MPB

Rael – Coisas Do Meu Imaginário (2016)

Disco representa bem as inovações do rap nacional 

Por Gabriel Sacramento

Quando se fala em rap nacional moderno, que eu chamaria de alternativo – justamente por alternar estilos e ideias –, dois grandes nomes me vem à mente de imediato: Emicida e Criolo. Ambos rappers inteligentes, que vão além do estilo, buscando intersecções com diversas nuances diferentes e falando uma linguagem moderna e criativa da nova MPB.

Além desses dois, temos também o paulistano Rael, que pensa o rap dessa forma diferente, expansiva e sem limites. Gravou o seu primeiro disco solo em 2010, o ótimo MP3 – Música Popular do 3° Mundo. Desde então, o músico vem fazendo ótimos trabalhos mantendo o alto nível da estreia e explorando ideias de jazz, pop, reggae, MPB e o próprio hip-hop.

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Com um jeito orgânico, que permite que ele se aventure por estilos tipicamente brasileiros, enquanto conversa com o hip-hop americano, Rael entrega sua mais nova obra-prima: Coisas do Meu Imaginário, com produção de Daniel Ganjaman – um dos grandes nomes do rap nacional, ainda que na parte da produção, tendo em seu currículo trabalhos com Sabotage e Criolo – e participação de nomes como Chico César e Black Alien, entre outros.

Ganjaman sabe como ninguém trabalhar diversos estilos em um álbum. Fez isso com o Criolo, por exemplo, no seu Nó na Orelha e é um dos principais responsáveis por essa multiplicidade ser tão bem feita no novo disco de Rael. A experiência do paulistano também conta: desde 2010, ele vem desenvolvendo e aperfeiçoando sua sonoridade, aprendendo com os próprios erros e acertos.

A tranquilidade com que abre o álbum em “Do Jeito” sugere algo bem melodioso, cool e cristalino. Rael sabe colocar seu rap no meio de bases não convencionais do ponto de vista do hip-hop em sua essência, e as faz funcionar perfeitamente. Em “Rouxinol”, o MPB encontra o reggae e o rap. É um dos pontos altos. “Descomunal” é pop gostoso de ouvir, enquanto somos envolvidos na atmosfera despretensiosa conduzida por uma guitarra limpa e tocada com leveza, enquanto somos apresentados à capacidade de Rael de transitar entre o rap e o canto com muita competência. Em “Aurora Boreal”, Rael explora uma veia jazzística, limpa e simples. “Estrada” tem mais de rap e uma base mais simples e convencional. Mas não abre mão do refrão melódico.

“Livro de Faces” traz uma crítica contundente à virtualização das relações humanas. Em sua história, o paulistano conta que uma mulher pela qual se apaixonou acabou se provando incapaz de manter o relacionamento com ele por demonstrar mais amor no ambiente virtual que no “cara a cara”. Rael explora isso com linguagem clara, irônica, e com uma das frases mais fantásticas que já li em uma letra de rap nacional: “Seu coração tem dono e ela não esquece/ pior que não é um homem, é um iPhone 6s”. A crítica é relevante, bem articulada e seus argumentos são expostos de maneira bem convincente. Para a moldura musical da faixa, o rapper opta pelo reggae-rap, que já é comum em seu som. Esta é, sem dúvidas, a melhor faixa do álbum.

Rael segue fazendo o seu nome na cena eclética do rap nacional com ótimos trabalhos. Coisas do Meu Imaginário é um dos melhores lançamentos da música brasileira em 2016 e representa as inovações dessa cena do rap moderno e o melhor que o estilo tem a oferecer.

O ecletismo da forma como é abordada faz esse conjunto de estilos parecer um só. A ideia de expandir o hip-hop pode parecer ruim para os fãs mais ortodoxos, mas é algo que contribui para a qualidade do estilo. A forma como Rael e Ganjaman arrumam tudo e passeiam entre as referências é incrível. Isso revela o mérito dessa cena moderna do rap brasileiro, em que os artistas mantém a essência crítica e urbana do estilo e, ao mesmo tempo, louvam a música brasileira e sua pluralidade.

Um disco imperdível dentro de uma cena musical imperdível.

Liniker e os Caramelows – Remonta (2016)

Em uma grande micareta cósmica de estilos musicais, Liniker vai de Prince à MPB progressiva

Por Lucas Scaliza

Não diria que há experimentalismo em Remonta. O que parece que Liniker e os Caramelows fazem é procurar uma expressão, uma voz, um jeito de ser e, não sendo nem uma coisa e nem outra, Remonta são várias coisas ao mesmo tempo. É uma confusão, mas assim como o filme 2046 de Wong Kar-Wai, é uma confusão linda de se ouvir.

Aos 21 anos, Liniker – um(a) cantor(a) e compositor(a) de Araraquara, interior de SP – vem embalando uma geração de universitários e de pessoas interessados no lado mais indie e inventivo e desconstruído da música popular brasileira. Batom e saia, brincos e bigode, uma voz que claramente é de homem, mas com uma interpretação que estamos mais acostumados a ouvir de mulheres. São elementos que instigam a curiosidade e realçam o lado andrógino de Liniker.

