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Calvin Harris – Funk Wav Bounces Vol. 1 (2017)

Um estrangeiro passeando em terras americanas

Por Gabriel Sacramento

Um novo disco do Calvin Harris é quase um megaevento que deixa pessoas de várias partes do mundo em estado de alerta. Afinal, todos querem saber o que o DJ mais bem pago da atualidade tem pra dizer com seu novo conjunto de músicas. E depois dos dois últimos discos, estádios lotados, festivais grandiosos, singles de sucesso estrondoso – como “How Deep Is Your Love” – e recordes quebrados, o artista escocês parece bem acostumado com o sucesso e todo o buzz envolvendo seu trabalho e sua vida artística. Acostumado, mas não acomodado. Pelo menos não mais.

Em seu novo álbum, Funk Wav Bounces Vol. 1, o produtor reuniu um all-star team de artistas que têm se destacado na música americana recentemente e coordenou a equipe para chegar a um álbum com influências de funk, disco e neo-soul. Sim, o cara decidiu resgatar referências de décadas passadas, o que não é de longe algo novo, mas não deixa de ser válido quando feito com honestidade e competência.

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“Slide” surge com vocais de Frank Ocean e raps do trio americano Migos. A sonoridade é bem fortemente pontuada pelo baixão firme, um Ibanez tocado pelo próprio Harris. Temos teclados para fornecer um quê de lounge à faixa também – lounge que remete instantaneamente à dobradinha D’Angelo e Maxwell – e as vozes funcionam bem dentro desse esquema sonoro. “Rollin” foi fruto da cooperação de Harris com o rapper Future e com o jovem Khalid. É uma boa faixa R&B, charmosa e elegantemente simples. “Feels” é totalmente ambientada no fim dos anos 70 e começo dos anos 80, quando as pessoas costumavam frequentar clubes e dançavam sob um globo brilhante. Nesta cantam Pharrel Williams, Katy Perry e o rapper Big Sean. “Cash Out” surge num contexto mais hip-hop clássico, com os raps de SchoolBoyQ, PARTYNEXTDOOR e DRAM. “Faking It” tem os vocais da Kehlani e é uma boa faixa que podia estar no primeiro álbum dela. Assim como “Holiday” podia estar no Bush do Snoop Dogg, que nesta destila seu flow acompanhado das melodias de John Legend. “Hearstroke” é uma das melhores faixas do ano, muito por causa da interação vocal de Ariana Grande com Pharrel Williams em um jogo suave de vozes.

Em seu novo disco, Calvin parece respeitar bastante os limites e ideais criativos de cada artista, deixando que cada convidado trazer um pouco de seu mundo e fazendo deste Vol. 1 um mergulho bem sucedido do europeu no oceano da música americana. Pode ser entendido também como uma viagem de um turista aos Estados Unidos, guiada por vários residentes do país, que em cada faixa situam o estrangeiro no que há de melhor na música negra produzida nos últimos 40 anos. Vale lembrar que Drake fez algo parecido este ano, experimentando com estilos de outros países, e se deu bem. Funk Wav Bounces teve um processo de concepção diferente dos últimos trabalhos, principalmente porque Harris ficou exclusivamente encarregado da produção, o que ajudou a  direcionar melhor o produto final. Ele também tocou uma série de instrumentos, incluindo o clássico Fender Rhodes e uma guitarra Fender Stratocaster 1965 – cruciais para que ele alcançasse esse som especialmente vintage.

Se afastando da artificialidade dos samples e sintetizadores grandiosos, Harris dá um passo um tanto arriscado rumo à expansão criativa, experimentando com música orgânica, ensolarada e com os balanços corporais que este tipo de música pode provocar. Uma ótima pedida para quem admira artistas que transcendem limites geográficos para elevar o nível de sua forma de expressão.

