noruega

Kvelertak – Nattesferd (2016)

Continua muito bom, mas continua sempre o mesmo som

Por Lucas Scaliza

Lá da cidade de Rogaland, na Noruega, vem a inusitada proposta de misturar o black metal com o hardcore e o rock clássico, uma salada que já ficou conhecida como crossover thrash nos arquivos da história (e rótulos) do heavy metal. Com três discos de estúdio, a banda Kvelertak é um sexteto que se mantém fiel à proposta inicial em Nattesferd.

O sexteto mostra energia de sobra e um poderio de rock’n’roll de fazer cair o queixo. Embora tenha diversos momentos mais intensos ao longo de seus álbuns, com direito até a alguns momentos de parede sonora intransponível, como é comum no metal extremo, o black metal praticamente resume-se aos vocais guturais de Erlend Hjelvik, um cara que incendeia as apresentações ao vivo do Kvelertak e já chamou a atenção de James Hetfield (vocalista e guitarrista do Metallica) e do príncipe herdeiro da coroa da Noruega.

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Com três guitarristas à disposição, não falta peso e riffs ao álbum. Mas ao contrário do que a rotulação black metal possa fazer parecer, a sonoridade do grupo não é sinistra e down como a maior parte das bandas do estilo. É mais hardcore, acelerado e animado. “Dendrofil for Yggdrasil”, que abre Nattesferd é uma perfeita combinação dos estilos: os vocais e a intensidade do black metal com as guitarras melódicas do hardcore. “1985” e “Ondskapens Galakse” são totalmente clássicas, lembrando Kiss, Alice Cooper e diversas outras bandas de metal da virada dos anos 1970 para 1980. E “Nattesferd” é divertida, criando uma vibe roqueira direta, com alguns quês de psicodelismo. De sombrio, a banda não tem nada. De violento, apenas a velocidade de algumas músicas e os vocais apimentados.

Embora tenham Vidar Landa, Bjarte Lund Rolland e Maciek Ofstad nas guitarras, em momento nenhum eles se atropelam em nenhuma das nove faixas do disco. Cada um sabe a hora de fazer riffs, solos, solos dobrados ou bases dobradas. Isso demonstra uma preocupação bem-vinda com a mixagem e com a edição de suas músicas. O baixo de Marvin Nygaard é muito bem aproveitado e não faz apenas o óbvio, ressaltando inclusive as aproximações com o blues. Kjetil Gjermundrød sabe ser veloz e destruidor quando preciso e consegue segurar a onda muito bem nas faixas menos violentas. Em faixas como “Bersrkr” ele mostra como consegue variar bem a dinâmica e acompanhar os arranjos. Na stoner “Nekrodamus”, baixo e bateria ganham maior destaque e fazem uma das melhores faixas do álbum – ainda que seja a música mais lenta e crua.

Nattesferd é tão bom quanto os dois discos anteriores dos noruegueses, Kvelertak (2010) e Meir (2013), porque as diferenças entre eles são mínimas. A proposta de “black’n’roll” é a mesma desde o princípio, fazendo com que pela terceira vez a banda repita a mesma fórmula, sem inovação, sem arriscar. A música continua ótima, mas a maturidade técnica e artística que o tempo deu ao grupo não fica evidente. Como até mesmo o black metal se renova – como mostram experiências de bandas como Deafheaven, Abbath e Rotting Christ –, parece que falta criatividade e ousadia ao trabalho.

Vale a pena conhecer e acompanhar o trabalho. Se ao menos mantiverem a qualidade e musicalidade, teremos uma banda como Motörhead no heavy metal: sempre a mesma, mas sempre instigante.

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Ulver – ATGCLVLSSCAP (2016)

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Ambiente escuro estrelado, mezzo rock mezzo eletro, experimental as fuck

Por Lucas Scaliza

Os lobos noruegueses da música experimental continuam fazendo não apenas música inclassificável, mas mudando constantemente de estilo. E se é difícil explicar o que é e o que faz o Ulver (houve uma época meio black metal, outra progressiva, o resto é difícil definir), também será difícil pronunciar (ou seria soletrar?) o nome do novo disco: ATGCLVLSSCAP (são as iniciais de cada signo do zodíaco, de Áries a Peixes).

Quase totalmente instrumental, o álbum pode ser encarado como uma peça de música ambiente, ou trilha sonora, retratando um lugar escuro, mas estrelado. Tem viagens cósmicas, como a incrível “Desert/Dawn”, e outros momentos em que o lado mais rock’n’roll da banda tem participação maior, criando um som modernoso (como em “Om Hanumate Namah”) e experimental do tipo que o The Battles faz, mezzo rock, mezzo eletro, como mostra “Cromagnosis”. Aliás, esta música, com quase 10 minutos de duração, pode muito bem funcionar como um resumo do álbum. Às abstrações soma-se a percussão tribal de Anders Møller, que depois se converte em uma série de efeitos sonoros com base mais roqueira – mas sem abrir mão das batidas étnicas.