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Remonta, o primeiro disco dele/dela com os Caramelows, é um grande festival de estilos, fruto de uma ruminação musical de 5 anos. Tim Maia, Móveis Coloniais de Acaju, percussão afro, rock, soul, Amy Winehouse e clima de micareta são algumas das lembranças que vêm à mente ao ouvir o disco, rico em textura, diversão, drama e sensualidade. A faixa-título, “Remonta”, é um aviso sobre como a música de Liniker paga tributo à MPB dos anos 70 e 80 e faz uma espécie de MPB progressiva. O andamento muda, o drama vira balada, que passa por um interlúdio mais nordestino com arranjos de sopro e chega a um clímax levando a canção para outro caminho enquanto brada que não quer mais “saber de desamor”.

O mesmo ocorre com “Caeu” que, embora tenha uma levada mais padronizada (e uma linha de baixo deliciosa), também envereda por passagens mais jazzísticas e atmosféricas antes de seguir um crescendo que segue até o final da canção. Lina X, que começa com um animado axé indie (você realmente consegue ouvir a música e se imaginar num carnaval) – vai se transmutando em coisas diferentes, como uma passagem instrumental meio surf rock, meio western, só para depois cair em uma valsa triste que pouco lembra o início da canção. “Louisie du Brésil” passa um bom tempo como um funk que poderia estar na trilha de The Get Down, mas da metade para lá vira algo denso, lento e dramático. E aí você se pergunta: “Eu tô ouvindo MPB ou a porra duma versão do King Crimson?”

Essa recusa da linearidade musical faz com que a música de Liniker seja uma evasão da nova MPB mais bonitinha e padronizada que ouvimos atualmente. De quebra, Liniker dá uma cara muito mais progressiva ao estilo e, ao que parece, ele/ela não está consciente disso, pois não importa muito qual o rótulo de sua música. Ela simplesmente acontece. Difícil saber até onde cada canção foi milimetricamente planejada e o que surgiu ali no estúdio, de forma mais espontânea. Isso é tanto um charme de Remonta quanto o indicativo de que Liniker e os Caramelows ainda têm bastante espaço para amadurecer a proposta em discos seguintes. O acaso e o vale-tudo caem bem, mas o álbum acaba perdendo em unidade e coesão. Não que isso acabe com a experiência. Longe disso.

Entre as músicas mais lineares do álbum estão a animada “Prendedor de Varal” – com guitarras ágeis no registro agudo e seco, um baixo com um timbre bem orgânico e um ótimo naipe de sopro –, a melancólica “Sem Nome, Mas Com Endereço” (outro exemplo de como a banda é ótima com finais de canções), a curtinha “Funzy”, que é o melhor lado Prince que um artista brasileiro da nova geração já mostrou ter, e “BoxOkê”, que tem o reforço da banda Aeromoças e Tenistas Russas e da cantora Tassia Reis, e é uma das melhores e mais completas músicas do álbum. Um exemplo que Liniker e os Caramelows são capazes de não perder a criatividade e ainda assim manter a faixa com uma direção bem definida e certeira.

Há uma sensualidade latente que atinge seus ouvidos tanto com as palavras cantadas, mas principalmente com a forma como Liniker as diz. “A gente fica mordido/ Dente, lábio, teu jeito de olhar/ Me lembro do beijo em teu pescoço/ Do meu toque grosso/ Com medo de transpassar – e transpassei!”, ele canta na excelente “Zero”. E o que dizer de “Nossa, como a gente encaixa gostoso aqui?”, no final de “Caeu”. E também é a sensualidade que dita “Tua”. E não tem como ser mais direto ao ponto do que em “Você Fez Merda”, faixa em que Liniker modula a voz para interpretar diferentes personagens e cantar um verso como “Você fez merda ao dizer que não me ama/ Depois da Transa que eu dei pra você”. E o final apoteótico, com a potente “Ralador de Pia” – “Me beija, me cheira, me tira do sério”, ele/ela canta –, voltando a mostrar que Remonta é uma micareta progressiva, psicodélica e divertida.

O “problema” de Liniker é o mesmo que O Teatro Mágico enfrentou com o primeiro álbum, Entrada Para Raros (2003), e o Móveis Coloniais de Acaju enfrentou com o segundo, C_MPL_TE (2009). Remonta é tão bom e tão criativo, num estágio tão inicial da carreira, que fica complicado manter o mesmo nível de inovação, diferenciação e surpresa no futuro. Liniker, advindo de uma família de músicos, teve que superar a vergonhar de cantar para poder nos encantar com sua voz, sua performance e sua música. Deverá continuar muito destemido – esperamos – para não ter amarras no futuro.

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Lorena Chaves – Em Cada Canto (2016)

Disco divertido, inocente e com um conceito

Por Gabriel Sacramento

Representante da nova safra da MPB, Lorena Chaves começou a fazer seu nome no cenário musical depois da participação no programa Ídolos da Rede Record. O destaque no programa levou a cantora a emplacar uma música em uma novela da Rede Globo. Esse contato com a emissora levou ao contrato com a Som Livre e resultou no primeiro álbum da carreira – Lorena Chaves (2013).

