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Beasts Of No Nation – a trilha sonora (2015)

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Trilha foge do clichê e usa atmosferas de sonho e pesadelo para refletir as emoções mais íntimas de seu protagonista

Por Lucas Scaliza

Existe uma miríade de emoções e sensações ao longo das mais de duas horas de Beasts Of No Nation, um dos filmes mais interessantes do ano. Felicidade e ingenuidade, rebeldia e a perda da inocência, amor e morte, o sentimento de pertencimento cada vez mais exíguo, a fraternidade e a melancolia. Tudo isso está na rica narrativa do filme, dirigida e roteirizada com esmero por Cary Joji Fukunaga, o jovem cineasta responsável pela direção dos oito episódios da primeira temporada da série True Detective. Tão seguro de si e da história que precisa contar, nem parece tratar-se apenas do terceiro longa-metragem de Fukunaga.

Usando o livro homônimo escrito pelo médico nigeriano (radicado nos Estados Unidos) Uzodinma Iweala como base para seu enredo, Fukunaga fala sobre o horror da guerra civil africana e de todos os horrores dentro dela (pedofilia, abuso de poder, corrupção, jogadas políticas, assassinato em massa, falta de perspectiva, a ilusão da justiça, bem como a sua ausência) por meio da trajetória de Agu (Abraham Attah), um garoto que vê sua família ser morta e acaba tendo que fazer parte de um grupo armado rebelde para sobreviver. Embora seja uma história que usa a África e sua complicada situação política e econômica como plano de fundo, o grande trunfo de Beasts Of No Nation é ser universal, fazendo com que a trajetória de Agu possa ser facilmente transposta para a realidade de qualquer outra criança que tenha vivido em territórios de conflitos em qualquer outra parte do mundo.

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Para um filme que se passa inteiramente na África e acompanha soldados rebeldes em ação na maior parte do tempo, a trilha sonora é bastante surpreendente. Não há marchas militares, não há orquestrações pesadas, com percussões retumbantes e metais trovejantes, nem mesmo melodias aceleradas para acompanhar as cenas de ação e de guerra. A trilha composta por Dan Romer (responsável pela música do elogiado Indomável Sonhadora, de 2011) é totalmente atmosférica, cheia de acordes volumosos e duradouros, tão etéreos quanto emotivos. Se as imagens e palavras escolhidas por Fukunaga tentam retratar a dura realidade, é a música de Romer que trata de dar um aspecto de sonho e pesadelo ao que assistimos, assinalando como tudo aquilo é absurdo. Um exemplo de como usar as escolhas estéticas da trilha como comentário social e político.

O compositor, amigo de Fukunaga, não escreveu uma única melodia até que visse um corte cru do filme. O diretor deixou o colega livre para seguir seu coração. A primeira versão da trilha, que não chegamos a conhecer, era cheia de orquestrações, percussões pesadas, piano e sopros. Fukunaga tinha outras sensações em mente, o que fez Dan Romer se debruçar sobre o projeto por mais cinco meses. A princípio, Romer voou de Los Angeles para Nova York a fim de ficar mais perto do diretor para que terminassem a trilha. A visita que deveria durar uma semana, logo passou para duas. Com o volume de trabalho aumentando, Romer descartou voltar para casa e ficou em NY até o final do processo. As emoções transbordavam do músico. “Nos meses em que trabalhei no filme, acho que não se passou um dia sem que eu chorasse. A trajetória de Agu é linda e intensa”, diz ele.

Dessa forma, Romer deixou de lado as orquestrações e seguiu a indicação do diretor, partindo para uma via mais sintetizada de música. Se a atmosfera parece profunda na maioria das faixas da trilha original, é porque um sonar de submarino foi usado como instrumento. Romer conectou o sonar a um sampler e modulou aquele som por meio de um teclado. Ele também captou o zumbido produzido por copos de vinho e uivos de coiotes, sons que também foram filtrados e trabalhados antes de se unirem à trilha definitiva. Na cena em que um rebelde atira um projétil contra um carro, o som da arma é o uivo do coiote manipulado digitalmente. O som de baixo obtido em várias faixas não foi feito por este instrumento. O músico tocou as notas em uma viola e digitalmente abaixou a altura delas três ou quatro oitavas, conseguindo um som grave.

O resultado é uma trilha tão rica de emoções quanto o filme, mesmo quando ouvida separadamente. Há músicas turbulentas, como a primeira parte de “No Boy, No Bargaining” (que depois torna-se melancólica para acompanhar a primeira grande desilusão de Agu) e “No Talking”; músicas ameaçadoras como “A Sleeping Beast” e “These Are The Ones”; faixas mais luminosas como “Helicopters” e “A Good Family”, que retratam poucos momentos mais quentes da trilha, sem grandes tensões. “Better Look Me In The Eyes” também não é uma faixa pessimista, mas é pesada. Se fosse convertida em imagem, seria um quadro de alto contraste, chiaroscuro. Os acordes no órgão tremulam e ondulam com vivacidade, enquanto o sopro dos metais compõem uma melodia que contrasta duramente. Sua intensidade aumenta, mas a briga entre escuridão e luz mantém-se durante toda a faixa, emulando mais uma vez uma característica de Beasts Of No Nation: em momento algum o filme é moralizante ou nos mostra uma separação entre bom e mal. Os rebeldes só parecem melhores do que outras facções do país, mas aos poucos se mostram tão cruéis quanto qualquer guerrilha ou governo, matando inocentes, aliciando crianças e estuprando mulheres. Ou como o Comandante (interpretado com entrega por Idris Elba) parece proteger Agu, mas ao mesmo tempo o usa como arma de guerra e para outros fins tão chocantes quanto. Estes são apenas dois exemplos entre tantos outros em que o filme se apoia de maneira sofisticada. Os contrastes estão lá para serem percebidos sem que os personagens tenham que discuti-los abertamente.

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Embora não tenhamos acesso a primeira trilha composta por Romer, é provável que sua proposta inicial tinha mais a ver com as trilhas de ação contemporâneas, como a de tantos filmes de guerra e drama. Da forma como se apresenta a trilha definitiva, é muito mais música ambiente, com influências das experiências nesse campo de Brian Eno, do que qualquer outro gênero. Sincronizada com o filme, percebemos que a música não acompanha exatamente o que se vê na tela, como cenas de batalha, carros carregados de homens e armas, mortes e explosões. A música reflete melhor o que há na mente e no coração dos personagens. Às vezes, as duas realidades se chocam, como na magistral “A Song For Strika”, já perto do fim da história.