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Fazendo um art rock de respeito, o Ulver fez da música em ATGCLVLSSCAP um amontoado de camadas e texturas. Os músicos usaram gravações ao vivo executadas em 12 cidades da Europa em fevereiro de 2014. Apesar de improvisarem, não há solos de instrumentos como no jazz ou nas passagens instrumentais de Steven Wilson, por exemplo. A estrutura musical é bastante forte, não deixando que cada um vá para onde quiser. Com as gravações da banda ao vivo (que não soam “ao vivo”, se é que me entende), o som ganhou camadas eletrônicas e sintetizadas que complementam a estética pretendida pela banda. Enquanto Tore Ylvisaker comanda os teclados, Ivar Thormodsæter senta atrás do kit de bateria e Ole Alexander Halstensgård e Kristoffer Rygg se dividem nas programações eletrônicas, Daniel O’Sullivan responde pelas guitarras e baixo e também pelo processo de unir todas as faixas ao vivo em músicas únicas e inéditas.

Todo esse processo é uma forma mais livre e radical de produzir música. O artista não sentaram para escrever a música, mas deixaram que ela fluísse e fosse criada no palco, na hora, durante os shows. Eles não tiveram 12 versões do mesmo riff para escolher, mas centenas de possibilidades diferentes criadas a cada show. É um processo de criação e produção que foge bastante ao tradicional. Para uma banda inquieta como o Ulver, é natural que tentem não apenas fazer músicas diferentes do que já fizeram, mas que também encontrem novas formas de chegar a ela e criar. (E você pensando que o Foo Fighters estava sendo inovador, hein? Tsc tsc…)

Sem rótulos para sustentar há bastante tempo, o Ulver se dá o luxo de ser diferente a cada novo trabalho e surpreender e colaborar com artistas tão diferentes quanto eles, como é o caso do Sun O))), com quem já gravaram. É como acompanhar Radiohead ou David Bowie: você nunca sabe ao certo o que esperar do próximo disco. Parte da graça de permanecer no encalço desses noruegueses é justamente se deixar levar pela experiência que propuserem. Essa experiência é sempre potencializada ao vivo, já que Seth Beaudrealt é um integrante do grupo cuja ocupação é preparar todas as projeções de vídeo no palco. Além de som experimental, o hepteto é também vanguardista nas apresentações visuais.

Há muito de transcendental em ATGCLVLSSCAP. “The Spirits That Lend Strenght Are Invisible” é praticamente uma manipulação sonora, como se um fantasma atravessasse uma paisagem industrial. “Glammer Hammer” se divide em duas partes bem distintas, a primeira se expressa com mais gentileza enquanto a segunda usa percussões tribais e guitarras bastante distorcidas, criando em si um clima parecido com o da abertura do seriado The Walking Dead. Já “Gold Beach” é tranquila, um local seguro em um disco tenso e denso.

“Nowhere (Sweet Sixteen)” cresce até se tornar uma massa sonora, mas possui vocais e, por isso, é uma música mais fácil de digerir. Um rock bastante apegado ao peso dos acordes e à expressão dos efeitos de guitarra e teclado. No final da música, o vocalista Kristoffer Rygg mantém a mesma nota da melodia de voz soando por vários segundos, até chegar ao ponto de que se torna mais uma onda sonora quase indistinta na malha de camadas da faixa. Com vocais, há também a bela “Ecclesiastes (A Vernal Catnap)”, que realmente lembra música religiosa. Mas com o Ulver nada é tão normal; então, além de piano e voz a faixa é composta por percussão africana e uma névoa grossa de efeitos climáticos.

Não tenha medo de faixas longas, pois são uma constante no trabalho. Não é a toa que trata-se de um álbum duplo. Para qualquer um que espere um disco de rock/metal ou mesmo faixas que tenham o formato canção, a dica é: não espere nada disso e encare ATGCLVLSSCAP como uma espécie de trilha sonora. O resultado é bastante positivo e moderno. Se quiser algo parecido, mais banda e menos abstrato, e ainda com conceito estético forte, indico Molok (2015), de outro grupo norueguês, o Gazpacho.

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Abbath – Abbath (2016)

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A encarnação moderna e até cativante do black metal nórdico

Por Lucas Scaliza

A Escandinávia é um celeiro de boas bandas. Sobretudo de boas bandas de metal (embora as vertentes progressivas também estejam em alta por lá). E a Noruega é um país conhecido na cena metaleira por abrigar bandas de black metal, a vertente mais extrema do heavy metal e que geralmente está associada a ideologias como ocultismo, satanismo, ódio extremo, tristeza abissal, apocalipse para ontem e também, quem diria, ecologia. No geral, é uma música pesada e destruidora que impera em álbuns do gênero, desde que o Mayhem estabeleceu as bases do estilo, mas já se vislumbra uma abertura musical para esses metaleiros.