Lorena já chegou trabalhando muitas linguagens: folk, MPB, pop e rock. No autointitulado, a cantora trata diversos temas como esperança, amor e algumas considerações sobre o comportamento humano no geral.

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O novo disco – dessa vez lançado de forma independente – é a tentativa de Lorena firmar de vez sua carreira. Ela continua trabalhando as linguagens do primeiro disco de uma forma despretensiosa e despreocupada. Os elogios começam a partir da capa: um baile de cores proporcionando uma ótima experiência sensorial. Assinada pelo designer Thiago Thal, a capa não possui o nome da artista, uma estratégia ousada e pouco utilizada no mundo da música, mas que costuma surpreender. [Led Zeppelin e Beatles fizeram isso em suas obras primas – Led Zeppelin IV (1971) e Abbey Road (1969), respectivamente].

A criatividade da capa se repete na música. Lorena produz uma sonoridade leve, simples, tranquila e divertida. Sua música não se prende a rótulos, mas à ideia de ser descomplicada e fluida. Tudo flui muito naturalmente em Em Cada Canto.

“Tracejo” abre o disco, com um ritmo contagiante e divertido. Tranquilidade, alegria e disposição são transmitidas com um quê dançante e brilhante que agrada logo de cara. As coisas ficam ainda melhores em “Alma na Gangorra”, com o melhor refrão do disco. A cantora dá novamente ênfase no ritmo em “Amanheceu”.

“Envelhecer com Você” tem uma harmonia simples e evoca uma doçura graciosa. Isso é reforçado pelas notas cristalinas de guitarra que passeiam pelo arranjo. Em “De Platão para Neruda”, a cantora trabalha uma sonoridade climática e sonhadora com uma base harmônica que soa distante. Já “Lugar Sem Fim” encerra o disco trazendo muita calmaria e um crescendo ao final.

Em Cada Canto é um álbum com conceito. Não me refiro à storytelling, mas às ideias sonoras que auxiliaram a construção do disco. O álbum possui uma capacidade incrível de transportar o ouvinte a um lugar tranquilo, pacato, distante, tudo isso com a ajuda de seus poucos – e bem aproveitados – elementos, que transmitem a mensagem de Lorena de forma eficaz.

O tema é o amor. A cantora que atualmente colhe frutos de um bom relacionamento, passa para as letras a sua visão de mundo e o que tem orientado seus sentimentos. Se o álbum tem um defeito, é este: temas pouco variados e letras um tanto inofensivas. É uma visão positiva da vida e do amor, alegre e inocente demais. Não é muito convincente acerca da profundidade dessa vida e amor ou acerca de como os bons sentimentos são caracterizados.

As letras inofensivas também impactam as músicas: as escolhas musicais que determinam os caminhos pelos quais o disco envereda deixam claro que o lance de Lorena Chaves é fazer algo despretensioso, inocente e puro. E nada mais do que isso. Pode desagradar os ouvintes que prezam por algo um pouco mais contundente.

Como disse a própria Lorena em uma entrevista, “É um disco para ouvir e relaxar, para viajar na estrada com o vidro aberto, para jantar com os amigos, agradecer a Deus pela beleza da vida e da criação”.

E claro, as comparações com Clarice Falcão são muito bem-vindas. Ambas posuem uma proposta sonora bem parecida e buscam espaço na nova onda da música popular brasileira. A diferença é que a nova fase de Clarice é muito mais confusa, com a cantora tentando lances mais agressivos, sem muito conforto, embora explore temáticas mais contundentes, como o feminismo expresso em seu cover de “Survivor”. Lorena é bem sincera com sua música e permanece dentro da proposta do primeiro álbum, prezando pela tranquilidade e pelas boas vibrações. Embora arrisque pouco, Lorena parece consciente de sua música e de onde quer chegar com ela.

Apesar de tudo, Em Cada Canto não é um disco ruim. É divertido e feliz e, embora possua seus defeitos, consegue passar bem a ideia e representar seu conceito sonoro.

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Céu – Tropix (2016)

Etérea e sintética, mas ainda olhando para a frente

Por Lucas Scaliza

Não deixa de ser interessante notar que Céu, dona de uma discografia impecável até agora, sempre aliou apelo pop, clima tropical em seus discos e intervenções sonoras modernosas em seus discos desde Céu (2005). E ela resolveu assumir essa “tropicalidade” presente em sua estética sonora justamente no título deste quarto disco, Tropix, que, em comparação com os antecessores, parece mais introvertido e etéreo. Até a capa do álbum, preta e branca, é um contraponto ao colorido que normalmente se espera de algo tropical.

