metal

Mastodon – Emperor Of Sand (2017)

É sobre o câncer, mas com a mesma energia de sempre

Por Lucas Scaliza

Como a própria banda fez questão de deixar bem claro durante a campanha de expectativa para o álbum, o “Imperador de Areia” a que se refere o título é o câncer, essa doença que consome o paciente e o faz lutar pela vida, consumindo também as emoções de quem orbita a sua volta. E o tempo, às vezes, parece que escorre como areia de uma ampulheta. O quarteto americano do Mastodon recentemente viu isso ocorrer com amigos e familiares e decidiu abordar o assunto nas letras do temático Emperor Of Sand.

Como já de se esperar, o novo disco é um baile de bons riffs e aquela energia às vezes mais hard rock, como em “Show Yourself”, e que pode chegar ao metalcore com grande facilidade, sempre sabendo para onde voltar e sem nunca deixar o entusiasmo cair. A ênfase no ritmo, ditada pela bateria de Brann Dailor – um daqueles músicos que sabe se manter pontualmente no beat, fazer uma longa virada e voltar com perfeição ao ritmo regular – é chave para fazer dele uma experiências intensa.

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Da primeira (“Sultan’s Curse”) à quarta música (“Steambreather”), ouvimos um Mastodon fazendo a lição de casa, colocando para fora o que já sabemos de que são capazes. Por melhor que Once More ‘Round The Sun (2014) seja (e foi até considerado um dos melhores do ano pelo Escuta Essa Review), já era um disco em que se discutia como a fórmula da banda ainda dava certo, mas sem apostar em inovações. O caso é que Emperor Of Sand também pode ser visto dessa forma, e as três primeiras faixas só mantêm o que já sabemos sobre os músicos. “Steambreather” dá um vislumbre de como podem melhorar, e a partir da faixa seguinte vemos o Mastodon destilar toda a sua dor, peso e criatividade. Se o início foi mais do mesmo, da metade pra frente faz valer a posição no metal que ocupa atualmente.

“Root Remains” é o primeiro clássico de Emperor Of Sand. Início climático que desemboca em um ritmo intenso e arrastado com o vozeirão do baixista Troy Sanders mandando ver nos drives. Com um bom gosto incrível, conduzem a música para um desfecho mais emocional que é concluído com um maravilhoso solo de Brent Hinds. Sem brincadeira, é uma das melhores composições que o Mastodon já gravou. “Ancient Kingdom” é mais uma faixa em que Troy e Brann seguram a onda e deixam para Brent e Bill Kelliher variarem acordes, riffs e arpejos.

O que faz do Mastodon a banda de que todo mundo fala é a capacidade de fazer metal sem esconder as influências do hard rock, colocando as partes mais progressivas em comunhão com tudo isso, e não criando seções onde isso é jogado na cara do ouvinte. Talvez apenas “Andromeda” seja flagrantemente progressiva no disco, mas nada extremamente intrincado e ainda colocando um excelente aceno para o black metal no final. Ainda por cima conseguem temperar tudo com um clima meio psicodélico (“Clandestiny”), que é de onde vem toda a irreverência da banda, mesmo quando o som fala de algo tão grave e sério como o câncer.

E é claro que conseguem ser mais sombrios. “Scorpion Breath”, outra pérola do álbum, é o momento em que a banda se deixa chegar ao thrash metal para mostrar toda a perturbação da doença de que trata. E progressivamente, a excelente “Jaguar God” vai ficando mais pesada, mais emocional, indo da balada em 3/4 ao metal sombrio, passando por um solo totalmente técnico e voltando à valsa inicial para Hinds ter a oportunidade de celebrar a salvação na morte com mais um belo solo. Talvez não belo quanto o de “Root Remains”, mas ainda assim um que vale a pena parar para prestar atenção.

Emperor Of Sand é uma grande metáfora para a situação de um paciente de câncer, utilizando imagens e símbolos mitológicos e astrais para dar conta do assunto de forma narrativa. De forma alguma deixam a melancolia da situação tomar o som da banda. Pelo contrário: encontraram uma forma interessante de imaginar a situação, tomando uma postura realista mesmo dentro da fantasia, usando o problema como combustível para o peso e para os riffs. Não vai ser recebido como o melhor material do Mastodon, mas tem momentos que conseguem voar tão alto quanto os melhores da discografia.