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Ariel Pink – Dedicated To Bobby Jameson (2017)

O pop pós-moderno de Ariel Pink tem charme particular

Por Lucas Scaliza

Não há como fugir do pós-modernismo na música quando você se propõe, como o Escuta Essa Review, a falar sobre a música que se faz hoje. É claro que sempre encontramos alguns puristas e algumas experiências de soar futurista, mas o que mais encontramos é uma música feita para o hoje que vem com aroma, sabor ou nostalgia de algo que já passou. É mais ou menos por aí mesmo: vive-se o hoje podendo usar tudo o que se tem à disposição, não importa se são canções que remetem a 1974 feitas com guitarras Fender 1969, gravadas em estúdios reformulados nos anos 90 e com uma moderna mesa de som de 2011.

Dedicated To Bobby Jameson leva a sério tudo isso e faz um pop espetacularmente vívido e feliz, soando como uma bomba temporal onde o brega e o kitsch dividem espaço com o indie sofisticado e o rock alternativo. Ariel Pink, ao que parece, tenta saturar ainda mais as cores dessa vez do que com pom pom (2014), criando um borrão musical bastante divertido e despretensioso.

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“Feels Like Heaven” talvez seja a faixa mais tradicionalmente pop do disco e não à toa é o single. Mas “Another Weekend”, que carrega um pouquinho mais na experimentação (inclusive mudando de 4/4 para ¾, além de acrescentar uma série de psicodelias), também é single do disco. “Kitchen Witch” é um desses momentos que parece que a qualquer momento descambará para um experimentalismo surreal arieliano, mas segue até o fim bastante acessível. Já “Acting” traz batidas e baixo que se adaptaria muito bem no repertório de Thundercat. Há ainda o poder anarcorroqueiro de Pink em “Time To Live” e uma série de canções psicodélicas e animadinhas, como “Dreamdate Narcissist”, “I Wanna Be Young” e a faixa-título. Mas nada se compara a abertura com “Time To Meet Your God”, faixa que parece uma releitura de algum progressivo de 1977, mas com os sons consagrados da década seguinte.

Já o Bobby Jameson a que o título se refere foi um músico real de Los Angeles que passou 35 anos recluso e, por isso, dado como morto, mas que ressurgiu na internet em 2007 após abrir um blog e um canal no YouTube para contar as tragédias de sua vida. Jameson morreu em 2015, tornando-se mais um personagem da cidade e uma lenda urbana musical. Ariel Pink ficou tão comovido com a vida e a situação do conterrâneo que sentiu a necessidade de dedicar seu próximo disco a ele.

Esse é o estilo do californiano Ariel Marcus Rosenberg desde sua estreia, juntando o que foi o pop, o que é o indie, o que pode ser o rock em uma coleção de músicas que fazem parte da cultura hipster. Pink é hipster e totalmente consciente disso. Dedicated To Bobby Jameson é uma realização não maior ou melhor do que pom pom, mas mantém o cantor e compositor na dianteira dessa intersecção do pop com o rock que é tão peculiar ao ser esquisito e comercial ao mesmo tempo. Pós-moderno, afinal.

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Capitão Nemo – Bon Voyage (2017)

Quinteto de Piracicaba (SP) aborda questões sociais atuais sem perder a fluidez do rock vintage

Por Lucas Scaliza

Em Piracicaba, cidade do interior de São Paulo onde a música sertaneja é rainha, o rock ainda é crítico. E lírico. Bruno Razera (vocal), Denis Floriano e Matheus Fagionato (guitarras), Caio Mendes (baixo) e Otavio Bacchin (batera) são a atual formação da banda Capitão Nemo. Bon Voyage, produzido por Claudio Sanchez Vicente, aposta em canções de rock que visitam décadas passadas enquanto as ideias e mensagens são reflexo atualíssimo de nossa realidade.

Embora “Palavra de Ilusão” e “Mais Valia” tenham cara de single, pois são músicas facilmente alinháveis à tradição do rock/pop brasileiro (inclua aí de Titãs a Skank), a banda Capitão Nemo mostra do que é capaz tecnicamente e criativamente a partir da terceira faixa: “Quero Sim” tem riffs à Jimmy Page, um refrão infalível e mudanças de ritmo fluidas que lembram os melhores momentos do Tianastácia. Em seguida, “Otário ou Visionário” é um passeio por tantas referências que deixo para os ouvintes pescarem o que quiserem de lá. Dá pra adiantar que a banda faz bem uma mistura de violão MPB, com acordes com crunch, ponte com acordes que dão um efeito de suspensão da gravidade e participação bem encaixada do teclado.