Contudo, essa introversão não deve ser entendida como um ponto fraco do disco. Também fica claro que é apenas uma impressão superficial causada pela instrumentação escolhida para o disco. Principalmente o baixo e a bateria soam como programações eletrônicas, sintetizados. Mas não se engane: é uma banda real tocando, você consegue sentir a humanidade e o suingue tropical nas vibrações e batuques. Guitarra e violão têm menos presença, ressaltando os tímidos grooves (nada robusto como encontraríamos em um drum’n’bass ou expansivo como no funk) e a participação de teclados e sintetizadores. “Amor Pixelado” é uma grande amostra da estética que soa eletrônica, mas ainda orgânica, que a cantora e compositora parece buscar desta vez.

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Maria Céu Whitaker Poças apresenta faixas que mudam de vibe conforme se desenvolvem, quase sempre partindo do eletrônico para chegar a uma sonoridade mais aberta, como no primeiro single, a ótima “Perfume do Invisível”, “Varanda Suspensa” e a deliciosíssima “Pot-Pourri: Etílica/Interlúdio”. E as partes mais abertas das três contam com uma guitarra reforçando as levadas. Pode não ser o instrumento protagonista na banda dessa vez, mas ainda é usada de maneira definitiva, como aquele atleta que entra em campo para resolver a jogada.

“Arrastar-Te-Ei” é a faixa que não sai da ambientação sintética geral do trabalho, mas é uma das mais tropicais. “Minhas Bics” tinha tudo para ser outra com a mesma pegada. Aliás, ela tem uma base percussiva e um arranjo de guitarra perto do fim que remete bastante ao marasmo do Havaí, mas tem um jeito contido e ondas graves de sintetizador que simplesmente não deixam que a canção se entregue.

Já a regravação de “Chico Buarque Song” (gravada pelos paulistas do Fellini em 1990) surge como um dos raios de luz mais fortes de Tropix, com refrão para cima e pop, contrapondo-se ao pulso mais bossa nova dos versos. “Camadas” é outro grande highlight que desabrocha e cresce dentro do ouvinte junto com os arranjos de cordas. “A Nave Vai” lembra as canções de Silva. Não se desvia da estética do disco, mas está muito mais pop e é de muito mais fácil assimilação pelo público geral.

O clima melancólico e viajante, que tantas vezes nos embalou nos discos anteriores, dá as caras em “Sangria”, a representante da mistura do clássico (principalmente como Céu usa sua voz para interpretar a canção) e modernidade (em como os instrumentos expressam esse bolero, mantendo o pulso, mas não as levadas óbvias [no lugar do violão, o baixo]).

“Rapsódia Brasilis”, a última faixa do trabalho, é uma das músicas mais avançadas e diferentes já gravadas por Céu. Pode não virar single, mas é o tipo de música que a banda sabe do potencial no momento em que a grava e nota que pode ter sido o ponto de expressão mais alto do álbum. Não se presta a resumir a estética do trabalho, mas pega os novos elementos (bases sintéticas, orquestração) e os exacerba, resvalando de leve no experimentalismo. Não é a toa que foi a faixa escolhida para integrar a coletânea de novas músicas deste mês da revista francesa Les Inrockuptibles.

Samba, bossa, synthpop, jazz e ritmos tropicais estão no DNA de quase todas as músicas. Só que você mais sente do que ouve esses estilos, pois Céu e seus músicos (que ela chamou de alquimistas) criaram arranjos criativos para cada uma das 12 faixas. Além de Céu assinar a composição de 10 faixas e ser responsável pela coprodução do disco (tendo supervisionado todas as escolhas criativas), deu espaço para que os músicos de sua banda pudessem exercer um trabalho tão interessante para a carreira dela quanto para a deles mesmos. Assim, Pupillo (baterista do Nação Zumbi), Lucas Martins (baixista que toca com Curumin e Russo Passapusso) e o tecladista francês Hervé Salters (do grupo General Eletriks e que já tocou com Mayer Hawthorne) são os responsáveis pelos criar os timbres sintéticos com pulso humano por trás de cada faixa. Discordo totalmente de quem afirma que são sons frios e robóticos. Dá para sentir as mãos de Pupilo, Martins e Hervé coordenando cada nota. Não teria como ser tropical se não fosse assim.

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E aí temos, mais uma vez, essa sensação de pós-modernidade em Tropix, onde o pix (de pixel) no final do nome é o que te induz a entender que é tropical sim, mas de uma forma filtrada pelo digital, pelo futuro – ou o que se crê que sejam sons do futuro atualmente. Seja como for, ou seja lá o que o futuro reserva (visto que o contemporâneo tem muito do “ontem” reinterpretado pelas possibilidades tecnológicas e combinações estilísticas do “hoje”), Tropix não é o disco que vai apresentar Céu a um novo público – essa função ainda pode ser muito bem desempenhada pelo excelente Caravana Sereia Bloom (2012) ou mesmo por seu Ao Vivo (2014) – mas representa mais um passo à frente de Céu e sua banda.