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Crystal Fairy – Crystal Fairy (2017)

Superbanda mostra atitude e diversão com riffs de moer os miolos

Por Lucas Scaliza

Gone Is Gone, Giraffe Tongue Orchestra e, fechando o terceiro vértice do triângulo, Crystal Fairy. Três superbandas, três pegadas diferentes e três álbuns de rock’n’roll alternativo e pespegante. E das três bandas, o Crystal Fairy é a que parece menos pretensiosa e a que regulou o knob dos pedais de distorção para o nível mais alto.

Em Crystal Fairy, o divertidíssimo álbum de estreia do grupo, apenas as faixas “Sweet Self” e “Under Trouble” dão um tempo na porradaria, mas mesmo assim não chegam a ser baladas e nem perdem a característica de rock orgânico que a banda exibiu nos dois primeiros singles, a acelerada “Chiseler” e a melviniana “Drugs On The Bus” (que discutimos no episódio 8 do Escuta Essa podcast). Hardcore de garagem com ecos de anos 70 (“Necklace of Divorce”), riffs pesadões e arrastados (“Moth Tongue”) e riffs pesadões e ágeis (“Crystal Fairy”) também estão no repertório da banda.

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Formada por Buzz Osborne e Dale Crover (dos Melvins), Omar Rodríguez-Lópes (At The Drive-In e The Mars Volta) e Teri Gender Bender (Les Butcherettes), o quarteto é potentíssimo como suas bandas originais, partindo do rock e chegando muito perto do metal em diversos momentos. As influências de cada um são facilmente percebidas, seja na composição de riffs de moer miolos (como os da intensa “Bent Teeth”), ou na produção das faixas, que vai do vintage (como “Vampire X-Mas”, emulando uma qualidade pré-digital de três décadas atrás) até o som garajeiro encorpado e sem frescura. E Rodríguez-López, no comando do baixo, está sempre com uma distorção ligada para garantir uma dose extra de saturação.

Enquanto banda de rock, formada por músicos de bandas de rock notáveis, o Crystal Fairy se mostra muito bem calçado. Mas é a vocalista dos Butcherettes quem mais brilha neste primeiro disco. Teri Gender Bender fica entre a potência de Emily Armstrong (Dead Sara) e a interpretação de Alissa Mosshart (The Kills e The Dead Weather), chegando a lembrar até mesmo PJ Harvey em alguns momentos, mas principalmente em “Secret Agent Rat”.

Crystal Fairy, como um todo, cumpre bem o que os singles lançados em 2016 nos deixavam antever do supergrupo. Não falta energia e nem qualidade, com um rock orgânico que não é estranhão, mas também dá suas guinadas para não ser mainstream.

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W4 – Estado de Guerra (2017)

Banda paulista se expressa muito bem com sinceridade e agressividade

Por Gabriel Sacramento

Não, o rock não morreu. Seja no Brasil ou fora dele, o estilo ainda pulsa e inspira pessoas a usar a atitude agressiva para dar vazão a críticas e manifestações por meio da música. Por exemplo, em 2008, um grupo de amigos formou o W4 com o desejo de reverberar suas opiniões e gritá-las usando um tipo de som pesado e agressivo. O grupo lançou um EP em 2012, chamado Os Segredos do Coração, e finalmente chegaram ao segundo EP, intitulado Estado de Guerra.

O título é forte. A descrição também. Os três músicos buscaram refletir sobre as batalhas do cotidiano, as guerras internas e os obstáculos que cada um tem de enfrentar.

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Ao dar o play, percebemos uma grande diferença com relação ao EP anterior do grupo. Uma produção mais esmerada permitiu que cada um explorasse mais de si para entregar algo mais ousado. “Taciturno” abre o álbum. Um tema quase cinematográfico que nos prepara para a porradaria que vem a seguir. Sem deixar cair a empolgação, um riff arrastado, que lembra algo do Dark Tranquillity, dá início à “Ordos”. A idéia da faixa é evocar a imagem de uma cidade em ruínas e a letra dá suporte à isso, transmitindo a desesperança e confusão desse tipo de cenário. O forte da faixa é o refrão, com um vocal forte e rasgado ,que desemboca no ótimo riff principal, fazendo uma conexão muito boa entre as diferentes seções da música. “Tempo de Acreditar” traz uma mensagem motivacional do tipo “acredite em si mesmo”. O refrão remete aos refrãos do Disturbed. “Engravatados” possui um ótimo riff inicial e traz uma crítica pungente às guerras e aos governantes que não se importam com seus governados. As orquestrações executando o riff em harmonia com a guitarra distorcida lembram um pouco o Symphony X. O ponto forte da faixa é a parte falada/gritada em que o vocalista externa com competência toda a fúria e agressividade que a intenção da letra pede.