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Enquanto álbum de rock, Bon Voyage aposta em um meio termo sonoro: não é acelerado como o Rebel Machine (falamos dessa banda gaúcha neste podcast) e nem aposta em um som encorpadíssimo como o do Ego Kill Talent (resenhado neste podcast). A distorção existe que no disco todo, mas bastante comedida, com o knob do pedal regulado conscientemente em um grau suficiente para tocar em rádios sem assustar ninguém. Ou seja, Bon Voyage é um disco que tem sim qualidades comerciais sem precisar abrir mão da identidade roqueira.

Se a julgar pelas duas primeiras músicas do disco parecia que o quinteto piracicabano tendia para canções mais protocolares, as oito seguintes mostram que não: misturas, referências acertadas (que vão de Led Zeppelin à The Doors), técnica a serviço da musicalidade e não da exibição. Se me dissessem que “Pseudolgum Lugar” é uma composição feita entre 1967 e 1969 eu acreditaria. E a riqueza de arranjos dessas oito músicas e uma boa quantidade de solos destoam do que é feito no rock/pop atualmente, já que a maior parte das bandas de rock – ou o que sobrou delas que ainda tocam em rádios – preferem dar ênfase em suas músicas mais padrão. E o padrão já faz alguns ano é não ter solo de guitarra e nem variar muito no ritmo ou dinâmica, duas coisas que Capitão Nemo faz e eu os saúdo por isso!

Bruno Razera, cantor e principal compositor do grupo, mostra que Capitão Nemo não é uma banda apenas de entretenimento. Os temas de suas letras passam longe do amor juvenil ou da angústia mais dramática de um millennial. Vamos percebendo essa qualidade no jeito de abordar assuntos faixa após faixa, mas quando chega a balada “Joe”, rica em violões e com uma das melhores performances vocais de Bon Voyage, vemos que Razera segue uma linha de autor como a de Nando Reis, do tipo que te fisga com versos certeiros e desenvolve uma história com a qual fica difícil não se envolver caso você preste atenção no que está sendo dito. Dá até para descer até o Rio Grande do Sul e encontrar uma intenção parecida com a de Humberto Gessinger em músicas que refletem sobre nossa injusta sociedade.

O teclado não é onipresente, porém é notável quando aparece. Em “Minha Pequena” ele não só consegue algum protagonismo como também exibe um timbre vintage oitentista que remete mais à MPB do período do que propriamente ao rock. Já “Dama de Vermelho” é a composição mais suja do disco, com riffs carregados de fuzz e pegada roqueira clássica.

Bon Voyage é um ótimo primeiro álbum. Preocupado com as letras e com os arranjos, não deixa de ser rock ao mesmo tempo em que deixa claro que tem mais que rock no seu mix de referências. Numa época de golpes políticos e notícias reais que parecem fictícias, Capitão Nemo faz uma viagem pra psedolgum lugar e espera que você enxergue o que está a sua volta de forma mais crítica, que tenha empatia pelos Joe que encontrar no caminho e que, acima de tudo, não perca a esperança e nem a vontade de viver.

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HAIM – Something To Tell You (2017)

Sound City sem as carreiras de cocaína

Por Eder Albergoni

Imagine o pop de FM verdadeiramente conflitante, indo além de briguinhas de ego e declarações infantis de suas estrelas principais, sobre relações amorosas fracassadas ou amizades falsas e aproveitadoras. A óbvia contradição nos impede o exercício pleno. É preciso recorrer a referências mais antigas, algo que foge das notícias de fofoca em sites de internet. O pop em questão, que se fortalecia em quebrar padrões e subir a barrinha da relevância para marcas maiores que o clichê de fãs ensandecidas que não deixavam jovens ingleses com ridículos cortes de cabelo cantarem direito suas musiquinhas, tinha
roupagem rock, descolada e um representante perfeitamente estabelecido em nossa visão. Rumours, lançado pelo Fleetwood Mac em 1977, é nosso objeto de comparação, desejo e conflitos latentes.