O cantor e multi-instrumentista norueguês Olve Elkemo, conhecido como Abbath Doom Occulta, líder da banda Immortal, criou no ano passada uma banda que leva seu nome, Abbath, e cujo primeiro disco, autointitulado, traz a imagem de seu rosto, com a pintura facial que lhe é característica. Além de Abbath, a banda conta com apenas o baixista King ov Hell (ex-Gorgoroth e fundador de vários outros grupos de black metal, entre eles o God Seed). Juntos produziram um disco que carrega as principais características do som que sempre fizeram, mas também trazem flertes com sons menos extremos que dão um ar mais fresco às faixas e fazem de Abbath, no final das contas, um disco bem divertido.

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Abbath e King são bastante experientes, o suficiente para saberem como conduzir o black metal com respeito, sem perder em peso e agressividade, e incluindo elementos que farão sentido dentro do álbum. Em 2015 saudamos o New Bermuda do Deafheaven como uma das experiências sonoras de black metal mais criativas do ano justamente por mesclarem post-rock e shoegaze na sonoridade, sem medo de usar melodia e passagens bastante harmônicas. Abbath segue a mesma trilha, mas onde o Deafheaven soa transcendental, esta nova banda soa pé no chão. Se as músicas de New Bermuda tinham mais de 8 minutos cada, não chega aos 7 a maior de Abbath – o que indica que os noruegueses são mais diretos, enquanto os americanos tendem a esperar uma imersão maior do ouvinte.

“Fenrir Hunts” é a aceleradíssima porradaria do álbum, de ritmo constante e cuja distorção nunca cessa. Junto de “Oceano of Wounds” faz a dupla de músicas mais tradicionais do disco. “To War” é outra que não tenta enveredar muito por paragens exóticas e consegue se manter interessante do início ao fim, com uma abertura instrumental bastante longa. O ótimo trabalho de guitarra, baixo e bateria em “Count The Dead” faz da faixa uma das mais pulsantes e bem trabalhadas do disco.

Os vocais de Abbath Doom Occulta estão bastante previsíveis, mas sua guitarra rouba a cena em diversos momentos.

Na empolgante “Winter Bane” vemos como Abbath mostra que, além de peso, pode ser bastante divertido. A parede sonora inicial com bateria destruidora dá espaço para guitarras com jeitão de hard rock que variam a dinâmica e tornam o som menos denso. As constantes mudanças rítmicas dessa e de outras faixas colaboram para que Abbath, a banda, tenha uma sonoridade bastante aberta, às vezes flertando com o metal progressivo. Apesar do peso e dos bumbos duplos, “Ashes of the Damned” também consegue surpreender, seja com passagens de guitarras que apenas deixam os acordes soar ou com a inclusão de trompetes em momentos chaves da canção. Por conta de suas acentuações, viradas e quebras de compasso, “Root Of The Mountain” evidencia o lado prog da banda. Sem cair nas batidas destruidoras, é a composição mais lenta (e lento nesse caso corresponde aos BPMs normais das bandas de rock) e mais harmônica de Abbath. Aliás, se em algum momento você lembrar do Kiss, é porque a sonoridade desses noruegueses sabe ser divertida como a de Gene Simmons & Cia.

O som congrega o tradicional black metal com riffs e passagens mais originais, fazendo deste début não o melhor disco do estilo que você já ouviu ou ouvirá este ano (provavelmente), mas com certeza é mais uma inflexão dentro do gênero para uma sonoridade mais aberta, moderna e até mesmo cativante. Como não é um disco longo, fica ainda mais fácil apreciar essa pedrada.

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Møster! – When You Cut Into The Present (2015)

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Escandinavos fazem jazz de vanguarda cheio de ruídos, texturas e improvisos

Por Lucas Scaliza

Grande parte das bandas e artistas de jazz resenhados pelo Escuta Essa! fogem, cada um a seu modo, do que seria o padrão do estilo. Embora exista muita coisa “tradicional” ainda sendo feita, estamos tentando mapear um pouco do que há de mais diferente, inovador e até mesmo excêntrico dentro e ao redor do estilo. When You Cut Into The Present, novo disco dos noruegueses do Møster!, é a pedida da vez para quem quer ouvir um free jazz criativo, contemporâneo e extremamente contaminado pelo rock noiser e por passagens dignas de trilha sonora.