“Acabou” já tinha aparecido no EP anterior, mas foi regravada com uma nova roupagem. Fala sobre desilusões amorosas e a necessidade de deixar para lá o que passou. A faixa tem um acento punk fantástico que acabou sendo mais bem enfatizado na primeira gravação. Não é um ponto fraco, mas poderia ser melhor se fosse um pouco mais enxuta e mais calcada na guitarra, reforçando a crueza punk. “Vida” é o mais próximo de balada que temos aqui, com um início mais calmo e um final arrastado, pesado e doloroso.

Com ótimas referências, um som difícil de rotular e uma mensagem forte e expressiva, o trio paulista consegue dar um passo à frente na carreira. Estado de Guerra impressiona pela atitude agressiva, junto com as ótimas conexões entre música e letra. O conceito está fica muito claro, seja pelas referências no conteúdo lírico ou pelas escolhas musicais. Mesmo com alguns detalhes técnicos que necessitariam de mais cuidado, o grupo conseguiu se sair bem diante das limitações.

Em um contexto musical em que é mais fácil – e comercialmente conveniente – cantar letras fofas e agradáveis (vemos até bandas de rock fazendo isso), o W4 se destaca pela sinceridade. A mensagem do trio é parte deles, das suas intenções, das dificuldades do cotidiano e de suas próprias guerras internas. Encontra o ouvinte chocando-o e intrigando-o. Ainda há o que melhorar para o futuro, mas as bases estão lançadas.

Animals As Leaders – The Madness Of Many (2016)

Ainda bastante técnico, mas sempre borrando as fronteiras do fusion, metal e prog

Por Lucas Scaliza

Das bandas de rock e metal instrumental, o Animals As Leaders se destaca pela proposta extremamente técnica, pelo uso da guitarra de oito cordas, os flertes com o jazz e pelos riffs djent que toda a comunidade metaleira espera ver de Tosin Abasi, o talentoso músico americano que comanda a banda.

O disco mostra bem todas as vertentes da banda, indo do melódio ao arrastado com muito graça, explorando harmonias sofisticadas e, logo depois, com distorção pesada e riffs poderosos, mostra dissonância. Como “Arithmophobia” deixa claro desde o princípio, trata-se de uma música instrumental bastante cerebral. As mudanças de compasso são intrigantes, de deixar qualquer aficionado com a marcação do tempo feliz ao ponto de sentir-se desafiado.

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A dupla de guitarristas Abasi e Javier Reyes estão mais técnicos do que nunca. Chegam a soar frios em alguns pontos – e aí se aproximam bastante do estilo do Meshuggah, mas sem os guturais. Mas são espertos o suficiente para saberem que alternar entre riffs puramente técnicos e passagens mais harmônicas quebra o gelo da técnica e entrega uma abordagem guitarrística mais emocional. Embora seja linda a técnica de guitarra de Abasi e Reyes, ela precisa estar a serviço da composição, não do show off. Por isso as constantes variações no humor e na pegada são importantes. O solo de “Cognitive Contortions” lembra bastante Steve Vai. Já o de “Arithmophobia” é mais na onda de John Petrucci. E os flertes mais jazzísticos soam como uma versão mais sisuda e encorpada do The Aristocrats, como na ótima “The Glass Bridge”.

O espaço do baixo está sempre garantido. Em faixas como “Inner Assassin” o instrumento segura as pontas e mantém o ritmo constante da música. Em “Private Visions Of The World” e “Ectogenesis” o baixo mostra seus riffs e sua capacidade de ser um instrumento solo de destaque, emulando bastante o estilo progressivo de Evan Brewer. Já o baterista Matt Garstka tem oportunidade de mostrar que é um cara flexível. Bate no kit tanto como um músico de metal (forte e determinado) como o baterista mais técnico que precisa acompanhar um guitarrista solo. Essas vertentes estão em “Transcentience”. Mas o que chama a atenção mesmo é o lado mais prog e fusion, com fraseados de tempos alternados – como em “Backpfeifengesicht”, mas é o lado que Garstka mais exercita ao longo do álbum, podendo ser ouvido em praticamente todas as faixas.