Hoje já não é preciso chocar a sociedade profanando o sagrado com modelitos provocantes, nem conceber discos com letras censuradas por conter palavrões ou insinuações sexuais, e muito menos sofrer de uma doença que muda a cor da sua pele.
Bandas e artistas fizeram, ao longo do tempo, discos repletos de drogas, sexo e postura moralmente questionável, segundo certos preceitos adquiridos em momentos de conservadorismo mais evidentes. Mas isso tudo é chover no molhado. O pop em si era sinônimo de qualquer coisa abaixo da média estabelecida como padrão e geralmente tido como certificado de qualidade. O pop combatia isso. Primeiro contestando em sua vertente punk e aumentando o espectro da atitude rock’n’roll. Depois afirmando movimentos de contracultura e grupos de minorias. O Fleetwood Mac transitava por tudo isso, e mais ainda quando criou Rumours.

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Acontece que o pop se atualizou e existem tantas ramificações sonoras que é impossível classificar bandas, artistas e estilos em nomenclaturas, mesmo que isso as identifique como tais representantes daquilo que servem em seus cardápios musicais. Aquilo: passamos a consumir música. Estamos menos empenhados em sentir o que ouvimos, pra elencar a quantidade do que ouvimos. Só que certos momentos nos puxam de volta à história. A música como era nas entranhas, na pretensão de transcender a física e as leis
divinas, na emergência demorada de experimentar uma obra específica como se fosse o elemento necessário e único pra garantir a sobrevivência humana. Rumours era sobre altos e baixos da vida.

A gente já concluiu de régua passada que nada mais pode ser clássico, ou ter vida longa, nesse modelo de consumo onde discos são lançados de semana em semana como filmes que lotam salas ao redor do mundo tão somente pra bater recordes de bilheteria. Eis que um sopro, um frescor, uma fagulha, uma palma no meio da multidão, um grito na cara de qualquer imbecil nasce. Nós esperávamos, sabíamos de onde viria e… voilà! A expectativa bem-sucedida desses nossos tempos nos brinda com um disco que é muito mais que só outro bom lançamento totalmente substituível na semana que vem.

Something To Tell You tem 100% de Rumours em seu DNA. Recorre intimamente às soluções sonoras e tenta ao máximo reproduzir, não imitar, os feitos técnicos. O disco é a soma dos quatro anos de experiência desde Days Are Gone (2013) com a empreitada da produção dividida, aspecto que parece ter virado o mais usual no que de mais contemporâneo existe nesse ramo. É preciso lembrar o que o disco do Fleetwood Mac significou na história da produção sonora. Gravado em vários estúdios, mas finalizado no lendário Sound City, se tornou um marco e direcionou a arte pra novos rumos, ideias e soluções pra usar tecnologias emergentes.

Mas o componente mais importante nunca deixou de ser o conflito entre a banda e o mundo. Neste segundo álbum, as Haim mostram maturidade, palavra que não pode ser outra pra definir a relação com o presente, e fogem de qualquer coisa que as aproximem de seus pares. Nada em Something To Tell You é banal. Nem imprime  formas polêmicas com o intuito de criar interesse. Argumento nenhum é desperdiçado. Nenhum discurso é inflamado. E mesmo assim o disco desenha o tempo a que pertence, ainda que “Nothing’s Wrong” nos confirme a comparação descarada com Rumours.

A fórmula usada em Days Are Gone aparece como recurso, nunca como repetição. Há uma evolução muito clara, tanto no aspecto musical (ouça “Kept Me Crying”. Danielle Haim empunhando a guitarra nos faz pensar em coisas pouco ortodoxas e suscitar o profano sobre o sagrado), quanto no aspecto pessoal. Porque tudo parece bem resolvido, ensolarado e aparado, há uma alegria desconcertante em seus shows e apresentações, e nada disso parece pop o suficiente para ser estragado. A principal virtude de Something To Tell You é replicar conflitos atuais, mesmo que pareçam menos importantes, sobre a alma de um disco de 1977 e conseguir ser um disco livre e completamente independente de datas. Um disco de, e para, todos os tempos.

