metal

Stone Sour – Hydrograd (2017)

Peso, energia e adrenalina. Mas o problema são os refrãos

Por Gabriel Sacramento

Em uma escala Corey Taylor, como você está se sentindo hoje? Como o mau-humorado, agressivo, das máscaras e guturais do Slipknot, como o bem-humorado, de voz mais limpa, que gosta de diversificar do Stone Sour ou o Corey cool dos All-Stars e entrevistas divertidas? São muitas facetas e o cantor gosta de expor cada uma delas publicamente em seus projetos. O cara já escreveu até livros, mostrando que realmente quer ir fundo em seus dotes.

O Stone Sour é o que mais tem ganhado sua atenção e dedicação ultimamente. O que é até compreensível, visto que o Slipknot já anda com as próprias pernas e se tornou aos poucos uma marca maior que os próprios membros. Já o SS ainda está em fase de consolidação, descobertas e desafios. Sua dedicação à banda tem rendido resultados consistentes, como os dois últimos e conceituais álbuns, da série House of Gold & Bones. O som da banda está cada vez mais metálico, moderno, pesado e diverso dentro do próprio escopo.

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Conheci o grupo num show do Rock In Rio de 2011, quando vieram ao Brasil e tocaram com o baterista Mike Portnoy. Foi com “Orchids”, do primeiro álbum deles, que a banda me ganhou e eu passei a acompanhar e ouvir os álbuns. Eu, que até então só conhecia Corey Taylor dos vocais insanos de “People = Shit” e “Psychosocial”, tive uma boa surpresa ao vê-lo trabalhando ideias vocais menos previsíveis de uma forma menos rígida. Desde então, penso na banda como um projeto totalmente distinto do Slipknot – que já teve dois membros em comum – embora características similares possam ser encontradas. O disco All Hope is Gone (2009), por exemplo, tinha muito do Stone Sour e isso rendeu um resultado final bem interessante. Aliás, muita gente pode não saber, mas o Stone Sour foi fundado antes mesmo do próprio Slipknot, mas o grupo das máscaras acabou ganhando mais atenção de James Root e Corey Taylor no final dos anos 90 e alcançou um sucesso mais estrondoso.

O nome do novo disco, Hydrograd, foi escolhido porque Corey pensou ter visto a palavra escrita em um aeroporto e a achou legal. É o primeiro álbum com Johny Chow no baixo e Christian Martucci na guitarra, substituindo James Root que deixou a banda para se dedicar mais ao Slipknot. Dois singles foram lançados para promover o álbum: “Song #3” – uma faixa mais pop/rock, bem comercial, com alguns momentos que lembram as faixas do novo do Incubus – e “Fabuless”, uma porrada na orelha, com riffs afiadíssimos, vocais melódicos seguidos de gritaria gutural, uma bateria pesada e bem executada por Roy Mayorga e referências à “It’s Only Rock’n’Roll (But I Like it)” dos Stones e “Rock’n’Roll” do Led Zeppelin. Além disso, a faixa ganhou um clipe bem interessante, no qual eles aparecem tocando para bonecos de posto e no final do vídeo, os bonecos assumem o palco e os músicos aparecem na plateia – com direito à um Corey Taylor insano filmando o show do celular. O clipe foi idealizado pelo baterista há sete anos e só agora encontraram a oportunidade de gravar.

No resto do álbum temos momentos bem pesados, como em “Taipei Person/Allah Tea” e “Whiplash Pants”, com ótimos riffs e uma cozinha segura. Mas as faixas mais pesadas do álbum como a já citada “Whiplash Pants”, “Fabuless”, “Knievel Has Landed”, “Friday Knights” e a faixa-título possuem um problema: seus refrãos. O fato delas terem sempre que cair num refrão melódico acaba meio que minando as possibilidades da banda e deixando o álbum previsível demais. Esses refrãos soam um pouco forçados, pouco desenvolvidos, como se estivessem lá só para cumprir a regra mesmo e constituem o ponto fraco do conjunto. Se as partes pesadas são empolgantes do tipo que te fará balançar sua cabeça no ar, os refrãos são do tipo que te fazem desviar a atenção para checar o Twitter ou Instagram. Não funcionam bem como partes marcantes das canções.