O álbum é menos viajado e tem menos experiências ruidosas do que o antecessor, Inner Earth (2014), priorizando a construção musical mais orgânica dessa vez. Mas mesmo assim, para quem não está acostumado com esse tipo de incursão na música jazz, When You Cut Into The Present soa chapadíssimo e poderoso. Outra coisa que chama a atenção é a aparente simplicidade das composições. Muito calcadas nos improvisos, as linhas de bateria e de baixo não surgem complexas e cheias de viradas típicas do jazz. Enquanto a sonoridade jazzística se mantém reconhecível, os músicos se permitem tocarem com menos complexidade e maior dinâmica.

Foto: Oddbjoern Steffensen

Foto: Oddbjoern Steffensen

“Nebula And Red Giant” abre o álbum com uma passagem digna de space rock, uma mistura de Robert Fripp com Gong, como se fosse a trilha sonora para um filme de suspense do fim da década de 1960. Leva quase 2’40” para que bateria e baixo façam a sua entrada. O sax do líder do grupo, Kjetil Møster, sola com liberdade e um tanto de psicodelia por cima de uma cozinha bem arranjada e vigorosa que não deixa espaço para mais nada até findar seus 9 minutos e meio. “Bandha” é barulhenta e tem alta voltagem, não economizando no fuzz e nos arranjos irregulares que propõe. Sobre uma base simples e bastante regular, sobra espaço para que improvisos brotem ao longo de seus 9 minutos.

“The Future Leaks Out” começa com diversos barulhinhos por cima de uma percussão bem marcada de Kenneth Kapstad. Um momento desses em Inner Earth se parecia com as longas passagens abstratas de Asunder, Sweet And Other Distress do Godspeed You! Black Emperor, mas dessa vez, apesar de toda a bagunça noisey e jazzy, percebemos uma estruturação maior da música. O que conta mesmo para esta faixa em particular e para a banda como um todo é a liberdade de interpretação que conduz a faixa até um frenesi de sopro, com direito até a distorção no baixo de Nikolai Hængsle Eilertsen, no início de seu terceiro ato.

“Journey” tem um início bastante sensual e bem mais jazzístico do que as faixas anteriores, difícil não lembrar da clássica “A Love Supreme” do mestre John Coltrane. Enquanto o saxofone executa a melodia tema da faixa, com as variações que lhe são caras, a guitarra com overdrive de Hans Magnus Ryan ao fundo complementa o arranjo com licks e belos arpejos. Dois minutos depois, o baixo inicia uma segunda fase da composição, mais calma e harmônica. O sax é usado como se fosse um teclado, criando uma cama para solos bastante eletrificados. Para Møster e sua banda não basta tocar as notas corretas: é importante criar efeitos diferenciados para elas. Em mãos mais temerárias, uma faixa como “Journey” seria mais clean, limpa e sem arestas. Mas estes noruegueses não abandonam a veia noiser e deixam sobrar distorção e eletricidade em tudo.

“Soundhouse Rumble” volta à dinâmica mais elevada da banda e ao formato jazz de “Nebula And Red Giant”, novamente soando bastante como o Gong, fechando When You Cut Into The Present com estilo e animação.

Embora ainda seja uma experiência que pode não agradar a roqueiros mais tradicionais e nem a jazzistas mais quadrados, o trabalho é o mais acessível do Møster!. Seus dois primeiros álbuns eram muito mais ruidosos do que este e exigiam uma paciência e uma entrega muito maior. O que há de novo e de positivo em When You Cut Into The Present é a forma como a música tenta envolver seu ouvinte. Ainda é um som difícil de assimilar, principalmente se você não está acostumado com o léxico do jazz ou da música instrumental de improvisação de qualquer gênero, mas se mostra muito mais redondo desta vez.

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Todos os integrantes uma hora ou outra assumiram o posto da percussão, criando uma sonoridade mais robusta para as cinco faixas. When You Cut Into The Present foi gravado na cidade norueguesa de Trodheim em um curto espaço de tempo, durante uma pausa na turnê do grupo. Consegue ser ainda mais rico em texturas do que os antecessores e, sendo também mais direto, mostra uma visceralidade estonteante. E para quem gosta de intertextualidade, o nome do disco junto de uma das faixas forma uma famosa citação do escritor beat William Burroughts: “When you cu tinto the presente the future leaks out”, uma referência à técnica de cortar palavras que o autor utilizava para prever o futuro.

Kjetil Møster, o chefe dessa gangue de jazz de vanguarda, não para nunca. Embora esta banda seja seu novo projeto principal, ele também se apresenta com o Datarock, com bandas e orquestras de improvisação, com o grupo eletrônico Röyksopp & Robin, além das bandas King Midas e Lars Vaular. Também lançou um disco com o trio húngaro Jü e um trabalho conceitual com músicos de Chicago.