Há espaço também para Abasi e Reyes mostrarem como transportam bem o estilo complexo de sua música para violões. “The Brain Dance” e “Apeirophobia” é o lado mais leve do trio e um dos mais interessantes de The Madness Of Many. A primeira é melodiosa e até tem um momento em que se rende aos riffs típicos da banda, mas brilha mesmo quando dá espaço para os arpejos rebuscados e harmônicos. O solo de Abasi com a guitarra é o melhor do disco e conecta-se sem esforço e sem pressão com o ouvinte. Já a segunda é muito mais flamenca. Ainda mantém alguns maneirismos da banda, mas prioriza as emoções. A falta de teclados, bateria e baixo acaba ressaltando a alma da composição, sem distrações.

Embora continue mantendo a banda em um patamar bastante elevado seja na música instrumental ou na progressiva, The Madness Of Many não é o melhor disco do grupo. The Joy Of Motion (2014) parece ainda representar um pico bastante alto do trio e deve ser conferido (caso ainda não conheça). Mesmo assim, o novo álbum do Animals As Leaders é um tipo de música bastante interessante entre o metal, o fusion e instrumental que não se limita a nenhuma dessas fronteiras, sempre mostrando que dá para ir mais fundo, sem perder a musicalidade e nem chafurdar no djent e esquecer que dá para fazer muito mais com as oito cordas de uma guitarra.

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Metallica – Hardwired… To Self-Destruct (2016)

Não é perfeito, mas têm riffs metaleiros e vigor pra dar e vender

Por Lucas Scaliza

São 12 faixas. Talvez as 12 faixas mais esperadas do heavy metal em 2016. Desde Death Magnetic (2008) o Metallica não lançava um novo disco de inéditas. Bom, teve o Lulu (2011) com Lou Reed, mas foi amplamente criticado em grande parte por ser um álbum incompreendido. O caso é que o Metallica não parou de trabalhar: fez seu próprio festival de metal, tocou com o G4 do thrash metal, fez uma turnê só com músicas escolhidas pelos fãs, lançou um filme-show, e foi tocar até na meca indie do Lollapalooza para provar que não é apenas uma banda de rock, mas sim um dos nomes mais populares e ainda respeitados da música pesada, transcendendo gerações.

E a espera valeu a pena. Hardwired… To Self-Destruct não é um disco com uma cara única, como mais uma experiência do Metallica. O álbum deriva um pouco de cada coisa que a banda já fez no passado. Não é à toa que o disco duplo abre com “Hardwired”, música thrash que volta a 1984, com ataques nervosos e secos às cordas da guitarra e do baixo. “Atlas, Rise” já traz uma proposta de metal mais moderno, misturando riffs, guitarras melódicas e a pegada inconfundível de Lars Ulrich na bateria, se fazendo presente em cada verso. Ou “Moth Into Flame” e “Now That We Are Dead”, que poderiam estar no Reload (1997) que, apesar das críticas que alguns fãs ainda possam lançar ao álbum, foi uma forma de mostrar como o heavy metal deles poderia se atualizar, se transformar, e ainda ser interessante.

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O que une todas as faixas de Hardwired… To Self-Destruct é a intensidade de todas as faixas. Não há pausas para baladas e não há grandes momentos contemplativos, como em Death Magnetic. Se há algo no disco que deverá agradar a qualquer fã da banda, de qualquer geração, é a pegada que os quatro músicos demonstram em suas posições. Robert Trujillo mantém o motor girando ao acompanhar os riffs de guitarra e tocar outras notas, mesmo que repetitivas, só para manter uma pulsação sempre forte. E os solos de Kirk Hammet são velozes e ainda contêm uma bela dose de wah-wah. Embora não inove muito em sua técnica e forma de se expressar com o instrumento, seus solos são sempre incendiários. Enquanto fraseados, seus podem não ser tão marcantes quanto outrora, mas não tenha dúvida de que ele mantém cada faixa dentro de uma escala metaleira.