Mas o disco tem refrão bom? Tem sim e os melhores ficam justamente nas faixas menos intensas, como “Mercy”, “The Witness Tree” e a emocionante “When The Fever Broke”. Mas além dos refrãos fracos e do peso, o grupo ainda tenta algumas coisas mais ousadas, como o flerte explícito com o country em “St. Marie”.

Hydrograd é um registro interessante de uma banda em ascensão e que sabe bem o que pode e o que quer fazer. Percebemos que eles exalavam adrenalina e energia no estúdio quando gravaram tudo ao vivo, justamente para captar mais peso e atitude, mesmo esquema usado na gravação dos EPs de covers Meanwhile in Burbank e Straight Outta Burbank.

A bateria de Roy Mayorga ganhou um destaque especial no processo de produção, soando pesada, direta e próxima ao ouvinte, como acontece quando os engenheiros utilizam microfones bem próximos dos tambores. As guitarras soam muito bem, também, com altos e precisos graus de distorção e sujeira. Taylor explora seu gutural, seus vocais melódicos e varia bem em cada nuance diferente, como fez em seus discos mais inspirados na carreira.  O produtor Jay Ruston soube muito bem conduzir a banda no processo e trabalhou com eles para definir bem as estruturas das canções e a dinâmica entre intensidade e alívio, cuidando dos timbres e da pegada.

O Stone Sour entrega peso e energia com uma riffaria precisa – capaz de deixar gente como James Hetfield e Dave Mustaine orgulhosos, inclusive – e execuções agressivas e fortes como um bom disco de metal deve ser. O problema acaba ficando nos refrãos, que impedem o álbum de ser algo fantástico e inesquecível. Ainda assim, em tempos de bandas de metal se repetindo à exaustão, enclausurando o estilo em uma enorme bolha criativa, Hydrograd soa como um bálsamo para os ouvidos cansados da mesmice, visto que eles notavelmente se esforçaram para conseguir um resultado fresco e diferente. Mesmo com alguns problemas, é um bom disco de metal.

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Anathema – The Optimist (2017)

Ingleses acertam na atmosfera, mas não superam o álbum de 2001 que originou a história de The Optimist

Por Lucas Scaliza

Acima de qualquer opinião que possamos ter sobre The Optimist, novo disco da banda Anathema, é importante lembrar que os ingleses estão em uma ótima fase marcada pela maturidade e autoconsciência musical. Depois de nos encantarem com as forças da natureza e Weather Systems (2012) e com as harmonias espaciais de Distant Satellites (2014), resolveram apostar basicamente no que já estava dando certo, mas gravando de uma forma diferente.

O que estava dando certo – e continua muito bom, aliás – são as composições em ciclos. Basicamente, grande parte das músicas do Anathema vem sendo pensadas como uma ciranda, em que o mesmo esquema harmônico se repete às vezes ao longo de uma faixa inteira. E então temos o golpe de mestre: a variação dinâmica. Foi assim com os dois últimos discos e havia sido assim com diversas músicas mais antigas. The Optimist não foge à regra e nos emociona fazendo com que uma faixa comece em um patamar, chegando ao seu final (ou perto dele) de forma épica, com toda a banda tocando bem alto, com arranjos mais fortes, como uma orquestra que começa em piano e termina a mesma sequência de notas e acordes em fortissimo. A roqueirinha “Leaving It Behind”, a mais eletrônica “San Francisco” e a incrível “Springfield” são exemplos disso. Esta última, aliás, belamente cantada por Lee Douglas, parte de uma balada e chega a soar como uma explosão estelar em seu auge.

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Mesmo quando não apostam na mesma harmonia cíclica, apostam em crescendo. “Endless Ways” – com guitarras de Daniel e Vincent Cavanagh que lembram desde Mogwai até U2 – é outra que eleva a dinâmica, transformando qualquer música aparentemente meditativa em uma pedrada roqueira. E o mesmo acontece com “The Optimist”. E com “Can’t Let Go” também (a mais inglesa do disco). E com “Wildfires”. “Back To The Start”, idem. Como se vê, é um recurso usado a exaustão. A questão é que isso tanto é previsível quanto continua sendo emocionante de verdade. Daniel Cavanagh, o mastermind por trás da estrutura da maior parte das músicas da banda, é um mestre nesse esquema e mesmo se repetindo consegue fazer boas músicas. Mas que The Optimist acaba soando manjado a certa altura, soa mesmo.