Isso fica mais claro quando sabemos que Dan Romer compõe a partir da perspectiva de Agu, e não da audiência. “Emocionalmente, estamos lidando com muita tensão e ambiguidade. […] É como se a trilha refletisse isso de forma que quase não há música no vilarejo [onde o filme começa]. Temos apenas uma canção quando Agu está falando sobre sua família. […] Não acho que deveríamos extrair emoção de verdade da trilha até as coisas começarem a acontecer, até as coisas começarem a dar mesmo errado”, ele conta.

A tensão e a ambiguidade musical, que atinge seu ápice na longa “Are You Watching Us?”, só dá espaço para temas mais ternos no terceiro ato do filme, quando o próprio Agu, com sua visão de mundo ampliada a custo de muitos traumas, também percebe a incoerência da guerra e como o conflito é um beco sem saída.

Fukunaga filmou Beasts Of No Nation inteiramente em Gana, mas em nenhum momento do filme temos a informação sobre qual país africano está na tela. Para reforçar essa tese das “feras sem nação” a que se refere o título da produção, o diretor também pediu que a música de Romer não tivesse elementos destacadamente africanos, para não localizar demais a história. Assim, não espere tambores tribais e instrumentos locais nesta trilha, sons que seriam default para a maioria das produções americanas e europeias.

A melodia da música “Twer Nyame” (voz de Randy Agbenyega) é recorrente ao longo do filme e serve como um lembrete da vontade de Agu: voltar para os braços da mãe, que canta essa melodia no início do filme. A ideia de tornar a voz da mãe recorrente também foi ideia de Cary Joji Fukunaga. Por este e por todos os outros fatores já mencionados, percebe-se como Beasts Of No Nation, mesmo tendo sido produzido para a Netflix, é um projeto autoral. Fukunaga escolheu o livro, adaptou e escreveu o roteiro, operou a câmera e dirigiu, além de ter feito diversas sugestões na trilha que, no final das contas, se mostraram bastante acertadas.

A sensibilidade e o conhecimento de Dan Romer não devem ser menosprezados quanto à música da produção. A criatividade para manipular instrumentos até que produzam sons totalmente diferentes do original e a forma eficiente como cria tensões e faz funcionar a ambiguidade das situações fazem desta uma das trilhas mais incríveis do ano.

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Roger Waters – The Wall (2015)

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Filme, documentário e show se confundem em obra que é espetáculo sobre a busca por um pai e uma reação contra o terrorismo

Por Lucas Scaliza

Roger Waters, o baixista, cantor e compositor do Pink Floyd, foi quem liderou a banda em 1979 na produção e turnê do álbum The Wall, a ópera rock mais famosa e mais influente de que se tem notícia. Se a banda antes era conhecida por sons psicodélicos, depois por sons viajantes, com este álbum o Pink Floyd se mostrou extremamente bem alinhado com seu tempo, mais uma vez propondo sonoridades diferentes dentre tudo o que já haviam feito e criando um trabalho conceitual em que tudo cabia: capitalismo, comunismo, Guerra Fria, crítica ao sistema educacional, ao casamento, à superproteção materna, ao showbusiness e um retrato de uma condição mental que só se deteriora frente às pressões do mundo.

The Wall, o álbum, nunca deixou de ser atual e de se conectar às novas gerações, mas o que Roger Waters conseguiu fazer ao levar o disco novamente para os palcos do mundo inteiro extrapolou qualquer expectativa. Embora a turnê tenha ocorrido entre 2010 e 2012, só agora temos acesso ao registro prometido pelo músico. O show está disponível em CD e em blu-ray, mas resenharemos a versão audiovisual por conta de suas várias nuances que agregam mais significado ao lançamento.

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É importante dizer que o filme The Wall, escrito e dirigido por Waters e por Sean Evans, é uma mistura de gêneros. É claro que a maior parte de suas 2 horas e 12 minutos são tomadas por um show em que o clássico álbum foi executado na íntegra em um campo de futebol em Paris. As performances são irrepreensíveis. Cada nota de solo de guitarra, cada dueto e cada uma das 29 faixas são tão únicas e emocionais quanto o eram em 1979. Mas o que realmente chama a atenção no filme são as intervenções narrativas que são tanto documentário quanto road movie.

Quem conhece o Floyd e alguns dos temas de The Wall sabe que o pai de Waters lutou na Segunda Guerra Mundial contra os nazistas e foi morto quando Roger ainda era muito pequeno. Assistindo ao filme, sabemos também que o avô de Waters lutou na Primeira Guerra Mundial e também foi morto em combate, quando seu pai tinha apenas dois anos. Pois bem: o filme começa justamente com o músico chegando a um cemitério/memorial para homenagear quem perdeu a vida na truculenta máquina de moer carne da Segunda Guerra. Enquanto ele toca uma música melancólica em seu trompete para as lápides, um avião sobrevoa o local e um corte sensacional nos leva do documentário para a inesquecível introdução do show com “In The Flesh?”.

Entre uma sequência e outra de músicas, o show é interrompido para mostrar a peregrinação de Waters pela Europa continental em busca de seu pai, da memória de seu pai. Ele morreu em combate na cidade de Anzio, na Itália, e é para lá que ele vai, de carro. Ao longo do caminho, encontra várias pessoas diferentes: filhos, netos, amigos, desconhecidos. É tanto um road movie quando um “falso” documentário, que copia algumas ideias de 20,000 Days On Earth (2014), o documentário de Nick Cave. Assim como ocorreu com o músico australiano, Waters também conversa com alguns personagens dentro de um carro em movimento. Em um momento estão lá, no outro não estão mais. E Waters dirige pela França e para dentro da Itália sempre vestido de preto, um luto sem fim, com direito a uma parada em um bar para três doses enquanto desabafa em inglês para um barman que só entende francês. Uma cena tão literária quanto cinematográfica. Todo o arco narrativo que tem a ver com o pai é comovente e ajuda a dar ainda mais gravidade à obra. Além de um espetáculo, conhecemos um pouquinho mais a história pessoal do compositor.