É o tipo de disco que cresce no ouvinte com o tempo. Sua aparente introspecção, os acordes de teclado e as linhas de baixo demandam algum tempinho para serem decifradas, principalmente na primeira metade do trabalho. Mas esse tipo de detalhe é só um aviso a quem vai mergulhar em Céu a partir de agora. Quem a acompanha desde que ela cantava “Menino bonito, menino bonito, ai” de “Malemolência” vai encontrar a mesma voz de aconchego e a mesma preocupação com uma música de qualidade. Ah, e ela continua sendo uma das vozes mais interessantes da nova geração da música brasileira.

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Filipe Catto – Tomada (2015)

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A tradição da MPB ainda pesa, mas o álbum retrata seu desenvolvimento como artista

Por Lucas Scaliza

O segundo disco de estúdio do gaúcho Filipe Catto, Tomada, continuará a intrigar os desavisados. Quando ele abre a boca e solta a voz, não pensamos em Filipe, mas em alguma cantora da MPB que fez história, tal é a raridade e peculiaridade de seu timbre de voz, dando uma característica andrógina à sua arte e imagem. Una isso à uma técnica apurada de canto e composição e teremos em nossa frente um disco e um artista com potencial absurdo.

Mas mesmo para os talentos absurdos e raros a carreira pode ser um tanto errática. Após ganhar notoriedade com o EP Saga, com direito a música em trilha de novela, a Universal se interessou e endossou Filipe Catto em seu disco de estreia, Fôlego (2011), que rendeu um disco ao vivo ainda melhor, Entre Cabelos, Olhos e Furacões (2013). Mas Tomada, um belo disco de MPB com laivos de indie rock, foi lançado de forma totalmente independente, sem os investimentos da grande gravadora de outrora. Se a Universal não está presente dessa vez, está a Natura Musical, que já patrocinou diversos artistas da nova MPB e abriu um edital ano passado pela primeira no Rio Grande do Sul (e Catto foi contemplado).

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A falta de uma grande player  do mercado fonográfico pode fazer com que um disco não receba uma atenção midiática e uma distribuição ampla, mas certamente, bem ladeado de gente talentosa como está, Catto já vai dando a volta por cima sem dever nada a ninguém. A ficha técnica revela a produção a cargo do experiente Kassin e um time de compositores invejáveis como Caetano Veloso, Paulinho Moska, Marina Lima, Pedro Luís, Fernando Temporão, Zé Manoel, Thalma de Freitas, além do próprio Filipe.

Tomada é um disco que se desenvolve melhor do que Fôlego, com mais ideias e alguns poucos riscos. O primeiro disco dele o mostrava seguindo na direção da MPB mais tradicional, o que demonstrava seu repertório. O novo trabalho me parece menos reverencial à tradição e mais como uma busca por uma expressão própria. Embora sua voz tenha sido comparada a de Elis Regina, penso mais em Zélia Duncan ao ouvi-lo – mesmo que sua interpretação continue recorrendo à “escola” de Elis.

“Dias e Noites”, composição do próprio cantor, é uma boa introdução que já deixa claro que não será uma ruptura com o trabalho anterior, mas que há mais para ele mostrar. “Partiu” foi feita sob medida para agradar. Até o primeiro refrão, parece uma música banal sobre viagens, mas a partir daí, a composição de Marina Lima daí constrói novos e belos significados. O piano pode estar em segundo plano, mas há arranjos ali que fazem a diferença. “Depois de Amanhã”, de Catto com Moska, não traz grandes inovações, mas os arranjos de sopro fazem a faixa valer a pena.

“Auriflama”, composta por Thelma de Freitas, tem versos e pulsos bastante tradicionais da Música Popular Brasileira. O que a diferencia são as camadas de guitarra. Uma delas faz um dedilhado, a outra fills, só que uma não completa a outro estilisticamente. Cada uma pertence a uma vertente diferente, trazendo algo de alternativo para a faixa. “Canção e Silêncio”, contribuição do Zé Manoel, é uma balada triste de fossa que inclui arranjos vocais bem vindos e um jeitinho de trilha para novela. “Do Fundo do Meu Coração” (Taciana Barros e Júlio Barroso) é bem interessante: traz uma guitarra rica de reverb. É bem menos MPB, com mais suspense e mais pop.

“Amor Mais que Discreto” é a composição de Caetano. Delicada, é verdade, com aquelas rimas e repetições que já são manjadas, que ele ajudou a tornar manjadas, e que Catto representa bem com sua vez, mas os maneirismo de Caetano estão lá presentes demais, reconhecíveis demais, para deixar a personalidade do gaúcho brilhar sozinha. Quando se trabalha com composições de outros, corre-se esse risco.

“Um Milhão de Novas Palavras” é quando a guitarra com distorção ganha proeminência e Catto se entrega ao rock. O instrumento, que foi bem utilizado para criar texturas e marcar a mudança de acordes nas faixas anteriores, assume aqui uma característica mais suja que pontua a gravidade e seriedade dos versos da dupla César Lacerda e Fernando Temporão. Feche os olhos e poderá te lembrar Cazuza.