A novidade de The Optimist é que o sexteto gravou grande parte das instrumentações ao vivo no estúdio Castle Of Doom, na Escócia, todos juntos de uma vez só (as vozes foram gravadas separadamente). Principalmente o baixo de James Cavanagh e a bateria de Daniel Cardoso e John Douglas soam realmente menos processados e mais “ao vivo”, com uma pegada que qualquer fã de rock e metal vai reconhecer de shows. As guitarras também foram beneficiadas, principalmente porque soam mais secas e viscerais do que em todos os últimos discos da banda (a parte final de “Wildfires” não me deixa mentir).

Tony Doogan foi o produtor contratado e que realmente deixa sua marca na banda. Conhecido por produzir outras duas bandas escocesas, os pot-rockers do Mogwai e os indies Belle And Sebastian, ele não mexeu na estruturação que dá cara ao som do Anathema, mas no que se refere a criar ambientações sonoras (com teclados, sintetizadores, equipamentos eletrônicos e orquestrações), pôde criar uma identidade realmente mais ambiente rock do que em Weather Systems e Distant Satellites. Se o álbum de 2012 era mais força da natureza e o de 2014 mais imensidão espacial, The Optimist deriva mais de uma mente urbana.

As letras, em grande parte, são menores do que antes, o que indica uma preocupação muito maior com a atmosfera do ambiente e não com a história que se pretende contar. Afinal, The Optimist é uma continuação da história de A Fine Day To Exit (2001), que acho, inclusive, muito mais diverso, criativo e, no geral, melhor que sua continuação. Aliás, durante a campanha de divulgação do novo disco, a banda afirmou que seria a coisa mais “dark” que já fizeram. Isso com certeza não é verdade. “Underworld”, “Pressure”, “Panic”, “Breaking Down The Barriers”, todas lá de 2001, são muito mais pesadas e com harmonias mais “dark”.

Não é o melhor disco da banda e nem fica acima dos celebrados dois últimos lançamentos. Tentaram unir o Anathema roots com o Anathema bem produzido da última década e conseguiram um disco legal, mas longe de penetrar na alma e no coração do ouvinte por muito tempo.

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Royal Blood – How Did We Get So Dark? (2017)

Banda reafirma seu posto como uma das mais interessantes na cena roqueira inglesa

Por Gabriel Sacramento

Os ingleses do Royal Blood impressionaram em 2014 com um álbum excelente que conquistou unanimemente a crítica e os fãs de rock ávidos por novos nomes interessantes. Três anos depois do disco de estreia arrasa-quarteirões, o duo lança a continuação, que pontua o quanto a carreira tem ido bem e deixa claro que a fonte está longe de secar. Com o título How Did We Get So Dark?, cheguei a me perguntar se a banda realmente mudaria o som para algo mais obscuro, mas não foi o que aconteceu.

O novo álbum traz a produção de Joylon Thomas e a finalização do produtor que trabalhou no anterior, Tom Dagelty. Foi gravado em seis semanas, o que é um bom tempo, mesmo se considerarmos que eles não gravam muitos overdubs e o foco está em apenas dois instrumentos. Depois da pré-produção, dez canções foram selecionadas de cerca de 50 que tinham composto e sentimos que foram realmente as melhores canções – as faixas do novo disco não só são boas em termos de qualidade, mas também são interessantes para mostrar que Ben e Mike não optaram por fazer um simples mais do mesmo, um volume 2 insosso.

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No entanto, desde “Where Are You Now” – que foi divulgada em 2016, como parte da trilha de Vinyl, série da HBO criada por Mick Jagger, Martin Scorsese e Terence Winter -, percebemos que o lance é manter o foco e o conceito sonoro do primeiro álbum, sem muitas mudanças bruscas. A canção é uma das poucas do álbum (e da banda) em que o baixo de Mike soa realmente como um baixo, no começo da canção, embora em outros momentos o instrumento ganhe boost e passe a soar como uma guitarra soterrada de drive. Além do peso, Mike preza por melodias simples, mas fortes. Em “She’s Creeping”, o baixista e vocalista explora leves saídas do tom nos versos, que soam fantásticas, e um sexy falsete no refrão, que tira um pouco do aspecto sisudo da banda e leva pra algo mais solto.