Já o show teve mensagens políticas ácidas e importantes ao longo de toda a sua extensão. Roger Waters atualizou todo o conceito citando as mazelas humanas atuais. Um dos alvos é o terrorismo. O telão circular no centro do palco exibe fotos de pessoas vítimas de atentados terroristas ao longo de algumas músicas. São pessoas de diversas nacionalidades e que foram mortas em diferentes lugares do globo. A clássica “Another Brick In The Wall Part 2” ganha inclusive uma pequena continuação dedicada ao brasileiro Jean Charles de Menezes, morto em 2005 ao ser confundido com um terrorista pela Scotland Yard no metrô de Londres.

Em “Goodbye Blue Sky”, o telão exibe vários aviões que despejam as ideologias sobre o mundo e que acabam se tornando símbolo de sofrimentos, injustiças e sofrimentos. Cruzes cristãs, estrelas judaicas, luas islâmicas, cifrões capitalistas, símbolo do Comunismo e até mesmo os logotipos das empresas Shell e Mercedes. Em “Mother”, um dos versos pergunta: “Mãe, eu deveria confiar no governo?” e uma animação no paredão responde em russo e em inglês “De jeito nenhum”, endereçando uma mensagem diretamente a Vladmir Putin, Barack Obama e David Cameron, atual primeiro ministro inglês.

Agora vamos falar do show. A produção de palco é impecável. Conforme a apresentação avança, uma enorme parede vai sendo construída até cobrir totalmente a banda. Por cima dessa parede é apresentada animações e imagens de encher os olhos que ajudam na narrativa atualizada de The Wall. Esse palco foi projetado pelo mesmo engenheiro que construiu o inovador palco 360º do U2. A música é a força motriz do espetáculo, mas não teria a mesma gravidade se não fossem todas as animações e vídeos projetadas para deslumbrar ainda mais o público. Water e os outros músicos chegam mesmo a ficar pequenos diante de tamanha engenhosidade visual.

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A sequência “Another Brick In The Wall Part 1”, “The Happiest Days of Our Lives” e “Another Brick In The Wall Part 2” constituem um dos momentos mais tensos do show. Water inicia “Mother” tocando violão junto com uma gravação sua ao vivo no Earls Court de 1980. “Hey You” é tão tocando quanto sempre foi e embora seja muito fiel à original, ganhou acréscimos sonoros muito bons com as novas versões de teclados e pedais disponíveis atualmente. A tristíssima “Nobody Home” mostra um muro já completo e quase intransponível, mas Waters a canta a partir de um buraco no muro, como se estivesse sozinho e isolado em uma sala de apartamento.

Diversas músicas têm vocais divididos entre Roger e Robbie Wyckoff, explorando muito bem a original divisão vocal entre Waters e David Gilmour no disco de 1979. Mas Waters encarou sozinho a tarefa de cantar “The Trial”, faixa em que precisa interpretar diversos personagens diferentes (o professor, a mãe, a esposa, etc) já no fim da apresentação. Mas é claro que o ponto alto do filme é “Comfortably Numb”. A banda está toda escondida pela parede. Apenas Waters canta no que sobrou do palco à frente dela. De repente, o topo do muro se ilumina e vemos Wyckoff lá em cima cantando o refrão. Do mesmo modo, na hora do solo, outro ponto no topo do paredão se acende e vemos Dave Kilminster fazer os solos da música empunhando uma Fender Telecaster. É o momento mais emocional do show e que compreensivelmente mais mostra cenas do público. Difícil não se arrepiar com a imagem de Wyckoff e Kilminster no topo da parede.

Lançado na semana passada, The Wall de Roger Waters é um símbolo de seu tempo hoje muito mais do que quando a turnê percorreu o mundo. Embora já existisse conflitos e atentados terroristas por todos os cantos, todas as letras, mensagens políticas e narrativas do filme são sentidas com muito mais força após os atentados de Paris. Seja por seu ativismo, seja pelo espetáculo visual que consegue superar o do U2, este é talvez um filme/documentário/show de música completo. Não apenas resgata um clássico do rock progressivo como também o atualiza. Waters nunca para no tempo.

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Chappie (2015) – trilha sonora de Hans Zimmer

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Hans Zimmer troca a orquestra pelos sintetizadores, mas não perde os maneirismos

Por Lucas Scaliza

A ficção-científica de fundo social Chappie, dirigida pelo sul-africano Neill Blomkamp, é uma ótima mistura de A.I. – Inteligência Artificial e Robocop com o espaço urbano e linguagem popular do filme brasileiro Cidade De Deus. Há muito também de Distrito 9, o filme que revelou Blomkamp. A mistura é uma boa ideia, mas o diretor dá boas escorregadas, principalmente no roteiro, apelando para saídas fáceis e previsíveis.

Quem ficou a cargo da trilha sonora foi o super requisitado alemão Hans Zimmer, famoso por trabalhar nas trilhas épicas e pesadas da trilogia Batman, dirigida por Christopher Nolan, e Homem de Aço, de Zack Snyder. E é o responsável também pelas trilhas de Interestelar e A Origem, ambos de Nolan, e o vindouro Batman Vs. Superman, de também Snyder, ao lado de seu pupilo Tom Holkenborg, que assumiu a boa trilha de Mad Max: Estrada da Fúria. Embora tenha criado uma marca com os blockbusters da Warner – como o “Baauumm” de A Origem, sobre o uso de metais –, Zimmer consegue sair desse tipo de composição e obter resultados interessantes em outras paragens.

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Para Chappie, o compositor voltou ao eletrônico que exercia nos anos 80 e 90, mas com uma mão tocando de leve na experimentação e a outra no pop/hip-hop. Afinal, Chappie é a história do primeiro robô com inteligência artificial genuína, dotado de uma consciência, e precisa aprender tudo, desde a linguagem verbal até adquirir cultura. Mas Chappie é “sequestrado” por bandidos de Johanesburgo e além de aprender com a criminalidade, acaba “crescendo” e adquirindo os costumes e o linguajar de quem está à margem da sociedade sul-africana.