“Iris e Arco”, composta pelo trio Tiganá Santana, Thalma de Freitas e Gui Held, é a melhor música de Tomada. Com uma produção enevoada, tornando o som menos cristalino, e amplo uso de atmosfera (até a percussão e o baixo reforçam o clima), especialidades dos discos com a mão de Kassin. É uma música misteriosa, com um refrão no melhor estilo Milton Nascimento. O tipo de produção que atesta a maior maturidade e Catto, sem excessos interpretativos. Não foge da tradição, mas também não deixa de incluir novas nuances.

“Pra Você Me Ouvir”, outra composição de Catto, é um rock anos 70, sujinho e vintage, com fuzz e uma enorme sensação de improvisação. Outra das melhores e mais surpreendentes faixas do disco, deve funcionar muito bem ao vivo. No entanto, a técnica vocal de Filipe para ela nunca é suja ou relaxada, como talvez pediria o rock. Seu canto parece sempre muito controlado e planejado e, assim, mesmo numa música que permite o caos como estética, sua técnica fica tão redondinha que destoa levemente. O que faltou foi entrar de cabeça e garganta na sujeira proposta pela guitarra. Quem fez essa incursão suja muito bem foi Thiago Pethit no ótimo Rock’n’Roll Sugar Darling (2014), embora deva-se levar em conta que Pethit quer ser um bom cantor, mas não totalmente técnico e controlador como Catto.

“Adorador”, do cantor e Pedro Luís, tem um trombone malemolente anunciando o fim do disco. E aí temos, novamente, um arranjo bem-vindo, na base da música, uma tradição que não larga do pé dele e se evidencia a cada passo. Pode ser uma questão de identificação com este tipo de formato de MPB, que não chega a ser tão sofisticada quanto o jazz e nem cai no samba, mas bebe de ambas as vertentes, uma hora propondo progressões de acorde de um, pausas e cadências do outro. Filipe ainda conta com uma pegada rock and roll em alguns momentos para dar uma temperada, mas nada que afaste ou que borre as fronteiras de seu som. Maria Gadú, revelação da MPB e dono de uma interpretação tão interessante quanto a de Catto, conseguiu romper com o tradicional logo no terceiro disco de inéditas, o bonito Guelã, assumindo uma guitarra cheia de efeitos e alguns toques de eletrônico em sua lírica própria.

Tomada volta a colocar Filipe Catto no mapa da música e de uma forma positiva. Apesar das considerações, o disco é atraente e tem um repertório bem escolhido, embora curto (11 faixas e nem 40 minutos de som). A voz ainda é sua principal marca e está irretocável, mas ainda precisa desenvolver uma sonoridade que seja mais marcadamente autoral, como figuras como Céu, Mariana Aydar, Vanessa Da Mata e até Tulipa Ruiz (embora já caminhando para uma vertente bem mais pop) vem fazendo. Ou não: a assinatura sonora de Catto será esta mesma dos dois álbuns já lançados e só não reconhecemos isso de uma vez por causa do peso das referências que esse estilo suscita. Referência que ele mesmo reconhece, já que a nota oficial de divulgação do trabalho reconhece que é uma busca “dos sons e temas que o aproximaram da música lá nos primórdios”.

De qualquer modo, não se intimide. Tomada é para ser abraçado e curtido. Retrato de um artista em franco desenvolvimento.

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Letuce – Estilhaça (2015)

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Em clima de bar e de sonho, não sei se tomo Red Bull ou rivotril?

Por Lucas Scaliza

O ex-casal Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos estão em uma ascendência sonora que lembra muito a carreira de Thiago Pethit. Um primeiro disco bem folk – e no caso da Letuce, beirando o tédio muitas vezes –, e um segundo trabalho realmente vistoso. Manja Perene (2012) ia do violão/guitarra e voz até expressões musicais que lembravam muito o Mutantes. Esse alargamento das fronteiras está muito mais concreto em Estilhaça, terceiro disco que já está entre nós desde a semana passada (e você pode baixá-lo de graça no site da OneRPM, basta fazer um cadastro rápido, ou ouvir tudo pelo YouTube mesmo).

“Quero Trabalhar com Vidro” já chega dizendo que não há quase nada de duo-folk-homem-e-mulher aqui, aquela receitinha básica. É uma faixa boa, com bateria, guitarra, baixo, banda completa, alternância de dinâmicas. “Lugar para Dois” cai no indie de vez com a guitarra onipresente de Vasconcellos e o melhor verso do disco: “E toda noite eu arranco meu coração/ De manhã ele volta a crescer”. São músicas que evidenciam as camadas sonoras criadas pela dupla, um recurso que funcionou muito bem em Manja Perene. Quando entram o teclado e/ou sintetizador, as faixas ganham uma aura, que resguarda aquele feeling da loung music presente desde Plano de Fuga pra Cima dos Outros e de Mim (2009).

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Foto: Ana Alexandrino

As guitarras, contudo, estão menos etéreas e marcam uma presença maior no primeiro plano. Embora “Love is Magic” se apoie bastante na cama do teclado, na bateria e no baixo, quando a guitarra entra é para não restar dúvida de que é um rock o que a Letuce está fazendo.