“Look Like You Now” anuncia uma influência indie mais forte, das melodias vocais à estrutura e ao refrão. “Don’t Tell” é quase uma semibalada, só que com doses cavalares de distorção. O refrão é composto pelos recorrentes falsetes de Mike e um andamento mais arrastado. É uma faixa que pode trazer diferentes tipos de ouvintes e atrair mais atenção para a banda. Podia até ter sido single. “I Only Lie When I Love You” tem o jeitão stoner que fez a banda agradar tanta gente no primeiro disco – com direito à palmas e um cowbell que deixam tudo um tanto mais festeiro – e “Hook, Line & Sinker” mantém a pegada pesadona, orientada aos riffs ultradistorcidos.

Embora não possamos dizer que How Did We Get So Dark? tenha tantos singles de sucesso quanto Royal Blood, podemos dizer que esse álbum é uma reafirmação importante da capacidade de dois músicos competentes de fazer música descomplicada, intensa, viva, com ótimos ganchos e riffs que não desgrudam da mente. Os refrãos são impulsionados pela força dos riffs do baixo e por isso são tão marcantes e animados, sendo natural que provoque em nós a vontade de balançar nossas cabeças no ar.

Se no primeiro álbum o duo não aceitava de jeito algum o fato de gravar backing vocals, aqui eles deram uma trégua e preencheram a faixa-título com vocais que soam um tanto assustadores por serem tão repetidos no meio da base pesada – como se as vozes não se abalassem pelo peso absurdo que as envolve. Mesmo com essa mudança e, por exemplo, com a adição de mais falsetes nos vocais de Mike, a banda soa bem fiel ao seu som, sem abrir mão do que faz eles serem interessantes e, de certa forma, únicos. Os falsetes se encaixaram perfeitamente bem na proposta, deixando as melodias ainda mais irresistíveis e adicionando uma certa sensação de fragilidade em meio à toda a porradaria inquebrável. Além disso, é uma forma de diferenciar os vocais e conseguir uma forma distinta de expressão, por isso, muito válida.

A lógica instrumental continua a mesma: as referências sonoras da banda fazem com que eles componham músicas que necessariamente pedem um solo de guitarra em algum momento. Mas para suprir essa falta, eles encharcam o espectro sonoro com o ruído da distorção agressiva do baixo, executando riffs bem elaborados e que são tão importantes que geralmente são os primeiros elementos criados. O destaque interessante é o meio de “Lights Out”, com um fill de bateria, que segundo Mike, foi o que Ben executou no estúdio para atender ao seu pedido de tocar a coisa mais ridícula que ele pudesse pensar. O fato do fill ser longo e composto por apenas duas notas dá uma sensação de que estamos presos ao mesmo trecho (como se tivesse travado), quando na verdade foi mais um acessório criativo usado para deixar as coisas diferentes por aqui.

Considerado por muitos como a versão britânica do White Stripes e do Black Keys, além de ser uma das bandas novas que ganharam mais destaque – e que mais venderam – na cena roqueira da terra do chá, o Royal Blood tem mostrado que sabe bem como lidar com o sucesso e o reconhecimento, buscando, sobretudo, fazer música por diversão e divertindo e entretendo os seus ouvintes. Resta saber se eles continuaram fiéis a isso com o tempo e como a maturidade na carreira irá afetar a forma como pensam música.

No final, percebemos que How Did We Get So Dark? não é obscuro no seu núcleo, embora seja em alguns pequenos momentos estratégicos. Pode ser rotulado como mais do mesmo, mas feito com muita qualidade e competência, que não desaponta o ouvinte em nenhum instante e ainda funciona como uma ótima seleção de faixas que cumprem o objetivo de um bom disco de rock garageiro: soar incrivelmente sujo e agressivo.

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Saturndust – RLC (2017)

Doom metal brasileiro te leva para um planeta inóspito e oxigena a cena nacional

Por Lucas Scaliza

RLC é heavy metal como quase não se faz mais. É psicodelia cinematográfica. A textura é comparável a de um videogame espacial cheio de exploração e tensão. É um álbum longo que deixa as guitarras reverberam com distorções pesadas e delay, sem ansiosidade para emendar um riff atrás do outro. A voz narra e grita, os riffs são pespegantes e há sintetizador de sobra para nos transportar para outra dimensão, tão misteriosa quanto ameaçadora. “Astral Dominion”, por exemplo, vai fazer você lembrar daquele Black Sabbath lá do início, quando peso podia ser lento, dando tempo para você saborear cada nota antes de ser jogado em uma espiral de porradaria.