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Lindsey Buckingham & Christine McVie -Lindsey Buckingham Christine McVie (2017)

Gravado pelo Fleetwood Mac, mas não é Fleetwood Mac

Por Gabriel Sacramento

Poucas bandas conseguiram uma proeza tão notável quanto o Fleetwood Mac em seus dias mais gloriosos: explorar a fronteira – se é que realmente existe – entre o pop e o rock, em uma época que a referência de pop era o ABBA e a referência de rock, o Led Zeppelin. O grupo parece ter a fórmula para canções irresistíveis e enxutas no seu esqueleto, sendo merecidamente uma das bandas mais importantes da história.

O disco em pauta neste texto foi gravado por 4/5 do Fleetwood Mac atual, mas saiu como uma parceria do vocalista/guitarrista Lindsey Buckingham e Christine McVie – que lembra muito a ideia da parceria Buckingham Nicks, do guitarrista com a outra voz feminina famosa do grupo antes de ingressarem na banda. Buckingham e McVie eram membros ativos e importantes compositores do Mac, que juntos já eternizaram hits como “Don’t Stop”, do Rumors (1977). Lindsey Buckinham Christine McVie marca a volta da cooperação criativa dos dois, depois de um tempo separados. Também é o primeiro disco de inéditas da galera toda junta, menos a Stevie Nicks, em anos.

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Como o disco foi gravado pela mesmíssima cozinha rítmica/harmônica e parte das vozes do Fleetwood Mac, é quase impossível que não soe realmente como algo que o grupo faria. Aqui a leveza sônica joga a favor do grupo em canções como “On With the Show”, cantada pelo Buckingham. A faixa é bem tranquila e caracterizada pela marcação pontual dos acordes pelo baixo. A contemplativa “Carnaval Begin” é uma canção que mesmo despida de maquiagem e excessos, soa completa e bela. O teclado de Christine chama a atenção pelas melodias que servem completamente à música e ainda conversam bem com parte rítmica. O dedilhado típico e singular de Buckingham rouba a cena em “Love is Here To Stay”, uma canção bem simples também e igualmente bela. “Too Far Gone” tem uma veia mais roqueira, com um jogo sensacional de vozes e a bateria sendo usada como recurso criativo, diferente da função típica de marcação de ritmo, como o Mick Fleetwood já tinha feito em ocasiões como na clássica “Go Your Own Way”, de 1977. Temos três faixas especiais com cara de hit: “Sleeping Around the Corner” – com um refrão chiclete e um instrumental ousado -, a tropical “Feel About You”, com suas influências de doo-wop e “In My World”, com um arranjo sofisticado e refrão inesquecível, que parece alguma coisa criada originalmente para o ABBA.

Quando perguntado sobre suas influências musicais e seu estilo de tocar, Buckingham afirmou que não gosta do estilo de Eddie Van Halen, por exemplo, pois prefere guitarristas que toquem para a música e não somente para se destacarem individualmente. Essa visão com certeza guiou o músico na sua carreira e o levou a desenvolver essa fórmula de criar e produzir hits, em que todas as partes cooperam decisivamente para um todo forte. O resultado são faixas imbatíveis em termos de sensibilidade e apelo pop, mas não soando necessariamente descartável para ouvintes mais exigentes. Outra banda que também dominou esse modus operandi foi o Steely Dan, por exemplo.

Seu novo disco com a McVie segue esse modus. Como sempre, sobra capacidade de entrar e sair pelo rock e pop, com foco na força das faixas, no quanto soam agradáveis e marcantes para o ouvinte médio/fácil, sem se preocupar em se prender a gêneros ou idéias padronizadas. Um álbum que proporciona uma tranquila viagem pelo mundo das ideias sonoras, cheia de conforto e segurança. Esse disco vai te fazer querer ouvir Fleetwood Mac de novo e respeitar ainda mais esse grupo sensacional, que é tão seminal para a música pop.

E fica cada vez mais fácil acreditar que quando esse pessoal se junta não tem como sair algo ruim.