“Muita Cara” é a música mais diversa do disco e uma das mais interessantes. Quase teatral, é aqui que o público se divide entre o hipster e o folk fofo. Novaes e Vasconcellos sabem mesmo trabalhar o aspecto pop bem alinhado com alguma estranheza, por menor que seja, para fazer Estilhaça ter uma identidade bem marcada. “Muralha da China” e “Todos os Lugares do Mundo” são bem mais aberta e descem mais facilmente.

Já “Aristoteles Laught” é puro suspense. De que bar ela saiu? Fiquei pensando nisso para identificar qual ambiente não só essa música, mas o álbum todo, parece evocar. Diria, então, que existe um clima de bar paulistano antes da lei que proíbe fumar em locais fechados, sabe? Menos sexy que o trabalho anterior da dupla, Estilhaça está mais ambiente para um público com uísque, cerveja Heineken e vodca com energético na mão, de madrugada, com a roupa cheirando a cigarro. Há beleza, há melancolia, há um clima meio tenso no ar. A banda não toca canções exatamente doces, porém a gente encontra alguma ternura e algum conforto, como na ótima “Muralha da China”. Aquele conforto das 4 da manhã, sabe?

“Animadinha” é a melhor definição do que é o indie na Letuce. Enquanto a bateria é bem básica (você reconhece o Rio nela facilmente), a guitarra de Vasconcellos faz arranjos que levam a música para outras paragens. O baixo aproveita a deixa e também se liberta (aliás, o baixo está ótimo em quase todas as faixas). Mas veja que em outra situação poderia ser uma música de tédio. Da forma como foi planejada, negando o que poderia ser o arranjo “natural” da música, ela ganha vida. “Arca de Noé” é outra piração que se sustenta com distorção e groove sujo.

Ao ouvir “Mergulhei de Máscara”, pensei: “cara, a voz da Letícia é perfeita para embalar fossa, principalmente se houver um dedilhado”. Em 3/4 (sim, é pra embalar fosse), a música diz que não tem frase de efeito (tem sim, “A gente não sabe de nada”) e nenhuma mirabolância (órgão com trêmolo conta?). “Todos Querem Amar” fecha o disco trazendo um pouco do rock de volta com algumas intervenções eletrônicas. Nesse ponto, o efeito do álcool já está passando e o sol já vai nascer. Hora de ir pra casa.

A bateria de Estilhaça sempre me remete a uma experiência mais brasileira. Levadas que não vejo com frequência em bandas e artistas que não sejam do Brasil. Já a guitarra e o baixo não estão comprometidos com essa brasilidade, ambos enveredando por uma experiência bem mais global. Mas essas diferenças não ficam ruins na Letuce. Fica aquele clima de sonho – às vezes de sonolência bêbada, coisas que podem ser e podem não ser. É rock ou não é? É MPB ou tá mais pra folk moderninho? Tomo Red Bull ou rivotril?

Minha dica é: se entregue ao Estilhaça e ao Letuce. É bem sinestésica a experiência. Dá para ouvir sozinho, é variado o suficiente para ser um passo à frente na carreira de Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos, mas é uma experiência diferente ouvi-lo em diferentes ambientes. Ouça, porque está valendo a pena viajar com esse disco.

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Gal Costa – Estratosférica (2015)

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Gal roqueira, Gal sintetizada, Gal cósmica: o nome dela é Gal!

Por Lucas Scaliza

Dá para dizer que a baiana Maria da Graça Costa Penna Burgos tem uma carreira irretocável? Com 50 anos de música e 36 álbuns lançados, Gal Costa de fato incorporou o tropicalismo e nunca deixou de fazer o sincretismo entre o novo e o tradicional, o formal e a experiência, o violão à João Gilberto e a guitarra à Hendrix, a orquestração e os sintetizadores.

Dentre todos os artistas que se revelaram no Brasil da década de 1960, no pós-bossa nova, apenas alguns conseguiram ficar em dia com a música que se seguiu não no Brasil, mas no mundo. Gal é uma dessas. Enquanto os Beatles mostravam musicalidade arrojada com Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1968) e Abbey Road (1969) e o Pink Floyd já tinha no currículo as pirações de The Piper At The Gates of Dawn (1967) e A Saucerful of Secrets (1968), Gal se mostrava em dia com a estética dos ingleses com os ótimos Gal e Gal Costa, ambos de 1969 e mostrando a cantora jogando a bossa nova e o samba na fumaça do psicodelismo. Isso sem falar nas experiências que já ocorriam com todo o Tropicalismo de Caetano, Gil e dos Mutantes.

gal costa

Com Estratosférica, Gal coroa toda essa carreira e continua a apostar em algo novo. Ou melhor, em muitos novos compositores que despontaram na cena nacional da última década. Gal não é uma compositora, mas sempre foi uma grande intérprete e sempre contou com ótimos times para cada álbum (sendo Caetano Veloso uma presença constante em sua discografia). Dessa vez ela gravou criações de Marcelo Camelo, Mallu Magalhães, Céu, Thalma de Freitas, Junio Barreto, Bactéria e Pupilo, Lira e uma parceria de Criolo e Milton Nascimento. Sem falar em outros que já contribuíram antes, como Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Tom Zé, João Donato e, claro, Caetano, mas dessa vez em parceria com Zeca Veloso, seu filho.