Se você procura música para chamar de louca e criativa, acaba de encontrar mais um disco para sua coleção.

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Gazpacho – Molok (2015)

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Com mistura de ciência e religião, Molok tem utilização do instrumento mais antigo da humanidade e algoritmo que pode causar o fim do mundo

Por Lucas Scaliza

De Missa Atropos (2011) a Demon (2014), os noruegueses do Gazpacho pularam de um rock bastante contemplativo e com mais presença da guitarra para uma sonoridade ainda mais árida e atmosférica, com menos distorção e mais folclore. A alcunha de rock progressivo serve mais como uma forma de generalizar o que essa banda faz do que de fato informar qual é o som deles (explicação que consumiria muitas palavras, já que não é tão fácil definir). Em Molok eles fazem uma ótima ponte entre o Gazpacho roqueiro de Missa Atropos com o clima de escuridão e mística de Demon.

O som da banda nunca é apressado ou excessivamente pesado, e muda de algo doce para algo sombrio com bastante habilidade. A voz de Jan-Henrik Ohme pode não ser das mais icônicas que o rock europeu produziu, mas cai bem aos temas e ao jeito como o Gazpacho apresenta sua música. O timbre do cantor faz os versos soarem como histórias recitadas por uma pessoa muito velha e misteriosa. A ambientação folk presente em todo o trabalho completa o cenário de conto de fadas e esoterismo.

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O tema de Molok é intrincado, dá mais um romance do que um álbum, colocando religião e ciência moderna no mesmo patamar para discutir um tipo de fim do mundo. Como a própria banda explica, o disco é sobre um homem que, por volta de 1920, decide que qualquer um que esteja adorando um Deus está, de certa forma, adorando uma pedra – que pode tomar a forma de uma catedral, de Meca ou do Stonehenge. “Deus parece ter sido entalhado em pedra por seus adoradores para nunca mais retornar. Isso ecoa os mitos noruegueses em que se um troll é exposto à luz do sol, ele vira pedra, mas isso também reflete a forma como Deus tem permanecido incomunicável por tanto tempo”, comentam.

Para esclarecer um pouco mais sobre o que é Molok, o grupo disponibilizou um série de informações intrincadas. Contam, por exemplo, que o fim do trabalho contém um som estranho que gera um número aleatório cada vez que o disco for rodado em CD players. Se o número corresponder a atual posição de todos os elétrons do universo o mundo poderia, tecnicamente, ser destruído. Apesar de parecer absurdo, dizem que o Adam Washington, da Universidade de Sheffield, confirma que isso é ciência, não ficção. “O sinal aleatório produzido no fim do disco contém bits suficientes para expressar uma medida do número total de partículas fundamentais que existem no universo”, ele diz. Para resumir, o cientista sustenta que se isso acontecer, buracos negros encontrariam uma maneira de ficarem estáveis para sempre, sem precisar sugar matéria para continuarem alimentados. E isso significaria o fim prático do universo.

E o que isso tem a ver com religião ou a existência de Deus e coisas metafísicas do tipo? “Se o universo pode ser destruído por criaturas que estão dentro dele, se tudo se resume a reações químicas, então há algum valor espiritual? Nesse cenário não há bem ou mal, apenas uma ausência de significado”, a banda sustenta.

Algumas músicas são mais fáceis de descrever que outras. Com mais de 6 minutos, “Know Your Time” é uma das melhores de Molok e também uma das mais regulares. Um rock levado pelo baixo e pelo teclado, que cria toda a ambientação noturna da faixa. É um rock atmosférico e cheio de cantos escuros e se mantém assim durante toda a sua duração. A lenta “The Master’s Voice” também se apoia em um tema comum de piano que vai sendo repetido ao longo de toda a faixa. Já “Bela Kiss”, que não chega aos 3 minutos, é uma sucessão de mudanças estilísticas: começa como um folk rock em 5/4 e cai em uma música popular do leste europeu, sempre com uma pegada mais festiva do que a maioria das faixas do disco. Esse trecho em particular tem a participação de Stian Carstensen, um acordeonista da orquestra de jazz balcânico Farmers Market. “Park Bench”, que inaugura o álbum, inicia com percussão étnica e ameaçadora. Então a percussão cessa e o piano toma a dianteira da música, com um teclado variando os timbres dos arranjos que propõe. O compasso é outro elemento que não se mantém constante, mas a banda é experiente e soube costurar suas mudanças de forma a não ser perceptível e nem bruscas.