A orquestração está presente também em quase toda a trilha, servindo desde uma cama para as batidas eletrônicas que ditam o ritmo e a pegada da música. É o caso de “It’s a Dangerous City”, por exemplo. Já em “The Only Way Out of This”, Zimmer usa a música eletrônica com força total para criar uma trilha de ação que não perde de vista o aspecto futurista da história. A criação de sons com sintetizadores é crucial para isso e Zimmer mostra que não perdeu a mão para moldar sons.

Em “Use Your Mind”, principalmente no início e no fim da faixa, ele consegue captar muito bem o clima do filme e todo o aprendizado de Chappie, que deve ser estimulado com imagens, ações, cores, conversas. Outra que condensa muito bem a noção de ficção científica com algum calor humano é “Firmware Update”. Ambas inclusive possuem trechos melódicos que lembram o uso sintetizador por Disasterpeace na trilha de Corrente do Mal, filme de terror cuja trilha é muito importante para toda a construção da atmosfera.

Zimmer sempre teve ótimos momentos com suas trilhas para cinema, mas também é conhecido por compor trilhas um tão gélidas quanto a cerebralização dos filmes em que participou, sobretudo nas parcerias com Nolan. Embora com Chappie ele consiga mostrar um lado de sua capacidade artística que há tempos não aflorava, há alguns maneirismos ainda presentes: as faixas simplesmente não conseguem fazer o mais com o menos. Zimmer sempre aposta na superprodução e em múltiplas camadas de produção. E às vezes isso resulta em uma trilha mais fria, distante. Contudo, é notório que ele se esforça para quebrar essas impressões, seja com um crescendo ao final de “Welcome to the Real World” ou com as bases pinkfloydianas de “The Black Sheep”. Zimmer também tem a tendência de resolver quase tudo com o clima de suspense e ação para tirar o fôlego, como é o caso de “Breaking The Code”, “Rudest Bad Boy In Joburgo” e “You Lied To Me”, que fazem Zimmer ser… esse Zimmer que conhecemos com o Nolan, para o bem ou para o mal (depende do seu gosto pessoal, afinal), chegando ao clímax de seu estilo grandioso e barulhento com “Mayhem Downtown” e “The Outside is Temporary”, onde os metais de outrora dão lugar para os sintetizadores, mas a percussão pesada e os coros continuam firmes e fortes.

Muito ruído e cliques também são usados para compor a trilha, mas não há a mão de Trent Reznor e Atticus Ross aqui, que parecem saber realmente “desenhar” a sonoridade que querem. Zimmer é mais como um maestro mesmo, no comando de uma série de instrumentistas e balançando a mão para pintar o que já foi esboçado. Por isso tudo soa tão grande e tem tanta dificuldade em se conectar ao íntimo do público e ao psicológico dos personagens. A melhor faixa entre essas que precisam soar grande é “Never Break a Promise”, que tem um primeiro desenvolvimento pesado e depois abranda, mantendo o ritmo mas abrandando a dinâmica.

“Illest Gangsta on the Block” é pop como um videogame de 16 bits e flerta com o hip hop. É, de longe, a faixa mais interessante da trilha sonora e tem tudo a ver com o filme de ficção científica e com a personalidade do robô Chappie. Uma música inocente, esperta, que evoca a malandragem e a molecagem que do protagonista. É toda coração e, ao ouvi-la apenas no final do filme, desejamos que a trilha sonora tivesse tido essa sacada mais vezes.

Vale a pena notar que na capa da trilha sonora também estão creditados Steve Mazzaro e Andrew Kawczynski pela “música adicional”. A menos que seja algum tipo de acordo contratual entre Zimmer, a dupla e a Sony, empresa produtora do longa, é de se desconfiar que ambos também tiveram uma boa participação na trilha. Vale lembrar também que Ryan Amon, que compôs a trilha de Elysium, filme anterior de Blomkamp, é quem estava originalmente escalado para a tarefa em Chappie. Não há certeza, mas parece que Amon começou mesmo a trabalhar na trilha antes de sair do projeto e até mesmo teria contratado uma orquestra para a tarefa. Não dá para saber como e o quanto essa orquestra seria usada, mas o resultado com certeza seria diferente do obtido pelo alemão.

Quem é fã do Hans Zimmer com orquestra, com muitos metais à disposição, podem estranhar o Hans Zimmer com sintetizadores e baterias eletrônicas. Mas as marcas de sua composição, seja na frieza, seja na ação enervante ou nos momentos em que consegue de fato chegar mais perto do público, estão todas ali. Tirando algumas surpresas, como “A Machine that Thinks and Feels”, em que uma caixinha de música lança o tema, “The Black Sheep”, os assobios de “We Own the Sky” e a graça de “Illest Gangsta on the Block, é uma trilha para ficção e ação científica bastante convencional, mas com imaginação.

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John Carpenter – Lost Themes

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De volta aos anos 80, no cinema

Por Lucas Scaliza

A sensação de ouvir Lost Themes é de experimentar o futuro de um ponto de vista passado. Tão logo “Vortex” começa a tocar, com suas batidas e linha de baixo bem marcados, sem falar no jeito de tocar teclado e nos sons datados que ele cria, você se vê de novo em algum capítulo de série de ação da década de 1980 que almejava ter uma trilha sonora instigante e ao mesmo tempo um pouco futurista. Sabe aquela mistura de rock e eletrônica, guitarras e sintetizadores que tentava ser sensual e criar suspense ao mesmo tempo?

Pois é esse clima que está em todo o disco John Carpenter’s Lost Themes, do diretor de cinema, roteirista e compositor John Carpenter, muito famoso nas décadas de 1970 e 80 por filmes como Assalto ao 13º DP, O Nevoeiro, Fuga de Nova York, Christine, o carro assassino, Os Aventureiros do Bairro Proibido, O Enigma de Outro Mundo entre tantos outros.

Carpenter com Cody Carpenter e Daniel Davies

Carpenter com Cody Carpenter e Daniel Davies

Além de dirigir seus filmes, Carpenter também criava a trilha sonora. Se você se lembra de seus filmes, todas as músicas de Lost Themes vão lhe soar familiares, mesmo sendo um disco só de músicas novas. Se cresceu vendo filmes da década de 80, nostalgia é o que poderá sentir.