Ocorrem duas coisas: primeiro: qualquer um que revisite a discografia de Gal perceberá o quanto ela é atual e sempre propôs uma abordagem estética inquietante. Segundo: em tempos de Tame Impala, muitos jovens são capazes não só de descobrir Gal como também de se sentirem conectados a ela. Recanto (2011), seu álbum anterior de inéditas, produzido por Caetano e Kassin, por exemplo, já era algo bastante avançado para a MPB brasileira: com uma economia de sons e incursão pela eletrônica artística, parecia algo que esperaríamos de Björk – mas era de uma brasileira, já com mais de 60 anos, e aquela voz linda de sempre.

Unindo então a criação de gente jovem contemporânea à voz e à banda de uma Gal que nunca quis ficar presa a uma determinada época, temos aqui um 36º disco que continua acrescentando musicalidade e forma à carreira. Estratosférica faz Gal rejuvenescer, parecer fresca e revigorante. Não é a toa que Ava Rocha bebeu da fonte psicodélica de Gal para fazer o ótimo Ava Patrya Yndia Yracema.

E é talvez remetendo a outra juventude, a da própria baiana em 69, que o álbum abre com uma guitarra nervosa em “Sem medo nem esperança”, composição de Antônio Cícero que Gal chamou simplesmente de “fodástica”. “Jabitacá” e “Estratosférica” são quase como filhas do disco Gal Tropical (1979), com a malemolência e sons etéreos colorindo a primeira (como um céu estrelado do litoral) e a segunda toda cheia de suingue. “Ecstasy”, mais carioca, e ainda assim um timbre moderno e aveludado, mostra que as mãos dos ótimos produtores Kassin e Moreno Veloso pesaram. O que poderia ser uma bossa nova (e é, na verdade, uma bossa nova) acaba não soando tradicional. A linda “Dez Anjos” tem arranjos que fazem a orquestração e a percussão soarem profundos e viajantes. Uma das melhores faixas do álbum, uma parceria de Milton e Criolo. “Espelho D’Água”, de Marcelo e Thiago segue na mesma toada, viajamos na música a cada ciclo completo do dedilhado da guitarra.

O samba com sintetizador “Quando você olha para ela”, composição de Mallu Magalhães, é o primeiro single de Estratosférica. É uma faixa bem leve, estilo Banda do Mar, não uma faixa que manda um recado e marca uma posição, como “Sem medo nem esperança”. É tão possível imaginar a música na voz de Mallu quanto é bom percebermos que gostamos dela no disco da Gal. “Por Baixo” é uma das faixas mais interessantes, quase totalmente sintetizada e com um texto erótico. Não por acaso, é fruto de outra mente inquieta: Tom Zé. Já “Casca” tem todo o jeito de uma música da Céu, mas os autores são Jonas Sá e Alberto Continentino. “Muita Sorte” é como uma continuação de Recanto, só que mais ensolarada. E “Anuviar” trabalha as pausas como arranjos, para chegar a um refrão bastante psicodélico.

A turnê de Estratosférica ainda não tem data para começar, mas após ouvir o disco fica claro que a recriação do ambiente e dos efeitos de estúdio no palco vai ser um dos elementos que deverá chamar a atenção do público. É provável que a banda tenha que fazer várias adaptações nos arranjos.

Se em Gal Costa havia os arranjos modernos do maestro Alexandre Duprat e Gal tinha a produção lisérgica de Manuel Barenbeim – ambos de 1969 e ambos inventivos –, Recanto e Estratosférica mantém a parceria de Kassin e Caetano, conferindo a ambos os trabalhos não só o mesmo nível de criatividade lá da ponta inicial de sua carreira, mas também o mesmo senso de compasso com o mundo, incorporando elementos avançados nos arranjos da música mundial. E não se preocupe: a Maria da Graça baiana e brasileira se faz sempre presente.

Existem fãs que esperam que seus artistas sejam saudosistas de um passado já idealizado e vivem a esperar shows recheados de passado, quase como se lançar um disco novo fosse apenas uma desculpa para sair em turnê com os velhos sucessos. Gal Costa não é assim. O que ela e sua equipe cria é para ser apresentado no palco também. E fico muito feliz ao ver que, ao longo de 50 anos, ela reverencia todo o seu passado sem nunca soar saudosista, sem tentar emular o que já passou. Aos 69 anos – embora a foto da capa do disco, feita por Bob Wolfenson, a mostre bastante retocada e rejuvenescida (o que não deixa de ter a ver com o clima do trabalho) –, Gal não precisa mais do tipo de comparação que mede seus álbuns entre melhores ou não. Basta saber que o bom gosto está presente e a vontade de seguir fazendo algo diferente está viva. Assim, não vamos julgar o novo álbum em comparação com outros, mas sim no contexto de seus outros 35 discos.

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