“Choir of Ancestors” e “Abc” trazem movimentos mais fluidos ao Gazpacho, onde exercitam o estilo mais característico da banda de álbuns anteriores, inclusive um lado mais iluminado da sonoridade. A bela instrumental “Algorithm” parece que volta a te jogar na escuridão. Mas tem um desenvolvimento tão vívido que soa como se saíssemos de uma caverna e chegássemos a uma clareira na floresta. “Alarm” tem teclados quentes para nos envolver e é uma das músicas mais acessíveis do trabalho. Ainda é noite em Molok, mas já nos aproximamos da alvorada. Com mais de 9 minutos, “Molok Rising” se aprofunda no mistério do disco e com um misto de modernidade e folk constrói uma faixa de suspense e de ritual. Mas se chegou até o final dela, bem, o número gerado pelo som não causou o fim do mundo, felizmente.

“Molok Rising” tem a participação do arqueólogo da música Gjemund Kolltveit que toca instrumentos da idade da pedra que ele mesmo reconstruiu para dar uma ideia de como poderiam ter soado as primeiras canções de louvor da humanidade. Esses instrumentos são feitos de pequenas pedras, mandíbulas de alces e espécies de flautas e outros instrumentos com cordas. O arqueólogo também toca a pedra de Skåra, uma pedra cantante que, acredita-se, tem sido usado desde a última era glacial, há 10 mil anos. Isso quer dizer que, provavelmente, o Gazpacho incorporou em Molok o instrumento musical mais antigo da história e que talvez nunca tenha sido gravado em um álbum.

O Gazpacho mantém seu estilão barroco, que não é virtuoso e nem deixa sobressair a complexidade das composições. Vai mesclando estilos e, embora a banda tenha seis instrumentistas e duas participações especiais, mantém seu som bem limpo, nunca sobrecarregado e nunca barulhento. O passo lento e a mística envolvendo o som que produzem ainda são suas principais características. Mas são faixas bem diferentes do que apresentaram em Demon.

Também há uma explicação científica e religiosa para o nome “Molok” adotado pelo grupo. Dizem eles que, de um ponto de vista mecanicista, todos os eventos do universo são consequência de um evento anterior, o que quer dizer que com informação suficiente deveria ser possível calcular o passado e o futuro, que é o que o protagonista da história faz. Ele cria uma máquina e a batiza de “Molok”, pois é o nome do demônio bíblico para cujas mandíbulas crianças eram jogadas em sacrifício, já que a máquina “mastiga” os números. “No dia do solstício ele liga a máquina e ela rapidamente ganha alguma forma de inteligência conforme percorre a história e sua própria evolução”, explicam.

Uma ideia recorrente no disco é a de que sem um deus para nos guiar, a humanidade não tem certeza sobre o significado da vida e que enquanto tentamos preencher o vazio com outras coisas que ainda sobre as quais não temos respostas ainda e sem um mestre em quem se escorar, nós estamos mesmo sozinhos no universo.

O conceito é pesado e as ideias que o envolvem são complicados. Mas eu garanto que a música é muito mais acessível e fluida do que parece. Um projeto curioso e excêntrico, mas que une diferentes áreas do conhecimento para fazer uma música com conteúdo não apenas em suas letras, mas cada nota, instrumento e escala melódica escolhida desempenha uma função. Quem fez um trabalho tão bom e tão etnográfico quanto este foi o guitarrista Steve Hackett (ex-Genesis) em seu último disco solo, Wolflight, que eu recomendo fortemente a quem tem interesses antropológicos e culturais mais profundos na música não erudita e não acadêmica.

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Jaga Jazzist – Starfire (2015)

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Jazz interestelar de sintetizadores da noruega

Por Lucas Scaliza

Embora eu e o Bruno Chair não tenhamos ouvido tudo o que foi lançado com o rótulo de jazz em 2015, o que ouvimos foi muito bem feito e com ideias avançadíssimas. Nenhum foi meramente uma coleção de canções do estilo, todos tinham um conceito e uma estrutura pretensiosa que quer forçar os limites do jazz e do próprio formato “álbum de jazz”, sendo o The Epic, do Kamasi Washington, o melhor exemplo disso. Mas não dá pra esquecer a falta de temas propostas pelo virtuoso Scott Henderson em Vibe Station ou do trabalho abstrato de Al Di Meola em Elysium.

Starfire, do grupo norueguês Jaga Jazzist, se destaca por ser um jazz moderno, aberto a novas sonoridades e, principalmente, muito competente na hora de unir os elementos tradicionais aos mais contemporâneos. O resultado é um tipo de jazz instrumental viajante, ácido, psicodélico e sintetizado.