Tudo soa datado, e acredito que essa seja a ideia, e por isso mesmo, às vezes o som pode parecer um pouco brega se a intenção é fazê-la parecer um suspense ou terror. Os sintetizadores, assinatura musical de Carpenter, desfilam em cada uma das nove faixas do disco e além de criar vários efeitos melódicos diferentes deixam o som do baixo menos palpável. Sabe quando um teclado imita o baixo? Então. Aí vai de gosto.

Lost Themes foi divertido de fazer. Ele pode ser bom ou mau para tocar sobre as imagens, que é o que estou acostumado a fazer. Não houve pressões”, diz o diretor no press release de lançamento do álbum. “Sem atores perguntando o que deveriam fazer. Nenhum equipe esperando. Nenhuma sala de edição. Nenhum lançamento pendente. Só diversão.”

O disco todo foi gravado no aconchego da casa do cineasta, contando com seus próprios equipamentos e com a ajuda de Cody Carpenter, da banda Ludrium, e Daniel Davies, que fez a trilha do filme Eu, Frankstein, que lhe deram ideias e assim começaram a improvisar. Como não estavam lidando com equipamentos de produção e gravação analógicos, como Carpenter usou na maior parte de sua produção cinematográfica, ele pôde se sentir mais livre para fazer o que quisesse, como quisesse.

O resultado é bem legal. Diferente das trilhas sonoras atuais, sempre remetendo a um futuro visto do passado. Ele bem que poderia atualizar a estrutura musical, os timbres e substituir os baixos sintéticos por baixos de verdade, mas a intenção é criar algo que remeta a sua própria obra pregressa e que fosse divertida. E John Carpenter consegue. É uma trilha sonora para um filme que não existe e que inverte a lógica: ao invés de ter imagens contando uma história e a música do cineasta para acompanhá-las, em Lost Themes você tem as trilhas e deve imaginar imagens dentro de uma narrativa. Um tributo para si mesmo e para o cinema daquela época.

Interestelar – trilha sonora de Hans Zimmer (2014)

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Trilha vai do minimalismo aos arroubos sonoros com ajuda de um órgão de tubos. Mas no centro de tudo está uma composição intimista

Por Lucas Scaliza

No começo, era apenas um ruído intermitente. Começo da criação do mundo? Não, o início da trilha sonora do alemão Hans Zimmer para Interestelar (Interstellar, 2014) filme mais recente do diretor Christopher Nolan.

Ainda que não deixe suas marcas para trás totalmente, Zimmer consegue sim se distanciar de suas últimas trilhas compostas para Nolan, sobretudo na recente trilogia Cavaleiro das Trevas e para o filme O Homem de Aço, filme do Superman dirigido por Zack Snyder e produzido por Nolan. A ambição do diretor em Interestelar é aliar ficção-científica a dramas humanos, exploração espacial e catarse, cérebro e emoção. E a música não podia ser a mesma de um filme de ação de super-herói, épica com baterias fortes e orquestração virtuosa.

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Para Interestelar Zimmer ainda deixa seus crescendos característicos conduzirem a emoção do público, mas aposta em algo mais paciente, mais misterioso. A trilha é um misto de sons que evocam sonhos, como a faixa “Dust”, e algo que soa maravilhoso e inexplicável, como “Cornfield chase”, com suas notas em looping que acabam se tornando recorrentes no filme. Repete-se, por exemplo, na faixa “Day one”, quando nosso protagonista encontra uma base escondida da NASA e recebe a proposta de uma missão tão incerta quanto instigante e inédita.

O filme é um grande spoiler. Difícil escrever sobre ele sem esbarrar em alguma revelação que possa ser capital para a história. Digamos que envolve um engenheiro e ex-piloto que precisou desistir da carreira aerodinâmica para se tornar fazendeiro. Uma praga acabou com a alimentação do planeta e gigantescas tempestades de poeira tornam a vida de quem permanece vivo uma preocupação constante. A NASA foi desativada, pois o mundo precisa comer, não de respostas ou perguntas vindas do espaço. Até a história nos livros didáticos foi mudada. Mas olhar para cima e se perguntar o que há lá na imensidão do firmamento é quase um instinto humano. Cooper (Matthew McCounaghey), o protagonista, não consegue deixar de sonhar com isso. Não a toa a primeira cena do filme é um acidente que sofreu anos atrás, antes de tudo dar errado. E sua filha tem o mesmo interesse científico do pai.

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Embora Nolan seja um realizador cerebral e bastante pretensioso, a trilha sonora não almeja transcender os limites do gênero musical. Embora em certos momentos Zimmer seja mais estridente e pesado, dá para sentir a procura pela humanidade em suas escolhas. “Stay”, por exemplo, é a trilha de um dos últimos momentos familiares do filme, quando a filha pede ao pai que não se vá. É basicamente a mesma nota ruidosa que abre o filme e a trilha, quando Cooper sonha com o acidente. Isso demonstra uma ligação entre ambos – ligação mais profunda (e mais relativa, nos termos da física moderna) – que só entenderemos no último ato. É a música dando pistas das ligações entre histórias e personagens. Mas “Stay” ganha corpo conforme a dramaticidade em cena aumenta. Não se torna explosiva, como nos filmes do Batman, e nem tem um “baaaum”, de A Origem, mas é cortante e enervante.

Enquanto o filme está em solo terreno, toda a trilha é construída de forma a criar ou acompanhar tensões, seja uma briga de pai e filho, o medo de uma tempestade de poeira ou a caçada a um drone. No espaço – e dois terços do filme se passam lá – a trilha ganha contornos mais sci-fi. Zimmer sabe onde está pisando e não tenta reinventar a roda. Além disso, suas características ficam mais evidentes. A entrada no buraco de minhoca, por exemplo, é acompanhada por um pulsação que acaba engolida por sons altos e duros de orquestração.

“Mountains” é uma das músicas mais originais, combinando sons orgânicos (criando uma batida continua) que acaba desembocando em uma parede sonora do tamanho da onde gigante que se abate sobre a nave de Cooper em um dos planetas que visitam. E o órgão de tubo de Zimmer soa poderoso e libertador. A ideia de usar esse órgão, cujo som foi gravado direto de uma igreja em Londres, foi ideia do próprio Nolan. Para o diretor, o uso desse instrumento na trilha sonora desse filme tinha tudo a ver. Segundo Zimmer, o órgão de tubos era a máquina mais complexa inventada até o século 17, sendo superada apenas pelo telefone. “Pense na forma do instrumento: aqueles tubos eram como propulsores de naves espaciais. E poucos filmes, a não ser alguns filmes de terror góticos, tinham músicas escritas para ele”, o compositor justifica.