Saturndust é uma banda brasileira de doom metal composta por Felipe Dalam (guitarra, sintetizador e vocal), Guilherme Cabral (baixo) e Douglas Oliveira (bateria). A gravação de RLC ocorreu no estúdio Costella, em São Paulo, com o produtor Gabriel Zander. Nas palavras de Dalam, o resultado é uma música que transmite “sinais de vida não terrestre codificados em um drone/doom experimental do desconhecido.” Por tanto, tome cuidado com o que pretende ingerir antes de embarcar nessa nave.

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E não haverá faixa mais alienígena que “Rlc” em 2017. Nem mesmo o novo filme de ficção científica e horror da série Alien tem uma trilha tão bem ajustada ao tema. O que esse trio faz é misturar o moderno e o antigo de uma forma que realmente incomoda, mas daquele jeito bom, que te deixa curioso.

Chegar ao fim de Rlc também exige paciência, por isso a melhor forma de apreciar o disco é tratá-lo como uma música ambiente que você deixa rolando e se entrega à atmosfera que ele propõe. A viagem é recompensadora, garanto, pois “Saturn 12.C” é belíssima, como é, afinal, toda a devastação causada pelo trio ao longo de seis faixas – das quais cinco vão da marca dos oito aos 12 minutos de duração.

RLC é um disco raro. Acredito que, além da ideia geral que norteou o trabalho, foi preciso muita coragem dos três músicos e habilidade do produtor para se manterem no caminho até o fim, se nunca, em faixa nenhuma, pensarem em fazer algo mais acessível (em termos metaleiros, é claro). O que o Saturndust faz é prova da liberdade criativa da banda, coisa que grupos melhor consolidados e visados do país não arriscariam fazer. Como diria um jovem metaleiro americano: “RLC isn’t your average metal album”.

Provando evolução pessoal e oxigenando o cenário nacional a uma só tacada, a banda também foi recompensada com a escalação para tocar no festiva Psycho Las Vegas este ano, ao lado de bandas como King Diamond, Carcass, Mastodon e Neurosis. É o único grupo brasileiro da longa lista de participantes.

Assim, RLC deve ser presença obrigatória em qualquer lista de melhores do ano focada em rock e metal. Passará vergonha quem não separar um espaço para enaltecer o Saturndust em 2017.

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Mastodon – Emperor Of Sand (2017)

É sobre o câncer, mas com a mesma energia de sempre

Por Lucas Scaliza

Como a própria banda fez questão de deixar bem claro durante a campanha de expectativa para o álbum, o “Imperador de Areia” a que se refere o título é o câncer, essa doença que consome o paciente e o faz lutar pela vida, consumindo também as emoções de quem orbita a sua volta. E o tempo, às vezes, parece que escorre como areia de uma ampulheta. O quarteto americano do Mastodon recentemente viu isso ocorrer com amigos e familiares e decidiu abordar o assunto nas letras do temático Emperor Of Sand.

Como já de se esperar, o novo disco é um baile de bons riffs e aquela energia às vezes mais hard rock, como em “Show Yourself”, e que pode chegar ao metalcore com grande facilidade, sempre sabendo para onde voltar e sem nunca deixar o entusiasmo cair. A ênfase no ritmo, ditada pela bateria de Brann Dailor – um daqueles músicos que sabe se manter pontualmente no beat, fazer uma longa virada e voltar com perfeição ao ritmo regular – é chave para fazer dele uma experiências intensa.

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Da primeira (“Sultan’s Curse”) à quarta música (“Steambreather”), ouvimos um Mastodon fazendo a lição de casa, colocando para fora o que já sabemos de que são capazes. Por melhor que Once More ‘Round The Sun (2014) seja (e foi até considerado um dos melhores do ano pelo Escuta Essa Review), já era um disco em que se discutia como a fórmula da banda ainda dava certo, mas sem apostar em inovações. O caso é que Emperor Of Sand também pode ser visto dessa forma, e as três primeiras faixas só mantêm o que já sabemos sobre os músicos. “Steambreather” dá um vislumbre de como podem melhorar, e a partir da faixa seguinte vemos o Mastodon destilar toda a sua dor, peso e criatividade. Se o início foi mais do mesmo, da metade pra frente faz valer a posição no metal que ocupa atualmente.