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Katy Perry – Witness (2017)

Cantora deixa a adolescência musical, mas falta carisma ao novo disco

Por Lucas Scaliza

Por essa eu não esperava. Após me submeter a sucessivas audições de Witness, em diferentes dias, locais e contextos, minhas reações às novas músicas de Katy Perry foram quase nulas. Me senti apático na maior parte do tempo. Logo eu, que me entreguei à experiência após curtir a música e a letra de “Chained To The Rhythm” (que discutimos no podcast). Logo ela, tão dada a fazer músicas chicletes e poderosas.

É fácil notar o que aconteceu. Katy Perry trocou o ultrapop pelo pop. Músicas muito mais contidas e muito menos catchy é o que encontramos em 80% do álbum. A própria “Witness”, que deveria abrir o disco com os dois pés no peito do ouvinte, não conquista e fica a impressão de que ela quis soar mais adulta, deixando para depois a tarefa de fisgar a audiência. Mas são pouquíssimos os momentos em que nos sentimos engajados pela cantora.

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Katy Perry é amplamente conhecida por transformar seus álbuns, clipes e shows em enormes parques de diversão, construindo uma Disney própria em que um pouco de libido é permitida, mas sem perder de vista a fofura de unicórnios e sereias da moda. Witness não compactua bem com isso. Por um lado, seu pop ainda é acessível e tornou-se mais maduro, ainda confiando no trabalho de produção eletrônica (com influências de house noventista, R&B, EDM topzera) e em algumas levadas orgânicas bem sacadas. De outro, falta o carisma que ela esbanjava em Teenage Dream (2010) e até em Prism (2013) e possui linhas vocais exigentes que nunca sabemos ao certo se ela realmente consegue reproduzir sozinha em cima do palco.

“Hey Hey Hey”, coescrita pela Sia e com backing vocals da norueguesa Astrid S, tem a pretensão de ser um hino ao empoderamento feminino. Já “Swish Swish”, com participação de Nick Minaj, é um morteiro que mira cabeça de trolls e haters. O texto de “Power” procura dar força às mulheres para que saiam da sombra de homens que não as deixam mostrar a capacidade que têm. “Chained To The Rhythm”, a mais poderosa do repertório do álbum, é um retrato bem feito de nosso mundo. Claramente inspirada no governo Trump e em sua retórica da pós-verdade, é a canção que mais se aproxima do ultrapop de outrora e se aproveita de um rap bem feito de Skip Marley, neto de Bob Marley. E “Bigger Than Me” foi inspirada na derrota presidencial de Hilary Clinton.

Em um universo de 17 canções, são essas que vêm com alguma carga política ou procurando a lacração de alguma forma. Ainda temos “Tsunami” e “Bon Appetit”, ambas sobre sexo e a forever teenage “Act My Age”. O restante são canções sobre relacionamentos passados e questões pessoais. É ótimo que os temas de Perry tenham ampliado horizontes, mas Witness está longe de ser um disco crítico (e estiloso) como Humanz, do Gorillaz, ou o álbum pop engajado do ano. E mesmo quanto às questões pessoais, está um degrau abaixo de Melodrama, da amiga Lorde.

No cerne dos acertos e erros do álbum está o compositor e produtor Ali Payami, sueco e descendente dos persas iranianos que já trabalhou com The Weeknd, Tove Lo, Ellie Goulding, Taylor Swift e Ariane Grande. Ele produziu, tocou praticamente todos os instrumentos do disco e fez as programações. Se gostar do resultado final, faça uma reverência a ele. Se, como eu, achar que faltou construir pontes mais carismáticas com o ouvinte, culpe a ele também. Em discos assim, que contam com uma equipe de compositores e arranjadores, Katheryn Hudson não pode ser responsabilizada sozinha.

Witness mostra que Katy Perry chegou a maturidade, sim, e que pode começar a trilhar uma nova fase. Embora um orgasmo possa ser comparado a um tsunami, não dá para dizer que se este álbum “chegue lá” tão bem. De fato, ao terminar, a gente quer logo olhar o que mais há por aí e não sentimos tanta vontade de repetir a dose. Você queria o tsunami, mas só levou uma brisa.