Já no final do filme, em uma das cenas mais tensa, “Coward” surge mostrando a boa mão de Zimmer no órgão de tubos. Notas que constroem o tema da canção vão sendo substituídas por um fraseado mais rápido e agudo. E há espasmos duros que lembram a materialidade da percussão em A Origem e na trilogia Cavaleiro das Trevas.

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Vários instrumentos, como o piano de “Running out”, soam como se tocados em quartos vazios, reverberando sozinhos. É a típica trilha para filmes espaciais que tenta emular ao mesmo tempo o vazio, a solidão e o mistério da imensidão escura. O teclado em “I’m going home” evoca tudo isso e acrescenta uma desilusão fantasmagórica ao som lânguido e melodioso que executa o tema da composição.

Vale ressaltar que Nolan tenta criar aqui uma ficção científica classe A, mirando alto para 2001: Um Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, filme em que a trilha sonora é marcante. Mas também o silêncio é marcante nesse tipo de produção, tendo a capacidade de ressaltar o que se passa na tela e testar a paciência e a atenção dos espectadores. Embora tenha 2h45 de filme, a trilha sonora cobre apenas 1h11 de filme.

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Não se trata de um filme intimista. Christopher Nolan almeja coisas grandes, sua ambição cinematográfica é grande. A trilha, ao que parece, sempre parte do minimalista para algo com mais notas e mais intensidade. Não é o mesmo pulso de Atticus Ross e Trent Reznor na trilha de Garota Exemplar. Interestelar também se leva muito a sério, então a música acaba não sendo parte da vida dos personagens como em Boyhood e Guardiões da Galáxia. E essa – digamos assim – frieza é uma característica tanto de Hans Zimmer quanto do diretor Christopher Nolan.

Interestelar é um filme para dividir opiniões. Ao mesmo tempo em que possui diversas qualidades, possui também problemas narrativos que um diretor experiente como Nolan deveria saber deixar de lado. A trilha sonora funciona e tem ótimas sacadas, mas não é tão inventiva quanto a de Reznor e Ross, por exemplo.

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Mas para que não reste dúvidas, a história do filme é sobre pais e filhos, não sobre o espaço em si. A prova disso está na música:

Nolan deu uma história sobre a relação de um pai com seu filho para Zimmer ler e depois escrever uma música baseando-se naquilo. Era uma folha escrita em máquina de escrever. Quando terminou, Zimmer telefonou e Nolan foi até seu estúdio prontamente. O músico tocou a composição intimista pela primeira vez sem olhar para o diretor. O diretor sabe que o filho de Zimmer vai se tornar um cientista, eles são amigos há algum tempo. Ao terminar de tocar, Nolan disse: “Acho melhor ir embora e escrever esse filme”. “Mas que filme é esse?”, questionou o compositor. Pela primeira vez, então, Nolan detalhou para alguém sua ideia e o tamanho do universo que exploraria. Confuso, Zimmer perguntou se sua composição era relevante para aquela história, já que era uma música intimista sobre um pai e um filho. “Sim”, o diretor respondeu, “mas agora eu sei qual é o coração do filme”. Esta pequena peça musical é o tema que ouvimos pouco depois do início e no fim do filme.

Zimmer compôs todas as faixas em seus computadores e com a ajuda de sintetizadores. Ele tocou cada nota. Somente depois de ter uma boa ideia de como cada música ia soar é que encontrou músicos reais para tocar cada instrumento. O órgão de tubos é um Harrisson & Harrisson de 1926, instalado em uma igreja londrina construída no século 12. Roger Sayer, o diretor musical dessa igreja, assumiu a difícil missão de usar o órgão para dar vida às partituras de Zimmer. Usou ainda 34 instrumentos de cordas, 24 sopros, 60 vozes em coro e quatro pianos. Mas não é uma trilha que soa como música clássica. A mixagem final deu uma cara mais sci-fi e um tantinho eletrônica. E é o próprio Zimmer quem toca o piano solitário de “Message from home”, que acompanha uma das cenas mais tristes, pouco antes de chegarem a Saturno e toda a aventura começar.

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Boyhood – a trilha sonora (2014)

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Filme tem mais de 50 músicas e apresenta uma ligação interessante com o “The Suburbs” do Arcade Fire

Por Lucas Scaliza

Richard Linklater acerta novamente e faz um dos filmes mais incríveis do ano. Em Boyhood (leia resenha do filme aqui) não há efeitos especiais, não há elenco estrelado, não teve uma divulgação multimilionária e muito menos se trata de um filme que vai explodir sua cabeça. É um filme simples sobre a as relações humanas – entre família, amigos, amor, rituais de passagem – ao longo dos 12 anos em que acompanhamos a vida de Mason (Ellar Coltrane), sua irmã e seus pais separados.

Assim como nosso jovem protagonista, seus pais também estão procurando seus lugares no mundo. Ela (Patricia Arquette) casa e descasa algumas vezes, muda de residência algumas vezes e consegue se formar “para dar uma vida melhor” aos filhos. O pai (Ethan Hawke) vive a solteirice trabalhando onde encontrar trabalho, longe dos filhos a princípio, com ideais democratas e pró-Obama, sonhando em ser músico algum dia – um sonho que será atropelado pela vida, como ocorre na maioria dos casos. E o filho percebe e vivencia tudo isso.

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O filme levou 12 anos para ser concluído, pois o diretor se reunia com a equipe e os atores alguns dias por ano para filmar as novas cenas. Os personagens, principalmente Mason e sua irmã, crescem e aparecem diante de nós ao longo de quase 3 horas de filme.