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“Starfire” parece querer surfar os anéis de Saturno. “Big City Music” usa os efeitos sintetizados para criar sua melodia que nos remete a todo tipo de viagem virtual e digital. Enquanto isso, a bateria quebra os ritmos em mil pedaços, nos lembrando que a base da experiência aqui é o jazz. “Big City Music”, com 14 minutos, tem muito espaço para explorar toda a sua viagem interestelar, mas não como ficção científica mais dura e emotiva – como é a música de Interestelar – e sim como trilha de ação, quase como a de um vídeo game, sobretudo quando as vocalizações entram. Ainda assim, apesar do comprimento e da quantidade de sons envolvidos nela, não soa tão épica quanto “Starfire”. É uma questão de estrutura: a faixa inicial te acompanha por vielas escuras, com um pulso que pode enganar seu senso de andamento. A todo momento parece que vai decolar, mas pacientemente dobra esquinas e parece oferecer novas possibilidades. E quando seu trecho mais fusion aparece, não é somente um ponto de virada: há um solo de sintetizador, quase discreto, competindo com o ritmo. E quando decola, já estamos imersos em sua sonoridade.

Num disco tão espacial, o violão de “Shinkansen” surge quase que como um respiro, principalmente depois da decolagem e da aventura à deriva das duas músicas anteriores. Na primeira metade, o violão assume o papel de principal base da canção. Os efeitos eletrônicos apenas ornam a harmonia e deixam a melodia para diferentes tipos de sopro. Na segunda, voltamos a ter o jazz de sintetizadores em 7/4.

“Oban” fica também se bifurca em sua segunda metade: uma de suas melhores partes mostra uma base de violino e sopros quase melancólica. Pairando por cima disso, como um helicóptero, sons eletrônicos próximos do dubstep. Uma guinada e voltamos para o seu tema principal, um dos que menos têm a ver com jazz de Starfire. “Prungen” é mais oriental, fazendo uma troca interessante do tema espacial pelo místico. Nem quando os sintetizadores dominam a cena o clima mais oriental arrefece. Afinal, as escalas utilizadas são as mesmas que produzem os sons que identificamos como “o som do oriente”. “Shinkansen” também tem escalas orientais bem destacadas, sobretudo em sua primeira metade.

Há algumas curiosidades sobre o nome de cada música. “Starfire” tem esse nome porque começou a ser composta em uma guitarra chamada Starfire. “Big City Music” é o nome de uma loja de sintetizadores de Los Angeles onde o aparelho que deu início à faixa foi comprado. “Shinkansen” é um trem-bala japonês. “Oban” é um uísque escocês.

Starfire mostra que a Jaga Jazzist continua pretensiosa, com uma roupagem que pode desagradar inclusive o ouvinte de jazz mais tradicional. Os irmãos Lars e Martin Horntveth continuam sendo os grandes masterminds por trás do som do grupo. A instrumentação ainda é variada, usando trompetes, trombones, tuba, saxofone, clarinete, guitarra, baixo, piano, flauta, bateria, glockenspiel, marimba e vibrafone. Todos os instrumentos são tocados por um time que tem entre oito e dez músicos, quase todos multi-instrumentista. O resultado é muito parecido com o dos paulistas do Bixiga 70, mas mais puxado para o fusion e com maior intervenção eletrônica. Como já ficou claro, muitos instrumentos de cordas, teclas e sopros deram espaço para os sintetizadores dessa vez. No final das contas, os irmãos Horntveth continuam explorando a musicalidade da estrutura do jazz com um ecletismo difícil de encontrar. É mais um ótimo álbum para quem é curioso. Não é por acaso que a banda foi referência para o The Mars Volta, que fazia um rock tão variado e surtado, quanto para o Flying Lotus, que também é mestre em misturar hip hop com jazz e eletrônico.

Em um ano cheio de lançamentos com clima retrô e vintage, os noruegueses soam mais futuristas do que nunca.

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Gentle Knife – Gentle Knife (2015)

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Primeiro disco dos noruegueses aposta em harmonias bonitas, fusion e produção retrô

Por Lucas Scaliza

O grupo norueguês Gentle Knife se define como uma banda de rock progressivo com raízes no rock clássico de 1970. E mesmo que não se definissem assim, ouvindo Gentle Knife, o primeiro trabalho dos músicos, é possível perceber com exatidão e clareza que bebem na fonte do Yes e reverenciam a corte do Rei Rubro. Apesar de anunciarem que tem tentam trazer modernidade ao gênero, ela não chega perto das experiências promovidas por outros grupos noruegueses, como Ulver e Gazpacho. Pelo menos este álbum de estreia se mantém em terreno bem seguro, folk de um lado e fusion de outro.