Os vídeos divulgados até agora de bastidores deixam claro que Ulrich foi novamente o grande diretor por trás de cada faixa. Ele deixa o restante da banda trabalhar e criar o que precisa ser criado, mas dá seus pitacos e determina qual é ou qual poderia ser o andamento de cada música. E como Kirk Hammet perdeu seu celular em Copenhague com mais de 250 ideias de riffs, acabou não recebendo nenhum crédito de composição pelo álbum. É a primeira vez que isso acontece desde 1983, quando ele entrou na banda. Então, cada riff que você ouve é de James Hetfield. E ele não faz feio. Mesmo nos momentos menos inspirados, Hetfield coloca sua absurda coordenação entre mão esquerda, mão direta e voz em ação para cravar: este é um disco do Metallica e estas faixas todas tem a assinatura da banda em cada canto. Uma prova disso é “Dream No More”, que soa tanto como algo que a banda faria nos anos 2000 como uma referência à “Sad But True” na forma como é arrastada. E mais: voltam a citar o Cthulhu de H. P. Lovecraft, recuperando o Grande Antigo usado lá em Ride The Lightning (1984).

Com exceção de “Hardwired”, todas as faixas estão acima dos cinco minutos, mas nem todas precisavam ser tão longas, já que não apresentam tanta variedade de ideias assim. “Halo Of Fire”, que passa dois oito minutos de duração, não chega a fazer feio, mas tem os solos menos inspirados do álbuns e, apesar de manter as boas bases arrastadas e vigorosas que são a grande marca e o grande trunfo deste novo trabalho do Metallica, não aproveita tão bem todo o espaço que tem. Compare a estrutura dela com “Master Of Puppets” por exemplo. “Confusion”, por outro lado, abre o segundo disco mostrando uma excelente performance de Hammet e aquela pegada mais progressiva que o Metallica tem sem soar como o Rush ou como o Dream Theater, por exemplo. Mas poderia ter sido reduzida para manter-se mais focada. O mesmo vale para “ManUNkind”, coescrita por Trujillo, que tem ótimos momentos, mas tantos outros que poderiam ter sido resumidos.

Quando começaram a trabalhar no novo disco em 2014, o Metallica estava mais uma vez com Rick Rubin em estúdio. Contudo, foi Greg Fieldman que acabou realmente produzindo a banda ao lado de Hetfield e Ulrich, assumindo também as funções de mixagem e engenheiro de som. Como ele cuidou do processo quase todo que envolve desde a captação do som até a formatação final de cada canção, todas as faixas possuem uma sonoridade homogênea. As distorções estão robustas, mas não polidas demais, fazendo com que cada riff soe até um pouco seco. Isso faz com que o Metallica tenha um som bastante apropriado para 2016, mas guardando um pouco do feeling garageiro que exibiram de Kill ‘Em All (1982) até o Black Album (1990).

Hetfield não decepciona como cantor, seja pela idade e pela disposição ou pelo uso do drive e da garganta em notas mais altas e agressivas. Contudo, não mostra muita criatividade ao longa do álbum. Ele mais encaixa as letras nos versos e no espaço entre os riffs do que cria de fato uma linha melódica. Assim, reforça-se que o que realmente marca cada faixa é seu riff característico, não um verso ou refrão. Já Ulrich encaixa fraseados longos e ágeis de bateria em pelo menos três músicas para demonstrar o poder de fogo de seu kit (como em “Here Comes The Revenge” e “Now That We’re Dead”).

Apesar do vigor, do peso, dos ótimos riffs e de manter o nível metaleiro sempre alto, há pequenos maneirismo que vamos sacando e já entendendo que certos hábitos resistem na banda. Poderíamos estar falando do wah-wah em cada goddamit solo de Hammet ou dos vocais latidos de Hetfield, mas estou falando de algumas introduções. A fraca “Am I Savage” tem uma introdução que parece apontar para um certo tipo de música, mas acaba se resolvendo no mesmo padrão de rock pesado e arrastado de sempre. A intro de “ManUNkind” tem cara de Iron Maiden pós-Brave New World, mas o clima que gera fica restrito aos segundos iniciais. “Murder One” parece apontar diretamente para “Sanatarium” nos primeiros 40 segundos, mas depois rende-se à fórmula. É uma música que serve de tributo para Lemmy Kilmister, do Motörhead, e felizmente não soa como Motörhead (não há porque transformar homenagem em cópia de estilo musical), porém soa como a versão mais acomodada do Metallica.