“Root Remains” é o primeiro clássico de Emperor Of Sand. Início climático que desemboca em um ritmo intenso e arrastado com o vozeirão do baixista Troy Sanders mandando ver nos drives. Com um bom gosto incrível, conduzem a música para um desfecho mais emocional que é concluído com um maravilhoso solo de Brent Hinds. Sem brincadeira, é uma das melhores composições que o Mastodon já gravou. “Ancient Kingdom” é mais uma faixa em que Troy e Brann seguram a onda e deixam para Brent e Bill Kelliher variarem acordes, riffs e arpejos.

O que faz do Mastodon a banda de que todo mundo fala é a capacidade de fazer metal sem esconder as influências do hard rock, colocando as partes mais progressivas em comunhão com tudo isso, e não criando seções onde isso é jogado na cara do ouvinte. Talvez apenas “Andromeda” seja flagrantemente progressiva no disco, mas nada extremamente intrincado e ainda colocando um excelente aceno para o black metal no final. Ainda por cima conseguem temperar tudo com um clima meio psicodélico (“Clandestiny”), que é de onde vem toda a irreverência da banda, mesmo quando o som fala de algo tão grave e sério como o câncer.

E é claro que conseguem ser mais sombrios. “Scorpion Breath”, outra pérola do álbum, é o momento em que a banda se deixa chegar ao thrash metal para mostrar toda a perturbação da doença de que trata. E progressivamente, a excelente “Jaguar God” vai ficando mais pesada, mais emocional, indo da balada em 3/4 ao metal sombrio, passando por um solo totalmente técnico e voltando à valsa inicial para Hinds ter a oportunidade de celebrar a salvação na morte com mais um belo solo. Talvez não belo quanto o de “Root Remains”, mas ainda assim um que vale a pena parar para prestar atenção.

Emperor Of Sand é uma grande metáfora para a situação de um paciente de câncer, utilizando imagens e símbolos mitológicos e astrais para dar conta do assunto de forma narrativa. De forma alguma deixam a melancolia da situação tomar o som da banda. Pelo contrário: encontraram uma forma interessante de imaginar a situação, tomando uma postura realista mesmo dentro da fantasia, usando o problema como combustível para o peso e para os riffs. Não vai ser recebido como o melhor material do Mastodon, mas tem momentos que conseguem voar tão alto quanto os melhores da discografia.

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Crystal Fairy – Crystal Fairy (2017)

Superbanda mostra atitude e diversão com riffs de moer os miolos

Por Lucas Scaliza

Gone Is Gone, Giraffe Tongue Orchestra e, fechando o terceiro vértice do triângulo, Crystal Fairy. Três superbandas, três pegadas diferentes e três álbuns de rock’n’roll alternativo e pespegante. E das três bandas, o Crystal Fairy é a que parece menos pretensiosa e a que regulou o knob dos pedais de distorção para o nível mais alto.

Em Crystal Fairy, o divertidíssimo álbum de estreia do grupo, apenas as faixas “Sweet Self” e “Under Trouble” dão um tempo na porradaria, mas mesmo assim não chegam a ser baladas e nem perdem a característica de rock orgânico que a banda exibiu nos dois primeiros singles, a acelerada “Chiseler” e a melviniana “Drugs On The Bus” (que discutimos no episódio 8 do Escuta Essa podcast). Hardcore de garagem com ecos de anos 70 (“Necklace of Divorce”), riffs pesadões e arrastados (“Moth Tongue”) e riffs pesadões e ágeis (“Crystal Fairy”) também estão no repertório da banda.

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Formada por Buzz Osborne e Dale Crover (dos Melvins), Omar Rodríguez-Lópes (At The Drive-In e The Mars Volta) e Teri Gender Bender (Les Butcherettes), o quarteto é potentíssimo como suas bandas originais, partindo do rock e chegando muito perto do metal em diversos momentos. As influências de cada um são facilmente percebidas, seja na composição de riffs de moer miolos (como os da intensa “Bent Teeth”), ou na produção das faixas, que vai do vintage (como “Vampire X-Mas”, emulando uma qualidade pré-digital de três décadas atrás) até o som garajeiro encorpado e sem frescura. E Rodríguez-López, no comando do baixo, está sempre com uma distorção ligada para garantir uma dose extra de saturação.

