gravou a versão original em Innocents, não esteve no show.

A segunda parte do show no Fonda Theater, e o segundo disco do álbum ao vivo, é uma coleção de 13 músicas da carreira de Moby escolhidas previamente pelos fãs, mais uma versão acústica de “The Perfect Life” em que Moby canta um “sing along” junto da plateia para encerrar o show.

Estão no segundo disco canções icônicas, como “Why Does My Heart Feel So Bad?”, “In My Heart”, “Bodyrock”, “Go”, “Lift Me Up”, uma versão acústica de “Slipping Away”, “Porcelain”, “Southside”, “We Are All Made of Stars”, “Extreme Ways”, “Natural Blues” e a aceleradíssima “Feeling So Real”. Importante destacar que todas as canções ganham roupagem ligeiramente mais pulsantes que suas versões originais, em parte por causa da presença da guitarra de Moby, que mantém o ritmo animado do show, e em parte por causa da força da banda escalada pelo cantor, compositor e produtor.

Apesar de ter lançado ótimos álbuns nos últimos anos, não há neste ao vivo nenhuma faixa dos discos Destroyer (2011), Wait For Me (2009) e Last Night (2007).

É um show e um registro sonoro impecável em termos de produção e escolha de setlist ao mesmo tempo em que repassa todo o catálogo de Moby e reproduz ao vivo todo o seu último álbum (que não contém nenhum sample). Mesmo com suas mais de 2 horas de duração, Almost Home: Live at the Fonda talvez não seja o melhor trabalho de Moby para ser apresentado a novos ouvintes do DJ e compositor americano, mas com certeza poderá ser uma das obras mais interessantes da discografia de quem já o acompanha há algum tempo.

PS. Eu fui uma das milhares de pessoas que se cadastraram no site e viu o show ao vivo por streaming, direto de Los Angeles. Foi preciso passar uma madrugada acordado, mas valeu a pena. Desde que Almost Home: Live at the Fonda foi lançado, o disco não saiu mais da playlist do meu carro. 😉