“Spit Out The Bone” fecha Hardwired… To Self-Destruct com uma música longa e tão poderosa quanto “Damage”. É mais um thrash metal para facilitar o mosh e lembrar porque gostávamos do Metallica e porque valeu a pena acompanhá-los. Apesar de todas as mudanças que seus álbuns apresentaram ao longo dos anos, sempre houve uma energia e uma certa selvageria ao vivo que manteve a banda no topo entre as referências do heavy metal americano. E “Spit Out The Bone” tem tudo isso. Um lembrete das raízes do Metallica e do tipo de metal que mexe com as entranhas dos fãs.

Em termos de composição, o álbum não é perfeito. As faixas se acomodam em ideias que soam bem metaleiras, mas que talvez pudessem ser resumidas. Contudo, Hardwired… To Self-Destruct tem o vigor e o pulso firme em grande escala que faltava à banda – ou que alguns fãs que não foram muito com a cara dos discos dos últimos 20 anos acharam que faltava. Não é o melhor disco de metal do ano, mas um dos mais aguardados e dos que satisfazem, daquele tipo em que os pontos positivos estão tão bem sedimentados que dá para relevar os negativos. E assim Hetfield, Ulrich, Hammet e Trujillo provam que possuem o que é preciso ter para ser uma grande, longeva e ainda boa banda de metal – e de quebra garantiram estádios lotados por mais 10 anos.

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Korn – The Serenity Of Suffering (2016)

Entre riffs pesados e harmonias mais convencionais, Korn entrega um álbum instigante

Por Lucas Scaliza

2016 vai se consolidando como um ano excelente para o metal em suas mais diversas vertentes. A maioria dos lançamentos do estilo que o Escuta Essa Review conferiu ganhou resenhas positivas. Se nem todos foram grandes álbuns, pelo menos grande parte vale a pena ser ouvido com atenção e mostra bandas se esforçando para fazer músicas cativantes.

The Serenity Of Suffering, o 12º disco do Korn, é mais um que entra para a lista de ótimos álbuns do estilo. O nu metal desses norte-americanos se mostra maduro, direto e extremamente bem equilibrado entre melodia e agressividade, passagens mais harmônicas e riffs brutais.

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Não é, contudo, o disco mais inovador ou mais experimental do Korn. Os tempos estão mais conservadores, com a banda confiando mais no 4/4 do que em algumas experiências de troca de compasso que fizeram no passado. Até mesmo Untitled (2007) tinha um senso de quebra no ritmo que não encontramos no novo disco, que preferiu seguir a linha mais linear de The Paradigm Shift (2013).

Mas junte tudo que a gente pode gostar na banda e teremos um disco conciso, coeso e que traz a energia de sempre da banda. Em termos de peso, é um álbum de gente grande. Dá para curtir e bater a cabeça, mas nada é gratuito. Tem alta intensidade em todas as faixas, sem apostar em faixas mais comerciais, como aconteceu com “Twisted Transistor” (do álbum See You On The Other Side, de 2005) e “Never Never” (do The Paradigm Shift). Temos, no entanto, “A Different World”, pesadona e robusta com a participação de Corey Taylor, do Slipknot.

Também não há nada de dubstep desta vez e nem flerte com outros estilos, fazendo com que The Path Of Totallity (2011) seja o último disco mais arriscado do quinteto californiano. Focado no nu metal e também em algumas sonoridades que se aproximam do industrial, o Korn continua mantendo o timbre cremoso e opressor de suas guitarras e baixos distorcidos. Nada de atmosfera retrô ou equipamentos vintage mais uma vez: a banda continua fazendo um metal que soe moderno e futurista. A única nostalgia que a banda se permitiu foi incluir na capa de The Serenity Of Suffering o mesmo boneco que estava na capa de Issues, famoso disco lançado pela banda em 1999.

Com músicas como “Insane”, “Black Is The Soul”, “Everything Falls Apart”, “Next In Line” e “Baby”, a banda mantêm sempre uma vibe instigante rolando ao longo do álbum todo. Todas as músicas são redondas até demais, equilibrando riffs dissonantes e harmonias bem planejadas para que nenhuma faixa seja estranha demais no final das contas. Isso faz com que o álbum também seja uma boa porta de entrada para novas gerações ao estilo do Korn. Porém, quase todas as faixas obedecem à mesma fórmula e acabam muito parecidas umas com as outras em termos de estrutura. Ainda que a energia nunca caia, quando visto de cima, The Serenity Of Suffering acaba sendo aquele disco supercompetente que soa um pouco seguro demais. No final das contas, fazem falta as faixas mais experimentais, talvez menos focadas no peso e mais preocupadas com o estranhamento, mostrando que a banda ainda sabe como surpreender os ouvintes com novas propostas sonoras, uma característica da banda que já estava com eles em Follow The Leader (1998).