Enquanto banda de rock, formada por músicos de bandas de rock notáveis, o Crystal Fairy se mostra muito bem calçado. Mas é a vocalista dos Butcherettes quem mais brilha neste primeiro disco. Teri Gender Bender fica entre a potência de Emily Armstrong (Dead Sara) e a interpretação de Alissa Mosshart (The Kills e The Dead Weather), chegando a lembrar até mesmo PJ Harvey em alguns momentos, mas principalmente em “Secret Agent Rat”.

Crystal Fairy, como um todo, cumpre bem o que os singles lançados em 2016 nos deixavam antever do supergrupo. Não falta energia e nem qualidade, com um rock orgânico que não é estranhão, mas também dá suas guinadas para não ser mainstream.

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W4 – Estado de Guerra (2017)

Banda paulista se expressa muito bem com sinceridade e agressividade

Por Gabriel Sacramento

Não, o rock não morreu. Seja no Brasil ou fora dele, o estilo ainda pulsa e inspira pessoas a usar a atitude agressiva para dar vazão a críticas e manifestações por meio da música. Por exemplo, em 2008, um grupo de amigos formou o W4 com o desejo de reverberar suas opiniões e gritá-las usando um tipo de som pesado e agressivo. O grupo lançou um EP em 2012, chamado Os Segredos do Coração, e finalmente chegaram ao segundo EP, intitulado Estado de Guerra.

O título é forte. A descrição também. Os três músicos buscaram refletir sobre as batalhas do cotidiano, as guerras internas e os obstáculos que cada um tem de enfrentar.

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Ao dar o play, percebemos uma grande diferença com relação ao EP anterior do grupo. Uma produção mais esmerada permitiu que cada um explorasse mais de si para entregar algo mais ousado. “Taciturno” abre o álbum. Um tema quase cinematográfico que nos prepara para a porradaria que vem a seguir. Sem deixar cair a empolgação, um riff arrastado, que lembra algo do Dark Tranquillity, dá início à “Ordos”. A idéia da faixa é evocar a imagem de uma cidade em ruínas e a letra dá suporte à isso, transmitindo a desesperança e confusão desse tipo de cenário. O forte da faixa é o refrão, com um vocal forte e rasgado ,que desemboca no ótimo riff principal, fazendo uma conexão muito boa entre as diferentes seções da música. “Tempo de Acreditar” traz uma mensagem motivacional do tipo “acredite em si mesmo”. O refrão remete aos refrãos do Disturbed. “Engravatados” possui um ótimo riff inicial e traz uma crítica pungente às guerras e aos governantes que não se importam com seus governados. As orquestrações executando o riff em harmonia com a guitarra distorcida lembram um pouco o Symphony X. O ponto forte da faixa é a parte falada/gritada em que o vocalista externa com competência toda a fúria e agressividade que a intenção da letra pede.

“Acabou” já tinha aparecido no EP anterior, mas foi regravada com uma nova roupagem. Fala sobre desilusões amorosas e a necessidade de deixar para lá o que passou. A faixa tem um acento punk fantástico que acabou sendo mais bem enfatizado na primeira gravação. Não é um ponto fraco, mas poderia ser melhor se fosse um pouco mais enxuta e mais calcada na guitarra, reforçando a crueza punk. “Vida” é o mais próximo de balada que temos aqui, com um início mais calmo e um final arrastado, pesado e doloroso.

Com ótimas referências, um som difícil de rotular e uma mensagem forte e expressiva, o trio paulista consegue dar um passo à frente na carreira. Estado de Guerra impressiona pela atitude agressiva, junto com as ótimas conexões entre música e letra. O conceito está fica muito claro, seja pelas referências no conteúdo lírico ou pelas escolhas musicais. Mesmo com alguns detalhes técnicos que necessitariam de mais cuidado, o grupo conseguiu se sair bem diante das limitações.

Em um contexto musical em que é mais fácil – e comercialmente conveniente – cantar letras fofas e agradáveis (vemos até bandas de rock fazendo isso), o W4 se destaca pela sinceridade. A mensagem do trio é parte deles, das suas intenções, das dificuldades do cotidiano e de suas próprias guerras internas. Encontra o ouvinte chocando-o e intrigando-o. Ainda há o que melhorar para o futuro, mas as bases estão lançadas.