São dez músicos ao todo. Os vocais são divididos entre Melina e Hakon, as guitarras ficam por conta de Ove Christian, o baixo é de Odd e a bateria de Ole Martin. O grupo ainda conta com a flauta de Astraea, o trompete de Pal, o sax tenor de Thomas, os sintetizadores de Eivind e todo o know how tecnológico de Brian, que opera os samples e as projeções visuais que tornam a banda visualmente atraente ao vivo. Mesmo com todo esse time, eles não tentam se atropelar. Gentle Knife é límpido, nunca ruidoso, dividindo bem a participação de cada músico, não permitindo que faixas tão bonitas se tornem uma massa sonora pesada. Nesse aspecto, são o oposto do Currents do Tame Impala, que foi gravado pelo Kevin Parker sozinho e não raro tem ao mesmo tempo mais instrumentos em execução do membros na banda.

gentle knife 2015

“Eventide” é abertura com 10 minutos, lenta e bonita, meio The Flower Kings, meio Yes. A divisão de vocais de Hakon e Melinda é muito eficiente e traz mais um ponto interessante para a musicalidade do grupo. Ambos cantam com vozes límpidas. Hakon tem todo o timbre de um vocalista de prog vintage do naipe do King Crimson; já Melinda é ótima com os tons mais altos. Na sequência, “Our Quiet Footsteps” é bem mais progressiva, mostrando maior variação dinâmica e longas passagens instrumentais. É classuda com seus 12 minutos de duração. Embora a guitarra participe mais aqui, não chega a ser agressiva. Trocas de compasso e partes bem ao gosto do prog e do jazz fazem parte da receita. O sax é abstrato e ruidoso em seu improviso, não criando um solo propriamente dito.

“Remnants of Pride” é uma faixa interessante, com mais força do que as anteriores, mas não abandona os elementos prog e fusion. São faixas assim, levemente mais caóticas e com arranjos mais abstratos, que faltaram ao Kaipa, talvez. Já “Tear Away The Cords That Bind” mantém o ritmo forte do começo ao fim, a primeira faixa mais pesada e também a composição mais linear do álbum. Bateria e baixo mantêm o ritmo marchando religiosamente, martelando bem na cabeça do tempo. Uma faixa com um jeitão bastante anos 70. O Gentle Knife reverencia os anos 60 e 70 de verdade com “Beneath The Waning Moon”. Flauta à Jethro Tull e uma bonita harmonia viajante nos teclados enquanto é possível ouvir um dedilhado de violão e longas notas de guitarra no meio da mixagem. O baixo, que é o instrumento que mais soa retrô no disco, perfaz uma boa base ao longo da balada. “The Gentle Knife” é a faixa mais acessível do trabalho e que não exige ouvido para ritmos quebrados ou riffs complexos. É também a última faixa com vocais do trabalho.

Em sua reta final, os noruegueses entrega a sua melhor música de Gentle Knife. O sintetizador que domina a introdução de “Epilogue: Locus Amoenus” (e permanece presente ao longo de toda a música) usa acordes mais tensos, digno de trilha sonora de ficção científica. Até aqui, o álbum foi bastante regular, sem muitos desvios estilísticos. Essa intro é a coisa mais diferente que a banda propôs. Aí entra um solo de violão e a coisa vai se mantendo interessante até o final de seus 8 minutos de duração. “Coda: Impetus” tem um arranjo em 7/4 que qualquer jazzista de mão cheia adoraria usar para mostrar toda a sua versatilidade. Uma boa faixa, mas talvez falte um desprendimento da técnica para deixar a música fluir mais livre, como Steven Wilson faz em sua instrumental “Sectarian”.

Gentle Knife, como é bem ao gosto dos roqueiros progressivos, é um álbum conceitual. Narra a jornada que deverá revitalizar a vida de um homem, tirando-o do tumulto da cidade, levando-o até a profundeza de uma floresta sedutora e fazendo-o dar um passo para dentro do. Como o disco não é pesado e nem vertiginoso, o tumulto da cidade não está muito bem representado nos sons que ouvimos ao longo das primeiras faixas. Já a floresta pode ser traduzida nas sensíveis vibrações de “Beneath The Waning Moon”. É provavelmente na faixa “Epilogue: Locus Amoenus” que nossa história salta para o desconhecido. É a melhor ambientação criada em Gentle Knife e realmente parece que entramos em outro reino.

De forma geral, é um disco que aposta na segurança do rock progressivo europeu. Tem a inclusão bem vinda de abstrações e passagens mais jazzísticas, mas nada que vá fazer marejar as pupilas de um apreciador de King Crimson, Frank Zappa ou Genesis. A banda ainda poderia ter ido mais fundo na experimentação e na exploração. Técnica e confiança eles mostram que têm. Os vocais funcionam, mas não são a parte mais importante do disco. É o som que conta mais pontos para o Gentle Knife. No entanto, o ímpeto de ser bonito e elegante espanta a visceralidade e é um pouco disso que sentimos falta nesse primeiro disco. No final, aí está uma banda que vale a pena conhecer e um disco que é bom. Só falta um pouco mais de força e poder de fogo, mais ou menos como os italianos do Barock Project demonstraram com Skyline.

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