De qualquer forma, é preciso elogiar a performance de Jonathan Davis, que continua cantando com toda a alma e sendo um versátil vocalista de metal. Vai de vocais limpos até guturais, passando por partes mais próximas do hip hop e diversos vocais agressivos carregados de um drive característico e também soando como Marilyn Manson em diversos momentos. O trabalho de guitarras de Munky e Head também é excelente. Embora não seja tão inovador quanto mostrou a turma do Deftones com Gore este ano, ao ponto de criarem linhas para o instrumento que consigam ser únicas para cada faixa, são exemplo de como soar destruidores nos riffs e revigorantes com os acordes.

The Serenity Of Suffering não vai inspirar novas bandas de nu metal ou industrial, nem mostrar como o estilo pode evoluir. Menos pretensioso, é um álbum para curtir e divertir que você mal pode esperar para ver ao vivo.

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Opeth – Sorceress (2016)

Mais stoner, mais diversificado e mais setentista, Opeth entrega outro excelente disco

Por Lucas Scaliza

Pode espernear, pode chorar, pode dizer que a banda traiu o movimento. Só não pode dizer que o Opeth se rendeu a algo mais simples, mais comercial ou de menor qualidade de composição. Sorceress não só amplia significativamente o espectro musical praticado pela banda como nunca antes, como também é um disco mais pesado que Pale Communion e que corre muitos mais riscos do que somente deixar de lado o death metal e os grunhidos vocais.

Mas não há como desconectar um elemento do outro. Encarar o lado mais pesado dessa nova fase do Opeth implica encarar também sua abertura sonora para influências tão díspares quanto Black Sabbath e Abba ou tão interessantes quanto Jethro Tull e música árabe, rock inglês e violão clássico, tudo com uma pegada ao mesmo tempo vintage, com timbres bem setentistas, e um poder de fogo e de melancolia que não esconde as características mais marcantes do Opeth de sempre.

Mais uma vez temos Mikael Akerfeldt no comando total do trabalho. Ele compôs todas as músicas e todas as letras. Antes mesmo de se reunir com a banda, gravou faixas demos com uma qualidade absurda que já deixava bem claro para a banda como ele queria que cada canção fosse interpretada, como seriam os vocais, os temas, onde entrariam os solos, como o teclado se comportaria, etc. Por isso, dentro do Rockfield Studio, no País de Gales, a banda demorou apenas 12 dias para gravar Sorceress, e todos puderam gravar suas partes usando as demos de Akerfeldt como guias, apenas adicionando os timbres finais e o toque pessoal de cada um.

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Segue um faixa a faixa para analisarmos o que há de legal e de notável em cada canção do álbum.

Persephone – Uma introdução com o violão erudito de Mikael Akerfeldt.

Sorceress – Meio Black Sabbath, cheia de groove, meio blues, teclados quentes e vintage. Um som meio abafado, timbres setentista, mas um peso moderno nas guitarras. É uma ótima música, com ótima pegada e que já deixa claro que o Opeth pode ser pesado mesmo quando busca algo diferente do death metal. A bateria é trovejante e o ritmo é empolgante. Nunca antes o quinteto sueco havia soado tão stoner quanto agora.

The Wilde Flowers – Um trabalho de guitarras típico do Opeth, colocando um tempero étnico nos riffs após os versos. Como contraponto a sua parte mais arrastada, tem também uma seção mais melódica e fecha com uma parte instrumental bastante intensa de fusion em que a banda toda manda um prog metal de respeito com um belo trabalho de guitarras. Nesta faixa e em todas as outras você nota como a bateria de Martin “Axe” Axenrot e o baixo de Martín Méndez estão em comunhão e soando bem diferente do que soaram em discos anteriores. Isso ocorre porque ambos foram gravados ao vivo, tocando juntos no estúdio.

Will O The Wisp – A balada do disco fica ainda melhor dentro do contexto do que ouvida fora da obra. Um tom mais alto, cordas mais vibrantes e vocais dobrados no refrão. O teclado faz a linha melódica triste, que contrasta com o brilho do instrumental. A letra também não é das mais felizes e representa o tipo de letra que Akerfeldt tenta fazer para representar sentimentos.