Um dos fatores mais interessantes de Boyhood é a sua trilha sonora que acompanha as várias fases da vida de seus personagens. A trilha sonora oficial do filme tem apenas 16 faixas, mas ao todo encontramos até 55 músicas na produção, entre canções que são executadas como parte do filme, cantadas pelos personagens ou sugeridas de alguma forma. Logo que começa, ouvimos os inconfundíveis acordeis de “Yellow”, do Coldplay, e aquele conhecido riff de guitarra. Enquanto Chris Martin canta “Olhe as estrelas, olhe como elas brilham por você”, nosso protagonista, com apenas cinco anos de idade, está deitado no gramado olhando o céu.

O disco da trilha sonora incluiu apenas “Deep blue”, do Arcade Fire, em seu repertório, mas “Suburbian war” também aparece no filme com certo destaque. Ambas as músicas são do premiado disco The Suburbs (2010), um álbum que versa sobre a vida simples de pessoas simples na cidade e de como isso pode ser divertido, dramático e deixar uma enorme saudade. E é exatamente esses temas que Boyhood recupera. Quem ouve o álbum do Arcade Fire e quem vê o filme de Linklater tem a oportunidade de espelhar sua própria vida.

Ouvimos “Suburbian war” quando Mason está com Sheena, sua namorada da escola, no carro. A música diz logo na primeira estrofe “Vamos dar uma volta de carro/ Ver a cidade à noite/ Não há nada a fazer/ Mas não ligo se estou com você”. Ouvimos só um trechinho, mas é uma canção que ainda vai falar sobre “deixar o cabelo crescer”, ver a cidade de modo diferente, ver velhos amigos que se distanciam e todas essas mudanças de percepção que ocorrem entre a infância, a experimentação da adolescência e a fase adulta, quando somos chamados – ou coagidos – a racionalizar tudo.

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A bela “Deep blue” aparece nos créditos de encerramento do filme, quando Mason já está com 18 anos e encara a entrada na universidade. Mais uma vez, Linklater e os supervisores de música Meghan Currier e Randall Poster encaixam uma composição que resume toda a situação. “Aqui, no meu tempo e no meu espaço/ E aqui, na minha própria pele/ Posso finalmente começar”, são os versos que abrem “Deep blue”, que apesar do título evocar uma profunda melancolia, fala sobre emancipação. Nessa mesma música, Win Butler canta sobre quando era uma criança e “rezava para uma estrela moribunda”. Lembra o que cantava Chris Martin logo na primeira cena do filme em “Yellow”?

Querem uma relação ainda mais forte entre The Suburbs e Boyhood? O diretor Spike Jonze fez um média-metragem em 2011 chamado Scenes From The Suburbs, em que aproveitava em forma cinematográfica situações, músicas e temas do disco do Arcade Fire. A atriz Zoe Graham participou desse média-metragem e, mais ou menos na mesma época, interpretou Sheena, a namorada de Mason em Boyhood.

A trilha sonora ainda tem The Black Keys (“She’s long gone”), Tweedy (“Summer noon”), The Flaming Lips (“Do you realize?”) e cat Power (“Could we”). O pai de Mason, a certo ponto do filme, lhe dá de presente uma coletânea com as melhores músicas que os Beatles fizeram separados após o fim da banda. A primeira música dessa coleção é “Band on the run”, de Paul McCartney, que também está no filme e na trilha. “Oops… I did it again”, da Britney Spears, não é tocada, mas a irmã de Mason protagoniza uma cena bem engraçada enquanto canta essa música ainda criança, logo no início da história.

Embora seja um filme sobre a família e as relações entre as pessoas, é uma narrativa que discute isso ao longo do tempo, tentando mostrar os efeitos disso tudo na convivência episódica e em arcos temporais. Em 12 anos, não só as músicas da estação mudam (toca “Radioactive”, do Kings of Leon, quando Mason volta para casa beijando uma garota no porta-malas de um carro), mas também os Estados Unidos mudam. Linklater não deixa de fazer transparecer o seu discurso político através da família e do espaço.

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Nos primeiros anos, quando Mason ainda é pequeno, estamos na administração George W. Bush. O personagem de Ethan Hawke deixa claro aos pequenos como é absurda a Guerra do Iraque e do Afeganistão. Ao mesmo tempo, ele é um jovem pai, não casado e sem muitos meios. Dizer que estava no Alasca é uma metáfora para não encarar qualquer subemprego em qualquer lugar menos desprestigioso dos EUA aos conhecidos. A mãe solteira resolve voltar para o Texas, para perto da mãe, e tentar estudar.

Aos poucos vamos vendo ambos se acertarem na vida: o pai consegue uma nova família, torna-se mais responsável, troca o clássico Pontiac GTO por uma minivan (carro de família). A mãe se forma, vira professora universitária e chega ao ponto de conseguir tomar as rédeas da casa sem precisar de nenhum homem para isso. Quando a vida está mais estável para ambos já estamos na administração Barack Obama. Linklater reforça assim a visão de seu país não apenas como uma terra de oportunidades, mas um país que se permitiu melhorar. A doce “Beyond the horizon”, de Bob Dylan, não deve estar na trilha por acaso.

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Guardiões da Galáxia coloca sua excelente trilha sonora a favor da história, ajudando a dar uma cara mais terrena à jornada especial de Peter Quill e nos forçando a ter empatia pelo personagem a partir de sua seleção de músicas e a ligação que elas representam com sua mãe. Em Boyhood há muito mais música que Guardiões, mas elas não assumem esse protagonismo. Mas servem muito bem para marcar a passagem do tempo. É tudo muito recente, e vivemos tudo aquilo que os personagens vivem, mas ainda assim evoca um tipo de nostalgia. A cena em que a irmã de Mason assiste ao clipe de Lady Gaga e Beyoncé para “Telephone” surge como a novidade daquela época. Imediatamente nos lembramos do hype em torno do vídeo na época, das discussões sobre ele, do barulho que causou e de como nos esquecemos dele também.

E aí voltamos à “Deep Blue”, do Arcade Fire, no fim do filme, que canta “Deixe os séculos passar por mim/ Em pé debaixo do céu à noite/ O amanhã não significa nada” para Mason. Mas vale para todos nós. O tempo passa, tudo fica para trás. Ficam a memória e as músicas que pontuam cada momento.