A Banda Mais Bonita da Cidade – De Cima do Mundo Eu Vi O Tempo (2017)

Banda paranaense volta aos trilhos com 3º disco que faz jus ao que se espera dela

Por Eder Albergoni

É impossível não começar esse texto com uma sincera e feli afirmação: A Banda Mais Bonita da Cidade conseguiu! De Cima do Mundo Eu Vi O Tempo é um trabalho que faz jus ao que se espera daquela banda que lançou “Oração” em maio de 2011. Não que tivéssemos ficado cobrando isso da banda por todo esse tempo. Pelo contrário. Para alguns, a Banda Mais Bonita tinha até acabado. “Oração” levou o grupo a um lugar ao qual eles não pertenciam. E após vagarem pelo espaço/ limbo em O Mais Feliz da Vida (2013), estão finalmente no lugar feito especialmente pra eles.

De Cima do Mundo… é um disco de intérprete, desses que seria mais comum ser concebido por um cantor performático ou por uma cantora em ascensão na carreira. O conforto é tão grande que A Banda Mais Bonita se permite contrariar um movimento que poderia ser entendido como arriscado e desnecessário, e que, frente ao resultado, se torna belo e requintado. A grande maioria das músicas não são inéditas, mas sim versões de músicas mais escondidas do grande público, compostas e lançadas por gente como Ian Ramil, Alexandre França, Tibério Azul, Los Porongas e Maurício Pereira.

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“Inverno”, “Eu e o Dela” e “Suvenir” tecem uma rede que explica a sonoridade e o tema geral do disco. Não há modo de espera, a produção ágil e sem frescuras de Vinícius Nisi deixa os dramas à vista logo de cara. “A Pé” é o primeiro grande momento do álbum, com um duo de Uyara Torrente e Thiago Ramalho absolutamente esmagador de tão bonito. O refrão faz referência ao tempo e o poder que ele tem sobre o esquecimento. É a preparação ideal para a música seguinte.

Lançada originalmente por Maurício Pereira (Os Mulheres Negras, junto com André Abujamra) em seu disco Pra Marte de 2007, “Trovoa” é um poema realizando uma crônica urbana, ou “um poema lírico que se mostra a coisa mais lógica”, onde a vida é captada por quadros peculiares em momentos quase banais, ou ainda frames mais contemplativos. Tudo faz sentido quando chega o ápice: “Se você for embora eu vou virar mendigo”. Se “Trovoa” já tinha um lugar garantido no panteão das canções populares brasileiras, essa interpretação da Banda Mais Bonita não só confirma o lugar cativo, como também refaz a relevância da banda no cenário musical do país. “Trovoa” exalta o amor de uma maneira nada óbvia e termina como o relaxamento depois do orgasmo, com um magnífico e cortante solo de guitarra de Felipe Ayres (guitarrista do ruído/mm, que participa do disco inteiro). Se, com Maurício Pereira, a faixa já era um trovão, com a Banda Mais Bonita também é o relâmpago.

 

 

“A Geada” e “Bandarra” continuam arrematando a rede construída de tecidos sonoros, com imagens que ilustram viagens sem relógio, preenchendo um universo alternativo e mais provocativo do que o que era frequente. E cabe a “A Dois” o momento mais singelo do disco. Com quase tudo pronto, esse duo (agora Uyara com Marano, o baixista da banda),  tira a Banda Mais Bonita do buraco do “quase”, onde se meteram lá em O Mais Feliz da Vida. Nada naquele disco vai adiante, parecendo fadado à sensação de que algo fica engasgado e não sai. Aqui, “Tempo” talvez tenha alguma similaridade. Fosse uma música do disco anterior, seria um grito ensurdecedor. Mas sábio como e Tempo é, ele prefere apenas assinar o que se vê no Em Cima do Mundo.

“Oração” foi cruel e suprimiu o poder de outras músicas tão boas ou melhores que existiam no primeiro disco. Por consequência, já que ninguém escapa da síndrome do segundo disco que se resume em valer o pouco que havia sido feito, restou o espaço/ limbo em O Mais Feliz da Vida. Em Cima do Mundo conserta esse defeito e mostra como a Banda Mais Bonita da Cidade poderia hoje ter uma discografia mais concisa e coerente. Se esse não chega a ser o caso, Em Cima do Mundo Eu Vi O Tempo é o disco do agora, o tempo é relativo e o passado não existe.

 

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