Chrysalis – O primeiro acorde é totalmente sabático. É uma faixa forte, intensa, poderosa, potente, quase como um death metal do Opeth de Ghost Reveries ou Watershed, mas sem os vocais guturais e com timbres mais setentistas nos instrumentos, inclusive com um teclado superquente. Melhor música do disco? Possivelmente. Perfeita para tocar ao vivo e incendiar a plateia. Só dá sossego no final, e ainda apresentando melodias e solos interessantes. A gravação ao vivo da bateria e do baixo realmente deram um sabor especial ao álbum.

Sorceress 2 – Mikael AKerfeldt cantando de uma forma bem diferente, com falsetto, muito mais suave e sussurrado, que o coloca no extremo oposto do gutural, parecendo até mais etéreo, como uma faixa de música eletrônica ou pop indie europeu. Novamente temos os dedilhados e o teclado de Joakim Svalberg fazendo um ótimo trabalho para colocar a faixa no contexto sonoro e sentimental de Sorceress.

The Seventh Sojourn – Percussão e trabalho de cordas muito interessante, levando o misticismo do disco para o oriente médio. Com a chegada do baixo, o som vai ficando mais ameaçador, sem abrir mão da melodia e do ritmo. É o Opeth abraçando a música etnográfica como nunca antes. Isso prova que o metaleiro precisa não só entender a mudança que o Opeth quis fazer em sua carreira, mas também manter a mente aberta para novos tipos de som dentro do álbum. Estamos a anos luz de Deliverance (2002), disco inteirinho pesadão e gutural. Se perdemos em teor heavy metal, ganhamos com a escalada musical da banda, no entanto. No final de “The Seventh Sojourn”, Mikael faz harmonização vocal, trazendo o brilho místico da temática do disco, bem diferente de todas as outras faixas, de tudo o que já fizeram antes.

A Strange Brew – A melancolia dita a faixa. E o pianista e tecladista Svalberg vai comprovando que Sorceress deve muito à sua habilidade e sensibilidade. Há também as guitarras pesadas de Fredrik Akesson e a bateria incrível de Axenrot fazendo um progressivo encorpado, agressivo e cheio de groove. O final é feito de partes mais lentas carregadas de sentimentos para encerrar “A Strange Brew” de forma marcante, arrastada e assombrada.

A Fleeting Glance – Mais uma vez, Mikael Akerfeldt surpreende com uma valsinha que começa com um tipo de falsetto que traz a faixa para o reino da psicodelia. Se em Pale Communion a banda ainda trabalhava com os mesmos referenciais, dessa vez eles se expandiram bastante. Já prevejo fãs reclamando e outros adorando a permissão artística que se deram de sair da casinha. E ao mesmo tempo, os riffs pesados estão lá, com síncopes de bateria e tudo que faz do Opeth uma banda de rock progressivo.

Era – Essa é para fechar lindamente. Após uma introdução com piano, sobem os acordes do teclado e os riffs explodem em mais uma faixa potente, acelerada e cheia de energia. Até o solo tem um estilo mais Iron Maiden anos 2000.

Persephone (Slight Return) – E sobra pra Svalberg fechar o trabalho com o piano, repetindo o tema da feiticeira lá da primeira faixa, antes executada no violão. Piano, teclado, Fender Rhodes, órgão, minimoog e hapiscórdio são os instrumentos que Svalberg nos apresentou no álbum, fazendo deste o trabalho em que mais teve a chance de comprovar o seu protagonismo no grupo.

Sorceress é a experiência mais setentista, mais stoner e mais diversificada musicalmente em que o quinteto sueco já apostou. Embora não tenha como agradar a todos – principalmente aqueles que não se importam com a música, somente com o peso –, temos mais um excelente disco de metal (e derivados) em um ano que foi ótimo para o estilo. Mais do que isso, Akerfeldt continua firme em seu propósito de não se repetir e entregar algo que não passa longe do rock que sempre fez, da tristeza e escuridão que sempre estiveram no íntimo de cada composição e do compromisso com a excelência. Além disso, Sorceress ao vivo deverá não apenas soar tão bem quanto no disco como abre oportunidades de performances memoráveis no palco de cada um dos integrantes. O que mais um fã de Música e metal pode querer?

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