Nick Cave – 20,000 Days on Earth

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Um drama em forma de documentário ou um documentário que faz uso do drama

Por Lucas Scaliza

20,000 Days on Earth é um dos mais belos documentários sobre a carreira de um artista que já foi feito. O filme não tenta nunca abarcar toda a carreira do australiano Nick Cave, que há alguns anos mora com a esposa Susie Cave em Brighton, nas costa da Inglaterra. Toda a carreira do compositor e escritor é resumida na primeira e criativa cena, em que um contador parte do zero e vai até o 20 mil, mostrando cenas da vida de Cave, com fotos, filmagens ao vivo, clipes, participações em filmes, etc.

Após essa introdução, a primeira cena mostra Cave sem camisa, ao lado da esposa, ambos na cama, envoltos lençóis brancos em um quarto com decoração espartana até onde podemos ver. Quando Nick se levanta, percebemos que se trata do local em que foi feita a foto de capa para seu último disco, Push The Sky Away (2013), que também figura Susie, nua.

Nick cave conversa com seu psiquiatra

Nick cave conversa com seu psiquiatra

O documentário é como um drama. Os diretores Ian Forsyth e Jane Pollard acompanharam as gravações do disco na casa-estúdio La Fabrique, na França, com Nick Cave & The Bad Seeds, e planejaram cenas em que o cantor interage com amigos e conhecidos e é por meio dessas interações – meio planejadas e meio espontâneas – que ficamos sabendo um pouco mais sobre a vida, a obra, os medos, as paixões, as inseguranças e o modo de pensar de Nick Cave.

Embora Forsyth e Pollard tenham planejado muita coisa, e embora o filme também tenha sido coescrito pelo próprio Cave (que é roteirista de cinema e também ator ocasionalmente), percebemos que as reações e as falas do australiano são sinceras. É um tipo de documentário diferente daquele feito nos últimos anos sobre o Pearl Jam, o Foo Fighters, o Rush e sobre o Lemmy Kilmister, do Motörhead. Nesses quatro documentários, os realizadores vasculham a vida e a carreira das bandas rapidamente. Eles sentam e entrevistam os músicos, usam gravações de arquivo e tentam fazer carreiras inteiras caber em 2 horas de filme. É um formato que rendeu bons documentários, mas este de Nick Cave torna-se especial ao fugir desse formato.

Em 20,000 Days On Earth temos bem menos informação sobre a vida de Cave e sobre seus discos e fases da carreira de forma linear. O que se capta são momentos, pensamentos, sentimentos, coisas bem mais raras e de uma forma bem diferente, o que acaba aproximando o documentário de um filme de arte, do tipo que não estranharíamos ver um diretor como Jim Jarmusch (Café e Cigarros, Flores Partidas, Amantes Eternos) realizando.

Nick está escrevendo em seu escritório. Ele escreve em uma máquina de escrever. Atrás dele estão fotografias de sua carreira. O filme nunca para nos explicar cada uma. Ele recebe um telefonema e tem que ir ao psiquiatra. Acompanhamos sua conversa com ele e por meio dela sabemos que Cave não crê em Deus, mas Deus existe no universo de suas músicas. Por meio da falta de palavras do cantor sabemos também o que ele sentiu ao perder o pai aos 19 anos, uma morte que “veio do nada”, como ele mesmo diz. “Devo parar por aqui?”, pergunta o psiquiatra ao notar o silêncio do interlocutor.

Nick Cave e Kylie Minogue

Cave dirige. E de repente Blixa Bargeld, o guitarrista que o acompanhou de From Her To Eternity (1984) até Nocturama (2003), está ali no assento do passageiro. Sem nenhum introdução ele diz que o processo de composição no grupo sempre foi aberto, mas que durante as sessões de Nocturama parecia que Nick tinha tudo planejado já e ninguém tinha muito com o que contribuir. Ele deixa claro que saiu da banda sem ter problema nenhum com Cave e com qualquer outro membro dos Bad Seeds, mas não podia estar mais em duas bandas (além de uma carreira solo experimental, Bargeld fazia parte da banda alemã Einstürzende Neubauten). Em outro momento, totalmente de repente, a popstar australiana Kylie Minogue aparece no banco traseiro e eles falam sobre algumas noções de imortalidade. Em entrevistas para promover o documentário, Cave revelou que fazia muito tempo que não se encontrava com Minogue, com quem ele fez um belo dueto na música “Where the wild roses grow”, do disco Murder Ballads.

Em outros momentos vemos Nick visitando Warren Ellis em uma casa no campo. Ellis é músico, parceiro de Cave no Bad Seeds, no Grinderman e nas trilhas sonoras que compuseram para diversos filmes. Vemos ele visitando seu arquivo pessoal (que parece uma repartição pública, tem até funcionários para organizar tudo para ele) e assistindo o violento Scarface com seus dois filhos gêmeos, ainda crianças. Curiosamente o rosto de sua esposa Susie nunca é mostrado diretamente pelas câmeras de Forsyth e Pollard.

Nick Cave come pizza e assiste a "Scarface" na companhia dos filhos gêmeos

Nick Cave come pizza e assiste a “Scarface” na companhia dos filhos gêmeos

Entrecortando todos esses momentos estão as gravações do excelente Push The Sky Away. Temos uma longa cena com uma gravação de “Higgs Boson Blues”, um novo clássico de sua discografia e cena de um coral de crianças gravando para “Push the sky away”. Uma versão inicial de “Animal X”, que não entrou no disco e só foi liberada no Record Store Day de 2013, também é mostrada, assim como uma gravação prévia de “Give us a kiss”, linda música só liberada este ano. Cave poderia ter preenchido o documentário com várias de suas músicas mais clássicas, mas manteve tudo dentro do contexto e do momento em que disco e documentário foram gravados.

20,000 Days on Earth é, assim, mais como um álbum de fotos. Não é uma cinebiografia, temos apenas flashes e lampejos da história de vida de Cave. Mas o apenas ali no meio da frase deveria estar entre aspas, pois essa mudança de tom e de formato em relação a outros documentários é bastante significante, nos entrega um Nick Cave mais confessional, mais introspectivo e menos exibicionista. É um filme para quem é fã de Cave, com certeza, mas vai revelar um ser humano muito mais do que uma carreira. Assim como as músicas dele são sobre pessoas, este é um documentário sobre um ser humano que, afinal de contas, poderia ser qualquer outro. Mas não é, é Nick Cave.